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Jornal da Filosofia nº 0. Junho/2012

processos contra

estudantes

entrevista com a comissão jurídica que ajuda na apresentação de defesa dos alunos contra os processos administrativos movidos pela Reitoria. pg. 6 Em uma época em que os valores morais são deixados ao largo, como se nada representassem, pertine reacender, no âmago da coletividade, a chama da honestidade, da lisura e da moralidade. (Trecho do processo)

Maquiavel, a ‘experiência do tempo’ eo

movimento estudantil

“É preciso fazer com que o passado se presentifique enquanto um problema.” Por Rafael Zambonelli. pg. 8

universidade e política “Ponto de Partida”, por Fernando Rondelli. pg. 10 “Trabalho de Base”, por Duanne Ribeiro . pg. 11 “Democracia, controle social e repressão”, por Mariana Luppi. pg. 12

e mais:

música, cinema, poesia, humor e crônicas fflchianas. confira sumário na página seguinte

Este jornal representa o desejo de expor as tensões dos corredores do curso de Filosofia. É um espaço para o debate, as artes, o humor — e um convite à sua intervenção

[editorial. pg.2]

Estamos em obras! Ajude a escolher o nome definitivo do jornal!


editorial. 2

tudo é pretexto para recolher

folhas amigas Editorial É com grande prazer que apresentamos a você este modesto Jornal, uma iniciativa de criar mais um canal de comunicação entre os estudantes – assim como os ‘Diálogos Sinceros’ – que compartilham estes corredores diariamente, mas que pouco debatem sobre os rumos dele, ou mesmo sobre a cor. Alguns por desinteresse, outros por falta de tempo, outros ainda por acreditarem que a sua opinião não será levada em conta. Enfim, ... Eis aqui um lugar onde se pretende que todos os que têm algo a dizer o digam, onde o debate sobre as questões centrais de nosso curso/universidade mantenha-se constante, para que quando os momentos de decisão coletiva chegarem, já tenhamos um acúmulo concreto de posições críticas sobre tais temas e não tenhamos de iniciar o diálogo ex nihilo – como parece, a alguns, que tem sido feito. Mas sabemos que não se vive apenas de debates, é por isso que este Jornal é também um convite a expressão artística e/ou humorística que se esconde sob os pesados livros de Filosofia que temos de ler. Pois, a arte é como um oásis em nosso ‘árido terreno’ argumentativo. Enfim, o Jornal é uma expressão do nosso desejo de expor as tensões existentes em nossos corredores e um convite a sua intervenção. Queremos que Este seja construído coletivamente e que represente, dentro do possível, a amálgama que é o nosso curso. É por isso, inclusive, que o nome d’Este ainda não está definido. Muitos nomes foram sugeridos, porém decidiu-se, entre aqueles que se responsabilizaram por esta edição inaugural, primeiro apresentar oficialmente os nomes propostos e, então, convidar todos a participar da reunião que decidirá o nome do nosso Jornal, que se dará dia 21 de agosto - caso haja mudança avisaremos com antecedência. Gostaríamos de explicitar que: este Jornal é autogerido pelos estudantes que participam das reuniões e/ou do grupo de discussões sobre o Jornal, dos quais todos podem participar e onde todos têm direito igual a voz e voto, basta comparecer; que todo e qualquer texto é bem vindo, afinal, como disse Machado de Assis,”Tudo é pretexto para recolher folhas amigas” (cf. prefácio de Páginas Recolhidas); e, que criamos este Jornal para distribuílo gratuitamente. Esperamos que você goste e que contribua ativamente com ele – seja lendo, escrevendo, criticando ou elogiando –, para que este Jornal se mantenha em atividade, pois não há motor imóvel em sua origem. Apresentamos na página seguinte a lista dos nomes sugeridos para este nosso novo canal de diálogo.

Expediente André Paes Leme André Scholz Bruno Carvalho Caio Mello Dimitrios Valentim Douglas Romão Duanne Ribeiro Fernando Rondelli Filipe Picolo Guilherme Riscali Inauê Taiguara Isabel Mendes João Alencar Lucas Braga Mariana Luppi Mônica Marques Rafael Zambonelli Thiago Fonseca

Envie seu texto! A produção do jornal está aberta a todos os alunos da Filosofia. As discussões são presenciais e online. Para participar, se inscreva no grupo:

http://bit.ly/jornaldafilosofia Ou envie um email para com o assunto Jornal.

uspcaf@gmail.com,

Outro fórum de discussão na internet é a página do curso no Facebook:

facebook.com/groups/filosofiausp

Agradecimentos a Johannes Gutenberg; ao CAF; a Fernando Sepe à Comunicação Social da FFLCH


Índice coluna do caf.......................................................4 por Gestão Cafcofonia entrevista.............................................................6 Processos contra os estudantes universidade e Política do cinismo no movimento estudantil.........................................8 Rafael Zambonelli ponto de partida................................................10 Fernando Rondelli trabalho de base................................................11 Duanne Ribeiro democracia, controle social e repressão........12 Mariana Luppi crônica beleza, nudez e erotismo..................................13 André Paes sinal fechado e outras interrogações.............14 Joãozinho Falassério

editorial. 3

Ajude a escolher o nome do jornal! reunião de decisão: 21 de agosto O Estado das Coisas A Gazeta Dialética O Discurso sem Método - Um jornal a serviço da dúvida O Martelo Ágora Mil Platôs A Era Cafolha Cafolheto Ensaios Pré-Socrático - Um Jornal de Aforismas O Processo DesCurso O Mundo-da-Vida - O jornal que nem a ciência explica

amar a mulher, amar o desejo..........................15 André Paes

Res Extensa

tradução “Meditação sobre a bomba”, de Peter Sloterdjik.............................................16 Fernando Sepe

Tribuna da Multiplicidade

resenha rasgando seda para Guinga.............................18 Lucas Braga

O inominável

poesia.................................................................19 esfriou mas a gente se esquenta Xe pó nosso pai nosso Oiák Karás experiência esquizofrênica nº 2 Monica Marques rodapé Cruzadinhas.......................................................20

Correio das Essências

Jornal do Númeno - O diário da Coisa em Si

Jornal sem nome Jornal da Filó

Agenda 15 de julho: data limite para envio de textos à edição de agosto do jornal. Sobre as Matrículas: • 20 a 25 de junho - 1ª interação de matrícula. • 02 a 05 de julho - 2ª interação de matrícula. • 12 a 16 de julho - 3ª interação de matrícula. 30 de julho: Início das aulas do 2º semestre de 2012.


coluna do CAF. 4

Sobre as eleições para o DCE

A vitória da esquerda deve ir além do simples número de votos Presenciamos uma grande eleição para o Diretório Central dos Estudantes, quórum de cerca de mais de cinco mil votantes em relação à eleição do ano de 2010, mas ainda apenas 17% dos estudantes da universidade. Para tal efeito, o processo eleitoral de 2012 foi o mais polêmico e disputado dos últimos anos, dada a intensa polarização em torno da greve estudantil do ano passado: de um lado, a mobilização de uma esquerda fragmentada (rasamente caracterizada numa divisão entre “esquerda moderada” e “esquerda radical”) acerca de pautas urgentes do movimento estudantil; de outro, um setor contrário ao movimento grevista, que, embora se dissesse apartidário, estava ligado a grupos de estudantes que já haviam formado chapas de direita em eleições anteriores, acompanhando o movimento de outras chapas que têm se organizado em outras universidades, tendo, inclusive, vencido

eleições para DCE na UNB e UFRGS. Entretanto, a disputa que se deu em torno dessa polarização teve um caráter geral de despolitização, sendo marcado principalmente por discursos superficiais e, muitas vezes, meramente acusatórios. O que queremos dizer é que a vitória da esquerda deve ir além do simples número de votos. Uma análise sincera não pode deixar passar a qualidade da campanha e da mobilização política em troca de uma quantidade inchada de óstracos na urna. Ora, será que tivemos uma vitória, também do debate político e da capacidade de articulação conjunta da esquerda nessas eleições? Ou o custo da nossa vitória foi justamente o risco de nosso enfraquecimento e a falta de honestidade ao lidar com nossos inimigos?


coluna do CAF. 5 Pelo nosso discurso, certamente deixamos a desejar. Para usar termos correntes: faltou programa e sobrou acusação. De todos os lados o que vimos foram campanhas centradas no medo e na desqualificação. Medo dos grevistas comunistas, medo da direita mais forte do que nunca, e medo dos grandes pequenos partidos com suas garras prontas para atacar os inocentes estudantes. O discurso raso, nominal ou personalista não diz nada que não seja uma despolitização qualitativa num processo de mobilização numérica. Convém superar a superficialidade que ronda os discursos do movimento estudantil: a capacidade de formulação só surge se aliada à coragem de ir além das praias seguras, das fórmulas e das bandeiras repetidas à exaustão. Vale a pena desencantar o olhar e nos prestarmos ao trabalho de analisar aquilo que, muitas vezes, deixamos passar como natural ou inevitável. O próprio modelo de processo eleitoral vigente, por exemplo, dá as condições de possibilidade de que as fraseologias levianas imperem e, além disso, conduz à existência de chapas hegemônicas, condicionando um comportamento político eleitoreiro baseado em adesão aos grandes grupos.

