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A ANEPS apoia a difusão e discussão dos textos aqui publicados. Sempre que for necessária a reprodução total ou parcial de algum destes artigos, solicitamos que sejam citados os autores e a Revista “Saberes e Práticas: Experiências de educação popular em saúde”.

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2011 · ANEPS · www.aneps.org.br Articulação Nacional de Educação Popular em Saúde

Saberes e Práticas: Experiências de educação popular em saúde Coordenação Editorial

Ficha Técnica

• Graciela Pagliaro • Ivanilde Vieira Batista • Osvaldo Pereira Bonetti • Simone Maria Leite Batista •Tatiana Novais • Theresa Siqueira • Vanderléia Daron • Vera Dantas

• Produção Executiva: Aicó Culturas • Projeto Gráfico: Bernardo Vaz • Assessoria: Débora Del Guerra • Jornalista: Lívia Bacelete • Pesquisa dos tecidos: Bernardo Vaz, Juliana Barreto • Colaboração: Henrique Mourão, Marcy Figueiredo. • Tiragem: 5.000 exemplares

O SUS é nosso! Nínguem tira da gente! Direito garantido não se troca e não se vende! Acesse o site da campanha, informe-se e participe: http://pelasaude.blogspot.com

Parcerias • Articulação Nacional de Extensão Popular em Saúde - ANEPOP • Comunicativa - Rede de Comunicadores a Servico da Cultura e da Ética • Instituto Cultural e Educacional Paulo Freire • Grupo de Trabalho de Educação Popular e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - ABRASCO • Movimento Popular de Saúde - MOPS • Movimento de Integração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase - MORHAN • Rede de Educação Popular e Saúde - REDEPOP SAÚDE • Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC-GO • Rede de Educação Cidadã - RECID • Universidade Federal de Goiás - UFG Apoio • Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde • Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA A g ê n c ia N a c io n a l d e V ig ilâ n c ia S a n itá ria

Agradecemos às mulheres que cederam os tecidos que ornamentam esta revista, alguns feitos por suas próprias mãos, outros, lembranças de família que guardam com todo carinho: Ana Maria Amaral Vaz, Hozana Reis Passos, Juliana Barreto. O tear retratado na página 3 é do acervo da Fundação Cultural Calmon Barreto, e fica no prédio da antiga estação ferroviária de Araxá, MG. A foto da página 40 mostra detalhes da “Vaca Fuxiqueira” de Joubert Cândido e está exposta no Museu de Artes e Ofícios (MAO) de Belo Horizonte, MG.

Abaixo-assinado

Assine e divulgue!


"Vai ter papo de caboco, conversa de doutorada, riso canto e balada, repente feito de rima, receitas de medicina e remédio popular" Junior Santos

Histórico da aneps

Formação

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Práticas de cuidado

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Comunicação

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Experiências que brotam, germinam e florescem no cotidiano da saúde

Saber e poder popular no cuidado à saúde

Inter-relações entre comunicação, educação popular e cultura

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Práticas populares, integrativas e complementares no SUS.

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Web Rádio AJIR: interação, diálogo e movimento

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Bioenergética: organização e educação popular para a qualidade de vida

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Ponto de Cultura e Saúde: um encontro de muitas possibilidades

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Parintins tecendo cuidados em saúde

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Religiões afro-brasileiras: direitos e promoção da saúde

Para pensar o que se fala(va): sobre o Podcast Diálogos de Educação Popular e Saúde

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Zefa da Guia: parteira e rezadeira do sertão

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Extensão popular em fitoterapia: realidade em Sergipe

A educação popular na formação do agente comunitário de saúde

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Direito à saúde e participação popular em Goiás

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Espaço Ekobé e a rede de formação solidária


Editorial A construção desta revista é parte de um projeto de comunicação e formação que fortalece a educação popular em saúde. O incentivo e o apoio da Secretaria de Gestão Estratégica Participativa/MS/OPAS possibilitou nosso desejo. Nossos fazeres se expressam pelo Brasil a fora, por isso não foi fácil eleger as experiências que vamos apresentar. A revista está organizada em três eixos temáticos: Formação, Práticas de Cuidados e Comunicação. A memória do nascimento da ANEPS conta nossa história e caminhos trilhados desde 2003. Oferecemos experiências de formação dialógicas, de saberes culturais e cenários de práticas, em que atuam diversos atores, viabilizando o ato político de ensinar e aprender. Juntas, elas consideram as perspectivas de mudanças necessárias e garantias para o fortalecimento do SUS. O eixo da Comunicação nos traz experiências inéditas como o Podcast, uma ferramenta on-line criada pela Rede de Educação Popular, que também pode ser transmitida pelas ondas tradicionais do rádio. Outra ferramenta é a web rádio. Hoje, essa emissora on-line pertence a uma associação de jovens de Irajá, município de Hidrolândia, Ceará, vinculada ao Laboratório de Práticas Coletivas em Saúde. Outra experiência exitosa vem de um ponto de cultura, que, em 2008, lança sua política cultural. Nele, já se realizavam ações em saúde vinculadas às práticas culturais inseridas em quatro serviços do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. No eixo das Práticas de Cuidados, grupos de diversos estados e regiões do Brasil relatam suas práticas tradicionais e culturais. As histórias do Consertador de Desmintiduras e a Costuradora de Rasgaduras nos narram as práticas tradicionais vindas de Parintins, Amazonas. De Sergipe, temos Dona Zefa da Guia, parteira e rezadeira. Já fez mais de 5.000 partos, ofício iniciado desde os seus 11 anos. Os estudantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do Movimento das Mulheres Camponesas afirmam que cuidar da vida é cuidar da condição do ser humano e é preciso garantir a autonomia das comunidades, problematizar seus benefícios e institucionalizá-las no SUS. Já as religiões de matriz africana preservam as representações culturais e religiosas sobre a saúde e a doença, destacando como parte destes saberes o modelo de saúde vivenciado nos terreiros. Temos também a Bioenergética, técnica aplicada para avaliar o estado energético das pessoas, podendo, assim, orientá-las em relação aos cuidados que devem ter e manter para recuperar a saúde. Com muito prazer apresentamos esta revista e anunciamos que também está sendo gestado um DVD com registro de imagens do III Encontro Nacional da ANEPS e o site www.aneps.org. Ivanilde V. Batista, Núcleo de Formação


Tecendo a rede A Articulação Nacional de Movimentos e Práticas Educação Popular em Saúde – ANEPS, nasce durante o VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, realizado em Brasília, em 2003. Desde o começo da organização institucional do Governo Lula, em articulação com o Ministério da Saúde, esta proposta abriu espaço para reflexões urgentes e importantes sobre a construção de uma política nacional de educação popular em saúde, como estratégia de efetivação de uma democracia participativa que garanta o direito à saúde e fortalecimento da participação popular no SUS e o respeito aos diversos saberes e fazeres. Para viabilizar essa iniciativa aconteceram várias ações políticas, como os encontros estaduais, o que possibilitou identificar diversos movimentos e práticas existentes e atuantes nos estados. O propósito era promover encontros, reafirmar a importância do momento, falar sobre a ANEPS e sua abordagem dialógica. A proposta teve como objetivo suscitar o debate, visando o fortalecimento desta articulação com os movimentos sociais e populares locais, estaduais e nacionais, o apoio e o fortalecimento das práticas de educação popular em saúde e o desenvolvimento de processos formativos e reflexivos, como estratégias da construção de referências para a formulação e consolidação do SUS e seus princípios.

Na constituição da ANEPS estavam presentes as seguintes organizações e movimentos sociais:

— Rede de Educação Popular e Saúde (REDE POP SAÚDE); — Movimento de Reintegração dos Atingidos pela Hanseníase (MORHAN); — Movimento Popular de Saúde (MOPS); — Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) — Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). — Direção Nacional Executiva dos Estudantes de Medicina (DENEM); — Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA)

Histórico

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O Caminho das Águas Em dezembro de 2003 foi realizado o I Encontro Nacional da ANEPS, na capital do país, com o tema “O Caminho das Águas”. Ele acolheu participantes vindos dos mais longínquos lugares, trazendo diversidades de culturas e saberes. Um encontro de singularidades, índios, parteiras, benzendeiras, raizeiras, povo do sertão, da floresta, do cerrado, da caatinga, profissionais de saúde, professores e pesquisadores, gente de sabedoria, que puderam misturar suas histórias e socializar seus saberes diferentes, como diria Paulo Freire. Conhecer, trocar experiências, fortalecer e se organizar em grupos. Estes desejos e sentimentos, comuns à maioria das pessoas, inquietaram àquelas que trabalhavam com a Educação Popular em saúde. Sabíamos que éramos muitos, mas quantos? Supunha-se ser grande a diversidade e riqueza de experiências. Seria real? Onde eram desenvolvidas as atividades de Educação Popular em saúde? Com apoio de quem? Com que dificuldades? Que tipos de apoio precisavam? Teriam resultados concretos de seus trabalhos a serem apresentados? Destes questionamentos surgiu uma pesquisa, financiada pelo Ministério da Saúde, com o objetivo principal de conhecer a amplitude e a diversidade de experiências organizadas em movimentos e práticas de educação popular em saúde no país.

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Histórico: tecendo a rede

Realizada em 2003, durante os encontros estaduais, foram coletados dados para um levantamento e sistematização das experiências desenvolvidas pelos movimentos e práticas de educação popular em saúde. O levantamento se deu através de um questionário com perguntas fechadas orientado pelos seguintes tópicos: A. Perfil, características e funcionamento; B. Participação social e política ; C. Práticas educativas desenvolvidas; D. Questões mais relevantes e principais experiências acumuladas. Trechos da sistematização do I Encontro, em poesia... O encontro inicia no parto Das mulheres do Maranhão Ceará fez poesia em comunhão Assim foi nosso primeiro ato A criança nasce de fato Nas dezenas de Anunciação Feita com ariar e emoção Por todos que estavam presentes Na mistura da rima e do repente Na poesia, no choro, na canção. (...) Com prazer, com garra e com brio Cada um seguiu sua direção Na base foi feita discussão Cada braço mostrando seu achado Discutindo o que foi perguntado Propondo resposta e solução. (...) (Junio Santos, Cervantes do Brasil)

Foram mapeadas 783 práticas de educação popular com uma concentração particular em movimentos sociais, organizações não governamentais, práticas educativas no SUS e universidades. As experiências mapeadas, como fio condutor e características que as unem, se contrapõem ao autoritarismo vigente na cultura sanitária e no modo tradicional de definir técnica e politicamente às intervenções na área da saúde. Além disso, se orientam por modos


alternativos e bastante diferenciados de lutar pela transformação das relações de subordinação e de opressão, em favor da autonomia, da participação das pessoas e da interlocução entre os saberes e práticas de saúde. Foi importante saber que 43,5% dos pesquisados atuavam há mais de 10 anos na área, revelando a história destas práticas a partir dos anos 90. O reconhecimento do valor dos movimentos populares e suas lutas locais foram fundamentais no pro-

cesso de construção do SUS, mas com a desconstrução da participação social para controle social, esses movimentos foram alijados do processo participativo no dia-a-dia do SUS. A ANEPS, durante sua existência, vem articulando, buscando visibilidade e apoiando o enfrentamento desses problemas locais junto às práticas populares e comunitárias. São movimentos fortes, singulares, continuam vivos e atuantes, fazendo suas lutas cotidianas. Embora alguns participem de conselhos locais de saúde, estes não encontram espaços significativos nos conselhos e conferências municipais, estaduais e nacional de saúde. No IV Fórum Nacional de Educação Popular em Saúde e II Seminário Nacional de Educação Popular em saúde, realizados pela UnB com a colaboração da Rede de Educação Popular em Saúde e ANEPS, em Brasília, de 11 a 14 de dezembro de 2005, os núcleos estaduais presentes realizaram uma avaliação da caminhada desde 2003. Nesta avaliação evidenciou-se os eixos de atuação que ganharam força e expressão, tais como a formação pautada pelos pressupostos da educação popular, o estabelecimento de parcerias com as universidades, movimentos populares e estudantil, secretarias estaduais e municipais e integração às lutas pela saúde e pela defesa do Sistema Único de Saúde (SUS).

