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retalhos da vida de médicos

visita demorada à Baixa de Coimbra

os jovens que querem ser políticos

entrevistas a Pedro Paixão, Padre Feytor Pinto e Gonçalo Quadros

aqui dentro


(Pรกgina deixada propositadamente em branco)


cader nosdejor nalismo

secção de comunicação

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departamento de filosofia,

n 03 n 04

mar

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comunicação e informação colégio de s. jerónimo www.uc.pt/fluc/dfci/ imprensa da universidade de coimbra rua da ilha 3001-451 coimbra e-mail: imprensauc@ci.uc.pt www.uc.pt/imprensa_uc

cadernosdejornalismo.uc.pt

Dossiê Uma nova questão coimbrã A baixa ao centímetro . 4 Os dois grandes inimigos: água e abandono . 5 Regenerar sem perder as raízes . 7 A baixa nossa de cada dia . 9 Comércio tradicional: memórias do passado

e vivências do presente . 16

Salão Brazil: do ambiente retrô

à vanguarda musical . 19

O fado da Diligência . 20 Um novo rumo para a Baixa . 22

Entrevistas Pedro Paixão: Digo que sou uma escrivaninha . 26 Padre Feytor Pinto: Se a pedofilia viesse na génese do

Homem, eu agora absolvia toda a Casa Pia . 31

Gonçalo Quadros: O sucesso é

uma palavra perigosa . 35

Reportagens Viagem ao coração de uma aldeia . 38 Porque somos vaidosos, os CJ apresentam-se em dose dupla. Porque somos penitentes, os CJ compensam

Um dia, quando for grande, quero ser político... . 41

Best of Jornalista (c)sem horas do outro lado do mundo . 48 Nos caminhos da (in)dependência do jornalista . 59

a ausência com dose dupla. Dois números numa edição muito especial.

Especial Medicina de proximidade O centro das atenções . 69 O médico também tem que ser um confidente . 71 Prestar cuidados de saúde primários

de qualidade dá muito trabalho! . 74

Leituras O pintor de batalhas . 77 Un certain regard À procura do desassossego . 82


DossiĂŞ 2

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Baixa de Coimbra


Uma nova questão coimbrã A Baixa de Coimbra está a mudar. Por bons e maus motivos. Há um processo de reabilitação em curso e um projecto para a passagem do futuro metro por aquela zona; há uma crise do comércio tradicional e algumas lojas novas a surgir; há queixas de moradores e lamentos dos que foram obrigados a mudar de residência; há espaços que animam a noite, com fado, jazz e música popular. Há gente contra, há gente a favor. Nas páginas que seguem falamos de tudo isso, através de um conjunto de trabalhos dedicados à velha baixinha da cidade.

Baixa de Coimbra

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A baixa ao centímetro texto: Cátia Mogo, Tânia Amaral e Tiago Canoso

Ao longo de um ano e meio, mais de 700 edifícios da Baixa de Coimbra foram “levantados” à fita métrica. O objectivo do estudo encomendado à Universidade de Coimbra foi conhecer, esquematizar e classificar a arquitectura civil de modo a orientar a reabilitação urbana daquela zona. Equipas de Arquitectura, Engenharia e Sociologia, apoiadas pela câmara municipal passaram a pente fino a maioria dos prédios. Um método simples, mas com uma execução demorada. Cada casa foi visitada por uma equipa de três pessoas divididas pelas tarefas de medir e anotar. Sandra Pinto, a supervisora, confessa que “às vezes havia erros porque ditar números constantemente engana”. Assim, a solução para o problema passava por voltar ao terreno e repetir as medições de maneira a que todos os dados fossem correctamente inseridos no programa informático. Um trabalho exaustivo e minucioso, apenas possível com a colabo­ ração dos proprietários. Contudo, nem todos os fogos foram levantados, pelos mais diferentes motivos. Por medir ficaram as casas mais recentes, cuja estrutura é conhecida, as casas em más condições de conservação para serem visitadas e ainda aquelas que já só mantêm as fachadas erguidas. Por outro lado, ficaram também excluídos da iniciativa todos os edifícios da área abrangida pela empresa Metro do Mondego e as casas onde não foi concedida autorização para entrar. Este foi um estudo realizado em conjunto com as equipas de Engenha­ria e Sociologia, mas Walter Rossa, responsável pela área de Arquitectura, acredita que a sua equipa “foi a que teve menos surpresas porque a história urbanística da zona já era conhecida”. Ainda assim, o coordenador diz ter sido “interessante entrar nos edifícios e verificar as alterações que se registaram ao longo dos tempos”. Fazer a classificação do valor arquitectónico do tecido urbano no terreno foi também um objectivo. Todavia, para além do Paço do Conde, na rua Adelino Veiga, não foram encontrados mais exemplos de edifícios notáveis. Segundo Walter Rossa “não há edifícios muito mais importantes do que outros, pois a Baixa é toda ela equilibrada e muito valiosa”. O professor explica a ausência de património monu­ mental através da história de Coimbra, uma cidade onde a nobreza nunca se fixou. Assim, os edifícios de valor arquitectónico estão, na sua grande maioria, situados na Alta e ligados à Universidade. O trabalho levado a cabo foi orientado de modo a permitir o cruza­ mento de informação entre as três áreas do estudo: arquitectura, patologias da construção e sociologia. O armazenamento e análise dos dados recolhidos foram realizados através de meios informatizados e para tal foi criado o Sistema de Informação para a Gestão Urbana.

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O SIGUrb é uma ferramenta inovadora que possibilita compreender a situação actual de toda a zona da Baixa. A função do SIGUrb visa servir de base para o projecto da Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU), definindo as prioridades dos planos de intervenção. No entanto, atendendo ao coordenador da equipa de arquitectura, “com a lógica da SRU os levantamentos que fizemos não servem para nada”. Walter Rossa aponta o dedo à Câmara Municipal por falhar nas políticas adoptadas e declara que o problema reside na falta de gestão urbana: “o nosso trabalho foi em vão porque, no fundo, não está a acontecer nada”. De acordo com o mesmo professor, a SRU está à procura de grandes investidores, interessados em comprar quarteirões, para demolir o interior dos edifícios construir escritórios e recuperar apenas as fachadas. Walter Rossa, porém, considera que o futuro da Baixa passa por uma reabilitação de pequenos investidores, que tragam os habitantes e o comércio de volta, porque “nunca se fez o que é essencial, que é tornar a Baixa um produto atractivo”. Seria um projecto a longo prazo tal como aconteceu no Porto, em Gui­ marães ou no bairro da Mouraria, em Lisboa, ou seja, “um processo para durar 20 anos”. Contudo, o professor contesta o rumo que o projecto tomou logo desde o início, declarando que “os assessores do vereador da habitação eram visionários demais e estavam plenamente convenci­ dos que faziam a reabilitação da baixa num mandato de quatro anos”. Por enquanto, “a primeira unidade de intervenção das SRU ainda não avançou por falta de financiamento”, explica a supervisora Sandra Pinto. No sítio da Internet da Sociedade de Reabilitação Urbana, o panorama confirma-se. As notícias mais recentes datam de Outu­ bro de 2008 e referem não só a intenção de constituir um Fundo de Investimento Imobiliário para avançar com a reabilitação urbana da 1.ª unidade de intervenção, como também as negociações que decor­ rem no sentido de escolher um parceiro privado para a 2.ª unidade de reabilitação. O sítio não adianta qualquer tipo de processo em marcha neste momento. O risco é que a radiografia tirada à realidade urbana da Baixa ao nível sociológico, arquitectónico e das patologias da construção se desac­tua­li­ ­ze no caso de nenhum plano ser colocado em prática. Walter Rossa alerta ainda para os perigos de se descurar aquela zona da cidade: “se Coimbra continuar a desprezar completamente a Baixa, vai perder um capital importantíssimo do ponto de vista do seu desenvolvimento, do seu futuro e da sua sustentabilidade”. O professor esclarece que o trabalho foi uma tentativa bem intencio­ nada e patrocinada pela Câmara, mas que carece de gestão urbana, pois “falta-lhe os pés bem assentes na terra”.

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Os dois grandes inimigos: água e abandono texto: Cátia Mogo, Tânia Amaral e Tiago Canoso Durante cerca de dois anos, a Baixa de Coimbra foi alvo de uma profunda investigação levada a cabo pela Universidade. O trabalho nasceu, em 2003, com um protocolo assinado entre a Câmara Municipal e a Universidade de Coimbra (UC), no âmbito do Processo de Reabilitação Urbana e Social da Baixa e contou com o empenho de várias dezenas de jovens licenciados em sociologia, arquitectura e engenharia. Desta investigação resultou um estudo interdisciplinar sobre o centro histórico, no sentido de permitir apoiar o processo de reabilitação, não só a médio e longo prazo, como também de imediato, através da identificação das situações de risco construtivo, patrimonial e social iminente. Deste projecto, há a salientar a equipa chefiada por Raimundo Mendes da Silva, pró-reitor da UC e docente da Faculdade de Ciências e Tecnologias, e Eduardo Júlio, professor do Departamento de Enge­ nharia Civil, denominada Patologias da Construção, que analisou os mais de 700 edifícios do Centro Histórico de Coimbra e averiguou quais os seus problemas estruturais, formas de construção e principais anomalias. O objectivo primordial da equipa foi criar uma base de dados que facilitasse e permitisse uma intervenção na Baixa, o mais adequada e sustentável possível, como afirma Raimundo Mendes da Silva. “A equipa de engenharia tinha como missão fazer dois tipos de identificação: por um lado, identificar como é que no fundo as construções eram feitas, por outro lado perceber quais eram as suas principais anomalias para depois se poder reabilitar de uma maneira eficaz e de forma adequada”, explica o Pró-Reitor. Tanto a nível estrutural, como a nível das patologias, o grupo de trabalho lidou com várias dificuldades ao longo de todo o processo, uma vez que se trata de cerca de quinze a dezasseis hectares situados entre a rua Visconde da Luz, a Estação Nova e o Terreiro da Erva. O Pró-Reitor realça que “estamos a falar de mais de 700 edifícios e não podemos fazer ensaios, pois seria impossível do ponto de vista económico, temporário e do ponto de vista da propriedade, pois os edifícios não são nossos, são das pessoas, logo é impensável fazer ensaios directos, destruições, furos e, portanto, a inspecção teve de ser visual, o que limitou muito o nosso trabalho e levou a um determinado tipo de preparação”. Outro aspecto da investigação esteve directamente relacionado com aquilo a que podemos dar o nome de “defeitos”, ou seja, o trabalho da equipa foi dirigido para o nível do planeamento, de modo a reunir dados para a Câmara Municipal poder fazer um projecto a longo prazo. Contudo, o grupo deparou-se com situações que não podem apenas ficar registadas, pois constituem situações graves de insegurança e insalubridade. Nestes casos “é evidente que não se pode passar por um edifício que está a cair, que não tem

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água ou que as pessoas estão em situações de insalubridade terríveis sem fazer um aviso imediato”, realça Raimundo Mendes da Silva. Assim, todos os casos identificados como graves ao longo da investi­ gação foram sendo reportados à Câmara Municipal, para que esta pudesse agir e intervir de imediato. A par das dificuldades e tarefas em paralelo, a equipa das Patologias da Construção contribuiu para o maior levantamento nacional inte­ grado de um centro histórico e obteve conclusões muito variadas e controversas. Acontece que a Baixa, ao contrário do que se podia esperar, tem um conjunto pequeno de edifícios em muito mau estado, o que, no fundo, quer dizer que as casas que se encontram no centro histórico em situação de demolição são muito poucas. Raimundo Mendes da Silva afirma que “no limiar de demolição nós temos muito poucos, ou seja, edifícios que estão do ponto de vista técnico tão maus, ao nível da segurança tão arruinados que não faz sentido estar a reabilitar, além disso não têm um valor patrimonial muito importante e também não têm impacto social”, além de que “depois temos um grupo muito grande de edifícios que precisam de uma intervenção profunda mas não descaracterizadora”. No que diz respeito a este grupo de casas e prédios o principal motivo pelo qual é necessária uma intervenção está relacionado com questões de salubridade, isto é, causas relativas a assuntos de higiene e qualidade mínima de habitação. Para que estas intervenções possam ser realizadas é necessário apoio financeiro, que, no entanto, nem sempre chega aos proprietários. Do ponto de vista técnico é preciso formação para quem vai colocar em prática essas intervenções, não só para os projectistas mas também para os empreiteiros que neste momento estão pouco habituados a utilizar técnicas mais tradicionais. Raimundo Mendes da Silva considera que as técnicas são “um novo mercado na Europa e, claramente, Coimbra ainda tem um núcleo histórico muito bom e seria um grande desafio que as pequenas empresas adaptassem o seu trabalho a esta actividade”. De referir, é ainda o grupo de edifícios, não tão significativo, que necessita de pequenas reparações. Estas casas ou prédios, cerca de um terço do total, estão em bom estado e situam-se, na sua maioria, nas zonas mais próximas da Praça do Comercio. São edifícios que apresentam uma construção mais cuidada, com outra envergadura e outra capacidade de virem a ser reabilitados e constituírem imóveis com alguma pujança. A Baixa é ainda assombrada por um conjunto de construções comple­ tamente dissonantes, que levantam questões urbanísticas e que, na opinião do Pró-reitor, deveriam ser discutidas publicamente, com vista a assumir uma posição relativa à sua demolição ou adaptação.

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Para além das conclusões já evidenciadas a investigação deu ainda a conhecer questões mais concretas e gerais, típicas de centros históricos. Na Baixa de Coimbra o principal problema é as coberturas, ou seja, os telhados, que são essenciais na protecção contra um dos principais agentes de degradação, a água. Esta arrasta consigo situações como o excesso de humidade que fragiliza todo o edifício quer ao nível dos pavimentos, quer das paredes. O mau estado das coberturas requer uma intervenção a curto prazo mas os responsáveis pela investigação consideram que tal acção tem de ser bem estruturada e substituir os telhados actuais por construções de betão não é solução. Raimundo Mendes da Silva acredita que esta reabilitação passa por “pegar nas estruturas de madeira que têm, ver o que são peças aproveitáveis, substituir as partes que estão em pior estado, alinhá-las e dar-lhes uma configuração não deformada, isto é, fazer uma revisão geral dos telhados seria dar muitos anos de vida à Baixa”. A investigação revelou também que o Centro Histórico de Coimbra não apresenta problemas de fundações, não existem questões graves

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ao nível estrutural e a prova disso está na forma como a Baixa tem resistido aos sismos que aconteceram ao longo dos anos. Neste momento, segundo o pró-reitor, os dois “grandes inimigos da Baixa são a água e o abandono”. No entanto, Raimundo Mendes da Silva realça o facto de este centro histórico não estar, para já, num estado dramático como outros centros históricos pelo país. O profes­sor ainda acredita numa recuperação assente neste acordo entre a Câmara Municipal e a Universidade, pois a “Baixa tem vida”. O que é preciso é que as intervenções levadas a efeito sejam “tecnicamente muito correctas para poderem ter alguma consequência benéfica”. O trabalho desenvolvido na Baixa de Coimbra possibilitou aos académi­ cos uma série de outros estudos, como disso são exemplo as teses no âmbito da vulnerabilidade sísmica, das questões energéticas, da manutenção dos pavimentos de madeira, ou seja, “trabalhos de investigação aplicada sobre aspectos que possam contribuir para a baixa e no fundo a usam como ferramenta”. O Pró-reitor conclui que “a universidade se apaixonou pela Baixa e isso pode ser muito positivo”.

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Regenerar sem perder as raízes texto: Cátia Mogo, Tânia Amaral e Tiago Canoso

A reabilitação da Baixa de Coimbra já está em marcha. Após a delimita­ ção da primeira zona de intervenção e da elaboração do respectivo documento estratégico iniciaram-se os trabalhos de cooperação entre entidades camarárias e proprietários. Estão a desenvolver-se os projec­ tos para os proprietários que aceitaram realizar obras de acordo com o referido documento. Já há um projecto acabado que apenas aguarda o levantamento da respectiva licença por parte do proprietário. A acção de reabilitação está a ser coordenada pela Sociedade de Reabilitação Urbana de Coimbra (SRU Coimbra). Esta entidade tem autonomia para a elaboração completa dos projectos, o custea­ men­­­to das obras e, até, para a expropriação de edifícios, de modo a desenvolver um trabalho mais rápido e mais directo. É a própria SRU que se dirige aos habitantes e lhes propõe a reabilitação. Esta entidade está a constituir um fundo de investimento para iniciar os trabalhos de reabilitação nos restantes edifícios da primeira unidade de intervenção. O processo vai executar-se por zonas que já foram delimitadas, estando a Baixa dividida em sete áreas de intervenção diferentes. Para além da primeira zona, que já se encontra em recuperação, estão a ser prepara­ das as intervenções em mais duas áreas com a recolha de informação e posterior elaboração do documento estratégico. Estas intervenções serão na área envolvente ao Terreiro da Erva e no quarteirão onde existiu o primeiro hospital de Coimbra, junto à Praça do Comércio. Segundo o arquitecto Nuno Cruz, membro da SRU Coimbra, “a reestrutu­ ração será feita caso-a-caso”. Apesar de existir o documento estratégico para toda a zona de intervenção, o referido processo comportará métodos bastante diferentes consoante as estruturas e patologias de cada edifício. “Nalguns casos, [a metodologia] será demolir com­ pletamente o interior e manter o aspecto exterior”; noutros casos quando os edifícios não tiverem largura suficiente para suportar um apartamento de tamanho mínimo, serão ligados por dentro de modo a criar um espaço de maiores dimensões. A SRU pretende adaptar as condições vivenciais existentes às neces­ sidades da vida moderna. Nessa perspectiva, a primeira área de intervenção terá um parque de estacionamento que permitirá um lugar por habitação, funcionará como garagem privativa mas será um parque descoberto. Com o fluir de habitantes far-se-á também a reabilitação do comércio, embora, como sustenta Nuno Cruz, “mais importante que abrir mais comércio é abrir comércio de qualidade que atraia mais pessoas”. A premissa principal da SRU é que “não haverá destruições massivas”. Os edifícios manterão sempre o aspecto exterior mesmo que todo

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o interior seja descaracterizado na reconstrução. Uma das técnicas usadas para a recuperação do edifício será o reforço por betão armado. O último recurso que a SRU propõe usar para a reabilitação da Baixa é a demolição completa, que apenas acontece no caso de edifícios num estado de degradação avançado e irrecuperável. Segundo um estudo realizado por uma equipa multidisciplinar da Universidade de Coimbra (UC) o número de estruturas no limiar da demolição é muito reduzido tendo em conta os mais 700 edifícios analisados. Raimundo Mendes da Silva, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologias da UC (FCTUC), que coordenou uma das equipas envolvidas no estudo sobre a Baixa, afirma que “é muito mais fácil reabilitar [que reconstruir] desde que as pessoas entrem nessa rotina e aprendam. É muito mais barato, mais assertivo e mais sustentável”. O estudo aponta muitos edifícios que precisam e a que são mais viáveis com um pavimento de madeira do que com um de betão. O reforço com betão poderá ser uma técnica descaracterizadora. Para além das questões de habitação e estética, o professor da UC refere também a questão da segurança. “As grandes campanhas em termos de segurança na baixa neste momento são a dos telhados e uma campanha de atirantamento, consistindo uma barra de aço que une uma parede à outra, é discreta, é cara, mas dava-nos um nível de segurança completamente diferente”. Neste momento, fora da primeira área de intervenção, há um conjun­to de obras a decorrer na Baixa em estruturas que precisavam de ser tratadas com maior urgência. No parecer de Mendes da Silva, a câmara e a SRU estão a levar a cabo um bom trabalho na recuperação dos casos de risco. Contudo, nas outras propostas da SRU que ainda não estão concretizadas existe o problema de não se atingir o objectivo de sustentabilidade económica, o que nem sempre é possível num centro histórico com estas características e tendo em conta um espaço de tempo curto. Para a sustentabilidade económica vai ser preciso um período maior, pois o processo de construção sustentável prevê-se mais lento. “O que falta é uma verba no novo quadro dos fundos europeus que permitisse uma intervenção estruturante de maneira a que as inter­ venções da câmara e da SRU fossem pontuais dentro de um quadro geral de reabilitação, isto é, que a câmara, que é quem gere a cidade, tivesse uma capacidade financeira para gerir um plano para inter­ venção de fundo, para aquilo que é fundamental, e para auxiliar os proprietários a terem projectos. Há aqui uma dinâmica que precisava de uma intervenção mais estruturada e que só se faz com um fundo estrutural”, afirma o professor da FCTUC. Segundo as conclusões

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da equipa coordenada por Mendes da Silva os projectos parecem desadequados ao espaço da Baixa, mas como ainda não estão concretizados podem sempre sofrer melhoramentos. Os objectivos patentes no documento da primeira área de intervenção resumem os objectivos e projectos globais para a Baixa. A reabilitação tem como objectivos requalificar os núcleos habitacionais com níveis de habitabilidade e de conforto mais elevados. Na primeira área de intervenção este objectivo inclui cerca de 360 fogos de diferentes tipos de habitação. Há uma grande preocupação em recuperar a antiga popu­ lação da Baixa tanto ao nível da diversidade como em números. Isto vai fazer-se através da fixação dos actuais moradores assim como trazer população jovem à Baixa, sendo esta mais flu­tuante, inclui estudantes, jovens que acabam de entrar no mercado de trabalho e famílias jovens. No documento estratégico é também referida a importância de integrar o comércio e o turismo na recuperação, através da requalificação do pequeno comércio assim como do tradicional e permitindo que a Baixa tenha comércio suficiente e em qualidade capaz de servir a futura p o p u l a ç ã o re s i ­ dente. Para além de serviços e c o ­m é r c i o , o s re s i d e n t e s v ã o necessitar de estru­ turas recreativas e de animação socio­ cultural. Prevê-se a construção de um equi­ pamento deste género na primeira área de interven­ ção. Há também uma preocupação centrada nos espa­ ços conviviais como pequenas praças para um incremento nas actividades de animação urbana, quer diurna, quer nocturna. Estes objectivos para a primeira área re f l e c t e m o s objectivos globais para a Baixa.

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A baixa nossa de cada dia texto: Bianca Faciola e Fátima Almeida

As histórias do passado são as mais frequentes. Fotografias fiéis à memória são retiradas das gavetas para ilustrar um mundo que passou. Antes o convívio alastrava-se pelas ruas estreitas, tornando-as ainda mais apertadas. Juntavam-se para conversar e ver o movimento que corria por todas as artérias. É disso que fica a saudade. “A baixa parecia o barco do amor”, um cantinho que Isaura Sousa, 71 anos, recorda. Vive na baixa de Coimbra há 50 anos e de lá não quer sair. A renda de 250 euros é alta para quem recebe uma reforma de 243, mas o filho faz o esforço para que consiga continuar na sua “Baixinha”. Isaura admite que, se não tivesse possibilidade de pagar, alugaria apenas um quarto. É importante viver na Baixa, “é a sua sobrevivência”; lá tem tudo à porta e, apesar de muitos dos que conhece já terem partido, ainda tem algumas pessoas “que lhe podem ir deitando a mão”. A casa, na Rua do Corvo, é pequena, mas maior do que a de Argentina Peixoto, na Rua Mário Pais. A última é um compartimento separado em quatro divisões: quarto, cozinha, casa de banho e sala. O espaço, inicialmente pensado para um escritório, é a casa pequena, mas cheia de recordações, onde Argentina vive desde 1964, altura em que casou. Hoje mora sozinha, mas antes vivia com o marido e os dois filhos. A sala, onde nos mostra fotografias e livros dedicados à Baixa e a toda a cidade, convertia-se, depois do jantar, no quarto dos filhos: “abriam-se aqui os divãs e tinha sala durante o dia e quarto à noite”. O marido, quando era vivo, comprava-lhe os legumes na mercearia da D. Maria da Luz na Rua Direita. E por toda a Baixa davam a volta a que chamavam “dos tesos”, caminhando até ao Mondego. Mas o ritmo abrandou. Não o dos passos – estes fluem com mais rapidez –, mas o fervilhar do dia-a-dia e o burburinho característico das ruas medievais, entrelaçadas, labirínticas, que antes, atravessadas por um vai e vem constante de transeuntes, pulsavam vivas e alertas. A desertificação da Baixa é um dos principais lamentos daqueles que ainda lá vivem ou viveram. A falta de condições adequadas à habitação fez com que muitos abandonassem o local. Alguns em busca de melhores alojamentos; outros, constrangidos por circunstâncias que não puderam controlar. É o caso de Marta da Silva, 34 anos. Nasceu e viveu a vida toda na Rua Direita. Mas a casa estava a ruir. No quarto, as noites tornaram‑se insistentes temporadas de receio: o barulho dos ratos a caminhar incomodava o sono. Há sete anos, um acordo com a Câmara Munici­ pal de Coimbra proporcionou a mudança para um outro imóvel na Avenida Fernão Magalhães, não muito distante da Baixa. A mãe, reformada e moradora da Baixa desde que nasceu, já não via bem e, por isso, não podia utilizar o transporte público. Assim, era preciso estar, pelo menos, próximo da Baixa, onde estavam “perto de tudo”:

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“aqui também estamos, mas lá era a nossa casa”, conta com uma voz lenta acompanhando as mãos. A mudança foi para um apartamento de qualidade superior, admite Marta, e isso deixa-a satisfeita: “aqui também estamos bem e a renda não é cara”. Mas há um sabor a saudade. A relação com os vizinhos, o convívio, volta a ser a perda fundamental. Maria Lemos, 89 anos, – ou Maria do Porto, como é conhecida – também saiu da Baixa por se encontrar numa casa sem o mínimo de condições para habitação: as escadas eram inseguras, o tecto estava a rachar e, em dias de céu cinzento, a chuva conseguia entrar. Actual­ mente, realojada na Rua António José de Almeida, saiu da Rua das Canivetas com a esperança de voltar, após a reabilitação da casa, a cargo da Câmara Municipal. A esperança é muita e persiste há cinco anos. Mas não foram cinco, e sim setenta os anos que passou na Baixa. Veio do Porto ainda adolescente e nunca pensou em regressar. Viveu a mocidade, casou e sempre morou nas ruas da Baixinha. O marido ainda chegou a acompanhá-la na mudança para o novo endereço. “Assim foi com o meu marido, morreu com saudades da casa”, afirma. Custa-lhe muito estar ali. É Paulo Lemos, o sobrinho, que sempre morou com a D. Maria, que a ajuda a completar as frases que a tia não consegue levar até ao fim. A voz dela vai-se apagando entre as lágrimas. Quer voltar “quando a casa estiver pronta” – é resposta imediata aos que lhe perguntam quando regressa à sua rua. Não foi apenas a danificação das casas que afastou da Baixa os que há muito por lá estavam. O projecto do Metro Mondego também mudou a vida de algumas pessoas. É o caso de Maria Emília da Silva, 39 anos. Mila, como gosta de ser chamada, afirma que há dois anos foi notificada verbalmente, sem aviso prévio formal, de que teria de deixar o imóvel – alugado a um senhorio particular – em que morava, na Rua Direita, e declara que lhe deram apenas 24 horas para fazê-lo. Propuseram-lhe que fosse para uma pensão, levando apenas algumas roupas, e que lhe tomariam conta dos bens, que seriam guardados num depósito. Com dois filhos pequenos sob sua responsabilidade, não aceitou. Ela conta que, depois de recorrer a um advogado, conseguiu um prazo maior, saindo ao fim de duas semanas, após encontrar um outro imóvel na Rua de Aveiro. “Eu nasci ali, fui criada ali e não ia ser assim de qualquer maneira que eu me ia embora”, enfatiza. Mila ressalta que ela própria arranjou o outro imóvel. “Andei um dia inteiro, uma noite inteira à procura de casa”. Refere que o valor que paga actualmente de renda é bem maior do que o que antes pagava. “O dinheiro que o Metro Mondego deu às pessoas não dá para aquilo que agora as pessoas estão a pagar de renda, porque eu pagava 40 contos e aqui estou a pagar 360 euros”. Mila reconhece

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que de certa forma foi uma mais-valia ter saído da Baixa, já que a casa também não estava em condições. “Chovia lá como na rua”, lembra. Entretanto, acha que o processo de saída, com prazos tão curtos, não foi correcto. “As pessoas não tinham nada programado de que isto ia acontecer na vida delas. Para quem tem salários baixos e não tem uma vida avantajada é muito complicado”, salienta. Como os demais moradores, ela também lamenta o fim do convívio que ali tinha. “Aquilo era tudo uma família, conviviam uns com os outros, assava-se uma sardinhada. E agora cada um foi para o seu canto”. Sobre a nova moradia, revela: “Eu entro e saio daqui, ninguém me conhece e eu não conheço ninguém”. O ambiente familiar em que todos se conheciam ficou para trás. Também outro assunto sempre vem à baila quando se fala da Baixa com os antigos moradores. A visão que têm hoje, após a demolição de parte do casario em função das obras do Metro Mondego, não os deixa contentes. “Acho que está uma Baixa muito triste para as pessoas que ali viviam. A gente olha para ali e só vê parede, não vê mais nada”, diz Mila. Afirma que se sentiria mais confortável se a situação fosse outra. “Se disséssemos que saímos por uma boa causa, que fizeram coisas úteis, mas a gente não está a ver nada”, desabafa. Como Mila, a irmã, Marta da Silva também expressa a sua indignação pelo estado actual da região onde viveu. “A gente sente-se um bocado mal, tenho muita pena de aquilo estar assim. Porque se aquilo fosse realmente recuperado e se pensam realmente em fazer o metro, acho que ficava bonito. Ao menos que avançassem com o metro, não deixassem aquilo abandonado”. E acrescenta: “Estavam com tanta pressa para tirarem as pessoas dali, para deitarem tudo abaixo, para adiantarem o metro e chegou ali e parou”. Outra queixa comum é a da falta de segurança na Baixa. É frequente dizerem que sentem medo, especialmente à noite, após o fecho do comércio. Marta justifica a questão dizendo: “É porque aquilo está completamente um deserto. Tenho lá passado e noto perfeitamente”. Paulo reforça: “Ouve-se falar em muitos roubos, as pessoas de mais idade têm mesmo medo”. E Isaura relata: “Agora já nem se pode andar na rua. Uma vez vinha do Minipreço e roubaram-me o saco. A sorte é que levava pouca coisa”. Ela diz que agora só há pedintes e que, às vezes, nem pode ir à varanda por causa de só ver prosti­ tutas e toxicodependentes. Desgostosa, acrescenta: “A Baixa Já foi um espectáculo. Podia-se deixar as chaves por fora. Agora está mal. Até a roupa das sacadas já me levaram”. Apesar dos inconvenientes, declara: “Eu tenho-me aguentado aqui porque gosto da Baixa, senão já cá não estava há muito tempo. Se saísse daqui, morria logo”. É na Praça do Comércio que o Sr. Afonso também vai ficar: “até me levarem”, afirma. As dificuldades e o medo também o acompanham numa história de 78 anos a viver na Baixa de Coimbra. Sente inse­ gurança quando sai. A degradação que vê da janela diz contribuir para aumentar o receio: “até vendem aqui droga no meio da praça”. Em contraste com o medo, está a saudade de “brincar ao botão, jogar

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à bola na Praça” e das sessões de “anedotas contadas nas escadas de São Tiago”. Sentado no sofá da sala, a conversa flui à hora da cami­ nhada da manhã que já há muito se faz sem “os encontrões uns aos outros” pelas ruas onde não se rompia. Saídos das casas encontram-se olhares fortuitos a observar algumas montras, casas antigas com aspecto abandonado, vidros quebrados e grafites. Varandas de ferro forjado, janelas de avental e painéis de azulejos passam, por vezes, despercebidos por aqueles que não têm vínculos com o espaço. Sem notar o que há escondido por trás da deterioração, a história presente em cada um dos edifícios arrisca-se a desaparecer, pois, face ao descuido, dificilmente se identifica o valor.

Metro Mondego e freguesias de Santa Cruz e São Bartolomeu Alexandra Quaresma, representante do Departamento de Comunica­ ção e Marketing do MM, afirma que o processo de expropriação do casario respeitou todos os prazos e procedimentos legais. “Depois de as pessoas saberem que iriam ser expropriadas, foram iniciadas, com os advogados, as negociações, quer para adquirir os edifícios, no caso dos proprietários, quer para negociar as indemnizações com os arrendatários”, diz ela. Refere também que o início oficial do projecto data de 2001 e declara: “Não estamos atrasados, pois, se fizermos uma análise histórica dos projectos de metro na Europa, dez anos é o período de maturação necessário”. Sobre as causas do esvaziamento da Baixa, Pinto dos Santos, Presidente da Junta de Freguesia de St.ª Cruz, cita a degradação do casario e a urbanização da zona envolvente da cidade, além do envelhecimento natural da população, que foi diminuindo. Aponta ainda que, quando as casas começaram a vagar, os comerciantes passaram a ocupar os andares para servir de depósito, o que inutilizou muitos espaços de moradia. Já o Presidente da Junta de S. Bartolomeu, Carlos Clemente, avança com outro factor. Refere que o objectivo dos senhorios que ainda fazem obras é alugar quartos a estudantes. No seu entender, a grande rotatividade deles gera a dificuldade de fixar uma habitação permanente na Baixa. Salienta, entretanto, que a maioria dos proprie­ tários não está vocacionada para reparar os imóveis e quando surgem investidores, os preços para a venda são exagerados. Por outro lado, Pinto dos Santos é da opinião de que a falta de segurança não é aspecto característico da Baixa. Refere que a Comuni­ cação Social tem responsabilidade na sua associação a uma espécie de “Far West”, fomentando a ideia de que todos os dias nela acontecem assaltos. “Todas as noite venho à Baixa e felizmente até hoje nunca me aconteceu nada”, diz ele. Para ambos, o metro será uma mais-valia, uma aposta na revitalização da zona e na melhoria do tráfego no centro da cidade.

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Comércio tradicional: memórias do passado e vivências do presente texto: Maria da Luz e Stéphanie Leitão

Travessas, becos e ruelas estreitas... Percorremos a Baixa em busca de memórias de um tempo que já não existe. Há 40 anos aquelas ruas fervilhavam de gente. De Aveiro a Leiria, as pessoas vinham a Coimbra fazer compras. Hoje já não é preciso pedir licença para conseguir passar. As lojas vão encerrando, sinal visível da decadência do comércio tradicional. Os Marthas, as Galerias de Coimbra, a Casa Modelo, os Veigas, dia após dia, mais estabeleci­ mentos fecham as suas portas. Preocupados com o futuro, os comerciantes hesitam em falar dos velhos tempos. A Baixa enfrenta uma crise por falta de clientes. Hoje quem a frequen­ta são sobretudo pessoas que ali trabalham e moram. Pessoas que têm alguma ligação directa com a Baixa. Grande parte das lojas continuam a oferecer um tipo de produtos que já não corresponde ás expectativas do mundo actual, como se o tempo nunca tivesse passado. “Alguns estabelecimentos ainda são capazes de estar como estavam há 30 anos atrás, sem se preocupar em investir na modernização das lojas: nas montras, nas luzes e no seu interior”, afirma Pinto dos Santos, Presidente da Junta de Freguesia de Santa Cruz. As lojas de sapatos, de loiças, de tecidos, de pronto-a-vestir, mais típicas da Baixa, não conseguiram renovar-se para atingir novas clientelas. José Carlos Clemente, Presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, refere que “o tecido empresarial está a envelhecer e a Baixa precisa de lojas de referência, ou seja de determinadas marcas, para atrair os jovens”. O alargamento da zona comercial da cidade e o aparecimento das grandes superfícies, são algumas das causas apontadas para o declínio da Baixa, que assim deixou de ser o centro de negócios previlegiado de Coimbra. O comércio tradicional sofre agora a concorrência dos centros comerciais, que têm outros atractivos para oferecer, como estacionamento gratuito, cafés e cinema. A coexistência entre estes dois tipos de comércio parece ser difícil mas, segundo Luis Fernandes, dono de uma loja de antiguidades, poderia ser possível se “o poder político local tivesse em conta que é necessário proteger o elo mais fraco, que neste momento é o comér­ cio tradicional.” E acrescenta ainda que cuidar deste seria uma “boa componente turística.” Num passeio pela zona que tão bem conhece, o antiquário fala acerca dos problemas que esta ultrapassa. “A Baixa não soube guardar

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os seus espaços míticos, cafés como A Brasileira, O Arcádia, e o Cinema Tivoli, que contribuíam para o dinamismo do centro his­ tórico desapareceram”, deixando-o com um vazio que causa saudade... E se durante a semana ainda é visível algum movimento, no fim-de-semana, as ruas labirínticas tornam-se vazias e tristes. No sentido de contrariar esta tendência, surgiu a campanha conjunta da APBC (Agência de Promoção da Baixa de Coimbra) e da ACIC (Associação de Comerciantes e Industriais de Coimbra), “Baixa de Coimbra: uma porta sempre aberta.”, que promove o funcionamento das lojas ao sábado à tarde. Dois terços dos estabelecimentos já aderiram a essa iniciativa, mas alguns comerciantes mostram-se resistentes. Alberto, empregado da Casa Arménio, na Rua do Corvo, argumenta que a zona “já funcionou ao sábado à tarde” e que “estas iniciativas acabam por desviar a atenção daquilo que é mais importante: trans­ portes públicos adequados, estacionamento gratuito e a necessidade de investir em cafés e bares apelativos.” Na altura de procurar soluções e tomar decisões, os comerciantes não conseguem chegar a um consenso. As opiniões divergem. “A Baixa precisa de transformações, mas os comerciantes estão renitentes face ás mudanças dos costumes, o que coloca um entrave á recuperação da Baixa.”, opina Luís Fernandes, defendendo uma mudança de conceitos, tal como o alargamento dos horários e a possibilidade de estacionamento gratuito, nomeadamente ao sábado. Já António Coelho, dono da Casa Coelho, que existe há mais de setenta anos, não é a favor do estacionamento gratuito porque antigamente, quando ainda não se pagava, “nunca havia lugar, já que estes eram ocupados pelos moradores e vendedores”. Os comerciantes parecem estar desmotivados e descrentes, e de certa forma á espera de medidas imediatas e eficazes que resolvam todos os seus problemas... A Baixa precisa de pessoas que acreditem nela. Precisa de “tentar políticas de atracção junto ao público, mas também junto do comer­ ciante, porque a ele é muito difícil mostrar que é preciso mudar”, insiste Luis Fernando, que escreve diariamente num Blogue, onde discute assuntos relativos à situação desta zona da cidade. Ainda assim a Baixa não deixa de ser o coração da cidade, onde per­ manece grande parte da sua herança histórica e cultural. Caminhamos nas ruas apertadas, entre os expositores de sapatos, de flores, de frutas e legumes e cruzamos-nos com alguns turistas

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e pessoas com alguma idade, que vêm ali fazer as suas compras. Chegamos à Praça do Comércio, umas das mais bonitas e emblemáticas de Coimbra, onde ainda se pre­ servam prédios com as suas fachadas antigas e estreitas varandas. Entre a Igreja de Santiago e a Igreja de São Bartolomeu, a Praça vive de duas esplanadas e das barra­ quinhas de artesanato. No cimo das escadas que ficam ao lado da Igreja de Santiago, um engraxador, já com o peso do trabalho a curvar-lhe os ombros, instala o seu material para dar lustre aos sapatos de um cliente. Talvez seja um dos últimos. O encanto da Baixa, o seu lado mítico e místico, ainda se encontra nesses ofícios de outros tempos e tam­ bém nas antigas Barbearias, Sapateiros, Alfarrabistas e nas famosas Tascas. Locais que fizeram da Baixa um lugar de vivência e de história. E, como diz Luis Fernandes, com um sorriso carinhoso: “a Baixa é como o primeiro amor, que guardamos sempre na memória.”. Não deixa de haver pessoas que acreditam no reencontro de uma “baixinha viva” através da “recuperação e renovação do seu património”.