O que vimos, contudo, foi uma mistificação do crescimento da direita. Foi construída uma política que se utilizou desse fato como justificativa para uma atuação no mínimo questionável durante as eleições. De certo modo, muitos dos votos às chapas de esquerda foram apenas uma espécie de ostracismo da direita, desviando a crítica às deficiências de seus programas. Não podemos nos esquecer de um ponto que o movimento estudantil sempre fez questão de ressaltar: os meios importam tanto quanto os fins. É inegável que a direita, nos últimos anos, tem crescido e se organizado. A questão importante, agora, é o que faremos para combatê-la politicamente. O terrorismo é, de todas, a pior tática. A política do medo é criticável sobretudo porque pode trazer resultados nefastos para o movimento estudantil. Por exemplo, como a estória nos ensina desde que somos crianças, é por criar ameaça quando ela não existe que acabamos ignorando a ameaça real. A questão, então, é se acreditaremos quando o lobo realmente bater à nossa porta. Superestimar a direita agora, inconsequentemente, pode significar subestimá-la depois, a um preço terrível.

Todos os discursos são perpassados por certa generalidade que impede uma compreensão mais clara das especificidades existentes em cada programa. Tem-se a impressão de uma enorme semelhança, a despeito de sutilezas, entre o que cada chapa propõe, de sorte que se torna quase impossível aos estudantes uma escolha clara e distinta, com base em uma real concordância com determinado programa político. Universidade em Movimento, Não Vou Me Adaptar, Quem Vem Com Tudo Não Cansa, Reação e 27 de Outubro era a ordem das cinco chapas na cédula de votação. Enquanto gestão do Centro Acadêmico de Filosofia presenciamos eleitores do curso que sequer sabiam dos programas e propostas de todas as cinco concorrentes. Característica de um processo eleitoral que, decerto, não ocorreu apenas em nosso curso, mas revela uma despolitização geral dos estudantes.

Assim, devemos nos voltar à análise crítica dos conteúdos programáticos, isto é, em vez de nos precipitarmos com as opiniões que já damos por certas, tal qual aquela clareza que cega, convém termos a honestidade de ouvir uma proposta e saber criticá-la por seu conteúdo, e não por qual grupo político a apresenta. A luta contra a direita não tem que se dar somente entre as chapas internas do movimento estudantil, mas, sobretudo, entre a política de direita do Governo do Estado, representada, na nossa universidade, pela figura do reitor e suas políticas administrativas, e a política de esquerda do movimento estudantil, sindical e de docentes, que luta por uma universidade de fato pública e de qualidade. Não negamos o avanço da política de direita no movimento estudantil, mas temos claro que a real luta dos estudantes e a real união da esquerda não foram nem de longe representadas nesse processo eleitoral, nem levadas a cabo, na prática, por nenhuma das chapas.

Qual o resultado dessa despolitização mais profunda para a subsequente organização dos estudantes? A fragmentação da esquerda e o fortalecimento real da direita – justamente o contrário daquilo que, no limite, parece ser o nosso ponto de contato. O descompromisso dos grupos da esquerda de debater programaticamente é a contrapartida de um discurso lotado de acusações infundadas e denúncias gratuitas. Em passagens em salas, por exemplo, membros das chapas chamavam o voto através de ofensas às outras, além da repetição vazia dos problemas gerais da universidade. O descolamento entre o discurso político e a realidade vivida pelos estudantes está na base de todo esse processo. A ascensão da direita, por exemplo, pauta central nessas eleições, foi tratada com excessiva negligência. O surgimento de setores conservadores na política estudantil tem que ser, é claro, objeto de reflexão por parte da esquerda. Não é mais possível ignorar a organização da direita no movimento estudantil da USP. Cabe a nós fazer com que essa aparição no cenário político seja encarada como fato saudável da disputa política. Afinal, nosso fortalecimento deve se dar na prática e, se temos confiança nas ideias que defendemos, não podemos temer debater abertamente com também esse grupo de estudantes.

Resultado das Eleições para o DCE 100% das urnas apuradas (58 de 58) 13.134 votos contabilizados Totais: Não vou me adaptar: 6.964 (51%) Reação: 2.660 (19%) Universidade em movimento: 2.579 (19%) 27 de Outubro: 503 (4%) Quem vem com tudo não cansa: 254 (2%) Brancos: 46 (0%) Nulos: 128 (1%) Fonte: http://usplivre.org.br/2012/03/30/apuracaodce-usp-2012-parciais/


entrevista. 6

‘pedimos a nulidade dos processos’ - Apresentação do tema: Os processos

 Durante a madrugada do dia 08 de novembro de 2011, mais de quatrocentos homens da Tropa de Choque, helicópteros e cavalaria da Polícia Militar cercaram a Reitoria da Universidade de São Paulo e o Conjunto Residencial da USP (CRUSP) para cumprir mandato de reintegração de posse contra estudantes e trabalhadores que lá estavam por reivindicar, dentre outras pautas, o fim do convênio da Universidade com a Polícia Militar e a retirada do atual Reitor do
comando da Universidade. A ação, que sequer abriu possibilidade de negociação para que os ocupantes deixassem o prédio – procedimento comum em casos envolvendo reintegrações de posse –, redundou na prisão de 73 pessoas pela polícia militar.

 A operação contou com a utilização de bombas de efeito moral, jogadas inclusive no CRUSP, para impedir a dispersão de seus moradores, os quais ficaram encurralados dentro de cordão de isolamento fixado pela PM e que, por consequência disto, ficaram impossibilitados de sair pra trabalhar durante o período de cerco. Houve ainda relatos de estudantes que, assistindo a invasão policial do lado de fora do prédio da reitoria, foram forçados a entrar e acabaram sendo presos. Muitos ainda disseram ter sofrido agressões de policiais que, a fim de evitar futuras apurações de abuso, não apresentavam qualquer forma de identificação no uniforme.

Embora o prazo da desocupação se encerrasse às 23 horas do dia 07,
havia expectativa em torno de uma reunião marcada para o dia 09 (nove) entre os representantes dos ocupantes e os da Reitoria, que, em aviso à imprensa, chegara a pronunciar que o uso da força seria utilizado apenas quando se esgotassem o diálogo com os manifestantes. O então comandante-geral da PM, o coronel Álvaro Baptista Camillo, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo (http://migre. me/9mMLH) no dia 07, admitiu que o prazo da reintegração não vigorava mais e o mesmo deveria ser adiado. Mesmo assim, a reintegração foi cumprida, no final da madrugada, quando já mais ninguém esperava pela presença da Polícia Militar. 

Estudantes e funcionários foram então encaminhados à delegacia, onde, por sua vez, foram indiciados pelos crimes de dano ao patrimônio público e crime de desobediência, sendo liberados na madrugada do dia 09, mediante pagamento de fiança.

Não obstante o próprio Boletim de Ocorrência ser expresso quanto ao fato de que “não fora possível individualizar a conduta de cada
indiciado, de per si”, foi com base exclusiva em seu relato que, em
abril deste ano, o Reitor João Grandino Rodas instaurou a abertura de processo administrativo contra estudantes e funcionários supostamente envolvidos na ocupação da reitoria. No pacote de processos, Rodas, levando adiante o maior procedimento de perseguições e punições instaurado por uma Universidade Brasileira, também abriu portarias contra estudantes que reivin-

dicavam maior número de vagas destinadas à moradia estudantil. Trata-se da ocupação de parte do bloco G do CRUSP, que deu origem à chamada Moradia Retomada, cuja reintegração de posse fora cumprida durante o domingo de carnaval deste ano, redundando novamente na prisão de mais 12 supostos envolvidos. Os procedimentos administrativos estão sendo abertos com fundamento no DECRETO Nº 52.906, DE 27 DE MARÇO DE 1972, redigido e posto em vigor no auge de repressão ditatorial. Já na instauração de abertura dos procedimentos, Rodas anuncia a possível pena de eliminação aos supostos estudantes e funcionários envolvidos.

Buscamos, nesta edição, grupo de advogados e estudantes de direito que tem colaborado na apresentação da defesa dos processados. Abaixo publicamos uma entrevista a fim de esclarecer alguns pontos.

 - Jornal da ϕ entrevista 
 J ϕ: Quantos estudantes estão sendo processados?
 - Por enquanto foram notificados mais de 40 estudantes, somando aqueles acusados por suposto envolvimento na ocupação da reitoria (em novembro do ano passado) e na moradia retomada (em fevereiro deste ano). Só na lista da Portaria que instaura o processo administrativo referente à ocupação da reitoria consta o nome de 54 estudantes e 4 servidores, portanto, com a inclusão das procedimentos administrativos concernentes à moradia retomada, poderão vir a ser processados mais 60, entre estudantes e trabalhadores.

