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Jornal da Filosofia nº 1. Agosto/2012

a Ditadura

e a USP

entrevista com o Fórum Aberto pela Democratização da USP: “A universidade foi um foco privilegiado de repressão e de resistência durante o período autoritário”. pg.8

movimento estudantil congresso dos estudantes “Lembrem-se do que um velho sábio disse há alguns dias ou séculos: O problema de quem não gosta de política é que, no fim, é governado por quem gosta demais”. pg. 4.

acadêmico e artes “Da Impossibilidade de Heideggerianismo Autêntico no Brasil”, por Gabriel Philipson. pg. 10 “Os Selvagens são Felizes?”, de Pierre Clastes, traduzido por Juliano Bonamigo. pg. 11 “Dois Dedos Enforcados de Prosa”, por Caio Sarack. pg. 12

e mais:

literatura, movimentos sociais, poesia, sexualidade, crônicas. confira sumário na página seguinte

“Este Jornal pretende acompanh­ar as discussões, apresentar os temas e os diferentes posicionamentos sobre eles. Eis porque é tão importante a sua participação na construção do que aqui se veicu­la. Lembramos que a comissão que organiza o Jornal é aberta.” [editorial. pg.2]

O nome definitivo do jornal será escolhido em 5 de setembro. Participe da reunião!


editorial. 2

pelo confronto de ideias Editorial

Expediente André Paes André Scholz

Novo semestre, novas matérias e, no entanto, velhas questões permanecem para serem discutidas. Quais são os temas que prometem pautar as discussões neste semestre? Questão de espaço, XI Congresso dos estudantes da USP, estatuto e regimento disciplinar da USP, Comissão da verdade na USP, processos contra estudantes e funcionários, Rodas, eleições municipais etc.

Caio Sarack

Alguns destes temas se apresentam de maneira mais imediata a nossa realidade de estudantes. Outros parecem mais distantes, porém, se vistos com atenção, percebe-se que há relações diretas entre eles e o nosso cotidiano na universidade.

Lucas Paolo

Dadas as inúmeras perspectivas sobre tais temas advêm as controvérsias e, sobre elas, é claro que não existe nenhuma resolução óbvia. Uns pensam assim, outros assado e outros ainda cozido. Mas é do confronto de ideias que se enxergam outros ângulos das questões e se forma uma opinião mais sólida e mais capaz de oferecer saídas do emaranhado em que estamos. Este Jornal pretende acompanhar as discussões, apresentar os temas e os diferentes posicionamentos sobre eles. É claro que isto será feito dentro das condições de possibilidade deste Jornal e daqueles que colaboram com ele. Eis porque é tão importante a sua participação na construção do que aqui se veicula. Lembramos que a comissão que organiza o Jornal é aberta. A primeira edição do Jornal, apesar de ter saído em meados de junho, obteve uma boa circulação. Elogios e críticas chegaram, não por vias formais, mas através das conversas de corredor. Estamos atentos e ansiosos pelo feedback deste Jornal, pois é neste semestre que ele pode engatar e, oferecer um reflexo, ainda que restrito, dos estudantes deste curso. Esperamos que vocês aproveitem esta edição e lembrem-se de participar da escolha do nome do nosso Jornal. Bom semestre a todos!

Duanne Ribeiro Gabriel Philipson Inauê Taiguara Ivan Nizer Juliano Bonamigo Mariana Luppi Monica Marques Marcelo Soares Thiago Fonseca

Envie seu texto! A produção do jornal está aberta a todos os alunos da Filosofia. As discussões são presenciais e online. Para participar, se inscreva no grupo:

http://bit.ly/jornaldafilosofia Ou envie um email para com o assunto Jornal.

uspcaf@gmail.com,

Outro fórum de discussão na internet é a página do curso no Facebook:

facebook.com/groups/filosofiausp

Agradecimentos a Johannes Gutenberg; ao CAF; à Comunicação Social da FFLCH ao Fórum Aberto pela Democratização da USP


editorial. 3

Índice coluna do caf...................................................4 por Gestão Cafcofonia universidade e política qual é o papel das instituições estudantis?.................................5 André Scholz organizados e independentes, ou um pouco antes.........................................6 Marcelo Soares entrevista.........................................................8 Fórum Aberto pela Democratização da USP

me perdi Ivan Nizer que tal, uma rapidinha? R,eg# experiência esquizofrênica nº3 Monica Marques cartesiana Duanne Ribeiro rodapé Cruzadinhas...................................................24

Escolha o nome do jornal! reunião de decisão: 5 de setembro

comentário haverá uma votação prévia por enquete online e urna que vivam os fantasmas de nossas ditaduras!....................................11 física para selecionar as melhores opções. Lucas Paolo Vilalta movimento estudantil sobre o espaço estudantil, ou: eu não me importo com esse debate............12 Murilo Magalhães movimentos sociais com a palavra, as vadias..............................13 Mariana Luppi acadêmico da impossibilidade de heideggerianismo autêntico no Brasil........14 Gabriel Philipson tradução “os selvagens são felizes?”, de Pierre Clastres..........................................16 Juliano Bonamigo Profanação de André Breton.............................................17 Diego Rosa e Larissa Barcellos conto dois dedos enforcados de prosa.................18 Caio Sarack crônica beleza, machismo e erotismo......................20 André Scholz brasil, um país de zés...................................21 Ivan Nizer brasil de zé, joão e josué..............................21 Victor Fiori

O Estado das Coisas Dissensso A Gazeta Dialética O Discurso sem Método - Um jornal a serviço da dúvida O Martelo Ágora Mil Platôs A Era Cafolha Ensaios Pré-Socrático - Um Jornal de Aforismas O Processo DesCurso O Mundo-da-Vida - O jornal que nem a ciência explica Res Extensa Correio das Essências Tribuna da Multiplicidade Jornal do Númeno - O diário da Coisa em Si O inominável Jornal sem nome Jornal da Filó

Agenda 23 e 26/08 - XI Congresso dos Estudantes da USP 23/08 - Congregação da FFLCH vai decidir casos de reprovados na matéria minitrada pelo professor Carlos Alberto, no segundo semestre de 2011. 27/08 - ato dos 33 anos da Lei da Anistia, na Poli, às 17h30. 3 a 8/09 - Semana da Pátria. Não haverá aula.

resenha Carta Branca, de Juliana Bernardo.............22 André Paes Leme

17 a 21/09 - Colóquio internacional Rousseau 300 anos Comemo­ração do tricentenário do nascimento de J. J. Rousseau.

poesia.............................................................23

28/09 - Data máxima para trancamento de matrícula em disciplinas.


coluna do CAF. 4

do Congresso Entre os dias 23 e 26 de agosto ocorrerá o XI Congresso dos Estudantes da USP, e desejamos, com este texto, chamar a atenção a sua importância. No entanto, nos recusamos a cair no tom militantesco afirmando que ele “estabelece uma plataforma de ação política para os próximos dois anos” ou que “é um momento de debates amplos e qualificados sobre as pautas históricas do movimento”. Ele foi inicialmente planejado de forma conturbada, com pouca preparação nos cursos e por parte dos centros acadêmicos. Foi aprovada a proposta do DCE com pouca possibilidade de discussão sobre, por exemplo, a data (três semanas depois das férias) e a estrutura de mesas (que não existiram no congresso anterior, Há algo que se pode mudar, mesmo que o campo de ação seja limitado havendo mais tempo para os grupos de discussão). Apesar disso, devemos trabalhar agora com congresso será um espaço decisivo porque nele se delibera o que temos e com o que podemos fazer disso. sobre o estatuto do DCE e dos fóruns do movimento. São Os dois temas centrais do congresso serão democracia exemplos das questões mais polêmicas: na USP e movimento estudantil. No primeiro, estão concentradas tanto críticas à atuação da reitoria e - Quórum das assembleias gerais; do governo quanto propostas para uma verdadeira - Duração da gestão de DCE (em outras palavras: a atual democratização da USP, passando pelo projeto de gestão, eleita em março, durará um ano, como reza o uma estatuinte. O congresso terá o papel de condensar estatuto, ou haverá eleição no final desse ano?); opiniões e apontar as principais frentes de ação, de forma que possamos ser cada vez menos meramente reativos - Majoritariedade ou proporcionalidade da gestão de DCE; ao que nos acontece. A campanha por uma Comissão da ou até existência de segundo turno na eleição para DCE; Verdade da USP, por exemplo, deve ganhar ainda mais força nesse momento, se espalhando por mais cursos e É evidente que o congresso não é o único espaço de campi. No entanto, as discussões sobre concepção de discussão dessas questões. Ou melhor, ele deveria ser, na universidade tendem apenas a esboçar uma posição verdade, um espaço de conclusão sobre essas questões que política comum aos estudantes, mas não significam um supostamente vêm sendo discutidas. Parar correr atrás de verdadeiro acordo de ação em unidade. tempo perdido, organizaremos dois encontros sobre esses dois eixos do congresso, a fim de engajar mais estudantes É nas discussões do segundo ponto que temos mais na construção de uma chapa da Filosofia para o congresso. chance de marcarmos posição e expressar nosso descontentamento com o que vem acontecendo. No A política na USP é muito problemática? Talvez fosse semestre passado, os problemas dos métodos do melhor usar o termo “política” entre aspas? Estamos movimento estudantil estavam claros em falas de nossas abertos a essas colocações, mas acreditamos que, por assembleias e nos momentos de paralisações de aula. pior que seja nossa situação, ainda há algo que pode ser “Que direito eles têm de parar nossa aula?” “Qual é a mudado, mesmo que nosso campo de ação seja limitado. legitimidade de uma assembleia?” “O estabelecimento Pois se lembrem do que um velho sábio disse há alguns dias de um quórum é suficiente para determinar quantas ou séculos: “O problema de quem não gosta de política é pessoas são necessárias para se representar um curso?” O que, no fim, é governado por quem gosta demais”. ϕ


universidade e política. 5

qual é o papel das

instituições estudantis? André Scholz Existem pelo menos duas respostas gerais formuladas pelos estudantes da USP para a questão. A primeira resposta é aquela que confere às instituições um lugar menor do que o que elas merecem, pois no seu entender elas deveriam fazer menos do que poderiam. Trata-se da posição minoritária, porém cada vez mais expressiva, que defende que as instituições estudantis fiquem restritas à mera representação discente. Seria sua função elaborar plebiscitos para consultar a “vontade geral” dos estudantes. E ainda com uma importante ressalva: as questões propostas para consulta devem ser apenas relacionadas ao âmbito acadêmico. Seria tarefa das instituições manifestar a vontade estudantil e negociar pelo estabelecimento de suas decisões, ou pelo menos a consideração de sua manifestação. A inocência (ou canalhice) política dessa posição é imensa. Para começar ignoram problemas de princípio: quem formularia as questões, quais seriam aceitas ou postas de lado e, principalmente, de que serve uma posição plebiscitária sobre qualquer tema. (Cabe perguntar: se o plebiscito decidir algo e a reitoria fizer o contrário, o que farão?). Estão certos, por um lado, de perceberem e apontarem certa crise das instituições estudantis, mas absolutamente equivocados de sustentarem a premissa segundo a qual o estabelecimento de plebiscitos sanaria a crise. Equívoco sobretudo porque não se trata (somente) de uma crise de representatividade, mas de uma crise de legalidade e legitimidade. A segunda posição é aquela inversa: confere às instituições um poder de fazer mais do que realmente podem. Parece ser a posição geral que predomina o movimento estudantil. Orientada por uma suposta auto-organização, não costuma desenvolver nenhum tipo de análise profunda ou questionamento estratégico antes de organizar atividades “de luta”. Quando é útil, os números são invocados (maioria estudantil, maior quórum na eleição para o DCE em anos, etc.); quando não é, dizem-se contra o modelo de representatividade (a eleição com baixa participação é melhor que um plebiscito que supostamente atingisse todos os estudantes, etc.). Os incontáveis atos e manifestações podem ir desde o apoio ao Irã na luta contra Israel até a organização de congressos para decidirem pelo fim do capitalismo, passando é claro pela sempiterna exigência de “diretas para reitor”. Costumam criticar a proposta de plebiscitos sob a acusação de que a opinião deve ser