Por onde andam nossas trilhas Em dezembro de 2006, em Aracaju, foi realizado o segundo Encontro Nacional com o tema “A Educação Popular e o fortalecimento do SUS: por onde andam as nossas trilhas”, com a participação de mais de 600 pessoas, quando foi discutida a importância da ANEPS e sua estruturação em nível nacional. Deste encontro, veio a Carta de Aracaju. Nesta estratégia política de encaminhamento das demandas dos participantes se afirmava a urgência da formulação de uma Política Nacional de Educação Popular em Saúde, que potencializasse a mobilização social pela garantia do direito à saúde, fortalecesse a participação popular e o controle social, garantisse a valorização das práticas e saberes populares, ressignificasse e reorientasse as ações e relações educativas no SUS. Um outro marco na história da ANEPS foi a realização do seu I Seminário Nacional, em Fortaleza, no período de 31 de julho a 03 de agosto de 2008, durante o IV ENEPS, com a participação de 15 estados. Este momento possibilitou a participação efetiva de vários movimentos integrantes da ANEPS Ceará, bem como de outros estados do nordeste, sendo um processo de fortalecimento político para cada local. O diálogo institucional da Educação Popular com a Secretaria de Gestão Estratégica Participativa/MS possibilitou a interlocução ampliada com outros importantes setores

Histórico: tecendo a rede

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das políticas, como as Práticas Integrativas, Atenção Primária, HumanizaSUS, Ouvidoria, Vigilância em Saúde, através do Projeto Vidas Paralelas – Saúde do Trabalhador, além das experiências de participação junto à Ouvidoria da ANVISA, a partir de 2004, com o projeto VisaMobiliza. Também aconteceram outras articulações importantes em nível dos governos, com a Recid (Rede de Educação Cidadã), que muito tem contribuído ao fortalecimento da nossa formação político-metodológica, o que possibilitou o encontro com movimentos populares que pautam outras lutas no campo e na cidade. O diálogo também se deu com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), no sentido de identificar atores dos saberes e das práticas populares de saúde dos grupos sociais locais nos territórios de atuação destas instituições.

Nestes espaços, reafirmamos que os movimentos e práticas envolvidos na luta pelo direito à saúde, sujeitos das práticas populares e tradicionais, possuem saberes importantes, ricas vivências, capazes de contribuir para o fortalecimento do SUS na atenção básica, na vigilância em saúde, educação permanente, formação e na gestão, enquanto controle social. A ANEPS, em um processo político contínuo de debates, encontros, rodas de conversas, articulação e mobilização social, formula a proposta do Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde (CNEPS)1. O Comitê tem o objetivo de contribuir para o fortalecimento da luta pelo direito à saúde em defesa do SUS, por meio da participação popular, identificando, divulgando e promovendo novos canais de participação popular e controle social. Atua em colaboração com diversos conselhos e conferências e é o espaço interinstitucional onde se desenha a PNEPS - Política Nacional de Educação Popular em Saúde, que deverá encaminhar em breve, para as instâncias competentes, caminhos para sua aprovação como política de Estado. 1

Instituído pelo Ministério da Saúde, Portaria/GM nº 1.256, de 17 de junho de 2009, o Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde.

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Histórico: tecendo a rede

Projeto Popular para o Brasil No período de 28 de junho a 1 de julho de 2010, aconteceu o III Encontro Nacional da ANEPS, em Goiânia. Realizado no campus da UFG, teve a participação de 18 estados, com 825 participantes, e o tema “Projeto Popular para o Brasil e seus Desafios: saúde como direito”. As discussões ocorridas neste Encontro reafirmaram a continuidade da luta pela consolidação do direito à saúde, pelo fortalecimento do controle social e do Comitê de Educação Popular e Saúde. Discutiram-se também estratégias políticas de formação, comunicação e mobilização, a serem operacionalizadas em estreita articulação com grupos e atores sociais, integrantes de movimentos e práticas, e em espaços importantes, como as instituições de ensino e os serviços de saúde. Como desdobramento das deliberações do III Encontro, realizou-se em Brasília, no período de 25 a 27 de Abril de 2011, o II Seminário Nacional da ANEPS, com a participação de 20 estados e do Distrito Federal e 65 pessoas integrantes de diversos grupos sociais e instituições governamentais. Este momento possibilitou o debate político sobre os temas geradores/potencializadores, metodologias de comunicação, formação, mobilização e articulação, trazendo as devidas reflexões sobre as potencialidades de cada local e suas experiências. Foi o momento de integrar as propostas de ação formativa e, assim, passo a passo, potencializar até conseguir alcançar as cinco regiões brasileiras. Esta proposta de formação está sendo articulada entre os 4 coletivos de Educação Popular (ANEPS, REDE


POP SAÚDE, ANEPOP e GT de EPS da ABRASCO)2 e construída coletivamente. Ela tem como eixo norteador a potencialização de uma leitura crítica da realidade, o intercâmbio de experiências de formação e sistematização e vislumbra ampliar os espaços de diálogo com os movimentos populares, sindical, estudantil, conselhos, gestores públicos, trabalhadores do SUS e as instituições de ensino, através de suas experiências de extensão, graduação e pós graduação, também buscando experiências vivas da América Latina. A proposta de formação retoma a importância de reconhecer o direito à saúde, os territórios em sua diversidade, valorizando os saberes nos diferentes contextos da vida e os desafios para vivenciar os direitos sociais e, assim, construir as possibilidades para a implantação e fortalecimento da PNEPS no território nacional. O desenho esboçado na proposta traz princípios de formação e avaliação para e na saúde, que possibilitam promover novas relações sociais e culturais, ser integral, criativa e libertária; um jeito que realmente altere as formas e modos de ver e sentir; que amplie os olhares sobre o mundo e a vida. Enfim, o desenho de um Projeto Popular para o Brasil e seus desafios: saúde como direito. 

Referências I Encontro Nacional da ANEPS, 2003 II Encontro Nacional da ANEPS, 2006 III Encontro Nacional da ANEPS, 2010 I Seminário Nacional da ANEPS, 2008 Projeto de Comunicação da ANEPS, 2005 II Seminário Nacional da ANEPS, 2011 Carta de Aracaju, 2006 Pesquisa “Perfil dos Movimentos e Práticas em Educação Popular em Saúde no Brasil, 2003”. Graciela Pagliaro Ivanilde Vieira Batista Simone Maria Leite Batista 2

ANEPS – Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde; REDPOPSAÚDE – Rede de Educação Popular em Saúde; ANEPOP – Articulação Nacional de Extensão Popular; GT EPS ABRASCO – Grupo de Trabalho de Educação Popular da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Histórico: tecendo a rede

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Formação: saúde como prática de liberdade

Experiências que brotam, germinam e florescem no cotidiano da saúde

 Pensar processos educativos, partindo da perspectiva da educação popular, remete a uma proposta pedagógica de caráter radicalmente democrático e libertador, que rompe com a fragmentação e requer uma tomada de posição perante os problemas vivenciados em determinado contexto. Para Paulo Freire, essa concepção promove a horizontalidade na relação educador-educando, a valorização das culturas locais, da oralidade, contrapondo-se, com seu caráter humanístico à visão elitista de educação. Neste contexto, propõe uma práxis pedagógica que se compromete com a emancipação de homens e mulheres e com a construção de uma sociedade justa, democrática e solidária. A ANEPS, como espaço de articulação entre saberes, práticas e movimentos, propõe a construção de diálogos entre formação e experiência. Neste sentido, as experiências que constrói e referencia, enquanto prática pedagógica, potencializam o alargamento da visão de formação ao considerar o saber de experiência feito, edificado nos movimentos populares, como elemento fundamental na produção e socialização dos saberes em saúde. Ultrapassando, assim, a descontextualização dos conteúdos, a distância entre teoria e prática e constituindo diálogos entre os saberes disciplinares da universidade, aqueles desenvolvidos na prática profissional, e os gestados a partir das experiências de movimentos populares. Pensar processos formativos partindo da leitura coletiva de situações limite, conferindo aos sujeitos coletivos populares voz e espaço de ação – reflexão – ação transformadora, ou seja, a práxis continuada, tem possibilitado formular, junto às práticas cotidianas, um pensamento sobre formação, que comporta a perspectiva popular na luta pelo direito à saúde. Ao mesmo tempo, esses diálogos entre o acadêmico e o popular podem fertilizar o espaço acadêmico, produzindo novos valores e conexões, e realizar movimentos em direção ao universo popular, acolhendo-o.

Formação

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A prática pedagógica, que se depreende dessas experiências, propõe a convivência ativa de saberes científicos e populares e chama à dimensão da integralidade, incluindo dimensões como a subjetividade e a espiritualidade.

foto: BernardoVaz

Esta possibilidade parece ser algo próximo do que Milton Santos nomeia como tradução intercultural: “práticas que promovem uma nova convivência activa de saberes no pressuposto que todos eles, incluindo o saber científico, se podem enriquecer nesse diálogo”, evidenciando que ao ensinar se aprende e na medida em que vai se aprendendo também se ensina.

Assim é que foram vários os percursos formativos que se estruturaram a partir dessa interface da educação popular como norteadora das propostas pedagógicas e do protagonismo dos movimentos sociais que fazem a ANEPS, e a consideram um devir. As experiências de formação que se seguem refletem a potência dessa proposta pedagógica em sua diversidade de possibilidades metodológicas, de cenários e de atores, nas quais é possível perceber princípios, valores comuns, tais como o diálogo, o reconhecimento do saber do outro, a reflexão crítica sobre a realidade, o protagonismo dos atores populares, o fortalecimento da autonomia e do trabalho coletivo.