 J ϕ: Concretamente, quais são as acusações?
 - As acusações são as previstas nos incisos do art. 250 do Regimento Disciplinar (Decreto nº 52.906 de 27 de março de 1972), a saber: praticar ato atentatório à moral e aos bons costumes; perturbar os trabalhos escolares e o funcionamento da administração da USP, e acusações de dano ao patrimônio público em razão de supostas inscrições e afixação de cartazes fora de locais especificamente destinados a estes e supostos desaparecimentos de equipamentos da reitoria. Entretanto, não há qualquer individualização de conduta ou nenhum elemento que leve à imputação de qualquer dos estudantes que até agora foram citados para responder os processos.

Dentre as penas estipuladas para tais infrações está a de eliminação (i.e expulsão da Universidade), como advertem as Portarias que instauram os atuais processos administrativos contra os estudantes. Note-se ainda que o Regimento dá margem indiscriminada para o aplicador da sanção, isto é, fica a seu total critério estipular, a partir de uma falta disciplinar qualquer,


entrevista. 7 qual será a gravidade da
pena imputada ao acusado. 
É importante frisar que a Constituição de 1988 estabeleceu importantes garantias individuais, dentre elas a liberdade de manifestação e organização política, que são garantias de um Estado que se pretenda democrático. Entretanto, o decreto, no seu artigo 250, incisos II, IV e VIII, afronta claramente a Constituição, que é a lei maior do país. Portanto, o decreto é inconstitucional e, mais do que isso, incompatível com uma Universidade democrática.

 J ϕ: Baseado em que essas acusações estão sendo feitas?
 - As acusações são baseadas nos Boletins de Ocorrência registrados no dia da Reintegração de Posse do Prédio da Reitoria – documento que apenas serve para registro de ocorrência, não tem, portanto, força probatória – é o único elemento que motiva os processos administrativos, ou seja, a única “prova”. Importante destacar que o B.O. referente à reintegração de posse da Reitoria da USP é explícito ao afirmar que “não fora possível individualizar a conduta de cada indiciado, de per si”. Assim, temos um ato da administração da Universidade que é contrário ao próprio boletim de ocorrência, pois as acusações são feitas sem que as condutas dos estudantes sejam individualizadas, são iguais para todos os eles, trazendo apenas a acusação genérica de “falta grave”. Detalhe que o Decreto 52.906/72 não define o que é “falta grave”.

 Isto tudo afronta um princípio básico da Administração Pública que é o respeito à legalidade e o dever de correta motivação dos atos administrativos, presente na lei estadual que dispõe sobre o tema (lei 10.177/98, art.8º, inciso VI).

Além disso, um dos principais direitos do acusado num Estado Democrático de Direito é o de receber uma boa acusação. Isso implica em uma acusação que indi-

vidualize condutas, e especifique exatamente o que está sendo imputado a ele. Somente a partir de uma acusação que traga estas delimitações é que a ampla defesa (art. 5º da Constituição) pode ser exercida em sua plenitude. E não é isso que acontece nos processos que estão sendo abertos.

 A incongruência é que não é possível punir sem Individualização de condutas, princípio que está presente no art. 5º da Constituição e que já foi inúmeras vezes reafirmado pelo STF, STJ, além de órgãos administrativos de controle, como a CGU. Essa tentativa de “imputação coletiva”, portanto, é completamente descabida e impossível do ponto de vista jurídico, o que demonstra que a real intenção da Reitoria é a de intimidar os estudantes e de criminalizar a manifestação política. 
J ϕ: Como se dá o julgamento desses estudantes? Em que período elas ocorrerão? - Os estudantes e servidores estão sendo citados pessoalmente e têm 15 dias para apresentar defesa prévia e, conforme disposto em lei estadual, no mesmo ato já é designado o dia da audiência para o depoimento dos estudantes, os primeiros deporiam em 16 e 22 de maio. Nestas mesmas audiências também serão analisados os pedidos de provas apresentados na defesa prévia. As audiências tem previsão de início em maio e término em julho. Entretanto, a mera abertura do processo é nula, e a imputação de qualquer penalidade é impossível, pelos motivos que expusemos nas questões anteriores: Inconstitucionalidade do decreto, afronta à lei estadual, à Constituição e ao entendimento pacífico dos tribunais superiores. Por isso, estamos pedindo a nulidade destes processos.




universidade e política. 8

do cinismo no movimento estudantil Rafael Zambonelli De acordo com Maquiavel, a reflexão sobre a ação surgiria na república porque, com ela, a experiência do tempo não se oculta. É somente a partir dessa experiência do tempo — e, portanto, da instabilidade e da indeterminação inerentes ao movimento da história — que se torna possível o advento de uma capacidade de agir que extrapole os limites institucionais estabelecidos e, com isso, concorra efetivamente para sua transformação. Visto que um dos grandes esforços empreendidos pelo florentino foi a destruição dos modelos ideais na política, é somente seguindo a verità effetuale, a “verdade efetiva das coisas”, que se pode orientar da melhor maneira possível a ação — e também pensá-la. Entretanto, o que vemos no movimento estudantil, de um modo geral, é justamente o velamento da experiência do tempo, que encontra seu fundamento em um determinado tipo de discurso suficientemente difundido ao ponto de se ter normalizado. Contra o que, exatamente, luta o movimento estudantil hoje? Contra o projeto do Rodas/do governo estadual de privatização da universidade, diríamos. Falar em projeto é sempre uma referência ao futuro, a algo que, inexistente no presente, se tenta realizar. Em certo sentido, seria razoável,

então, falar de um projeto de privatização. Porém, em nosso discurso, a temporalidade está desfigurada: entrevemos esse futuro unicamente a partir de um presente quase estático, relegando o passado à mera contemplação e, no máximo, citando-o a título de exemplo. Trata-se de um processo típico da sociedade contemporânea, na qual “a continuidade do tempo (o tempo do projeto, da comunidade, da história) é representada como uma sucessão de intervenções num presente deslocado do fluxo denso da temporalidade”, como dizia Sarlo. No entanto, se temos a intenção de assumir uma posição crítica no interior da sociedade, devemos nos furtar a essa unidimensionalidade que subtrai a história da política; se quisermos realmente seguir a verità effetuale, devemos retomar a experiência da temporalidade, de modo a tornar viva a relação entre seus momentos constitutivos — é preciso, a partir do presente, fazer com que o passado se presentifique enquanto um problema. Assim, como compreender o projeto de privatização da universidade? Ora, desde a década de 60, com os acordos MEC-USAID, um tipo de linguagem técnico-produtivista vem se inserindo na universidade — esses anos marcaram o ponto de virada no projeto de universidade, a saber, o abandono do projeto inicial de formação de uma elite esclarecida em benefício de uma profissionalização voltada para o mercado. Especialmente na década de 80, quando da “redemocratização”, a reformulação do ensino superior se deu fundamentalmente sob a óptica da inserção da universidade em um processo geral de racionalização da cultura, no qual a ciência se converte em força produtiva e se incorpora aos critérios de uma racionalidade instrumental, sendo fragmentada pela lógica da especialização e orientada pela lógica do mercado. Desse modo, a universidade, enquanto instituição, é pensada a partir de um cálculo racional (custo/benefício), em que se tenta impor uma relação direta entre universidade e sociedade, isto é, a universidade deve responder imediatamente às demandas sociais (entendidas, na verdade, como mercadológicas). Nada mais expressivo que o Plano de Metas da CAPES-CNPq, de 1987-89, no qual se colocava a necessidade de um planejamento racional da pesquisa face às necessidades de desenvolvimento global do país, com ênfase


universidade e política. 9

Contra o que luta o movimento estudantil hoje? nas “áreas estratégicas”. A essa racionalização da cultura segue-se inevitavelmente um processo de mercantilização da ciência, no qual se busca quantificar aquilo que originalmente era apenas qualitativo. O elemento-chave desse processo é a avaliação permanente, subordinada ao critério da eficiência, da atividade universitária. Além disso, em virtude da racionalização formal, a gestão da universidade se torna ainda mais burocrática, visto que é representada como uma gestão técnica, e não mais política, que cuidaria apenas da eficácia produtiva da universidade. Não pretendo, aqui, fazer um desenvolvimento detalhado de tal processo (cf. p. ex., Cardoso, Irene. Para uma crítica do presente), mas apenas ilustrar a perda da dimensão histórica de nosso discurso — e, com isso, os problemas de nossa ação enquanto movimento estudantil. Quando dizemos, por exemplo, que tivemos grandes “vitórias”, tratando de situações específicas em que conseguimos apenas evitar um retrocesso maior; quando lançamos ao futuro, ao campo do possível, o projeto de privatização, ignorando a mercantilização e a racionalização capitalista já em vigor (condição de possibilidade da privatização, sendo esta, aliás, apenas o final do processo), criamos a sensação de uma certa estabilidade, não nos apercebemos de que o movimento estudantil, por estar nesse campo da unidimensionalidade, está absurdamente atrasado em relação ao desenvolvimento do neoliberalismo na universidade. Não só ignoramos o passado desse processo, mas também nosso próprio passado. Enfatizamos nossas pretensas vitórias, lançando ao esquecimento nossas derrotas — a consequência disso é a normalização e a aceitação tácita daquilo que nos derrotou (a título de exemplo: ninguém mais se levanta contra os muros,

