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CATULO os poemas da Ítaca 1

tradução do latim por André Simões e José Pedro Moreira

ÍTACA

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VIII

Miser Catulle, desinas ineptire, et quod uides perisse perditum ducas. fulsere quondam candidi tibi soles, cum uentitabas quo puella ducebat amata nobis quantum amabitur nulla. ibi illa multa cum iocosa fiebant, quae tu uolebas nec puella nolebat, fulsere uere candidi tibi soles. nunc iam illa non uult: tu quoque impotens noli, nec quae fugit sectare, nec miser uiue, sed obstinata mente perfer, obdura. uale puella, iam Catullus obdurat, nec te requiret nec rogabit inuitam. at tu dolebis, cum rogaberis nulla. scelesta, uae te, quae tibi manet uita? quis nunc te adibit? cui uideberis bella? quem nunc amabis? cuius esse diceris? quem basiabis? cui labella mordebis? at tu, Catulle, destinatus obdura.

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Pobre Catulo, põe termo a esta loucura e dá por perdido o que vês que se perdeu. Outrora luziam-te dias felizes quando ias aonde a tua menina te levava, ela que por nós foi amada como nenhuma outra será amada. Tiveram então lugar aqueles muitos prazeres que tu desejavas e que ela não negava — felizes eram esses dias que te luziam! Agora já ela não o deseja: tu, impotente, não o queiras também, nem corras atrás de quem te foge, nem vivas miserável mas com mente perseverante aguenta, resiste! Adeus, menina, já Catulo resiste: não mais te procurarei nem desejarei contra tua vontade. Mas tu sofrerás quando por ninguém fores desejada, desgraçada!, ai de ti! que vida será a tua? Quem irá agora ao teu encontro? A quem parecerás bela? Quem amarás? De quem dirás ser? A quem beijarás? A quem os lábios morderás? Mas tu, Catulo, determinado resiste.

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XXII

Sufenus iste, Vare, quem probe nosti, homo est uenustus et dicax et urbanus, idemque longe plurimos facit uersus. puto esse ego illi milia aut decem aut plura perscripta, nec sic ut fit in palimpsesto relata: cartae regiae, noui libri, noui umbilici, lora rubra membranae, derecta plumbo et pumice omnia aequata. haec cum legas tu, bellus ille et urbanus Suffenus unus caprimulgus aut fossor rursus uidetur: tantum abhorret ac mutat. hoc quid putemus esse? qui modo scurra aut si quid hac re scitius uidebatur, idem infaceto est infacetior rure, simul poemata attigit, neque idem umquam aeque est beatus ac poema cum scribit: tam gaudet in se tamque se ipse miratur. nimirum idem omnes fallimur, neque est quisquam quem non in aliqua re uidere Suffenum possis. suus cuique attributus est error; sed non uidemus manticae quod in tergo est.

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Este Sufeno, Varo, bem nosso conhecido, é um sujeito elegante e mordaz e refinado e para além disso faz imensos versos. Parece-me que por ele uns dez mil — ou mais ainda! — foram escritos, e não, como é costume, num palimpsesto os escreve: é tudo papiro do melhor, novos volumes, novos umbílicos1, capas com fita vermelha, tudo pautado com chumbo2 e com pedra-pomes polido! Mas quando tu lês aquilo, este até então delicado e refinado Sufeno um cabreiro ou escavador agora parece, de tal forma se transforma e muda. Como havemos de explicar isto? Quem elegante e do mais distinto que há parecia, agora é mais tosco do que o tosco campo, ao meter as mãos à poesia! E no entanto nunca é tão feliz como quando escreve um poema, de tal forma se regozija consigo próprio e se maravilha. Por certo todos da mesma forma nos iludimos e não há ninguém em quem nalguma coisa reconhecer um Sufeno não consigas: cada qual tem a sua própria fantasia, mas não vemos o que há no alforge nas nossas costas.

1 Os umbilici eram umas varas de madeira ou marfim em torno das quais se enrolava o volume. 2  O chumbo (plumbum) era usado, juntamente com uma régua, para marcar linhas no papiro que serviam de orientação a quem escrevia.

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XLVI

Iam uer egelidos refert tepores, iam caeli furor aequinoctialis iucundis Zephyri silescit aureis. linquantur Phrygii, Catulle, campi Nicaeaeque ager uber aestuosae: ad claras Asiae uolemus urbes. iam mens praetrepidans auet uagari, iam laeti studio pedes uigescunt. o dulces comitum ualete coetus, longe quos simul a domo profectos diuersae uarie uiae reportant.

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Já a Primavera traz ameno calor sem réstia de frio, já a sanha equinocial do céu aos sopros prazenteiros de Zéfiro cede lugar. Que fiquem para trás, Catulo, os campos da Frígia e da tórrida Niceia1 a terra fértil. Até às ilustres cidades da Ásia voemos! Já meu pensamento impaciente anseia por vaguear, já meus pés, animados com zelo, se revigoram. Ó doces reuniões de companheiros, adeus! Tendo vindo pela mesma estrada até tão longe de casa, são várias e diferentes as que restituem ao lar.

1  Cidade da Bitínia.

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LXX

Nulli se dicit mulier mea nubere malle quam mihi, non si se Iuppiter ipse petat. dicit: sed mulier cupido quod dicit amanti, in uento et rapida scribere oportet aqua.

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Com ninguém diz a minha amada que se deseja casar para além de mim, nem se o próprio Júpiter lho pedisse. Assim o diz: mas o que a mulher diz ao desejoso amante no vento e na célere água se deve escrever.

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LXXI

Si cui iure bono sacer alarum obstitit hircus, aut si quem merito tarda podagra secat. aemulus iste tuus, qui uestrem exercet amorem, mirifice est a te nactus utrumque malum. nam quotiens futuit, totiens ulciscitur ambos: illam affligit odore, ipse perit podagra.

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Se alguém foi com justiça vítima de um maldito pivete a bode nos sovacos, ou se merecidamente a entorpecedora gota alguém atormentou, esse alguém é o teu rival, que com o teu amor se exercita, e que magnificamente contraiu graças a ti ambos os males. Agora quando fode castiga os dois: mortifica-a com o pivete, ele próprio perece de gota.

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CI

Multas per gentes et multa per aequora uectus aduenio has miseras, frater, ad inferias, ut te postremo donarem munere mortis et mutam nequiquam alloquerer cinerem. quandoquidem fortuna mihi tete abstulit ipsum. heu miser indigne frater adempte mihi, nunc tamen interea haec, prisco quae more parentum tradita sunt tristi munere ad inferias, accipe fraterno multum manantia fletu, atque in perpetuum, frater, aue atque uale.

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Muitos povos e muitos mares volvidos, eu volto, irmão, para estes tristes ritos fúnebres, para te dar esta última prenda mortuária, e para em vão falar às mudas cinzas, pois que a fortuna te levou de mim, a ti, infeliz irmão, que injustamente me foste roubado! Agora isto que de acordo com o antigo costume dos antepassados te foi ofertado como sentida homenagem aos mortos aceita, humedecido com copioso choro fraterno, e para sempre, irmão, adeus e fica em paz.

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Catulo (Ítaca)  

A tradução de seis poemas de Catulo traduzidos por André Simões e José Pedro Moreira, publicada no n.1 da revista Ítaca (Março de 2010)

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