Há um clima de despolitização e uma incomunicabilidade entre os estudantes. Se você é contra, não é da minha turma: debates e dissonâncias não são toleráveis. O consenso nunca é construído debatida para ser representativa. Talvez tenham razão. Mas é razoável supor que uma assembleia de uma hora e meia possa esclarecer definitivamente os seus integrantes (e, além deles, os que dela não participaram)? É razoável supor que uma assembleia não deva ter limites (tanto temporais como decisórios)? Pois são essas suposições delirantes que levam a mais outra crise corrente do movimento estudantil: a crise de legalidade. Por que invadir (sic) a reitoria? Se (hipoteticamente) o diálogo fosse exaurido e medidas drásticas fossem necessárias, não seria adequado em um Estado Democrático de Direito ocupar um prédio? Pois para ocupar um prédio pode-se entrar durante o dia (sem máscaras) e se recusar a sair (sem depredar nada), para permanecer lá até que (e somente até que) o diálogo seja reestabelecido. Em meio a uma crise de representatividade e legalidade, que legitimidade resta às instituições estudantis? Há um clima de despolitização e uma incomunicabilidade entre os estudantes (apenas entre nós?). Cada qual discute com as suas próprias categorias e ninguém utiliza categorias que não as suas próprias. Diálogos e consensos foram abandonados. Se você é contra, não é da minha turma: debates e dissonâncias não são toleráveis. O consenso nunca é construído, e sua inexistência estratifica turmas, cada qual se pautando por ações “de luta” para repudiar medidas e exigir mudanças (naquilo que lhes concerne). Não quero aprofundar numa análise de conjuntura (até porque cabe pensar se essas crises são uspianas ou sociais), mas apenas esboçar um pano de fundo geral a fim de retornar à primeira questão: qual o papel das instituições estudantis? Questão absolutamente necessária, considerando a deriva em que elas se encontram atualmente. Parece-me que seria adequado supor que as instituições estudantis não devem se pautar pela representação da vontade estudantil, mas pela formação desta vontade. Pelo simples motivo de que o que se busca na universidade não continua na próxima página >>


universidade e política. 6 é representar-se, mas formar-se. Um erro comum de muitos de nós é supor que a nossa formação é exclusivamente dependente de nós mesmos, daí muitas vezes os seminários serem vistos como uma pedra no sapato. Mas, arrisco dizer, é principalemnte nesses momentos (na universidade) que nos formamos verdadeiramente. Os livros, a biblioteca e tudo o mais são condição necessária, mas não suficiente. Assusta-me a posição cada vez mais corrente de que se forma alguém como se treina um rato de laboratório. Substitui-se apenas a gaiola pela biblioteca e a roda por uma estante de livros, de preferência em grego ou alemão. Alguns, é verdade, achariam sem cabimento a sugestão de que não basta debruçar-se sobre os livros para esclarecer-se. Esses asnos com cera no ouvido vivem em um mundo a parte e não nos cabe tentar tirá-los de seu obscurantismo esclarecido. Outros ainda agem como se concordassem, mas sempre repetem a ladainha: não há esclarecimento, mas temos que agir como se houvesse, pois ‘protestos sem esperança são necessários’, etc. A esses só podemos oferecer nossos lenços. Seja como for, nada disso é suficiente. Sempre haverá outros assuntos essenciais para a formação de um indivíduo autônomo que não são (e não podem ser) abordados pela grade curricular e nem supridos pelo esforço individual. Cabe questionar, por exemplo, quando é que se discute o aborto na universidade. Quando é que se discute o casamento homossexual? Quando é que se discutem as políticas públicas do governo? Quando é que se discutem, enfim, os temas não acadêmicos, os temas políticos? E não fiquemos apenas nos exemplos: quando discutimos as categorias com as quais fazemos e respondemos essas questões? Na sala de aula não é. Mais do que isso: na sala de aula não pode ser. Como discutir política em uma relação marcada pela desigualdade de professor-aluno? A autoridade da sala de aula não é comunicativa porque não é e não pode ser democrática. Não caberia às instituições estudantis a construção de um espaço institucional promotor debates políticos formativos? Não precisaríamos ter citado nenhuma das crises que acima elencamos para reforçar a pergunta com outro fato: não há esfera pública na universidade para estes debates. Ora, uma vez que os reconhecemos como importantes, e reconhecemos também as condições em que eles devem se dar, por que não assumirmos nós, estudantes, a organização deste espaço? Não quis propor, aqui, nenhum novo modelo de instituição estudantil. Trata-se apenas de um convite à reflexão. Pois foi com grande entusiasmo que vi o sucesso do Jornal da Filosofia, devedor somente da mobilização do punhado de colegas que o organizou. É de se notar, porém, que não seja uma iniciativa institucional do Centro Acadêmico. Se devemos saudar ou lamentar tal fato é questão que ainda precisa ser pensada. Por enquanto, torçamos para que os espaços institucionais para diálogo continuem a florescer. ϕ

organizados Entre as obviedades que mais precisam ser resgatadas nesses dias é que cada ser humano exprime uma percepção do mundo. Esse fato, quando destacado em algum discurso, normalmente o é para relativizar opiniões e situá-las todas em um mesmo nível horizontal — afinal, “cada um tem sua opinião”. Minha intenção é outra, no entanto: mostrar que a desconsideração dessa asserção óbvia condiciona o comportamento político, seja de militantes da USP, seja em considerações sobre as eleições que se aproximam. E isso ocorre muitas vezes conscientemente por vaidade, aquele julgamento de deter uma opinião esclarecida, ou inconscientemente por – digamos – um descuido com a argumentação, uma vez que já se adquiriu um hábito de pensamento. Cada pessoa tem um ponto de vista do mundo porque essa visão consiste no destaque de certos elementos em detrimento de outros, um processo individualmente único e sobre o qual, no limite, temos muito pouco controle. Esses elementos são autores com que tivemos contato, aqueles cuja obra lemos um pouco mais, professores e aulas que marcaram, filmes, amigos, família, acontecimentos relatados jornais e sites, fatos resgatados em livros, assim como a maior ou menor repetição desses elementos em nossa imaginação. Uma historiadora, por exemplo, que afirma ser a economia o motor da história, dará realce ao fato de que foi o Ministério do Tesouro o primeiro a ser criado na Inglaterra, em 1066. É certo que essa opinião não se dá ao acaso, “agora vou acreditar que são as relações econômicas que pautam as mudanças históricas”, mas convém lembrar que se trata de causalidade recíproca: assim como certos fatos históricos e certas leituras desses fatos fizeram com que aquela historiadora formasse sua posição, essa visão também e simultaneamente faz com que ela dê destaque a certos acontecimentos e os leia de determinada forma. Assim, aquela consideração de que “a USP é uma bolha” deixa de ser mera frase de efeito contra nós, playboys e intectuaizinhos de esquerda, e se mostra como problema sério: levamos verdadeiramente em conta a forma como somos reféns dos limites de nossa percepção do mundo? Esses dias, tenho estudado com maior afinco a posição política do PT e do PSOL no contexto atual, e ainda há muito a ser lido. E se eu soubesse como é a atuação do PT em algum estado do norte, por exemplo? Não é


universidade e política. 7

e independentes,

ou um pouco antes Marcelo Soares

A organização em coletivos gera vantagens que não se deve menosprezar: por exemplo, o aprofundamento de ideias e a atuação mais articulada. O problema dos grupos consiste em que frequentam as mesmas reuniões, com as mesmas pessoas, acostumam-se com as mesmas ideias e os mesmos métodos — e quando pessoas de diferentes grupos conversam, sente-se um ar de negociação. necessário ir tão longe: se eu tivesse mais informações sobre as eleições em certa cidade do interior do estado? Ou mesmo Campinas! E se eu tivesse informações sobre as zonas leste e sul de São Paulo, por exemplo? Enfim, se o conhecimento desses lugares mais ou menos distantes fosse tão imediato quanto o é de acontecimentos da USP ou de algumas regiões da cidade, minha visão de mundo decerto se alteraria, mesmo que pouco estruturalmente, havendo ainda certo grau de resistência a abrir mão de algumas verdades às quais já me acostumei. Nesse quadro, a necessidade de unidade no movimento estudantil não pode ser mero discurso bonito e bem recebido, mas própria condição de decência na atuação política. É reconhecido que um problema central do movimento estudantil da USP é sua fragmentação em grupos, muitos ligados a partidos, que disputam a gestão do DCE e de centros acadêmicos, falas em assembleias e outros espaços da universidade. Não se trata, aqui, de uma “briga entre organizados e independentes”. A organização em coletivos gera vantagens que não se deve menosprezar: por exemplo, a possibilidade maior de aprofundamento de ideias, uma vez que se trata de poucas pessoas e que conseguem se ouvir (em contraposição ao caráter supostamente democrático de assembleias e de alguns debates) e a possibilidade de atuação mais articulada, com divisão de tarefas e atuação em diferentes espaços (o que é evidentemente um problema quando fora de medida). O problema dos grupos consiste no que foi levantado por este texto: dado que se frequentam as mesmas reuniões, em geral com as mesmas pessoas, acostumam-se com as mesmas ideias e os mesmos métodos — e quando pessoas de diferentes grupos se conversam, sente-se um ar de negociação. A existência

de grupos significa que no movimento estudantil há um rico conhecimento de diversas realidades: o coletivo A está sempre em contato com algum movimento social de periferia, o coletivo B tem experiência com o trabalho em câmaras e gabinetes, o grupo C tem um setor em outra cidade e está em constante diálogo com ele... Grupos organizados não aparelham entidades por vontade consciente, mas por acreditarem demais no que falam e repetem. A disposição para o diálogo não deve ser negociação, mas reconhecimento dos limites de sua visão de mundo — em outras palavras, o velho problema: quanto mais nos esclarecemos, mais tendemos a achar que estamos suficientemente esclarecidos. É natural que façamos piadas e comentários viciados sobre outros grupos, mas saibamos ter cabeça fria no momento de fazer política. É uma pena se interpretarem minha postura anti-sectária e anti-bairrista como ingenuidade. Em relação à USP, perdemos muito por vaidade e por não sabermos conversar. Além disso, quem se diz “militante” se acostuma com aquela racionalidade própria do movimento estudantil que acua os outros estudantes, como Duanne Ribeiro pôs em questão em seu texto “Trabalho de base” na edição anterior desse jornal. Perdemos também a possibilidade de contato com perspectivas muito diferentes e não damos valor a debates estudantis que acontecem na FEA e na POLI, por exemplo, que são igualmente importantes aos debates sobre repressão política e militar organizados por aí. Quanto às eleições, sabemos que o contexto em que estamos é bastante complexo. É preciso resgatar a memória e não nos desviar “da indeterminação e da incerteza, características fundamentais do movimento histórico, em nome de uma estabilidade ilusória”, como foi um dos apontamentos de Rafael Zambonelli na edição anterior (em “Do cinismo no movimento estudantil”). Mas entendo que, apesar disso, no fim temos que momentaneamente escolher um partido ou candidato e apertar o botão. Entretanto, o voto é apenas um dos pontos da discussão, não pode ser o fim da conversa: “Mas então, em quem você vai votar?” Assim a vida fica mais chata, sei bem, algumas piadas começam a perder a graça e fica mais difícil trabalhar os argumentos. Mas me parece que maturidade é assim. ϕ


entrevista. 8

“a relação entre a USP e o regime civil-militar

é estreita”