contra a UNIVESP etc. Será que, daqui a alguns anos, se dará a mesma coisa em relação à PM ou ao novo regimento da pós-graduação?). Maquiavel já alertava os jovens florentinos da mediocridade dos discursos dominantes de sua época. Em todos eles havia, principalmente, a ilusão de um ideal de estabilidade e a incapacidade de se relacionar com o passado para além da mera contemplação e ambos os elementos estavam ligados à manutenção do status quo, à dominação oligárquica que privava o restante dos cidadãos de uma real participação política. Ignorando a verità effetuale, o discurso dos dirigentes e historiadores era essencialmente cínico e, disfarçado de “sabedoria” e “prudência”, ocultava interesses muito bem determinados. Enquanto nos mantivermos nesse mesmo terreno, um posicionamento crítico em relação aos problemas da universidade, que possa resultar em reais vitórias para o movimento estudantil, está fora do horizonte. Não podemos nos esquivar da indeterminação e da incerteza, características fundamentais do movimento histórico, em nome de uma estabilidade ilusória — destruidora da experiência do tempo — que, como vimos, só favorece o fortalecimento da política de direita. Afinal, como dizia Irene Cardoso, o lugar da crítica é o presente, “mas não enquanto o imediatamente dado, e sim um presente construído tanto na sua relação com o passado quanto pelo distanciamento diante da percepção imediata. O modo de construção desse lugar realiza-se fundamentalmente por meio de um estilo de reflexão caracterizado por interrogações permanentes. A construção de questões faz desse lugar uma posição instável e sem garantia, mas, por isso mesmo, a condição de uma autonomia possível do pensamento crítico.”.


universidade e política. 10

ponto de partida Fernando Rondelli Toda argumentação lógica envolve um retorno aos elementos mais básicos, aqueles que são evidentes por si mesmos, de modo que é não apenas desnecessário, mas impossível, procurar destrinchá-los em unidades mais simples e irredutíveis. Não é por acaso que este é o procedimento adotado no método cartesiano, cujo autor figura entre os maiores nomes da história da Filosofia, justamente por conta do rigor de seu método e dos resultados atingidos através da aplicação deste mesmo método. No interior da discussão filosófica e científica, sempre marcada por ferrenhas disputas de opinião e por um processo de crítica contínua, este conceito de “retorno ao mais elementar” detém o mérito de ser praticamente inquestionável. Mas se, por um lado, no campo da pesquisa acadêmica e científica, Diagnóstico: discussão política desracionalizada o conceito é levado a sério e utilizado como meio de legitimar e que são controlados por ela, é, apesar de necessária,  novas teorias, existe um outro campo que carece insuficiente. urgentemente da aplicação de um conceito similar: o campo da discussão política. É como combater os sintomas e não se preocupar com o vírus. O que se observa por toda parte é uma completa desracionalização da discussão política: decisões baseadas em preferências individuais injustificáveis; dogmatismo incompatível tanto com o caráter lógicocientífico da política quanto com seu caráter humano; desprezo total pelos conceitos de “liberdade”, “sociedade” e “direito”, entre outros, cuja busca e aplicação prática deveriam constituir justamente o caráter primordial da ação política. Como consequência, o solo se torna fértil para a inserção indevida de interesses pessoais nas entidades institucionais supostamente democráticas, que passam a ser meras representações teatrais, despojadas de suas funções originais e então desprovidas de qualquer legitimidade.

Diante da gravidade do problema, para onde devemos desviar a nossa atenção? Qual é o inimigo a ser combatido? A luta democrática, a tentativa de estabelecer uma sociedade justa e igualitária, através dos meios que se encontram disponíveis dentro dessa máquina circense

A verdadeira base sobre a qual se assentam as condições tenebrosas que permitem a hegemonia de um pensamento conservador e antidemocrático é justamente o direcionamento que o senso comum sofre em direção à ignorância, em um nefasto procedimento de manipulação. Portanto, ainda mais urgente do que combater os responsáveis pela utilização indevida do poder em seu próprio campo de atuação, é necessário lembrar que o pensamento democrático conta com bases lógicas que independem de qualquer forma de organização política ou social e, portanto, seu exercício e sua difusão podem e devem extrapolar essas formas de organização. Na prática, caso exista realmente uma lógica aplicável a todos os intelectos, é este retorno ao irredutível que poderá nos possibilitar uma mudança estrutural no quadro da luta democrática, que nos leve a dar passos maiores do que algumas poucas vitórias conjunturais.


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trabalho de base Duanne Ribeiro Em 22 de março a Filosofia realizou uma paralisação de aulas. A ação havia sido decidida em assembleia como parte do calendário de mobilização do curso. Essa mobilização é, pelo menos em parte, uma extensão da greve do ano passado, e pretende “trabalhar a base” (nos cursos) as condições de reivindicação. Cumprindo a decisão, o CAF e uma série de alunos interromperam a aula do professor Márcio Suzuki à noite — a interrupção desencadeou um evento interessante. Os alunos em aula foram chamados a um debate sobre a estrutura de poder da universidade — era a atividade prevista para a paralisação, uma apresentação do Grupo de Estudos Sobre a Estatuinte a respeito desse tema e das mudanças nas regras da pós-graduação. A conversa acabou ocorrendo, teve cerca de três horas e foi bastante rica. Não é esse o meu tema; quero me restringir aos primeiros momentos da interrupção.

desse curso, que foi eleita por voto. Era apenas uma sugestão de organização baseada em práticas correntes. Por que essa oposição? Por que a indignação? Algumas respostas comuns poderiam atribuir esses eventos a um desinteresse político (que seria uma explicação ruim, já que estavam agindo politicamente), ou a uma contrariedade reacionária (que seria simplista), ou à incompreensão da rotina do movimento (que talvez seja otimista e até prepotente demais). Penso que um caminho mais fértil de análise é este: o denominador comum desses desacordos é o sentimento, por parte dos alunos, de estarem acuados pela racionalidade própria do ME. Como se seu campo de ação fosse determinado, previamente e sem seu consentimento, por essa racionalidade. Como se pudessem falar, só que em um local designado para tal, dentro de um sistema de inscrições, de um arcabouço.

Não discuto se estão de fato acuados. Se Uma discussão começou pudermos concordar que entre os paralisadores essa é a postura subjetiva e alguns alunos. Um desses alunos, é bastante. deles se pôs a discutir Como se forma esse a legitimidade da sentimento? Nos casos assembleia e as ações do em pauta, parece ser movimento estudantil como segue. É tomada (ME), criticando a como premissa a regra origem mesma da de inscrição. Só que não paralisação. Notando há motivo para ninguém Alunos se sentem acuados pelo ME? que vários erguiam aceitá-la a priori; seria a mão, um estudante necessário propô-la que acompanhava o CAF se dispôs a organizar a ordem de fala, listando inscrições — como em assembleias. ao grupo e esperar pela concordância. É tomado como Aquele aluno então se indignou: “Quem te escolheu para fato dado que o debate do dia será o planejado. Porém coordenar? Alguém o elegeu?”. Como havia a atividade, surgiu ali um fórum que se quer independente. Não será alguém do CAF pediu aos presentes que fossem ao debate. absorvido, não absorverá. Seria necessário descobrir as Outro aluno disse: “Mas estamos conversando aqui!”. áreas de contato entre ele e nossos propósitos. De um lado, se argumentava que esse era o motivo da paralisação; do oposto, que a discussão iniciada ali era de Isto é, esse sentimento se formaria do ato de pôr uma pessoa em posição e sob expectativas que são discrepantes com igual relevância. sua autoimagem. E evitá-lo significa partir não do que Mas eram determinações coletivas feitas pela instância esperamos de alguém já definido pelas nossas suposições, deliberativa máxima dos estudantes de Filosofia. Era um mas da situação própria do outro. Talvez seja esse o planejamento anunciado pela entidade representativa sentido profundo de trabalho de base.