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As Tascas, lugares que se reconstroem Entrando pelas portas de vai-vem, sente-se imediatamente toda aquela carga histórica e cultural, materializada nos objectos expostos com tanto orgulho. Loureiro à porta, garrafões pendurados à entrada, pipas de vinho, cabaças, frases escritas nas paredes, são alguns dos elementos que compõem um dos quadros mais tradicionais da Baixa de Coimbra. As tascas de Coimbra já foram espaços de encontro de grupos de pessoas. Ao sabor dos famosos petiscos, acompanhados pelo vinho servido em tigelas de barro, reuniam-se num alegre convívio, onde aconteciam intensas discussões acerca de política, de literatura e de tantos outros assuntos. Partilhavam-se alegrias e tristezas, ao som de um fado cantado à desgarrada, ou de simples acordes de guitarra. Daqueles tempos, sobra agora pouco, e a ideia que persiste é uma imagem um pouco degradante. Foram perdendo a aura que as envol­ via, chegando a ser consideradas “pouco recomendáveis”, por serem “frequentadas, essencialmente, por homens, com graves problemas sociais, que procuravam no vinho afogar as sua mágoas.” Chegaram a ser mais do que uma centena. Actualmente contam-se cerca de trinta... Algumas perderam características originais, devido à necessidade de se modernizar para ganhar clientes ou por exigências legais de funcionamento. No Largo do Romal, a Taberna de Norberto Lucas, que existe desde 1937, e que ele adquiriu há 16 anos atrás, conservou apenas as portas

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de vai-vem e os petiscos tradicionais da Casa, nos quais se incluem as papas com petinga assada e a famosa sopa da pedra. E mesmo se “os clientes mudaram, e a cerveja é a bebida de eleição”, o vinho é ainda aquilo que mais serve. Para fazer lembrar o ambiente antigo das Tascas, e a pedido da Câmara Municipal de Coimbra, guardou elementos decorativos: o santo padroeiro e um pipo de vinho, e o tradicional loureiro á entrada, porque “Onde há loureiro à porta, há vinho em casa.” Outras ainda preservam o seu carácter próprio. No cruzamento entre a Rua das Rãs e o Terreiro Mendonça, na Casa Chelense, sobressai o tecto de madeira no qual estão penduradas as cabaças, onde anti­ gamente se guardava o vinho, as espigas de milho, e os cornos de animais. Tudo isso convive com a enorme colecção de notas expostas em cima do balcão. As tapas de sardinha à escabeche, carapaus fritos, bolo de bacalhau, bifanas, orelha, moelas, dobrada, fígado, panados, jaquinzinhos, queijo fresco convidam-nos a provar a gastronomia local. Com o objectivo de recuperar estes espaços do esquecimento geral e revalorizá-los como lugares de referência do património cultural português, a Câmara Municipal de Coimbra decidiu criar uma “rota das tabernas”, que já conta com 27 Casas. Pretende assim incluí-las no circuito turístico. Entre passado e presente, vislumbra-se um novo horizonte. Saímos das ruelas da “ Baixinha” com a sensação que há muito para contar. Nem tudo o que a Baixa foi, é e será cabe nas palavras de um texto.

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© Foto: http://salaobrazil.blogspot.com/

Salão Brazil: do ambiente retrô à vanguarda musical texto: Bianca Faciola e Maria da Luz

De estilo colonial, o imponente edifício do Salão Brazil foi cons­ truído por imigrantes Brasileiros há mais de cem anos. Funcionou originalmente como panificadora, passando mais tarde a restaurante e sala de bilhar. Em 2004, sob a direcção do novo proprietário, Telmo Costa, o Salão Brazil aventurou-se em novos palcos. Nos dois primeiros anos, as noites eram passadas a trabalhar, a recriar um espaço que hoje se tornou mais requintado e, ao mesmo tempo, alternativo. As janelas amplas, uma das características mais apreciadas pelos visitantes, permitem a entrada da luz, da brisa e do som do chafariz do Largo Poço. O pé direito de cinco metros, a música de fundo, a mesa de bilhar, os candelabros minimalistas e os cartazes de eventos de jazz nas paredes dão um toque especial à casa, numa combinação entre bar, restaurante e salão de espectáculos. A cozinha de autor é um dos destaques do local. A especialidade da gastronomia é a Posta Maronesa, carne bovina certificada, da região da Serra do Marão. Segundo Telmo Costa, a casa tem uma clientela variada. Os diferen­ tes tipos de eventos musicais, de jazz, world music, reggae, blues ou rock, conseguem atrair desde o público mais jovem ao mais velho.

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Um grande instrumento de divulgação do Salão Brazil consiste no acolhimento de iniciativas do “Jazz ao Centro”. No entanto, o objectivo não é fixar-se em nenhum estilo musical e, por isso, Telmo espera diversificar ainda mais a programação cultural: “Quero ter uma noite de filmes alternativos, sessões de leitura, lançamentos de livros, festas de aniversário para miúdos durante a tarde, ou seja, estou a procurar um público dos 8 aos 80”, ressalta. As inovações, contudo, não param por aí. Em breve, o Salão vai ter as casas de banho, as escadas, o hall de entrada e as mobílias remo­ deladas. De olho no turismo, o proprietário vê o facto de estarem localizados a 200 metros da Igreja de Santa Cruz como uma mais‑valia e já planeia organizar almoços com grupos de viagem. Mas avisa os navegantes: “Não aconselho ninguém a vir aqui com pressa”. O atendimento mais “relaxado” geralmente faz confusão a quem não dispõe de muito tempo. As tardes do Salão são, em geral, frequen­ tadas por estudantes, principalmente os de Erasmus. Ainda assim, as noites continuam a ser o melhor momento para desfrutar o local. Quando o sol se põe e as últimas mesas são arrumadas, levanta‑se a cortina da música e o Salão Brazil torna-se como que mágico. É, sem dúvida, uma sala com muito charme na Baixa de Coimbra.

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O fado da Diligência texto: Fátima Almeida e Stéphanie Leitão

As luzes ainda estão acesas. As conversas misturam-se entre os risos de quem se conhece. Mas depressa se ouvem mais vozes. Turistas e outros clientes habituais sentam-se à volta das mesas de madeira. Uma delas tem apenas uma guitarra à espera de ser afinada. São dez da noite, soam os primeiros acordes na viola. É assim que o Diligência, escondido numa das ruas da baixinha, abre as suas portas para deixar entrar o fado. Não há palco: é numa mesa entre as outras que o joelho do músico se ergue sobre o banco para apoiar a viola. E as mãos esticam os acordes à voz da rapariga que canta “a solidão na prece de um olhar triste”. Não é só ela que canta. Alguns clientes também se levantam para cantar. O fado faz-se sempre ao vivo ao ritmo dos improvisos. Cria-se o espanto nos que ouvem – os olhos ficam presos na voz. É assim ao

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longo da noite. Partilha-se o fado. Como canta o Zézito, conhecido da casa, “se vocês não estivessem aqui do meu lado então não havia fado nem seria fadista como eu sou”. Esta casa de fado mantém a tradição desde a sua origem, em 1972. Na altura em que surgiu, a sala recebia cantores como Luís Góis e José Mário Branco para tertúlias contra o Estado Novo e para cantar temas proibidos pela censura. Por isso, a PIDE fazia rusgas levando algumas pessoas para interrogatório. A casa é também conhecida pela luta contra o regime. Ainda hoje se canta Zeca Afonso e Carlos do Carmo. “É um espaço como já não existe em Coimbra” conta João Pereira, dono do Diligência desde 1985 e já cliente antes disso. No espaço pequeno cresce uma certa empatia: “ainda se fazem aqui algumas amizades”.

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Š Foto: www.teatro-da-rainha.com Baixa de Coimbra

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Um novo rumo para a Baixa Manuel Antunes O homem da lata Rui Damasceno O tipógrafo que se veste aos papéis Laura Casais As paixões de uma professora

Há uns 15 anos, a Rua Adelino Veiga era uma das mais movimentadas da Baixa da cidade. As pessoas, que vinham dos arredores, chegados à Estação Nova, passavam por ali para entrar na “Baixinha” de Coimbra para fazer as suas compras. Hoje, são muitas as lojas fechadas e as montras vazias. Mas, de repente, uma montra estreita chama a atenção pela roupa pouco comum que ostenta. A vontade de entrar não falta. A loja, Sentido Único, está instalada há três anos numa pequena entrada de um prédio. A empregada Fabiana explica que a decisão de abrir na Baixa partiu do facto das rendas serem mais baratas, mas também da tentativa de “colmatar um pouco a falta deste tipo de comércio na Baixa” de Coimbra. A roupa que vende, de estilo “alternativo”, distingue-se pelos “padrões, cores e cortes diferentes”, algumas da criação da dona da loja e outras importadas de Espanha. Há pouco tempo, a loja abriu outro estabelecimento no centro comercial Girassolum, mas Fabiana não hesita em afirmar que prefere trabalhar na rua Adelino Veiga, porque aprecia a diversidade dos clientes que atende, e o facto dos outros comerciantes serem muito acessíveis. No entanto, é na loja do Girassolum que vendem mais, porque o poder de compra das pessoas que ali vão é muito maior, acrescentando que “na Baixa às vezes passamos dias sem vender nada.” Não é a única loja que propõe um outro tipo de comércio. Por vezes não é à primeira vista que as encontramos. Aberta há 6 meses, na Rua do Almoxarife, a Vapor Qualquer, passa despercebida. Antiga mercearia, o espaço sofreu muitas remodelações. No interior, o tecto é sustentado por uma estrutura de arcos e pilares cobertos por pedras. Os produtos que oferece são em grande parte de origem artesanal, mas a característica fundamental é a preocupação ambiental. Sapatos, t-shirts estampadas, blocos de notas, agendas, brinquedos constituem o variado leque de artigos. A loja já tinha estado instalada no Quebra-Costas mas os donos, Luis Figueiredo e Joana Carvalho, optaram por vir para a Baixa por acharem que esta “está a precisar de uma nova vida” e por quererem “rumar contra a maré.” Segundo Luis, “o conceito principal da loja é a ecologia e originalidade”. Conceito este que choca com o comércio típico da Baixa, o que provoca alguma estranheza nas pessoas que ali passam. Estranheza esta que também é sentida pela Dona Anabela, co-proprietária da loja Coisas e Sabores, na esquina entre a Praça 8 de Maio e a Rua da Moeda. Loja de loiças durante muitos anos, os proprietários decidiram pôr em prática o projecto que já existia há algum tempo, porque o negócio não estava a correr bem. Há dois meses, começou a vender produtos regionais como queijos, enchidos, doçaria, vinhos e licores e artigos de decoração, como é possível ler no atraente letreiro. O espaço foi todo renovado, desde a cor das paredes, ao modelo do mobiliário, às montras, numa junção entre design moderno e estilo antigo. Para a Dona Anabela sair da Baixa está fora de questão, porque é ali que trabalha há mais de 20 anos, e onde se sente em família. “Acompa­ nhei a sua evolução, conheci-a na altura em que estava em alta, e assisti à sua decadência, mas nunca deixei de acreditar que a Baixa vai renovar-se e voltar ao que era há uns tempos atrás, por ser um centro histórico.” Um novo futuro para a Baixa? Talvez. Entre as lojas fechadas e as montras vazias ainda se encontra uma esperança... texto: Maria da Luz e Stéphanie leitão

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O homem da lata

Manuel Antunes

Uma paixão para toda a vida Tem o olhar atento. Como o de uma criança que se senta pela pri­ meira vez no banco da escola primária. Do outro lado dos óculos de armação dourada (antiquados mas eficientes, indiciadores de uma personalidade prática) escondem-se uns discretos olhos cinza que demonstram uma vontade inabalável de compreender o mundo ao seu redor. O seu nome é Manuel Antunes Carvalho, o latoeiro. Por vezes há casos em que a profissão se torna um complemento da personalidade. Um título que se conquista com o tempo, um cargo honorífico que advém da experiência. Este é um desses casos. É certo que quem olha pela primeira vez para Manuel Antunes dificilmente adivinha a sua profissão. Mas não é menos certo que, assim que se sabe, é impossível voltar a separar o homem do seu título. Actualmente vive em Cernache, uma pequena localidade nos arredores de Coimbra. Comparte a casa com a sua filha Helena, de 33 anos. Uma vivenda de cal branca onde Manuel Antunes vai fazendo os pequenos objectos de latão que o acompanharam desde os nove anos. Foi nessa idade que começou a despertar para o artesanato. Começou por fazer púcaros de água em casa dos avós. “Eram mais fáceis”, conta com a voz rouca e enrolada de alguém que está quase a alcançar as nove décadas de vida. Fala pausadamente, inclinando ligeiramente a cabeça para ouvir melhor. Já não é, claramente, a mesma criança que foi criada com os avós em Condeixa. “Eu não o consigo imaginar sem o seu artesanato”, relembra a filha Helena com um brilho nos olhos. “Quando era pequena costumava sentar-me ao seu colo enquanto trabalhava as folhas de lata. Adormeci várias vezes”, continua. Começou a aprender o ofício de latoeiro aos 13 anos. Por essa altura passava os dias (“e às vezes as noites”) na oficina do seu tio. Era uma profissão que lhe estava no sangue. Na sua família era o oitavo homem a trabalhar o latão. Manter-se-ia às ordens do tio durante alguns anos até fins da década de 1930. Apesar de trabalhar com materiais frios, Manuel Antunes sempre foi um homem de sentimentos quentes. José Neto, o dono do estabe­ lecimento onde o latoeiro vai quase todos os dias tomar café e ler o jornal, é um confesso admirador da inesperada vivacidade do seu cliente. “Como sabem que ele gosta de fado, muitos chegam ao pé dele e pedem-lhe que cante uma modinha. Ele nunca diz que não”, conta o comerciante. “Ele é muito acarinhado por todos. Até pelos garotos mais novos”.

Em Espanha, entre 1936 e 1939, estalou o conf lito que opôs nacionalistas a republicanos. A Guerra Civil espanhola foi um dos acontecimentos mais sangrentos do século xx e acabou por se tornar decisiva na vida de Manuel Antunes. O conflito causou uma escassez de materiais e o latoeiro foi obrigado a abandonar a oficina do tio. No entanto, viria a retomar a profissão anos mais tarde, altura em que tomaria contacto como aquela que viria a tornar-se uma das suas maiores paixões: as feiras de artesanato. “Ele adora as feiras de artesanato. Ainda hoje costuma contar histó­ rias que se passaram nas feiras há mais de vinte anos como se tivesse acabado de acontecer”, confidencia a sua filha. Ao olhar para trás, Manuel Antunes contabiliza 115 feiras das quais destaca as duas décadas de participações na feira de Vila Franca. “Foram 20 anos de feira só em Vila Franca e na minha última edição, a Câmara Municipal chegou mesmo a homenagear-me com uma placa com o pelourinho da cidade”, refere orgulhosamente Manuel Antunes. Actualmente, o latoeiro – que se apelida de “o mais antigo de idade e de artesanato” – já não pode participar em feiras por motivos de saúde. Mas de vez em quando não consegue resistir à tentação. O amor fala mais alto. “As feiras de artesanato são uma coisa muito bonita. A minha paixão.” Mas Manuel Antunes faz questão de referir que a sua vida não foi só o artesanato. Desde que se conhece que tem um recanto guardado no seu coração para o fado e o futebol. Em jovem jogou na equipa de futebol de Condeixa de onde guarda algumas recordações. “Cheguei a jogar com alguns dos jogadores que representaram a Académica na vitória por 5-4 contra o Benfica na final da Taça de Portugal”. Em relação ao Fado, apesar de o considerar apenas um passatempo, sempre fez questão de animar as feiras por onde passou “com as músicas da Amália”. “Houve mesmo pessoas que me pediram para repetir para poderem gravar”. “O fado e o trabalho dele sempre estiveram muito ligados. Ainda hoje quando o ouço cantarolar já sei que está a trabalhar”, confiden­ cia Helena. Apesar dos seus movimentos lentos e da escassa cabeleira cor de neve, Manuel Antunes Carvalho está longe de se considerar “acabado”. Do futuro apenas pretende uma coisa: “continuar a trabalhar como sempre naquilo que amo”. texto: François Fernandes

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Rui Damasceno

O tipógrafo que se veste aos papéis É uma máquina complicada. Daquelas sem conserto e que não se esquecem jamais. O botão está sempre ligado e o inconfundível timbre da voz, que herdou do pai, diz tudo o que é por dentro. Um terrível generoso f igurão desengonçado de sapato, calça e camisa. Os olhos escuros e os lábios grossos do rosto grave são as de um espírito em constante afirmação. Os braços dançam como marionetas e as pernas balançam como as de um equilibrista de circo. Mas por detrás deste palhaço pobre está um ser vertical, que convida à frontalidade. É Rui Damasceno, um homem habituado a brincar com as palavras e a vestir personagens na própria vida. Vive do trabalho na tipografia que herdou dos pais, mas é em cima do palco que se sente verdadei­ ramente representado. Tipógrafo de dia e actor à noite. Na essência, um amador permanentemente a representar, sem máscaras nem papéis decorados. Traz a sua personagem pelo mundo e é reconhecido por ter muitas vidas ao mesmo tempo: louco inconformado, pai generoso, revivalista sem descanso, alma alegre do teatro. Aos 51 anos, Rui Damasceno é um homem cheio. Tem o feitio do pai, de quem herdou, mais do que tudo, as convicções políticas. Vive entre o trabalho da oficina e os espectáculos esporádicos com os amigos de sempre. Começou a representar no Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, em 1976, e nunca mais largou o palco. Voa de projecto em projecto, sem destino ou direcção. Transforma Molière, Tchékov e Brecht num jogo mímico de sátira pessoal. Chegou a trabalhar um ano em Lisboa numa companhia profissional para a infância, mas depressa regressou ao teatro ama­ dor, porque, na verdade, para ele, ser actor é isso mesmo: “amar as luzes, o público, as palmas”. Em Coimbra, colaborou com A Escola da Noite, mas é à Cooperativa Bonifrates que está mais ligado e à qual pertence desde os anos 80. É um ser inquieto e ninguém esconde a dificuldade em o dirigir. A sua cabeça parece uma galeria onde engendra as mais mirabolan­ tes histórias para provocar os amigos. Quando assume uma ficção, tem a capacidade de a levar até ao fim. Chamam-lhe “aldrabão”, “malandro”, mas a verdade é que todos lhe reconhecem uma alma generosa. A af lição em contracenar com ele é grande na véspera de uma estreia, porque nunca tem o papel decorado. Sabem os “camaradas” de cena que a diferença não está naquilo que ele é, mas naquilo que pode dar de corpo e alma, porque, afinal, a personagem de tipógrafo está sempre lá a exigir-lhe mais tempo.

Na Tipografia Damasceno Lda., no número 45 da Rua de Montarroio, passa as horas componedores, chumbos e tipos. Pega às 7h30. E continua a representar. Fala tão alto que quase abafa o barulho das máquinas. As unhas sujas de tinta e óleo, e as feridas que tem nos dedos de tanto manusear as “offset” Heidelberg Cylinder mostram como também na tipografia é um amador. Mais do que o profissio­ nal dedicado, é um apaixonado por aquilo que faz. Encantam-no os cheiros a tinta, o papel quente a sair das máquinas, os tipos negros e a palavra impressa. As tipografias já não são o que foram, mas para Rui Damasceno o compromisso é não deixar morrer o legado da família. Recorda com precisão o dia em que o pai o pôs a trabalhar numa outra tipografia, “logo a compor à caixa”, quando chumbou no primeiro ano do liceu. Hoje, é ele o homem da família, pai de afectos largos que as entradas grisalhas do cabelo não deixam apagar, e galinha que ama o crescer e o respirar dos quatro filhos que teve e dos dois que adoptou. Vê-se que preza muito a memória e a nostalgia está espalhada nos quadros pendurados no escritório da of icina. As paredes estão cobertas com fotografias antigas, quadros da Revolução, calendários do Futebol Clube do Porto e um cachecol do União de Coimbra. E, assim, vive de afectos e sinais, e dos amigos que passam para ler o jornal ou dar as boas tardes. Com eles, gosta de viver a vida por dentro e por fora. Amigo de boa comida e de boa bebida, Damasceno faz uma pausa no trabalho para beber um copo de vinho tinto, no restaurante dois números abaixo da tipografia. Nas conversas, recorda com um orgulho imenso o passado anti-fascista do pai e o papel como militante do Partido Comunista Português. Se passasse por onde João Damasceno passou, faria as mesmas coisas que o pai fez. É um revolucionário firme, que nunca atraiçoa e estruturalmente ligado ao povo. Com o «Partido» tem uma relação de amor. A ânsia de liberdade fê-lo participar nas Jornadas de trabalho nas Unidades Colectivas de Produção, no Alentejo, a seguir ao 25 de Abril. Hoje, sente um país diferente e reclama da injustiça e do capita­ lismo, erguendo o punho direito enquanto confessa: “Posso mudar de clube, de mulher (que já mudei), de camisa (que mudo todos os dias), mas de partido nunca!”. Nunca viveria numa silenciosa agonia, porque as palavras saem-lhe da boca sem ele chamar por elas. Com fúria e raiva, parece não desistir do impulso de quem arrisca propor coisas. E, por isso, anda sempre aos papéis.

© Foto: Cortesia Cooperativa Bonifrates

texto: Pedro Crisóstomo

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As paixões de uma professora Fala sem medo, mas o respeito não foge. Prima pela sinceridade. Olham-na de lado pela sua perspicácia na análise. Desenvolve raciocínios com vida acompanhados de convicção. A simpatia e inteligência são-lhe reconhecidas até pelo observador menos atento. Os alunos acham-na exigente. Concorda. Mas também pensa que só com esforço se consegue subir mais alto e ver melhor. Laura Casais lecciona Português na Escola Secundária de Vouzela há doze anos. Já se sentiu mais confiante. Sente-se agora cansada com todas as mudanças em curso. Ainda assim, prepara cada aula com toda a dedicação e humildade que dão vida a esta mulher de 48 anos. Gosta de viajar e de recordar essas viagens. Gosta de encontrar antigos alunos e colegas. E gosta de relembrar tudo o que de bom já viveu. As fotografias de lugares e de pessoas preenchem o escri­ tório pessoal. São testemunhos. Muitos. Mas cada um é singular, é único. Sabe de cor cada um. Sente-o, apesar dos muitos anos que já passaram por alguns. Séria. Formal. Assim a encontram sempre os colegas de trabalho. Num momento mais descontraído, mostra um sorriso doce, capaz de se lhe confiar tudo. Não o teve sempre. A última vez que o perdeu foi há cinco anos. O pai partiu e deixou-lhe o último adeus. Mas perdeu-o mais vezes. Mais do que desejaria. Aos vinte anos saiu da faculdade, insatisfeita com a avaliação que lhe era feita. Inconfor­ mada, não desistiu. Boas notas, boa média, boas perspectivas. Tirou o curso e começou a dar aulas. Apaixonou-se pela profissão. Ou melhor, apaixonou-se pelos alunos, pelos livros de Português, pelos autores, pelos versos, pelas letras. Hoje, considera que pode tratar por tu Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco ou Alexandre Herculano. Conhece-os bem. Pelas suas obras, claro. Quando lhe perguntam qual o maior poeta por­ tuguês de todos os tempos, se Camões, se Pessoa, responde apenas que “Camões está para o século xvi assim como Fernando Pessoa está para o século xx ”. E Aquilino Ribeiro? Para Laura, além de autor que conhece mas não lecciona, Aquilino Ribeiro dá nome à biblioteca da escola onde dá aulas. Um espaço modernizado graças à sua energia. Como coor­ denadora do projecto, aproveitou o apoio financeiro do Governo e apetrechou a biblioteca com mais livros, mais computadores, com mais espaço. Espaço. É algo que começa a faltar à vida profissional de Laura. Tem ideias, projectos, quer mudar muita coisa. A começar

Laura Casais

pela mentalidade de certos professores que, segundo diz, não entendem o significado da palavra professor na sua totalidade. Mas ninguém a parece ouvir. Quer mudar também os alunos. E vai-o conseguindo, ano após ano. Muitos dizem que, com ela, aprenderam a tornar-se mais responsáveis, menos preconceituosos, mais exigentes consigo próprios. Aprenderam a crescer. Outros dizem que peca pelo rigor em demasia. Opiniões. Para o bem ou para o mal, Laura Casais é um nome bem conhecido de toda a comunidade viseense. Não a preocupa, isso. Preocupa-se é com o estado da educação. Com o número cada vez maior de alunos que chegam ao secundário a escrever e a ler mal. Com a falta de sensibilidade de certas pessoas para com as letras e a cultura em geral. Sente que uma escola secundária já não lhe chega. Mesmo assim, continua. Sem saber porquê. Entretanto, concluiu em 2007 o doutoramento em Literatura Portuguesa. Mas não quer dar aulas na universidade. Não se imagina sequer. Os colegas também não. Vive em S. Pedro do Sul. Vai à escola e vem todos os dias. Pelo caminho, ouve a TSF, em especial o humor de Maria Rueff, que aprecia. Todos os dias pensa em coisas novas. Tem planos, ideias bem justificadas. Arranjou tempo, no meio da ditadura horária a que obedece o seu dia, para explicar a língua de Camões a alunos que chegam à escola vindos de outros países. Criou este “espaço”. Criou também uma “Oficina de Poesia”, onde os alunos interessados podem consultar livros e, sobretudo, escrever. Escrever. É uma das paixões de Laura. A primeira, talvez. A seguir, vem ler. Escreve poemas, sobretudo. É habitual vê-la de casaco preto comprido, o que lhe dá um estilo mais austero. Os olhos castanhos, sempre em movimento, asso­ ciam‑se na perfeição ao constante gesticular das mãos enquanto fala. Pensa depressa. Porque, como todos confirmam, sabe muito. Sabe porque lê, porque ouve, porque escuta. Lê livros, mas também jornais. Fala à vontade da política e dos políticos. Gosta de falar da vida, Assim, sem mais. Falar da vida e do que já viveu. Tem um à vontade estranho ao falar de si própria. Fala dos três filhos, do marido, da mãe. Lembra colegas e histórias da juventude. Mas, apesar deste à vontade, não aprofunda nada. Deixa o interlocutor preso na curiosidade. Deixa todos os que a conhecem com vontade de a conhecer melhor. Deixa muita gente a olhá-la de lado. E fica assim, indiferente perante tudo isso. texto: Lino Lopes Ramos

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Digo que sou uma escrivaninha Entrevista a Pedro Paixão

Um estado de transe. Contínuo. Cada vez maior. Ao ponto de ver os dedos a escrever sem controlo. Pedro Paixão escreve. Escreve

muito, sobretudo porque não pôde cumprir o sonho de ser pianista. Através das palavras até o mais doloroso sofre uma transformação.

É terapêutico. Sentado no sofá amarelo da sala sem televisão fala de si ao mesmo tempo que do seu novo livro O Mundo é Tudo o que Acon-

tece, lançado no dia anterior à entrevista. Recupera memórias também. As dos momentos que quer salvar. Tem saudades de si quando lutava

pela liberdade. Mas a política desiludiu-o. Desde 1992 que escreve, em média, dois livros por ano, mas não se considera um escritor.

No fim tocou piano relembrando o sonho de uma vida inteira. texto: Fátima Almeida

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Entrevistas


CJ — Disse uma vez numa entrevista que a sua maior oportunidade foi nascer numa casa onde havia livros. Os seus livros caberiam nessa casa? PP — Graças a Deus sim, claro. Mas é realmente importante nascer numa casa onde haja livros, é um privilégio, apesar de conhecer pessoas que nasceram em casas onde não havia livros e são grandes escritores. Para além dos livros que tinha em casa, também tive a sorte de nascer numa rua onde havia uma livraria… Em campo de Ourique? Nasci em Campo de Ourique, mas depois fui viver para rua D. João Quinto, no Rato, e nessa rua havia uma pequena livraria. O dono era um resistente, e tinha sempre uma série de livros proibidos debaixo de uma mesa, e eu lembro-me de passar muito tempo debaixo dessa mesa a ler e a escolher esses livros. Isto passa-se antes do 25 de Abril, ainda era muito novo. Também tive o privilégio de ter estudado em francês, aliás as primeiras coisas que escrevi foram em francês. Daí que a sua mãe tenha achado graça escrever em português. Várias vezes me disse que não percebia como é que eu escrevia livros, porque eu nunca soube escrever português, e é um bocadinho verdade. Quando era criança era bom aluno os seus pais tinham orgulho nisso? A minha mãe dizia sempre que tinha sido bom aluno porque o ano tinha sido fácil e no próximo é que se veria. Vivia sempre nesse terror de não conseguir chegar lá, falhar. Era um bocado violenta dizia que havia melhores e piores e que se tinha sido bom era porque tinha sido fácil, o futuro é que contava. E hoje como é o Pedro como pai? Estou sempre a dar parabéns ao meu filho [sorrisos]. Sou muito vaidoso, mesmo, do meu filho. No seu novo livro O mundo é tudo o que acontece descreve alguns episódios da sua infância da qual diz não guardar recordações felizes, mas escreve com uma maior proximidade. Perguntei-me ao ler se não será de certa maneira para os aceitar? Está muito bem dito, em grande parte é isso. Escrever também serve para apaziguarmos o nosso passado, tem um efeito, realmente, cura­ tivo. Fica tudo escrito, mesmo o que é muito doloroso sofre uma modificação através das palavras. Mesmo nos textos que contam histórias sobre cidades, mulheres, relação do homem com o universo e com Deus, poetas, desta vez, escreve mais na primeira pessoa. Pode-se dizer que este livro é mais seu? Não tenho consciência disso, mas é verdade. Neste livro há mais textos escritos na primeira pessoa. Mas também posso escrever na terceira pessoa a falar de mim ou escrevo a falar de mim como se fosse uma mulher. Tenho esta coisa de não conseguir sair de mim. Por isso é que sempre achei que nunca teria interesse algum livro meu ser publi­ cado. Nunca pretendi ser escritor, porque tenho consciência de que aquilo que escrevo me acontece a mim. Mas muito estranhamente o que as pessoas me dizem é que se revêem no que escrevo. Mas isso é explicável: somos muito diferentes e muito parecidos.

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É como explicava ontem [segunda-feira] no lançamento do livro a propósito do título, que não podemos sair de nós, sentir as coisas pelos outros, mas podemos senti-las por nós, dentro de nós. Sim. Porque aquilo que escrevo normalmente vem e passa por mim, não é qualquer coisa que controle. Por isso é que se calhar são sem­ pre textos curtos, porque não se aguenta muito aquele estado quase de transe em que se está a ver os dedos a escrever, mas não se está a pensar. Os dedos escrevem e as palavras escrevem-se umas às outras. Quando tenho a sorte de ter uma frase, depois de escrever essa frase sai o texto todo, mas isso acontece com muitos escritores.

Escrevo por não poder ser pianista Recuando a 1992 ao primeiro livro A Noiva Judia, tudo começou com uma frase? Nesse livro o texto que escrevi em primeiro é o último que se chama mesmo a noiva judia. Foi talvez a coisa mais violenta que aconteceu na minha vida e que teve esse efeito incrível de me pôr a escrever livros. Voltando ao O Mundo é tudo o que Acontece, as mulheres aparecem novamente como relações frustradas. Isto porque, como escreve, os homens não se entregam ao amor completamente? É muito difícil demarcar onde é que acaba a paixão e começa o amor. E muitas vezes quando estou a falar de amor, estou a falar de paixão. Essa é marcada pelo sofrimento, pela angústia, pelo fracasso. Queremos uma coisa impossível que é que o outro saiba quem nós somos. É por isso que as relações fracassam, porque as pessoas não podem adivinhar o outro? Na paixão sim, no amor não. Porque amor é o que eu sinto pelo meu filho, não é uma coisa a prazo, implica preocupação, mas não implica sofrimento. A paixão é um estado quase que diria neurótico, compulsivo, uma doença que toma conta de nós e depois graças a Deus passa. Mas a paixão depois traz um dissabor inevitável, o sofrimento… Acho que sim. Se repararmos as canções de amor são sempre tristes. Todas. Senão é porque não são canções de amor, ou então porque não são boas. E há um amor segundo Pedro Paixão? Não, acho que é o que toda a gente experimenta e conhece. Talvez eu seja mais facilmente apaixonável, agora com a idade diminui. Mas quando era novo podia apaixonar-me por várias pessoas no mesmo dia, era incrível a capacidade de ficar fascinado pela outra pessoa. E isso fazia sofrer mais? [Pausa] Quando tinha essas catadupas de paixões sofria menos. O que me fazia realmente sofrer eram as grandes paixões interditas. Escreve para apaziguar esse sofrimento? Um dos efeitos principais é precisamente esse efeito terapêutico.

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É possível que um dia a esperança venha e tudo não seja mais do que um exercício de gramática? [risos] Não sei. Mas espero que sim. Depois de tantos livros publicados, média de um por ano, não sabe o que é um escritor nem se considera como tal. Porquê? Se calhar é só por cobardia minha, porque dizer que sou um escritor tem muitas responsabilidades. E assim digo que sou uma escrivaninha. Eu já reparei que é uma maneira de me proteger, e depois é um título muito forte. Quem é que pode dizer que é um escritor? É difícil dizer. Mas quando se compra um livro o normal é dizer vou comprar um livro do escritor Pedro Paixão… Detesto. Porquê? Porque eu não me considero um escritor. Eu queria ser era pianista. A minha vida é essencialmente falhada, por isso escrevo. Escrevo por não poder ser pianista. Escrevo mal. O que posso.

Consciente ou inconscientemente as pessoas sabem que sou um outsider Passa a imagem de que é alguém sozinho. Desde pequeno que sou sozinho. Sou triste melancólico, angustiado, ansioso, obsessivo. Com a idade estou melhor. Daí que as companhias sejam cada vez mais os poetas e os seus poemas como o amigo Fernando? O Pessoa [risos]? Sim. Agora estou em casa recluso a ler e a escrever. Antes não era assim. Estou a tentar procurar salvar tudo o que eu vivi, é aquele tema do livro de Proust da Busca Tempo Perdido. É uma ilusão, mas uma boa ilusão. É qualquer coisa como a procura de uma imortalidade.

E no livro o mundo é tudo o que acontece, também há muitos textos sobre o país que mostram a sua visão negativa sobre o estado actual. Muita preocupação. Tenho muita vergonha agora de ser português com o que está a acontecer, e já há muitos anos. A impunidade dos poderosos, a partidocracia, a falta de justiça, de educação, de saúde. Estou muito triste com o Estado português. É por se ter desiludido com a política que nunca votou? Nunca votei. Tem cartão de eleitor. Não, nem sei como é que se faz.

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É quase como uma espécie de salvação. Em muitas coisas é.

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Mas já foi comunista. Sim já fui comunista antes do 25 de Abril, claro. Como era esse tempo? É o período do qual tenho mais saudades de mim, embora de modo algum queira voltar àquele regime. Naquela altura no ser comunista havia uma vontade de justiça. A verdade, a beleza, as artes eram sufocadas pelo regime e era indispensável defendê-las. Sentia que a minha vida tinha todo o sentido, e depois do 25 de Abril nunca mais senti isso. Fiquei desiludido passados poucos meses da revolução e fui estudar para o estrangeiro. E no estrangeiro? Encontrei grandes bibliotecas, grandes professores, várias línguas, várias pessoas. Um privilégio. Por isso é que a sua escrita também é marcada por muitas referências a escritores e filósofos estrangeiros. É importante que a escrita comporte uma componente mais cultural? Não, até acho que alguns dos meus textos são fracos por terem um lado mais pedagógico. Não gosto e nem quero ensinar nada a ninguém, tenho vergonha de saber coisas que as outras pessoas não sabem. Mas, pronto, acho que sim, nalguns textos há uma ligeira necessidade pedagógica ou que pelo menos as outras pessoas poderem vir a ler ou interessar-se por algumas coisas que falo. Fala em nomes como Berharnd ou Kawabata, que ganharam prémios. Ainda não recebeu nenhum, a glória de receber seria importante? É um reconhecimento, mas agora também é tarde demais, não quero prémio nenhum. Mas é curioso que nunca tive um premiozito, nem fui convidado para nada. Porque é que acha que isso acontece? É por causa de não alinhar com o regime, de maneira nenhuma. É que consciente ou inconscientemente as pessoas sabem que sou um outsider, sou um anarquista. Eu odeio o Estado, por isso é natural que o Estado também não goste de mim. Por exemplo vão 50 pessoas à Alemanha, nenhum deles sabe falar alemão sequer, e eu que sei nunca sou convidado para nada. Mas é um bom sinal, acho que é. Porque o conhecem tal como é… Pois. Digo coisas pouco a propósito, sou impertinente. Sou anarquista por profissão [risos] embora não defenda a anarquia. Por falar em profissão, como era enquanto professor de filosofia? Acho que era um professor sofrível. Só gostei de ensinar nos primei­ ros anos, não gosto de tipo nenhum de poder e o senhor professor era um poder, embora seja apanhado por vezes nessa teia do poder. Era informal. Completamente, era a loucura [risos]. O público que o costuma ler mais são sobretudo os jovens. Acho que desde o princípio são jovens ou pessoas com uma certa idade. Porque ambas são desadaptadas ou não estão completamente

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adaptadas. É uma das razões pelas quais as pessoas lêem os meus livros. Porque estou profundamente desadaptado, e os jovens, assim como as pessoas de mais idade também estão, porque não sabem para onde vão, nem quem são. E esta é a minha situação habitual, não sei quem sou, nem para onde vou, confusão e não escondo essas coisas: dificuldades afectivas, de amar, o sexo desregrado. E uma pessoa que escreve tantos livros, às vezes dois livros por ano, não se obriga a escrever ou não tem uma disciplina na escrita? Obrigar a escrever não dá. O que faço é ler e estudar muito, até ficar doente. Muitas vezes fico doente, passo uma semana num quarto escuro. Depois de estar dois, três meses a ler, a pensar e a estudar vou começando a escrever, e nesta fase já não leio, só escrevo. Escrevo seis a sete horas de manhã. Aliás estou sempre a escrever. Mesmo quando não estou, a cabeça continua a escrever. É horrível, tenho de tomar comprimidos para dormir. Já tem mais livros para editar, e um deles chama-se Fatalidade e tem a característica de ter cem páginas mas um só parágrafo. Esse livro é a sua história de amizade com Miguel Esteves Cardoso? Acho que vou mudar o título de Fatalidade para uma Espécie de Amor. Tem a ver com o encontro de duas pessoas que se interessam por literatura, filosofia. Há muita coisa que tem a ver com os nossos encontros. Nós partilhámos esta casa, é a história de uma grande amizade, uma espécie de amor. Do que sente mais saudades do tempo que passava com o Miguel? É de estar aqui com ele a falar sobre Platão, Aristóteles, Nietzsche, Schopenhauer e Beckett, isso é que era maravilhoso. Nós estávamos apaixonados por ideias e pela beleza das mulheres. Era o tempo de todas as ideias. Gosto disso. Era mesmo o tempo de todas as ideias. Era muito bom e interessante. Ele é um homem “génio”, sabia muito, muito lido e em filosofia também. Aos domingos tomávamos chá e escrevíamos juntos lá dentro. Sente saudades é de escrever a duas mãos com ele. Sim. Isso é que foi muito importante para mim. Eu fiz isso com várias pessoas, mas com ele foi muito bom. Ele ensinou-me imenso. Ensinou-me muito a escrever. Como é que ele o ensinou a escrever? Ele escrevia muito bem português e só lê-lo já me ensinava. E havia essa experiência em que passávamos a tarde toda a escrever, e depois já nem se sabia quem é que escrevia o quê. Escrevíamos.

Sem arte seríamos menos quinze séculos Também tem para publicar o seu primeiro texto teórico que se vai chamar Vida. Tem alguma relação com o seu doutoramento em filosofia, uma vez que a sua tese é sobre o conceito de vida? O texto que vou publicar é uma versão da minha tese de doutora­ mento. Não sei se vai ser publicado ou não.

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Porquê? Porque é um texto muito estranho.

Um exemplo. Tenho vergonha, porque são coisas muito íntimas. Escrevo sobre coisas que não ouso falar.