Ditadura Militar, violência e USP. O que estes três elementos têm em comum? Eis algo que se encontra velado de talmaneira que parece a muitos não haver nenhuma relação importante entre tais termos. Porém, há pessoas que conhecem alguns lados da história os quais não costumam ser contados e que, no entanto, são de interesse público. A Comissão da Verdade da USP, campanha do Fórum Aberto pela Democratização da USP, tem por objetivo esclarecer a ligação entre os termos citados acima, os quais têm muito mais em comum do que se conhece da passagem desbotada da memória das nossas novas gerações. A fim de entender melhor o propósito, as metas e os métodos de tal empreitada, nesta edição entrevistamos membros do Fórum. Segue abaixo a entrevista na íntegra.

J ϕ: Por que criar uma comissão da verdade no âmbito de uma universidade? A criação da Comissão Nacional da Verdade se insere no quadro de um processo cada vez mais amplo na sociedade brasileira de luta pela memória, pela verdade e pela justiça, processo que levou a instauração de comissões da verdade estaduais, municipais, sindicais. É nesse contexto que surge a ideia de uma Comissão da Verdade da USP, assumida, posteriormente, por outras universidades brasileiras, como a Universidade de Brasília. Vale ressaltar que a USP foi um foco privilegiado de repressão e de resistência durante o período autoritário. Em torno de 40 pessoas em um universo de 374 mortos ou desaparecidos políticos oficialmente reconhecidos pelo Estado brasileiro por intermédio da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos tinham algum vínculo com a USP. É uma cifra impressionante. Isso sem mencionar os diversos casos de aposentadorias compulsórias, perseguições políticas, prisões ilegais, torturas e outras violências mais. Além disso, a campanha pela Comissão da Verdade da USP é uma das iniciativas do Fórum Aberto pela Democratização da USP, que acredita que o autoritarismo sistemático do Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar, que se manifestou intensamente na vida universitária, tem relação direta com as violações de direitos humanos

atualmente em curso na USP, nomeadamente na presença recorrente da Polícia Militar no campus e nas perseguições políticas a estudantes, funcionários e professores. J ϕ: Como a campanha pretende conquistar a criação da Comissão da Verdade da USP? Pretendemos protocolar no Conselho Universitário, até o final de agosto, um abaixo assinado com no mínimo 10.000 assinaturas de uspianos e ex-uspianos. Isso será feito em uma campanha capilarizada com muita mobilização nos diversos campi e nos mais diferentes cursos, como já tem ocorrido. Com isso, queremos deixar claro que a criação de uma Comissão da Verdade da USP não é uma demanda restrita aos participantes do Fórum pela Democratização da USP, mas uma exigência efetiva de parte significativa da comunidade acadêmica. Inclusive, aproveitamos para pedir aos leitores do “Jornal da Filosofia” que divulguem nossa campanha de coleta de assinaturas, convidando amigos e parentes, uspianos, ex-uspianos ou não uspianos, a assinarem o abaixo-assinado. As informações sobre como e onde assinar estão disponíveis no nosso site: www. verdadeusp.org. J ϕ: Qual é o objetivo da comissão? Quem são os grupos, as entidades e os coletivos que participam da sua construção? A Comissão da Verdade da USP objetiva investigar e esclarecer as graves violações aos direitos humanos perpetradas entre 31 de março de 1964 e 15 de março de 1985 contra docentes, funcionários técnico-administrativos e alunos da USP, bem como contra outros indivíduos não formalmente vinculados ao quadro da universidade à época. Com isso, indiretamente, ela pretende colaborar com o processo de democratização da USP ao diagnosticar estruturas autoritárias ainda em funcionamento nas instâncias de governo da universidade. Desde o seu surgimento, o Fórum Aberto pela Democratização da USP tem agregado um número crescente de representantes de setores da comunidade uspiana e não-uspiana. Atualmente, Fórum Aberto reúne as quatro entidades representativas da USP: a Associação dos Docentes da USP (ADUSP); o Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP); o Diretório Central dos Estu-


entrevista. 9 dantes da USP (DCE livre da USP); a Associação de Pós- lógica que orientou as violências no passado. -Graduandos da USP do campus da capital (APG); um conjunto de centros acadêmicos: Centro Acadêmico de J ϕ: Vocês gostariam de citar algum caso em específico? Filosofia (CAF), Centro Universitário de Pesquisas e EsO Brasil é exemplar nesse infeliz quesito. Até hoje, militatudos Sociais – Centro Acadêmico das Ciências Sociais res de alta patente e setores civis que sustentaram o golpe (CeUPES); Centro Acadêmico de História (CAHIS); Cende 1964 não raro vêm a público para negar a gravidade da tro Acadêmico de Relações Internacionais (GUIMA); repressão política e da violência que praticaram ou mesmo Centro Acadêmico da FEA (CAVC); Centro Acadêmico justificar essas ações. da Engenharia de Produção (CAEP); Centro Acadêmico de Engenharia Elétrica (CEE); Centro Acadêmico de No caso da USP, o autoritarismo do presente, materializaEngenharia Civil (CEC); Grêmio da Poli (Gpoli), Centro do em constantes ações violentas por parte dos gestores Acadêmico do Instituto de Química (CEQHR), Centro e na estrutura legal-administrativa de poder da univerAcadêmico Lupe Cotrim da ECA (CALC), Centro Acadê- sidade, tem relações evidentes com o passado ditatorial. mico Ruy Barbosa (Ed. Física), Centro Acadêmico da Me- Nosso regime disciplinar data de 1972 e tem sido sistemacânica (CAM), Centro Moraes Rego (CMR) e Associação ticamente aplicado pela atual Reitoria em perseguições dos Engenheiros Químicos (AEQ). Além de uma série de políticas contra estudantes, funcionários e professores. entidades e grupos políticos atuantes na USP, tais como: Levante Popular, Juventude às Ruas, Grupo de Trabalho J ϕ: Qual é o maior obstáculo à instauração de uma Copela Estatuinte da USP (GT Estatuinte), Coletivo Político missão da Verdade da USP? Quem, Coletivo Merlino, Coletivo Manifesto pela Democratização da USP, Liga Estratégia Revolucionária, Frente Há muitos obstáculos a serem enfrentados pela campanha até a instauração de uma Comissão de Esculacho Popular, Fórum da EsO grande lema, nesses da Verdade, um deles é a própria política querda, entre outros. casos, é recordar para não administrativa que governa a USP atualJ ϕ: Qual é a importância de esclarecer a repetir. Uma comunidade mente. Por revelar uma estrutura de poverdade? Tanto para a USP quanto para der extremamente vertical, as instâncias que não tem consciência a sociedade? da gravidade das violências deliberativas da universidade não dispõem de justa distribuição na represenHá diversas razões que justificam a per- que a marcaram durante tação dissente a todas as categorias (estinência e a necessidade de esclarecer a sua constituição reproduz tudantes, docentes e funcionários). Dessa verdade sobre graves violações de direidiscursos de justificação forma o poder de decisão de instauração tos humanos e a bibliografia em torno ou de negação dessas de uma Comissão da Verdade em nossa desse tema é abundante. A primeira é mesmas violências universidade estaria principalmente nas que há uma demanda mais do que legímãos de uma categoria que possui maiotima por parte das vítimas e dos familiares dos mortos e desaparecidos para saber efetivamente o ria de representação nos Conselhos Universitários, a dos que ocorreu: quais crimes foram cometidos, suas circuns- professores titulares da USP. tâncias, onde estão os restos mortais e, sobretudo, quem foram os autores dessas violências. É preciso garantir esse direito absolutamente fundamental das famílias, até mesmo pelo possível efeito terapêutico que a verdade pode ter. Além disso, do ponto de vista político, o objetivo maior de enfrentar um passado bloqueado e liberá-lo para acesso da memória social é a elaboração dessas experiências, mediante a construção coletiva de uma verdade que essa tarefa exige. O grande lema, nesses casos, é recordar para não repetir. Isso porque uma comunidade que não tem consciência plena da gravidade e do alcance das violências que a marcaram durante sua constituição está fadada a reproduzir discursos de justificação ou de negação em relação a essas mesmas violências. Desse modo, se não construirmos um juízo social crítico e severo repudiando as violações de direitos humanos do passado, há uma tendência quase irresistível, por parte dos membros dessa sociedade, em repetir e reproduzir a

Além disso, o atual reitor, João Grandino Rodas, que por seu cargo representa o topo dessa estrutura de poder e por sua maneira particular de administrar se põe como um obstáculo a mais, ao centralizar o poder de decisão de instâncias deliberativas (como o já não-representativo Conselho Universitário) no cargo do reitor. Isso significa que o atual reitor da USP tem abertura jurídica para decidir se aceita ou não a instauração de uma Comissão da Verdade na universidade, bem como para criar uma comissão de acordo com o projeto político que representa. J ϕ: Como a comissão investiga os fatos ocorridos no período da ditadura? Composta por membros democraticamente eleitos e que representem paritariamente as três categorias existentes na universidade (estudantes, docentes e funcionários), a comissão, dotada de plena autonomia e independência, continua na próxima página >>