universidade e política. 12

democracia, controle social e repressão Mariana Luppi Costuma-se associar às ideias de ditadura e autoritarismo certas formas fixas, como a censura e a ausência de voto popular. Nesse sentido, é uma contradição absurda considerar um Estado como o brasileiro ditatorial, afinal, nenhuma dessas formas existe. Ainda assim, é preciso questionar se essas formas são obrigatórias para a expressão de um conteúdo autoritário. Embora o Brasil certamente não seja uma ditadura, não se pode esperar que o conteúdo autoritário assuma hoje as mesmas formas assumidas no século XX. De fato não possuímos, por exemplo, órgãos de censura, mas nem por isso pode-se dizer que o acesso à informação é livre. Aqui não se trata de um problema nacional, mas de fatores que se refletem e desenvolvem no Brasil. Trata-se do monopólio da indústria de comunicação e das restrições à internet discutidas atualmente em todo o mundo. O limite à liberdade, nesse caso, é a renda. Os altos custos dos produtos culturais exemplificam isso, bem como a dificuldade de encontrar meios para expor as próprias opiniões publicamente. Receber e compartilhar informações tem esse limite. Aliás, renda é limite também para o acesso a outros direitos: o direito de ir e vir é limitado pelo preço dos transportes, o direito ao aborto pelo preço das clínicas particulares que sabidamente o praticam, apesar da proibição. Todos os elementos formais para a garantia dos direitos democráticos estão no lugar, mas esses direitos não se realizam. Também como elemento autoritário, podemos considerar a repressão direta. Sem órgãos formais direcionados a

esse fim, ela é uma realidade em diversos âmbitos. Ainda que desconsideremos casos que podem ser objetados como particulares, ou que os próprios órgãos responsáveis consideraram abusivos, podemos encontrar casos de repressão direta exigidos e autorizados pelo Estado democrático. A ocupação dos morros cariocas é um exemplo emblemático. A “guerra ao tráfico” exerce no Brasil a mesma função que a “guerra ao terror” exerce no Oriente Médio. Trata-se de uma justificativa democrática para manter sob vigilância e controle certos setores da população, nesse caso novamente os mais pobres. A marcha da maconha, a desocupação do pinheirinho, a reintegração da reitoria da USP, todas são ações, ao mesmo tempo, formalmente legais e claramente repressivas e abusivas. Também é certo que é preciso discutir o caráter da polícia militar – que tem uma situação dúbia a ponto de ter foro privilegiado e fazer greve -, mas é importante que, mesmo quando essa instituição segue apenas as resoluções da justiça, há repressão. Afirmar que existe hoje uma ditadura no Brasil é uma posição que pode nos levar a ter dificuldades de discernir o perigo se certas formas autoritárias se aprofundarem. Por outro lado, não se pode esperar o renascimento do Doi-codi, o fechamento do congresso e a reinstituição do AI5 para questionar e se opor ao autoritarismo no Brasil. É possível que nenhuma dessas formas volte e ainda assim o recrudescimento do controle social e da repressão nos levem a uma situação menos democrática e livre do que as ditaduras do século XX.

todo ponto de vista é vista de um ponto

quadro: Inauê Taiguara

segurança nos campi: reitoria e mídia USP Destaques, nº57. 29/03/2012 “Cidadania, qualidade de vida, participação, compartilhamento. Essas são as palavras que nortearão o trabalho que será desenvolvido pela superintendência de Segurança, recém-criada pelo Conselho Universitário, segundo o especialista em segurança, gestão comunitária e direitos humanos, Luiz de Castro Júnior, que acaba de assumir a gestão da área na Universidade.” [http://migre.me/9cvdU]

O Estado de S.Paulo. 29/03/2012 “Os alunos da USP pediram “Fora, PM” no ano passado. Nesta quinta-feira, o reitor João Grandino Rodas oficializou logo três coronéis para comandar a Guarda Universitária. Além de Luiz de Castro Júnior, superintendente de Segurança, ex-diretor da Polícia Comunitária e Direitos Humanos da PM, vão ajudar a administrar o efetivo de 380 homens nos sete câmpus do Estado (127 na Cidade Universitária), o coronel Jeferson de Almeida (expoliciamento ambiental), e o coronel Valter Alves Mendonça, que estava no 19.º Batalhão e já passou pela Rota.” [http://migre.me/9cvi5]

outros ângulos O coronel Luiz de Castro Jr. terá uma superintendência com orçamento próprio para reforçar e aumentar a estrutura da segurança nos campi. A USP tem reservado cerca de R$10 milhões para modernização de sua guarda e compra de equipamento, como câmeras. Oficialmente, o órgão foi criado em fevereiro passado. A cúpula da USP viu nessa contratação uma forma de “afinar a sintonia” entre a Guarda Universitária e a PM.


crônica. 13

beleza, nudez e

erotismo

André Paes

“A roupa é um meio de se atingir a nudez”. Nenhuma metáfora se aplicaria melhor a essa asserção de Georges Bataille do que a cena de abertura de Les Innocents Aux Main Sales, de Claude Chabrol, em que uma “pipa” cai sobre o derrière da divinal Romy Schneider que se encontra deitada nua no gramado. Por outro lado, nada o desapontaria mais do que a nudez esvaziada do trágico signo da morte, da irredutibilidade do corpo em dissolução, ou seja, a nudez desprovida de erotismo. “O erotismo”, dizia ele, “é tudo o que está ligado à sexualidade profunda. Por exemplo: sangue, terror, crime, tudo o que destrói indefinidamente a beatitude e a honestidade humana”. Certamente, Bataille não aprovaria uma nudez teórica que instrumentalizasse o corpo em complemento de um ato discursivo e se realizasse em plena disputa (pasmem!!!) com uma projeção de slides. Enfim, nada mais estranho ao poeta que uma nudez programada e programática, ainda mais quando tal espetáculo recebe o esdrúxulo título de: “A abertura da Vênus”. Enfastiado com tal forma de “inovação acadêmica”, retireime da sala em questão e me pus a caminhar lentamente pelo cinza opressor dos corredores do prédio de filosofia. Olhar cabisbaixo, mas atento. Sempre há alguém cuja presença é mais conveniente não notar. Tomo a direção do prédio de história. No caminho encontro amigos e sigo em sua companhia. Entre risos, divagações e a velha e boa conversa fiada acendo um cigarro. A fumaça eleva-se como uma névoa quase tão espessa quanto o borrão de languidez assentado em meu espírito. Distraio-me da conversa por um instante e meus olhos acompanham, oscilando levemente à esquerda, a leveza daquela névoa de fumaça desfazendo-se em plena ascensão. Nesse momento, quando já não esperava mais nada daquela nublada quinta-feira marcada pela pura exterioridade de uma “performance” gélida, o arrebatamento se mostrou ainda possível. O fluir do tempo, contínuo jogo de espelhos, caleidoscópio partido da indiferença, ávido e destruidor converteu-se em “uma prodigiosa intuição do instante tomado em toda a sua complexidade”. Surgia diante de meus olhos uma beleza capaz de aplacar todos os sentidos da incompletude e cujo deslocamento parecia regido por um princípio geral de instabilidade. Tudo isso excedendo-se de um rosto transcendente sobre o qual pairavam olhos risonhos, de um castanho inquieto e impenetrável. Tal inquietude prosseguia nas sobrancelhas perfeitamente arqueadas e no atrevimento dos cílios semicerrados. A sinuosidade dos lábios, comedidamente frescos e salientes, formava uma boca pequena que desfrutava indiretamente de certo movimento análogo ao dos olhos. Entre ambos, um nariz róseo, fino, de caráter circunspecto e limiar ligeiramente arrebitado completava, centralizado pouco acima da altivez das maçãs, o desenho sublime de faces opulentas. Cabelos castanhos, ao melhor estilo “joãozinho”, liberavam a nuca e as orelhas do claustro que lhes imporiam

Jean Seberg - À Bout de Souffle, 1960, de Jean-Luc Godard longas madeixas, ressaltando assim a lasciva inclinação tátil dessas regiões. O conjunto do rosto, emoldurado por tal corte de cabelo, acrescentava à moça toda uma perdida delicadeza cinematográfica, fazendo-a superar análogos instantâneos de uma mesma beleza presente, por exemplo, na Jean Seberg, de Godard, ou na Mia Farrow, de Polanski. Um pescoço longilíneo, daqueles que por vezes fazem com que a cabeça nada tenha a ver com o corpo, ligava tal aparição a uma silhueta esguia, cujo movimento eu detidamente acompanhava com os olhos, mas sem jamais conseguir completar o percurso infinito daquele corpo. Em uma palavra, ela era absolutamente linda. A imagem desfez-se na fumaça de meu cigarro. Passado o instante, parava há alguns metros de nós a moça que eu soubera também pintura. Profundamente bela, conversava despreocupadamente com outras duas, como se, em seu gestual minimalista, se revelasse a importância menor que a beleza assume diante de si mesma. Uma nova tragada e penso se devo ir até ela. Na seguinte concluo que não. Como dizia Rachel de Queiroz: “parece que é mesmo uma das virtudes da beleza essa renúncia de nós mesmos que nos impõe, em troca de sua contemplação pura e simples.” Alguns cigarros mais tarde e então a moça partira bruscamente na noite calma de nosso estacionamento. Já passara também da minha hora de voltar pra casa. Mas não sem a certeza de que, naquele dia, a verdadeira nudez, ironicamente, se me apresentara em calças pretas e uma pequena blusa verde...