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Formação: saúde como prática de liberdade

Os cenários que se desenrolam vão revelando as interfaces entre campos como cultura, cuidado em saúde, formação, na perspectiva de considerar as necessidades e demandas da população e integrá-las aos currículos universitários, de cursos técnicos, em  processos de educação permanentes desenvolvidos nos serviços de saúde e práxis dos movimentos populares. Os caminhos trilhados revelam possibilidades de sustentabilidade dos processos pautados no trabalho coletivo e em rede, assim como na inclusão de práticas populares de cuidado, de economia solidária e de arte, como potências reveladoras das dimensões do viver humano. O que fortalece o caráter político do agir individual e coletivo promotor de sujeitos transformadores da sociedade, das relações humanas e das relações dos seres humanos com as outras formas de vida no planeta.  Vera Lúcia de Azevedo Dantas Vanderléia Daron José Ivo Pedrosa


foto: BernardoVaz

Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes. (Paulo Freire) Introdução

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A educação popular na formação do agente comunitário de saúde Vera Joana Bornstein Mariana Lima Nogueira

Hoje em dia, o agente comunitário de saúde é um importante componente da equipe de Saúde da Família, entendida como a principal estratégia de reorientação da Atenção Básica no Brasil. O sentido da reorientação proposta busca passar de um modelo de atenção centrado na doença, para um modelo em que a centralidade seja a prevenção de doenças e a promoção da saúde. Seu foco principal é a família e o território e o trabalho deve ser conduzido por uma equipe multiprofissional, da qual se espera a criação de um vínculo com a população.

Em março de 2011, segundo o Ministério da Saúde, existiam 246.076 agentes de saúde trabalhando em 5.375 municípios do país (BRASIL, 2011).

* Ficou conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal a Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000. Dentre outras coisas, determina que a despesa total com pessoal não poderá ser maior do que 50% da receita corrente líquida da União e 60% dos estados e municípios, a cada ano.

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De uma forma geral, a formação profissional do agente comunitário tem sido realizada em serviço, sob a denominação de curso introdutório ou ambientação, visando, principalmente, a instrumentalização para a prática. Morosini et al. ressaltam a redução de seu conteúdo às necessidades mais imediatas do serviço e apontam características como a diversidade de propostas de formação, e a falta de regulamentação do trabalho. Em 2004, o Ministério da Educação, em conjunto com o Ministério da Saúde, aprovou o Referencial Curricular para Curso Técnico de Agente Comunitário de Saúde, com um itinerário formativo de 1.200 horas distribuídas em três etapas. Esta proposta parte do reconhecimento da importância deste trabalhador no contexto de mudança do modelo de atenção e do papel social do agente junto à população (BRASIL, 2004). Até o momento, tem sido difícil garantir esta formação em nível nacional. Uma das argumentações contrária à oferta do curso técnico fundamenta-se na Lei de Responsabilidade Fiscal*, já que estes trabalhadores, ao se tornarem técnicos, poderiam reivindicar um aumento dos salários. Na maioria dos estados, parte dos agentes realizou apenas a primeira etapa. Algumas das exceções são os estados do Tocantins e do Acre, onde o curso foi finalizado em suas três etapas e uma turma, desenvolvida pela Escola

Formação: saúde como prática de liberdade


dade e o principal foco do trabalho educativo eram os conteúdos vinculados à prevenção de doenças abordadas pelos programas do Ministério da Saúde. A principal conotação deste trabalho está permeada pelo convencimento da população em relação às orientações fornecidas pelo serviço. Foi também mencionado o trabalho educativo não programado, feito pelo agente de saúde na comunidade como um espaço potencial de trabalho educativo, menos sujeito às normas do trabalho prescrito. Na formação técnica realizada na EPSJV, a educação em saúde ocupa um lugar central e está presente em suas três etapas de formação. O enfoque privilegiado é o da educação popular em saúde e o trabalho de conclusão de curso dos alunos é a construção de um plano de trabalho de educação em saúde. Consideramos que o trabalho educativo realizado pelo agente de saúde e por todos os demais profissionais da equipe pode ser de grande importância para a mudança do modelo de atenção,

na medida em que possibilite a expressão das necessidades e demandas da população, fortaleça sua autonomia, sua organização e sua participação na consolidação do sistema de saúde.  Bibliografia: BORNSTEIN, V.J.; MATTA, G.C.; DAVID, H. O processo de trabalho do agente comunitário de saúde e sua incidência sobre a mudança do modelo de atenção em saúde. In: MONKEN, M. & DANTAS, A.V. (Orgs). Estudos de Politecnia e Saúde, v.4, p. 191-219. Rio de Janeiro: EPSJV, 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Educação. Referencial curricular para curso técnico de agentes comunitários de saúde: área profissional saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2004. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 648, de 28 de Março de 2006. Diário Oficial da União, Brasília, DF, nº 61, de 29 de março de 2006, Seção 1, p. 71, 2006. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Atenção Básica. Consulta realizada em 21/05/2011, disponível em HYPERLINK “http://dab.saude.gov.br/abnumeros.php” MOROSINI MV, CORBO AD’A, GUIMARÃES CC. O agente comunitário de saúde no âmbito das políticas voltadas para a atenção básica: concepções do trabalho e da formação profissional. Trabalho, educação e saúde 2007, 5(2):261-280.

A Educação Popular na formação do agente comunitário de saúde

foto: BernardoVaz

Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), concluíram seus estudos em julho de 2011. Com este projeto-piloto, a EPSJV pretende contribuir para o debate em torno da necessidade de qualificação técnica dos agentes comunitários de saúde e subsidiar sua luta por melhores condições de formação e trabalho. De acordo com a Portaria nº 648 (BRASIL, 2006), as atividades educativas individuais e coletivas, nos domicílios e na comunidade, estão entre as atribuições específicas dos agentes. A dimensão educativa assume uma centralidade no trabalho do agente comunitário, sobretudo ao considerar o foco na promoção da saúde e também na prevenção de agravos. No entanto, em artigo publicado por Bornstein, Matta e David (2009) procurou-se diferenciar as formas de condução do trabalho educativo presentes no processo de trabalho de agentes de saúde. Foi categorizada uma primeira forma de condução, cujo aspecto primordial era o de convencimento da população por parte do profissional de saúde, que se julga detentor de um saber. Outra forma foi fundamentada no diálogo, no reconhecimento do saber do outro, na reflexão crítica sobre a realidade, no fortalecimento da autonomia e do trabalho coletivo. De uma maneira geral, chegou-se à conclusão, por meio desta pesquisa, que as equipes de saúde estavam desenvolvendo poucas atividades educativas na comuni-

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Direito à saúde e participação popular em Goiás Ivanilde Vieira Batista Marla Borges Larissa Arbues Tatiana Novais Charles Brito

Na caminhada pelo Direito à Saúde em Goiás, é memorável a participação histórica do Movimento do “Meio Grito”, que tem como símbolo a Lamparina (capa do livro pesquisa participante do Carlos Brandão, que conta um pouco de sua história) e do Movimento Popular de Saúde de Goiás (MOPS-Go), na década de 70 e 80. Assim, guiados pela luz da Lamparina da Educação Popular com o nascimento da ANEPS, em 2003, vários encontros aconteceram permeados por diversas formas de linguagens, jeitos, mística, arte, cirandas, sabores e saberes.

Estes diálogos trouxeram para roda os saberes populares, movimentos sociais, conselhos, sindicatos e instituições de ensino na perspectiva de todos serem usuários, protagonistas e construtores do SUS. Tecendo e construindo espaços coletivos, de fala e escutas compartilhadas e, assim, ressignificando o cotidiano do trabalho e das lutas.   Nessa caminhada, agregaram-se outros protagonistas com o envolvimento da Residência em Saúde da Família, da Faculdade de Enfermagem UFG, desde 2003, na organização do I Encontro Estadual de Educação Popular em Saúde e I Conferência Temática de Educação Popular em Saúde. Também no VER-SUS, com o destaque da participação estudantil no protagonismo do “Espaço Saúde – GO”, trazendo a metodologia da educação popular para a discussão da política e da complexidade do SUS. Ainda em 2003, a ANEPS-GO se instala em um espaço dentro do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, da Universidade Federal de Goiás. A Faculdade de Odontologia veio em 2005, com o fervor do Pólo Macro Goiânia de Educação Permanente em Saúde e do curso de facilitadores de educação permanente. Vale registrar que, nesse momento em que a Prefeitura de Goiânia vivia a experiência gestão participativa, a Secretaria de Municipal de Saúde coordenava o Pólo Macro Goiânia de Educação Permanente em Saúde. Este agregava diversos municípios que integravam a Primeira Regional de Saúde, favorecendo o diálogo democrático e acolhendo os municípios próximos a Goiânia.

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Formação: saúde como prática de liberdade


nasce o projeto Café Com Ideias, 2007/2008, que tem como pauta a Diversidade e a Equidade no SUS Parceria entre a Educação Popular e a Universidade. O que ainda não se constitui em uma vivência fora dos muros da Universidade, mas teve grande importância em dialogar e dar visibilidade a assuntos áridos, como o Direto à Saúde da População Indígena e Negra, GLTB e Saúde Mental. Temas regados pelos princípios da integralidade e da equidade. A participação de diversos movimentos populares sensibiliza professores e estudantes. Experimentar o diálogo sobre lacunas e temas geradores, insere a dignidade do cuidado humanizado com saberes e práticas populares democráticas no campo da saúde. As atividades do projeto Café com Ideias possibilitou o encontro com a diversidade, que integra a luta pela saúde à necessi-

dade de se reconhecer as linguagens e metodologias, problematizando e provocando um novo jeito de se observar o mundo e as representações de situação existencial. Muitos dos integrantes da grande roda, tocados pela experiência da educação popular, hoje, procuram mudar suas práticas em seus locais de trabalho. Trabalhadores da saúde já sensíveis à educação popular e despertados para a consciência de que seu trabalho é um instrumento de transformação social. Cientes e abertos ao debate político e amoroso para contribuir com a superação das desigualdades e vulnerabilidades, utilizam concepções da educação popular como instrumento mediador. 

foto: BernardoVaz

Essa experiência trouxe visibilidade à ANEPS e a vários Movimentos Populares, para além dos Conselhos de Saúde, e contribuiu para a realização, em 2005, do II Encontro Estadual de Educação Popular e Saúde. Caminhos construídos com laços fortes que se consolidam com a realização do III Encontro Nacional da ANEPS, em 2010, com a contribuição efetiva da UFG e da PUC GO. No intercâmbio de experiências com outros estados, a exemplo dos projetos de vivências e extensão popular da Paraíba, veio a demanda de se discutir uma extensão popular dentro da Universidade. Fortalecendo os laços institucionais, consolida-se a parceria entre ANEPS e as Faculdades de Odontologia e Enfermagem da UFG. Com o protagonismo dos estudantes oriundos do VERSUS,

Direito à saúde e participação popular em Goiás

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Espaço Ekobé e a rede de formação solidária

Vera Lúcia de Azevedo Dantas Maria Rocineide Ferreira da Silva Elizabeth Vieira da Silva Antônio Edvan Florêncio

O Espaço Ekobé, que em tupi guarani significa vida, foi estruturado durante a 57ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em julho de 2005, em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (UECE) e a Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, como forma de estabelecer diálogos entre os saberes disciplinares da universidade, aqueles desenvolvidos na prática profissional e os gestados a partir das experiências de movimentos populares. Desde então, os atores e atrizes dos movimentos e práticas populares de saúde de Fortaleza e região metropolitana gerem coletivamente o espaço e, ancorados nas farinhadas culturais realizadas nos espaços de atuação dos movimentos, foram propondo ações culturais, de cuidado em saúde e de formação.