entrevista. 10 colheria dados através do acesso irrestrito aos documentos dos órgãos universidade, bem como através de depoimentos de pessoas convocadas pela comissão. O período a ser investigado por essa comissão será o período que compreende as datas de 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985. Os resultados obtidos seriam amplamente divulgados e encaminhados para as Comissões da Verdade Nacional, Estadual e Municipal, e para o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual. J ϕ: Existem relações entre a cúpula da USP no período da ditadura e os dirigentes da ditadura que precisam ser esclarecidas? Certamente a USP foi, enquanto instituição, um dos instrumentos de repressão e perseguição ideológicas durante o período da ditadura civil-militar. Enquanto instituição foi conivente e colaborou com os desaparecimentos, mortes e expulsões compulsórias de docentes, funcionários e estudantes. Com o Ato institucional n° 5, instaurou-se um período de maior ação repressiva. As aposentadorias forçadas de professores são efetivadas através de denúncias dos próprios colegas e convencionadas em congregações nas unidades. O mais explícito caso de que temos conhecimento, apenas para ilustrar com um exemplo, talvez seja o da Professora Ana Rosa Kucinski, docente do Instituto de Química, desaparecida e morta em 1974. Após seu desaparecimento se estender por longo período, a Congregação do Instituto de Química delibera pela demissão de Ana Rosa, alegando “abandono de cargo”. Para além das unidades, há relatos de que durante esse período inaugurado a partir da promulgação do AI 5, as deliberações acerca da universidade permaneceu a cargo de um órgão de cúpula não previsto no Regimento Geral da USP, um órgão que representou o DOPS na reitoria da USP, cujo membros decidiam pela contratação e demissão do corpo de funcionários e docentes da universidade, bem como eram responsáveis pela espionagem da comunidade acadêmica. A relação entre a instituição USP e o regime civil-militar é extremamente estreita. Tal relação está ligada tanto ao projeto educacional e administrativo da universidade durante o período, quanto nos casos de violação grave aos direitos humanos. Enquanto instituição, a USP participou, corroborou e foi conivente com as perseguições, a censura, as prisões, as torturas, os desaparecimentos e as mortes. J ϕ: A título de exemplo, quais Comissões da Verdade pelo mundo vocês citariam e quais as consequências que delas decorreram? Nas últimas duas décadas, as Comissões de Verdade tornaram-se instrumentos importantes para reparação de injustiças, melhora de qualidade das democracias e prevenção de violação sistemática de direitos humanos em diversas partes do mundo. Desde 1974, contabilizam-se em torno de 40 experiências desse tipo: Argentina, Chile, Co-

lômbia, Peru, Guatemala, El Salvador, Timor Leste, Uganda, Bolívia, Nepal, Alemanha, África do Sul, dentre outras. Dois casos paradigmáticos e antagônicos entre si merecem destaque. O primeiro é o argentino. Depois do fim da mais recente ditadura civil-militar que governou esse país entre 1976 e 1983, o primeiro presidente civil eleito, Raul Alfonsín, determinou como uma das primeiras medidas de seu governo a instituição da Comissión Nacional para la Desaparicíon de Personas (CONADEP), presidida pelo reconhecido escritor argentino Ernesto Sábato e composta por importantes figuras defensoras dos direitos humanos. O objetivo da Comissão era investigar o desaparecimento forçado de pessoas durante a ditadura, sem mencionar a autoria dos crimes e com um mandato limitado, fatos que desagradaram as associações de familiares de desaparecidos. O resultado das investigações foi compilado e publicado no livro Nunca más, lema que inspirou diversos movimentos democráticos em outros países. Além disso, esse documento foi fundamental tanto para o processo judicial pioneiro iniciado por Alfonsín contra as três juntas militares da ditadura argentina quanto para os mais recentes processos criminais que têm colocado diversos agentes do Estado e civis atrás das grades nesse país. O segundo caso que merece destaque é o caso sul-africano. Depois de quase meio século de apartheid (1947-1994), regime que teve como principal marca a segregação absoluta entre brancos e negros, teve lugar um amplo processo de renegociação de uma nova Constituição e de uma nova organização política para a África do Sul, que pudesse contemplar as 11 diferentes etnias que compõem esse mosaico étnico. Uma questão fundamental que teve de ser enfrentada logo de início foi o que fazer com as graves violações de direitos humanos cometidas no passado. Prevaleceu um modelo diferente do argentino, marcado pela reconciliação e pelo perdão seletivo, que foram geridos pela Comissão da Verdade e da Reconciliação (Truth and Reconciliation Comission), criada em 1994 pelo então eleito presidente Nelson Mandela e presidida pelo Arcebispo Desmont Tutu. Os autores dos crimes poderiam pleitear o perdão junto à Comissão, contanto que: o ato teria de ser politicamente motivado (sob comando ou em nome de organizações políticas); o requerente da anistia devia fazer uma descrição minuciosa de todos os fatos relativos ao ato praticado; a proporcionalidade entre objetivo e meios deveria ter sido também observada. Atendidas essas exigências legais, a anistia era obrigatoriamente concedida. Ou seja, a anistia era trocada pela verdade sobre o ocorrido. As vítimas ou seus familiares poderiam recorrer para argumentar que essas condições não foram cumpridas, mas não tinham poder de veto sobre a anistia. Nota-se que tampouco o reconhecimento público da culpa ou algum remorso deveriam ser expressos pelo requerente da anistia. Esse modelo tem sido hoje bastante criticado e revisto, pois não correspondeu aos anseios de justiça das vítimas. ϕ


comentário. 11

que vivam os fantasmas de nossas ditaduras! Lucas Paolo Vilalta Em agradecimento a Patrício Guzmán, por uma memória obstinada. Ouvia de vez em quando o som das palavras e notava a diferença. Porque as palavras que ouvira até então, e então fiquei sabendo, não tinham nenhum som, não vibravam. Eram sentidas, mas sem som, como as que se ouvem durante os sonhos. Pedro Páramo, Juan Rulfo Hay o no hay cadáveres? Desapareceram com esta pergunta. Não há corporeidade para enterramos sob o signo da verdade. Por Comissão da Verdade, é preciso, sim, que nos venham os corpos, os fatos, as interpretações, que se escarafunche o deserto das miríades de ossículos de nosso esquecimento. Ainda estão vivos aqueles que choram por aquilo que não pode mais ser encontrado. Todavia, se sumiram com nossos corpos, e monumentalizaram nossa falta de memória no histórico, no subjugo do sa­ grado, na aura da experiência política de tempos idos, não nos arrancaram a possibilida­ de de intuir a sobreposição de tempos, coexistência, o pairar de espectros sobre nosso presente. A sexualização/sensualização do traumático teve seu momento, a força do disruptivo contra o erigir de monumentos, contra a fixação de fatos, con­tra a absorção de uma expe­ riência que não poderia ser absorvida. Entretanto, cabe a nós, agora, mais do que nunca, superar a ironia e o cinismo; resignar-nos aos únicos gestos éticos possíveis: por um lado, encontrar e ouvir os testemunhos, por outro,

oferecer-nos ao que não se pode pensar, tampouco sentir: na ausência dos corpos, permaneceram os espectros. O que nossa geração pode oferecer aos mortos e torturados de nossas ditaduras? O (im)pôr-se no entrelugar de dois tempos que nunca poderemos viver plenamente: um ontem que nunca nos será desvelado e um hoje assombrado de reminiscências, de uma necessidade de não afirmar ou negar mais aquilo que possamos julgar como realidade, mas permitir que uma virtualidade suspensa, que nunca se atualizará, se instaure em nosso cotidiano. É preciso viver os espectros que nos rodeiam e sentir a pele se eriçar com os sussurros utópicos que eles dirigem aos nossos ouvidos. Se houve um sonho transmudado que se tornou irreconhecível, os arautos e atores dele estão a nos impregnar a respiração de uma sufocante necessidade de um vir-a-ser outro, nosso e deles também. Contra a perpetuação e imposição de um esquecimento, ofereçamos não uma memória fixada no irrepresentável, no inefável, mas um devir engendrado pelo perpétuo incômodo de existirmos, de coexistirmos com os espectros de um passado que se não pode ser plenamente lembrado, deve ser inteiramente vivido. ϕ

Cabe a nós, agora, mais do que nunca, superar a ironia e o cinismo


movimento estudantil. 12

sobre o espaço estudantil, ou:

eu não me importo com esse debate Murilo Magalhães No início das aulas, alguns estudantes dão recados sobre atividades do movimento estudantil. Uma dessas atividades que tem ocorrido são debates sobre espaço estudantil. Não acredito que ao escrever esse texto, e publicá-lo nesse jornal, estarei “ampliando” a discussão com mais pessoas, mas somente divulgando com mais precisão minha opinião sobre o assunto. O porquê de começar o texto já afirmando isso faz parte da análise aqui presente. Atualmente, muitos não sabem que em vários prédios de diferentes unidades da universidade existem espaços (salas, corredores, andares) destinados exclusivamente aos estudantes. Em alguns lugares, como no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a existência desse tipo de espaço estava presente desde a sua fundação. Lá, existe um piso (ou andar) onde o diretor não pode construir lojas sem a permissão dos estudantes. Em outros locais, como na FFLCH, esses espaços foram “conquistados”. Mas pra quê um espaço dos estudantes? E por que muitos não sabem que tais espaços existem? No prédio dos cursos de Ciências Sociais e Filosofia (prédio do meio da FFLCH), há o Espaço Verde, local destinado a fins estudantis. Ali ocorrem as festas e reuniões do movimento estudantil. O pouco uso cotidiano desse espaço, o formato de sua gestão, sua manutenção e possível reforma estão sendo debatidos entre alguns poucos estudantes. Diante de inúmeras questões que surgem sobre esse assunto, considero que a primeira que deve ser debatida é a atual relevância de um espaço estudantil na vida de um estudante. Diariamente, vemos a maioria dos estudantes entrando e saindo faculdade e não utilizando esse espaço. Em minha opinião, alguns limitam a discussão ao afirmarem que o Espaço Verde é pouco habitado devido à sujeira ali presente. Existem também justificativas frágeis para a pouca participação dos estudantes no movimento estudantil: desorganização, bagunça, guerra dos partidos esquerdistas, etc. Assim como também existe uma jus­ tificativa para a pouca “politização” do brasileiro. (também tentam apagar tudo de nossas memórias)

Se para os estudantes de arquitetura, a Ditadura Militar foi mais gentil permitindo-lhes um prédio, para os estudantes de Filosofia nem isso foi permitido: restaram prédios temporários mais parecidos com caixotes que até hoje são utilizados. Nesses caixotes surgiram de maneira improvisada tudo: corredores, salas de aula e cursos. Por fim, nos piores locais, foi possível “fundar” os atuais espaços estudantis1. Esses espaços foram fundados como locais de resistência e liberdade. Locais em que as liberdades democráticas – expressão e manifestação - estariam garantidas e por isso os estudantes poderiam fazer reuniões e falar sobre política livremente. Portanto, assim como a finalidade, a existência desses espaços ocorreu devido a uma situação de resistência ou oposição ao poder político vigente. Mas havia mais estudantes participando do que hoje? Talvez não. Em alguns filmes da época da ditadura, é possível ver que as expressões “minoria radical”, “os terroristas”, “os baderneiros” já era bastante difundida tanto dentro como fora da universidade. Na ocupação do CRUSP, diziam que ali, local onde existiu a sede da UNE, estavam somente drogados, punks e bolivianos2. Naquele período a Cidade Universitária não tinha muro, e por isso a oposição universidade-cidade versus universidade-condomínio não existe numa proporção como hoje. Pergunto: se fosse feito um plebiscito no Brasil, será que a maioria da população era contra a ditadura militar? Ou eram sempre os mesmos (de sempre) “radicais” protestando... Será que as nossas atuais críticas ao movimento estudantil não eram as mesmas daquela época? Existe solução para essas críticas somente por via de um processo político interno ao movimento estudantil ou elas também estão presentes para além dos muros do campus?

- ler O Corredor das Humanas, publicação do Grêmio dos estudantes da FAU (GFAU).