crônica. 14

sinal fechado e outras interrogações Joãozinho Falassério Prestação de serviço: o Jornal do ônibus gentilmente nos informa que se inverteu a razão entre verde e vermelho do semáforo de pedestres. Segundo o Programa de proteção ao pedestre, antes o bonequinho ficava verde por 10 segundos e por 5 vermelho piscando, agora são 5 verde e 10 vermelho piscando. Continuam 15 segundos no total, continuamos só podendo atravessar quando verde e entre apreensivos e apressados quando vermelho. Mudou: menos cinco segundos de sinal verde e mais cinco de vermelho piscando, “para conforto e segurança” do pedestre, diz o jornal. Ainda não descobri a ultima ratio que forjou o tal gesto do pedestre, gesto em que o pedestre avisa que vai atravessar na faixa de segurança para pedestres. O fato é que este gesto emancipatório funciona – na Gualberto, na Corifeu ainda não recomendo – graças a ajuda de dois gentis quebra-molas. Os motoristas da Corifeu também reciclaram um gesto para nós pedestres, o gesto indica que eles, motoristas, vão atravessar a faixa de segurança para pedestres – o gesto consiste em mostrar quem é o pai de todos. Enfim, ainUm semestre letivo tem em torno de 122 dias, salvo outro engano: da não descobri qual a razão do gesto 1.220 linhas. Estou 970 linhas atrasado (suspeito de algo envolvendo Serra e Rodas, mas nada fundado...), mas o estado já nos brinda com uma propaganda que nos informa apresentam mais articulada e claramente que nós? a diminuição em 8% de atropelamentos de pedestres que atravessavam na faixa de segurança para pedestres. Agora Ao hábito de falar por escrito some-se o de escrever poupodemos parar o trânsito com um gesto outro que nosso co. No pior dos casos (sempre no meu), são duas disciplinas, um trabalho de cinco páginas pra cada, 25 linhas pra atropelamento! – na Gualberto e graças aos quebra-molas. cada página, salvo provável engano matemático: são 250 Esta sexta fechou-se o XV Encontro de pesquisa na gra- linhas publicadas por semestre. A professora e modelo de duação, ótima ocasião pra quem, como eu, queria sair do prosa Jeanne Marie Gagnebin, da PUC, recomenda aos departamento sem sair dele (muito trânsito lá fora). Apre- alunos com dificuldade na escrita que escrevam 10 linhas sentações entre entediantes (como a minha) e performá- de qualquer coisa por dia. Um semestre letivo tem em torticas, gente de todo lugar, cafezinho e biscoito fino: uma no de 122 dias, salvo outro engano: 1.220 linhas. Estou 970 beleza! Um rapaz que apresentou logo após minha parti- linhas atrasado (vezes os inúmeros semestres já cursados cipação disse: “peço desculpas, pois não consegui impri- e que não convém contar para evitar ainda outro engano). mir meu texto, mas como fui eu que escrevi acho que a Neste sentido chega em boa hora este Jornal da Filosofia apresentação será boa”, isso segundos depois de minha (ainda que atrasado, pois a culpa deve ser do transporte apresentação em que li mal e porcamente de cabo a rabo público). Se o jornal não se equipara ao muito lido Jorcom direito a mãos trêmulas e engasgadas recorrentes. De nal do ônibus tem, por isso mesmo, razões urgentes e de fato, o rapaz falou e falou muito bem. Sem entrar em ques- sobra para aparecer. Solitário leitor, não perca o bonde! tões de mérito, é paranoia minha ou as pessoas de fora Jornal da Filosofia, bons dias!


crônica.15

Amar a mulher, amar o desejo Notas sobre literatura e psicanálise André Paes “La Femme n’existe pas.” De todas as frases de efeito surgidas nos Seminários de Lacan, essa é certamente a mais controvertida (e enigmática!). São inúmeros os sentidos que se poderia atribuir a tal afirmação, desde a bizarra acusação de misoginia até a filiação a um pensamento próprio ao estatuto do feminino, como em Simone de Beauvoir, por exemplo. Mas se essa “inexistência” da Mulher em geral é a causa de uma espécie de “sofrimento de indeterminação” do feminino, no caso da mulher por mim desejada, o problema é exatamente o inverso.

pelo corpo – mas como se houvesse empunhado uma pedra que encerrasse em si o sal dos oceanos imemoriais ou o raio de uma estrela, sentia que estava apenas aflorando o invólucro fechado de um ser que por dentro tinha acesso ao infinito... se o seu corpo estava sob o poder do meu, o seu pensamento escapava ao domínio do meu pensamento.”

Uma variação desse segredo maldito pode ser encontrada, entranhada na religião do estilo de Flaubert, no impulso de Emma Bovary pelo amor puro e simples, Tomada enquanto “este obscuisto é, pelo êxtase frenético de uma ro objeto do desejo”, como gosredenção amorosa e sexual que as taria Buñuel, a mulher padece, convenções nunca lhe permitina verdade, de um excesso de ram alcançar. Emma padecia do existência. incontrolável desejo de desejar; uma variante da inacessibilidade Uma mecha de cabelo que cordo objeto que constitui a Albertire por trás da orelha, um certo ne do narrador da Recherche. A modo de olhar para o lado ao mulher que amo é pura vertigem cruzar as pernas, a pequena cido absoluto. Aquele que camicatriz em uma das mãos, etc... é nha em direção ao objeto amado só por meio desses signos que repete continuamente o ato de a mulher aparece como objeto atirar-se no abismo da despersoda minha experiência; aquela nalização; de reinstaurar sempre que desejo só me é visível como o gesto de uma busca desmesuraque pelo pelo buraco da fechada por curar-se de si mesmo, do dura do meu desejo. Ainda que vazio de sua própria ausência. a mulher que amo me apareça Se o desejo de Emma Bovary era como um todo, a totalidade de marcado pela desmedida, sem um mundo, o seu mundo; ainda medida também era sua solidão. O Beijo, de Gustav Klimt que, por uma série de inumeráConstituo-me a partir do outro, mas veis acasos e inefáveis coincidências eu tenha encontrado nela é também nele que desabo, desfaleço, me despersonalizo... Não a imagem exata de meu desejo, sou incapaz de apontar o que conheço as trilhas daquela que amo, minhas mãos tateiam por desejo naquele corpo, pois se a mulher traz consigo uma tota- seu corpo, seus caminhos são meus mistérios e o único conhecilidade, ela não deixa de encerrar também um saldo, um exces- mento que dela alcanço é o de que estou diante do incognoscível. so, algo de inexprimível e que é justamente aquilo que faz com que ela deixe de ser uma pessoa comum para transformar-se Se, como quer Lacan, “a Mulher não existe”, é porque não é possível apontar a singularidade de seu desejo. É impossível defní em uma espécie de objeto de “soteriologia”. -la, a não ser negativamente, pela falta. Um vestígio disso sobreA mulher escurece, venta e chove a partir desse resto que não se vive na angústia daquele que ama, pois a mulher que se ama é deixa jamais apanhar. Uma forma sublime de reconhecer esse a medida própria do desejo do amante e não o objeto ao qual resto é o adorável, como nos diz Barthes. O adorável fala lá onde se direciona o amor. Como a determinação do meu desejo não a linguagem esmoirece, onde a gramática se esfacela e a sintaxe equivale nunca a determinação particular daquela mulher que é acometida pelo cansaço da impossibilidade. O que é o adorá- se coloca, por assim dizer, do lado de lá do abismo do impessoal, vel senão aquela especificidade que só vejo nela e em nenhu- a “imagem” da mulher que amo só pode padecer de um certo ma outra? O adorável é “a palavra vazia, o grau zero de todos excesso de existência, que se estabelece pela sobreposição da deos lugares em que se forma o desejo...” Por isso, a Albertine, de terminação particular da mulher ela mesma e da imagem exata Proust, é um ser de fuga, por isso seus olhos são opacos apesar do meu desejo sobre a ausência de determinação da Mulher em de refletirem toda a voluptuosidade das águas do mar de Bal- geral. Talvez por isso, por esse excesso, seja tão fácil escutar a bec: “Bem podia eu sentar Albertine nos meus joelhos, agarrar- melodia inaudível dos passos, marcados pela distância, daquela lhe a cabeça, acariciá-la, passear-lhe demoradamente as mãos que se faz, através de sua ausência, continuamente presente.


tradução. 16

Meditação sobre a bomba Peter Sloterdjik Fernando Sepe (original: Die Kritik der zynischen) Aqui nós temos que pensar adiante – assumindo a fundo que a extremidade e o meio correspondem mais profundamente um ao outro do que revelado a um primeiro olhar. Na superfície, o estilo de vida dos punks e do establishment parecem ser absolutamente irreconciliáveis. Mas no fundo eles são bem próximos. Erupções cínicas são lançadas para fora das massas da civilização. Por essa razão o filosófico, a aproximação compreensiva dos fenômenos, não deve se limitar aos excessos subjetivos, mas deve começar pelos excessos objetivos. Excessos objetivos não são outros que os excessos de estrutura tensa que caracterizam nossa forma de vida, mesmo dentro de suas fases saturadas e dentro de períodos entre guerras. Ao fim da segunda guerra mundial, o potencial bélico era suficiente para o extermínio de cada cidadão da Terra. Enquanto nos aproximamos da terceira, o potencial de extermínio tem sido multiplicado por centena de vezes, talvez milhares. A atmosfera de uso brutal da força se torna mais densa a cada minuto. O potencial cresce e seu crescimento é, em uma análise final, o agente determinante de nossa história. A estrutura de força bélica se torna o sujeito do desenvolvimento, basta lembrarmos como na primeira e na segunda guerra uma enorme proporção de trabalho social fluiu por essas estruturas. No momento novas medidas são tomadas para intensificar esse processo, mas esse não é nosso tema aqui. Frente esses difíceis fatos, a função da filosofia é a de colocar questões infantis, tais como: “Por que as pessoas não conseguem viver juntas?” “O que as leva a preparar sua mútua desintegração?” Filósofos são aqueles que podem colocar de lado o habitual, o cínico, o ilustrado contemporâneo – esse que sem grande esforço pode em duas, ou três sentenças, explicar tudo e dizer o porquê de a situação não poder ser alterada apenas com boa vontade. O filósofo deve dar uma chance à criança interior que ainda não entende tudo isso. “Estes” que ainda não entendem talvez possam colocar as questões certas e necessárias. Todas as guerras são, na raiz, consequências do princípio de autopreservação. Na competição entre grupos políticos, a guerra tem sido um velho meio de estabelecer e defender a existência, a identidade e a forma de vida de uma sociedade dada contra as pressões de uma rival. Desde tempos imemoriais, realistas assumem um direito natural de autopreservação de um grupo individual e do uso da