As práticas populares de cuidado existentes no contexto dos movimentos populares de Fortaleza têm representado a principal singularidade dos processos educativos do Espaço Ekobé que é composto por um coletivo de educadores que mantém um calendário de práticas e uma rede de formação solidária disponibilizadas a estudantes, trabalhadores e pessoas das comunidades. Essas ações desencadearam movimentos de aproximação com os conteúdos temáticos de algumas disciplinas integrantes dos cursos da área da saúde na graduação e pós-graduação, bem como com os processos de educação permanente desenvolvidos nos serviços de saúde, no sistema municipal de saúde escola de Fortaleza e nos movimentos populares. Realizando assim uma espécie de extensão comunitária como foi nomeada pelo poeta Elias José da Silva, ou “ecologia de saberes” no dizer de Boaventura Santos. As práticas populares de cuidado presentes no Ekobé estão centradas na saúde e não na doença, o que possibilita maior interação e compreensão das situações de crise vivenciadas pelas pessoas e apoio para as mudanças e aprendizados advindos dessa experiência do adoecimento, contribuindo assim para a “desmedicalização”. Sua potência na formulação de projetos terapêuticos singulares está no fato de trazerem experiências e contribuições das culturas locais, em sua riqueza e diversidade, chaman-

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Formação: saúde como prática de liberdade


residentes e preceptores de Medicina de família e comunidade, estudantes da graduação da UECE e Universidade de Fortaleza (UNIFOR), trabalhadores da rede básica de saúde e de hospitais municipais, e atores de diversos movimentos populares de Fortaleza. Esse processo tem se mantido e ampliado, especialmente no que diz respeito à terapia Reiki, constituindo uma rede de mestres, o que possibilitou a formação de aproximadamente 80 reikianos da rede municipal de saúde em Fortaleza e a inclusão do Reiki em trinta e duas unidades básicas de saúde, quatorze CAPS e dois hospitais municipais. Dessa forma o Ekobé tem possibilitado a produção de práticas que promovem uma convivência ativa

de saberes, incluindo o saber científico, que se enriquecem no diálogo, chamando a dimensão da integralidade que vê os sujeitos em sua inteireza, com a sua subjetividade, espiritualidade, entre outras das diversas dimensões do viver humano. A interface com a UECE possibilita a interação dos vários movimentos e destes com as universidades e a produção de novos conhecimentos sob o protagonismo popular.  FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2000. (Coleção Leitura). SANTOS, B. S. A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. Educação, Sociedade & Culturas, n. 23, p. 137-202, 2005.

foto: Arquivo Ekobé

do a dimensão da integralidade tão realçada pela experiência popular, que vê os sujeitos em sua inteireza. O reconhecimento dos atores e atrizes populares como educadores, cuja atuação está norteada pela educação popular, parece funcionar como uma espécie de força motriz capaz de promover ação solidária entre educadores e educandos despertando sua potência de ser-no-mundo, como sujeitos que se fazem com os outros e nessa edificação engendram possibilidades e não determinismos (FREIRE, 2000). No ano de 2007, foram realizados 14 processos formativos, facilitados predominantemente por atores populares e que envolveram aproximadamente 350 participantes, entre os quais podemos citar:

Espaço Ekobé e a rede de formação solidária

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Práticas populares de cuidado

Saber e poder popular no cuidado à saúde   Vivemos num mundo em que as fronteiras entre o público e o privado, o individual e o coletivo, assim como aquelas entre o saber acadêmico e popular tendem a ficar bastante atenuadas ou mesmo a desaparecer. O presente texto se debruça sobre o saber popular e, de modo específico, o saber relacionado às praticas do cuidado com a saúde, chamadas práticas populares e integrativas do cuidado. Elas estão disseminadas por todo o país e são levadas à frente por pessoas que entenderam que tais práticas podem contribuir para instaurar outras novas, relacionadas ao cuidado. Podem também contrapor às praticas sociais relacionadas ao consumo, em uma sociedade que respira o consumismo e está, a todo o momento, sendo empurrada para comprar mais e mais medicamentos, crendo que, com isso, conquistará uma vida mais saudável. O que se denomina por práticas do cuidado são as ações desenvolvidas pelos grupos populares ou locais, as quais persistiram à margem do sistema oficial, atuando junto aos problemas de saúde, entendida aqui como o bem estar do corpo e da alma. Tais práticas vão desde um benzimento, até uma intervenção

para reparar danos físicos, especialmente nas áreas ou regiões em que o serviço de saúde oferecido pelo Estado esteve ausente. As práticas do cuidado estão relacionadas ao chamado saber local. Saber este que vem de um conhecimento passado de geração a geração, por meio da oralidade e lança mão dos recursos que o ambiente circundante oferece para auxiliar nas atividades de cura. Assim, os detentores deste saber, geralmente, trabalham com conhecimentos relacionados aos fitoterápicos, assim como outros recursos, oferecidos pela realidade em que vivem. Folhas, flores, cascas e raízes de plantas usadas e experimentadas com êxito pelas pessoas, bem como argila ou o barro para o tratamento e cuidado com a beleza e o corpo. Há também as experiências da homeopatia popular, acupuntura, florais, cuidados com a saúde exercidos nos terreiros afrodescendentes, práticas de cuidados indígenas. Enfim, nosso Brasil tem vários modos de cuidar da sua gente. A ANEPS tem como um de seus objetivos o fortalecimento e a visibilidade destas práticas, contribuindo para que elas, de fato, possam trocar conhecimentos e saberes e passem a integrar, juntamente com

as práticas formais ou geradas no âmbito da academia, o Sistema Nacional de Saúde. Busca-se reavivar na memória dos cuidadores, a validade deste conhecimento que tem sido desqualificado e marginalizado, quando em contraponto ao saber formal. Não é demais relembrar que, antes do saber formal ou acadêmico se generalizar, foi o saber dos cuidadores que possibilitou, aos grupos populares, ultrapassar a noite dos tempos e sobreviver geração após geração. Seria um grande desperdício desta rica experiência, acumulada por milênios, a não consideração dos saberes populares relacionados ao cuidado ou aos cuidados com a saúde. Estes saberes, em um passado recente, pareciam estar condenados ao epistemicídio1, mas hoje, felizmente, em alguns setores, tanto dos organismos estatais, quanto do universo acadêmico, passam a ter um reconhecimento. Certamente, um conhecimento limitado, aliás, como todo conhecimento, 1

Termo emprestado de Boaventura de Souza Santos que indica a morte dos saberes dos grupos populares ou do saber local, ocasionado pela chegada do saber acadêmico ou científico. Fato que ocorreu, sobretudo, na África e América Latina, nos últimos dois séculos.


mas que merece ser considerado parceiro pelo sistema de saúde de nosso país. Ao longo da caminhada da ANEPS, que há cerca de duas décadas visa articular diferentes práticas, buscou-se colocar em diálogo estas práticas do cuidado, estimulando a troca de saberes entre segmentos ou grupos, que integram este grande coletivo do saber popular. Assim como se buscou criar espaços, junto ao Ministério da Saúde, para seu reconhecimento, tentando incorporar as práticas do cuidado ao Sistema Único de Saúde. No nosso ponto de vista, a ANEPS tem sido um espaço em que o isolamento de diferentes práticas é quebrado e as experiências fortalecidas.

É fundamental, hoje, promover o diálogo entre usuários, gestores e trabalhadores do SUS, com vista ao reconhecimento das práticas populares e integrativas do cuidado. Nosso papel é fazer escolhas participativas e éticas, acreditando em nossas convicções pessoais, em nosso fazer e no dos grupos, com os quais comungamos. Neste movimento de superação do isolamento, com vistas a uma nova perspectiva de pensar o processo educativo, se tornou imprescindível considerar seu caráter de descontinuidade e conflito. No entanto, tem-se em conta que não é possível escapar

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deste mundo dinâmico, diverso e desafiador, que caracteriza a modernidade ou a pós-modernidade – para os que acreditam nesta. Enfim, não se pode escapar de refletir sobre as diversas formas de fazer cuidados, na perspectiva da educação, com e pelos movimentos e grupos populares. Podemos perceber, ao focarmos em alguns grupos e movimentos sociais, certa dificuldade em acatar ou acolher as práticas de cuidados mencionadas. Muitas vezes, tais grupos e movimentos sentem suas perspectivas e potencialidades limitadas e não acreditam na possibilidade para superação daquilo que lhes é dado ou oferecido pelas instâncias do poder, que querem controlar a política, os recursos e excluir ou eleger alguns para participar da riqueza ou dos benefícios sociais. Cabe, portanto, àqueles grupos e movimentos, que enxergam outras perspectivas e acreditam na possibilidade de superação do que está dado, promover a sensibilização e o envolvimento de novos atores das práticas de cuidado, através de processos coletivos e educativos. Isto, com o objetivo de contribuir para que outras pessoas vejam a importância deste processo de superação e rompimento do que está instaurado. Felizmente, ou infelizmente, isso não ocorre de modo pacífico, mas sim com embate, reivindicação, resistência e, fundamentalmente, com proposição e criação de espaços de diálogo entre os gru-

pos e pessoas das práticas e destes com outros segmentos, que buscam a melhoria das condições de vida. As iniciativas, como encontros, oficinas, rodas de conversas, seminários, feiras, tendas e teatros, têm contribuído para a construção de uma gestão participativa e democrática do SUS. Não se pode também esquecer outros espaços, tais como os Conselhos de Saúde e estruturas formais relacionadas, mais diretamente, à educação, é o caso das escolas, que têm ajudado na difusão e reconhecimento das práticas do cuidado em nosso meio. Passamos, agora, à descrição de uma experiência que acreditamos ter contribuído para a disseminação e reconhecimento da prática do cuidado. Trata-se da disseminação ou difusão das práticas de massagens e relaxamentos. Em seminários, cursos, oficinas e rodas de conversas em vários estados do Brasil, temos tido oportunidade de falar e demonstrar para integrantes dos movimentos sociais, profissionais da área da saúde, gestores e outros, os benefícios que as práticas de massagem e relaxamento podem trazer para os usuários do sistema de saúde. Felizmente, há o reconhecimento, pelo menos formal, desta prática, assim como de outras relacionadas ao cuidado, por parte do Estado Brasileiro, com a edição do documento intitulado Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS).