1

– assistir ao filme A Experiência Cruspiana, disponível no YouTube (http://bit.ly/expcrusp) ϕ

2


movimentos sociais. 13

com a palavra,

as vadias Mariana Luppi Compareci no dia 26 de maio à marcha das vadias de São Paulo. Não trato esse texto como uma reportagem, uma vez que não entrevistei pessoas, nem tirei fotos próprias, mas achei importante, mesmo com certo atraso, comentar a manifestação. A primeira Slut Walk ocorreu no Canadá no ano de 2011, em resposta a um policial que, no contexto de aumento dos estupros na Universidade de Toronto, pediu que “as mulheres evitassem se vestir como vadias (sluts, no inglês original), para não serem vítimas”.

lheres são educadas para se vestirem de formas que não “provoquem” essas atitudes dos homens. Mesmo que não haja consequências mais graves, apenas julgar os desejos sexuais das mulheres pelo que elas vestem já demonstra como há uma tendência a pensar que as mulheres não têm nada mais a expressar com suas roupas e suas ações do que a relação com os homens.

Menos violência, mais orgasmos: a violência contra a mulher continua existindo, em todas as classes sociais, porque, ao contrário do que se poderia imaginar, ela não se baseia em A manifestação paulista desse ano é de grande interesse para nenhum tipo de falha na educação formal, mas sim na comse refletir sobre aspectos da cultura machista os quais em ge- preensão, novamente, de que o centro da vida da mulher ral são pouco considerados, nublados pelos direitos sociais deve ser um homem. A mulher lhe deveria, então, obediênalcançados pelas mulheres no sécucia e fidelidade. Procurando não lo XX, os quais criam uma ilusão de simplificar uma situação variada, igualdade na vida social presente. é possível fazer essa generalização. O motivo pelo qual é grave que um É importante destacar algumas das homem bata em uma mulher não palavras de ordem da manifestação, é sua suposta fragilidade e caráter que tratam de forma ampla a luta indefeso, mas o fato de que essa contra o machismo. Antes, no entanto, violência se fundamenta na noção devo fazer uma ressalva: o ambiente de que a mulher é sempre uma acadêmico, intelectualizado, não propriedade de um homem. Asestá livre do machismo. Por vezes, sim, mesmo que não se chegue à no ambiente do nosso curso parece situação de violência, a construção que o machismo é algo ultrapassado, de um relacionamento centrado produto de mentes ignorantes. É fácil no homem é o problema. Por isso observar o problema com olhos pseua palavra de ordem pede “mais docientíficos (e um pouco de preconorgasmos”. O prazer e a satisfação ceito de classe) e dar ao nosso próprio feminina não são em geral objetos Nem santa nem puta: livre machismo licença poética. de preocupação dos homens, o que Tratemos então de reivindicações da realidade, que eu se- torna ainda mais unilaterais os relacionamentos. lecionei de cartazes e divulgação na internet:

Acredite, minha saia não tem nada a ver com você: a noção de que o homem está no centro da vida social exige que se pense que todas as ações da mulher estão voltadas para ele. Historicamente, em muitas culturas a mulher sempre precisou (e em muitos lugares ainda precisa) estar sob os cuidados de um homem (pai, irmão, marido, cafetão). Embora essa realidade pareça distante da nossa, o comportamento (as roupas, as ações, as palavras) da mulher continua em geral sendo interpretado como voltado para o homem. O pior é que o estupro e o assédio são por vezes justificados com base nesses comportamentos, e as mu-

Nem santa nem puta, livre: O machismo dita que a mulher não deve procurar prazer, as mulheres que buscam satisfação sexual, que querem sentir prazer, que não querem ter suas vidas centradas em um ou mais homens são tachadas de vadias. Ainda hoje, dois paradigmas mitológicos parecem definir as mulheres, pelo menos no campo de seus comportamentos sexuais: Maria e Madalena. A liberdade sexual da mulher não cabe nesses paradigmas, e em geral os homens ainda não conseguem entendê-la. Ela ainda é entendida como vadiagem. Ecoando mais uma palavra de ordem da marcha, se ser livre é ser vadia, somos todas vadias. ϕ


acadêmico. 14

da impossibilidade de

heideggerianismo autêntico no Brasil Gabriel Philipson Espero que o jornal possua vida longa. Contribuo aqui com reflexões inspiradas em meu período de intercâmbio, a fim de que seus frutos não se restrinjam apenas a mim. O título é polêmico e os polemistas de plantão certamente direcionarão suas honestas críticas ao que chamarão de um intuito do autor de meramente polemizar, afirmando que a polêmica pela polêmica reside no terreno da aparência.

Antes de deixarmos ao léu essas vozes carolas que defendem a profundeza argumentando em águas rasas se faz necessário apontar O campo ético é o campo da prática, e a prática indicada por Heidegger como elas já se movimentam em não nos é dirigida. Aqui é preciso se pensar à brasileira terreno arreado pelo pensamento de profundidade e aparência para fácil desqualificação sude Heidegger – para os não crentes, que assim se caracterizam acreditando haver uma seita mária do contato com o outro que o desafia a pensar para heideggeriana no mundo, a situação atual é tal que até eles compreendê-lo. Fica-se a pensar como é que a fauna daqui precisam sapatar Heidegger para ver se encontram algum caracteriza as papagaiadas verde-amarelas. terreno para seus semeares ao vento: esses são os heideggerianos às avessas, assim como Pascal e Merleau-Ponty O caso Heidegger, no entanto, é especial. Não apenas do ponto de vista das polêmicas em torno de seu nazismo e são cartesianos em aparência e profundidade. antissemitismo, reativadas de tempos em tempos para a Esse domínio absolutista do pensamento de Heidegger felicidade do mercado editorial, mas também do ponto parece ser antagônico com a outra tese defendida aqui da de vista das plantações de seu semear. Quando falo da impossibilidade de ser heideggeriano no Brasil. A princí- impossibilidade de ser heideggeriano no Brasil falo da pio nada é mais fácil do que repetir os dizeres de alguém, impossibilidade de papagaiá-lo autenticamente, o que ainda mais em um país cuja sina nada expressa melhor não exclui a já corrente possibilidade de papagaiá-lo em do que a esforçada Portuguesa de Desportos, e em que os um outro sentido, de realmente repetir ipsis literis sua forintelectuais, salvo raras e ótimas exceções, se contentam ma. Quando falo de papagaios, de ‘ismos’, me considero mais em reproduzir um autor do que em o pensar. Ora, inclusivista, pois penso que o papagaio humano também nesse ponto, é verdade, os sabiás e papagaios de nossa é capaz de reproduzir um conteúdo com sua própria forterra possuem sua elegância de tal modo que em terras ma. A repetição – e agora não faço uso da diferenciação estrangeiras sentimos a ausência da fauna canarina. As entre forma e conteúdo – é sempre uma descontinuidade críticas que tem sido feitas no exclusivo alto círculo inte- em relação ao original. O neokantismo é o exemplo mais lectual brasileiro de Heidelberg, concentrado no simpático triste disso, enquanto o neoplatonismo o mais frutífero. clube de capoeira, parecem ir nesse sentido: aqui não se A filosofia, contudo, é em certo sentido nada mais do que papagueia como em nossa terra, e as discussões em aula esse fenômeno. Como as mônadas leibnizianas que se não são profundas, pois ninguém leu o autor profunda- refletem e refletem o refletido, o refletido do refletido, e mente como no Brasil. É de se notar novo uso da categoria assim por diante, assim caminha a filosofia em sua histó-


acadêmico. 15 ria e cada pensador, como espelho, é reflexo dos outros pensares, assim como de seu tempo e para o seu tempo. Heidegger, como talvez um dos filósofos que mais se debruçou sobre os historiadores da filosofia, não foge desse exemplo. Há tanto em Heidegger de Platão, Aristóteles, Hegel, Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Dilthey... É justamente a sua imensa capacidade de reflexão que me permite voltar a afirmar o domínio de seu pensamento ainda na atualidade. A sua reflexão como interpretação do passado e de nosso tempo é paradigmática para as nossas reflexões, principalmente porque nossas reflexões se baseiam seja diretamente em seu espelho, seja em espelhos por ele espelhados. Aqui cabem alguns nomes já clássicos da filosofia contemporânea, os quais incluo de cabeça seja por serem diretamente influenciados por Heidegger ou por criarem polêmica com ele: Foucault, Sartre, Merleau-Ponty, Hannah Arendt, Lacan, Derrida, Deleuze, Lebrun, Rorty, Quine, Carnap, Escola de Kyoto, Gadamer... Contudo Heidegger como espelho não se comporta como outros semeadores da história da filosofia. É que seu pensamento, por negar a metafísica e refletir Hegel e Nietzsche, possui um apelo ético mais forte do que muitos. Se sua entrada tardia no departamento de filosofia da USP se dá como o Platão do aristotélico Wittgenstein, esse Platão que se quer ver nele, a fim de lhe dar um carimbo de ‘estudável’, graças ao seu profundo conhecimento de lógica, que estranhamente tão tardiamente foi ‘descoberto’, só pode ser um pós-antiplatão, na medida em que suas sinalizações, ao negarem a verdade platônica como representação e a elevação de ‘bens e posses’ a substância ou essência como o como do sendo em Aristóteles, indicam outro caminho e caminhar. Isso pode ser compreendido quando se salienta o seu elogio aos pré-socráticos: a volta a eles, ao momento do pensamento poético, é tanto uma tentativa de destruir o jogo de espelhos da filosofia, quanto de semear não mais monoplantios, mas florestas. Uma pergunta fundamental a se fazer aos filósofos é: a quem se dirigem? A quem, no caso, indica Heidegger uma outra via? Acredito que poderia responder: ao povo histórico de sua Heimat. Esse povo histórico pode ser tanto entendido em sentido estrito quanto largo. Largo é o mundo ocidental que antes é iniciado pela filosofia do que ela inicia. Como parte da ocidentalidade não haveria porque não nos incluirmos como seus interlocutores privilegiados e procurar propagar, mesmo que de outra forma que a tradicional, o pensamento de Heidegger. Contudo, de modo estrito esse povo histórico é o europeu, composto principalmente pela junção de três categorias: o grego, o romano e o outro assimilado historicamente aos domínios do império, ou seja, os bárbaros (que já foram desde os macedônicos na Grécia, os judeus e cristãos em Roma, até os árabes já na Idade Média). Em certo sentido, o que eu estou propondo aqui é que