força militar em caso de ataque. A moralidade que legitima a suspensão da moralidade dentro de uma situação de guerra é a autopreservação. Aqueles que lutam por sua própria vida e por sua sociedade estão de acordo com a mentalidade realista, distantes de uma ética de paz. Quando a identidade própria é ameaçada, a proibição de matar é suspensa. Aquilo que constitui o básico tabu em tempos de paz se torna um dever em tempos de guerra; na verdade, uma matança generalizada e eficiente é ainda honrada como uma conquista valiosa. Todas as éticas militares modernas, entretanto, aboliram a imagem do herói agressivo porque ela interferiria na justificativa defensiva da guerra. Heróis modernos querem ser apenas defensores, heróis da autodefesa. Todo comportamento agressivo é negado: todo soldado profissional vê a si mesmo como um protetor da paz e o ataque é apenas uma estratégia alternativa para a defesa. Esta constitui a prioridade última de todos os modos de comportamentos militares. Defesa, nesse contexto, nada mais é do que a contraparte militar para o que chamamos autopreservação em filosofia. Esta negação de si cínica de toda moralidade é guiada pelo princípio de autopreservação, princípio que antecipa o “momento de verdade” e arma a si mesmo com uma “ética livre” sem restrições e ilusões. Se nós olharmos o mundo hoje a partir dessa perspectiva, veremos uma ilimitada proliferação do princípio cínico da defesa. Ocidente e oriente, ambos armados até os dentes, confrontam-se uns aos outros como gigantes da autodefesa. Para que possam ser capazes de se defenderem, cada um produziu instrumentos de destruição suficientes para a absoluta aniquilação do humano, do animal e mesmo da vida vegetal. Nas sombras das armas atômicas as terríveis especialidades de guerra biológica e química são normalmente ignoradas. Em nome da autopreservação, um sadismo disfarçado de defesa floresceu nas mentes dos pesquisadores e patrocinadores da destruição; um velho mestre de tortura teria um complexo de inferioridade por comparação. Entretanto, nós não queremos imputar nada de negativo para ambas as partes em jogo. Todos provavelmente fazem o que está dentro do campo do possível. Porém, esse campo tem em si suas peculiaridades más. Parece que uma certa forma de realismo chegou próximo ao seu limite imanente, a saber, este realismo que adota a guerra como ratio última da política de autopreservação em seu modo de cálculo. Este realismo não deve ser condenado de


tradução. 17 forma retrospectiva; ele teve seu tempo e fez seu trabalho, talvez algo de bom, com certeza muito mal. Mas deve ser urgentemente observado como essa ratio última do realismo faliu. Hoje em dia as “políticas de desarmamento” apenas aparentemente compreenderam isso. Pois, por detrás dessas políticas, as nações envolvidas em tal negociação cinicamente jogam de forma dupla. Enquanto elas falam e negociam, freneticamente produzem mais armamento. A questão, por mais estranha que pareça, é basicamente se apenas o armamento deveria ser perseguido, ou armamento mais conversa é algo melhor. Nesse sentido, eu diria, uma solução nunca será encontrada e a corrida armamentista apenas pode acabar em guerra. A selvagem proliferação do princípio de defesa exclui todas as outras possibilidades. A última guerra se tornou uma “questão interna” da humanidade bélica. Nesse ponto encontramos a questão central de ir para além do princípio de autopreservação com sua arcaica e moderna ratio última da guerra. Para esse imprevisto embate do aspecto interior contra o realismo nefasto da política de autodefesa, os mais fortes aliados são necessários. Nesse sentido, nós não estamos sem esperança, pois há uma grande variedade de arsenal. Ele contém, na verdade, todo tipo de monstruosidade: gases nervosos, armas biológicas, granadas psicodélicas, raios mortais, etc. Não queremos, de forma alguma, não dar a devida atenção a esses elementos. Mas o filósofo é atraído muitas vezes para a bomba H, pois o modo de operação nuclear desafia a contemplação mais do que tudo. A fissão nuclear é um fenômeno que nos convida a meditação e, poderíamos dizer, a bomba nuclear dá ao filósofo o sentimento de nela realmente poder tocar o núcleo do que é o humano. Sendo assim, a bomba basicamente encarna o último e mais enérgico esclarecedor. Ela ensina a entender o significado da cisão. Ela deixa completamente claro o que significa Me colocar contra Você, um Nós contra Eles do ponto de vista de uma disposição plena para a morte. No ápice do princípio de autopreservação ela nos ensina como acabar e conquistar os dualismos. A bomba carrega a última esperança e objetivo da filosofia ocidental, mas sua pedagogia nos é estranha. Ela é tão cínica e extremamente dura que apenas pode nos lembrar dos mestres Zen do oriente que não hesitavam em socar a cara dos pupilos caso isso auxiliasse no avanço em busca da iluminação. A bomba atômica é o Buda do ocidente, um perfeito e soberano aparato, sem limites. Ela se mantém imóvel em sua ogiva, pura realidade e pura possibilidade. É a epitome das energias cósmicas e a participação humana em sua elaboração pode ser compreendida como o mais incrível desenvolvimento da racionalidade técnicocientífica, o triunfo da racionalidade técnica e sua negação (Aufhebung) em direção ao infinito. Com ela nós deixamos o campo da razão prática onde os fins são perseguidos a partir de meios apropriados. A bomba há muito deixou de ser um fim, pois sua infinitude de sentido excede todo fim possível. Porém, desde que ela não mais pode ser um fim, ela então deve se tornar um meio de autoexperiência. Ela é um evento antropológico, uma extrema objetivação do

espírito do poder que trabalha por detrás do instinto de autopreservação. Ainda que nós tenhamos a construído para defendermos a si mesmos, na verdade, ela nos lança em uma situação de indefesa sem paralelos. Ela é a consumação do humano em seu pior aspecto. Nós não podemos alcançar um mal maior. A bomba é realmente o único Buda que a razão ocidental poderia entender. Sua calma e ironia são infinitas. Não faz diferença como ela realizará sua missão, seja através do silêncio, ou de uma nuvem de fogo. Assim como o Buda, tudo que poderia ser dito é dito através da existência. A bomba não é pior e nem mais real do que nós. Ela é apenas um desdobramento nosso, uma essência. Ela já é corpórea como um todo e nós ainda nos encontramos separados dela. Frente tal máquina de destruição, considerações estratégicas não são apropriadas, mas uma atenção plena o é. A resposta à bomba não deve ser dada pela luta, ou pela resignação, mas sim pela experiência-de-si. Nós somos a bomba. Nela, o sujeito ocidental está consumado. Nosso mais extremo armamento nos faz indefesos, fracos do ponto de vista da razão, racionais do ponto de vista do medo. A única questão que resta é se nós escolhemos o caminho externo, ou interno – se o insight irá vir de uma reflexão crítica ou de bolas de fogo sobre a Terra. Todos os “caminhos externos”, não importa o quão bem intencionados eles sejam, nos levam em direção a questão bélica. Todos os “caminhos interiores”, ainda que pareçam extremamente irrealistas, apontam em direção a uma real pacificação. O desenvolvimento do mundo moderno nos levou para um ponto além, onde o caminho externo – política – e o caminho interno – meditação – falam a mesma língua. Ambos estão certos que apenas um “relaxamento das tensões” pode nos ajudar. Todo segredo está na arte de conceder, de não resistir. Meditação e desarmamento descobrem uma estratégia de comum interesse. Ora, mas que resultado mais irônico de nossa modernidade! A grande política para nossos tempos é, em uma análise final, meditar sobre a bomba. Uma profunda meditação que realmente busque construir a bomba dentro de nós. Meditação trabalha de forma gentil tudo que se encontra solidificado e encrustado no que chamamos de identidade. Ela dissolve a armadura em que o ego se fundamenta e que o faz se sentir como o grande defensor dos “valores essenciais” (os estrategistas bélicos dizem: “nós temos os melhores valores”). A bomba é uma maldita máquina irônica que não é boa para nada, porém produz grandes e poderosos efeitos. Ainda que ela seja nosso Buda, ela contém também o sarcástico demônio em si. Deveríamos nos colocar dentro dela para sentir o que significa explodir no cosmos a partir de uma completa dissolução do eu. Isso pode ser feito a qualquer hora. (...)