Assim, algumas práticas já têm documento oficial, o que lhes confere legitimidade e, certamente, diminui sua desqualificação nos circuitos que valorizam tão somente o saber formal ou o saber médico. Com certeza, o documento citado ajudará bastante a diminuir as práticas de medicalização, consideradas, até então, como as melhores, quando não únicas, no que se refere aos cuidados para uma vida saudável. Consideramos a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS uma conquista significativa e abertura de diálogo, entre o chamado saber médico e os outros saberes relacionados ao cuidado.

Porém, na verdade, o que está posto é um grande desafio de inclusão de outras práticas, ainda consideradas marginais e não contempladas no documento oficial referido. O conceito ampliado de saúde exige a abertura do diálogo, entre ambas as partes, para o conceito de saúde e cidadania. Para a conquista da cidadania e da autoestima e afirmação dos sujeitos, que detêm as práticas populares, se faz necessário um ambiente educativo, que possibilite o desenvolvimento das pessoas, desencadeando um processo coletivo de conversação e debates. Nas rodas de educação popular, os sujeitos das práticas de-

vem ser considerados como sujeito sócio-histórico e integral, partindo das dimensões da razão – emoção – corpo ou o pensar – sentir – agir como processos psicossociais e interdependentes. Neste sentido, os participantes, seus sonhos, memórias, histórias, lutas e esperanças fazem parte do conteúdo do processo formativo. Considera-se a autoestima um aspecto importante para a afirmação das pessoas, sujeitos – cidadãos. Lutamos para continuar a praticar esses cuidados quando investimos na produção de nossos alimentos e plantas, tradicionalmente conhecidas, usadas e praticadas por nossos ancestrais, seja com uma alimentação adequada, um parto humanizado assistido na comunidade, um benzimento, com as práticas de saúde dos terreiros, práticas corporais como Yoga, massagens e outros tantos cuidados com a saúde dos indivíduos e da coletividade ou comunidade. Quando percebermos o potencial deste conhecimento, teremos força e determinação para acreditar em nossos companheiros e companheiras destas práticas. Poderemos, então, cobrar autonomia e capacidade, enquanto sujeito que se auto determina, escolhe, apropria-se e reconstrói o conhecimento produzido culturalmente, em função de suas necessidades e interesses, com responsabilidade, autodeterminação, decisão e auto avaliação.

Assim, afirmaremos uma educação em saúde e cidadania como prática social, com a participação ativa da comunidade, investindo nas estratégias de democratização do acesso à informação, comunicação social, com o objetivo de fazer a mediação entre os saberes institucionais, técnico-cientificos (educação sanitária) e os saberes populares. Só então, teremos o SUS democrático e participativo, que acreditamos e defendemos. _______________________ Suely Corrêa de Oliveira José Carlos Leite Bibliografia BARROS, Nelson Filice de; SIEGEL, Pâmela; SIMONI, Carmen De. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: passos para o pluralismo na saúde. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro,  v. 23,  n. 12, Dec.  2007. BRASIL. Casa Civil da Presidência da República. Decreto No. 6.040, de 07/02/2007. Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS - PNPIC-SUS/Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 92 p. - (Série B. Textos Básicos de Saúde).

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 Gisélia Brito Fortuna Movimento Sem Terra- MST José Carlos Rodrigues Nascimento Movimento Sem Terra- MST Maria Vanilda do Prado Movimento Sem Terra- MST Marlon Ruppenthal Movimento Sem Terra- MST Noemi Margarida Krefta Mov. de Mulheres Camponesas –MMC Zilda Ferreira Gomes Araújo Movimento Sem Terra- MST

Práticas populares, integrativas e complementares em saúde no SUS: limites e desafios da integração As mulheres e homens que cultivam a terra, trabalhando com as práticas integrativas como as plantas medicinais (chás, xaropes, garrafadas, tinturas, elixires, entre outros), sementes crioulas, rezas, benzimentos, massagens, auriculoterapia, acupuntura, fitoterapia, homeopatia, saberes esses adquiridos ainda na infância através do conhecimento que foi transmitido por seus ancestrais, e que faz parte da cultura camponesa. Cuidar da vida é uma condição do ser humano, mas social e culturalmente coube às mulheres o trabalho de aperfeiçoar essa missão. Desde o período da guerra do fogo a humanidade foi experimentando terapias de cuidado com a vida, como banho, uso das plantas, cinza e o barro. Essas práticas foram sendo ampliadas pela experimentação e observação dos seus efeitos, e com isso foram se aperfeiçoando as técnicas de preparo e uso das mesmas. As rezas nas diferentes culturas, os benzimentos, enfim as terapias de cuidado e cura, trouxeram um empoderamento às mulheres, poder esse que foi tido como poder das deusas da vida. Na época do iluminismo esse saber se torna uma ameaça aos homens, e estes começam a organizar formas de apropriar-se desse saber tornando-o científico. Assim avança a dominação sobre o poder das mulheres que passam a ser chamadas de bruxas e seus conhecimentos foram associados ao mal. A ciência junto com a biomedicina e setores da igreja condenam esse saber e instaura-se a Santa Inquisição, onde muitas mulheres foram julgadas e queimadas vivas.

Essa perseguição sofrida pelas mulheres trouxe muito medo, e devastou muito o saber popular. Apesar disso, todo esse conhecimento foi sendo repassado através da oralidade de geração para geração chegando até os nossos dias, o que, por sua vez, propiciou a organização e resistência articulada nos movimentos populares do campo.

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foto: BernardoVaz

Os movimentos populares têm uma concepção de saúde como modo de vida, a qual vê o indivíduo como ser integrado ao espaço onde vive. O cuidado com a água, o solo, as sementes, as plantas medicinais, a biodiversidade, as condições de prover seu auto-sustento, a educação, a moradia, o saneamento sustentável, o transporte, o lazer e a vida sem violência, enfim todos os cuidados para o bom viver que perpassa a promoção, prevenção e recuperação. No entanto, essa concepção ampliada de saúde requer que o Estado exerça seu papel formulando e executando políticas públicas com a participação das organizações do campo. Os sonhos e a utopia dão sentido para nossas vidas e trazem de volta o ânimo para continuar na resistência contra esse modelo de sociedade capitalista e de expropriação da classe trabalhadora. Lutamos por políticas públicas de saúde, pela cidadania, pela educação de qualidade, por um país mais justo para a classe trabalhadora, pela reforma agrária, pela recuperação da cultura camponesa, ou seja, contra a fome, a miséria e a corrupção. Ainda existe a presença das práticas populares em saúde nas comunidades, acampamentos e assentamentos, tais como as plantas medicinais, rezas, benzedeiras, rai-

Os movimentos populares têm uma concepção de saúde como modo de vida, a qual vê o indivíduo como ser integrado ao espaço onde vive. zeiros, parteiras, homeopatia, acupuntura, auricoloterapia, geoterapia, reiki, massoterapia, cura pelas mãos entre outras. A mecanização da medicina científica foi excluindo e desvalorizando as práticas populares. Diante da importância de legitimar e dar visibilidade a estas práticas, tendo em vista que queremos uma saúde do campo e não uma saúde para o campo, faz-se necessário compreen-

der o modo de vida das pessoas no individual e coletivo, assegurando o direito da população de escolher as práticas de saúde mais adequadas as suas necessidades. Isso não exclui quando necessário, as ações da biomedicina, pois a articulação das práticas fomenta a integralidade da saúde enquanto princípio do Sistema Único de Saúde (SUS). É preciso garantir a autonomia das comunidades sobre suas práti-

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foto: BernardoVaz

cas e problematizar os benefícios e entraves da institucionalização das práticas populares em saúde no SUS, confrontando-as com o texto da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta (PNSIPCF) e da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). A Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta – PNSIPCF - no seu

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(...) há que se partir da realidade das comunidades, entendendo que queremos a saúde do campo e não aquela que tem sido pautada a partir do olhar da cidade. primeiro parágrafo enuncia que pretende garantir o direito e acesso à saúde da população do campo a partir das peculiaridades, especificidades das demandas e necessida-

des em saúde dos povos do campo e da floresta e comunidades tradicionais. Sendo assim, há que se partir da realidade das comunidades, entendendo que queremos a saúde do campo e não aquela que tem sido pautada a partir do olhar da cidade. A população do campo e da floresta, pela sua prática de fazer agricultura, tem uma relação íntima com a natureza, e por meio desta relação vai ampliando seu


conhecimento sobre a diversidade de plantas e seu uso popular. Nesse sentido, é importante o respeito às culturas e práticas populares de saúde, ou seja, o respeito às crenças, valores e modos de produção de cada grupo social, com a articulação de saberes e experiências e reconhecimento da dimensão subjetiva, coletiva e social. Olhando para a PNSIPCF percebemos um esforço para garantir o acesso dos povos do campo e floresta ao SUS, por isso reafirmamos a necessidade de implementação da mesma. A PNSIPCF, no item sobre estratégias de operacionalização, enfatiza a importância do “fortalecimento da articulação com a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares e com a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos” (Brasil, 2008, p.24). Tal articulação, no entanto, precisa ser debatida junto aos movimentos populares, de forma a multiplicar os conhecimentos por meio da integração com outras pessoas que desenvolvem práticas populares em saúde. Essa perspectiva implica no reconhecimento e valorização do saber popular, de modo que as práticas integrativas e complementares nas comunidades não sejam implementadas de forma vertical. É importante que os movimentos populares promovam o resgate e a resignificação dessas prá-

ticas por meio de oficinas de troca de experiências entre as comunidades, garantindo assim a autonomia sobre as mesmas e possibilitando o acesso da população às diversas terapias para a resolução dos problemas de saúde-doença- cuidado.