E os outros não têm nada de estranho? [risos] mas é que este é muito difícil. Só publico se achar que pode ser, de certa maneira, compreensível para as outras pessoas, mas é capaz de não ser. Abomina a ideia da arte para intelectuais. Odeio intelectuais [risos]. O escritor, o pintor, o actor não são um intelectual. Historicamente um intelectual é aquele que consegue interpretar a vontade de outros e criticar a situação actual. Escreve livros, fez um livrete para ópera, tem textos adaptados ao teatro e um convite para um guião de cinema. Toda a arte é mágica? Toda a arte tem uma grande dose de magia. Não se percebe como é que acontece, porque é que as pessoas gostam. Engana, parece, passa o que é pelo que não é o que não pelo que é. É uma força espiritual extremamente rica, libertadora. Nós sem arte seriamos menos quinze séculos, acho eu. Aqueles livros de pintura de casa da minha mãe salvaram-me; a guitarra onde tocava Leonard Cohen, quando tinha 14 anos; escritores e poetas salvaram-me a alma e o corpo. Quando digo salvar é salvar da morte. Vejo que se emociona quando relembra estes momentos… É natural. Eu não teria sobrevivido sem esta boa vontade para com a mentira que é a arte, como Nietzsche a chamava. Porque na arte, mesmo que eu escreva só sobre mim obviamente que há imensas alterações, há véus, há deslocações, há imaginação, há o que eu quis ver e não vi, há o que eu vi e não quis ver. A arte é um jogo muito complexo, não tem por objectivo a verdade. A fotografia é outra arte à qual se dedica, e tem dois livros. Como surgiu a ideia de fotografar? Estranhamente, porque não tenho máquina fotográfica. Eu só peguei em máquina fotográfica duas vezes e foi para fazer livros. Vê como um complemento para a escrita? São coisas completamente diferentes, mas eu gosto muito de tirar fotografias e quando tiro, fico completamente subjugado com aquela faculdade de transformar as coisas visíveis através da máquina. [pausa]. Eu tenho uma coisa que é bastante peculiar [risos] não escrevo só sobre coisas que me aconteceram mas também sobre coisas que eu provoco. Eu provoco que coisas aconteçam para depois escrever sobre elas. Então há algo premeditado? Algo de perverso. Perverso. Porquê? De certa maneira não se deve fazer o que eu faço, não é muito moral, mas também não é imoral, é amoral.

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Porque a escrita lhe permite mostrar isso de outra maneira. Pois a outra pessoa pode pensar que é imaginação minha. Mas não é. Eu tenho imensa sorte de me acontecerem muitas coisas, mas porque estou aberto a que me aconteçam e a provocar que aconteçam. Nas viagens que eu faço para escrever livros tenho de ir sozinho para viver aquilo intensamente, para poder estar aberto a todos os encontros, arriscar e sentir medo. Tenho medo, mas o medo é muito importante, faz-me escrever. Então quem sente medo é capaz de enfrentá-lo? Ou uma pessoa se deixa vencer pelo menos ou tem de combater o medo. Quando é vencido faz como eu que fica três semanas de cama sem vir à luz do dia, por vezes consigo vencer o medo e ponho-me a escrever. Sim, escrever é também uma maneira de vencer o medo. Escrever é a solução para tudo? No meu caso, que não tenho mais nada para fazer tem de ser a solução para tudo. Podia fazer outras coisas. O quê? Não sei fazer mais nada. Porque é que não cumpre o desejo de trocar as teclas gastas do computador por as teclas do piano de cauda? Está ali o piano. Se sempre quis ser pianista. Já não consigo tocar piano com a idade que tenho, para aprender a tocar piano minimamente tem de começar a aprender desde muito cedo. Nunca teve aulas? De piano não. Tem a ver com a educação da minha mãe, porque ela foi obrigada a tocar piano, então quando o meu avô morreu o piano foi logo vendido. Tocava piano em casa dos meus primos. Depois comprei um, mas já tarde para ser pianista. E toca muitas vezes? Todas as noites. Eu já vou tocar um bocadinho. Parece que o tempo em que os sonhos se podiam cumprir um a um foi curto. Foi. É como acaba o livro “ontem tinha 30 anos, hoje tenho 50, amanhã morrerei”. Grande frase [risos]. Incrível tive essa frase a falar com pessoas e depois tive logo de ir escrever no caderninho.

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Se a pedofilia viesse na génese do Homem, eu agora absolvia toda a Casa Pia Entrevista ao Padre Feytor Pinto

A ética é um travão à ciência? O padre Feytor Pinto, coordenador nacional da Pastoral da Saúde, entende que não e justifica. Homem tranquilo e de linguagem fácil e clara, responde de forma aberta a todas as questões que actualmente interpelam o nosso quotidiano. Denuncia revoltas, partilha preocupações e faz interpretações à luz da lei de Deus. texto: Joana Costa

CJ — Como se conjugam, na sua perspectiva, a fé e a ciência? F.P — A fé e a ciência não se contradizem, completam-se. Precisamente porque o ser humano é um ser global, e tem as suas dimensões bio, psico, sociais, culturais, espirituais e religiosas.

a ética, os valores mais importantes da fé cristã identificam-se profun­ damente com os valores éticos, daí eu compreender perfeitamente que a ética põe limites à ciência. Se a ciência vai magoar os valores humanos fundamentais de facto a ética trava.

E como se relacionam essas vertentes? Se, de facto, o problema da fé é um problema religioso também faz parte do ser humano, então quando eu estudo a biologia ou a psicologia, eu tenho de ter em consideração a religiosidade do ser humano, e por isso tenho de ter em atenção a fé que cada pessoa tem. Eu não trato da mesma maneira uma pessoa que tem uma fé muçulmana, uma fé judaica ou uma fé cristã, tenho de respeitar sempre a religiosidade própria de cada um.

Esse travão não impede a ciência de crescer? Aí põe-se um problema muito interessante, mas eu digo exactamente o contrário: quando a ética diz à ciência cuidado que estás a magoar o ser humano, a ciência é obrigada a crescer. Procurar atingir os mesmos objectivos, respeitando a dignidade da pessoa humana.

Mas há ou não fronteiras entre a ciência e o que por vezes a fé defende? Não, porque as fronteiras são as fronteiras que a ética coloca, não é a fé que coloca barreiras. Felizmente, a fé identifica-se muito com

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Portanto é possível que os avanços científicos e a ética andem de mãos dadas? Completamente, por isso é que, durante 10 anos, fiz parte do Conse­ lho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, ali discutíamos os avanços da ciência, dizendo-lhe por vezes “dá outra volta, procura por outro lugar”. A ética é um convite à ciência a respeitar mais e sempre a dignidade da pessoa.

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A igreja revela-se a favor da medicina preditiva. Considera os chamados horóscopos genéticos, uma medicina preditiva? A medicina preditiva é sempre muito útil, mas é também condicio­ nante da intervenção médica. É interessante que haja uma suficiente medicina preditiva que me permite acompanhar tudo o que efecti­ vamente vai acontecer, para que a partir daí nos possamos orientar. Não é na análise da predição que está o negativo, está se eu não respeito as consequências avaliadas numa predição suficientemente construída, organizada e assumida. Há polémica em torno desta questão. Há médicos que não consideram estes exames credíveis e muitos põem em causa as empresas quererem explorar as pessoas, o seu medo da morte. Nós temos que ter cuidado e atenção com o tipo de intervenção dos laboratórios. Muitas vezes a preocupação dos laboratórios é a renta­ bilidade, e eu quando estou a trabalhar a pessoa humana tenho que ultrapassar essa perspectiva. Portanto, esta questão dos horóscopos não pode levar a que as pessoas vivam debaixo do medo, das ameaças

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da morte. Nós cultivamos a vida e a qualidade de vida, seria com­ pletamente negativo se estes horóscopos funcionassem como sustos, devem representar apenas avisos. As pessoas têm que se sentir livres correndo riscos.

A ciência gosta muito de brincar com a vida O que pensa das técnicas de reprodução assistida? Há técnicas que são óptimas e técnicas profundamente negativas, porque acumulam embriões excedentários. Como se posiciona a ética neste tema? A ética veio ajudar a ciência. Surgiu o FIVET (fecundação in vitro com transferência de embriões) e o problema da multiplicação de embriões excedentários. Se eu defendo que o embrião já tem vida humana, tenho de o defender. Então a ética levou a ciência a procurar outros caminhos e a ciência descobriu por exemplo o processo GIFT

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(transferência de gâmetas para as trompas), que não tem embriões excedentários. Agora avança mais para a injecção cito plasmática que tem menos problemas de embriões excedentários. O homem que fez em Portugal o processo GIFT com maior êxito é o professor Agos­ tinho Almeida Santos, director do departamento de procriação da Universidade de Coimbra. Ele próprio não quis fazer FIV e preferiu seguir o GIFT. Este é o desafio da ética. E a Igreja? A igreja defende que toda a procriação devia nascer de uma sexualidade suficientemente assumida dentro do casal. Portanto, ajudas que não destruíssem a relação sexual normal da conjugalidade eram positivas. Infelizmente os métodos que aparecem, quase todos queimam a conjugalidade, o processo não se faz na conjugalidade. Mas há autores católicos que entendem o submeter-se às técnicas como uma forma de conjugalidade… Sim, porque entendem que a conjugalidade não é só o encontro sexual, mas também a comunhão de vida numa dificuldade. Curiosamente, a Conferência Episcopal Portuguesa pronunciou-se a favor deste apoio aos casais em caso de infertilidade. Mas, a Santa Sé não o fez em termos gerais. Eu próprio fui apresentar e defender ao parlamento a posição da igreja portuguesa neste campo. Pretende-se ajudar concretamente a fecundidade e ao mesmo tempo proteger a criança na complementaridade de uma família mais numerosa. Portanto, eu digo que o problema está em aberto. Entende a clonagem como uma pretensão do Homem face ao criador? (Riso) A ciência gosta muito de brincar com a vida. Na história da criação é mostrado que o Homem quer comer da árvore da vida e da árvore da ciência do bem e do mal. Deus disse ao Adão e Eva, não comam destas duas árvores. A concepção de Deus dá-nos a ideia de que a vida é um dom de Deus e não do Homem, nenhum de nós é autor da sua vida, é um processo que está para além do indivíduo, o autor da vida é Deus. Há uma única coisa que Deus reserva para si, é ser o autor da vida.

Foto: DR

Portanto a ciência quer ser senhora de um poder que não lhe pertence? Exactamente, quer ser a provocadora da vida de todas as formas pos­ síveis e imaginárias, e aqui está a clonagem, uma vida não sexuada. Ainda não encontrei um eticista que defenda a clonagem… Nós sabemos que a vida é anterior a nós e não temos o direito de estar a manipular a vida sistematicamente. Vimo-lo defender publicamente o não à despenalização do aborto. E mostrou sempre revolta contra a própria forma de legislar. O que o incomoda na legislação? A vida é o direito mais importante do ser humano, está na carta dos direitos humanos. Mas depois, no parlamento, vêm dizer que pode­ mos dispor da vida livremente. Isto não é coerente. O legislador anda a brincar com direitos que consagrou. Isto não são os mandamentos da lei de Deus, são os direitos humanos consagrados. A grande maioria dos cientistas dizem que a vida começa no momento da concepção, então é a partir daí que a vou defender.

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As pessoas quando pedem para morrer não querem morrer, querem sim ter uma vida diferente Há nesta discussão um ponto importante, que era a penalização da mulher. Aí eu pergunto-me, e o homem onde é que para? A mulher até às 10 semanas pode destruir uma vida, sem motivo que o justifique, isto é de um primarismo incontornável. Isto não tem nada a ver com o religioso, tem a ver antes de mais com a coerência com uma lei estabelecida, mas como sempre quando as leis incomodam são suspensas. Da mesma forma que posso destruir um bebé indesejado, posso destruir um pai que tenho em casa completamente dependente, eutanásia. Aqui surge um problema, eu adoro a democracia mas ela tem limites e um deles é o contratualismo, se 51% votar em matar alguém morre por 1%, este contratualismo é um brutal limite que contraria a democracia. Isto são as leis do Homem, o que penso no religioso é que o Homem faz as asneiras todas e Deus perdoa-lhe, não sei se compreende, mas perdoa. Mas no caso da eutanásia pode dar-se o caso de a pessoa que está doente querer pôr fim à vida. A vítima não tem direitos? As pessoas quando pedem para morrer não querem morrer, querem sim ter uma vida diferente. É um problema psicológico, eu estou convencido que é sempre possível dar a volta. A grande maioria dos psicólogos assume o suicídio lúcido (não aquele efectuado por doença) como uma situação de momento, a pessoa entra numa situação de desespero porque não quer aquele tipo de vida. Então o que há a fazer é mudar de vida, é um problema social. E mais uma vez não me canso de dizer a missão do médico é dar qualidade de vida, não é precipitar a morte. Para realmente ajudar as pessoas que sofrem, o país tem o dever de criar unidades de cuidados con­ tinuados e paliativos. A igreja opõe-se ao aborto, mas também se opõe ao uso de métodos contraceptivos. Como fundamenta esta posição da Igreja? Recuso a expressão que usou. A igreja não é contra o planeamento familiar. Pertence ao casal definir o número de filhos, já disse João Paulo II. A igreja discute sim o método a usar, e temos 18. Defen­ demos informar adequadamente acerca dos métodos e deixar o casal escolher. Agora se me pergunta, o melhor do meu ponto de vista são os métodos que respeitam os ritmos biológicos. Se esse não for o caminho, fica à consciência de cada um. O erro então situa-se na atitude? Aí mesmo, por isso a Igreja diz que o que é pecado não é o preservativo, mas sim um comportamento sexual desequilibrado. Há um aspecto que faço questão de acrescentar. Na luta contra a sida além da prevenção há o tratamento. O tratamento em 44% é feito pela ONU; 30 % é feito pelas unidades da igreja católica; 18% por associações diversas; 8 % pelos Estados. Eu pergunto o que é que o governo português está a fazer dentro destes 8%. São números oficiais da Organização Mundial de Saúde. As pessoas gostam de acusar a Igreja de coisas em que ela não tem erro. A Igreja trabalha muito a sério na saúde e não faz política com ela.

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A pedofilia e a homossexualidade são pecados fruto do vício da vida em sociedade ou estão na génese do indivíduo? Não falemos de pecados. São erros sociais gravíssimos que a igreja condena e por isso chama a isso de pecado. Se a pedofilia viesse na génese do Homem, eu agora absolvia toda a casa pia. Dizer que é da natureza de cada um é a melhor maneira de fazer todas as asneiras. O mesmo se passa com a homossexualidade? A homossexualidade também não é genética, é comportamental. Atenção, há volta a dar a este comportamento, eu já tive oportunidade de tratar pessoas com esse problema, e superaram-no perfeitamente. O ser fecundo é um ponto fundamental da vida humana. O conceito de religiosidade está-se a transformar nas últimas décadas. Como vê esta transformação no mundo ocidental? A religião era mal vista. Neste momento há menos religiosos mas mais convictos, têm relação com os outros e com as coisas, mas descobriram a importância do desafio da transcendência. O aconte­ cimento religioso é marcado pela dimensão da transcendência. Cada um continua vivo depois da morte, deixando uma recordação àqueles com quem conviveu, e o que é recordado está vivo. Hoje mais do que nunca ouvimos falar de uma crise de vocações religiosas no ocidente. Em simultâneo em outras zonas do globo assistimos a uma profanação excessiva da fé. Como se explica este desequilíbrio? É um problema cultural. Como disse o professor João Lobo Antunes, a nossa vida está pautada por 3 dinamismos: o biológico, o ambiente em que crescemos e as situações de acaso que se cruzam na nossa vida. É a partir destes 3 factores que me defino. A maneira de viver o religioso depende do ambiente à nossa volta. Neste momento certos islamitas e muçulmanos consideram que a maneira de praticar a religião é a auto-imolação. Isto é uma utilização estranha e política do religioso. Entende então estas reacções como uma falsa visão da religião? Claramente, isto não é forma de prestar culto ao Deus em que acreditam. Como relaciona o desenvolvimento do mundo ocidental com a tomada de posições radicais do mundo islâmico? São problemas culturais, temos que a pouco e pouco fazer aproxima­ ções. São delicadas porque o mundo islâmico estava dominado pelo ocidente, as colonizações. O processo de descolonização traz consigo todos esses mecanismos de violência. Angola e Moçambique já assim estiveram e agora estão a acalmar. Portanto isto é um processo, as pessoas não estão ainda preparadas para um determinado tipo de autonomia e depois ao adquiri-la não sabem administrá-la bem. Nós, ocidente, não devemos fazer rupturas, mas não devemos ser neocolonialistas. É o caso de Timor, apesar dos riscos que correm, devem ter liberdade plena.

Temos uma igreja de minorias, mas muito mais convictas Que caminho terá a igreja que trilhar para gerir tantas mudanças que compõem a sociedade actual? (Riso) Mudar ela também. E isso está acontecer. Já João xxiii na década de 60 revolucionou a igreja. Criou um Concílio onde

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tudo foi discutido. A 2.ª fase foi com João Paulo II, ele teve uma parte de responsabilidade na queda do muro de Berlim, precisamente pela proposta de sociedade que ele ia fazendo. Mas na Igreja não podemos perder um certo tipo de valores. Então temos um conflito de relação com o mundo em abertura rápida. Mas a vida é assim mesmo. Só com grande equilíbrio é possível resolver as situações. Mas enquanto não se alcança o equilíbrio, os fiéis são cada vez menos… Sim, porque acabou a época da cristandade em que todos seguiam e faziam o mesmo. Hoje felizmente é uma época de responsabilidade, e então temos uma igreja de minorias, mas muito mais convictas. É um ponto de viragem. Vê todas as suas crenças e opiniões fundamentadas no pensamento da Igreja? No pensamento fundamental sim. Contudo, nós dentro da Igreja temos direito de discordar sem problema. A estrutura dogmática é fundamental, mas depois há muitos aspectos de interpretação que cabem a cada um. A riqueza parte exactamente daí. Muitas pessoas pensam que a Igreja é decapitadora das pessoas! É uma ilusão. Está há 53 anos no sacerdócio. Qual o aspecto que mais o marcou ao longo deste meio século como sacerdote? O Concílio do Vaticano II, tive a sorte de estar lá. É o grande momento do meu sacerdócio. E como homem? O 25 de Abril foi muito importante, apesar de todos os desvarios, foi um momento muito bonito de abertura à liberdade. O 25 de Abril sem sangue possibilitou uma transformação completa deste país. Carmona Rodrigues diz apreciar a “instrução cívica” prestada nas suas missas. Como trabalha a mensagem que passa aos fiéis e ao mundo em geral? As minhas homilias têm sempre 3 partes. Na primeira parte a estru­ tura dos textos e a sua complementaridade, é a análise bíblica, como uma aula. Segunda, como isto se aplica na vida de um cristão, ao tempo presente. Terceira parte, o que aconteceu esta semana que tem de ser iluminado por isto. Situações actuais, a greve dos profes­ sores, a crise económica, o processo casa pia… Procuro interpretar estas situações à luz da palavra de Deus. A palavra de Deus não está pendurada no ar. É de facto incontornável a singularidade da sua mensagem, tem essa noção? (Riso) Na verdade tenho e lido com isso com franca naturalidade, gosto muito. Sei que a palavra de Deus não pode estar presa. Que desafios se colocam hoje aos cristãos? Duas coisas muito simples, mas exigentes, serem capazes de levar uma vida sóbria e solidária.

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O sucesso é uma palavra perigosa Entrevista a Gonçalo Quadros

O êxito intimida-o. Não pretende encostar-se à sombra dele. Quer arregaçar as mangas e inovar. Gonçalo Quadros, co-fundador e CEO da Critical Software, reconhece o sucesso. Contudo, mantém a humildade característica dos que se levantam todos os dias para fazer mais e melhor. Dez anos depois da sua criação, a empresa mostra que veio para ficar. Com um aumento do volume de negócios de quase 40% e facturação prevista na ordem dos 19 milhões de euros, foi galardoada em 2008 com o prémio PME Excelência. Hoje, com cerca de 300 trabalhadores e com uma nova spin-off recentemente criada, prepara-se para abandonar este barco e lançar-se ao grande mar de oportuni­ dades da bolsa. É a prova de que as grandes ideias e o sucesso estão ao alcance de todos. texto: Adelaide Batista

CJ — A Critical Software nasceu há 10 anos, numa altura em que a Investigação e Desenvolvimento (I&D) e a alta tecnologia informática em Portugal eram mais uma utopia do que uma realidade. Como surgiu a ideia de criar uma empresa virada para este género de serviços? GQ — Eu, o João Carreira e o Diamantino Costa conhecemonos quando voltámos à UC para o Doutoramento. Gostávamos de engenharia e não pretendíamos ficar na Universidade, apenas qualificarmo-nos um pouco mais, mas em Portugal, como o I&D nas empresas não era muito comum, não havia oportunidades para quem quisesse qualificar-se e utilizar o conhecimento que tinha adquirido. Fomos quase que obrigados a criar uma alternativa que nos desse gozo: criar a nossa própria empresa. Desde essa conversa até à ideia da Critical foi um instante. A empresa nasceu no Instituto Pedro Nunes (IPN) e esteve lá nos primeiros três ou quatro anos. O IPN teve um papel muito importante no nosso percurso: ajudou-nos quando ainda éramos muito frágeis, quando éramos apenas uma ideia e tudo podia acontecer. Nesta altura também vivíamos praticamente paredes meias com a Universidade e isso também era relevante. Entretanto a empresa expandiu-se, tanto que construíram agora um novo edifício anexo à sede da Critical. Ainda planeiam instalar-se no Iparque? O Iparque é um projecto a longo prazo que acreditamos que já devia existir há muito em Coimbra. Se existisse hoje, era lá que

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estaríamos. Porém, ainda está em construção e não temos possibi­ lidade de esperar um mês que seja. Fomos obrigados a construir uma nova sede mas o Iparque será com certeza uma alternativa para continuarmos a crescer. Até porque a Critical é uma das accionistas do projecto. É um projecto com futuro e achamos que uma estrutura como esta tem uma grande importância para nós e para toda a cidade. A forma que encontrámos para expressar isso foi a participação com o capital social da empresa para promover a ideia e ajudar, na medida do pos­ sível, o projecto a consolidar-se. O Parque Tecnológico aproxima as pessoas, elas conversam e entendem-se com mais facilidade se esti­ verem próximas e isso vai favorecer a cooperação entre as empresas. Isso aconteceu-nos no IPN: tínhamos contacto com mais empresas porque utilizávamos o mesmo espaço, cruzávamo-nos todos os dias e é isso que é necessário em Coimbra. Pretende obter lucros dessa participação accionista? Não, o objectivo é a promoção de uma causa que achamos que é de Coimbra, da nossa região e também nossa. Queremos ajudar, com as nossas competências e com a nossa marca, o projecto a ir mais longe. Falando do futuro: foi com o Presidente da Republica à Polónia e Eslováquia em Setembro. Na altura, assumiu o interesse em

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aumentar o investimento da empresa na Europa do Leste. Já iniciou negociações nessa zona? O objectivo é estarmos atentos ao que acontece na Europa de Leste, pois é um mercado em expansão e as tecnologias de informação são uma área infra-estruturante em qualquer mercado. Aliás, todas as zonas do mundo que estão em desenvolvimento são áreas de oportu­ nidade para uma empresa como a nossa. Por isso, quisemos estar lá, abrimos a subsidiária na Roménia e estamos a trabalhar intensamente no mercado da Europa de Leste a partir de lá, com uma abordagem que tem que ser muito persistente e determinada. Mas a Critical Software já tem algum nome nesse mercado, pois criou a solução que permitiu a entrada dos novos países no espaço Schengen. Sim, criámos o SISone4ALL. É um software que permite às organi­ zações dos países trocar informações entre si e fazer o seguimento das pessoas e bens suspeitos que passam na fronteira, de forma a manter algum controlo. Os dez novos países-membros estavam prontos a entrar no espaço Schengen no final de 2007, quando Portugal estava na presidência da União Europeia. No entanto, havia um problema de solução informática considerado impossível de resolver que os impedia de entrar e deixar as pessoas circular sem qualquer tipo de controlo. A Critical foi consultada em conjunto com outras empresas e apresentou uma solução. Na altura houve muitas dúvidas por parte de outros países que disseram que não era possível fazer o que propúnhamos, mas o nosso projecto foi feito e em tempo record, que foi principal proeza. Isto deu-nos um grande destaque naquela parte do mundo, quando depois participei na inauguração do Espaço Schengen percebi a dimensão emocional que teve. Vi pessoas a chorar por estarmos a comemorar a abertura de uma fronteira e obviamente que isso nos faz sentir um bocadinho mais orgulhosos pelo que fazemos. Então admite que a criação do SISone4ALL é uma mais-valia para futuros negócios na Europa de Leste. Absolutamente. As empresas portuguesas eram completamente desconhe­ cidas naquela parte do mundo, ninguém sabia onde era Portugal sequer. Não havia referências que nos permitissem posicionar junto daquela comunidade e passou a existir alguma relação depois deste projecto. Não tenho a menor dúvida e tenho que tirar o chapéu à presidência portuguesa porque conseguiu colocar-nos junto de um conjunto de parceiros numa zona onde não representávamos rigorosamente nada. Ainda assim, quando falou na expansão para este mercado admitiu recorrer a empresas locais. Porquê? Quando vamos para um local que não é o nosso mercado natural não podemos ter a presunção de achar que conhecemos e dominamos todas as variáveis que são importantes para sermos bem sucedidos. Há empresas no local que percebem a cultura, a língua e a forma como o mercado funciona e que, por isso, acrescentam valor à nossa presença. É estratégico estabelecermos relações de confiança e parti­ lharmos um projecto para que possa ser melhor entendido e melhor absorvido nessa parte do mundo. Esta tem sido a nossa estratégia. Disse numa entrevista que “o mundo é o mercado de referência da Critical”. África entrou recentemente no jogo com a assinatura

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de três contratos com Moçambique. Qual a sua importância para o crescimento da empresa? A nossa estratégia de crescimento nos mercados globais assenta no triângulo Europa – Estados Unidos – Brasil/África (PALOP) pois achamos que há aqui potencial.

Não queremos ser uma empresa low-cost A Ásia fica de fora? Não, mas achamos que há o triângulo da portugalidade: somos uma empresa europeia, apesar de sermos de um país com pouca capacidade de influência política e económica; somos também um país com uma comunidade portuguesa muito importante nos Estados Unidos, o que é facilitador pois temos mais portas abertas e pessoas dispostas a ouvir-nos; finalmente, temos a relação da língua com o Brasil e com os PALOP, que é também uma vantagem mas não é por isso que as coisas acontecem ou deixam de acontecer. Temos procurado aproveitar e investir nestes três vértices porque há sinergias em que Portugal é reconhecido e pode fazer a diferença. A nossa presença por si só não nos garante mundos e fundos, mas é uma diferença em relação a outras empresas. Por exemplo, países bem posicionados no sector espacial, como a Alemanha e a França, procurarem-nos com frequência para fazermos projectos em África. Sabem que as pessoas nos ouvem e que temos uma grande proximidade cultural. Olhamos para a Ásia sempre que achamos que há uma oportunidade de negócio especialmente relevante. Aliás, é provável que lancemos agora alguns projectos vocacionados para a Ásia porque temos uma tecnologia específica que achamos poder ser muito interessante para este mercado. Já vendemos tecnologia para a China e para a Índia, a diferença está em fazer uma gestão baseada na oportunidade ou ter uma empresa nesse mercado, que tem que lutar por conquistar novos clientes e projectos. A Agência Espacial Norte-Americana (NASA ) foi das primeiras clientes da Critical. Como aconteceu essa parceria? Digamos que foi a NASA que nos encontrou e não o contrário: queriam saber mais sobre uma tecnologia da qual falávamos, pois podia ser interessante para a agência. Foi logo no início e estivemos mais de um ano a demonstrar o que sabíamos e o que íamos fazer. Tivemos que provar que a nossa tecnologia era, de facto, interessante para ser acolhida pelo Jet Propulsion Lab. Foi um momento muito intenso, ajudou-nos a criar a fibra que um projecto destes tem que ter e a acreditarmos que era possível fazermos coisas muito inovadoras. Para além disso, deu-nos o tal “brand” porque esta sigla de quatro letras, NASA, exerce fascínio em toda a gente. A partir do momento em que assinámos um contrato com eles passámos a estar no mundo e para um projecto como o nosso isso é muito importante e muito facilitador. Note-se que há coisas negativas também: pessoas que pensavam que pelo facto de trabalharmos com a NASA nos achá­ vamos muito especiais e éramos muito caros. Algumas pessoas, em certos mercados que nos interessavam, chegaram a afastar-nos. A determinada altura tivemos que gerir isso muito bem e explicar que, apesar de estarmos a trabalhar para a NASA, tínhamos interesses noutros mercados e éramos uma empresa competitiva.

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Apesar de ter hoje vários contratos com grandes empresas, a estratégia continua a passar por trabalhar também com empresas menos complexas? Absolutamente. Estamos em mercados como o espaço, a defesa e a aeronáutica, mas também no sector das telecomunicações, indústria, sector financeiro e administração pública. Queremos trabalhar em áreas onde a qualidade da engenharia seja valorizada e seja um factor de distinção, onde as pessoas precisem de resolver problemas complexos, que exijam muita confiança no fornecedor. São áreas onde o preço é uma das variáveis, mas provavelmente nem é a mais importante. Mesmo nos mercados mais normais, como as comunicações ou a administração pública, em que há menos distinções em relação aos pedidos que nos fazem, há áreas de intervenção mais complexas, que exigem mais engenharia. São mercados com abordagens diferentes mas se é para fazer uma coisa que qualquer empresa consegue, isso não é para nós porque aí há certamente empresas “low-cost”, que conseguem fazer mais barato. Nos mercados emergentes como a China ou Índia há imensos engenheiros a produzir software de baixíssimo custo, mas nós não queremos isso, não queremos ser uma empresa low-cost. Acha que devido ao contrato com a NASA é mais reconhecido no estrangeiro do que em Portugal? O sucesso que tivemos no exterior foi importante para sermos reco­ nhecidos cá. Todos falavam da NASA, havia artigos em todo o lado exclusivamente porque tínhamos fechado um contrato com eles. Mas houve outros projectos: Schengen foi muito falado, pois foi um projecto internacional; a nossa relação com a AgustaWestland, um fabricante de helicópteros em Inglaterra, também é muito falada e respeitada no exterior e cá. As pessoas reconhecem que são empre­ sas onde o critério de avaliação é o mérito, ou seja, ou as soluções são boas ou nunca se adoptam. O facto de trabalharmos com essas organizações e de entregarmos projectos de grande exigência ajuda a criar uma imagem, uma marca de qualidade. Mas o sucesso é uma palavra perigosa. Não podemos ficar demasiado convencidos que somos muito bons e que resolvemos tudo. A humildade tem que fazer parte da cultura de uma empresa como a nossa. Para além disso, a história passada diz pouco sobre o futuro: se toda a gente decidisse agora tirar férias porque estamos muito bem, a empresa parava. Estamos aqui mas não podemos admitir que estamos bem, temos que tentar melhorar constantemente e ser capazes de ir mais longe e de manter uma posição no mercado que nos continue a orgulhar.

É horrível um contexto onde o Estado paga tudo Falando em ir mais longe, recebeu recentemente os prémios PME Excelência e PME Inovação. Acha que a Critical pode, em breve, deixar de ser uma PME? Em breve vai deixar de ser uma PME. Estamos a pensar entrar no mer­ cado accionista. Há alguns projectos para os quais a empresa precisa de financiamento e uma das formas de o obter é tornar a empresa pública. É um salto natural à medida que vamos amadurecendo. Obriga-nos a ser exigentes connosco para garantirmos que estamos no caminho certo e que as nossas práticas de gestão continuam o mais rigorosas possível, pois uma empresa que está cotada tem um conjunto de obrigações a cumprir

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que promovem a transparência. Não estou a dizer que precisemos disto para o sermos, mas numa empresa como a nossa, que cresce e se torna mais complexa, podem-se instalar alguns vícios que podemos combater. Não tem medo de olhar lá para fora neste clima de crise? Não tenho medo, mas tenho muito respeito. Esta é uma crise com características inacreditáveis, há não muito tempo ninguém imagi­ nava que pudéssemos viver isto. Instituições financeiras seculares desapareceram de um dia para o outro, isso é absolutamente brutal. Obviamente que me causa alguns calafrios, mas a nossa empresa está bem preparada, tanto que vamos voltar a crescer e a gerar riqueza este ano a um ritmo maior do que a nossa competição. Temos medo mas temos sido capazes de acumular um activo que nos dá confiança para o futuro. Somos sempre cautelosos na maneira como gerimos e reinvestimos o que temos, tanto que fomos acusados de algum conservadorismo ou até de sermos espartanos. O que é certo é que temos feito um percurso que nos preparou com a energia e atitude certas para enfrentar uma crise. Hoje olhamos à nossa volta e estamos talvez melhor preparados que outros para a enfrentar. É difícil para uma empresa ter condições para inovar em Portugal ou é mais fácil porque há maior cooperação entre as empresas e com o próprio Estado? Tenho alguma dificuldade em fazer comparações mas acho que vivemos num contexto em que há um genuíno esforço para se alterar a realidade nacional, portanto não é por falta de ajudas que uma empresa como a nossa não consegue fazer o seu trabalho. Não sei se o Estado ajuda mais do que noutros países, mas sei que ajuda: temos um conjunto de soluções e tecnologias financiadas. Claro que há outras que não o são e que desenvolvemos internamente, mas há um equilíbrio. Parece-me saudável, porque obviamente que se tivermos alguma ajuda podemos ir mais longe e arriscar mais, sem medo que venha uma crise que nos possa afundar por estarmos a gastar mais do que aquilo que ganha­ mos. Investigar e desenvolver implica esforço financeiro: são pessoas a quem pagamos salários e damos recursos e que, em determinada fase, não geram qualquer riqueza. Por isso, as ajudas que uma empresa puder usar para fazer isto são bem-vindas. Não gostamos do que é subsidiado a fundo perdido, é um mau princípio porque as pessoas não lutam tanto pelos projectos, nunca dão o melhor de si. Claro que é bom ter subsídios do Estado porque nos ajuda e diminui o risco, mas é horrível um contexto onde o Estado paga tudo. Quando criamos um projecto ambicioso temos que procurar zonas de desconforto. São elas que fazem com que nos movamos, pois se estivermos confortáveis vamos continuar sentados. Temos que ter algo a ganhar mas também a perder, para podermos estimular-nos e ter gozo no que alcançámos. Estando fora de questão parar por aqui, já tem algum grande projecto na calha para este novo ano? Em 2009 vamos ter novas empresas em novos mercados geográficos e novos sectores. Não podemos parar pois ainda não consideramos que sejamos uma empresa bem sucedida. Seremos bem sucedidos se um dia a marca Critical for conhecida e distinguida à escala global; se não for dependente dos seus fundadores; se conseguir realizar o grande sonho de ser um projecto de pessoas genuinamente felizes. Quando o projecto viver por si só, já posso dizer que fomos bem sucedidos.

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Š Foto: João Carvalho -Torre de Alcofra


Viagem ao coração de uma aldeia Pessoas singelas, raras e conformadas. Cenários de sonho. A combinação perfeita de uma aldeia chamada Novais. texto: Lino Lopes Ramos As oito horas já lá vão há dez minutos. O dia está frio. Um frio cortante. A aldeia ainda acorda. Pouco a pouco. O cinzento do céu vai-se tornando mais claro. As nuvens dispersam, assim como o frio, à medida que começo a caminhada. Muros de pedra solta preenchem a visão lateral. As suas cores frias invadem o olhar. O sol começa a ver-se ao longe. É tímido, por enquanto. O caminho que me levará ao cimo do monte começa a ser inclinado. Novais é uma aldeia pequena. Não tem mais de 80 habitantes. A maior parte velhos. É uma das filhas de Alcofra, uma freguesia situada na encosta este da Serra do Caramulo. A sensação que se tem, ao entrar na aldeia, é a de que chegamos ao centro de um vulcão. À excepção da parte sul, que se estende por relevos planos até Aveiro, tudo é cercado por altos montes. As árvores são raras, assim como as pessoas que se encontram. Às oito e vinte já estou cansado. As pedras do caminho fazem doer os pés ao turista desabituado. Aparecem ovelhas a pastar num lameiro. Uma mulher faz-lhes companhia. Chama-se Adriana. Tem o rosto marcado pelas rugas de muitos anos de trabalho. Os calos das mãos são outra das suas marcas de identidade. Digo bom dia e ela repete. Depois de lhe dar a conhecer a minha “missão”, diz-me que posso ir por aqui. Mas que “ali em cima o caminho divide-se em dois. Vá pela direita. É mais perto”. Aceito a sugestão. E continuo. Aparece um curral. Outrora serviu de abrigo a vacas. Agora está deserto. Decido entrar. A “majedoura” de pedra – que servia para colocar o pasto – está intacta. As traves de madeira, quase a cair, denunciam o efeito do tempo. A telha, que se aguenta melhor, cobre-se de musgos. As pedras do curral estão soltas e são grandes. Grande força deveriam ter os braços dos homens que as puseram ali. Sem qualquer ajuda mecânica. O caminho continua e é mais estreito. As árvores são agora a única companhia. Eucaliptos. Os pinheiros desapareceram nesta terra. “O eucalipto é mais rentável”, explica Manuel, que foi cortar lenha ao monte para se aquecer. Chego ao cruzamento de caminhos. Vou pela direita. A Oeste, o sol começa a avançar. Tímido. O topo do monte já está iluminado. E, aos poucos, a mancha laranja vai conquistando espaço à sombra. Chega-se à parte mais crítica do percurso. A partir daqui não há caminho. Há ervas, giestas e pedras. Vou saltando umas e outras e chego ao destino. Chamam-lhe o “Monte do Gralheiro”. Reza a lenda que, no tempo dos mouros, um grupo de homens de Novais se colocava no cimo do monte. Ao ver o inimigo, gritavam “gralha”. O aviso era o sinal para o combate. Daqui vê-se a aldeia, lá em baixo, minúscula. Vê-se muito mais. Alcofra inteira aparece diante dos olhos, ao alcance da mão. Pinheiros aparecem agora ao longe. Uma mancha verde com sombras no seu interior. Sombras desconhecidas pela maioria das pessoas. Mas não pelo fogo. Esse já as conheceu e destruiu. Foi há mais de trinta anos.

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Daqui, nas noites de Verão, vê-se o farol de Aveiro. Há quem diga que até já viu o mar. A sensação de aqui estar é única. Parece o ponto mais alto do mundo. Mas não é. O Gralheiro tem pouco mais de 800 metros. Ainda assim, a sensação não foge. Os primeiros sons que ouvimos são o assobio do vento e o cantar de passaritos. Os dois complementam-se. Ao escutar melhor, percebe-se que há outro som: o dos aerogeradores. “Ventoinhas”, como aqui se lhes chama. São poucas, mas sinalizam a entrada de Novais no circuito das ener­ gias renováveis. O sino da capela toca dez horas. Desço a encosta em direcção ao buraco da aldeia. Manuel, que entretanto foi subindo, diz que “para baixo todos os santos ajudam”. Concordo. Cá em baixo, a aldeia acordou, finalmente. O caminho ficou seco, livrou-se da geada que se formou durante a noite. A rua principal da aldeia tem pouco mais de trinta casas. A maioria é feita de pedra, sem reboco, o que dá um tom mais cinzento ao cenário. Ao avançar no caminho, vê-se uma casa com apenas duas janelas. Encontram-se muitas outras assim. E pequenas. Um rosto destapa a cortina e observa o exterior. Parece assustado por me ver. Depois fica desconfiado. E, ao olhar para o céu, parece intrigado com o bom tempo com que o dia coroou os habitantes de Novais. Sigo caminho e encontro Ana. Tem 65 anos. Um olhar cansado. Um rosto sujo. Levantou-se às seis da manhã para dar de comer aos animais e para iniciar mais uma jornada de trabalho. Vem na companhia de duas vacas. “ É uma das minhas formas de rendimento”, diz-me, com um olhar tímido. A outra, mais recente, é a reforma de miséria que recebe. “É pouco, mas é melhor do que nada”, remata. A simplicidade das pessoas que vou encontrando parece coisa de cinema. Mas não é. Habituaram-se a viver com pouco e assim gostavam de acabar. Laurentino viveu a miséria portuguesa e recorda-a: “Uma sardinha era para três bocas”, lembra. “E o pão de milho - cozido no forno de pedra - era feito azedo, para que não o comêssemos tão depressa”. O seu caso era dos piores. “Éramos sete irmãos”, acrescenta. A pobreza levou Laurentino, assim como Maria - que entretanto se juntou à conversa - a ir ganhar para o Alentejo. “Cuidava das ovelhas e apanhava azeitona. Era feliz. Mas trabalhava muito”, confessa Maria. Em Novais todos têm televisão. Só alguns têm os quatro canais. Ao fundo da rua aparece um homem alto, forte, com barba branca. Chama-se Adelino. Mora no “fundo do povo”, como gosta de dizer. Vê televisão à noite e gosta d“As escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa”. “O Marcelo é que devia estar no Governo”, atira, como se conhecesse o comentador desde criança. Fala alto e, ao comentar o telejornal do dia anterior, diz que se admira com “tanto crime”. Mas aponta o remédio: “Com o Salazar isto acabava. De certeza”. A franqueza das pessoas combina-se na perfeição com a simplicida­de da aldeia. Tudo revela uma perfeita harmonia. Na encosta que desci

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© Foto: João Carvalho -Torre de Alcofra

há pouco notam-se agora, do fundo da aldeia, as pedras d e s a l i n h a d a s , o s c or vo s a pousar nelas e a fazer um barulho de morte, as árvo­ res despidas pelo fogo. Os caminhos aqui são de pedra. Mas têm largura suf iciente para a circulação de carros. A luz chegou há 25 anos. O saneamento ainda não. Na parte sul da aldeia encon­ tra-se meia dúzia de casas novas, em cimento, pinta­ das das mais variadas cores. Há brancas, amarelas e até rosas. A estrada principal, com ligação à A25, foi melho­ rada há pouco tempo. “Já devia ter sido há dez anos”, diz António, um dos donos destas novas casas. A opi­ nião é partilhada por todos. O sentimento de que são postos à margem do pro­ gresso já foi inculcado e já não se revela numa possí­ vel amargura do discurso. O olhar resignado, esse, é uma marca dos habitantes de Novais. Mas, “desde que haja saúde, vivemos feli­ zes”, acrescenta Fernanda, a mu l her de A ntónio. É agora meio-dia. A serra que cerc a Nova is oferece uma visão irrepreensível. Uma paisagem repleta de cores outonais, com carva­ lhos, freixos e amieiros que encantam o olhar do turista. É este tipo de aldeias que por vezes aparece na televisão como símbolo da desertifi­ cação e do tempo estagnado no interior de Portugal. E, de facto, o tempo parece que pára quando entramos na aldeia. Mas não pára. Por isso, vêem-se cada vez mais velhos. As crianças contam‑se pelos dedos, assim como o número de vezes que a maioria das pessoas saiu desta terra.