o Brasil como metonímia da periferia do centro do império sistêmico ocidental da atualidade permanece barbárico. Ao chegar em Heidelberg participei de uma palestra de boas vindas da universidade em que recomendaram aos alunos estrangeiros: ‘quando em Roma, faça como os romanos’. Pode-se ver o protecionismo de fluxo de pessoas presente no centro do sistema atual sob essa visão como uma lição oriunda da queda do Império Romano, na medida em que é uma forma de manter as fronteiras povoadas e funcionando sistemicamente. Mas não só aos olhares ingênuos de quem vive no centro rico do formigueiro humano vê-se o barbarismo no Brasil. A incapacidade de forma que se fala no campo teórico atual da literatura no Brasil é talvez a visão mais contemporânea dessa sensação. Ela é, como oriunda do pensamento de Bosi, fruto de uma apenas indicada comparação com o russo. A Rússia é para o europeu o arquétipo do outro, do bárbaro que quer ser europeu. São Petersburgo talvez seja o símbolo máximo disso, e Brasília, como cidade planejada para estimular o progresso, não deixa a desejar. O progresso é o símbolo da ocidentalidade: é a ele que Heidegger se dirige. O heideggerianismo no Brasil, centrado na crítica de Heidegger à técnica e a uma tentativa de o usar para fortalecer um discurso exotérico, age nesse ramo de interpretação. Mas esse, embora necessário, é um heideggerianismo fraco ou ainda não autêntico, na medida em que não absorve todo o sugo de sua fruta. E não porque haja uma compreensão equivocada de Heidegger, mas, pelo contrário, porque não se refletiu o barbarismo que é o Brasil. O barbárico do Brasil impede o heideggerianismo em sentido forte no Brasil por causa da eticidade do pensamento heideggeriano. O campo ético é o campo da prática, e a prática indicada por Heidegger não nos é dirigida. Aqui é preciso se pensar à brasileira. Esse modo de temperar limitou-se à literatura em sentido amplo, mas a filosofia em sentido estrito manteve-se sempre como um baluarte de estrangeirismos. O heideggerianismo seria apenas mais um, não fosse a sua peculiaridade que vem à tona. Se em sentido estrito o heideggerianismo só pode ser tomado a sério pelos habitantes da Floresta Negra – e nem os filhos de grandes cidades europeias poderiam assim se reivindicar –, pode parecer que o discurso da peculiaridade brasileira é um discurso nacionalista, e por isso em terreno heideggeriano, na medida em que se dirige à sua Heimat. Mas não é preciso ir tão longe na busca por mal entendidos: meu objetivo com esse artigo era justamente mostrar que tanto é preciso se debruçar sobre Heidegger no Brasil dada a sua massiva influência sobre os autores contemporâneos, quer dizer, no próprio terreno do jogo da filosofia, quanto isso não pode significar um heideggerianismo e nem é suficiente para o pensamento brasileiro. As nossas palmeiras não são as mesmas árvores que rodearam Heidegger na Floresta Negra. ϕ


tradução. 16

os selvagens são felizes? pierre clastres Juliano Bonamigo

(original: texto inédito intitulado Les Sauvages sontils heureux?, escrito em 1965/1966 e publicado em: ABENSOUR, Miguel & KUPIEC, Anne (orgs.). Cahier Pierre Clastres. Paris: Sens et Tonka, 2011, pp. 89-90.) Os selvagens são felizes? Eis, certamente, uma questão da qual jamais escapam os etnólogos no retorno de suas viagens. E, no entanto, ela quase não possui sentido ao ser colocada evidentemente a partir da ideia de felicidade que possui o questionador, ou que foi formulada para ele. Questão sem resposta, portanto, sem resposta séria em todo caso. Pois para o senso comum a causa já está entendida: o homem das sociedades primitivas vive na infelicidade. Imagem incessantemente veiculada à escassez dos Selvagens nus, sempre assombrados pela angústia de assegurar uma subsistência que a falta de reservas não permite jamais garantir. É preciso, por consequência, civilizá-los, é um dever humanitário... Certeza em verdade, é claro, que não chega a comprometer o pessimismo do ponto de vista oposto: eles são bem mais felizes do que nós! Enfim, a questão é mal colocada, pois ela é uma questão nossa, homens do Ocidente, depois da maldição inaugural: tu ganharás teu pão com o suor de teu rosto. O que se pode dizer, por consequência, dos selvagens quanto à questão da felicidade? Ela não lhes concerne, eles não se perguntam: nós somos felizes? Eles se mantêm aquém de uma questão que incomoda somente àqueles que viveram, primeiramente, a experiência da infelicidade. Traiçoeiramente, a questão da felicidade se transforma em interrogação a respeito da infelicidade. Pode ser que os Selvagens saibam muito sobre a possibilidade da infelicidade e sobre os meios de conjurá-la, pois se eles se situam aquém ao mesmo tempo do bem e do mal, isso não se deve à incapacidade infantil de pensar essas distinções, como afirma a estúpida tese evolucionista que vê nas sociedades primitivas a infância da humanidade, mas sim à sua recusa decidida do que para eles poderia ser a infelicidade. Sob quais condições evitaremos o que é mal? Tal é o problema dos Selvagens. Como eles o resolvem? Pelo conservadorismo. Expliquemo-nos. As sociedades primitivas são habitual­ mente caracterizadas como igualitárias e acéfalas. Em outros termos, elas ignoram a estratificação e a desigualdade (não há classes sociais), elas ignoram toda instância de poder separado e centralizado (elas são sociedades sem Estado). O que elas ignoram, na verdade, é a divisão na sociedade, a divisão entre ricos e pobres, a divisão entre dominantes e dominados. Mas isso não é, de

jeito nenhum, apontar para as principais figuras daquilo que nós nomeamos alienação: alienação econômica no trabalho explorado, alienação política na obediência àqueles que comandam. Ora, ignorar a alienação é conhecer, não de maneira abstrata, mas no quotidiano coletivamente vivido, a liberdade. Isso fica claro, posto que as sociedades primitivas sabem muito bem distinguir o bom do mau: elas ignoram a alienação porque elas a recusam, elas a recusam porque elas preferem a liberdade. Paixão pela liberdade na recusa da servidão: é seu próprio ser que as sociedades primitivas querem preservar ao conjurar o mal absoluto, a infelicidade que será a divisão na sociedade. É nisso que elas se revelam profundamente conservadoras: os Selvagens manifestam uma hostilidade declarada à mudança, pois eles sabem bem que a irrupção da inovação na sociedade não poderá se realizar sem a aparição correlativa da divisão, da desigualdade, da alienação. Daí o discurso que sociedades mantêm sobre si mesmas pela voz de seus chefes: cuidemos escrupulosamente em respeitar as normas outrora fixadas por nossos ancestrais, não mudemos nada da ordem que eles nos ensinaram. Compreendem-se assim as consequências desse imobilismo deliberado das sociedades primitivas: nada há nelas daquilo que consideramos primordial, essa busca em direção ao crescimento econômico, à acumulação e ao consumo de bens; nenhuma luta por um poder que as impede de existir: elas preferem dedicar seu tempo livre aos jogos privados do amor ou às festas coletivas que celebram a amizade. Os povos felizes não têm história. É disso, de fato, que se trata: tornar impossível a divisão na sociedade, interditar a desigualdade geradora de alienação, manter a sociedade na repetição dela mesma, isso é justamente conjurar o espectro da História, é bem aí que se revela a ideia selvagem de felicidade. Eles dizem outra coisa, esses Índios brasileiros que em 1562 Montaigne interrogou em Rouen: “Disseram antes de tudo que lhes parecia estranho tão grande número de homens de alta estatura e barba na cara, robustos e armados e que se achavam junto do rei (...) se sujeitassem em obedecer a uma criança e que fora mais natural se escolhessem um deles para o comando. Em segundo lugar observaram que há entre nós gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto metades de homens emagrecidos, esfaimados, miseráveis mendigam às portas dos outros (em sua linguagem metafórica a tais infelizes chamam “metades”); e acham extraordinário que essas metades de homens suportem tanta injustiça sem se revoltarem e incendiarem as casas dos demais. “ ϕ


tradução. 17

Profanação André Breton Diego Rosa e Larissa Barcellos

demasiado solitária com o jogador de xadrez (cf. Marcel DUCHAMP: Joueurs d’échecs, 1911). A verdadeira Rainha, sempre esperada, no xadrez e alhures, é aquela que foi pressentida por BarthélemyProsper Enfantin, chefe da religião são-simoniana (1796-1864). A única partida legítima é aquela que só admitiria de um e de outro jogadores jogadas nunca antes feitas. A liberdade filosófica é ilusória. No xadrez como nos outros jogos, cada jogada é carregada do passado indefinido do universo. Para se abster de toda idéia de

Ilustração de John Tenniel para Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol grandeza na competição, suportar reconhecer-se em uma pirâmide

(tradução publicada na revista Sopro #36. O original é de 1944.)

de cabeças de macacos.

O jogo de xadrez é o corpo-a-corpo de dois labirintos.

Da sabedoria antiga guardar esta voz depreciativa que acompanhava o vencedor sobre sua charrete.

Uma fraqueza constitutiva do jogo de xadrez: ele não se presta à adivinhação (ausência de uma enxadromancia). A igreja cristã jamais proscreveu o xadrez. Ela proscreveu os dados e as cartas. Para ser um bom jogador de xadrez, não é preciso muito espírito (Jean-Jacques ROUSSEAU): Diderot jogava xadrez muito mal e reconhecia de bom grado a superioridade de Rousseau que ganhava sempre dele. A guerra moderna é um jogo de xadrez aperfeiçoado, comportando uma maioria de peças retrógradas. A “rainha” do xadrez é um personagem suspeito. A facilidade dos seus movimentos sobre o campo de batalha leva a pensar que é um general disfarçado. A mulher está

Somente a inspiração comanda, de noite como de dia: Em suma, nem todo cálculo é uma análise, um jogador de xadrez, por exemplo, faz muito bem um sem o outro. (BAUDELAIRE) O verdadeiro Napoleão (o matador) era, no xadrez, de uma habilidade medíocre. Na tumba de Lênin, Praça Vermelha, descobrir-se-á um jogo de xadrez (partida começada, abandonada?) e bóias de pesca. Contrapartida (é preciso dizer): 2 grandes inovadores em arte – Marcel Duchamp, Raymond Roussel – trouxeram soluções novas a certos problemas do xadrez. O xadrez é um jogo que não é um jogo, ele diverte muito seriamente. (MONTAIGNE) É preciso mudar o jogo e não as peças do jogo.

ϕ


conto. 18

dois dedos enforcados de

prosa

Caio Sarack

Mas que Deus é este, Pedro, senão uma corda? Que pulsa nervosa com nosso sangue: a corda parece ter ela sangue nas veias a medida que vai apertando nosso pescoço “Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console.” Eclesiastes Quando o último amante morrer enforcado nas tripas do último homem livre. - Pedrão, ouve isso aqui. Imagine um rapaz que está de cócoras e em volta do seu pescoço existe uma corda. Agora, assumindo a visão do rapaz, que é limitada (completamente restrita pela corda) se estendem um par de pernas e esta corda segue a altura delas. Tem

uma dimensão? Quanto tem de comprimento? Aliás, a corda tem comprimento? A resposta parece clara, existe sim um início e fim dela. Seguindo um cálculo simples e de primeiro grau poderíamos colocar: x cm = dimensão da corda. Melhor! Se colocarmos em uma régua, numa reta coordenada, teríamos facilmente o ponto zero: meu pescoço; final da corda: x cm. Ora, minha reflexão: como pode alguém que está dominado pela corda olhar para cima e ver onde ela termina? Pode ter semelhança no que narrei com o Beckett...não em qualidade, claro, mas em assunto... No entanto é assim que eu vejo o espelho do social.


conto. 19 É este o modo que vejo o som e a fúria da vida serem direcionados e transcorridos pelas paredes da corda. A vida mantida.

O desespero é o afrouxar desta corda? A salvação morreu afogada com o primeiro morto do Dilúvio. Tem de haver as implosões das arcas.