Os serviços públicos de saúde oferecidos à população do campo em sua maioria são curativos e não conseguem levar em conta a organização da comunidade, a cultura, seus hábitos, suas práticas de vivência e convivência e as condições sócio econômicas, sendo, portanto, insuficientes para resolver a complexidade dos problemas. Os serviços públicos de saúde oferecidos à população do campo em sua maioria são curativos e não conseguem levar em conta a organização da comunidade, a cultura, seus hábitos, suas práticas de vivência e convivência e as condições sócio econômicas, sendo, portanto, insuficientes para resolver a complexidade dos problemas. Com o avanço da ciência e da tecnologia veio junto a concepção de saúde como ausência de doença, bem como a transformação dessa em mercadoria para gerar lucro. Este lucro se expressa, por exem-

plo, através da tecnologia médica e da produção de medicamentos pelas indústrias farmacêuticas. A valorização e o reconhecimento das praticas populares favorecem o cuidado com a vida como um todo. Essas práticas de cuidado integral levam em conta o ambiente em que vivem as pessoas, diferente da medicina alopática que quase sempre se preocupa com a doença física em uma parte do organismo e esquece que existe um ser humano que sofre e tem sentimentos. Dar visibilidade as práticas populares é acima de tudo um respeito a cultura dos povos, preservando o cuidado com a vida humana, animal, vegetal e do solo. Entendemos que só por meio da luta e de um trabalho integrado com os demais movimentos que fortaleceremos as práticas populares e a integração dessas práticas no contexto da saúde pública, principalmente na atenção básica, de modo a viabilizar a saúde do campo de acordo com nossas especificidades. Essa perspectiva é fundamental na garantia da saúde enquanto direito tal como preconizado no SUS e na Constituição Federal de 1988. Texto síntese do TCC do Curso de Especialização Técnica em Políticas Públicas de Saúde - Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio Fio Cruz,RJ abril, 2011.

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Bioenergética: organização e educação popular para a qualidade de vida

Maria Paschoalina Barbieri

No Mato Grosso, grupos comunitários, que desenvolvem um trabalho sócio-educativo, vem suprindo algumas carências no atendimento à saúde. Esta prática popular, que predomina nos grupos populares de saúde no estado, é a Bioenergética. Mas o que é a Bioenergética? É uma técnica de avaliação do estado energético criada pelo Dr. Yoshiaki Omura. Ela se baseia em conhecimentos cinesiológicos, utilizando o teste muscular de força versus resistência. Este teste permite tratar o indivíduo como um todo, através de uma combinação de cuidados suaves, seguros e eficazes. Com ele, é possível dialogar com o corpo para obter informações objetivas, precisas e personalizadas. A técnica é aplicada para avaliar o estado energético da pessoa e, assim, orientá-la em relação aos cuidados que para manter e/ou recuperar sua saúde. É um trabalho de orientação e prevenção da saúde, feito no coletivo, porém, de forma personalizada aos que o procuram. A prevenção é feita orientando terapias naturais: fitoterapia, dietas, geoterapia, hidroterapia, exercícios e terapias energéticas. Cuidados naturais que as pessoas podem fazer em casa para conquistar melhor qualidade de vida. Através desta prática, ocorre um reequilíbrio energético do ser e, com isto, a recuperação da saúde. É um trabalho de prevenção pela mudança no entendimento, atitudes e hábitos. Isto faz a diferença:

quando a pessoa entende que ela é a responsável pelo seu processo de adoecimento e passa a cultivar alguns cuidados muito simples, como tomar água, respirar e relaxar, cuidar do que ingere... No contato com as pessoas que participam destes grupos, percebe-se que isto traz um grau de satisfação muito grande, tanto aos que se beneficiam buscando o atendimento, quanto às pessoas que prestam o serviço de orientação. Todos se sentem beneficiados e gratificados pelos resultados obtidos. O atendimento é feito a qualquer faixa etária, mas a grande maioria que procura os serviços são mulheres. Isto tem um resultado multiplicador, porque muitas, ao administrarem o lar, passam a cuidar melhor

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não só de si, como de sua família, introduzindo algumas novas atitudes, mesmo que sutis, porque sutil é o campo energético. E o sorriso se estampa no rosto! Mas o trabalho do grupo vai além. Primeiro acontece a preparação dos promotores de saúde. É um trabalho sequencial de formação, abrangendo os cuidados com a vida, as plantas medicinais, alimentação e nutrição, a reflexão sobre a realidade social, o cultivo da espiritualidade e a prática organizacional. Quem participa dos trabalhos têm oportunidade de participar também destes programas de formação permanente, exercitando, cada vez mais, a cidadania. A procura e a valorização são sinais da legitimidade conquistada pelo trabalho realizado por estes grupos na comunidade é legitimado pela procura e valorização que vem tendo. Um instrumental valioso para ação eficaz na busca de melhor qualidade de vida e de educação/reeducação popular. É a busca do equilíbrio biopsicossocial do Ser. A conquista deste estado de equilíbrio possibilita mais autonomia na conquista de qualidade de vida. A melhoria da qualidade de vida da população, por meio da participação ativa do cidadão na construção de sua saúde, é a meta de todos os programas sociais de educação popular em saúde. Isto se faz muito aquém e muito além de um sistema de saúde laboratorial/hospitalar.

Continuamos firmes na luta até a vitória final: construir uma sociedade saudável e feliz! 

foto: BernardoVaz

A saúde é uma conquista do dia a dia e no dia a dia, mediante um processo educativo e participativo. É o que o movimento Bioenergético faz com muita propriedade, junto às comunidades matogrossenses, brasileiras, latino-americanas, caribenhas.

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 Fátima Guedes

Parintins tecendo cuidados em saúde O município de Parintins está localizado no interior do estado do Amazonas, à margem direita do Rio Amazonas. Possui cerca de 50 mil habitantes e fica aproximadamente a 370 quilômetros da capital, Manaus. Parintins na realidade é uma ilha e fica na divisa dos estados do Amazonas e Pará. Este município abriga em sua memória um amplo acervo de saberes e práticas populares e tradicionais de saúde. São jeitos simples e naturais de cuidar da vida, que se expressam através de “dons” desenvolvidos por seus curadores. Estas práticas, em sua grande maioria, subsistem timidamente, tendo em vista o massacre colonizador sob as populações nativas e suas tradições culturais. Neste sentido, muito se perdeu na Amazônia com o mercado da saúde, pois grande parte destes saberes sobrevive na oralidade das populações excluídas do saber oficial e dos processos políticos.

Apesar das mazelas advindas do modelo econômico, as comunidades amazonenses resistem em suas práticas de saúde desenvolvidas por seus curadores: parteiras, benzedores, pegadores de ossos ou consertadores de desmintiduras, erveiros, costuradores de rasgaduras e sacacas.

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Conforme a tradição espiritual, os curadores são agraciados por “dons” concedidos por entidades divinas. Há curadores que têm domínio de todas estas práticas, como é o caso das parteiras. Dentre as categorias citadas, está o Pegador de Ossos ou Consertador de Desmintiduras e a Costuradora de Rasgaduras, que corresponde à categoria de curadores voltada para o tratamento de contusões, rasgaduras e deslocamentos de ossos. As nomenclaturas são conceitos desenvolvidos por curadores e pelos nativos com base na relação que estabelecem com as especificidades da prática. Durante o cuidado, o curador precisa de um jeito especial para "pegar o osso e consertá-lo". O termo desmintidura vem da idéia de desmeter, isto é, o osso ou o músculo deslocou, "saiu do lugar". Os registros da medicina oficial ignoram essas nomenclaturas, assim como não são encontrados teóricos locais que tenham desenvolvido estudos nesta direção. Constata-se que os conceitos pertencem ao acervo lingüístico dos povos da região do baixo e médio Amazonas.


alguma lesão. Waldemar afirma que iniciou seu trabalho ainda jovem, quando, durante um jogo de bola, atingiu a rótula de um colega. Naquele momento de angústia, ele se sentiu culpado pela dor do colega e ouviu uma voz que dizia ter chegado a hora dele se dedicar a estudar o corpo humano e curar quem precisasse de seus serviços. A partir daí, passou a se dedicar, visando sempre à melhoria da saúde do povo que o procura. Tudo na

solidariedade. Waldemar atende diariamente pessoas de várias classes sociais, inclusive já atendeu médicos, prefeitos, vereadores, numa média até de quarenta pessoas por dia. Apesar da grande procura, ele afirma que não há reconhecimento por parte do sistema oficial. Esse trabalho permanece no silêncio e no anonimato. Reafirma, ainda, que o sistema é precário e as demandas são responsáveis pelas doenças.

foto: Fátima Guedes

Um dos curadores que desenvolve esta prática é Waldemar Nascimento de Freitas, parintinense, 54 anos, com o 2º grau completo, técnico agrícola, residente na Travessa Lister Achão, 310, em Parintins. Para Waldemar, o pegador de ossos ou o consertador de desmintiduras é um “enviado de Deus”. Alguém que recebe “iluminação especial” para conhecer o corpo humano e colocar no lugar certo o osso ou o músculo que sofreu

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"Nosso povo são pessoas humildes e trazem em si a tradição de nossos antepassados. Os primeiros moradores de Parintins não procuravam os médicos, mas os curandeiros, pois tinham certeza que, por meio de seus remédios e de suas benzeções, ficariam curados de seus males tanto físicos como espirituais. E assim acontecia. As necessidades fazem com que o povo descubra jeitos de viver e, assim, vai aprendendo uns com os outros e melhorando cada vez mais a vida. Saúde é isso, todo mundo se ajudando a viver bem". foto: Fátima Guedes

Altina de Souza Oliveira

Assim como consertar desmintiduras e pegar ossos são nomenclaturas próprias da cultura popular, costurar rasgaduras também é um conceito desenvolvido neste universo. Em Parintins, é grande o número de anônimos que desenvolvem esta prática. Dentre eles, está Altina de Souza Oliveira, amazonense, 55 anos, com ensino médio, líder da Pastoral da Criança, residente na Rua Paulo Teixeira, nº 1054, Bairro Santa Rita, em Parintins. Ela descobriu ser curadora ainda criança. Altina conta que sua mãe sempre lhe imaginava diferente pelas coisas que fazia, não sabia que ela tinha o dom de curar.

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Além de benzer crianças com quebranto, adultos com depressão, dores de cabeça, Altina desenvolveu a prática de costurar rasgaduras. Ela explica que uma rasgadura é quando a carne rasga e é preciso costurar. Da rasgadura vem a hérnia. Através da concentração, a ponta dos dedos faz sentir o nódulo, que produz muita dor e ardência. Ela faz a costura através da resina da casca da laranja da terra e pez (breu). Coloca a resina sobre a dor e, em seguida, emplasta com pez. Altina costura durante três dias e recomenda ao paciente usar como calmante para a dor, chá de cidreira ou capim santo. Tudo com concentração e oração. Ressalta que há outros jeitos de costurar a rasgadura. Há curadores que utilizam um pequeno quadra-

do de tecido e uma agulha com linha. Concentram-se e, através de orações, vão costurando em forma de alinhavo aquele tecido sobre a lesão. O tratamento também tem a duração de três dias. Cada dia se costura uma parte do tecido até concluir. É o tempo em que é retirado todo o frio da região afetada e a carne volta ao normal. Para ajudar, o paciente também deve tomar o chá durante os três dias. Altina é entusiasta em relação à importância de sua prática de saúde no meio popular. Ela afirma que o povo é humilde e traz em si a tradição dos antepassados. Os primeiros moradores de Parintins não procuravam os médicos, mas os curandeiros, pois tinham certeza que, por meio de seus remédios e de suas benzeções, ficariam curados de seus males, tanto físicos, como espirituais.