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Um dia , quando for g rande, quero ser político... “Sou de esquerda ou de direita?”: poucos são os jovens que aos 14 anos se questionam sobre um rumo político-ideológico. Menos ainda são aqueles que, com uma decisão tomada, ousam vestir a “camisola”, rosa, laranja, vermelha ou azul e amarela. Numa idade em que as dúvidas mais frequentes estão relacionadas com o desenvolvimento hormonal, as descobertas corporais e o conhecimento do “outro”, quem são estes jovens adolescentes e adultos que ocupam os tempos livres em comícios, congressos e reuniões partidárias? Porque trocam uma tarde de jogos de vídeo no PC ou uma noite com os amigos, por uma campanha de rua ou pela elaboração de uma moção de estratégia global que pode decidir, por exemplo, as bases do apoio social ao ensino superior? texto: Eunice Oliveira

Constança Firmino, 17, é apaixonada por arte. Duarte Canhão, 14, joga rugby. Mariana Bem-Haja, 16, faz ballet e António Arnaut, 17, carrega o peso de um apelido bem conhecido no panorama político. São jovens que ainda não completaram a maioridade mas já cirandam pelos meandros da política. Pertencem aos núcleos das juventudes partidárias no ensino secundário. Esta é uma aposta das estruturas em cativar militantes cada vez mais cedo, ao mesmo tempo que se infiltram nas associações de estudantes e promovem a discussão entre os jovens. A mais recente: a educação sexual nas escolas. O tema é-lhes familiar, as ideias-chave estão bem estudadas, mas é com timidez que falam sobre outros temas na política ou desen­ volvem o porquê do interesse por uma área da qual a maioria dos jovens portugueses está afastada. Duarte está há poucos meses na Juventude Social Democrata (JSD). Entrou no limite da idade mínima. Mas porquê tão cedo? ”É de pequenino que se torce o pepino”, diz com um sorriso ingénuo. Os amigos influenciaram a decisão, a família apoiou. O resto vem por acréscimo: ”quero seguir Direito, por isso vai ser muito útil”. Aluno aplicado, “político” empenhado, segundo os amigos, Duarte é bastante novo mas já sabe o que pode retirar da Jota: “posso cons­ truir uma carreira política a partir da JSD”. Mariana Bem-Haja também é boa aluna, aliás, está no quadro de excelência do colégio privado que frequenta em Coimbra, o Rainha Santa. Lá não são permitidas associações políticas mas isso não inibiu a futura magistrada de procurar um caminho na Juventude Socialista (JS). “Entrei há ano e meio, achei que estava na altura de pôr em prática os ideais políticos”. Ao contrário de Duarte, fala com maior agilidade mas ainda com uma certa reserva. Confessa não conhecer na íntegra a estrutura interna da juventude, nem estar muito familiarizada com os termos utilizados. Gosta de participar em comícios e congressos, de intervir e trocar ideias. Para quem “fazer política é fazer caridade”, Mariana mostra já sinais de um ano de “injecção” socialista. Quer seguir Direito, mais um. António Arnaut não desvia o seu futuro um passo daquilo que foi o passado do avô. António, o avô, foi advogado, Maçom e deputado do PS, tendo ocupado o cargo de ministro dos Assuntos Sociais no II Governo Constitucional, chefiado por Mário Soares. Entrar em Direito na Universidade de Coimbra

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é o próximo passo para Duarte neto que já começou a coleccionar cargos políticos: é coordenador do núcleo da JS no ensino secundá­ rio e fala com a sobranceria de quem almeja altos postos: “nós na JS queremos saber os problemas de cada escola, mas há problemas que são gerais como a educação sexual, os concelhos municipais da juventude [órgãos consultivos do Município em matérias relacionadas com a política de juventude], ou a reformulação das disciplinas de Formação Cívica. Temos de actuar sobre a realidade de cada uma das escolas”, conclui. Vê o núcleo como “uma ligação pedagógica com os miúdos”, garante que a informação que lhes passa é “não facciosa”, geradora de consciência crítica que “permita dar a entender as diferenças entre as ideias de cada um e a história dos partidos”. Com a chegada dos primeiros dias de calor e no calor da primeira vitória laranja em ano eleitoral, as portas da sede do PSD em Coimbra abrem-se para receber os jovens como Constança. Presença assídua na sede desde que resolveu entrar para a JSD há cerca de um ano, a adolescente é o rosto do entusiasmo da juventude pela política. Livros e cadernos espalhados sobre as mesas, mp4s e iPhones conjugados com a leveza da roupa e o à-vontade dos adolescentes dão um ar mais descontraído ao interior do edifício. As estratégias eleitorais estão guardadas na gaveta até ao final do Verão e não são as conversas políticas que ocupam as tardes dos jovens. Para já, os exames nacionais do ensino secundário são um “quebra-cabeças” para os Social-democratas mas, Constança Firmino pensa já no Verão e abre portas ao entusiasmo ao falar na actividade que tem progra­ mado para Agosto: “vou para a Universidade de Verão, no Alentejo, não posso faltar. É uma semana de muito trabalho, lá aprende-se a sério, com conferências, palestras, grupos de trabalho”. No geral esta massa crítica jovem é constituída por bons alunos, que vêm sobretudo da área das Ciências Sociais e Humanas, onde adquirem mais consciência associativa. O nível de integração na escola e de aceitação social e familiar determina também a sua participação política. São bastante jovens, mas de acordo com o sociólogo e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) Elísio Estanque, não demasiado para adquirirem uma consciência política. O sociólogo culpa o sistema educativo por não suscitar ainda mais cedo espaços de participação e debate ao nível da intervenção cívica e política. “Devia existir ainda mais pedagogia

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no ensino secundário com disciplinas de formação cívica obrigató­ rias, com conteúdos sociais, culturais e políticos. Seria uma forma de formar e alertar os jovens para a importância da participação na resolução dos problemas colectivos. Isso é essencial e é um erro não existir”, remata o investigador do Centro de Estudos Sociais da UC. Estamos a falar de uma geração que cresceu com a democracia con­ solidada. Por isso, Jesus Sanz Moral, investigador da Universidade Católica diz que os jovens de hoje têm a obrigação de fazer mais: “temos em Portugal a geração de jovens melhor formada da história, mas este maior capital educativo e cultural, essa eventual maior capa­ cidade para perceber o discurso político e essas maiores habilidades para intervir em política, não estão a ser utilizadas da forma como se esperava. Os jovens afastam-se da política convencional, mas isso pode ser indicador de desinteresse ou, por outro lado, também pode ser indicador de frustração”. Elísio Estanque aponta também o desgaste da imagem que os partidos dão da política, como facto­ res do afastamento da cidadania activa. “A ideia comum que existe espalhada entre os jovens é que os partidos são como se diz o tacho e a procura de oportunidades pessoais, daí essa imagem distorcida e negativa. Isso é péssimo para a democracia”, afirma o sociólogo. Já em 2008, por ocasião da comemoração dos 34 anos da instau­ ração da democracia em Portugal, Aníbal Cavaco Silva mostrou-se impressionado com a ignorância de muitos jovens sobre o 25 de Abril e o seu significado e, num sentido mais lato, atribuiu aos partidos políticos parte da responsabilidade pelo alheamento dos jovens face à política. Na sessão solene do 25 de Abril o presidente da República comprometeu-se a promover um encontro com representantes de organizações de juventude, tendo por objectivo colher a sua opinião sobre o distanciamento dos jovens em relação à política e sobre as medidas que possam contribuir para minorar ou inverter esta situação. Passado um ano a questão mantém-se e acentua-se até com o contexto social e económico. “O que acontecerá com a actual crise económica, que afecta especialmente os sectores sociais mais vulneráveis e, nomeadamente, os jovens? Se os jovens têm ainda mais problemas de integração social, a sua integração política e institucional irá ser ainda mais difícil”, alerta o investigador Jesus Sans Moral. A verdade é que são muito poucos os jovens que optam por uma cidadania activa e consciente. À semelhança dos adultos, os jovens portugueses evidenciam atitudes de baixo envolvimento com a política. De acordo com o estudo “Os Jovens e a Política”, do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Cató­ lica Portuguesa, saltam à vista “os baixos níveis de envolvimento atitudinal, participação política e participação social e cívica dos portugueses, quando comparados com os prevalecentes nos países da nossa área geo-cultural”. O estudo de 2008 dos investigadores Pedro Magalhães e Sans Moral relaciona o reduzido envolvimento com os também baixos níveis de satisfação e com o funcionamento do regime democrático. Justifica a pouca participação juvenil com o facto dos mais jovens estarem ainda numa fase de mobilidade social e instabilidade profissional, assim como em percurso de aquisição de competências políticas. Mas os dados sugerem que existe, ainda assim, uma minoria que resolve associar-se às decisões que podem ditar o futuro da vida em sociedade. Esse “pequeno grupo” do qual fazem parte Mariana,

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Duarte, Constança ou António, cresce quase sempre no seio de juventudes partidárias, uma escola ideológica onde, em larga medida, se constroem carreiras políticas. Dos cerca de dois milhões de jovens entre os 15 e os 29 anos de idade, apenas 5 por cento está inscrito em juventudes partidárias, ou seja, mais de cem mil, muito disputados entre JS e JSD. Fernando Neves, 28 anos, também faz parte dos números. Tinha 16 anos quando entrou para a Juventude Popular. No percurso familiar o Arqueólogo, actual líder da estrutura jovem do CDS-PP na con­ celhia de Coimbra, não encontra qualquer rasto político vincado. Associa a entrada para a estrutura a um interesse “de sempre” pela política. “O meu pai é de esquerda, a minha mãe é PSD, mas nunca foram activos, nunca participaram em comícios. Nada”, reitera. “Eu não sei porque saí assim!”, diz num tom pensativo a cair para o brincalhão. “Aliás, eu tenho uma prima que é “bloquista” e é mais velha. À partida os mais velhos têm sempre alguma influência sobre nós. Mas não, e quando estou com ela, vira-se sempre para mim: mas porque é que tu saíste assim?!“ diz em tom de brincadeira para logo se tornar mais sério quando explica as origens da sua decisão. “Quando tinha 14 anos fiz uma selecção: sou de esquerda ou de direita? Decidi que era de direita. Então se sou de direita há estes e estes e pus-me a ler o que cada partido defende e optei”. João Reis, membro da Coordenadora Nacional de Jovens do Bloco de Esquerda, também optou. Optou até por duas vezes. “Entrei no bloco com 19 anos, vinha da Juventude Comunista Portuguesa (JCP). Mas, por experiências que fui tendo do movimento estudantil e de reuniões da JCP e do bloco, encontrei mais o meu espaço no bloco. Achei que o bloco preenchia um papel mais irreverente, mais aberto mais democrático, daquilo que eu achava que deveria ser o papel da juventude na luta contra o problema dos mesmos”. Na sede do Partido Socialista, que é também a casa da Juventude Partidária, as paredes estão crivadas de retratos, todos eles de gló­ ria. A maior parte das caras sorri para uma imagem central, cujas bandeiras em alvoroço ref lectem uma qualquer vitória rosa. Entre a imagem do ex-primeiro ministro António Guterres e a do actual chefe de governo, José Sócrates há ainda um espaço em branco, quem sabe a ser preenchido pelo líder da juventude socialista de Coimbra, Rui Duarte. Com 24 anos, este estudante de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra, acredita que “fazer carreira política é mau sinal para qualquer pessoa”, preferindo destacar o contributo de cada um, incluindo ele próprio, para a execução dos objectivos da juventude. Rui Duarte não esconde que chegou à estrutura por inf luência familiar e pelo grupo de amigos, mas realça que a decisão final foi feita conscientemente. “Vim com 15 anos. Depois de ter estado dois anos com uma par­ ticipação muito passiva, a conhecer a estrutura, identifiquei-me com a acção política, com a carta de princípios do PS e fui me construindo enquanto social-democrata”.

Juventudes partidárias, escolas no melhor e no pior A idade mínima para pertencer a qualquer uma das juventudes par­ tidárias, seja JSD, JS, JCP, JP, ou Jovens do BE é de 14 anos; com 18 passa-se a militante do partido e com 30 está na hora de abandonar

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a juventude. Não há nada que saber, é assim em todas as estruturas, menos no BE que se pode entrar apenas a partir dos 16 anos. Todas as juventudes possuem órgãos internos, sejam administra­ tivos ou consultivos. A Comissão Política, órgão onde se promove e discute a orientação da juventude, é quase obrigatória. Todos têm carta de princípios, estatutos ou pilares ideológicos uns mais à direita, baseados no tradicional tríptico Deus, Pátria e Família, ou mais à esquerda, sob a égide do marxismo-leninismo, concepção materialista e dialéctica do mundo. Habitualmente rebeldes e irreverentes, há muitos jovens que se identificam com um partido que fuja ao “status quo”. É essa caracte­ rística que João Reis admite cativar mais jovens para o Bloco e, como consequência, tem inf luenciado o crescimento do partido. “O BE é um partido bastante jovem que tem tido muito impacto na juventude, há um grande aumento da “popularidade”. Isso é muito interessante na medida em que o partido também apareceu nessa dinâmica de ser um espaço novo à esquerda”. Mas esta adesão dos mais novos à esquerda não é regra. Há inclu­ sivamente estatísticas que falam no alinhamento político juvenil ligeiramente mais à direita e, assim, valores conservadores como pátria e família continuam a cativar jovens que atribuem outro sentido à palavra modernidade, tantas vezes associada à juventude. “Eu acho que o conservadorismo é o bom modernismo. Por exem­ plo, o modernismo de legalizar as drogas leves na Holanda para mim é mau modernismo e devíamos aprender com os erros deles. Eu prefiro ver um jovem com valores de empreendedorismo. Isso é que é um bom modernismo, isso é que são valores! Nós defendemos isso”, explica o líder concelhio da Juventude Popular, para quem a questão moderno/conservador vem sempre à baila quando se fala num partido tradicional como o CDS-PP. “Mas agora perguntas‑me, isso atrai os jovens? É claro que não, é como o açúcar: faz mal aos dentes mas nós gostamos para caraças! Atrai aquelas pessoas com personalidades vincadas, que sabem que é aquele caminho que querem seguir e que se vão esforçar e trabalhar”. São características que definem a personalidade de cada partido e que, para Fernando Neves, geram críticas mútuas. “Quando eu digo Deus, pátria e família parece que cai o Carmo e a Trindade. Defendemos certos valores que a esquerda critica imenso. É natural”, explica o membro da Juventude Popular com um ar descontraído. Educação, ambiente, 1º emprego são as preocupações mais emergen­ tes das juventudes. Como alerta o coordenador da JCP e deputado do PCP, Miguel Tiago, tantas vezes ouvimos falar na “defesa de uma escola pública, democrática, gratuita e democrática para todos e a luta pelos direitos dos jovens trabalhadores (trabalho, salários, emprego estável)” como valores intrínsecos”. Mais revolucionários ou mais conservadores, consideram-se autó­ nomos e independentes e não um instrumento do partido (o bloco pelo contrário acha que não deve haver uma separação entre os mais velhos e os mais jovens naquilo que são os anseios, lutas, a táctica e o trabalho do partido). No dizer de todos os núcleos jovens, a promoção da discussão ou até o choque ideológico e geracional não acontece assim tão poucas vezes. O vice-presidente da JSD afirma mesmo que “a JSD é uma estrutura de mudança do próprio partido, para o partido se acompanhar mais para o futuro”. Dizem que o partido não faz “ouvidos moucos” aos seus “soundbites”.

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“As resoluções políticas dos congressos da JCP e do PCP têm sempre partes que se referem à articulação entre PCP e JCP”, exemplifica Miguel Tiago. Espaços de partilha de opiniões, conhecimentos e actividades, onde se constroem amizades e laços familiares, as juventudes funcionam também como o local onde a formação cívica e a pedagogia foram encontrar o espaço que não tinham nos estabelecimentos de ensino. Além dos conteúdos lúdicos e desportivos, a formação é a pala­ vra‑chave. Acampamentos ou Universidades de Verão são sinónimos quando o objectivo é apenas um: “a formação e a preparação política do jovem, principalmente o que ingressa pela primeira vez, é para nós essencial. Ao dar-lhes formação não só estamos a melhorar as pessoas na estrutura como também estamos a acolhê-los da melhor maneira”, explica desta forma Joaquim Biancard o investimento que tem sido feito pela Jota em iniciativas como a Universidade da Europa, Universidade do Poder local, ou Formação de Formadores. As juventudes podem ser ainda um palco onde a cultura ganha espaço. “Desde as reuniões e actividades internas de debate e trabalho, até à maior iniciativa político-cultural do país que é a Festa do Avante, a JCP também dinamiza iniciativas culturais como concertos nas escolas e faculdades, organiza um torneio nacional de futsal todos os anos (o torneio “agit”) e outras iniciativas desportivas”, explica Miguel Tiago. Mobilizar, participar, propor, acompanhar: são as palavras de ordem para os jovens políticos, a braços com três períodos eleitorais pela frente. Se em anos “normais” a ocupação passa pelas actividades formativas e lúdicas, um ano com eleições europeias, autárquicas e legislativas exige aos militantes jovens um esforço e envolvimento suplementar. Em mãos têm a tarefa de “sentir o pulso” às “necessi­ dades e anseios da juventude portuguesa, tentando condicionar os programas dos decisores políticos no sentido de verem respondidas as suas necessidades”, como afirma Rui Duarte, da JS Coimbra. Eles abanam bandeiras, distribuem flyers, dão canetas, mas o seu papel não é meramente propagandístico. Mobilizar é importante, propor é mais exigente. A formação de documentos com propostas e a comunicação com o “partido mãe” existe. Para o líder Joaquim Biancard, “a dinâmica de campanha só tem a ganhar com os jovens, quando participam podem fazer toda a diferença”. Mas, serão as juventudes partidárias assim tão diferentes entre si, ou tão diferentes do Partido Central? Elísio Estanque não deixa dúvidas: “as JP são uma escola no pior e no melhor sentido daquilo que é a experiência dos partidos enquanto tais”. O mesmo diz Sans Moral: “Quando as juventudes partidárias se comportam de forma clónica aos seus respectivos partidos, quando o que prima é o interesse partidário ao interesse geral... podíamos acordar que estão a colaborar para reproduzir “os vícios” dos adultos nas gerações de jovens”. Já Miguel Tiago, enquanto discordante é o “porta-voz” de todos os outros líderes juvenis: ”Muitas vezes ouvimos: “são todos iguais” mas isso não é verdade de facto. Essa é a minha principal preocupação no que toca à participação da juventude: mostrar que não somos todos iguais.” Estudioso das questões sociais, mas bastante céptico quanto à estru­ tura política, Elísio Estanque vai mais longe: “os jovens tendem a reproduzir, por vezes de forma mais agravada, os tiques de carreirismo, seguidismo e vícios de oportunismo político que exis­

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tem nos partidos, por isso interrogo-me se faz sentido continuar a manter-se essas estruturas específ icas para a juventude ! ”. Da mesma forma, Jesus Sans Moral vê as juventudes como estruturas pouco independentes e pouco críticas. “As juventudes partidárias têm pouca capacidade para fazer de “lobby” e passar para a agenda política as preocupações dos sectores jovens da sociedade. Também não me parece que estejam a provocar mudanças institucionais nos seus respectivos partidos de referência. Não têm um papel de “vanguarda”, ao contrário, parece-me que são instituições ao serviço do partido, dirigidas simplesmente à formação de futuros dirigentes, sem apenas capacidade crítica e sem capacidade de pressão”.

Juventude partidária: uma agência de emprego? Rui Duarte tinha 15, Fernando Neves 16. Parecem fazer parte do lote restrito de jovens que, enquanto adolescentes, optam por fazer parte do universo político dos adultos. Ambos construíram um percurso em células partidárias opostas, mas que os levou no mesmo caminho: ao topo das mesmas. O sociólogo Elísio Estanque não tem dúvidas que a maior parte dos jovens se associem já com a ideia de um emprego político na mira. “Uma boa parte dos jovens pensa em fazer carreira política, sim. Porque sabem que as redes de contactos e conhecimentos, e as ligações que se constroem no seio dos partidos podem significar mais oportunidades em termos profissionais e de visibilidade pública”. Se Rui Duarte prefere fugir à questão sobre uma carreira política, já Fernando Neves não esconde a ambição, encarando a pergunta com o sorriso de quem foi apanhado desprevenido. “É assim: se eu estou cá é porque gosto de política. Tudo o que apareça pela frente, que seja motivador e com pés para andar…” responde hesitante o arqueólogo, para depois lançar as cartas na mesa: “sim, gostava muito de fazer um percurso político”. Os exemplos de políticos que fizeram carreira, começando pela chefia em estruturas locais é bem conhecido. Pedro Passos Coelho é talvez o nome mais mediatizado. Aos 14 anos aderiu à Juventude Social Democrata. Foi vice-presidente da Comissão Política Nacio­ nal, vice‑presidente (1986-1990) e presidente da Jota (1990-1995). Em 2005 foi eleito n.º dois do PSD, na direcção de Luís Marques Mendes, demitindo-se em 2006. No ano passado concorreu com Manuela Ferreira Leite, Mário Patinha Antão e Pedro Santana Lopes para secretário-geral do partido. Mas outros nomes ganham destaque à medida que os anos pas­ sam sobre o estabelecimento da democracia em Portugal. Todas as estruturas jovens actuais, à excepção dos jovens do Bloco de Esquerda, têm a sua génese no pós 25 de Abril. Com algumas alterações, fusões ou variações ideológicas e constitutivas inter­ nas, foram-se inculcando na sociedade livre actual, formando políticos, contribuindo para a construção de carreiras, prin­ cipalmente nos partidos do chamado Bloco Central. Tanto à extrema-esquerda como à extrema-direita, a humildade sempre foi mais reconhecida e os princípios ideológicos do PCP primam mesmo pela projecção colectiva em detrimento do brilhantismo individual. Apesar disso, Miguel Tiago, um dos coordenadores

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da JCP, não tem dúvidas em af irmar que o trabalho na estru­ tura exige um percurso político. “Na JCP os jovens aprendem o valor do trabalho colectivo, a importância da luta organizada e a necessidade de crescimento do Ser Humano. Encontram o espaço para combater de forma organizada e de lutar por uma vida melhor com um colectivo. O compromisso é somente esse e mais nenhum. Não é na JCP que se buscam carreiras”. Jamila Bárbara Madeira faz parte das “fornadas” mais recentes de políticos vindos da JS. Desde 2004, altura em que cessou funções como secretária-geral da Juventude Socialista, que passa os dias entre Estrasburgo e Bruxelas como Deputada pelo Partido Socialista no Parlamento Europeu. Em cima da mesa do seu gabinete amontoam-se pastas sobre desenvolvimento regional, emprego e assuntos sociais ou, a nível externo, sobre relações diplomáticas e económicas entre Portugal e o Mediterrâneo. A política é agora uma opção a tempo inteiro para a senhora que entrou adolescente na estrutura do partido e desde criança acompa­ nhava o pai, Luís Filipe Madeira (deputado do PS, governador Civil em Faro e eurodeputado) nas campanhas eleitorais, “a distribuir panf letos e a falar com as pessoas”. Desde militante de base na JS à participação em associações de estudantes do ensino secundário e superior, Jamila Madeira foi sempre bastante interveniente. Da juventude partidária tira os maiores ensinamentos. “A JS é uma escola de cidadania. Lá recebemos formação mas também damos aquilo que temos de melhor em termos de disponibilidade, de conhecimento e empenho”, diz a socialista que não esconde a importância da JS no seu percurso político: “todo o nosso per­ curso de aprendizagem é importante. E toda a participação cívica e associativa também. Sendo secretária-geral tive a oportunidade de dirigir uma organização com cerca de 50 mil militantes com uma dinâmica muito exigente em termos de liderança e que me trouxe uma grande experiência de gestão e organização”. No percurso de 16 anos destaca o momento consciencialização e luta política em torno da autodeterminação de Timor-Leste. Agora, com uma carreira política que não lhe permite outra ocupação, olha para trás com satisfação. “Eu acho que fui aceitando os diferentes desafios que foram surgindo, alguns com razoável estupefacção. Mas foram boas etapas da minha vida que jamais esquecerei.” De acordo com Elísio Estaque é natural a perpetuação de cargos de pais para filhos, de tal modo é a “lógica dos interesses que mina os partidos políticos. O certo é que os comportamentos dos apare­ lhistas dentro das máquinas partidárias vão todos eles no sentido de se perpetuarem no poder, de manterem os seus cargos de darem oportunidades principalmente àqueles que fazem parte das suas redes pessoais, das suas famílias, dos seus amigos ou a quem devem favo­ res ou querem criar dependências e fidelidades partidárias”, critica o também militante do Partido Socialista. Difícil é mesmo encontrar quem contrarie as estatísticas e, uma vez na política, a abandone definitivamente. Nuno Freitas pode ser um exemplo, mas ainda assim, imperfeito. Ex-presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, foi dirigente da JSD Coimbra em 2000. Ocupou depois o cargo de deputado e vereador no 1.º man­ dato de Carlos Encarnação. Esteve afastado oito anos da política e é agora, enquanto coordenador do Centro de Simulação Biomédica de Coimbra, que prepara uma reaproximação.

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Jovens são de “direita” Em 2007 a Universidade Católica Portuguesa conduziu um estudo com o objectivo de recolher informação sobre as atitudes e compor­ tamentos políticos dos jovens em Portugal. As conclusões, publicadas em Janeiro de 2008, demonstraram que os jovens participam e envolvem-se pouco a nível associativo e sobre­ tudo, a nível político. No geral concluiu-se que “o posicionamento ideológico dos jovens tende a estar mais à direita do que a generalidade da população, mas aquilo que mais claramente os distingue é o facto de percepcionarem menor utilidade das categorias “esquerda” e “direita” na compreensão da vida política. Este maior “desalinhamento” ideológico também se reflecte num maior desalinhamento partidário”. Apenas 20 por cento dos jovens entre 15 e 17 anos se conseguem identificar com qualquer partido. No que toca ao funcionamento do sistema político é na faixa etária mais baixa que se encontram avaliações mais positivas e optimistas em relação ao futuro. Apesar disso, os portugueses são o povo europeu menos satisfeito com a democracia. Talvez por isso evidenciem um envolvimento muito baixo com a política. Os jovens portugueses encontram-se pouco expostos à informação política dirigida pelos meios de comunicação convencionais e, mesmo aqueles que já chegaram à idade de voto, tendem a exibir menores níveis de conhecimentos políticos. O voto é, aliás, a forma de participação política à qual atribuem menos eficácia e por isso tendem a praticar menos. Mas não é seguro que isso se verifique em todas as circunstâncias: este estudo sugere que, “no que respeita ao referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, os jovens poderão ter participado tanto ou mais receptivos”. Para este grupo social, formas de participação menos convencionais como manifestações, chamar a atenção dos media, colaborar com partidos ou contactar políticos, revelam-se mais efica­ zes. No geral, os jovens tendem a ser menos cépticos do que os mais velhos em relação à eficácia de todas as formas de participação política. A nível da participação cívica e social, na Europa, os portugueses são dos que menos pertencem a partidos políticos, sindicatos, associa­ ções ou clubes desportivos ou outros, com a pertença a associações de carácter religioso a constituir a excepção. Mas é entre os que têm 15 e 17 anos que se encontram a maior percentagem de indivíduos que dizem participar activamente numa associação, sobretudo em associações de estudantes, juvenis, ou desportivas.

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Best Of Um lugar marcado para o melhor da investigação académica de alunos. A partir de relatórios de estágio, de trabalhos de seminário ou de outros que venham a surgir. Com tempo e espaço.

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Relatรณrio de estรกgio realizado no Jornal Tribuna de Macau. Orientado por Joรฃo Figueira.

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Jornal Tribuna de Macau

Jornalista (c)sem horas do outro lado do mundo “Hoje, o mundo é grande, é infinito. Cresce constantemente e será certamente mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que para nós conhecer, ouvir e compreender tudo o que constitui a experiência de quase dez biliões de pessoas” (Kapuscinski, 2002:45) Ana Raquel Carvalho

Haverá o jornalista “mercador, o marinheiro” e o “camponês, o que está em casa a recolher recordações e a distribuí-las” (Benjamim apud Kapuscinski, 2002 :77). Escolhi, como pri­ meiro caminho, vestir a pele daquele que parte e que a uma distância indizível de “casa”, procura histórias, rebusca ante­ cedentes e causas, relata-as e move-se num espaço que não era inicialmente seu. O jornalismo detém uma plura­ lidade de funções, tão diversas como os contextos em que se insere e provavelmente tão dife­ rentes como quem se empenha no seu exercício. “Informar (reflectir a realidade); formar (interpretá‑la); e distrair (ocupar os tempos livres)”; acrescentando-se ainda

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a “tematização”, que se entende como o “mecanismo de formação da opinião pública”; e a vertente “comercial” (“ganhar dinheiro”), são as funções apontadas por Mar de Fontcuberta e que me parecem abarcar simultaneamente os lados ideológico e pragmático do jor­ nalismo (Fontcuberta, 2002:28). Cheguei a este mundo de diferen­ tes margens, enquanto estagiária do Jornal Tribuna de Macau (JTM), em Outubro de 2008 e só o larguei em espera no final de Março de 2009. Ao longo do presente relatório, proponho-me discorrer sobre alguns dos pontos mais marcantes daquele período temporal, escolhidos com base nos critérios de singularidade (o que tem um estágio no JTM de diferente) e de relevância

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jornalística. Divido, portanto, esta explanação em diferentes capítulos. Começo com a descrição do jor­ nal que me acolheu durante seis meses, das suas características formais e de conteúdo, reprodu­ zindo também as suas rotinas e percurso histórico, sem esquecer a mais importante parte, a da força humana. Num segundo momento, procuro encetar uma ref lexão sobre a prática de um “jornalista generalista” (Fontcu­ berta, 2002:101), usando o termo “zapping” jornalístico, aqui com uma conotação que abrange não apenas o jornalista que escreve sobre qualquer tipo de assunto, mas também o jornalista que usa diferentes meios, neste caso que escreve e fotografa, numa

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deambulação entre as virtudes e malefícios que esta prática pode conter. Os capítulos seguintes corres­ pondem a um aprofundamento s obre o t ip o de jor n a l i smo que se faz no JTM, um jorna­ lismo de proximidade que, no entanto, não escapa à expressão institucional, muito evidente naquele território. Neste ponto, recordo experiências concretas através das quais demonstro que a notícia é um “autêntico sintoma social” (Fontcuberta, 2002:12), dependente das fronteiras geo­ gráficas, do contexto social, do relacionamento com as fontes e com os leitores e da interacção entre os profissionais do jorna­ lismo. A proximidade surge aqui também como ponte, através da


qual apresento um caso prático com implicações deontológicas, que coloca em causa o território movediço de que é feita a prática jornalística, onde o jornalista empenhado, de causas, se pode cruzar com o “jornalista-obser­ vador” (Mesquita, 2004:68), que assume uma posição de distan­ ciamento. Por fim, abandono a análise inte­ rior e prendo os olhos no exterior, mostrando de forma clara o que é estar num continente próximo de um regime político bastante distante do enquadramento das democracias ocidentais, cen­ trando-me nas implicações visíveis que se verificam nas liberdades de imprensa e de expressão, uma reflexão que tem como virtude levantar dúvidas e não apontar caminhos certos e absolutos. Torna-se ainda pertinente salien­ tar a forma como fui recebida na redacção, onde senti ter espaço para perguntar, propor e errar, tendo sido tratada não como uma estagiária mas como uma jornalista, com as mesmas res­ ponsabilidades de todos os meus colegas de profissão, entre elas o profundo sentido de representa­ ção de uma entidade, neste caso, o jornal.

A casa onde se aprende a andar O estágio curricular correspon­ derá a um período de transição entre os bancos da faculdade e as cadeiras de uma redacção. Mais do que na universidade é no estágio que acontece (idealmente) a fusão entre a teoria e a prática, surgindo como uma “prova de fogo” às nossas capacidades e ao desejo de ser jornalista. Optei por candidatar-me ao Jornal Tribuna de Macau, porque acreditei que ali iria obter algu­ mas respostas, não definitivas, mas contundentes. Baseada em

ecos emitidos por colegas que tinham passado pela experiên­ cia, sabia que naquele jornal poderia conhecer os cantos à prof issão e vivê-la de forma intensa e, pensando nos meus anseios pessoais, tratava-se de uma oportunidade única de viver noutro continente, o maior do mundo, com uma cultura ances­ tral e a léguas de distância dos contornos que tomamos como certos. Este último aspecto foi decisivo para me lançar à desco­ berta, pois “para nós, jornalistas que trabalhamos com pessoas, que procuramos compreender as suas histórias, que temos de investigar e pesquisar, a expe­ riência pessoa l é obviamente f unda menta l ” (K apuscinsk i, 2002:30). Entendo, portanto, que somos feitos das pessoas que conhecemos e dos locais que compreendemos. Nesse sentido, o jornalista tem de estar disposto a abrir-se ao mundo, uma ideia que o próprio director do JTM repetia insistentemente Foi atrás disso que cheguei a Macau, a um jornal que informa os seus leitores durante os sete dias que compõem a semana, orgulhando-se de ser “verda­ deiramente o único diário de Macau em língua portuguesa”. Porque, como acredita o director do JTM e afirma Fontcuberta “o segredo está na periodicidade” (Fontcuberta, 2002 :19), esta unifica um período e define o presente (Gomes apud Fontcu­ berta 2002:19). Apesar de Macau ter passado para a soberania da República Popular da China em Dezembro de 1999, a presença lusófona continua a ser visível, graças, em grande parte, aos diversos órgãos de comunicação social em língua portuguesa, que continua a ser uma das duas línguas ofi­ ciais do território. Para além do JTM, existem mais dois diários, o Ponto Final e o Hoje Macau,

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bem como um semanário, o Clarim, ligado à igreja católica, para além da Rádio de Macau e do canal português da Teledifusão de Macau (TDM). Resultado físico da fusão entre o vespertino Jornal de Macau e o semanário Tribuna de Macau, ambos fundados em 1982, a his­ tória do JTM confunde-se com o percurso do próprio território, tratando‑se de um “jornal com memória”. Actualmente, o diário que nasceu há 26 anos é pro­ priedade do grupo Tribuna de Macau – Empresa Jornalística e Editorial, SAR L, sendo que José Rocha Diniz, jornalista há mais de 30 anos, desempenha simultaneamente os cargos de administrador e director. Com uma tiragem de mil exemplares, o JTM, à semelha nça dos restantes jornais de língua por­ tuguesa do território, mantém-se essencialmente através de um subsídio atribuído pelo Governo da Região Administrativa Espe­ cial de Macau (R AEM) 1, para além do contributo da publici­ dade, assinaturas e vendas nas bancas (este último ponto com um peso muito residual). Devido à longevidade do jornal, os ritmos da “máquina” estão 1 O Governo da RAEM atribui anualmente um subsídio aos jornais das duas línguas oficiais do território (português e canto­ nense). O montante varia consoante vários critérios, nomeadamente o número de trabalhadores e de páginas. Este subsídio surgiu no final da década de 80, durante a administração de Jorge Coelho e foi reformulado durante o governo de Rocha Vieira, tendo sido regulamentado nessa altura que os jornais só teriam direito a receber o subsídio após funcionamento durante três anos, de forma ininterrupta. Depois da passagem de Macau para a soberania da República Popular da China e durante a administração do Chefe do Executivo, Edmundo Ho (no poder desde 1999), o montante a ser distribuído pelos jornais aumentou. Actualmente, o JTM, à semelhança dos restantes diários de língua portuguesa do território, recebe cerca de meio milhão de patacas, por ano.