Nota da Edição: Essa tradução corresponde a um trecho da primeira parte do livro de 1983 do filósofo Peter Sloterdjik Crítica da razão cínica.


resenha. 18

rasgando seda para guinga Lucas Braga

Rasgando Seda é o novo disco de Guinga. Gravado com o Quinteto Villa-lobos, o registro celebra o cinqüentenário do maior conjunto de câmara brasileiro, executando um repertório exclusivo de nosso compositor vivo mais importante – e desconhecido ao grande público. Guinga permaneceu por muitos anos como uma face oculta da música brasileira, prestigiado na coxia, mas sempre longe da ribalta – conheceu Milton Nascimento no festival em que defendeu “Travessia” (no mesmo festival, Guinga classificou “Sou só solidão”, aos 17 anos); jogou futebol no Polytheama, o time de Chico Buarque (que letrou uma de suas canções, “Você, você”, e cantou em quatro discos do amigo boleiro); tocou violão na emblemática gravação de “O mundo é um moinho”, de Cartola; batia ponto na boemia carioca com Eduardo Gudin e Nelson Cavaquinho; era amicíssimo do então casal Paulo César Pinheiro e Clara Nunes (ele, letrista frequente; ela, gravou duas de suas canções). Alcançou relativo sucesso com as canções “Bolero de Satã”, em 1979, na voz de Elis Regina; “Senhorinha”, tema da novela Sinhá Moça (na versão original, a música ficou por conta de Ronnie Von (!). No remake, na voz do autor); e “Catavento e Girassol”, em 1996, com Leila Pinheiro. Seu primeiro disco solo só veio em 1991. O reconhecimento foi tardio. Contudo, Rasgando Seda é o maior testamento fonográfico de sua magnitude no cancioneiro popular brasileiro. As doze faixas do disco vasculham a obra do compositor e trazem duas inéditas: “Ellingtoniana”, em homenagem ao compositor norte-americano Duke Ellington, e “Valsa de aniversário”, que possui a função dupla de festejar o aniversário de sua filha mais nova e selar o encontro com o Quinteto. As músicas receberam tratamento camerístico do Quinteto Villa-lobos. Para ganharem projeção e densidade, os andamentos das músicas foram desacelerados, o que permite liberar as canções de Guinga da clausura de seu violão e expandi-las em arranjos sofisticados, que conferem a sua obra uma envergadura sinfônica. Não é a primeira vez que suas canções recebem tratamento orquestral. Discos como Delírio Carioca, Suíte Leopoldina e Noturno Copacabana tiveram algumas faixas com essa roupagem. A novidade é um disco inteiro dedicado a sua obra vestida a rigor. “Rasgando Seda”, a música que intitula o disco, é uma das mais jobinianas de suas peças. É um choro-canção que extrai do período mais importante da obra de Antonio Carlos Jobim – de 1973 a 1975, com os discos Matita Perê e Urubu – suas soluções harmônicas e contracantos, com a peculiaridade vio-

Capa do Disco lonística da obra de Guinga (e o arranjo competente de Vittor Santos). Não por acaso, lá pelo final da introdução, há uma sutil citação às primeiras cinco notas de “Nuvens Douradas” – uma marcha-rancho presente em Matita Perê. Isso faz com que o disco adquira uma carga simbólica muito grande, na medida em que o Quinteto, que leva nome de nosso maior compositor, homenageia Guinga e cita o período mais sinfônico (e desconhecido) da obra de Tom Jobim. Toda a linhagem direta de nossa melhor música é reverenciada numa tacada. E isso é o que torna o álbum tão importante: o disco alcança o pódio rarefeito da produção mais pujante da música brasileira, no limite entre o popular e o erudito. Rasgando Seda, portanto, retoma essa linhagem do ponto onde Antonio Carlos Jobim nos deixou, há quarenta anos. Os discos de Tom tiveram silenciosa potência sísmica. Receberam pouca repercussão midiática na época, para desgosto do compositor, e até hoje não ganham a importância merecida. Trajetória semelhante se seguirá com o disco de Guinga. Mas daqui para frente, todo o ouvido sensível à música brasileira deve se atentar a seus próximos passos: qualquer pisada no calçadão do Leblon pode abalar os caminhos de nosso cancioneiro popular. Andrés Segovia, o violonista responsável por trazer o violão – instrumento essencialmente popular – à sala de concerto, dizia que o violão era uma orquestra vista por binóculos ao contrário: uma mini-orquestra. Guinga realiza um movimento análogo, maximizando o instrumento, tornando-o uma coisa só com o Quinteto Villa-lobos, em algum lugar entre os coretos das praças e a sala de concerto. Ou, nas palavras do próprio compositor, “no coração do ouvinte”.


poesia. 19

Esfriou ta mas a gente se esquen

Por Xe Pó

Sabe, minha casa está limpa, e à noite vou beber um vinho que hoje amanheceu friozinho e eu quero me sentir supimpa Também vou procurar teu carinho cada vez que encher minha Taça Beijarei com ternura o vidro e o líquido seguirá o seu caminho Natural que é para dentro d’Eu, como você e aquecerá o meu coração, como você e embriagará o meu Deus, como você e desligará a minha razão, como você e quando a garrafa acabar, vai me restar a noite afora mas eu não a quero, não agora porque agora eu quero você! E como...

nosso Pai nosso

Por Oiák Karas

Pai nosso que estais no céu revisto seja teu rosto responde às cruzes feitas com a mão assim na terra como no mar deitado em terra. Libere o perdão às nossas cicatrizes assim como nós esquecemos aquelas que o senhor nos tem feito. Aproxima-nos do rosto da mulher nua; visto que o mal, hoje, deixou de ter [cabelos longos. Sobre o pão: dai-nos em abundância [para não competirmos com os commodities e a especulação. Livrai-nos do mal. Assim na terra e não de outra maneira.

experiência esquizofrênica nº 2

Por Monica Marques


rodapé. 20

Cruzadinha

Horizontais 3) Fez observações astronômicas bastantes precisas, as quais foram utilizadas posteriormente por Kepler; morreu por não ir ao banheiro. 4) Filósofo que disse “a natureza é livro aberto escrito em caracteres matemáticos”. Defendeu o sistema cosmológico de Copérnico. 5) Para este autor, Deus e Natureza seriam nomes diferentes de uma mesma realidade, onde a natureza seria a manifestação necessária da existência daquele. 7) “existo ... penso”, segundo a ordem das razões é a 2ª certeza. 9) Filósofo inglês que é considerado o pai do liberalismo. 10) “... de pascal”, argumento elaborado pelo filósofo para convencer o interlocutor da existência de Deus e do benefício de uma vida virtuosa. 18) Mania do século XVII de sistematizar todo o conhecimento segundo o modelo matemático, que tem como característica a crença desmedida nos poderes da razão humana. Motivo de grandes dores de cabeça. 19) Método de ensino das escolas medievais, com forte ênfase na dialética e na aquisição de conhecimentos por inferência. Tomás de Aquino é um dos seus maiores representantes. 20) Grande filósofo de séc. XVII que morreu por dar aulas de filosofia ao amanhecer. É em homenagem a este autor que, em geral, o nosso Departamento não ministra aulas pela manhã. 21) Unidade fundamental da alma para Leibniz; unidade de força indecomponível. 22) Instituição da Igreja Católica responsável pelo controle ideológico durante o séc. XVII. 23) Método de investigação segundo o qual a percepção é a única fonte de conhecimento; tem como

confira as respostas em fflch.usp.br/df/caf/

lema a expressão “só acredito vendo”. 24) Filósofo que defendeu a idéia de que “o homem é o lobo do homem”, e que o Estado seria única forma de garantir a paz civil entre os homens, igualmente vulneráveis uns aos outros por natureza. 25) Guerra ...”, revolta que contestou o poder do rei, e terminou com a condenação de Carlos I à morte. Verticais 1) “Guerra dos ...” que se deu, entre outros motivos, devido as rivalidades entre católicos e protestantes 2) Outro nome para filosofia primeira. 4) Motivo pelo qual eu posso, usando a razão, duvidar que 2+2 seja = 4. 6) “Papa ...”, foi o papa de 1623 a 1644. Foi durante o seu papado que Galileu foi condenado pela Inquisição. 8) Foi usado como exemplo por Descartes para demonstrar que os corpos, em sua natureza, são mais difíceis de serem conhecidos do que o espírito. 11) Para Espinosa havia só uma, para Descartes havia três (Deus, extensão e pensamento), para Leibniz havia infinitas delas; e os químicos conhecem 111 das simples. 12) “... provisória”, um bom álibi para não fazer aquilo que se reconhece como correto. 13) Única fonte possível de conhecimento, segundo Locke. 14) Descartes, com seu chambre, é considerado um homem “claro e ...”. 15) Filósofo que pretendeu criar um racionalismo integral; foi matemático e diplomata, tendo como projeto político a união das igrejas cristãs. 16) A coisa mais bem distribuída do mundo. 17) “princesa ...”, possível amor platônico de Descartes.

Jornal da Filosofia nº0  

Primeira edição do jornal de estudantes de Filosofia da Universidade de São Paulo.

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