"A doença é conseqüência da falta e emprego. Se as pessoas tivessem dinheiro, teriam boa alimentação e, com isso, boa saúde”. Waldemar Nascimento de Freitas

foto: Fátima Guedes

Acredita na possibilidade de uma saúde de qualidade construída com o saber popular. As necessidades fazem com que o povo descubra jeitos de viver e, assim, aprendendo uns com os outros e melhorando cada vez mais a vida. Saúde é isso, todo mundo se ajudando a viver bem. Há uma necessidade emergencial de desenvolver uma discussão ampla sobre a importância da inclusão dessas práticas nos serviços públicos. Nesta perspectiva, a saúde precisa ser olhada dentro desse conjunto de intenções como um direito inalienável, direito que reconheça outras formas de tratamento com atenção às diversidades culturais. 

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Religiões afro-brasileiras: direitos e promoção da saúde

José Marmo da Silva

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Apesar dos avanços da medicina ocidental, muitas práticas populares de saúde persistem, mostrando a importância dos valores atribuídos às representações culturais e religiosas sobre saúde e doença. Essas práticas terapêuticas foram preservadas pelos ervateiros, parteiras tradicionais, benzedeiras, rezadeiras, pais e mães de santo, comprovando que existem outras formas de lidar com a saúde, além daquela preconizada pela medicina dita “oficial”. O Sistema Único de Saúde (SUS), ao longo dos seus 21 anos, vem incorporando outras práticas como a homeopatia, a acupuntura e a fitoterapia, que fazem parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, visando garantir a integralidade na atenção à saúde. Este é um sinal de que o SUS está mudando e incorporando novos saberes, mas, ainda assim, verificamos certa desatenção e dificuldade de inclusão das práticas populares de saúde, em função do não reconhecimento dos saberes populares. Gostaria de destacar, como parte destes saberes, o modelo de saúde dos terreiros, que leva em consideração a visão de mundo da tradição religiosa de matriz africana e está

relacionado ao conceito de axé – a força da vida, a energia vital. Para as religiões afro-brasileiras o axé é a força propulsora de vida. Como energia, pode aumentar ou diminuir causando equilíbrio ou desequilíbrio e, consequentemente, saúde ou doença. Esta força necessita de práticas rituais para promoção, recomposição e restabelecimento do equilíbrio. Ela está contida em todos os elementos da natureza, nos rios, oceanos, folhas, árvores, na terra, nos animais e nos seres humanos. É por este motivo que estes elementos precisam ser bem cuidados. As religiões de matriz africana consideram o corpo a morada dos deuses e deusas, portanto, nesta perspectiva, cuidar da saúde é importante para a própria manutenção do grupo e da tradição. Foram preservadas, nesta tradição religiosa, práticas milenares de saúde, que resistem até os dias de hoje e não são consideradas tratamentos, mas “cuidado e zelo”. Entre estas práticas, podemos destacar o jogo de búzios, os ebós, o bori, as iniciações, o uso de ervas e folhas, os banhos, as benzeduras, a escuta e o acolhimento, os aconselhamentos e a orientação para buscar atendimento nos serviços de saúde.


Quem é de terreiro sabe que muitos agravos e doenças podem estar relacionados a um sinal dos deuses e deusas para a recomposição da energia vital, o que podemos entender como um processo de promoção e equilíbrio da saúde. As lideranças de terreiros reconhecem a importância do SUS, quando a saúde fica fragilizada, necessitando de cuidados e atenção. O Sistema Único de Saúde, por sua vez, deve reconhecer que os terreiros são parceiros potenciais para a promoção e manutenção da saúde. Isso quer dizer que um saber não é mais importante que o outro, muito pelo contrário, os saberes são complementares. A sabedoria dos terreiros nos ensina que conjugar as práticas de saúde dos terreiros com as práticas de saúde do SUS é um bom exercício para todos e todas nós. Apesar disso, muitas vezes, ao procurar o SUS, o povo de terreiro, assim como outros grupos, não tem sido bem acolhido e não tem sua cultura respeitada, conforme preconiza a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde que diz: “todo cidadão tem direito ao atendimento humanizado, acolhedor e livre de qualquer discriminação; todo cidadão tem direito a atendimento que respeite a sua pessoa, seus valores e seus direitos”. Para finalizar, enfatizando a importância do direito humano à saúde, trago a fala da própria tradição, legado deixado pelos nossos ancestrais, por intermédio de uma lenda de Oxum:

“Conta a lenda que Oxum era uma jovem trabalhadora na cidade em que vivia e nunca conseguia melhorar de vida. Um dia, resolve consultar o adivinho que aconselha Oxum a preparar uma oferenda e entregar no palácio do rei. O adivinho mandou colocar as coisas num balaio, fazer todos os seus pedidos e ofertar ao rei. Chegando ao palácio, Oxum começa a dizer: ‘mas que rei maldito. Que rei terrível. Sou uma mulher que trabalha muito, me esforço e não consigo melhorar de vida. Esse rei é injusto porque tem tudo só pra ele. Olha o palácio dele’. Oxum continua reclamando seus direitos para o rei, enquanto entrega a oferenda. O povo começa a se juntar em volta dela. O rei pergunta o que estava acontecendo e o que poderia fazer para que Oxum ficasse quieta. Um conselheiro diz para o rei presentear Oxum para que ela se calasse. Então, o rei lhe dá um agrado. Oxum agradece e diz merecer o presente porque trabalha bastante. Mesmo assim, não para de falar e praguejar. E o rei dá mais um presente. E ela continua recebendo e reclamando. O final da história é que Oxum se torna dona de todo ouro e de toda a riqueza do rei”. Por que conto esta história? Porque disseram para Oxum pedir e ela fez o contrário. Ela exigiu o que lhe era de direito e obteve a merecida conquista. Essa é uma história que vem da tradição e mostra a responsabilidade de cada um e cada uma de nós em relação à garantia dos nossos direitos.  Referências bibliográficas: SILVA, J. M. (Org.). Religiões afro-brasileiras e saúde. São Luis: Centro de Cultura Negra do Maranhão, 2003. SILVA, José Marmo da. Religiões e saúde: a experiência da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde . Saude soc. [online]. 2007, vol.16, n.2, pp. 171-177. ISSN 0104-1290. SODRÉ, M. O terreiro e a cidade. Petrópolis: Vozes, 1988

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 Simone Maria Leite Batista Karen Emanuella Fernandes Bezerra

Zefa da Guia: parteira e rezadeira do sertão Josefa Maria da Silva Santos, conhecida por Zefa da Guia, é natural e residente no Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Ela vive no povoado Serra da Guia, distante 48 km da cidade, onde moram 200 famílias. Zefa da Guia é parteira há 55 anos, é líder comunitária, quilombola, rezadeira e espírita, filha e neta de parteira, nora de escravos e neta de índio. Ela faz partos desde os 11 anos de idade. Já realizou mais de 5 mil partos, todos bem sucedidos.

Por suas mãos nasceram sergipanos, pernambucanos, alagoanos e baianos. Nunca morreu nenhuma mulher e, muito menos, nenhuma criança das que ela pegou em suas mãos. Dona Zefa tem mais de 2.800 afilhados, só na igreja, fora os que ela já batizou na fogueira de São João. Ela se casou com 12 anos e três meses de idade e é casada há 47 anos com Alexandre Bispo dos Santos, teve 8 filhos e criou 18 dos outros. Com 63 anos de idade, Dona Zefa não sabe ler, nem escrever. Foi criada numa comunidade pobre, trabalhando na roça, mas conta que seus saudosos e queridos pais

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ensinaram os princípios básicos da educação, como decência, honestidade e solidariedade com o próximo. Dona Zefa lembra que sua primeira percepção de ser parteira foi aos onze anos de idade, quando assistiu a sua mãe realizando um parto sofrido de uma “jovem” de quarenta e cinco anos que tinha ingerido bebida alcoólica, complicando assim o nascimento do bebê. Desde então, sentiu que deveria ajudar as mulheres a dar a luz e vem realizando partos, tanto na própria comunidade, quanto nas cidades vizinhas. Quando Dona Zefa iniciou como parteira não havia casas de alvenaria no povoamento. Morando em barracos de taipa cobertos de palha de uricuri, as parturientes, geralmente, tinham os filhos em uma cama feita com vara, da mesma forma que Zefa também teve os seus. Embaixo da cama, ela colocava uma cuia para aparar os “restos de parto”. Ela já realizou inúmeros e incontáveis partos em diversos lugares. Quantas crianças vieram ao mundo em suas mãos, sem alardes e sem problemas! Em algumas regiões, viagens a pé, a cavalo, em pequenas embarcações, por estra-


foto: Acervo da família

das, rios ou no meio da mata. Muitas vezes, devido às dificuldades de locomoção, passava vários dias na casa da parturiente, à espera da hora do parto. Rezando, implorando a proteção dos santos, de Deus e de Nossa Senhora ou, até mesmo, cantando para as pacientes canções de estímulo e de conforto. Além de auxiliar o nascimento, Dona Zefa abastece a casa da parturiente de tudo que é necessário e, se falta alimento, tira do seu próprio sustento. Ajudando no cuidado com a criança, ela assiste a mãe após o parto, observando sintomas e orientando sobre registro de nascimento e vacinações. Exerce outras funções, além da

Dona Zefa também é mãe de 5 filhos criados, 8 gerados, sendo que 3, já falecidos, 18 adotivos, 37 netos e dois mil e setecentos afilhados batizados na igreja, o que lhe concede maior sensibilidade e compreensão para com a mulher na hora de dar à luz. assistência ao parto, ela trabalha como líder da sua comunidade, orientando seu povo na labuta do dia a dia. Em 2011, Dona Zefa participou IX Congresso Nacional de Saúde Coletiva, que aconteceu em Olinda, Pernambuco. Ela fez parte de uma mesa do Congresso, composta para a visita do presidente na época, Lula. Dona Zefa diz que este foi um dos momentos mais lindos

e felizes de sua vida. Para ela, uma mulher que trabalhou de lavradora na roça na infância e passou por muitas adversidades, não tem dinheiro no mundo que pague essa felicidade de dividir o mesmo palco com o presidente da república, que tem uma popularidade grande, falar para uma platéia de mais de 3 mil universitários e, ainda, ser aplaudida.