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bem oleados. “O jornalismo atrai muita gente, pois é visto como a antítese da rotina de ‘9 às 5’, tendo o inesperado sempre no horizonte” (Traquina, 2002:18). E, observando a experiência que tive, é‑o efectivamente, raro era o dia em que não surgisse um tra­ balho ou um contacto que fosse “imprevisto”, e os horários, esses também pertenciam ao domínio do imprevisível. Porém, o jor­ nalismo à semelhança de quase todas as profissões é também ela “marcada por rotinas” (Traquina, 2002: 18) a vários níveis, não só pensando na dinâmica do jornal como também nas relações que se estabelecem e nos acontecimentos sobre os quais escrevemos. A reunião de agenda acontecia sempre ao final do longo dia de trabalho, altura em que Sérgio Terra, actual director-adjunto, distribuía pelos jornalistas os tra­ balhos a realizar no dia seguinte. Ca so não ex istisse “a genda” durante a manhã, a chegada da maior parte dos jornalistas fazia‑se pelas 15 horas. Ao longo do dia, uns iam partindo para tra­ balhos com hora marcada e, raras vezes, se permanecia somente na redacção para fazer o chamado jornalismo de secretária. O con­ tacto personalizado com a fonte foi sempre privilegiado, embora em alguns casos o telefone ou o e-mail tenham sido utiliza­ dos, quando a disponibilidade da fonte ou a urgência do tra­ tamento do assunto, em função das rotinas do jornal, assim o obrigaram. O número de trabalhos diários variou consoante os períodos do ano, tendo ocorrido semanas em que era frequente fazer cerca de três trabalhos (que implica­ vam saída da redacção) por dia, no meu caso em particular não só em Macau, mas também em Hong Kong. Depois, existiam ainda as notícias a partir de “takes” de agência ou baseadas

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no cruzamento de informações provenientes de diferentes jornais do Continente chinês, nome­ adamente em língua inglesa, não esquecendo a s informa­ ções veiculadas pelo Gabinete de Comunicação Social (órgão de informação governamental). Denota-se, assim, uma interde­ pendência clara entre os meios noticiosos, uma complexa teia de relações que o JTM integra de forma ainda mais visível através de acordos de colaboração com o jornal chinês de maior circu­ lação no Território, o Ou Mun, e com o diário de língua inglesa, Macau Daily Times, com os quais troca fotografias e informações; e ainda com o Diário de Notícias, que fornece alguns conteúdos noticiosos da realidade portu­ guesa, bem como colunas de opinião; dispondo igualmente dos serviços fornecidos pela Agência Lusa. Por outro lado, os noticiários emitidos, ao longo do dia, pela TDM (rádio e televisão) eram atenciosamente acompanhados, de modo a que não nos escapasse nenhuma notícia, mas sempre sob a regra de que as informa­ ções recolhidas não deveriam ser meramente transcritas, mas sim verificadas e complementadas. Ora, também aqui se denota o “jogo de espelhos” de que fala Nelson Traquina, decorrente da observação mútua entre os dife­ rentes órgãos de comunicação e que pode conduzir a um inde­ sejável “’encerramento mental’ entre os membros da tribo jor­ nalística” (Traquina, 2002:22), um enclausuramento que deverá, no entanto, ser esbatido através dos cuidados de verificação que enunciei anteriormente. Finda a maratona noticiosa, che­ gava a hora de os artigos serem lidos antes de ir para a paginação. Ora o subdirector Sérgio Terra, ora o editor Emanuel Graça, outras vezes ainda o próprio director,

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todos eles desempenharam em momentos diferentes essa tarefa, algo que foi extremamente pro­ veitoso, permitindo-me contactar com diferentes formas de olhar sobre o jornalismo. É ainda impor­ tante salientar que a “correcção” decorreu sempre num ambiente aberto de discussão e cedências mútuas, havendo na maior parte das vezes a preocupação de man­ ter as marcas estilísticas próprias de cada jornalista. O espaço que a peça iria ocupar, bem como o ângulo de abordagem eram tam­ bém sempre o resultado de uma conversa/“negociação” com o sub­ director ou com o editor. Apesar de alguns hábitos e rit­ mos terem permanecido ao longo dos meses em que estagiei no Jornal Tribuna de Macau, esse período temporal foi também marcado por várias alterações, nomeadamente no que diz res­ peito à constituição da equipa redactorial. Em Novembro, saiu o jornalista Vítor Quintã e, nessa altura, entrou uma nova jorna­ lista; em finais de Dezembro foi a vez do editor Emanuel Graça sair e no mês seguinte a redacção recebeu dois novos elementos, um ficaria a desempenhar o trabalho de secretária de redacção e outro responsável por retomar a rubrica “Pelos Tribunais”. No final do meu estágio, o jornal era com­ posto por duas jornalistas, três estagiárias e o director-adjunto, Sérgio Terra. Também o número de páginas do próprio jornal foi variando ao longo do tempo, entre as doze, as dezasseis ou as vinte e qua­ tro páginas. Durante os últimos meses em que estagiei no JTM, as doze ou dezasseis páginas foram as opções mais frequentes, em virtude da diminuição da publi­ cidade, face à crise económica internacional, que inevitavelmente fez estremecer os grandes gru­ pos económicos, nomeadamente relacionados com a indústria

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do jogo (motor da economia de Macau), repercutindo-se nos pró­ prios órgãos de comunicação do território. Em suma, e descrevendo de forma sintética o diário onde estagiei, recordo a frase que tantas vezes ouvi sair da boca do director: “O JTM é um jornal de notícias”. Esta é a def inição que Rocha Diniz usa invariavelmente sempre que quer salientar a importância da destrinça entre factos e opi­ nião, embora tenha motivado sempre os seus jornalistas a escre­ verem colunas de opinião nas páginas daquele jornal. No entanto, talvez carregando o peso de ser o jornal mais antigo do território, o JTM guarda alguns resquícios de conservadorismo que se reflectem nomeadamente no grafismo, marcas que têm a ver com o tipo de letra utilizada, o espaçamento entre linhas e as cores, que na primeira página do jornal passam pelo jogo entre o vermelho e o azul. Além disso, a fotografia geralmente não era muito valorizada, algo que come­ çou a alterar-se nas minhas últimas semanas de estágio, com a imagem a ganhar mais espaço, evitando‑se uma massa textual demasiado densa (outro dos problemas gráfi­ cos), que inibe a leitura. Paralelamente aos sinais con­ servadores, o JTM mostra que também é um jornal capaz de respirar os ares dos novos tem­ pos e de navegar ao sabor desses ventos, exemplo disso é o “site” na internet, que é actualizado diariamente com o conteúdo integra l da versão impressa, agora também disponível em PDF, possibilitando concretizar uma das ambições que serviu de fundamento para a criação do jornal e que iremos aprofun­ dar mais adiante: difundir “os eventos locais pelos milhares de falantes portugueses, incluindo as comunidades de macaenses espalhadas pelo mundo”.

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O “zapping” jornalístico O jornalismo terá múltiplas defi­ nições, não possuindo nenhuma concreta e objectiva, mandamen­ tos que tantas vezes ele próprio persegue. Porém, a “vida” será uma das concepções mais apro­ ximadas do que é o jornalismo, uma visão talvez “poética” como lhe chama Nelson Traquina, é certo, mas aproximada. E quando falo em vida refiro-me a ela “em todas as suas dimensões, como a enciclopédia” (Traquina, 2002:9). Se folhearmos um jornal diário, aí encontra-se “a vida dividida em secções que vão da socie­ dade, à economia, à ciência e ao ambiente, à educação, à cultura à arte, aos livros, aos media, à televisão, e o planeta seleccio­ nado em local, regional, nacional (…) e internacional” (Traquina, 20 02 :9 ). Ora , o jorna lismo deverá ter o condão de abarcar “a vida, o mundo e os outer limits” (Traquina, 2002 :9), embora o faça de forma segmentada. É precisamente aqui que reside, do meu ponto de vista, uma das maiores riquezas da sua praxis: a capacidade de tocar diferen­ tes áreas, de expressar inúmeros fragmentos da realidade, dos seus profissionais acumularem dentro de si, todos os dias, um novo ensinamento. No fundo, esta coisa de fazer jornalismo é uma espécie de jogo de pingpong, que se materializa num cruzar de bolas e reflexos entre o mundo (e todos os sujeitos na complexidade das suas existên­ cias) e o jornalista. O mundo fornece o material, o jornalista tra nsforma‑o (por vezes até, deturpa-o) e, após um processo de construção, lança um novo objecto, que será a notícia, para o espaço público, ou seja, nova­ mente em direcção ao mundo. Um dos pontos mais vantajosos do estágio no JTM creio que terá sido o facto de, ao contrário do


que acontece nos estágios em jornais nacionais (em Portugal), não ficar restringida a uma só editoria, permitindo-me assim contactar com diferentes “vidas” e reflectir sobre diferentes faces sociais. De entre as mais de 160 peças que assinei (não incluo, portanto, caixas, fotolegendas, breves ou artigos feitos com base em “takes” de agência), escrevi sobre os mais diversos temas, desde política, economia, des­ porto, sociedade e cultura (tal como é possível obser var em Anexo), embora a maior parte dos conteúdos se tenham inse­ rido na secção “Local”, a editoria predominante no jornal. Escrever sobre uma enorme plu­ ralidade de assuntos implica que o jornalista investigue um leque de temáticas tão distintas como a própria vida, multiplicando os seus alter-egos e procurando den­ tro (e fora) de si referências que o ajudem a “ler” as realidades que tem de relatar. O facto de nos despirmos quase todos os dias dos assuntos que abordámos no dia anterior tem a vantagem de usarmos uma linguagem menos específ ica e mais acessível ao público em geral, uma condição mais difícil de ultrapassar para os “jornalistas especializados”. Toda­ via, a sujeição ao desconhecido, isto é, o não sabermos exacta­ mente sobre o que estamos a falar, exige-nos o esforço suplementar de estarmos atento a tudo e todos, e de possuirmos uma escrita maleável que permita transmi­ tir a mensagem com ef icácia. É certo que este “zapping” jorna­ lístico contém em si uma série de malefícios, acrescidos pela com­ plexidade contínua do mundo, no entanto, não podemos esquecer‑nos que este período correspondeu ainda a um momento de formação e, nesse sentido, as vantagens de trabalhar assuntos distintos, tes­ tando a nossa elasticidade mental e cultural, ultrapassam, na minha

opinião, as desvantagens que sal­ tam à vista. Como “malefício”, vejo a soberania da “ditadura do tempo” que, por vezes, antes de acorrer a um acontecimento em que estávamos fora do con­ texto, não nos permitia fazer a necessária preparação de que falei anteriormente, condição essencial para que se verifique a informa­ ção (Gáldon Lopez, 2003:166). Contudo, esta lacuna foi sempre atenuada, por vezes com a ajuda de outros colegas no terreno, na maior parte das situações com o apoio incondicional dentro da redacção e, claro, com doses de atenção redobrada. De um outro ponto de vista, este “zapping” jornalístico também pode causar um certo desgaste mental. Recordo-me, por exem­ plo, de um dia em que fui a Hong Kong a propósito de uma conferência de imprensa, onde o grupo “Shun Tak” apresentou um novo empreendimento. Che­ guei à redacção perto do final da tarde e redigi a peça. Logo de seguida, fui fazer a cobertura de um evento de despedida ao côn­ sul-geral de Portugal em Macau, Pedro Moitinho de A lmeida, trabalho que corresponderia às páginas centrais daquela edição. Não poderei, portanto, dizer que é fácil ligar o “comando” e escre­ ver sobre economia, “mudar de canal” e escrever sobre sociedade, fazer um novo “zapping” e haver ainda tempo para uns parágrafos sobre desporto. Não, não é fácil, mas talvez também por isso acabe por ser tão compensador, por todos os motivos que enumerei anteriormente. Quando falo em “zapping” jor­ nalístico refiro-me também ao jornalista polivalente, que faz a fotografia e escreve o texto, de resto, uma tendência contempo­ rânea, que aqui corresponde mais a uma questão de contenção de meios do que ao acompanhar uma onda cada vez mais global. Apesar

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de admitir que em algumas situa­ ções tive dificuldade em executar os diferentes procedimentos: tirar fotografias, anotar informação e recolher declarações, considero que esta foi mais uma experiência enriquecedora. Embora o curso de jornalismo não forneça qualquer tipo de formação específica em fotojor­ nalismo, entendo que esta é uma área fundamental mesmo para quem deseja somente escrever. Como reflecte Roland Barthes, “uma foto pode ser o objecto de três práticas (ou de três emo­ ções, ou de três intenções): fazer, experimentar, olhar” (Barthes, 2006:17). Nesse sentido, sinto que tirar uma fotografia é mais uma forma de treinar o nosso olhar sobre a realidade, à seme­ lhança do que fazemos quando redigimos uma peça, em que seleccionamos as fontes, o ângulo de abordagem, o estilo de escrita, também quando captamos uma imagem recortamos um pedaço da realidade, escolhemos as perso­ nagens, definimos a luz, criamos um ambiente, em ambos os cam­ pos agimos como operadores da fragmentaridade (Correia, 2009). Num sentido restrito, entende-se por fotojornalismo “a actividade que pode visar informar, contex­ tualizar, oferecer conhecimento, formar, esclarecer ou marcar pon­ tos de vista (‘opinar’) através da fotografia de acontecimentos e da cobertura de assuntos de interesse jornalístico” (Sousa, 1998). Tendo por base esta definição verificamos que fotografia e escrita partilham objectivos quando se encontram num campo comum de activida­ des como o jornalismo. De acordo com Jorge Pedro Sousa, “a activi­ dade [de fotografar] caracteriza-se mais pela finalidade, pela inten­ ção”, ora no momento da imagem fazemos um “ensaio” que nos poderá ser útil até no momento em que vamos elaborar a notícia. Penso, por isso, que um jornalista

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que domine ambas as áreas de acção tenderá a ser um profissional muito mais completo, detentor de uma capacidade mais apurada de leitura sobre a realidade. Aliás, como afirma um fotojornalista do Diário de Notícias, os fotojornalis­ tas são eles próprios “jornalistas de corpo inteiro, talhados para a notícia, para a reportagem, para a entrevista”, ou seja, não são “fotó­ grafos no sentido mais pragmático e clássico de termo, cujo fim é a fotografia em si mesmo” (Cor­ reia, 2009), daí que o jornalista também seja à sua maneira um fotógrafo da realidade (mesmo sem usar máquina). Embora a fotograf ia seja por vezes margina lizada, tratada como elemento secundário, a sua importância é inegável e prepon­ derante para o leitor no momento de decisão de leitura da peça que acompanha. É pertinente também salientar que a fotografia e o texto auxiliam-se mutuamente na trans­ missão da mensagem, sendo que a fotografia pode mesmo credibilizar a informação veiculada na notícia, criando uma carga polissémica ainda mais complexa. Jornalista e fotojornalista devem, assim, caminhar de mãos dadas, toda­ via, apesar de encontrar vantagens na minha experiência, entendo que jornalista e fotojornalista, por regra, não devem ser um só, uma vez que essa fusão delimita o bom desempenho de ambas actividades, podendo conduzir até à transmis­ são de conteúdos informativos menos completos e rigorosos. Contudo, o facto de ter vestido a pele de “jornalista polivalente”, durante o período de estágio, assume um relevo ainda maior se pensarmos que é essa preci­ samente a tendência actual e de futuro, quer concordemos ou não com ela, pois hoje em dia ser jornalista implica não só dominar todos os géneros, mas também todos os meios, plataformas e ferramentas

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Ver melhor o que está perto: jornalismo de proximidade “Os relatos de acontecimentos noticiosos são ‘estórias’ – nem mais nem menos” (Tuchman apu d Tr aqu i n a , 1999 : 258 ) . E, por isso, o jornalista é fun­ damentalmente um “contador de estórias da sociedade con­ temporânea”. “Estórias da vida, estórias das estrelas, estórias de triunfo e de tragédia” (Traquina, 2002:10), estórias sobre figuras públicas, estórias sobre anóni­ mos. E é isso que a maior parte dos leitores procura nos jornais, ainda que por vezes inconscien­ temente: estórias. Nesse sentido, “o jornalismo pode ser explicado como sendo a resposta à pergunta que muita gente faz todos os dias – o que aconteceu/está aconte­ cendo no mundo?, em Timor?, no meu país?, na minha ‘terra’?” (Traquina, 200:10). Deverá ser, talvez, essa a maior ambição do jornalismo: responder às questões dos seus leitores, colocando-se no lugar do outro, do seu interlocutor, colmatando a “fome de conheci­ mento humano” (Stephens apud Kovach, 2001:6) e indo, se preciso for, ao fim da rua ou até ao cabo do mundo (Meneses, 2003:5). Ao contrário do que se verifica na lógica da maior parte dos jornais generalistas contemporâneos, que reflectem “efeitos contraditórios, pois aproximam o que está longe mas, simultaneamente, afastam o que está perto” (Abrantes, 2006), os jornais regionais tendem a dar um especial enfoque ao que é ma is próx imo. Funciona m mesmo, por vezes, como últimos redutos que dão voz às “comu­ nidades de lugar” (Camponez, 2002:20) e que se preocupam em responder às suas inquietações, porque são elas, afinal, que vão servir de matéria-prima ao tra­ balho jornalístico. Não há dúvida de que “as pes­ soas estão interessadas em saber

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o que se passa próximo de si, e por vizinhança deve entender‑se não só a geográfica como a social e até a psicológica” (Fontcu­ berta, 2002:36). Partindo deste princípio, a proximidade é um dos factores mais poderosos no momento de escolher uma notí­ cia e isso ref lecte-se de forma inequívoca no JTM, sendo este o va lor-notícia fundamenta l. O sentido dos interesses dos leitores, em particular daqueles que pertencem às comunidades lusófona s, são o ponteiro da bússola que faz avançar para a cobertura de um determinado acontecimento ou para a decisão quanto ao ângulo de abordagem de um assunto. “O que é que interessa a Macau e aos cidadãos que aqui vivem?” corresponde à “pergunta-chave”, que era feita interiormente todos os dia s, representando invariavelmente o ponto de partida para “agar­ rar” a maior parte dos temas. A aposta neste tipo de jornalismo é visível ao folhearmos o JTM, jornal onde a secção “Local” ocupa a maior parte das pági­ nas, e num rápido vislumbrar da primeira página, percebemos igualmente que a manchete e as chamadas estão reservadas aos assuntos da comunidade. Como exemplos de trabalhos que realizei tendo por base este princípio, recordo-me de uma reportagem, uma das peças que mais prazer me deu, sobre um dos últimos sapateiros-artesãos de Macau. Completamente fora do “agenda-setting”, a ideia sur­ giu do subdirector, que ouviu dizer que perto da sua casa have­ ria uma loja onde era possível fazer sapatos por medida. Acabei por ir até ao local, acompanhada por u m a pe s soa que f a ria a tradução, com o objecti­v o de recolher o testemunho de vida de alguém detentor de uma pro­ fissão cada vez mais em desuso. Ora, o factor “proximidade”

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permitiu-nos conhecer este caso quase singular, chegar com faci­ lidade à fonte e dar-‑lhe um destaque que um jornal distante da comunidade não daria, tendo a estória ocupado as páginas centrais de uma edição. Esta situação é a prova cabal de que o poder do jornalismo reside em contar estórias, estórias essas que saem do “agenda-setting”, estreitamente ligado a aconte­ cimentos institucionais, estórias que não nos chegam em notas de imprensa ou e-ma ils bem re d i g ido s p or a s s e s s ore s de imprensa, estórias que resultam tão somente de um olhar atento sobre a realidade circundante. E, no dia seguinte, são essas estórias que vão fazer a diferença entre os jornais. Um outro assunto que viria tam­ bém a merecer grande destaque surgiu igualmente de modo inu­ sitado com uma aposta quase no escuro. Numa sexta-feira à noite, recebemos na redacção uma nota de imprensa em chi­ nês, onde era apenas possível perceber meia dúzia de pala­ vras: Rotunda Carlos da Maia, “DVD”, o nome de um ateliê de arquitectos e a hora do evento (fosse lá ele qual fosse…). O subdirector deu-me indicações para que passasse por lá, “just in case”, dizendo que aquilo pode­ ria “dar qualquer coisa”, mas competir-me-ia a mim decidir, porque à mesma hora existia um outro acontecimento a decor­ rer. Optei por dirigir-me, um pouco mais cedo, à zona dos Três Candeeiros e, ao contrá­ rio do que esperava, aquilo ia mesmo “dar qualquer coisa” de bastante interessante, ficando o outro evento (a inauguração de uma exposição) completamente anulado, até porque já havia sido realizado um trabalho de antecipação. Ali, tratava-se da apresentação à população de um projecto de

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revitalização da área envolvente à rotunda Carlos da Maia, uma ideia que tinha partido de uma associação de moradores. Ali, havia mesmo notícia. Além de ser uma iniciativa inédita por parte da população, era a primeira vez que o projecto estava a ser apresentado ao público, já com esboços e propostas concretas do que os arquitectos preten­ diam alterar na zona, além disso seriam também ouvidas suges­ tões de todos os moradores. Era, sem dúvida, um movimento de mobilização com uma singu­ lar importância no território, ainda para mais numa altura em que estava a decorrer o pro­ cesso de consulta pública da “Lei de Salvaguarda do Património Cultural”. Daqui retira-se fundamental­ mente a importância de sair da redacção e ir ao local e, por vezes, “apostar”, usando talvez aquilo que alguns chamam de “faro jor­ nalístico”, que ao longo do tempo se torna cada vez mais apurado, pois se o director-adjunto não achasse que aquilo poderia “dar qualquer coisa”, nenhum jorna­ lista ter-se-ia deslocado ao local. Porém, é importante realçar que o facto de gerir os acontecimen­ tos desta forma tem também a ver com as dimensões do próprio espaço, que possibilita a movi­ mentação entre locais num curto espaço de tempo, o que facilita a própria circulação de informação. Esta opção editorial pelo “jorna­ lismo de proximidade” reflecte-se ainda, como referi anteriormente, no ângulo de abordagem dos assuntos. Quando fui à sessão de esclarecimento sobre o novo projecto de “Lei de Salvaguarda do Patri­m ónio Cultura l ”, na qual foi apresentado o conteú­do d o nov o d iplom a , c om e c e i a pensar num modo interes­ sante de expor o assunto, sem que a peça fosse um “lençol” de artigos e linguagem jurídica.


Cheguei à redacção e procurei obter reacções de algumas per­ sonalidades que tinham vindo a desenvolver esforços no sentido de preservar o patuá (dialecto maquista). E acabou por ser esse precisamente o enfoque dado ao texto, porque aquela era uma questão concreta que interes­ sava à população, directamente relacionada com a história da comunidade, além de servir para perceber as repercussões concre­ tas da lei que estaria em consulta pública nos meses seguintes. E sta forma de olha r pa ra os acontecimentos, de “espremer” a informação até encontrar um ponto que realmente interesse aos leitores, não nos limitando à informação que é “oferecida” nas conferências de imprensa ou nos “press-releases”, foi, de resto, uma das principais lições que aprendi não só no terreno, mas também com o trabalho diário de leitura dos outros jornais, comparando as peças publicadas e respectivos prismas. Todavia, se por um lado o jor­ na ­l i smo de prox i m id a de s e move em “espaços micro” como lugares “onde se ensaiam alterna­ tivas comunicacionais, societais, económicas e políticas, em con­ traponto aos poderes que se formam do lado da globalização” (Mesquita, 2003:149); por outro lado, a comunicação comuni­ tária delimita “um espaço de trocas simbólicas, mais ou menos fechado, de contextos subenten­ didos” (Mesquita, 2003:156). Isto significa que o jornalismo de proximidade também impõe um conjunto de limitações, uma vez que o “espaço social estruturado” poderá metamorfosear-se num “campo de forças” (Bourdieu apud Traquina, 2002: 15), ao qual o jornalismo está de certa forma subjugado, surgindo como mais um peão do jogo. Nesta espécie de tabuleiro de xadrez, as fontes surgem como

peças fundamentais. É verdade que na maior parte dos casos a “proximidade” possibilita uma certa facilidade de acesso às fon­ tes de informação, pois devido ao tamanho do território é natu­ ral que jornalistas e fontes se encontrem frequentemente em diferentes lugares, quer em tra­ balho quer em plena vida social, porém e ste rec on heci mento mútuo possui uma face enga­ nosa e não tão vantajosa como à primeira vista pode parecer. Além disso, Macau é uma terra de protocolos e quebrar um ritual institucional, o que é natural para quem acabe de chegar, é quase o mesmo que partir uma jarra de cristal. Por conseguinte, a “proximi­ dade” pode também causar uma série de incómodos ao jornalista, que frequentemente ouve, em conferências de imprensa ou em entrevistas, “tem que nos ajudar com este novo projecto” ou algo semelhante. Admito até que algumas das “pressões” não sejam deliberadas, mas sim fruto da “conf iança” ganha devido ao contacto constante. O pró­ prio “feedback ” dos leitores é revelado muitas vezes de forma pessoal, para além dos tradi­ cionais telefonemas, e-mail ou artigos de opinião. A sensação de e s t a r mo s s ob e s c r ut í n io permanente é, portanto, uma constante, inapagável uma vez que a “proximidade” motiva as expressões positivas ou negati­ vas de pensamento por parte dos leitores (que muitas vezes são simultaneamente fontes). Este facto comporta o verso e o reverso da medalha, pois por um lado essa “vigilância” pode expressar uma forma concreta de exercer pressão, constran­ gendo a acção do jornalista; por outro lado, aumenta a responsa­ bilidade e a consciência de ser necessário realizar um trabalho sério e rigoroso.

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O factor “proximidade” é tam­ bém decisivo no que diz respeito à técnica de escrita. Por se trata de um meio relativamente pequeno, as pessoas conhecem‑se mutuamente ou, pelo menos, aqueles que ocupam posições de destaque nos diversos sectores da sociedade têm uma contínua projecção pública, por isso, deter­ minado tipo de descrições físicas ou psicológicas podem mesmo ser desnecessárias e repetitivas, pois já “toda a gente as sabe”. Uma vez que “o poder informa­ tivo do jornal evidencia-se pelo número, qualidade e pluralismo das suas fontes de informação” (Fontcuberta, 2002: 46), debati‑me várias vezes com um esforço para diversif icar as fontes de informação, já que existe uma tendência crescente não só nos jornais locais como nos órgãos generalistas para cair no facili­ tismo das “relações rotineiras”. Porém, o facto é que o contacto contínuo é difícil de evitar e não comporta apenas aspectos negativos. Ao longo do tempo, falei, talvez dezenas de vezes, com membros do Centro de Indústrias Criativas – “Crea­ tive Macau”, do A lbergue da Santa Casa ou do grupo de teatro “Dóci Papiáçam”, se por um lado esta “proximidade” poderá ter criado situações de pressão como referi anteriormente, o contacto permanente também serviu como ângulo de abertura e confiança crescente no trabalho que fui desenvolvendo. Pois, como me alertaram tantas vezes, Macau é uma terra de sensibilidades, e o factor “confiança” surge com um papel preponderante na apro­ ximação a determinada fonte e na obtenção de informações privilegiadas. Por outro lado, sendo as notí­ cias o resultado de um vasto processo de interacção social, o tipo de relação estabelecida entre jornalistas poderá tam­

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bém inf luenciar a informação que é apresentada ao público. As dimensões do território ao potenciarem uma “proximidade” relacional propiciam igualmente aquilo que Nelson Traquina chama de “jornalismo de matilha” (Traquina, 2002:127). É natu­ ra l que entre os membros de uma mesma camada profissio­ nal exista a tendência para a partilha de “hábitos mentais” (Traquina, 2002:127), o que faz com que perante a luta contra o relógio se adoptem soluções idênticas. A lém disso, é per­ tinente lembrar que nos locais (ex.: conferências de imprensa) onde estavam presentes vários jornalistas chineses, que geral­ mente tinha m prioridade no contacto com as fontes, os jor­ nalistas dos órgãos de língua portuguesa e também inglesa eram mesmo impelidos a “uni­ rem-se” no mome­nto de recolha de declarações. É evidente que, como mencionei algumas linhas atrás, essa atitude não será pro­ priamente positiva para o leitor, porque no dia seguinte vai ler as mesmas declarações e o mesmo conteúdo informativo nos vários jorna is, através, no enta nto, de diferentes formas de valo­ rização. De modo a que este discorrer de pensamento não pareça enga­ noso ou incompleto, convém ainda sublinhar que embora o JTM seja um jornal regional, a sua abrangência e campo de acção são bastante mais vas­ tos do que o de um qualquer jornal regional português, com­ parando-se do ponto de vista dos assuntos tratados a um diário generalista nacional. A variedade dos temas abordados nos dife­ rentes órgãos de comunicação da R AEM é fruto de um local que corre quase à velocidade da luz. Como me dizia uma jornalista australiana, que calcorreia as terras do Oriente há mais de

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30 anos, “é muito fácil perder o rasto de Macau. Nos últimos quatro /cinco anos, o próprio horizonte de Macau alterou-se de forma dramática, quase que não o reconhecia”. Durante os seis meses em que estagiei no JTM, fragmento de tempo em que vivi intensamente aquele lugar, absorvi essa per­ cepção exacta. Naquela cidade, o tempo foge tão depressa que a fugacidade inerente às pró­ prias notícias torna-se tão voraz quanto a humidade que se instala na pele. É uma inevitabilidade própr ia do jor na l i smo, m a s que naquele local exacto toma contornos ainda mais difíceis de explicar. No curto espaço de meio ano, tive o privilégio de assistir não só a inúmeros acontecimentos que projectaram a R A EM internacionalmente, como o caso da Feira Interna­ cional de Negócios, o “Open de Golfe de Macau” ou a 56.ª edição do Grande Prémio, mas também a alterações internas na sociedade de Macau. Desde movimentos culturais cada vez mais intensos, ref lexo de uma crescente efervescência intelec­ tual e artística; o julgamento do caso de corrupção que envolveu o antigo secretário de Estado Ao Man Long; o debate cada vez mais intenso sobre o sucessor do actual chefe do Executivo; para além do início das comemora­ ções dos 10 anos da R A EM, pa ssa ndo pela aprovaç ão do artigo 23.º na Assembleia Legis­ lativa, muitos foram os assuntos que f izeram mexer e tremer a ilha. É precisamente para acompanhar cada passo acelerado de Macau, que o JTM se desdobra e con­ centra. Num balanço constante pelos caminhos do jornalismo de proximidade, prevalecente no jornal, mas sem possibili­ dade de fuga a uma vertente mais institucional.

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O caso “Livraria Portuguesa” A possibilidade de venda das insta lações onde f unciona a Livraria Portuguesa, em Macau, saiu à rua. E a certeza que de que o assunto daria muitas linhas em páginas de jornal surgiu de imediato. Por um lado, tratava‑se de um local de inigualável importância no seio das comu­ nidades lusófonas residentes ou com ligação a Macau e, como referi anteriormente, existe um privilégio das temáticas direc­ tamente relacionadas com as preocupações dos leitores. Por outro lado, as vozes de protesto contra a decisão anunciada pelo presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardino, elevaram‑se prontamente, um ruído que não poderia deixar os órgãos de comunicação indiferentes. Os problemas da Livraria já eram antigos e conhecidos, mas daí a uma mudança de casa ia um longo passo. A indignação come­ çou a crescer de dia para dia, pois o problema da alienação representava para muitos mais uma prova do crescente desinves­ timento do Instituto Português do Oriente 2 em Macau. E essa era uma atitude cada vez mais incompreensível e oposta até à posição assumida pelo ministro português dos Negócios Estran­ geiros, Luís Amado, aquando da sua visita ao Território, em Outu­ bro do ano passado. Nessa altura, 2 O Instituto Português do Oriente (IPOR) tem como sócio maioritário o Estado Português – através do Instituto Camões –, que possui 51 por cento, enquanto que a Fundação Oriente detém 44 por cento, sendo que a restante parcela pertence a sócios particulares. Recorde-se que o IPOR adquiriu as instalações onde funciona a Livraria Portuguesa, em 1998, para a criação de um “Centro de Difusão Cultural”. A fracção é composta por uma cave, uma loja e uma sobreloja, conjunto pelo qual o IPOR pagou 900 mil patacas, mais 300 mil patacas pelo sétimo andar do mesmo edifício.

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este responsável prometeu que os assuntos relativos à Livraria Portuguesa seriam discutidos e a presença portuguesa em Macau ava liada. Porém, a s pa lavra s ainda não se concretizaram em actos e, quando o assunto veio a público, o Estado Português adoptou uma inquebrável atitude de silêncio. Em Macau, o assunto corria sobre a mesa dos cafés, em blogues e em grande parte dos órgãos de comunicação do território, inclu­ sive em jornais de língua inglesa e chinesa. A Casa de Portugal em Macau, dirigida por Maria Amélia António, liderou mesmo uma luta contra a alienação do espaço que alberga a Livraria e, ao longo do tempo, muitos foram os que se juntaram a essa batalha. Depois de escreverem duas cartas ao Estado Português, solicitando reacções à eventual venda do imóvel, e da resposta não ser mais do que uma mudez absoluta, a instituição decidiu lançar uma petição “online” em Fevereiro deste ano. Bastaram 24 horas para que o manifesto disponível na internet granjeasse mais de oito cente­ nas de assinaturas. O nome da Livraria Portuguesa andava de boca em boca e, entre os jor­ nalistas, este era também tema de debate. Durante uma, entre muitas discussões, emergiu a dúvida: “mas, afinal, devemos ou não a s si na r a pe t iç ão ? ”. Perante ta l interrogação, um dos meus colegas de prof issão disse prontamente que já tinha assinado o documento e que não via qualquer motivo para não o fazer, argumentando que antes de ser jornalista, era cidadão. Do outro lado da mesa, surgia uma posição distinta. Sem criticar a atitude assumida pelo colega, um outro jornalista confessou não se sentir à vontade para escrever sobre um tema, tendo assumido uma posição pública

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relativamente ao mesmo. Para a pessoa que tinha subscrito a petição aquele não era um argumento suficientemente forte e, de algum modo, até incom­ preensível. No meu caso em particular, que acabei por acompanhar e escre­ ver grande parte das notícias relativas à eventual alienação do local onde funciona a Livraria Portuguesa, preferi não assinar o re fer ido do c u mento. Pr i­ meiro, e antes de mais, porque não concordava na totalidade com o conteúdo da petição, em segundo lugar, porque não que­ ria que qualquer leitor pudesse argumentar, baseado na expres­ são da minha opinião pública, que eu estaria a ser imparcial ou que poderia tratar o assunto com menos rigor. Concordo e defendo convictamente que antes de ser jornalista, sou cidadã, mas dependendo da importância do assunto, entendo que um dos lados poderá ter que prevalecer. E isto nada tem a ver com hipocri­ sia, pois se o meu envolvimento com este caso fosse de tal modo profundo e se eu sentisse estar a reportá-lo de forma tendenciosa, a opção que considero mais cor­ recta e justa, não só para comigo, mas sobretudo para com o leitor, seria a de não escrever mais sobre o assunto, pois tal com como Bill Kovach refere, “os jornalistas têm uma responsabilidade para com a própria consciência” (Kovach, 2001:187). O Livro de Estilo do Público define precisamente esta orien­ tação. “O jornalista do Público deve abster-se a tomada s de posição no espaço público não jornalístico de carácter político, comercial, religioso, militar, clu­ bístico ou outras que, de algum mo do, c omprome t a m a su a imagem de independência, ou de assinar petições ou abaixoassinados em qualquer desses sentidos” (Público, 2005:30).


Porém, o direito do jornalista, enquanto cidadão, de exprimir publicamente as suas opiniões é considerado, por esta mesma obra, de “incontornável”, sur­ g i ndo, tod av ia , “ l i m it aç õe s óbvia s que dessa tomada de posição decorrem”. Havendo uma clara conflitualidade entre direitos e deveres, uma das alter­ nativas apontadas pelo Livro de Estilo do Público é a “deslocação do jornalista para outra área do jornal”. Contudo, é feita a res­ salva de que “não se pretende que o jornalista do Público seja indiferente face aos debates e clivagens que atravessam a socie­ dade, ou que, hipocritamente, esconda as preferências, afinida­ des ou opiniões. Trata-se apenas de reconhecer que o jornalista que por dever de consciência assume um papel de actor sobre determinado a ssu nto perde, perante os seus leitores e as fon­ tes de informação, a isenção com que deveria ser por eles encarado. Até porque a tal está sujeito, independentemente da vontade e da capacidade do jornalista permanecer isento” (Público, 2005:31). A questão de que aqui se fala passa, na minha opinião e como refere João Paulo Meneses no Livro de E stilo da TSF, por distinguir “opções íntimas” de “opções pública s” (Meneses, 2003:228). O primeiro nível, como é evidente, “é pessoal. (…) Mas a partir do momento em que entendeu partilhar com outros (“todos”), a decisão já não é ape­ nas sua. O público funcionará como uma espécie de pressão invisível para que ele adapte o seu comportamento. Nesse nível, entram factores como a decisão, da direcção ou das chefias, de atribuir outras funções ao jorna­ lista em causa ou opções pessoais – quando o próprio considera que teoricamente não haveria incompatibilidade, mas não quer

correr os riscos de exposição pública” (Meneses, 2003:229). Portanto, a postura assumida pela TSF é em tudo semelhante àquela que é defendida pelo jor­ nal Público. O facto de no JTM se praticar um jornalismo de proximidade, potenciado pelas próprias dimen­ sões geográficas de Macau, torna esta questão ainda mais contro­ versa. As pressões tendem a ser maiores. O conhecimento das posturas mútuas é frequente. E a s dúv id a s e de sc on f i a n­ ças adensam‑se. O jorna lista tende a assumir, em semelhante contexto, u ma posiç ão ma is defensiva, o que não significa, porém, que dilua o seu espírito crítico ou que deixe de abordar de forma acutilante qualquer assunto, pelo contrário, é preci­ samente para poder fazê-lo que o jornalista deve jogar tudo na sua credibilidade. Porque é disso mesmo que um jornalista vive, como tantas vezes foi lembrado nas aulas de Jornalismo Escrito. Além disso, é necessário frisar que “a liberdade jornalística é de geometria variável” (Cornu apud Mesquita, 2004: 48), podendo oscilar consoante a posição que o jornalista ocupa na hierarquia ou até conforme o espaço geográfico em que se insere. Voltando ao caso da Livraria, a questão de que aqui se fala é ainda mais complexa do que aparenta. Uma vez que a posição assumida pelo jornalista terá a ver, em parte, com o foro da consciência individual, surge uma outra dúvida: deverão os corpos directivos assumir uma determinada posição? Neste caso em particular, tanto o director-­ ‑adjunto como o director do JTM assinaram a petição. Considero que essa atitude em nada colocou em causa a seriedade do traba­ lho efectua­d o pelos jornalistas daquele órgão de comunicação, até porque as posições assumidas

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estão em consonância com o pró­ prio Estatuto Editorial do jornal: “o JTM constitui (…) um traço de união entre todos os portu­ gueses, (…) desempenhando um papel moderador dos conf litos que se manifestem na comuni­ dade”; num outro ponto, o Jornal Tribuna de Macau assume ainda possuir uma linha editorial que vai no sentido da “defesa dos valores próprios da comunidade portuguesa nascida e residente em Macau, numa perspectiva de desenvolvimento económico e justiça social para toda a popu­ lação”. Além disso, af igura-se pertinente recuar no tempo e recordar o “principal objectivo” do JTM, inscrito também no Estatuto Editorial: “assegurar a continuidade da publicação em Macau de um jornal de língua portuguesa, muito além de 20 de Dezembro de 1999, possibili­ tando que os falantes de Língua Portuguesa mantenham o direito a ser informados com verdade, rigor e isenção, (…) difundindo os eventos locais pelos milhões de falantes portugueses, incluindo as comunidades de macaenses espalhadas pelo mundo”. Ora, o JTM tem inscrito na sua génese a defesa dos anseios das comunidades lusófonas, por conseguinte a tomada de posição num conf lito desta natureza corresponde ao cumprimento dos princípios firmados na sua matriz. Em última instância, poderá dizer-se que o jorna­ lismo praticado no JTM é uma sí nte s e ent re o “mo de lo de jornalista-de-causas comunitá­ rias” (associado ao jornalismo cívico), mas seguindo o fio do “ jorna lista-obser vador”, que não obstante a “incontornável subjectividade” tenta guiar-se “no relato e na interpretação dos acontecimentos” tendo por base uma “preocupação de dis­ t a ncia mento e hone st id ade” (Mesquita, 2004: 68). Esta sim­

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biose pode parecer paradoxal, ma s se por u m lado o J T M é um jornal local, assumida­ mente empenhado nas causas comunitárias, por outro lado persegue a rigorosa distinção ent re f a c to s e c oment á r io s , notícia e opinião, e, nesse sen­ tido, o jornalista é impelido a recorrer aos critérios de verif i­ cação dos factos e a expô-los de forma contextualizada e tão imparcialmente quanto possível, de modo a fornecer aos leito­ res a informação necessária à construção de um pensamento crítico. Cumpre-se, deste modo, “a principal f inalidade do jor­ nalismo”, pelo menos do ponto de vista idea l, coloc a ndo ao dispor dos cidadãos “a infor­ mação de que precisa m para serem livres [fazerem uma inter­ pretação própria dos factos] e se autogovernarem” (Kovach, 2001:16). A um outro nível, o envolvi­ mento do JTM na comunidade passa ainda pela promoção de eventos como o Concurso Anual de Fotografia, que recebe cen­ tenas de trabalhos e cuja ideia i n icia l foi ju nt a r d i ferente s comunidades em torno de um objectivo comum. O hábito de promover debates sobre temas de relevância na sociedade é outra das formas de praticar, de c er to mo do, o c h a m a do “jornalismo cívico”, um tipo de iniciativa também efectuada por outros órgãos de comunicação do território e pela Associação de Imprensa em Língua Por­ tuguesa e Inglesa de Macau. Este interesse na mobilização e dinamização da vida pública conduz a um fenómeno interes­ sante e inerente ao conceito de “jornalismo cívico”, em que os jornais intervêm eles próprios na “agenda do cidadão” (Campo­ nez, 2002:168), verificando-se um comprometimento efectivo por parte do leitor.