- Rapaz, acho que isto - estarmos envoltos por ela não é muito o que nos impede de ver o comprimento da corda. Não será que esta corda não existe, Enoc? Será então pior o nosso tormento: somos nós os pontos de origem da tal régua coordenada e de tal maneira apertamos nossos pescoços como que abotoamos a camisa? E não afrouxam... Mais do que isso, já que chamou Beckett pra conversa, eu tenho dever cívico: chamo o minerinho de Itabira e a suas especulações: que o homem sabe de si pra falar das suas criaturas? A corda distante, longa em volta do seu pescoço é, se não é me repetir sobre os botões, seu conflito dado? Não é do homem, “como quer ser destino, fonte”, perecer e vencer diante de si mesmo?

- Desesperemo-nos cada vez mais? Mas isto, Pedro, não é perder sua estabilidade? Como o homem ama e faz filhos sem a calma da família? Nada pra você é construir? Só há implosão? - Não sejamos assim simplistas, se eu falei que o desespero é a morada da liberdade, não é por ser um local; com porta e tranca, mas como um homem e uma mulher que transam na cama improvisada. Sem interesse igual, vão se descobrindo. Imagine que ela encontre nele algo que a incite tensão, e ele veja os seios fartos, toque neles. Ambos interessados, no meio do sexo, vão se cavando um o outro, vivendo a dureza do sexo, ele dentro-ela cora. Morde, lambe o pescoço. Ela mostra os olhos, vira o rosto para o lado, ele inunda os dedos, vão juntos. Ele cora, sua. Ela treme e se toca. Entende, Enoc, que coisa como desespero não necessariamente tem fim em si mesmo, mas sim nos mostra as beiradas do abismo?

- Pedrão, mas me explica uma coisa. Não é simples, mas tenta ver se você fica tão inquieto quanto eu. Eu estava nas páginas, amareladas pelo tempo, do Agostinho. O tem­ po marca, rasga e quei­­­ O nó no pescoço é um germe de semente ma. E vi que lá, Deus, em toda sua Grande­ z a daninha, de comigo-ninguém-pode visto- - Mas essa corda não parece e Simplicidade simul­ sa e bonita, mas - mesmo que seja nociva afrouxar. E a corda, Pedro? tâneas, nos fez com von­ e mate o que lhe ronda - é orgânica e cria- Da corda, é verdade... Eu tades. Mas que Deus é tura de Deus sei tão pouco, parece que este, Pedro, senão uma ela é parte extensa minha, uma excrescência. E como corda? Que pulsa nervosa com nosso sangue: a corda qualquer coisa em mim, jaze a vida. É circunstância. parece ter ela sangue nas veias a medida que vai apertando nosso pescoço. Chegamos a ouvir a corda, - Encontro as cordas. A natureza incidiu sobre elas senti-las no ouvido. Se há na pulga mais perfeição suas raízes e ramos, como uma trepadeira que nos que no homem, há na corda também esta diferença ilude a parede e parece que lá só há folha e vida. conosco. Não é ela que torce em si mesma sua força, mas no desespero do homem. - Enoc, você me fez pensar numa coisa. E se nós somos essa parte sem vida da corda? Somos, eu digo, não de - Enoc, tentemos entender juntos isto... O desespero forma essencial, “nascemos e somos fadados”, mas que não pode ser a tal corda, o que eu falei de perecer esta corda drenou a vida que nos foi dada no nascimento. frente a si mesmo, é o homem dado em conflito. É Lembro no gauche na vida a primeira noção deste dreno. na fome que comemos e é não podendo comer que O nó no pescoço é um germe de semente daninha, de roubamos o fruto da árvore do bem e do mal. A comigo-ninguém-pode vistosa e bonita, mas - mesmo que saciedade é boa, o estômago cheio não questiona a seja nociva e mate o que lhe ronda - é orgânica e criatura procedência do banquete. Há no desespero do homem de Deus. O parasita veste a roupa de comensal! algo que mostra os nossos nós, não que ele seja a corda. Quando Deus cooptou a morte de toda a nação - E mais do que isso, Pedrão... Acho que esta corda é a do pecado, elegeu a cidade dos peregrinos: o novo simbiose. Um adorno infeliz que cravou feito a coroa de mundo: como pode, no cume da Vossa Onisciência, espinhos do nosso Senhor. É impossível pensá-Lo sem não ouvir os gritos de súplicas dos condenados, das o sangue lhe escorrendo o rosto, mesmo que o sorriso crianças e amores legítimos dos amantes que lá se apareça. A corda era comensal... o tempo, que também enredavam? Os banquetes interrompidos, para que amarelou as páginas do bispo que estava lendo, fez a um filho do grande pecado, Noé, e seus filhos eleitos corda comer as sobras... mas depois fez comer o banquete fossem viver o escárnio do Mundo, criado fora da até drenar a nós que íamos sentar pra janta. Mas, Pedro, a eternidade, marcados para a vida e morte do Messias. corda não tem saciedade, ela não enche o bucho. As portas da Arca são as marcas de Cristo. Tentou nos trazer a salvação, Enoc. Eu me pergunto, em que O riso afoito de ansiedade. Sempre se foge do silêncio, o desespero do homem o amarra na ira de Deus? porque é lá que a corda estreita. ϕ


crônica. 20

beleza, machismo e erotismo André Scholz A mulher não existe... Porque a mulher não é espécie, é gênero! Somos todos mulheres! Caminhava pelo nosso prédio depois de conversar com uma amiga. Ela achou machistas os textos de meu xará, publicados na última edição deste mensário. Me pego na reflexão: por que machista? Que existe um pensamento machista que permeia as relações humanas, não resta dúvidas (ver, por exemplo, o texto de Marisa Lopes, “Para a história conceitual da discriminação da mulher”). Que há um ímpeto de transformar a mulher em objeto, igualmente. Estapafúrdio seria supor que inverter a relação findaria com sua existência: o machismo é uma relação. Andando até o prédio da história, começo a observar um rapaz que surge no horizonte. Como erotizar o homem? A sensualidade do homem incomoda, ainda mais se notada por um igual. A habilidade poética, tão evidente no texto de meu colega, me falta. A natureza não é generosa, mas reproduzo como posso. Os seus cabelos o incomodam e, desavisadamente, seus dedos tentam mantê-los atrás das orelhas. O ato inocente, despido de qualquer intenção sexual, é erótico, um convite. A cor profunda de seus olhos se destaca em um rosto com uma barba revolta, e a sutileza do toque do cabelo se contrasta com a aparência levemente selvagem que inadvertidamente ele cultiva. Seu corpo é esguio e a camisa um pouco aberta monta um quadro provocador. Seus pelos despertam o tato, convidam para brincar com eles assim como ele brincava com o seu cabelo. Seus braços fortes foram feitos para o enlace. Cada vez mais próximo, vislumbro seus detalhes. Em um canto da testa há uma cicatriz, mas ela não é suficiente para arruinar o quadro. Ao contrário: a sua existência lhe confere autenticidade. Ela tem a sua história e o seu mistério, é mais um elemento para despertar o desejo. Sua roupa, com marcas de suor, exala virilidade. O masculino tem seus segredos: a curiosidade faz pensar como será a forma de seu sexo. O pênis, sempre presente nas expressões cotidianas, causa desconforto quando tratado como objeto de desejo. Dizem que é vulgar, mas creio que se assustam porque é real. Alguém se aproxima. Ele sorri. Os dentes imperfeitos criam um

sorriso genuíno, perfeito, descentralizador. Há algo mais sublime que a alegria estampada em sua face? Por um breve momento fico a alguns centímetros de distância de meu objeto, mas ele passa fugazmente. A vista, porém, não termina. Suas costas e suas curvas têm a sua beleza. Podem ainda ser admiradas sem o medo de ser percebido. Os cabelos bagunçados, o gingado e as suas formas não deixam de ser instigantes. A despreocupação no seu andar é signo de uma segurança deliciosa. O corpo, ainda que escondido, não perde a sua nudez, mais interessante porque escondida. Agora distante, ele se perde no horizonte do que passou. Em uma palavra, ele era absolutamente lindo. Volto à minha reflexão. A natureza - não posso deixar de novamente constatar - não distribui igualmente as suas forças. Alguns tão belos, alguns tão feios... penso, a princípio. Em outro dia talvez não perdesse alguns momentos de minha tarde admirando o rapaz que passou. Mas foi um momento perdido? É motivo de uma epifania: se a natureza não é generosa, não devemos ser generosos com ela? A beleza pode ser encontrada onde menos se espera, onde não se olha. O outro não é para mim um objeto, mas uma ocasião de fruição. Sublime como é, tratá-lo como objeto seria um desrespeito formal. Observar a beleza é um ato de machismo? Ser capaz de reconhecer no outro - em qualquer outro - a sua beleza me parece antes um ato de amor. Um amigo hegeliano lembra-se de Kant, num momento de lucidez: o sublime inspira respeito. Em tempos que se fala tanto de sexo (mas pouco se faz) o encontro do belo no cotidiano parece perversão. Será que é? ϕ

diálogo O texto de André Scholz dialoga com as crônicas “Beleza, Nudez e Erotismo” e o artigo “Amar a Mulher, Amar o Desejo Notas sobre Literatura e Psicanálise”, de André Paes Leme, publicadas na edição nº 0 deste Jornal.


crônica. 21

brasil: um país de “zés” Ivan Nizer Hoje o que me parece é o desvirtuamento vulgar e superficial daquela ideia aristotélica de que quem não se interessa por política é dominado por quem se interessa. Participar de política não é tratar de assuntos pessoais. E não me dirijo aos políticos, porque esses são naturalmente criaturas movidas a poder e corrupção. Me refiro ao cidadão comum. Me é peculiar e até cômico notar que pessoas cotidianamente apáticas e indiferentes politicamente, em período eleitoral tornam-se “analistas políticos”, “cidadãos exemplo” e outras bizarrices. Trata-se na realidade de uma constatação microcósmica de um fenômeno político global: a transformação da política num negócio pessoal. A pessoa que tem um terreno apoia o candidato que promete asfaltar aquela rua (devido à valorização imobiliária), o artista que tem um projeto apoia o candidato que, se eleito, se compromete a lhe fazer secretário(a) de cultura, o “zés” apoiam quem der um emprego (comissionado, é

conviver eticamente com as pessoas: isso sim é se interessar por política óbvio) para ele, amigos e família, enfim... E na raiz desse grande momento de participar do negócio chamado política, que ocorre a cada eleição, lá estão de um lado os “zés” tentando salvar politicamente a tragédia das suas escolhas pessoais de vida e a constituição federal de 1988, autorizando os criminosos cargos em comissão, de outro. Mero detalhe: no atual regime jurídico-administrativo, o Presidente(a) do Brasil tem 60.000 cargos em comissão (ele pode NOMEAR 60.000 PESSOAS LIVREMENTE). Imagine o que pode fazer o prefeito de São Roque-SP (cidade de 80.000 habitantes, longe dos holofotes da grande mídia), por exemplo... O Poder Judiciário editou a súmula vinculante nº 13 (proibindo toda espécie de nepotismo na máquina do Estado brasileiro). E DAÍ ????? Logo, a versão moderna do pensamento de Aristóteles de se interessar por política, na verdade, hoje se traduz em se afastar da política, pois na feira há mais ética, respeito e costumes populares. Enquanto a farsa do voto obrigatório se mantém, no dia das eleições vou votar de novo no “Issac Newton”, e depois voltar pra casa, tomar um vinho, assistir a última temporada dos “Simpsons”, dar um pulo na piscina do clube, ligar para uns parentes, tomar um chopp com um amigo e conversar com as pessoas no caminho: ou seja, conviver eticamente com as pessoas, porque isso sim é se interessar por política. ϕ