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Uma nuvem cinzenta chamada Artigo 23 “Existe uma relação simbiótica entre jornalismo e democracia, residindo no núcleo dessa relação o conceito de liberdade, fulcro do desenvolvimento do jorna­ lismo” (Traquina, 2002:135). A actividade jornalística surge, simultaneamente, como condição e garantia da própria democracia, sendo a liberdade de expressão, reunião e manifestação um prin­ cípio subjacente a ela. No entanto, a coexistência entre jornalismo e poder nem sempre é pacífica, tratando-se mais de um “jogo de corda do que de um organismo f unciona l inter-relacionado” (Traquina, 2002:122). E, como sabemos, os jogos de corda são decididos pela força. De acordo com Bill Kovach, “os jornalistas devem funcionar como controlo independente do poder” (Kovach, 2001:114), ou seja, o jornalismo deverá assumir um papel de “vigilância”, que não é o mesmo de ataque, relativa­ mente aos poderes instalados, até porque ainda que encobertos por um sistema supostamente democrático, existem Estados que tendem a cercear as liber­ dades individuais, colocando em causa o espaço de actuação da imprensa. Tinham passado poucos dias após a minha chegada a Macau, quando o Chefe do Executivo, Edmund Ho, apresentou publi­ camente uma nova proposta de lei. Seguiram-se quarenta dias de discussão. Durante mais de um mês, o Artigo 23 da Lei Básica de Macau 3 provocou reacções 3 A Lei Básica define os princípios fundamentais que a RAEM deve seguir e respeitar, bem como o seu estatuto e relacionamento com as Autoridades Centrais da República Popular da China (RPC). Todos os sistemas e políticas aplicados na RAEM, incluindo os sistemas social e económico, garantia dos direitos e

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de académicos, associações civis, juristas e um enorme conjunto de dúvidas e receios aos jornalis­ tas. Desde protestos nas ruas de Macau até pedidos de esclareci­ mento por deputados de Macau e também de Hong Kong4, muitos foram os que colocaram pontos de interrogação ao novo diploma. Correspondendo a uma vontade de regulamentar uma proposta de lei de defesa da segurança nacional, o Artigo 23 foi alvo de inúmeras críticas sobretudo por conter aquilo a que muitos chamaram de “zonas cinzen­ tas”, com as alíneas relativas à Pátria, secessão do Estado, sub­ versão contra o Governo Popular Central, sedição e subtracção de segredo de Estado, a serem objecto de maiores dúvidas. Con­ tudo, a verdade é que o diploma liberdades fundamentais dos seus residentes, bem como os poderes executivo, legislativo e judicial, baseiam‑se nas disposições deste documento. Nenhuma lei, decreto‑lei, regulamento administrativo ou acto normativo da RAEM pode contrariar a Lei Básica. O documento, elaborado sob o princípio “um país, dois sistemas”, entrou em vigor no dia 20 de Dezembro de 1999, quando a RPC assumiu o exercício da soberania sobre Macau. A Lei Básica, além de garantir aos residentes da RAEM os seus direitos e liberdades, confere a Macau um elevado grau de autonomia relativamente à RPC, exceptuando em assuntos re­la­cionados com a defesa e os negócios estrangeiros. O documento especifíca também que o sistema socio-económico da RAEM, bem como os direitos, deveres e liberdades dos seus cidadãos irão manter-se inalteráveis, pelo menos, até 2049. Por conseguinte, o Território possui uma moeda própria (pataca), o seu próprio sistema fiscal e económico-financeiro (de carácter capita­ lista, que difere do sistema socialista da RPC), bem o seu próprio sistema de controlo de imigração e de fronteiras e a sua própria polícia. (explicação do autor, baseada em http://bo.io.gov.mo/bo/i/1999/ leibasica/index.asp, acedido: Maio de 2009) 4 À semelhança de Macau também Hong

Kong é uma Região Administrativa Especial, pelo que ambos territórios partilham um estatuto idêntico relativamente à República Popular da China, sendo exemplos materiais do princípio “um país, dois sistemas”.

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foi aprovado e os receios não se dissiparam, permanecendo as incertezas relativamente à forma como as autoridades irão inter­ pretar o novo articulado. O facto é que o Artigo 23 não causou apenas um franzir de sobrancelha àqueles que habi­ tam em Macau, mas também aos membros da Comissão Europeia. No relatório anual sobre Macau, referente ao ano de 2008, Bruxe­ las diz considerar que o princípio “um país, dois sistemas” aplicado à R AEM continua a funcionar bem, mas mostra alguma apre­ ensão relativamente ao conteúdo do A rtigo 23. O órgão euro­ peu afirma mesmo esperar que a Lei da Segurança do Estado não coloque em causa os direi­ tos e liberdades fundamentais dos cidadãos garantidos pela Lei Básica. Por sua vez, também a Amnistia Internacional e a Confederação Si nd ic a l I nter naciona l pro ­ nu ncia ra m-se sobre o tema, apontando inúmeras fraquezas à Lei de Segurança Nacional. A possibilidade de haver abusos de autoridade e atrof iamento da sociedade civil, conceitos pouco claros, interferência do ordenamento jurídico chinês na ordem jurídica da R AEM, escasso tempo de debate e con­ sulta pública foram algumas das falhas e eventuais problemas denunciados por aquelas duas organizações internacionais. Se à voz de alguns deputados da R AEM que, mesmo após a Assembleia Legislativa ter dado luz verde ao Artigo 23, conti­ nuam a a limentar receios de que a nova Lei possa colocar em causa liberdades individuais, se juntaram ecos internacionais, os membros do Governo apron­ taram-se a dar uma resposta simples a ambos, adiantando que não haverá lugar para abusos. Na sessão da Assembleia Legislativa em que foi aprovado o diploma,

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foram também dadas garantias aos jorna lista s, o E xecut ivo assegurou que as actividades “normais” (o que quer que isto signifique) não ficam abrangi­ das pelo crime de subtracção de segredo de Estado, isto é, não é entendido como crime o acto de divulgação de segredos de Estado por jornalistas. Resta ainda saber se os textos sobre temas sensíveis como o estatuto político do Tibete ou de Taiwan poderão cair na alçada da Lei de Defesa de Segurança do Estado. Ora, por um lado, o quadro legal não compromete de forma directa a liberdade jornalística, mas por outro, esta encontra‑ s e d i re c t a mente i mpl ic a d a na medida em que estão a ser impostos constrangimentos no âmbito da liberdade de expres­ são, manifestação e reunião do cidadão comum. Deste modo, também o trabalho jornalístico f ica incontornavelmente limi­ tado e a função de “questionar o poder” é sem sombra de dúvidas reduzida. Em síntese, as incon­ gruências que esta Lei comporta representam em parte uma prova do longo caminho que Macau terá de percorrer no sentido de uma educação democrática mais apurada. Recorde-se que para além do mais o sistema de voto vigente em Macau continua a ser o sufrágio misto, onde o sufrágio indirecto5 continua a ter um peso 5 O sufrágio indirecto continua a ser praticado em Macau, tanto nas eleições para o Chefe do Executivo como para a determinação de uma parte significativa dos deputados que vão constituir a Assembleia Legislativa da RAEM. Neste último caso, 10 dos 29 deputados são eleitos através do exercício de voto por sufrágio indirecto, enquanto que o sufrágio directo resulta na escolha de 12 deputados e os restantes sete assentos estão destinados a deputados nomeados pelo Chefe do Executivo. Já em relação à eleição do chefe do Executivo, esta acontece através da votação da comissão eleitoral, composta por 300 membros, geralmente figuras ilustres do território. Os


preponderante, o que diminuiu por si só a expressão da opinião pública na vida política do ter­ ritório. Não posso deixar de recordar diversos trabalhos jornalísticos, realizados durante os meses de estágio, mesmo antes da apro­ vação do diploma, em que me apercebi que muitas pessoas, sobretudo pertencentes à comu­ nidade chinesa, evitam expressar as suas opiniões, uns porque desejam manter um determinado estatuto, outros simplesmente por desconf ia nç a ou receio. Frequentemente, em conferên­ cias de imprensa sobre questões governamentais, as repostas dos funcionários às perguntas dos jornalistas eram pouco mais do que um conjunto de frases inó­ cuas. Como explica Francisco Pinto, director de programação e informação do canal português da TDM, existe até uma dificul­ dade em manter um programa regular de debates em televisão, porque “as pessoas discordam pouco em Macau, ou antes, dis­ cordam em privado e depois não querem discordar em público” (Barbosa, 2009: 7). Se o novo articulado vai com­ primir de forma significativa o espaço de opinião pública é uma resposta que o tempo irá trazer. No entanto, parece-me que a posição ocupada pelos órgãos de comunicação do Território está longe de ser confortável, uma vez que a subsistência dos jornais, sobretudo de língua portuguesa, é garantida, como deputados eleitos por sufrágio indirecto são votados por organizações ou associações locais representativas dos vários sectores da sociedade, com estatuto jurídico regulamentado há mais de três anos e devidamente registadas e recenseadas. O cidadão comum está, portanto, envolvido nestas eleições de forma indirecta e passiva, fazendo notar a sua presença essencialmente através da participação em associações e na nomeação dos respectivos corpos regentes (explicação do autor).

enunciei anteriormente, por um subsídio atribuído anualmente pelo Governo da R AEM. Devo ainda salientar que durante os meses em que estagiei no JTM não me foi imposta qualquer limitação interna na abordagem aos mais diversos assuntos. No entanto, olhando para o exterior, ao longo dos últimos tempos, jornalistas, académicos e deputa­ dos vindos de Hong Kong foram impedidos de entrar na R AEM, não sei se consequência do tão falado “Artigo 23”, mas sinal pelo menos de fronteiras (men­ tais e físicas) ainda demasiado comprimidas. É verdade que a imprensa teve a total liber­ dade para reportar as referidas situações, mas saliento o pro­ blema aqui implícito: se existem pessoas a serem impedidas de entrar em Macau, por exemplo, um académico que ia dar uma conferência na Universidade de Macau, existe uma limitação de acesso a uma fonte, logo coloca‑se aqui um entrave ao trabalho jornalístico. Por outras palavras, é pertinente reforçar que se até ao momento ainda não foram notados cons­ trangimentos editoriais, chamo a atenção para aquilo que invoquei no início deste capítulo, lem­ brando que um livre e completo exercício do jornalismo implica a liberdade de acesso às fontes (sejam elas do território ou não), estando a liberdade de expressão, reunião e manifestação de todos os cidadãos estreitamente ligada a esta premissa. Termino com a ideia que subjaz ao motivo pelo qual decidi ref lectir sobre as implicações de uma sociedade civil comprimida, salientando que um “indivíduo desinformado é incapaz de tomar decisões ade­ quadas nas várias esferas da sua vida”, por isso mesmo a “infor­ mação é uma condição básica para uma sociedade livre” (Fon­ tcuberta, 2002: 113).

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Conclusão Da experiência de trabalhar num diário com as características do JTM, “um produto que nasce e morre todos os dias” (Fontcu­ berta, 2002: 20), guardo duas memórias sensoriais: a inten­ sidade e a fugacidade. Ganhei a noção clara da importância de já termos os olhos postos no amanhã mesmo que o hoje ainda dure mais algumas horas, por­ que, como foi dito várias vezes nas aulas de Jornalismo Escrito, aquele que hoje pode ser “herói” na redacção, amanhã já terá um novo desafio pela frente e quase tudo ainda para provar. Debati-me, por outro lado, com o jornalismo (um combate no meu interior) enquanto activi­ dade a dois níveis: um técnico e outro criativo. Durante os seis meses de estágio, percebi que um dos maiores desafios e uma das principais dificuldades que um jornalista tem de enfren­ tar é a necessidade de fugir a fórmulas e ter em mente uma incessante reinvenção. A parte criativa esta rá já inscrita na nossa essência, embora também possa ser trabalhada, mas é na parte técnica que o suor dá mais resultados e a este nível julgo ter evoluído largamente, apurando a técnica da notícia aliada a uma maior velocidade. A sensação de impotência perante uma barreira difícil de penetrar como a língua. Ultrapassar os constrangimentos do tempo, que matam a disponibilidade do pensa mento e a criat iv i­ dade. Aprender tudo de novo: os cheiros, as caras, os lugares e os protocolos. Estas foram algu­ mas das dificuldades diluídas ao longo dos meses que permaneci em Macau, peça a peça, atra­ vés da prática de um jornalismo mais próximo da “caça” e da “busca” (Traquina, 2002: 92) do que do sedentarismo que grassa

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pelas redacções nacionais. Nesse sentido, saliento ainda o facto de ter tido a oportunidade de escrever dezenas de notícias, reportagens, entrevistas e breves, pois como dizia tantas vezes o director do JTM, “Um jornalista é um nome. Se não for publi­ cado, não existe”. Ao contactar com uma outra realidade comprovei que existem diferentes formas de fazer jorna­ lismo, que variam consoante um sem número de factores, entre outros o contexto socio-econó­ mico, o espaço geográf ico, o proprietário da empresa (a paixão e dinheiro investidos no pro­ jecto), os próprios jornalistas. Fiquei a acreditar, ainda mais do que antes, que o jornalismo de proximidade será uma boa forma de responder ao cres­ cente desinteresse dos leitores e ao surgimento do “cidadão-repórter”6 , correspondendo a um tipo de jornalismo que surge como contraponto às “fábricas de notícias” (Traquina, 2002:11), que proliferam pelo mundo todo, controladas pelos tentáculos de empresas sem rosto. A globa­ lização e a transformação do jornalismo num simples e mero negócio veio trazer brechas, que poderão ser preenchidas com outras abordagens jornalísticas, e ventua lmente preconiz ada s por modelos como o “ jorna­ lismo cívico” ou o “jornalismo de desenvolvimento” (também designado por “jornalismo para o desenvolvimento”), mostrando que “o proprietário/empresa deve 6 Utilizo este conceito, apesar de não concordar totalmente com ele, devido à sua vasta expressão no meio mediático. A minha discordância reside no facto de considerar abusiva a extrapolação de uma actividade esporádica e acidental (por exemplo, um cidadão que tira uma fotografia e envia para o jornal), comparando-a e atribuindo‑lhe o nome de uma actividade profissional com deveres éticos e deontológicos, neste caso, a do jornalista/repórter.

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assumir, em primeiro lugar, um compromisso com os cidadãos” (Kovach, 2001:66). Estamos definitivamente numa era de viragem e, ao contrá­ rio do que muitos insinuam, baseando-se no fácil acesso à informação através das novas t e c nolo g i a s , o (verd a d e i ro ) jor na l i smo não é, nem ser á desnecessário, ainda para mais no â mago de uma sociedade cada vez mais sedenta de repos­ tas e saturada com tanta (des) informação. O problema funda­ mental, e que parece importar a pouca gente, é que o verdadeiro jornalismo escasseia. As novas tácticas comerciais, autênticas operações de estética, escon­ d e m pr of u nd o s pr o ble m a s , “que mais tarde ou mais cedo os meios terão que enfrentar: a crise progressiva de conteúdos, que conduz ao divórcio entre o que as pessoas necessitam ou querem saber e a informação que os meios de comunicação lhes oferecem” (Fontcuberta, 2002:31). Esta ideia entronca na necessidade de outras abor­ dagens do jornalismo, referida anteriormente. A crença num jorna lismo de prox i m id a de é t a nto m a ior se observarmos o espectro da imprensa nacional, com os jor­ nais Correio da Manhã e Jornal de Notícias, detentores de dele­ gações em várias zonas do país, a ultrapassarem largamente os resultados de vendas obtidos por outros diários generalistas, que por sua vez têm desinvestido no jornalismo de proximidade. Resta-me ainda salientar que embora o jornalismo possa ser como af irmava Leon Daudet u m “ dom desenvolvido pela a ssiduidade” (Ferenczi apud Traquina, 2002:69), reconheço uma enorme importâ ncia ao período de formação académica (Fontcuberta, 2002:101). Olho, agora, para o mundo com outros

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olhos, com outras ferramentas, fruto dos quatro anos de licen­ ciatura e de tudo o que realizei ao longo desse período, desde o envolvimento no Jornal Univer­ sitário – A Cabra, passando pelo mundo da Rádio Universidade de Coimbra ou pela participa­ ção no programa “Erasmus” na Universidade de Ljubljana e, como última etapa, o estágio em Macau. Não posso deixar de enviar um agradecimento aos meus cole­ gas de redacção do JTM, em particular a José Rocha Diniz, entre outras coisas, pela con­ fiança revelada ao convidar-me para continuar a trabalhar no Jor nal Tribuna d e Macau , a Sérgio Terra e Emanuel Graça, pela paciência e ensinamentos, acrescenta ndo a estes nomes todos aqueles que eu encontrei e que souberam encontrar-me, fazendo de Macau uma moldura de tempo inesquecível. O estágio realizado fez-me per­ ceber a obsessão apaixonada de que vive o exercício jornalístico e a necessidade de possuir uma predisposição para conviver com a profissão durante 24 horas por dia (K apuscinsk i, 2006 :27). No decorrer deste meio ano de questionamento constante, entre o prazer e o desgaste, alimentei a utopia (ou não tanto assim, espero) de querer ser jorna­ lista, mesmo numa sociedade onde a precariedade consome o emprego e o respeito pelo ser humano é ignorado perante os mandamentos económicos de projectos sem paixão. E para quem acredita, ta l como eu, talvez não haja melhor definição do que aquela enunciada por Françoise Giroud: “O que é o jornalismo? É estar lá, no sítio onde bate o coração do mundo” (Giroud, 2002:126).

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Editoria de Local Lisboa

Nos caminhos da (in)dependência do jornalista Catarina Pinto

Relatório de estágio realizado na Editoria de Local Lisboa do Público. Orientado por João Figueira.

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Uma notícia assemelha-se a uma “manta de retalhos”. Composta por pedaços de um aconteci­ mento, de um lugar, de sensações, de sons e de vozes. Em última instância, é o jor­ nalista que, como se de uma operação se tratasse, reúne esses pedaços e constrói uma determi­ nada história que passa a viver dentro de um espaço delimitado do jornal. No entanto, não se trata de uma “operação” solitária. As notícias são produzidas a partir de uma rede complexa de relações que se estabelecem entre os jornalistas, a empresa para a qual trabalham, as fontes de informação, os pro­ tagonistas dos acontecimentos, e outras tantas variáveis que con­ tribuem para a forma como a informação chega ao leitor. De facto, “sem a ajuda dos outros não se pode escrever uma repor­ tagem. Não se pode escrever uma história. Todas as reportagens – ainda que assinadas apenas por quem as escreveu – são, na verdade, fruto do trabalho de muitas pessoas. O jornalista é o redactor final, mas o material é fornecido por muitos indivíduos. Todas as boas reportagens são um trabalho colectivo e sem espírito de colectividade, de cooperação recíproca, é impossível escre­ ver” (Kapuscinski 2002:31). E o mundo está cada vez mais cheio de “outros”. De pessoas e lugares que podem constituir ou fornecer histórias que, por razões distintas, merecem ser contadas. A par do visível aumento de fon­ tes e da facilidade que hoje a tecnologia permite no encontro das mesmas, os “outros” estão também dentro da sala de redac­ ção: os colegas de profissão, os editores e os próprios proprie­ tários do órgão de comunicação acabam por influenciar a selec­ ção e a produção de informação. Como refere Fernando Correia, a verdade é que o jornalista “está

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sujeito a constrangimentos que, dentro e fora da redacção, a montante e a jusante, influen­ ciam de maneira determinante as formas de trabalho e a elabo­ ração da informação, incluindo o seu próprio conteúdo” (Correia 2003:16). Foi numa teia de constrangimen­ tos e influências, dúvidas, receios e erros que se desenrolou o meu estágio de três meses na secção “Local Lisboa” do Jornal Público. Três meses de histórias que ainda duram. Que ainda permanecem no tempo (e na minha memória), apesar da “morte” dos jornais, onde por breves momentos vive­ ram, já ter acontecido. Pretendo, assim, reflectir sobre o “backstage” dessas histórias. Isto é, sobre o caminho percorrido desde a recolha de informação junto de vários tipos de fonte até à escrita da peça, da história, não esquecendo os constrangi­ mentos encontrados ao longo do percurso. Ao mesmo tempo, não posso descurar a importância do lugar em que o jornalista se encontra ao escrever esses tex­ tos: um lugar que tanto significa dependência (face a inúmeros elementos que se inscrevem no seu trabalho) como significa inde­ pendência (porque o jornalista acaba por exercer um olhar parti­ cular quando escreve). Assim, vou procurar reflectir criticamente sobre alguns trabalhos efectuados ao longo do estágio, sobretudo tendo em conta essa “fronteira” entre estar preso e ser livre.

O mundo Público O estagiário chega à sala de redacção com o mundo do jor­ nalismo às costas. Aprendido nas cadeiras da faculdade, nas folhas dos jornais, nos ecrãs de televisão ou nas estações de rádio, nos livros que leu e nas músicas que ouviu. Porque a “matéria-prima”

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do jornalista está em todo o lado, a “escola” dele também. O esta­ giário não deixa esse mundo de lado, mas reinventa-o. Entre novas dúvidas e interrogações, tem a oportunidade de viver a profissão, inserido num grupo de trabalho, numa empresa. No fundo, tem a oportunidade de (vi)ver a verdadeira condição de ser jornalista. Durante o meu estágio, na reco­ lha e na produção de informação, não poderia esquecer o Público enquanto empresa. Nem o seu estatuto editorial ou as normas e conselhos ditados pelo Livro de Estilo. Muito menos as indicações e sentidos dados pelo editor da secção ou pelos restantes jorna­ listas. Isto quer dizer que não pode­ mos “retirar” o jornalista do seu mundo. E o seu mundo cons­ titui-se, na maioria das vezes, enquanto profissional, enquanto trabalhador assalariado, que per­ tence a um determinado órgão de comunicação detido por um grupo económico. “O jorna­ lista faz parte de uma equipa redactorial, de uma empresa, da sociedade: a informação é o resul­ tado de uma produção em grande escala, no quadro de processos sociais operando através de orga­ nizações mediáticas complexas e inseridas num determinado sistema social” (Traquina apud Correia, 2003:17). É, portanto, através da formação universitária (ou profissional) e de um estágio em exercício que os “aprendizes” de jornalistas podem imbuir os comportamentos e as normas subjacentes à profissão (Soloski, 1989:94,95). Uma vez que “o profissionalismo jornalístico afecta a recolha e o relato das notícias” (Soloski, 1989:91), torna-se importante discorrer algumas considerações, no geral, sobre as características do Público e, em particular, sobre a secção “Local Lisboa”.

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O Público é um jornal fun­ dado por Vicente Jorge Silva em 1990 e pertence ao grupo SONAE, de Belmiro de Aze­ vedo. “Consolidou-se como um jornal de referência no contexto da imprensa portuguesa” (Cor­ reia, 2003: 89) e, de acordo com as palavras inscritas no Livro de Estilo, o Público procura “realizar um jornalismo que case o rigor com a capacidade de surpreen­ der, a ambição de ir mais longe com o equilíbrio nas abordagens noticiosas, uma escrita concisa e directa sem deixar de ser viva e inventiva” (Público 2005:6). No seu estatuto editorial, o Público assume-se como “um jornal diário de grande informação, orientado por critérios de rigor e criati­ vidade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica”; um jornal que procura uma “informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de actividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural” (Público, 2005:21). Apresenta-se, assim, dividido em dois cadernos. No primeiro, encontramos por esta ordem as seguintes secções: “Destaque”, “Portugal”, “Mundo”, “Local” (Lisboa ou Porto), “Desporto”, “Economia”, classificados e “Opi­ nião”. Já no segundo caderno, intitulado “P2”, podemos encon­ trar trabalhos mais longos sobre sociedade, artes, cultura, crónicas, cartoons, actividades lúdicas e agenda cultural. O Público aposta ainda na produção de diferen­ tes suplementos, que abrangem áreas distintas: o Ípsilon (artes e cultura), o Economia, o Inimigo Público (humorístico), o Fugas (viagens), a revista Pública (sociedade), entre outros. A tira­ gem média do jornal durante o primeiro trimestre de 2008 foi de 62 928 exemplares. Para além da versão impressa, a realidade do Público passa


também pelo site do jornal na internet e o site do suplemento Ípsilon. O primeiro dia de estágio no Público começou com a escolha da secção. Juntamente com as duas colegas da Universidade do Minho, devia decidir qual das secções propostas – Ípsilon, “Desporto” ou “Local Lisboa” – pretendia. Por gosto pela área cultural, senti-me tentada a pro­ ferir a palavra Ípsilon, no entanto optei por dizer que preferia a sec­ ção “Local Lisboa”, acreditando que esta me proporcionaria a possibilidade de escrever mais vezes e de sair da redacção em trabalho. No entanto, as duas colegas desejavam estagiar no Ípsilon e não havendo entendi­ mento (pois uma de nós teria de ficar em “Desporto”) decidimos que a escolha teria de ser “aci­ dental”. Após um sorteio, os três meses ficaram decididos. A partir desse dia, integrei a secção “Local Lisboa”, ainda que ao longo dos três meses tenha colaborado, em dois trabalhos, com a secção “Portugal”.

Um “esforço de proximidade” – a secção “Local Lisboa” A existência de edições distintas para as zonas Norte e Sul do país prova que existe “um esforço de proximidade” (Camponez, 2002:114) por parte de alguns jornais nacionais. Numa altura em que a globalização nos des­ via o olhar para locais e temas mais longínquos, a vizinhança, o nosso bairro, aquilo que está geográfica e socialmente próximo de nós, continua a ser motivo de interesse. Daí que os órgãos de comunicação de carácter genera­ lista sintam necessidade de lançar olhares para questões e aconteci­ mentos que estejam de alguma forma próximos do cidadão. Ao mesmo tempo, trata-se de uma

estratégia comercial para atrair públicos que normalmente se interessam pela imprensa regio­ nal. A secção “Local Lisboa” apre­ senta-se neste contexto de atracção de públicos diferenciados e, estando inserida num órgão de cobertura nacional, não podería­ mos olhá-la do mesmo modo que olhamos uma qualquer secção de um meio de comunicação regional. Aproveitando a distinção de Gabriel Ringlet, estamos perante um “semi-local, um local hesi­ tante”, já que esta secção se integra mais “dentro de uma lógica comercial, de busca de públicos mais diversificados, do que de uma verdadeira vocação regional. O público é sobretudo nacional e, por isso, a infor­ mação local está subordinada à restante informação. Daí tam­ bém o seu carácter disperso, sem a preocupação de fazer uma organização primordialmente geográfica” (Ringlet apud Cam­ ponez, 2002:102). Antes da última mudança grá­ fica que o Público sofreu, a secção “Local” (tanto na edição Porto como na edição Lisboa) apresentava-se num caderno inde­ pendente, inserido dentro do jornal, à semelhança do que hoje acontece com o “P2”. Porém, as alterações no grafismo e a inclu­ são do “P2” ditaram o fim dos cadernos “Local Lisboa” e ”Local Porto”. Hoje, a secção faz parte do corpo do primeiro caderno do jornal e a sua dimensão varia entre três a cinco páginas, o que significa que acabou por perder espaço. Em termos geográficos, a secção pretende compreender os distritos de Lisboa, Setúbal, Santarém, Leiria, Portalegre, Évora, Beja e Faro, bem como as regiões autónomas da Madeira e dos Açores. A maioria das peças diz respeito a assuntos dos distritos

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de Lisboa e Setúbal, ainda que, ao longo do período de estágio, tenham surgido diversas peças (como artigo principal da sec­ ção) sobre as zonas do Algarve e Alentejo, trabalho de jornalistas que colaboram regularmente com a secção. Mas, a verdade é que não existe uma cobertura jornalística cons­ tante e coesa dos acontecimentos relativos a todos os distritos abrangidos. Para além disso, a secção recorre, por diversas vezes, à agência Lusa, mesmo em acon­ tecimentos que dizem respeito à cidade de Lisboa. Para além de quatro colabora­ dores mais presentes, a secção é composta apenas por cinco jorna­ listas, incluindo o editor, Carlos Filipe, que orientou o meu tra­ balho. O jornalista Luís Filipe Sebastião trata os temas rela­ cionados com a área do Estoril, Cascais e Sintra, enquanto Inês Boaventura trabalha os assun­ tos referentes à cidade de Lisboa e Ana Henriques encarrega-se sobretudo com a política autár­ quica da capital. O jornalista José António Cerejo está também ligado a questões autárquicas, desenvolvendo diversos trabalhos de investigação. Por uma questão de calendário e sempre que se verificava a ausên­ cia do editor, os meus artigos eram corrigidos por José António Cerejo ou Luís Filipe Sebastião, o que me permitiu experienciar diferentes métodos de trabalho e exigências distintas.

Histórias com sabor a sala de redacção As pessoas passam e vêem pas­ sar. Correm, sentam-se, pensam, escrevem. Têm pressa, mesmo quando caminham devagar. Ouve-se a máquina de fotocó­ pias a expulsar papéis. Muitas palavras estão ainda por construir.

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O relógio marca a hora. E as pessoas desta sala vivem ao ritmo das horas que passam. Há mesas repletas de pilhas de papéis que, não raras vezes, se espalham no chão. As conversas estendem-se, secretária a secretária. As palavras com hora marcada, sem tempo para ter tempo. Os olhos cansa­ dos, em frente ao computador. E sobram os palavrões para as horas de menor paciência. Resta uma secretária e o mundo todo pela frente. O jornalista espanhol Juan Luis Cebrián fala na sala de redacção como uma “trituradora de indi­ víduos”, onde os corpos morrem todos os dias, mais um bocadinho (Cebrián, 2004:77). Nos dias de estágio tive a oportunidade de conviver com essa sala, senti-la e fazer parte dela. Ali, a profis­ são cola-se-nos à pele e, mesmo no final de um dia de trabalho, o nosso pensamento tem difi­ culdade em sair do jornal. De facto, como refere o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, o jornalismo acaba por implicar “sacrificar uma parte de nós. É uma profissão muito exigente. Todas o são, mas a nossa é-o de forma particular. O problema é que convivemos com ela 24 horas por dia. Não podemos encerrar o nosso expediente às quatro da tarde e ocuparmo-nos com outras coisas. Este é um ofício que toma toda a nossa vida, não há outra forma de exercê-lo, pelo menos, correctamente” (Kapuscinski, 2002:27). O aprendiz de jornalista acaba sempre por “absorver” a sala de redacção de um modo muito particular: está mais atento aos pormenores e à maneira como os outros jornalistas vivem a redacção. Ao longo dos três meses escrevi cinquenta histórias (três delas não assinadas) no ambiente que descrevi anteriormente, numa sala onde tanto se vivem vitórias,

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como “pequenas mortes”, que nos vão desgastando. E da qual acabamos por nunca sair. Acima de tudo, a sala de redacção cons­ titui-se como uma segunda sala de aula, onde pude aplicar alguns dos conhecimentos adquiridos durante a licenciatura, bem como aprender com erros e sucessos e largar velhos hábitos. Os primeiros dois dias foram ocupados com a aprendizagem do programa utilizado pelo jornal para a produção e edi­ ção das peças – o Speed Writer – e a apreensão das suas diversas ferramentas, nomeadamente a consulta dos takes de agências de notícias. Na prática do jornalismo, a minha experiência resumia-se a participações esporádicas no Jornal Universitário de Coimbra, A Cabra, e na revista da reito­ ria da Universidade, Rua Larga. Por isso, os primeiros tempos no Público assentaram sobretudo na aprendizagem dos ritmos e características da sala de redac­ ção e, em especial, da secção onde trabalhei. No terceiro dia, tive a oportunidade de acompa­ nhar uma jornalista num serviço externo e perceber melhor como se processa a recolha de infor­ mação e a escrita da história. A Circular Regional Interna de Lisboa (CRIL) rasgava a meio um bairro da zona de Benfica, e a demolição das casas começou nesse dia de Outubro, sem aviso prévio, de acordo com os mora­ dores. A possibilidade de sair do jornal, ver a história acontecer e ouvir os seus protagonistas é uma das vertentes do jornalismo que mais me agradam e, neste caso, assumiu-se como uma experiência empolgante para quem estava a começar um primeiro estágio de três meses. Por sua vez, este contacto directo com as histórias e as fontes de informação fez-me largar velhos hábitos, como o uso constante

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do gravador. A exigência de escrever uma história com os minutos contados nem sempre nos permite poupar tempo para ouvir uma gravação. Por isso, trocamos o gravador por papel e caneta. Ainda assim, aprendi que não devemos colocá-lo de lado em todas as situações. Por vezes, torna-se importante gra­ var uma determinada conversa, porque mais tarde, na redacção, pode surgir alguma dúvida. De facto, numa peça que tive de fazer sobre uma conferência de imprensa, promovida pela asso­ ciação “Lisboa e Tejo e Tudo”, um dos editores de “Portugal” colocou uma dúvida quanto a um termo utilizado por Miguel Sousa Tavares e a gravação permitiu-me eliminá-la.

A (in)dependência do jornalista É uma linha ténue aquela que por vezes separa a independência do jornalista da sua dependência face a diversos elementos que se inscrevem no seu trabalho e com os quais tem de conviver. Por um lado, ainda que trabalhe tendo em vista valores como o rigor e a objectividade, uma his­ tória resulta sempre de um olhar particular – o do jornalista. Por outro lado, não deixa de ser um olhar “dependente”, influenciado por tantos e tão díspares factores: linha de orientação dada pelo editor (ou até por quadros mais altos dentro do jornal), fontes consultadas e a intenção com que estas forneceram a informação, a própria natureza e propósitos do órgão onde se trabalha e, quer queiramos quer não, o próprio carácter do jornalista. Com este capítulo, pretendo reflectir, evocando alguns dos trabalhos feitos durante o está­ gio, sobre essa “vida dupla” que o jornalista pratica. Entre

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dependências e desejo de uma independência “maior” que, na realidade, parece ser impossível de praticar. Assim, como refere Kapuscinski, “a nossa profissão é uma luta constante entre o nosso sonho, a nossa vontade de sermos completamente independentes e as circunstâncias reais em que nos encontramos, que nos obrigam a ser, ao invés, dependentes dos interesses, dos pontos de vista e expectativas dos nossos editores” (Kapuscinski, 2002:41).

No caminho da rotina Há o jornalista aventureiro, que (per)corre perigos para chegar à verdade, o jornalista que descobre aquilo que outrora permanecia escondido, o jornalista que todos os dias tem encontro marcado com o desconhecido, com o dife­ rente. E depois, há a rotina. Percebi, nestes três meses de está­ gio, que a visão romântica de um jornalista que corre riscos e que pretende mudar algo não é simplesmente uma visão. Este jornalista existe. No entanto, conheci também um outro lado, um lado rotineiro, que faz igual­ mente parte da vida de qualquer profissional do jornalismo. À medida que fui conhecendo a secção, comecei também a aper­ ceber-me das rotinas que nela estavam incrustadas e a partilhar algumas delas, como a leitura de jornais da concorrência, a pesquisa diária pela ferramenta disponibilizada pelo programa Speed Writer e que nos permi­ tia aceder aos takes informativos da agência Lusa, bem como a consulta sistemática do e-mail do Público, cuja caixa estava permanentemente cheia de comu­ nicados de imprensa. Um outro tipo de rotina resi­ dia nos acontecimentos que a secção estava encarregada de cobrir, semanalmente, como a

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reunião do executivo da Câmara Municipal de Lisboa, a sessão da assembleia municipal e, mensal­ mente, a reunião descentralizada do município com as diferentes freguesias da cidade. As rotinas enraízam-se no jornal porque, de facto, constituem-se como procedimentos que per­ mitem um “fluxo constante e seguro de notícias e uma rápida transformação do acontecimento em notícia”. No fundo, permitem ao jornalista um “controle” do seu trabalho (Traquina apud Sousa, 1999). No entanto, por vezes, acabam por fazer o jornalismo cair na dependência de certos canais, “o que leva à institucionalização (e legitimação ‘normalizada’) de determinadas fontes e aos pro­ blemas decorrentes das relações pessoais aprofundadas, como o estabelecimento de laços de ami­ zade e confiança que possam, em determinados momentos, comprometer ou condicionar os jornalistas e desvirtuar a infor­ mação” (Sousa, 1999). A meu ver, de acordo com a experiência vivida no Público, a cobertura de certos aconteci­ mentos de rotina coloca também outro problema: pode resultar em artigos de interesse demasiado relativo. Numa das sessões da assembleia municipal que tive de acompanhar, a ordem de tra­ balhos, que costuma consistir na votação de recomendações e moções, acabou por ser adiada e, por isso, teve lugar apenas a habitual discussão de alguns temas entre os deputados de dife­ rentes partidos políticos. O meu artigo acabou por consistir nas acusações mútuas que sempre trocam entre si e que, naquele dia, não traziam grande novi­ dade. Quando cheguei ao jornal e, tendo em conta o aproximar do fecho da edição, impôs-se a necessidade de preencher um espaço em branco, mesmo que o conteúdo não trouxesse grande


novidade ou um ponto de vista diferente ao leitor. Mesmo assim, há que admitir que o interesse dos jornalistas por acontecimentos de rotina demonstra também que, ape­ sar de erigir o seu trabalho em torno da actualidade, o mundo do jornalismo não pode descurar o desenrolar de uma vida quoti­ diana, que é aliás feita de rotinas e hábitos, cronometrada e organi­ zada por horários, calendários e tempos. (Fontcuberta, 1999:21). Por isso, é natural que os jorna­ listas acabem por se inserir nas rotinas e calendários da realidade que os rodeia.

Na “dependência” do desconhecido Nos trabalhos realizados em torno de acontecimentos de rotina, como as reuniões de Câmara ou sessões da assembleia municipal, confrontei-me com um dos maio­ res constrangimentos sentidos ao longo do estágio: a minha ignorância em relação à história recente da autarquia de Lisboa. “Os meios, e em particular a imprensa escrita, dedicam-se à análise de processos e tendências sociais cuja actualidade se estende ao longo de meses, anos ou déca­ das” (Fontcuberta, 1999:21). Para escrever sobre determinado facto, é importante compreender toda a história que ele encerra dentro e fora de si. Com efeito, o desconhecimento de matérias, episódios, histórias e figuras recentes de Lisboa impôs‑se como uma barreira, quer no contacto que estabelecia com as fontes, quer na compreensão dos próprios acontecimentos. Por isso, sentia-me muitas vezes na “dependência” daquilo que não conhecia. Sempre que me era pedido um trabalho, cuja história conhe­ cesse episódios passados e já

tivesse sido falada nos meios de comunicação, procurava juntar mais elementos e informação, de modo a conhecê-la melhor. O Público trabalha com uma ferramenta – o site na internet da Gesco (uma empresa de Ges­ tão de Conteúdos e Meios de Comunicação Social) – que per­ mite aos jornalistas pesquisarem através de palavras-chave artigos de várias publicações portu­ guesas ou estrangeiras. Recorri várias vezes a esta ferramenta com o objectivo de derrubar a barreira que se impunha sem­ pre que surgia um assunto que desconhecia. No entanto, o esforço nem sempre resultou na prática. Especialmente no contacto com as fontes, em reu­ niões de câmara ou assembleias municipais, tornava-se difícil colocar questões mais incómo­ das, quando não conhecia certos temas a fundo. No briefing que se seguiu à reunião de câmara, onde o orçamento para 2009 foi votado, tive alguma dificuldade em acompanhar certas afirma­ ções de membros do executivo, que remetiam para episódios da política autárquica que eu desconhecia.

Os jornalistas e os “outros” viagens pelo mundo das fontes de informação Sem querer diminuir a impor­ tância de outras experiências vividas ao longo dos três meses no Público, devo admitir que a maior vantagem da secção “Local Lis­ boa” consistiu na oportunidade de apreender e viver de perto a complexa relação que se estabe­ lece entre os jornalistas e as fontes de informação. Dos cinquenta artigos redigidos, cerca de metade implicou deslocações a diferentes pontos da cidade, possibilitando‑me assim o contacto com pessoas e locais diferentes.

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Amplamente discutida nas cadei­ ras da Universidade, esta relação que o meio de comunicação exerce com as fontes é essencial para que a informação chegue até ao leitor. É, aliás, em torno dessa relação “que se desenvolve a estrutura fundadora do sistema de comunicação de massas, cons­ tituída pelo jornalista, activo ou operacional, em relação com uma fonte ou com um stock de informações” (Rebelo, 2002:29). Tendo em conta que o redac­ tor não pode presenciar todos os acontecimentos que noticia, existe a necessidade de recorrer a fontes que lhe forneçam infor­ mação. Indivíduos, associações, instituições e outros organismos colaboram com os jornalistas, fornecendo-lhes dados ou factos sobre um acontecimento ao qual estejam ligados. A partilha de uma informação por parte da fonte, esconde um determinado interesse. Por sua vez, quando o jornalista selec­ ciona as fontes e retira pedaços das suas declarações, para mostrar ao público, tem também cer­ tos objectivos em vista. Ambos “trituram” e seleccionam infor­ mação. Ambos agem de acordo com interesses que, não raras vezes, se apresentam distintos. A relação assume complexidade porque chega a ser paradoxal. Ou talvez porque assume uma certa “esquizofrenia”, uma rela­ ção com diversas facetas, onde jornalista e fonte se desdobram em muitos “eus”: o jornalista pre­ cisa da fonte e a fonte precisa do jornalista; mas a fonte pode não querer revelar, e o jornalista pode não querer ouvir certa fonte; há a fonte que procura o jornalista e há o jornalista que procura a fonte; há a fonte que prefere não ser encontrada e a fonte que pro­ cura que o jornalista a “encontre”. E, de facto, este contacto que o jornal exerce permanentemente com diversas fontes tende a ser

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desde logo um factor que diminui a “liberdade” do jornalista, já que este fica demasiado “dependente” dos dados fornecidos e da inten­ ção das fontes. Com efeito, “a relação entre os meios e as fontes é uma das mais complexas e estruturantes de todo o processo de produção de notí­ cias”, até porque “um meio sem fontes é um meio morto” (Font­ cuberta, 1999:46). A relação é tão importante que o prestígio do meio de comuni­ cação também é ditado pelo tipo de fontes que utiliza. De acordo com Héctor Borrat (Borrat apud Fontcuberta, 1999: 47), a credi­ bilidade e influência de um meio de comunicação dependem muito da quantidade, qualidade e diver­ sidade das fontes de informação utilizadas. Porém, segundo José Rebelo, temos vindo a assistir à progres­ siva “centralização das fontes”, já que as novas tecnologias tor­ nam possível o acesso de todos os meios de comunicação ao mesmo tipo de informação (Rebelo, 2002:28). As agências de notícias, que se constituem como fontes partilhadas pelos diferentes meios, acabam por uni­ formizar a informação veiculada pelos jornais, rádios e televisões. Por sua vez, sobretudo no caso dos jornais, os comunicados de imprensa, que os promotores de notícias enviam diariamente, também contribuem para essa uniformidade do conteúdo vei­ culado pelos diferentes meios. Esta realidade não anda distante do Público. A grande necessidade de notícias levava constantemente o jornal a basear-se neste tipo de fontes partilhadas. Sendo assim, para além da pro­ cura da notícia, o jornalista deve operar um tratamento criativo da informação. A abordagem e o enfoque passam a ser essenciais não só por uma questão de ten­ tar superar a concorrência, mas

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também porque o jornalismo necessita de lançar outros olhares sobre a realidade. Assim, sempre que saía do jornal em trabalho, nomeadamente para assistir a eventos que seriam noticiados por outros meios de comunicação, tentava perceber até que ponto seria pertinente dar a conhecer ao público uma perspectiva dife­ rente. Não só por uma questão de “vencer” a concorrência, mas também porque me haviam ensi­ nado durante a licenciatura que o jornalista deve “ver mais”, deve procurar o que está no fundo, não se limitando a ficar pela superfície. Ao mesmo tempo, tentava equa­ cionar os riscos dessa abordagem criativa, uma vez que temos sem­ pre de ter em consideração o público para o qual escrevemos e o estilo do meio de comunicação onde trabalhamos. O primeiro artigo em que traba­ lhei sozinha, durante a primeira semana de estágio, constituiu-se como uma espécie de “teste” que o editor considerou pertinente, talvez para perceber como me “desenrascava” tanto na escrita, como no contacto com as fontes. Assim, assisti a uma iniciativa que a Polícia de Segurança Pública desenvolveu junto dos residentes mais idosos de uma freguesia antiga de Lisboa. Depois de me dar alguns conselhos, explicou‑me que o artigo só sairia no jornal consoante as novidades ou a pertinência que o desenrolar do evento suscitasse. Caminhando entre explicações dos agentes da polícia e queixas dos moradores, acabei por fazer a peça, tendo que adoptar uma perspectiva dife­ rente e criativa para tornar o texto mais interessante, até porque o “conteúdo informativo” não era suficiente para se constituir como notícia. Isto quer dizer que, em diversos trabalhos que fiz, tive de recorrer a um outro tipo de “fonte”, que

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por vezes acaba por ser descurado: o ambiente onde a história se desenrola. Se a selecção das fontes é importante, a observação das “cores, temperaturas, atmosferas, clima, tudo o que se designa por imponderabilia, que é difícil de definir e que, não obstante, é uma parte substancial da escrita” (Kapuscinski, 2002: 34) também o é. Numa reportagem que fiz sobre uma iniciativa da Câmara de Cascais para promover uma alimentação de qualidade nas escolas, levando famosos chefs de cozinha a preparar uma refeição diferente, entendi que deveria dar mais atenção ao ambiente que envolvia as crianças e ao desenro­ lar da história, do que às fontes. O estágio permitiu-me uma rela­ ção constante com diferentes tipos de fontes, que mostravam comportamentos e interesses dis­ tintos: a “fonte resistente”, que procura desviar o jornalista da informação e coloca barreiras no acesso à mesma; a “fonte aberta”, que mesmo tendo sido procurada pelo jornalista, mostra-se disponí­ vel para dar todos os dados; e “a fonte espontânea”, que contacta o meio de comunicação porque tem interesse na publicação de um certo facto ou acontecimento que conhece.1 A secção “Local Lisboa” trabalha, à semelhança do que acon­ tece nas restantes, com fontes institucionais, cuja credibilidade é usualmente aceite. De acordo com Mário Mesquita, “os estudos sobre o relacionamento entre os jorna­ listas e as fontes, efectuados pela sociologia crítica norte‑americana, demonstram que os principais produtores de notícias são, por via de regra, as instituições estatais e, em especial, o governo, principal máquina de fabricar notícias, uti­ lizando a via do relacionamento 1 A distinção utilizada é da autoria de Héctor Borrat (Borrat apud Fontcuberta, 2002:47).

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e da negociação entre as fontes de informação e os jornalistas” (Mesquita, 2004:77). Ainda assim, o cidadão comum constitui-se também como uma fonte essencial, sobretudo na sec­ ção onde estagiei, uma vez que a sua existência assenta num certo “esforço de proximidade”. Através de cartas ao director ou e-mails à redacção, os cidadãos procu­ ravam o jornal para apresentar queixas ou contar histórias que queriam ver publicadas. O jor­ nal ponderava a pertinência da sua publicação, tendo em conta diferentes valores-notícia. A relação que o jornalista exerce com o cidadão comum é essen­ cial, mas complexa. Se, por um lado, existem fontes que conhe­ cem os meios de comunicação e se especializam no contacto com os mesmos, por outro lado, a pessoa comum desconhece muitas vezes a forma como os jornais (ou outros meios) funcionam e o tipo de informação que privi­ legiam. Em alguns casos, contam pormenores da vida privada, sem terem noção que estão a contar algo que não querem ver publi­ cado. Cabe ao jornalista um papel difícil, e de grande equilíbrio. No artigo que fiz sobre a sessão de esclarecimento da PSP aos moradores de São Vicente de Fora, alguns participantes com quem falei desviaram a conversa sobre a segurança e contaram his­ tórias pessoais que não publiquei, até porque o âmbito e objecti­ vos da peça não o permitiam. O problema está obviamente numa certa “inocência” da fonte que revela pormenores da vida privada sem perceber que não tem qualquer intenção de os ver publicados. Por sua vez, para a preparação de um artigo sobre uma associação religiosa que lutava pela manu­ tenção de um edifício (onde teria nascido São João de Brito), tive uma conversa presencial com

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dois membros que desviavam constantemente o assunto para a história de vida do santo. Claro que essa história não interes­ sava à secção, pois o que estava em causa era a “luta” entre esta associação e a Câmara de Lis­ boa que pretendia desfazer-se do imóvel. No entanto, aprendi que o jornalista tem de saber ouvir e, apesar de estar numa corrida contra o tempo, tam­ bém tem de saber esperar. Nem sempre pode “cortar” o que a fonte está a dizer. Ou quando o faz, tem de ser subtil evitando “cortes” demasiado bruscos na conversa, que possam “calar” a fonte. Percebi, assim, que se esta­ belece uma certa “manipulação” e “negociação” com as pessoas com quem falamos. Umas vezes o jornalista é o manipulador, outras vezes está no lugar de manipulado. E o mesmo se passa do lado das fontes. A relação do jornalista com as pessoas que fazem parte das his­ tórias que escreve torna-se ainda mais complicada tendo em conta que o tempo que passa com elas é, na maioria das vezes, muito reduzido. É uma relação fugaz, marcada pelo passar dos pon­ teiros do relógio. Como lembra Kapuscinski, “o segredo está na quantidade de coisas que cada uma é capaz de nos dizer em tão curto espaço de tempo” e claro numa boa “selecção” dessas pessoas. No entanto, o jorna­ lista polaco lembra também que precisamos de “tempo para nos adaptarmos ao outro” e que, num primeiro contacto, as pessoas tendem a ser tímidas e a falar pouco (Kapuscinski, 2002:34). Vivi esta realidade, sobretudo em duas situações semelhantes: duas inaugurações de galerias de arte urbana, onde alguns artistas se mostraram pouco confortáveis ao falar com a imprensa. Isso torna o trabalho do jornalista mais difícil, mas tem ainda outro


problema: muitas histórias se perdem à conta disso. Mesmo quando o jornalista assiste a determinado acontecimento, ele não pode descurar a importância das fontes. Ele continua a precisar de “vozes” que tragam novos pon­ tos de vista e que complementem a restante informação. Assim, embora alguns artigos que redigi resultassem de uma observação directa do acontecimento, não deixava de ser pertinente estabe­ lecer uma relação com as fontes e com os protagonistas da história. As iniciativas promovidas pela autarquia lisboeta, as reuniões mensais com as freguesias e as sessões da assembleia municipal ocuparam grande parte do meu tempo, sobretudo a partir do segundo mês de estágio. No que diz respeito a esta relação com a Câmara de Lisboa, era sobretudo o executivo municipal que “domi­ nava” o contacto com os meios de comunicação. Através das reu­ niões semanais, mensais, sessões de assembleia e ainda as inicia­ tivas que serviam para promover determinado acontecimento, obra ou reabilitação, por exemplo. Assim, não era difícil para a autarquia entrar em contacto com o jornal, sempre que precisava de tornar público determinado facto. Ao invés, quando o jornal queria esclarecer determinado assunto com algum membro do executivo, o caso podia mudar de figura. Numa sessão aberta ao público, onde o presidente da Câmara, António Costa, apresentou as grandes opções de 2009 para a cidade de Lisboa, os jornalistas presentes sentiram necessidade de clarificar certas informações que haviam sido dadas durante a apre­ sentação, nomeadamente acerca da candidatura do Fado de Lis­ boa a património da UNESCO. António Costa recusou-se a prestar quaisquer declarações, mesmo depois da insistência de

jornalistas de diferentes órgãos. Por isso, o executivo acabava por se constituir simultaneamente como “fonte espontânea” e “fonte difícil”, dependendo do seu inte­ resse em falar ou não com os jornalistas. Constatei, ao longo dos três meses, que a secção “Local Lisboa” vive muito em torno destas iniciativas que a Câmara de Lisboa desen­ volve quando quer promover um acontecimento: inaugurações, investimentos, eventos cultu­ rais, entre outros. No entanto, notei que, à semelhança do que acontece noutros meios, contam‑se cada vez menos “histórias”, dando-se uma maior importância a estes “pseudo-eventos”, fabri­ cados pelas instituições estatais. Não questiono o seu valor-notí­ cia, mas entendo que muitas vezes a abordagem acaba por ser super­ ficial e um pouco “cinzenta”, para além de negligenciar olhares e pontos de vista diferentes. Ainda assim, devo notar que, em certos momentos, o “tiro” da Câmara de Lisboa “sai pela culatra”. Isto porque, quando promovem um evento, nunca sabem o enfoque e o tipo de tratamento que os meios de comunicação irão dar ao tema. Na reposição do Cais das Colu­ nas, no Terreiro do Paço, o editor deu-me indicação de que deveria recolher mais informações não sobre a inauguração mas sobre uma outra obra complexa que iria esventrar uma vez mais aquela zona. Assim, o meu artigo andou em volta dessa nova empreitada, apesar de ter partido da reposição do Cais.

O jornalista na dependência dos promotores de notícias Presenciar diversas histórias e acontecimentos foi uma das vantagens proporcionadas pelo estágio na secção “Local Lis­

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boa”. No entanto, não poderia deixar de reflectir sobre os dias em que permaneci na redacção e redigi artigos através de contac­ tos telefónicos, comunicados de imprensa ou takes da Lusa. Não poderia, aliás, deixar de referir como esses dias causaram uma certa “frustração” e me fizeram sentir demasiado “dependente” de uma informação uniformizada. De facto, como já referi ante­ riormente, a secção apoia-se com regularidade na informação de agência e em comunicados de imprensa, facto que pode ser explicado pelo número reduzido de jornalistas que nela trabalham e pelo vasto número de aconteci­ mentos e áreas territoriais que o “Local Lisboa” pretende abranger. Por sua vez, torna-se evidente um certo desinvestimento, por parte das empresas jornalísticas, na criação de condições de trabalho propícias ao desenvolvimento de um jornalismo de investigação, de um jornalismo com tempo para ser mais profundo (Correia, 1997:149). Assim, as empresas tendem a fazer uso dos promo­ tores de notícias que, através de comunicados, trazem a informa­ ção até ao jornalista, sem que este tenha de sair do lugar. Assim, está claro que “o conteúdo dos meios não depende apenas dos interesses do público e dos do próprio meio de comunicação: é igualmente resultante dos inte­ resses de distintos sectores da sociedade que, através dos meios de comunicação, pretendem tor­ nar conhecidos do público certos factos e opiniões” (Fontcuberta, 1999:43). Há, portanto, um certo perigo na relação que os jornalistas exercem, por exemplo, com os assessores de imprensa que entopem diaria­ mente os e-mails da redacção com comunicados, onde promovem determinado facto ou opinião e não raras vezes fazem publicidade a um produto. Nesta matéria, o

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Livro de Estilo do Público não deixa margem para dúvidas: os press-releases “devem constituir apenas uma pista para um tra­ balho jornalístico independente” (Público, 2005:169). Embora na maior parte das secções do jornal esta norma seja respeitada, a verdade é que na secção “Local Lisboa”, a máxima nem sempre é seguida. Ao atentarmos nas páginas da secção, percebemos que algumas breves se baseiam em comuni­ cados de imprensa. De facto, das cinquenta peças que pro­ duzi, nove tiveram origem em press-releases. Cinco peças basea­ vam-se apenas nos comunicados, enquanto nas outras quatro, por iniciativa própria, entendi que deveria esclarecer melhor cer­ tos aspectos e, por isso, decidi contactar algumas fontes que considerei indicadas. Com efeito, estes comunicados de imprensa constituem, na maior parte das vezes, autênticos muros difíceis de saltar. São barreiras que acabam por distorcer o papel do jornalismo, porque um press‑release não é mais do que um conjunto de palavras escritas, sem direito a perguntas, a questões ou interpelações. Palavras que se fecham em si próprias e consti­ tuem simplesmente um espelho dos interesses das fontes. Claro que sempre que surgem dúvidas relativamente a uma informação enviada por estas fontes o jorna­ lista tem bom remédio: pega no telefone e questiona. No entanto, como mais à frente explicarei, as fontes nem sempre se mos­ tram disponíveis para responder a questões mais incómodas. Temos também de ter em conta que as fontes que estão por detrás destes comunicados são, muitas vezes, “profissionais no ‘negócio’ de lidar com o campo jornalís­ tico” e conhecem bem o meio e o modo como nele se trabalha, por isso, compreendem “a neces­

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sidade da matéria fornecida (os press-releases) assumir certas for­ mas e seguir certas convenções”, e percebem também que “um timing cuidadoso da informação divulgada pode influenciar não só a cobertura mas também o conteúdo da notícia publicada” (Traquina, 1989:173). Assim sendo, poderíamos até entender que os press-releases e os assessores de imprensa facili­ tam o trabalho do jornalista, no entanto a informação por eles vei­ culada torna-se de algum modo “artificial”, demasiado fabricada, e ilustra interesses que muitas vezes não se coadunam com o trabalho e a responsabilidade que o jornalista tem perante o leitor. Os press-releases são o produto ideal dos assessores de informa­ ção, mas podem muitas vezes constituir um pesadelo para o jornalista. Por exemplo, quando a polémica estala, alguns pro­ tagonistas das histórias tendem a refugiar-se nos comunicados, negando qualquer outro tipo de contacto e esclarecimento. Num dos artigos que já referi, na deslocação a Benfica, devido às demolições para a construção da CRIL, era indispensável ouvir a empresa Estradas de Portugal. Após um contacto telefónico, esta entidade remeteu um comu­ nicado geral que estava a enviar a todas as redacções. Por isso, não foi possível contrapor certas afirmações e factos expostos no dito comunicado. Um outro caso digno de registo diz respeito a um comunicado enviado à redacção pela Polícia de Segurança Pública, sobre o desmantelamento de um grupo de assaltantes no aeroporto de Lisboa. Um dos jornalistas de local remeteu-me o comunicado e pediu-me que fizesse uma breve sobre o assunto. Ao ler a nota da PSP, percebi que as explicações eram escassas e que necessitaria de os contactar para esclarecer

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alguns aspectos importantes. No entanto, desde início, o contacto não se revelou fácil. Quando finalmente obtive o nome da fonte indicada, difi­ cultaram o meu acesso à mesma, dizendo que “devíamos ter ido à conferência de imprensa”. Por decisão do jornalista que estava a fechar a secção nesse dia, a notícia acabou por não sair, porque não conseguiríamos dar ao público uma informação clara e coerente, sem os esclare­ cimentos da PSP. Esta situação demonstra, ainda, a excessiva dependência dos jornalistas rela­ tivamente às fontes. Por outro lado, sempre que me era pedido um trabalho atra­ vés de takes da agência Lusa ou comunicados de imprensa, tinha a sensação de estar demasiado “distante” do mundo que estava a relatar, da história e das pes­ soas que nela estavam inscritas. Claro que, apesar de preferir um jornalismo que “sai à rua”, não posso deixar de ter em conta a importância e o papel que hoje assumem as grandes agências noticiosas e os promotores de notícias na prática do jornalismo. A globalização acabou por “mos­ trar o mundo ao mundo”. Por isso, “viver num planeta que está cada vez mas interligado significa ter noção disso e adaptarmo-nos a uma situação global radicalmente nova” (Kapuscinski, 2002:33). Com a progressiva prioridade dada ao jornalismo online, acen­ tua-se a necessidade de recorrer às grandes agências de notícias, que controlam grande parte da informação e que permitem à redacção ter conteúdos infor­ mativos contínuos. Ao mesmo tempo, com a enorme quantidade de pessoas, factos e acontecimen­ tos, o jornalista tende a apoiar-se também nos comunicados de imprensa, já que não tem forma de os “cobrir” presencialmente a todos.

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Ainda que compreenda a conjun­ tura actual, não deixei de sentir uma certa frustração por contar histórias, cuja realidade me era tão distante. Receio mesmo que o avanço tecnológico e uma apa­ rente eficaz “interligação” entre os vários pontos do globo acabe por distanciar o jornalista das suas fontes, das histórias e dos “outros”, dos protagonistas e, consequentemente, da realidade. De facto, como disse Kapuscinski, “o problema das televisões e dos meios de comunicação em geral é que são tão grandes, influentes e importantes que começaram a criar um mundo só deles. Um mundo que tem muito pouco a ver com a realidade” (Kapus­ cinski, 2002:43).

Entre a publicidade e o jornalismo A realidade dos meios de comuni­ cação social, enquanto empresas, está hoje directamente ligada às receitas que provêm da publici­ dade. A sua inclusão nas páginas do jornal, em convívio com as notícias, resulta de uma estra­ tégia económica que garante a sobrevivência do próprio meio. A dependência dos media face às receitas que provêm dos anúncios publicitários tem vindo a agudi­ zar-se. E, embora se constituam como actividades diferentes, até que ponto a publicidade tende a imiscuir-se no trabalho do jorna­ lista e a influenciar as suas acções e a sua escrita? Para já, este convívio entre publi­ cidade e jornalismo repercute-se desde logo no leitor do jornal que, mesmo sem dar conta, consome imagens publicitárias, sempre que procura informação, quer seja na internet ou na versão impressa. Por sua vez, a acção dos pro­ motores de notícias, através dos press-releases, acaba por minar o campo jornalístico com textos cuja

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fronteira entre jornalismo e publi­ cidade é demasiado ténue. Embora a utilização desses recursos seja, por vezes, vantajosa para o jorna­ lista, a verdade é que acaba muitas vezes por ser “demasiado literal” (Correia, 2003:121), desvirtuando assim os objectivos e a natureza do conceito de jornalismo. O Livro de Estilo do Público é claro: “a publicidade é uma área autónoma e perfeitamente demarcada nas páginas” do jornal, “segundo critérios de prioridade e ocupação de espaço definidos pelas direcções editorial e operacional” (Público, 2005:39). Na altura em que decorreu o meu estágio, o Público começou a adoptar um novo sistema de inclusão de anún­ cios publicitários, que consistia em “embrulhar” o jornal com uma “capa” onde se fazia publicidade a determinado produto. A primeira página do jornal, com as notícias do dia, ficava camuflada, envolta em publicidade. A estratégia des­ poletou um conjunto de críticas e opiniões dos jornalistas, que não interessa aqui escrutinar. Importa sim referir um caso que acabou por me trazer um certo “dissabor” e está de algum modo ligado a esta temática da linha que separa o jornalismo da publicidade. O editor da secção pediu-me que fizesse um artigo, a partir de um comunicado de imprensa, sobre o novo supermercado Supercor, da marca espanhola El Corte Inglés, que iria ser inaugurado no dia seguinte, no Parque das Nações. Uma outra jornalista da secção referiu que podia incluir na peça alguns dados sobre um outro supermercado da marca Pingo Doce (com uma vertente, em parte, semelhante ao Supercor no que diz respeito à comida pronta a levar), que havia sido inaugurado em Santa Apolónia. Na altura, questionei-me sobre a pertinência deste trabalho e da sua inclusão nas páginas da secção “Local Lisboa”, tendo em conta


que este tipo de supermercado não é novidade e que, em relação à marca espanhola, é já o ter­ ceiro a ser inaugurado no país. Percebi depois que a escolha do editor estava relacionada com a vertente gourmet do supermer­ cado, que poderia ter interesse para o público do jornal (classe média, classe média-alta). Assim, fiz o texto focando esse aspecto, baseando-me no comunicado e em conversas telefónicas com a asses­ sora do grupo do El Corte Inglés e a assessora do grupo que detém o Pingo Doce. Este artigo viria a suscitar, no domingo seguinte, uma nota por parte do provedor do leitor, Joaquim Vieira, porque no mesmo dia em que saiu a notí­ cia, o jornal vinha “embrulhado” numa publicidade ao dito super­ mercado da marca espanhola. Tanto eu como o editor des­ conhecíamos a inclusão desse anúncio na altura em que redigi o texto. Dissipadas as dúvidas e reticências, colocadas por Joa­ quim Vieira, relativamente às razões editoriais que sustenta­ ram a “feitura” da peça, resta-me admitir que o meu texto acabava na verdade por conter uma certa linguagem “publicitária”, por me ter “colado” em demasia ao dito comunicado de imprensa. Ainda que a falta de experiência e o pouco tempo que nos é dado para reflectir tenham contribu­ ído para o modo como escrevi, não posso deixar de admitir o erro – o erro de não ter reflec­ tido rápido, o erro de não ter duvidado deste comunicado de imprensa que, pura e simples­ mente, fazia publicidade a um novo produto, o erro de não me ter afastado o suficiente da “informação” que ele continha. Mas, do erro acaba por nascer uma certa aprendizagem, que me leva hoje em dia a olhar estes comunicados de um outro modo, entendendo-os como um recurso cada vez mais presente nas salas

de redacção, mas entendendo-os também como um recurso que deve apenas servir como ponto de partida para um novo olhar sobre um tema e nunca como ponto de chegada.

Conclusão Kapuscinski diz-nos que o verda­ deiro jornalismo é “intencional” e “visa produzir algum tipo de mudança” (Kapuscinski, 2002:30). Foi, de certo modo, nas cadeiras da faculdade que comecei a acre­ ditar que este é o jornalismo que vale a pena seguir. Um jornalismo feito de histórias e relatos que possam ter um impacto no leitor, fazendo-o “esticar” o olhar para lugares que outrora não conhecia, impelindo-o a alterar condutas e a exercer a sua autonomia no seio de uma democracia, lançando-lhe caminhos, dando-lhe a conhe­ cer factos e episódios que antes eram totalmente desconhecidos. Depois de três meses de estágio no Público, continuo a acredi­ tar que é este o jornalismo que importa prosseguir. No entanto, apercebi‑me dos múltiplos constrangimentos que a sociedade actual tem vindo a impor à prossecução de um jorna­ lismo tão exigente como este que descrevi. O estágio permite‑nos conhecer de perto a lógica de mercado que envolve os meios de comunicação social dos nossos tempos. Na verdade, “(…) nos inícios do século XXI, a profissão poderá estar a enfrentar a maior ameaça de sempre”, já que “assis­ timos (…) ao aparecimento de um jornalismo de mercado, cada vez mais divorciado da ideia de responsabilidade cívica” (Kovach e Rosentiel, 2001:30). Embora me tenham proporcio­ nado a oportunidade de sair diversas vezes do jornal em traba­ lho, apercebi‑me que o jornalismo ali praticado torna-se demasiado

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distante do cidadão, das pes­ soas e do mundo lá fora. E cada vez mais centrado e comandado por informação de agência, bem como por eventos fabricados por promotores de notícias. Um jornalismo que vive sobretudo dentro da sala de redacção e que se torna demasiado dependente dela. Esta realidade torna-se ainda mais grave na secção onde estagiei, já que se supõe que ela assente numa lógica de proximi­ dade, mas acaba por descurar o contacto com o cidadão, privile­ giando a informação das fontes estatais. Percebi, assim, que o Público está a desinvestir neste “jornalismo de proximidade”, uma postura que pode revelar-se traiçoeira porque acredito que o leitor possa vir a saturar-se deste jornalismo tão “distante” dos lugares e das pessoas que nos rodeiam. Não quero contudo deixar de admitir a minha condição – a de aprendiz de jornalista, que não sabe tudo e que tem dúvi­ das permanentes sobre o que o jornalismo deve ser. Não posso também deixar de constatar o esforço que o Público empreende numa tentativa de ser criativo e partir ao encontro de histórias diferentes e de perspectivas que rompam lugares‑comuns. Por sua vez, é igualmente importante referir que o estágio me permitiu uma aprendizagem com jorna­ listas que já admirava durante os anos da faculdade. A oportu­ nidade de os conhecer, aprender com as suas histórias e ouvir os seus conselhos mostrou-me novos caminhos. Sobretudo não quero terminar sem confessar que foi através deste estágio de três meses que conheci as verdadeiras implica­ ções desta profissão. Ser jornalista implica, de facto, como disse Kapuscinski, “sacrificar uma parte de nós”. Especialmente nesta altura, em que atravessamos uma

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crise económica, devemos ter consciência do tipo de jornalista que queremos ser e dos sacrifícios e riscos que estamos dispostos a correr para o conseguir.

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Medicina de proximidade

A direcção clínica do Centro de Saúde de Eiras, em Coimbra, pretendia saber o que os utentes pensam dos ser viços prestados. Queria respostas sinceras e fron­ tais, sem que as pessoas receassem dizer de forma espontânea o que pensam e sentem ou que despa­ chassem as opiniões no formalismo apressado de um inquérito. Daí ao pretexto para uma série de repor­ tagens foi o passo de um anão.

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Ao longo de dois meses, um grupo de alunos mediu o pulso ao trabalho do Centro de Saúde. Observou o atendimento e entre­ vistou utentes e médicos. Ouviu queixas e explicações, às vezes, até, palavras com a tensão demasiado alta. Mas também escutou elo­ gios e viu como as duas médicas mais jovens têm tanto prazer no exercício da medicina. Seguem-se alguns dos trabalhos realizados.

Eiras


O centro das atenções texto: Ana Relvas França e Pedro Crisóstomo

As cores da manhã ainda pouco denunciam. São sete horas e o friozi­ nho tépido, semi-diurno, que costuma sentir-se no início da Primavera parece fazer esquecer que vem aí um dia de Verão. À porta do Centro de Saúde de Eiras, em Coimbra, já aguardam os que temem não ter vaga para resolver o mal-estar que os traz ali. Velhos e novos. Pais, mães, filhos, maridos, vizinhos. Todos pacientes, à espera, relutantes mas necessitados. A rua está só, mas as vozes da meia dúzia de utentes que se escutam à entrada não chegam para cobrir o barulho dos pesados que entram e saem, num corrupio, dos armazéns dos correios, a 50 metros. Meia hora depois, as pessoas começam a entrar, lentamente, alguns com a morosidade dos anos, ao mesmo tempo que a conversa se prolonga para uma sala de espera iluminada e florescente do Sol que rebate e se aloja no branco das paredes. Há ainda outra meia hora até que a secretaria abra e, enquanto isso, neste centro ainda a cheirar a novo – inaugurado em 2005, depois de 15 anos a funcionar provisoriamente num edifício de dois andares, entre dois prédios e sobre uma farmácia – o tema de conversa parece inevitável para os que se sentam voltados para os cartazes presos à cortiça da parede, onde se alerta para os medicamentos genéricos, o teste da Sida e o tráfico de seres humanos. Aqui, os que se conhecem da terra falam sobre tudo entre si. Menos de saúde. Cancros, diabetes, infecções, pernas inchadas, dores de cabeça. A televisão, ligada desde que entraram os primeiros utentes do dia, interrompe, mas só por momentos, as estórias de maleitas, noites mal dormidas e dos familiares que ainda sofrem. Outras tantas iguais hão-de vir, tanto é o tempo de espera até à hora da consulta. Um conjunto de entrevistas a cerca de 200 utentes, sobre rotinas e procedimentos do centro, evidencia isso mesmo: mais de 40 por cento afirma esperar, em média, entre uma a duas horas por uma consulta, seja no caso de esta ter sido marcada no dia, seja quando o procedimento tenha acontecido antecipadamente, por exemplo, após a consulta anterior. Hoje é segunda-feira, o dia mais agitado neste centro que, em 2007, contabilizava mais de 17 mil utentes. O afogo das manhãs revela‑se sempre escasso para encaixar todos os doentes que solicitam as “consul­ tas do dia” – que possibilitam que o utente seja visto por um médico marcando na hora. O facto de não haver mais brechas para este tipo de “urgências” é, aliás, uma queixa de mais de um quarto dos 200 utentes entrevistados. Cerca de metade assegura mesmo ter-lhe sido impossível marcar uma consulta nesta modalidade. Por haver um número fixo de consultas por médico de família, as do dia não podem interferir com aquelas que estão marcadas com

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antecedência. Razão injustificada, ainda assim, para Dina Marques, 42 anos, doméstica, que contrapõe argumentos. “Quando uma pes­ soa está mal, devia haver a garantia de sermos vistos”. O problema, insiste, está em não deixarem que as pessoas sejam vistas “por um médico diferente” que tenha vaga, quando o de família não pode. Minuto a minuto, cresce um burburinho. Dois senhores de entra­ das grisalhas conversam, enquanto, ao lado, outras duas senhoras já curvadas falam alto, sentadas, com a carteira sobre as pernas. Um deles dirige-se à secretaria a cinco minutos de ela abrir. A funcionária administrativa lembra que o serviço “só abre às oito” e, de imediato, a senhora que fora a primeira a chegar – “ainda não eram sete horas” – atira: “o senhor não é o primeiro”. À medida que a manhã avança, ouvem-se cada vez mais as vozes (e cada vez mais altas) das colaboradoras da secretaria. “Pois é, todos temos que esperar”, em resposta pronta aos mais impacientes e que reivindicam celeridade para lhes apaziguar o desconforto. A sala vai aquecendo também à medida que entram mais utentes e, com eles, o Sol que passa os vidros duplos das janelas. Às 10h30, a sala de espera é como um autocarro em hora de ponta: os lugares vazios escondem-se entre carteiras, sacos de papel, radiografias e, só à chegada de alguém com notória dificuldade em andar, um ou outro utente mais novo dá sinal de cortesia, libertando uma cadeira. Entre a recepção e a sala de estar, há lugares cativos para os que “já são da casa” e que vêm regularmente fazer o penso com a equipa de enfermeiros. Maria do Céu Matos tem 73 anos, é reformada, e materializa com reverências ao serviço o outro pólo dos utentes do centro – aqueles que se sentem cuidados e acarinhados. “O meu marido já fez duas operações e as enfermeiras foram a casa tratá-lo”. Soraya, 24 anos, finalista de Arquitectura, estudante brasileira em programa Erasmus, segue o mesmo discurso: “falo dos meus problemas pessoais; e, aqui, são profissionais e amigos”.

Pacientes, impacientes Dobrados ao meio, dobrados em quatro, dobrados em oito – como se quisessem ser custosos de abrir – pequenos papéis de “reclamações ou sugestões” na caixa de vidro mesmo ao lado da secretaria parecem sugerir uma de duas coisas: ou há pouco que os doentes do centro queiram ver mudado ou acreditam pouco no seu peso democrático. Mas há quem não se iniba de propor alterações. Emília Borges, 55 anos, aposentada, está sentada na sala de espera a fazer tricot sobre o regaço e a voz pausada e cúmplice que se esconde por detrás de uns óculos

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já baços deixam no ar uma resposta vaga, mas pronta no objectivo. Se pudesse, por um dia, dirigir o centro de saúde, não tem dúvidas sobre aquilo que mudava: “o não ter de vir de madrugada”. Emília entrou no centro às 8h30 acompanhando a mãe, Augusta Machado, de 80 anos, que agora escuta atenta as sugestões da filha e se mostra interessada em participar. “Funciona bem?”, pergunta‑lhe Emília, continuando a conversa sobre o que está bem ou mal no pólo de saúde de Eiras. Emília não tem nada a dizer dos médicos, ao con­ trários dos muitos que se queixam da impaciência de quando lhes são pedidas mais informações sobre uma doença, como esta pode evoluir, ou quando se confundem com a posologia de um medicamento. Também a mãe de Emília parece ter vontade em dizer das suas – tanto mais quando passam quase duas horas desde que está sentada na mesma cadeira e o Sol continua alto, a bater pelas costas. “Mas como tenho um neto que é médico – confessa Augusta com um sorriso orgulhoso – não posso dizer mal deles”, diz com um sorriso largo e orgulhoso. Às vezes, continua a filha, “é até irritar e fazer barulho com algumas funcionárias”. Mas a verdade é que “também há funcionárias e funcionárias”, diz, e justiça seja feita: “a primeira da manhã é muito atenciosa”. Sobre o atendimento do pessoal auxiliar, as principais queixas recaem, aliás, sobre a “estranha impossibilidade de resolver o que quer que seja” e sobre a facilidade com que “dizem simplesmente que não é possível”, como desabafa Hermínia Almeida, 32 anos, desempregada da indústria têxtil. Cláudio Colaço, 30 anos, igualmente desempregado, pensa o mesmo: “são simpáticas mas parece que nunca nada é possível”. Quanto às instalações e equipamentos ninguém tem nada a apontar. Alguns comparam o ambiente novo e desinfectado com o posto antigo, um segundo andar num edifício velho, numa rua transversal

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a esta, com escadas em caracol e uma sala de espera claustrofóbica e bafienta. Só têm pena que não existam também mais médicos a ocupar este novo espaço. A lista de propostas para potenciar a nova cara do centro de saúde dilui-se nas reclamações mais frequentes – uma das mais referidas prende-se com algumas atitudes das funcionárias de secretaria, que, no entender dos pacientes, “acham que estão a fazer um favor só por marcar uma consulta”. Mas, no fundo, a verdadeira luta reside no alargamento do número de consultas marcadas no próprio dia. Várias pessoas referem que os médicos deviam ser mais, dado que a população também cresceu e que o horário do atendimento complementar, que por aqui se chama “urgências” e que funciona das cinco da tarde às oito da noite, deveria ser alargado pelo menos até à meia-noite. A escassez de especialidades abrangidas pelo centro surge como terceira preocupação dos utentes. Como ajudar a desobstruir? Criar uma linha directa do médico com o doente para “aviar coisas rápidas, como dúvidas sobre um medicamento e evitar as deslocações” ou ainda “criar um horário para a propaganda médica que não coincidisse com o dos utentes”. Enquanto se prolonga a espera, continuam sentados os que vieram há dois meses marcar consulta e aguardam, neste dia, uma hora pelo médico; os que vieram às seis da manhã e “já” sabiam que teriam de esperar; os que vieram sem ter de vir só porque precisam de um amigo, os que vêm todas as semanas e já conhecem uma a uma as cadeiras da sala e os que apenas passam porque já não passam sem o centro. Pronta a entrar no corredor da enfermaria, Maria do Céu consegue resumir numa palavra tudo o que quer para si e para o centro.”O que é que nos falta aqui? Olhe, saúde”.

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O médico também tem que ser um confidente António Alegre dirige o Centro de Saúde de Eiras há cerca de duas décadas. “Médico de profissão e director por acidente”, segundo as suas próprias palavras, aquele clínico rejeita a generalidade das queixas dos utentes, destacando a qualidade das instalações do Centro e do atendimento. Porque ali não se “despacham consultas”. O seu sonho é disponibilizar, também, apoio na medicina física e de reabilitação. Ana Gomes e Tiago Canoso

CJ — Há quanto tempo trabalha no Centro de Saúde de Eiras? António Alegre — Há quase 20 anos. Comecei logo como director, ainda o centro não era autónomo, éramos uma das extensões do Centro de Saúde Fernão de Magalhães. Quando é que o centro se tornou autónomo? Em 1991. Que alterações se verificaram das antigas para as novas infra‑estruturas? Não tem o mínimo de comparação. Enquanto que antes estávamos circunscritos a uma casa de habitação com meia dúzia de divisões adap­ tadas para praticar actos médicos, agora temos excelentes instalações que, salvo melhor opinião, não as haverá melhor em todo o distrito. As novas instalações permitem um melhor acesso ao Centro de Saúde? Claro que sim. Não tenho dúvidas disso, até os próprios utentes me transmitem essa opinião. Eu posso dizer que, curiosamente, há bem poucos dias, recebi um pedido de transferência de um Centro de Saúde da cidade, aqui para Eiras, alegando como único e exclusivo motivo melhores condições físicas e melhores estacionamentos. Mas como

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se isso não bastasse, temos climatização, parque de estacionamento fechado para funcionários, um parque de estacionamento dentro das próprias instalações com capacidade para receber a maior parte dos utentes e um grande parque de estacionamento no exterior. Não temos qualquer razão de queixa das instalações. Que especialidades havia nas anteriores instalações? Alguns utentes afirmam que agora há menos. Confirma-se? Se sim, porque é que isto acontece? Não é verdade. No Centro de Saúde antigo tínhamos as mesmas especialidades médicas, que são só uma – clínica geral. No entanto, com a disponibilidade do espaço físico, conseguimos ter aqui mais valências, que não só a clínica geral. Estou a lembrar-me, por exem­ plo, do serviço social, que hoje tem gabinete próprio, mas que antes fazia consultas na cozinha. Temos um protocolo com a Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, o que nos permite ter psicólogos que podem, de alguma forma, dar um valor acrescido aos diagnósticos. Antes não tínhamos essa mais valia, porque não tínhamos espaço físico. Portanto, não são mais especialidades médicas mas mais capacidade de resposta e de oferta.