brasil de zé, joão e josué Victor Fiori A falta de consciência política dos brasileiros é, de fato, algo assombroso. O Zé vota no João porque este lhe promete um emprego melhor, mesmo sabendo que João é um perfeito bandido. Zé não percebe que João, ao roubar dinheiro público ou ao favorecer particulares em detrimento do bem comum, está prejudicando o próprio Zé (além de prejudicar a si mesmo...). Josué, amigo de Zé, conhece bem as consequências do voto de Zé. Porém, ao julgar que o amigo é livre para escolher desde o momento em que se deu por gente, Josué imagina que Zé está usando o seu voto como um escudo político para proteger as suas livres escolhas, e se põe a rir. Será que Zé pôde escolher livremente o meio pelo qual ganharia a vida? Será que a educação recebida por Zé, patrocinada pelos “joões”, lhe forneceu a autonomia necessária para decidir qual o melhor candidato ou proposta política para ele e para os que com ele convivem? Depois de degustar um delicioso Cabernet, cujas uvas foram colhidas pelas mãos dos filhos de Zé, a mando de João, Josué achou melhor conversar com o amigo: – Zé, estive pensando... você acha que votar no João é uma boa? – É claro! Se ele ganhar, vai me dar um emprego melhor, e meus filhos também terão seus empregos garantidos... – Mas... você sabe que ele rouba dinheiro público, não sabe? – Sim... – Então! Será que os seus filhos e os amiguinhos deles estudarão numa boa escola se o dinheiro destinado a ela estiver no bolso do João? Será que nós teremos acesso a hospitais de qualidade se o João construir uma piscina com o nosso dinheiro? – Eu acho que não, Josué... Mas não posso fazer nada, política é assim mesmo... Político não tem ética. – É, é assim mesmo... Depois dessa conversa desanimadora, Josué deixou de se interessar por política, afinal, era mais ético achar que Zé é um bobalhão e que nada iria mudar. No entanto, a conversa com Josué levou Zé a pensar melhor sobre seu voto. Ele reconheceu a importância da ação política de Josué, que colocou uma pulga atrás de sua orelha (e esta não funcionaria se estivesse fora de seu corpo). Agradecido, convida “zés” e “josués” a se manifestarem, democraticamente, contra os “joões”. ϕ


resenha. 22

Os livros felizes não tem História: Juliana Bernardo e sua Carta Branca André Paes Leme “Um amigo andava desesperadamente atrás de um livro, mas não conseguia encontrar em lugar algum. Após meses de busca, passando pela Grand Central Station em Nova York, avista uma moça que lia exatamente o cobiçado livro. Aborda-a. Conta que andava atrás do livro e pergunta onde poderia encontrá-lo. Ela diz que o livro é maravilhoso. ‘É para você’, disse. ‘Mas é seu’, disse ele. ‘Era’, respondeu ela, ‘mas terminei de lê-lo. Vim aqui hoje para dá-lo a você’” Paul Auster Certamente seria esta uma boa maneira - a descrita por Paul Auster - de se chegar aos versos de Carta Branca, o instável e saboroso livro de estreia da poetisa (e colega de depto) Juliana Bernardo. A instabilidade a que me refiro fica por conta dos sobrevôos que retiram ao leitor toda a pretensa segurança de um solo conhecido. Ler Juliana Bernardo é sobrevoar pequenos mundos desconhecidos que nos embalam o cotidiano. Poesia simples, versos limpos, comedidos, livres tanto na métrica quanto na vida, “uma suspeita de amor maior que morte“. Versos saborosos, sim, como o prazer de sentir que “só o tempo livre voa”. “Como existir e ter palavra nesta história, em que a mulher mais bonita do mundo só conseguiu provocar uma guerra?” pergunta-se a talentosa Ana Rüsche, em inspirado prefácio, referindo-se aos versos de Juliana que fazem menção à Helena de Troia. Creio que a  própria poetisa responda: “palavra de mulher: homem nenhum morreu de parto”. Amores, ruas, notícias calmas e  apressadas desdobram-se das letras e páginas. Um pouquinho mais de ironia para sobreviver e dançar na ventania. Uma celebração intranquila de cada um daqueles acontecimentos, que tanto entediavam alguém como Valéry, é isso o que leio nas linhas de Juliana. Transar e beber coca cola, há simplicidade maior que esta, na minha, na sua, na vida? A simplicidade grave de olhares que se tocaram, “do abraço das pernas que se desencontravam”. Em Juliana, até a neurose tem lá a sua beleza... Como quem examina de perto o chato nhéc da cama; como num sutil desesperar-se em água e vento: tempestade. Se o leitor tem a impressão da leveza do vôo, acompanhando uma sílfide a versejar pelos ares, cinemas, jornais e foguetes... a elaboração dos versos lembra muito mais um tremular nas ondas, sem destino que não seja o signo de ondina. Água calma, água viva, do bolso à bolsa Juliana nos dá a estranha e agradável impressão de adormecer nas águas, em  um mar de sonhos

“Poetar é a ideia fixa de sobreviver” recém-nascidos. Um mergulho profundo na sensação de alcançar o céu com um olhar trocado, uma carta não escrita, um papel deixado, uma árvore observada e já perdida: “minha vida água e vinho”. Se escrevo aqui sobre esses versos que tanto me impressionaram, é porque passa-se algo de parecido com o encontro relatado na anedota de Paul Auster. Entretanto, a despeito de uma possível busca do leitor, trataria-se aqui de apenas dizer: “não confie na memória/ ela é um correio lotado de cartas brancas”. Enfim, escrever sobre Carta Branca é oferecer uma velha sensação, de livro em livro buscada, que quanto mais perto se encontra, mais distante parece. Mas nem tudo é sentir. Há também ideia fixa, afinal a poetisa sabe: “não há lugar como nossa causa.” O poema que pulsa, que é causa, que existe no ritmo próprio da subsistência; ele resiste para que nós resistamos; poetar é a ideia fixa de sobreviver, de inventar palavras para o que não cabe nelas e assim seguir, tocar, alentar e... viver. Ora, como terminar senão com um pedido: Juliana, cara, faça logo o favor de brindar, com a sensibilidade da sua poesia, este nosso jovem (e ainda um pouco tímido) jornal da filosofia. ϕ


poesia. 23

Que tal, uma Rapidinha?

Me perdi por Ivan Nizer Em algum lugar essa tarde, a noite passada, semana passada, mês passado me perdi… enfim… não me lembro bem ao certo… mas o fato é que me perdi. Não me sinto, não me percebo, apenas tenho a cona vicção de que me esqueci no caminho, de que algum coisa não está bem… Me esqueci no meio do caminho que leva a lugar nenhum, que leva ao outro lado da cidade, ao outro lado da verdade, ao topo do morro onde eu quis subir quando criança. O que sobrou do meu eu ? Fotos ? Vozes apagadas ? Nada ? Talvez… deVagando pelas ruas escuras da opinião de quem me muro testa encontrei uma frase de amor pichada num sem graça. Me aproximei, e era um muro comum, sem tinta, sem força, sem fé. Não achei graça… De fato, tudo deu errado… e talvez o errado seja certo, e para as pessoas o certo seja tão bobo que não vale a pena saber… Não… não há nada além do que as sensações que as pessoas podem me oferecer. O resto é dinheiro, é tesão… é tudo isso e a avenida paulista inteira numa lata de coca-cola. Ser feliz é ter tudo e isso não valer a pena. Me perdi: em algum lugar da Rua Augusta, da Praça da Sé (que saudade daquela mendiga que sempre joga um jornal molhado em mim! ), de São Roque-SP, de Guapiara-SP, de Moscou. Me perdi bem antes de perce ber que existia um caminho... Me perdi e fui guiado pelo Diabo: graças a Deus.

cartesiana. por Duanne Ribeiro descarte descartes: ame.

por R,eg# Neste meio de ano e começo de outro semestre, presenteie-se e exercite este verbo, como um Presente do Indicativo eu transgrido tu transgrides ele transgride nós transgredimos vós transgredis eles transgridem “Não nos falta comunicação; ao contrário, temo s comunicação de sobra. O que nos falta é criação. O que nos falta é a resistência ao presente.” Gilles Deleuze e Félix Guattari

experiência esquizofr

por Monica Marques

ênica nº3


rodapé. 24

Cruzadinha

RESPOSTAS: Horizontal: 1. Aristóteles; 4. Hipócrates; 6. Causas; 8. Parmênides; 10. Tales; 11. Homero; 13. Pitágoras; 14. Esparta; 15. Estoicismo; 16. Tróia / Vertical: 1. Atenas; 2. Trinta; 3. Sofista; 5. Fragmentos; 7. Sócrates; 8. Platão; 9. Demócrito; 11. Heráclito; 12. Tartaruga; 13. Polis.

Horizontal

Vertical

1. Nasceu na cidade de Estagira e escreveu sobre os mais variados assuntos. Foi professor de Alexandre e é conside­ rado por muitos como o maior filósofo da antiguidade. 4. Filósofo que elaborou tratados de medicina na Grécia Antiga. 6. Segundo Aristóteles existem quatro: material, formal, motora (eficiente) e final. 8. Filósofo pré-socrático do qual temos apenas um poema épico, que versa sobre o ‘que é’ e que distingue duas vias para conhecimento do ente: a da opinião e a da verdade. 10. “... de Mileto”, filósofo antigo que defendia o monismo, para ele tudo era composto, em ultima instancia, de água. 11. Considerado pelos antigos como o Poeta. À ele atribuise os versos da Odisseia. 13. Filósofo pré-socrático, na cosmologia defendeu o heliocentrismo, e dedicou-se sobretudo a arte da geometria e a aritmética. 14. Cidade grega conhecida pela sua dedicação a guerra. 15. Corrente filosófica conhecida pelo seu ceticismo e segundo a qual o mundo estaria inteiramente determinado. 16. “Guerra de ...” aquela que é narrada nos versos de Homero e que se iniciou devido a bela Helena.

1. Deusa grega da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia, das artes, da justiça e da habilidade. 2. “Governo dos ... tiranos” período, que durou menos de um ano, no qual a cidade de Atenas foi governa de maneira despótica. 3. Aquele cujo foco central de seus ensinamentos concentrase no logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Pensa poder falar sobre tudo com propriedade 5. A forma pela qual chegaram até nós os textos dos pré-socráticos. 7. Protagonista dos diálogos platônicos. 8. Filósofo que escreveu inúmeros diálogos. Fundou uma escola, na entrada da qual se lia “Não entre quem não saiba geometria.” 9. Filósofo que defendeu o atomismo, teoria segundo a qual tudo o que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos. 11. Filósofo pré-socrático ao qual se atribui o pensamento de que ‘tudo flui”, consolidada na imagem de que nunca se está duas vezes no mesmo rio. 12. Para os antigos Atlas sustenta o mundo sobre seus ombros e se encontra sobre uma ... 13. Modelo grego de cidade: possui uma Ágora e geralmente uma parte murada.

Jornal da Filosofia nº1  

Segunda edição do jornal de estudantes de Filosofia da Universidade de São Paulo.

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