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Relativamente a esse núcleo de psicologia, uma das situações que nos foi apresentada consistia na contratação de um psicólogo para acompanhar os utentes que apenas usam as consultas para desabafar. Acha que um rastreio pré-consulta evitaria esta situação e tornaria o sistema mais eficiente? A contratação de um psicólogo a tempo inteiro é útil e desejável em todos os centros de saúde, mas isso não depende de mim, depende do agrupamento onde estamos incluídos. No entanto, algumas vezes, o médico é a pessoa que cura não só os males do corpo, mas também outros males, como os de amor. Às vezes, o médico, também tem que ser um confidente. Não tenho dúvidas em admitir que a presença de um psicólogo evitaria algumas situações que nos aparecem no con­ sultório e que entopem o sistema. Mas a única coisa que temos para oferecer neste momento é uma consulta de internos da especialidade que estão aqui a acabar a sua formação e que todos os anos mudam, o que também não é agradável, mas é melhor que nada. Tendo em conta os dados obtidos no nosso estudo, como explica as críticas feitas ao pessoal médico e à pessoa do director? Afirmam que o director não deveria ser director e exercer medicina ao mesmo tempo. No que diz respeito aos meus colegas, enquanto médicos, uma con­ sulta pode demorar cinco minutos como pode demorar uma hora. Tudo depende da patologia e das necessárias investigações para um diagnóstico e eventual terapêutica. As pessoas que eventualmente disseram isso, e tenho o maior dos respeitos por elas, sendo certo que, no dia em que precisarem de uma consulta que diga respeito a elas mesmas e que demore uma hora, muito provavelmente não estarão preocupadas com quem está lá fora à espera. Portanto, o médico, dentro do seu consultório, pode e deve gerir a sua consulta em função do utente que tem à frente e nunca com a vontade de despachar A ou B porque a função dele não é despachar, é acima de tudo avaliar, escutar, o que é diferente de ouvir e de seguir em conformidade. É uma crítica que as pessoas são livres de fazer, sendo certo que eu não posso de forma nenhuma aceitar que há colegas que despacham consultas. Não, esse tempo já passou, hoje estamos aqui com uma dinâmica completamente distinta. Quanto ao director, que deveria ser só director e não dar consultas, eu sou médico de profissão e sou director por acidente. Nessas circunstâncias, sempre me perfilei para não deixar a minha profissão. Porque de um dia para o outro as pessoas entendem que eu não interesso mais ao sistema enquanto director e depois? Se estivesse estado vinte anos sem exercer medicina, necessariamente estaria ultrapassado. Não, eu sou médico de profissão e quem me quiser assim quer, quem não quiser, tenho imensa pena, mas não posso deixar de ser médico.

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Foram-nos transmitidas críticas em relação ao pessoal da secretaria. E ainda bem. Negativas. Na perspectiva do utente, com certeza. Sabe de alguma coisa, quer comentar? Posso comentar de uma forma genérica: o utente normalmente tem razão, mas não sempre. Uma das perspectivas que o utente quer é a satisfação dos seus problemas, de preferência na hora. Sendo certo, e eu reafirmo, que muitas vezes ele tem razão. Quando fazemos a gestão das sugestões e reclamações, também temos elogios. A maior parte das vezes as reclamações são de utentes que têm pressa e que, acima de tudo, não ponderaram o seu próprio bem-estar. Quando digo isto refiro-me exclusivamente a um aspecto que me parece importante: o utente tem de ser o primeiro indivíduo activo na gestão da sua patologia. Por exemplo, quando acaba a medicação, não pode vir a correr para o médico e esperar que, nesse mesmo dia, haja uma vaga para lhe renovar o receituário. Tem que saber fazer contas, não é muito difícil saber que os medicamentos vão acabar daqui a 4, 5, 6, 7 dias e marcar com a devida antecedência, porque nós temos uma lista de espera no máximo de 72 horas. Quem é o alvo da indignação de um utente quando não vê resolvido o seu problema na hora? O serviço administrativo. Mas as críticas não foram sobretudo técnicas, foram relativas à disposição, ao modo com que o pessoal da secretaria atende os utentes e foi muita gente a queixar-se. São humanos e reagem perante situações que não são agradáveis. Eu tenho tido conhecimento de utentes que vêm para aqui e exigem – exigem é a expressão – coisas que são impossíveis. Por exemplo, há utentes que chegam aqui, vindos do hospital, que querem que o médico de família lhes passe uma receita. Ora bem, o médico de família não é um transcritor de exames auxiliares de diagnósticos vindos do hospital. É um técnico que tem a sua formação e que não é pago para transcrever receituários, mas sim para fazer diagnósticos e exercer a medicina. Muitos colegas já se confrontaram, e eu próprio, com um simples papel timbrado do hospital, em que se diz exclu­ sivamente isto “pede-se TAC, ponto”. Nem vem o nome do utente, nem rubrica, nem número mecanográfico. Não pode ser. Há aqui uma falta de entrosamento entre o que deve ser dito no hospital e o que deve ser dito a nível hospitalar. Os funcionários administrativos sabem que estas coisas não podem ser feitas e, quando a expectativa do utente é uma e sai gorada porque o profissional administrativo tem que lhe dar uma resposta negativa, o utente não gosta.

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Segundo a informação que recolhemos os utentes não são informados do tempo de espera que ainda falta para a sua consulta. Quer comentar? Não é bem assim. As consultas são feitas de quarto em quarto de hora e os utentes têm na mão um canhoto que lhes diz qual é a hora prevista da sua consulta. Reportando para aquilo que eu disse há pouco, há consultas que podem demorar cinco minutos, como podem demorar uma hora. Nessas circunstâncias pretende-se que os profissionais atendam os seus utentes com dignidade, independen­ temente do tempo que seja necessário. Neste caso os atrasos explicam-se pela duração das consultas? Exactamente. Não há nenhum problema a nível técnico? Absolutamente nenhum. Pode haver uma falha ou outra do sistema informático, mas isso é normal.

Voltando às opiniões dos utentes. Houve algumas queixas relativamente à impossibilidade de marcar consultas por telefone. Isto verifica-se realmente? Isso não é verdade. Admito que haja alguns que não podem entrar na linha na hora, mas as consultas existem com marcação por telefone. Há essencialmente três modos de marcar consulta: por iniciativa do médico, do utente ou da equipa. Até já por Internet nos marcaram consultas. Porque é que não está em funcionamento o ginásio do Centro de Saúde? Já estava à espera dessa pergunta. É um sonho meu há muito tempo. Ainda não existe a medicina física e de reabilitação porque o ginásio está a ser ocupado por pessoas do Centro de Saúde que todas as sextas-feiras lá vão fazer técnicas de relaxamento. Mas o meu sonho é fazer daquelas instalações um serviço autónomo. Estou inteiramente convencido que a curto prazo isso será perfeitamente possível. Este curto, não sei se será curto, se será médio.

Porque é que às vezes há uma espera de dois meses entre a marcação e a consulta? Têm falta de pessoal médico? Não é verdade. Há vários tipos de consultas: há consultas pré-marcadas e há consultas do dia, que servem para quem adoecer nesse dia. Entre­ tanto h�� outro tipo de consultas, as de planeamento familiar, saúde materna, saúde infantil, diabetes, hipertensão… que nós marcamos segundo aquilo que está previsto na legislação vigente. Estas consultas são marcadas de três em três meses ou de seis em seis meses. Falta de médicos nós não temos, felizmente. Temos sim falta de outros estratos profissionais, como por exemplo enfermagem.

Durante as nossas entrevistas, nós próprios verificamos um pequeno detalhe: o som às vezes torna-se imperceptível. Os utentes também se queixaram desse aspecto. São situações que me foram também presentes. Com o tempo e com o degradar de alguns equipamentos, essas coisas acontecem. Eu tive conhecimento disso e providenciei que fosse resolvido. Mas também há outro aspecto que é importante referir: nem todos os utentes são doentes. Daí, que já várias vezes me levantei do meu gabinete e fui pedir por favor aos utentes que falassem mais baixo. Primeiro, por respeito àqueles que estão efectivamente doentes e, depois, para que também fosse possível ouvir-se um pouco melhor o som.

Nesse caso, não reencaminham para o hospital quando aparece alguma situação grave? Resolvem aqui a situação? Nós resolvemos todas as situações, nem que seja, na sequência da necessidade de resolução, o encaminhamento para o hospital, mas encaminhamos para o hospital única e exclusivamente aquilo que não pode ser resolvido aqui. A maior parte dessas situações, mesmo cirúrgicas, nós resolvemos aqui, sem qualquer tipo de problema. Posso até dizer que temos uma parceria com algumas escolas. Se houver alguma situação aguda, seja ela qual for, as crianças dessas escolas têm critério de prioridade para virem ao Centro de Saúde ou à estação mais próxima, sejam nossos ou não. Respondendo de forma clara: não enviamos ao serviço de urgência do hospital, a não ser os casos verdadeiramente necessários e que por incapacidade humana ou técnica não podemos resolver aqui.

Dizem que “uma boa casa deve ter boas relações”; como é que classifica o relacionamento entre a equipa? Eu passo mais tempo com os meus colegas e com o resto da equipa do que com a minha própria família. Acho que qualquer Centro de Saúde que se preze deve considerar isto o seu segundo, senão o pri­ meiro lar. Nós, aqui dentro, damo-nos excelentemente bem, o que não invalida que de vez em quando não haja a sua “trip”. Tento, com a minha experiência de gestão de 20 anos, não gerar conflitos, mas gerir. Temos ali um barzinho onde fazemos o nosso almoço de con­ vívio quase todas as semanas, mais para promover o convívio e uma boa relação que outra coisa qualquer. Conhecemo-nos há 20 anos, somos amigos pessoais, fazemos convívios juntos, fazemos excursões juntos, alguns passam férias juntos, pelo que não temos problemas rigorosamente nenhuns. Felizmente não tenho conflitos dentro do Centro de Saúde, ou não existem conflitos.

António Alegre dirige o centro de saúde de Eiras há cerca de duas décadas

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Prestar cuidados de saúde primários de qualidade dá muito trabalho! Paula Miranda e Catarina Matias: duas médicas em início de carreira e um brilho no olhar cada vez que o assunto é o Centro de Saúde que as acolhe. Em Eiras, freguesia periférica de Coimbra, onde trabalham com prazer e afinco, viajámos pelo exercício da Medicina por intermédio das suas ideias e das palavras nem sempre coincidentes, entre si, com que falam da sua experiência de vida. Carolina Figueiredo e Joana Costa São clínicas gerais por opção? Paula e Catarina - Sim. O que é ser médico, hoje? P - Um alvoroço completo. É tentar intervir de forma a proporcionar uma melhoria na vida dos doentes, aplicando os conhecimentos de que dispomos no que diz respeito à matéria e à terapêutica. C - É uma actividade cada vez mais complexa. Ser médico não é só ter o conhecimento científico, mas também saber estar e lidar com o doente. Para mim, é o equilíbrio destas duas partes que faz um bom profissional. Lidam com a vida das pessoas. É uma responsabilidade pesada? C - Sem dúvida. E o médico tem que adoptar cada vez mais uma atitude defensiva, porque a sociedade em geral faz pender os deveres todos para o nosso lado. Há que saber lidar com isto. A exigência da sociedade é um aspecto incontornável, mas não será também isso que muito contribui para o fortalecimento psicológico de um médico? C - Sim é verdade, e fortalece a nossa capacidade de reacção a deter­ minadas situações com que nos deparamos. Além disso, motiva-me sentir que em cada consulta ganho sempre alguma coisa a nível pessoal. Também é isso que a motiva? P - A mim o que mais me motiva são os doentes, cuja qualidade de vida podemos melhorar, assim como o facto de ser uma área com muitas coisas novas sempre a surgir. Há que estudar, aprender e evoluir constantemente. Como descrevem a passagem dos bancos da Universidade para o contacto directo com os doentes? P - Deixamos de contactar com o quadro preto e o giz para ter esta rotina médica. Passamos a lidar com os doentes, as patologias, as enfermarias e com os colegas médicos mais experientes. Tudo isto é uma nova etapa para nós, dá um novo fôlego.

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C - Que os estudantes de Medicina não pensem que vai ser tudo como estão habituados até ao terceiro ano de curso, na base da teoria. Quando se faz um projecto de vida a longo prazo, como é a escolha de um curso, tem que se pensar não em como vai ser o período de formação, mas em como vai ser posteriormente o trabalho. Como estão a viver esta primeira experiência profissional? Tem correspondido às expectativas? P - Muito construtiva. Temos ainda pouca experiência e muito para aprender. Há certos erros que podemos ir ainda cometendo, quer a nível de conhecimentos, quer de relacionamento, mas ao longo do tempo vamos melhorando e crescendo. C - Tem sido muito positiva, até agora não houve nenhuma falha nas expectativas. O Centro de Saúde de Eiras foi o sítio certo para começar? P e C (ao mesmo tempo) - Sem dúvida! Vieram para cá por opção? P e C - Sim. Porquê? P - Já ouvia falar muito bem deste Centro de Saúde. Agora que o conheço por dentro tenho hipótese de fazer comparações com os colegas que estão noutros sítios, e fico muito contente por estar aqui. C- O que eu destaco é a entreajuda, o apoio e uma atitude de extrema generosidade dos orientadores para connosco. Estão sempre a puxar-nos para a acção, e isso é muito importante. Há também uma humanização no contacto com os doentes, o que singulariza este Centro, em relação a outros. Já penso para comigo que quando tiver que sair daqui, não vou saber estar. Como lhes parece que os utentes vêem este Centro de Saúde? P - Pelo que me apercebo, com bons olhos. Dizem-nos espontanea­ mente que estão satisfeitos com o serviço e sentem-se bem aqui.

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C - Estes utentes estão satisfeitos porque vêem as suas necessidades respondidas de uma forma talvez até mais eficaz do que noutros sítios.

Perante estes números é impossível praticar essa dimensão humana durante o curso…

De que forma? C - Aqui há uma vantagem relativamente a outros Centros: é que existem especialistas e internos, ou seja, mais médicos prontos para os atender e com uma disponibilidade diferente.

As administrações hospitalares estão a impor certos constrangimentos aos seus profissionais, como a racionalização do tempo das consultas. Como é que lidam com isso? P - Aqui não sinto essa pressão. Embora tenhamos marcações de tanto em tanto tempo, não costumamos tirar a palavra aos doentes nem nada que se pareça. Estou convencida que eles saem de cá com a sua agenda completa, ou seja, a sentir que a consulta teve o princípio, o meio e o fim de que eles necessitaram, segundo a nossa orientação. C - Para mim, esse gerir do tempo é uma grande dificuldade, porque sinto da parte de quem está lá fora à espera uma grande vontade de entrar a horas ou até mesmo antes, mas já no consultório não demonstram lembrar-se que lá fora outros têm essa mesma vontade… às vezes preparam uma “listinha” com cinco tipos de sintomas, para não se esquecerem de nenhum, e utilizam muito a expressão - “olhe, já agora…”, especialmente quando já lá vão mais de 20 minutos de consulta! (risos). Mas mesmo assim eu acho que em Portugal somos bastante privilegiados, porque em Espanha, por exemplo, os médicos de família vêem quarenta pessoas por manhã, dispondo só de cinco minutos para cada uma. É uma coisa muito imediata, muito rápida, tendo os médicos que chegar ao cúmulo de dizer aos doentes que levam muitas queixas, pelo que, se quiserem falar de todas elas, terão que marcar nova consulta, uma vez os cinco minutos não serem suficientes.

Os utentes deste Centro de Saúde caracterizam-se por um baixo nível de instrução e pertencem a um grupo etário envelhecido. Tendo em conta este perfil, sentem alguma dificuldade a nível da comunicação, designadamente com a explicação dos tratamentos ou da prescrição? P - Por vezes pode haver alguma confusão quanto à toma correcta dos fármacos. C - Há estratégias para saber se o paciente está a cumprir integral­ mente o plano de tratamento estabelecido. Por exemplo, perguntarmos como é que está a tomar o medicamento X, em vez de perguntarmos se está a tomar tudo direitinho. O relacionamento interpessoal é preponderante num clínico geral? C - Obrigatoriamente tem que ser. Na nossa especialidade acho mesmo que é a base de tudo, porque a maneira como recebemos o doente influencia o que ele nos vai dizer sobre a sua situação de saúde. Com a prática vamos aprendendo a conhecer melhor cada utente. P- As pessoas têm que nos entender e confiar em nós para seguir o plano de tratamento que lhes indicamos. Abertura, disponibilidade e alguma tranquilidade são extremamente importantes, assim como mostrar segurança para levar as coisas a bom porto. Que outras características consideram determinantes para o bom desempenho de um clínico geral? C - Como estamos numa área que mexe com todos os campos, tudo é importante, desde os conhecimentos técnicos, aos científicos, pas­ sando pela actualização constante: se queremos dar uma boa resposta, temos que estar actualizados a todos os níveis, e não só relativamente à parte científica. P- Considero a memória fundamental… (risos). A bem da conti­ nuidade dos cuidados que prestamos, quando vem um doente pela segunda, terceira, vigésima quarta vez, é importante lembrarmo-nos do contexto do próprio doente e da sua família. Para além disso a humanidade, a sociabilidade, a compreensão… Partindo do pressuposto de que essa dimensão mais humana do trabalho de um médico não se adquire na Faculdade, como aprenderam e desenvolvem essa competência? P - Tem que ser uma coisa própria, que vem da nossa sensibilidade e, também, da experiência e daquilo que observamos por exemplo nos colegas mais velhos. Vemos determinadas abordagens – identi­ ficamo‑nos ou não com elas – e depois vemos que frutos vêm dali para podermos adoptá-las ou não. C - Há coisas que só se desenvolvem praticando no dia-a-dia. E é como a Paula disse: aprende-se muito com os nossos orientadores, com as pessoas que já estão cá há mais tempo. Neste momento, entram para Medicina, em Coimbra, mais de 200 alunos por ano.

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O conceito de rentabilidade está ligado à ideia de resultados operacionais. Onde é que entra o conceito de qualidade na prestação dos serviços de saúde? P - Nas consultas que eu tenho feito, posso dizer que se tenta prestar o máximo de atenção ao doente sem pensar muito no lucro, rendi­ mentos, ganhos, mas sim na qualidade. C - Como é que nós podemos ver bem um doente em cinco, dez minutos, se ele tem uma queixa que implica fazer exame físico, passar análises, renovar o receituário, olhar para ele, falar com ele (porque isso também nos mostra muita coisa…)? A qualidade passa pelos números, sim, nomeadamente pelo número de minutos que o doente está lá dentro, mas também passa muito pelos resultados, e esses não são muito mensuráveis. Uma das principais queixas dos utentes deste Centro é precisamente a de sentirem que os respectivos médicos de família os “despacham”, palavra dos próprios, em vez de lhes dedicarem a atenção que eles entendem que deveriam ter… C - Não podem ter sido nossos doentes! (risos). Admito, no entanto, que isso se possa passar. Mas depende muito do timing em que os inquéritos aos utentes foram feitos: se antes da consulta, enquanto estavam à espera, ou se foi depois. E essa parte é tão importante! (risos) Uma consulta mais curta hoje tende a repercutir-se na necessidade de uma nova consulta amanhã? C - Aplica-se aquilo de que há pouco falei: em Espanha, ainda esta semana uma colega nossa contou que diz aos utentes: – “Tenho cinco minutos para si, vamos rentabilizar isto. Duas queixas, mais não!”

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P - Mas eles também acabaram por dizer que as consultas acabam por ser em maior número do que as nossas… Qual é então, na vossa opinião, o sistema mais eficaz? O que se pratica cá ou em Espanha? C- Do meu ponto de vista, tudo depende da educação da popula­ ção. Nós aqui, nesta altura, nunca poderíamos adoptar o mesmo procedimento que em Espanha, porque os nossos utentes não estão preparados para tal. Eles têm uma expectativa relativamente a nós em termos de tempo disponível muito diferente daquela que têm os espanhóis. P - Quer para falar das suas queixas, quer do seu próprio dia-a-dia, por vezes, eu pessoalmente gosto mais deste tipo de consulta, em que há um bocadinho mais de tempo; deste modo, a pessoa pode falar um bocadinho mais de vários aspectos, segundo aquela ideia da medicina de continuidade de que falava há pouco. Como é que as coisas se têm passado com ela, com a sua família, saber como está agora aquilo que antes estava mau… desta forma temos mais oportunidade de conhecê-la. Podemos até começar por uma brin­ cadeira e de levar as coisas de uma forma até mais calma a seguir.

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C - Enriquece mais a parte da relação. Em termos de índices de produtividade podemos não ser tão eficazes … P - Mas aqui abordamos outro universo, acabamos por também conhecer os doentes. Um comentário ao Serviço Nacional de Saúde. P - Satisfaz-me, embora tenha algumas falhas, como o facto de muitas pessoas não terem acesso aos cuidados de saúde primários nem a um médico de família. Mas considero que conta com alguma qualidade na prestação de serviços, nomeadamente da nossa parte. C - Há muito a ideia de que cuidado de saúde de qualidade é no hospital, o que não corresponde à realidade. Por isso, penso que tem que se investir nos cuidados de saúde primários, por estes serem abrangentes e levarem em conta o contexto biopsicossocial do doente. Nas Urgências, o paciente é visto por aquele médico aquela vez, sem que haja continuidade de cuidados… e prestar cuidados de saúde primários de qualidade dá muito trabalho! Sentem-se realizadas? P e C - Até ao momento, sim, mas ainda há muito, muito para aprender!

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O Pintor de Batalhas


Nascemos livres: a força das imagens nas imagens da força Em O Pintor de Batalhas, o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte utiliza a sua vasta experiência como repórter de guerra para a composição da personagem principal da obra. Poder-se-ia dizer que a narrativa textual não conta uma história, no sentido do romance tradicional, apresentando-se antes como um discurso intimista que se desenvolve no domínio das recordações, vivências e reflexões. Andrés Faulques, o protagonista, após trinta anos fotografando os principais conflitos armados do final do século XX, interrompe a carreira, após a morte da sua companheira e colega de profissão, Olvido Ferrara. Decide então isolar-se num antigo farol em Cabo Malo, na costa mediterrânica de Espanha. Na torre de vigia, o premiado repórter inicia uma complexa pintura mural, retratando antigas batalhas e sobretudo conflitos em que participou no decorrer da sua profissão. O fotógrafo busca expressar através do fresco a sua percepção pessoal do que considera ser a lógica caótica da guerra e o elemento inerente à vida de todos os homens: a morte. A certa altura, Faulques é surpreendido pela visita de Ivo Markovic, antigo soldado croata por ele fotografado no conflito dos Balcãs. Markovic procura-o para o matar, uma vez que a publicação da sua fotografia teve grande repercussão mundial e acabou indirectamente por causar a morte da sua esposa e do seu filho. A partir deste momento, as personagens travam diálogos contundentes, permeados por incursões subjectivas de Falques relativas ao romance com Ferrara, culminando num desfecho que surpreende, não no seu conteúdo, mas na forma como acontece. O livro também suscita no leitor um percurso de reflexão de foro jornalístico. Por exemplo, ao abordar a questão da objectividade. O alheamento, a imparcialidade, a isenção são vistos pelo fotógrafo como condição sine qua non para o rigoroso exercício da profissão. “A guerra só pode ser fotografada se, ao levantarmos a máquina fotográfica, não formos afectados pelo que vemos” (p. 46); “Procurei sempre ser o homem que olha. Um terceiro homem indiferente” (p. 96) – são passagens que, no texto, ilustram esta disposição. A importância deste aspecto é ainda reforçada pela observação de Ferrara: “Gosto que sejas tão bom no teu trabalho e que uma lágrima nunca te tenha feito perder a focagem da máquina. Ou que isso não transpareça” (p. 136). Outra temática é a questão da responsabilidade do jornalista e das consequências que o seu trabalho pode ter na vida das pessoas expostas mediaticamente. A possibilidade de a informação ser “arma de guerra” e ter um “poder bélico” é ilustrada pelo destino de Ivo Markovic. Além disso, a influência dos media na forma como decorre um acontecimento também é evidenciada. O diálogo entre Markovic e Faulques ilustra estas reflexões: “…também você faz parte do quadro… Não apenas como parte dele, mas inclusivamente como agente. Como causa” (p. 96); “Tirou a fotografia com o homem morto aos seus pés… Pensou que talvez o tenham matado porque você estava ali? Que o fizeram para que o fotografasse?”; “O pintor de batalhas não respondeu. Evidentemente que o pensara […] agora sabia que nenhuma fotografia era neutra ou passiva. Todas repercutiam no meio, nas pessoas que enquadravam” (p. 191). Outro factor é o olhar diferenciado do jornalista, expresso na captura de momentos ricos em significação, normalmente despercebidos aos outros, e que se apresenta como fruto da experiência profissional; e também o processo de selecção de aspectos da realidade, isto é, as “janelas” citadas pela teórica Gaye Tuchman. “Qualquer caçador fica marcado pelo tipo de caça que pratica” (p. 80); “O homem criava a realidade ao observá-la. Antes dessa observação, o que verdadeiramente existia eram todas as situações possíveis.” (p. 96). As várias referências inter-textuais e a linguagem imagética da narrativa enriquecem a fruição literária. Marcada por um sentimento de impotência face à maldade humana, a obra encontra o seu centro na fragilidade do homem num mundo onde o normal é a dor. Bianca Faciola

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O Quarto Equívoco de Pérez-Reverte Ferido na memória, preso ao coração. Assim se deslinda aquilo que em O Pintor de Batalhas Arturo Pérez-Reverte quererá ter sugerido ser o engenho de um jornalista em pessoa. Uma personagem duplamente inquieta e inquietante. Uma figura dividida entre a percepção individual do mundo e a consciência pública consequente do seu trabalho. Um homem partido entre o ser e o ter sido, o poder e o pudera. Assusta este livro. Se as páginas da obra fossem uma pintura, a tela seria uma folha translúcida, que deixa ver tudo, e o traço das formas estaria carregado a negro de um tom dramático e horrendo. Mas como os laivos do pincel de Pérez-Reverte fundem todas as cores, a história tem uma verticalidade estimulante no desenho e nos caminhos que propõe. O Pintor de Batalhas vale tanto como romance palpitante e torrencial como ensaio sobre o Homem e o valor da Humanidade. O autor espanhol trabalha em território conhecido, entre o jornalismo e a literatura. Tudo parte de uma metáfora encoberta sob uma estória na qual invoca a ética e deontologia sem tão pouco as grafar como personagens em nenhum capítulo. Ao mesmo tempo que narra os episódios de Andrés Faulques, fotógrafo de guerra que não é capaz de fazer justiça a si próprio quando se torna pintor das batalhas, Pérez-Reverte levanta questões de natureza deontológica que assaltam sucessivamente essa personagem no decurso da acção. O autor convence-nos, então, de que aquele homem pode ser o seu alter-ego, representado na virilidade da personagem, que, tal como o autor, pisou o solo da guerra na busca de um retrato maduro da realidade transformada. Faulques tem atrás de si uma sombra permanente, que o consome num sonho acordado. Falamos de Ivo Markovic, um soldado que fotografou em Vukovar, na Croácia, e cuja repercussão pública numa capa de revista levou à morte da mulher e do filho. E, agora, “quando o pulso bate já devagar”, Faulques questiona-se sobre esta e outras fotografias que captou através do obturador em momentos de horror e caos. Arturo Pérez-reverte chama as coisas pelo nome. Quanto vale o distanciamento, o compromisso, a neutralidade perante uma realidade mais ideal do que real?; de que forma se equilibra a estética com a verdade face ao calor dos acontecimentos?; em que área de decisão nos debruçamos quando estamos dentro – ou fora – de um teatro de guerra?; como se abre a amplitude da liberdade de expressão?; ou que influência pode ter na distorção ou corrosão dos factos? Pérez-Reverte não apresenta soluções. Como simplificou Tim O’Brian, seu inspirador, de forma bem mais pragmática: “se uma história de guerra parece moral, não creditem nela”. As dúvidas remanescem página a página na mesma proporção em que, no exercício do jornalismo, se devolvem à epistemologia essas mesmas questões por responder. E, por isso, também o autor pinta batalhas e personagens feridas que terá experienciado como repórter de guerra. Nesta suposição – também ela mais idealista do que realista –, Markovic poderá ser, talvez, a representação da voz do público, que pergunta qual é realmente o seu lugar nos quadros de mil cores pintados pelos media. Com uma linguagem eminentemente poética e apaixonante, que nos leva aos caminhos da nossa História recente e ao confronto entre a Arte e o Homem, o autor espanhol brota Humanismo. As reflexões que propõe são igualmente, neste campo, de uma actualidade extrema e de um exercício desconstrutivo profundo sobre as ideias do homem-jornalista, suas causas e consequências. Em O Pintor de Batalhas emerge ainda um outro apelo, mais pessoal (mas não menos profissional no que toca ao jornalismo) incrustado na verdade das coisas. O interior da personagem principal – embora carecesse “do rasgo essencial que separa a dedicação do talento” – é o resultado de “centenas de notas e de livros, milhares de imagens”. Da experiência acumulada, do saber vivido, da procura incessante. Faulques, para se defender, usava a única arma que possuía. O conhecimento. Relativo, dizemos, na convicção de que assim cremos em muito e somos pouco. E na verdade somos. Mas, tal como o pintor de batalhas, Pérez-Reverte faz-nos acreditar que é possível. Pedro Crisóstomo

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“Fotografar a útil certeza da nossa fragilidade” O jornalismo conseguiu subverter toda a réstia de dignidade passível de existir numa morte em cenário de guerra. Mostra-a explícita. Chocante. Em primeiro plano e em primeira mão. Quanto pior, melhor. Não para informar ou para alertar, mas para vender. E porque o horror realmente vende, numa era em que os órgãos de informação lutam pelo scoop numa apoteose de sangue, violência e crime, nem sempre sinónimos de esclarecimento. A informação está cheia de falsos moralismos, onde “cada um pode escolher comodamente a parcela de horror com que decorar a sua vida e comover-se”. Excita-se a visão enquanto a consciência permanece inalterada, aninhada num qualquer sofá confortável. “Fotografias a mais”. A imagem não tem o impacto de outros tempos, já não “vale mais que mil palavras”. Já não interrompe a serenidade dos nossos dias para nos perturbar a calma. Os média obrigam-nos a ler, escutar e ver atrocidades de um mundo que parece distante, mas que é o nosso. Criam uma consciencialização colectiva sim, mas ela é apática e aparentemente imperturbável. Estamos longe no espaço, e cremos que estamos longe no tempo, de conflitos que teimam em persistir. Porém, “o caminho mais curto entre dois pontos é o do homem ao horror”. Nunca estaremos suficientemente distantes de uma guerra que vem de dentro de nós. Prova disso, é o personagem central do livro de Perez-Reverte, Faulques, um ex-fotógrafo de guerra que recorre à pintura na tentativa de alcançar algum reconforto interior. Isolado no farol de uma ilha turística, tenta passar para a tela – a velha parede da torre – o que viu e sentiu durante os trinta anos em que exerceu a profissão. Sempre com a convicção de que fotografia alguma jamais poderá mostrar a dor ou o caos subjacente ao mundo em que vivemos. O retiro de Faulques é interrompido por Markovic, um ex-combatente croata obcecado pelo trabalho do jornalista, que, involuntariamente, alterou de forma radical a sua vida, provocando consequências irreversíveis. Os dois representam todos os que foram confrontados e fustigados pela guerra ao ponto de terem partido para “lugares de onde nunca se volta”, ou de onde se volta lúcido, mas nem sempre vivo. E porque é inevitável, porque somos nós, verdadeiros e atrozes, a resignação é a derradeira anestesia quando já nada resta que permita compreender, muito menos justificar, o ódio. “A dor veio depois… Finalmente a impotência. Suponho que já nada dói”. Uma única pessoa – o jornalista - ao expor os factos a um conjunto de indivíduos heterogéneos, não pode nunca prever quantas pessoas serão afectadas, e a que ponto o serão, pelo seu trabalho. O objectivo é mostrar o mundo ao mundo, sem artifícios. Porém, num trabalho que se quer objectivo, a subjectividade é uma constante. O jornalista congrega em si o direito de escolher. Cenas, ângulos e enquadramentos de fotografias que não podem, nem devem, ser indiferentes. No entanto, há que tentar ter o heroísmo (ou a vileza) de ser frio o suficiente para olhar para a guerra sem a ver, para evitar que uma lágrima nos faça “perder a focagem da máquina. Ou que isso transpareça” Perez-Reverte revela marcas da sua experiência pessoal ao longo de toda obra - ou não tivesse também ele sido repórter de guerra – levando‑nos a indagar se Faulques não será o seu alter-ego. A história torna-se, por isso, tão mais dramática e intensa quanto percebemos os estigmas que a guerra cravou no autor. Perez-Reverte escreve: “quem lhe chamava Horror com letra maiúscula não fazia mais do que intelectualizar a simplicidade do óbvio”. Ora num livro cuja temática gira à volta deste assunto, o autor não faz mais do que expor literariamente factos e pormenores dos quais já tínhamos noção à priori, caindo, também ele, na intelectualização da “simplicidade do óbvio”. O objectivo de nos causar calafrios e de nos fazer reflectir para além das palavras do livro foi alcançado. Porém, não creio que com isso o autor tenha conseguido mudar atitudes. Fechamos o livro sabendo que assistimos, cheirámos e sentimos o abominável na primeira fila. A leitura perturbou-nos o sono? Sim, claro. Mas sabemos que continuaremos sentados – não mais nem menos revoltados do que antes – a assistir à frágil existência do ser, que insiste em provar a debilidade das normas sociais criadas. A pintura é circular: sem início ou fim. Continuaremos a existir, humanos, e a coexistir com toda a panóplia de desumanidades, tentando desesperadamente manter no bolso a moeda que nos salve a alma. Enquanto isso, eu sou apenas mais um vulto consciente, e também eu apática, deste Ocidente que acredita ter deixado a guerra lá longe, a repousar nas palavras dos livros. Adelaide Batista

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À procura do desassossego A autora, finalista de Jornalismo, passou Agosto em Londres, no curso intensivo da London School of Journalism.

Da experiência que ali viveu e da multiplicidade de trabalhos para que diariamente era solicitada resulta o texto que enviou para

os CJ. Jovens de uma dezena de países frequentaram esta acção de formação, onde apenas uma portuguesa marcou presença.

Ana Relvas França

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Crónica de Londres


O abandalho diletante dos dias de Verão foi-nos insensivelmente roubado. Não houve o abandono lânguido em esplanadas solarengas. Não houve tempo para observar o mercado de Convent Garden e encarnar a personagem do escritor solitário que observa o ziz-zag da hora de ponta pelo caleidoscópio da multiculturalidade. Da entrevista de interesse humano ao artigo extenso, de lançamentos de rádio à escrita criativa, nunca menos de 600 palavras, nunca mais de 24 horas para as entregar, a London School of Journalism oferece toda a prática que sempre nos queixamos de não ter na Universidade. A primeira coisa que o Andrew, um dos professores há mais tempo na escola, nos diz é: “Porque raio haveriam vocês de querer fazer isto do vosso Agosto?” Auto-ironia matinal britânica. Melhor que choco­ late quente. Mesmo o da Cadburys. Abrimos o horário do primeiro dia: “Radio News: 10:00 – 13:00”. Os italianos, nos seus decibéis ilegais, vociferam com medo da dicção. Afinal correu-lhes bem mas rapidamente reparo que tenho aqui amigos tão medricas como eu. No dia a seguir educados nos meandros semi-ficcionais da critica, é-nos pedido um texto sobre uma exposição de arte com mais de 10 mil peças. Ao mesmo tempo que nos assola uma renovada sensação de impotência, estamos, pela primeira vez, a ter a noção do caos de uma rotina jornalística, com as suas incertezas, prazos e constante auto-questionamento. Ou, se calhar, estamos só insuflados de ama­ dorismo e sem noção do perigo. Saltamos o almoço e apanhamos o autocarro 6 em direcção ao centro, para a Royal Academy of Arts. O conceito da Summer Exhibition é inegavelmente nobre. Podemos pendurar o nosso manifesto artístico sem um nome previamente sonante no mundo da arte. Para isso é só preciso que um júri de artistas sénior o considere merecedor de ser visto. É a maior e mais antiga (241 anos este ano) exposição do mundo a oferecer esta democrática alavanca. Ora o que é que é essencial numa crítica? Opinião e autoridade para a dar. Mesmo que essa autoridade seja aparente, como a nossa, manifestamente é. Idealmente, todos os críticos seriam versados no modernismo quando a escrever sobre Whitman mas não é o que acontece e no fundo tudo se resume à opinião e uma vinda mais do assombro do que do critério – só assim se pode avaliar as sensações de um prato indiano ou o poder de um concerto. As duas semanas seguintes foram de hard news. Dezenas de páginas de informação para reestruturar, cortar, realinhar. Foi o que eu equi­ parei a telexes consecutivos. Escrever um lead fresco para cada notícia, secundarizando ou não, conforme a importância, a informação que se tinha posto no lead anterior. Foram mais de 15 textos, sempre actualizados, sempre com objectivos e publicações-alvo diferentes. Depois foi a reportagem em tribunal e as aulas de direito da comunicação social – mais 5 textos “com muito cuidado na presunção de inocência que o caso ainda não transitou em julgado”. Depois a política internacional, a escrita criativa, a televisão, o artigo aprofundado.

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O maior ponto de interrogação do Mundo Os jornalistas giram as cadeiras quando nos vêem entrar. Sorriem de

outras verdades ditas com a ironia que dulcifica a fatalidade da situação

soslaio uns para os outros perante o nosso ar formal e olhar guloso.

ele do medo de que ninguém vá pagar por crónicas como parece ser o

Não é tão deliciosamente caótico como nas minhas indagações de

caminho que o patrão, Sr. Rupert Murdoch, quer seguir: “Encontrei

insónia recente mas é uma redacção imponente. Estamos na BBC. Um

uma jornalista amiga no parque na quarta-feira passada e ela disse ‘

arrepio trespassa a turma com mais ou menos intensidade quando um

Oh Meu Deus Giles, vão fazer as pessoas pagar, vão descobrir quão

dos ecrãs gigantes abre a edição das nove da manhã com o genérico

impopulares somos! Vamos ter que ter um site próprio e conseguir

da BBC World News. Outras seis televisões passam as notícias das

visitas suficientes via Times Online para nos considerarem rentáveis,

principais agências. Afinal esta é a estação de Edward Murrow e das

guarda o teu saquinho de adjectivos. ‘”

suas centenas de descrições do cenário de guerra feitos de Lon­

Consta que Graham Dawbarn, o

dres durante a II Guerra Mundial,

arquitecto encarregue de desenhar

dos Monty Pyton também.

uma nova BBC, por volta dos anos 50, estava completamente

A passagem do tempo imprime-se

perdido quando ao formato mais

nos corredores do enorme edifí­

apropriado à especificidade da

cio. Passamos e vemos estrelas

actividade que ali se iria realizar.

da comédia e da ficção em foto­

Ao almoço, a comer uma pizza,

grafias de cores desbotadas dos

desenhou despreocupadamente

anos 60, máquinas de escrever

um ponto de interrogação num

ao lado de portáteis, gabinetes

envelope, traduzindo a sua dúvida

de madeira a fazer lembrar os

ao papel. E assim foi construído

cenários dos primeiros filmes de

o complexo. O maior ponto de

James Bond ao lado de áreas de

interrogação do mundo.

convívio do mais actual design minimalista. Uma metáfora para

O que levo de Londres, além

o próprio Jornalismo que apesar

da colecção inteira de Dickens

das mutações vai conservando uns senhores que ainda escrevem à

a 1,99 cada livro e várias horas em pubs vitorianos de candelabros

mão. O professor que nos deu layout, Malvin Van Gelderen, recorda:

empoeirados é a magnífica e perigosa sensação que quase tudo é

“Bom isto há vinte anos eu teria uma folha áspera à minha frente,

possível. Um exemplo? Escrever peças de viagem para as revistas

um lápis mole de desenho numa mão, um cigarro na outra e uma

que oferecem quando viajamos de avião. Por enquanto é penitente

secretária ao colo a segurar o whisky”.

considerar o pior dos cenários e o pior dos cenários é, para quem cursou Jornalismo, e gosta — e isto do “gosta” é muito importante já

Último Sábado no Soho. Como é diferente uma zona nocturna por

que, felizmente, reduz os infelizes que me lêem para metade — é ter

excelência com cheiro a muffins e cappuccino em vez de cerveja e

que fazer qualquer outra coisa da vida que não Jornalismo. Qualquer

cigarros. Sento-me a ler a crónica de Giles Coren no The Times. Entre

outra coisa que seja.

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(Pรกgina deixada propositadamente em branco)


j o r n a l i s m o

é

o

p r i m e i r o

Marco Pedrosa

o

e s b o ç o

d a

h i s t ó r i a


Cadernos de Jornalismo n.° 3 e 4 2010