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foto: Acervo da família

Esse dom de parteira não teve nenhum aprendizado formal, institucionalizado, o que não diminui a importância do trabalho. Ao contrário, o repasse do saber e do fazer, antes de representar apenas a realização de um fim prático, faz com que o aprendizado sirva como mecanismo de difusão de conhecimento entre as gerações. Parteira sem grandes pretensões econômicas doa seu tempo à mulher que está parindo. Seu tempo é livremente dedicado ao parto. Em sua sabedoria inata não tem pressa, pois sabe que é prudente observar a natureza e deixá-la agir. Não se preocupa com conta bancária que precisa “engordar”. Dona Zefa está ali cumprindo uma missão e a mãe é o centro de suas atenções. É confidente, humilde, corajosa, paciente, compreensiva e amorosa. Além de parteira, acumula também a função de rezadeira. Recebe diariamente pessoas de várias idades e regiões em busca de suas rezas. Ela está sempre à frente para tratar dos interesses da sua comunidade. Domina ervas, orações, o discurso, os contatos políticos e sobrenaturais. Com um espaço destinado a este fim, em sua casa, Dona Zefa aplica aos enfermos as palavras de conforto. Compenetrada, geralmente, agrega às palavras os movimentos com as mãos, fazendo o sinal da cruz sobre o paciente. Algumas rezas são ditas em voz alta, outras através do balbuciar dos lá-

bios. Dependendo do problema de cada indivíduo, as rezas podem ser aplicadas coletivamente, outras seguem regras apropriadas. Em alguns casos, as rezas são acompanhadas de um receituário, no qual são aconselhados chás, banhos, infusões, garrafadas, defumadores, pagamentos de promessas e advertência sobre o que pode ou não fazer no período de tratamento. Dona Zefa contempla seus conhecimentos específicos com as ervas e os efeitos de várias plantas, como também conhece as partes que podem ser utilizadas, a forma de preparo, quem e quando pode ingerir e os respectivos resguardos. Em sua casa, instalou-se um santuário, onde acontecem as no-

“Sou parteira quilombola, rezadeira e espírita, filha e neta de parteira, nora de escravos e neta de índio. Sou parteira há 55 anos e líder comunitária. Faço partos desde os 11 anos de idade. Realizei mais de 5 mil partos, todos bem sucedidos, graças a Deus. Por as minhas mãos nasceram sergipanos, pernambucanos, alagoanos e baianos e nunca morreu nenhuma mulher e muito menos crianças das que peguei em minhas mãos". venas. Após nove dias de reza, ocorre a procissão até o topo da serra, onde o acesso não é nada fácil, uma vez que o trajeto é cheio de cactos e o terreno é íngreme. Mesmo assim, as pessoas sobem levando pedras em sinal de sacrifício. Através do ofício de aparar crianças, Dona Zefa, antes mesmo de desapertar o interesse do grande público, segurou em suas mãos cerca de duas gerações. A história de vida desta mulher, associada com a de sua família e amigos, representa um quadro geral sobre a formação da Serra da Guia, de Poço Redondo e da região de maneira geral. 


 Maria Cecília Tavares Leite Simone Maria Leite Batista Karen Emanuella Fernandes Bezerra

Extensão popular em fitoterapia: realidade em Sergipe A Fitoterapia é uma das formas mais antigas de cuidado da vida. Na sociedade contemporânea, constitui um importante recurso terapêutico, acessível a todos os segmentos populacionais, na prevenção e tratamento de doenças de forma integral. Haja vista que estimula as defesas naturais do organismo e resgata o ser humano às suas relações mais profundas com a Mãe Terra. No Brasil, devido ao uso da fitoterapia como prática popular, foi reconhecida e criada a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, aprovada através do Decreto Nº. 5.813, de 22 de junho de 2006. Esta política estabelece diretrizes e linhas prioritárias para o desenvolvimento de ações pelos diversos sujeitos em torno de objetivos comuns, voltados para a garantia do acesso seguro e uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos. Ela preconiza diretrizes, ações e responsabilidades dos poderes Municipais, Estaduais e Federal, em sua implantação e implementação, as quais irão orientar os gestores no estabelecimento da mesma ou em sua adequação aos programas já implantados. Em Sergipe, como resultado da oficina de plantas medicinais, promovida pelo Movimento Popular de Saúde (MOPS), na semana de extensão da UFS (Universidade Federal de Sergipe), em novembro de 2007, foi proposto que se organizasse um curso aos participantes com aprofundamento teórico e prático sobre as plantas medicinais. Assim, surgiu à idéia da construção de um Curso de Extensão Popular em Fitoterapia, que logo foi aceito pela pró-reitoria de extensão e pela vice-reitoria dessa instituição de ensino. A organização teve início em conversas com professores representantes dos movimentos e práticas populares de saúde ligados à ANEPS, objetivando construir uma proposta programática com metodologia dialógica e constituída de aulas presencias, teórico/práticas, com módulos aos finais de semana, totalizando uma carga horária de 200 h/ano. As vagas foram totalmente preenchidas, distribuídas entre representantes de movimentos sociais, associações, órgãos públicos federais, estaduais e municipais, que atuam na área, como prefeituras, governo do estado, UFS, UNIT e outros órgãos federais.

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Os objetivos priorizados foram: capacitar profissionais, estudantes da área de saúde e representantes da sociedade civil no cultivo, preparo e utilização das plantas medicinais no tratamento de enfermidades, contribuindo, assim, para a conservação das espécies e práticas tradicionais a elas associadas. Os principais indicadores corresponderam ao aproveitamento máximo do conhecimento teórico-prático, abordado como a capacidade de multiplicação de cada participante. A metodologia objetivava promover motivação e reflexão sobre as principais questões inerentes à Fitoterapia e aos modos, tradicionais ou não, de cuidado efetivo vivenciado. Como produto dos encontros semanais e das discussões, os sujeitos participantes dos dois cursos de extensão, organizados em grupos, a partir de indagações sobre a política de plantas medicinais e fitoterápicas e sua operacionalização efetiva no âmbito do SUS, sistematizaram suas reflexões nos seguintes temas e eixos: A Fitoterapia na formação dos acadêmicos de Enfermagem; Comunicação com a comunidade; Sensibilização dos Gestores e Profissionais de Saúde; A Comunicação e a Fitoterapia; A implantação da Fitoterapia na USF Manoel de Souza Pereira; Evidenciando a Fitoterapia: a sua Impor-

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tância como Ciência na promoção da Saúde; Memento Fitoterapêutico de Plantas utilizadas para o tratamento de Diabetes, Candidíase, Hipertensão, Problemas Genito-Urinários e Processos Inflamatórios; Cartilha – Conhecendo melhor as plantas medicinais da região; Como preparar remédios Caseiros - Compartilhando saberes; O conhecimento dos erveiros e erveiras do mercado Thales Ferraz como subsídio para políticas públicas em Saúde. Como desdobramento, atualmente o curso está na terceira versão, reafirmando e ampliando o

ideário inicialmente proposto. O segundo curso contou com uma participação de 45 alunos e o terceiro, em andamento, conta com 53 alunos de 21 municípios sergipanos, além de alunos de Alagoas e da Bahia. Nota-se, por um lado, que faltam esforços governamentais na implementação e execução de aspectos práticos da portaria citada. Por sua vez, é necessária maior participação da sociedade nas reivindicações de políticas públicas de saúde permanentes, duradouras e direcionadas aos reais interesses da população.


foto: Arquivo do Curso

Pode-se ver, com a realização do Curso de Extensão em Fitoterapia, a grande necessidade e carência em conhecimento sobre este tema. Faz-se necessária a divulgação constante para informar o maior número possível de pessoas sobre o uso e a ferramenta que muitos têm a mão, incluindo no cotidiano as plantas medicinais, através da Fitoterapia. É importante, no processo de implantação da Política de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que se faça parceria intersetoriais, em virtude da abrangência da cadeia produtiva existente em Fitoterapia, não deixando de lado as parcerias com a comunidade, que é a detentora do saber popular. Esse envolvimento coletivo contribuirá para a sua efetiva implantação, de forma complementar, mas abrangente e eficiente. Ressalta-se que os resultados destes cursos demonstram a necessidade e importância da implantação na rede básica de uma política municipal de plantas medicinais e fitoterápicos, como recurso importante no processo de prevenção e cura do indivíduo. 

BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de atenção a Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: PNPIC. Brasília, 2008. BRASIL, Ministério da Saúde Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica. Política Nacional de Plantas Medicinal e Fitoterápico. Brasília, 2007. BRASIL, Ministério da Saúde Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica. Política Nacional de Plantas Medicinal e Fitoterápico. Brasília, 2006. MATOS, F. J. A., Prescrição Médica de Fitoterapia. 1983.

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Comunicação como diálogo

Inter-relações entre comunicação, educação popular e cultura


Web Rádio AJIR: interação, diálogo e movimento Raimundo Augusto Martins Torres e Maria Rocineide Ferreira da Silva

A Web Rádio AJIR nasceu para ser um instrumento de encurtamento de espaço e tempo entre o mar e o sertão do Ceará. Ela surgiu com a possibilidade de retomada do movimento juvenil da década de 80 e início de 90, no distrito de Irajá, munícípio de Hidrolândia. Muitos jovens, que ali construíram o movimento, foram para os grandes centros urbanos, levando o gosto e a paixão pelas atividades culturais do sertão e a necessidade de reencontrar projetos, que estruturassem suas vidas e suas lentes sob o mundo e as pessoas. Assim, há três anos, foi construído o canal digital Web Rádio, para que os jovens de Irajá pudessem se comunicar com os jovens que estavam nas grandes cidades, em especial, Fortaleza. A Web Rádio firmou-se graças ao poder de entretenimento e diversão de seu criador, o jovem irajaense, Victor Gomes, que desde os 13 anos participava na internet de uma rede de Dj’s de web rádio. Neste canal, Victor interagia com os demais jovens de Irajá, especialmente para executar músicas e falar de futebol. No entanto, o canal entrou para o mundo acadêmico com os jovens de Irajá, que fizeram da Web Rádio um instrumento de diálogo entre a universidade, a sociedade, os jovens do sertão e os movimentos sociais e populares. Hoje, esta emissora on-line pertencente à Associação dos Jovens de Irajá (AJIR), é vinculada ao Laboratório de Práticas Coletivas em Saúde - LAPRACS da Escola de

Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará e à Pró-Reitoria de Extensão. O canal oferece programas com conteúdos de música e esporte, como também desenvolve atividades para a formação acadêmica dos cursos  da área de saúde e educação, em especial, à comunidade escolar de jovens e adolescentes. Um espaço aberto ao debate e a voz dos movimentos sociais populares que vem ganhando reconhecimento nos últimos anos. Foi destaque do programa Salto para o Futuro, do Ministério da Educação, e premiado pelo Ministério da Cultura pela promoção da educação, cultura e lazer, entre outros destaques.

As temáticas produzidas e veiculadas se reportam à educação popular e saúde, raça/etnia, gênero, práticas integrativas e complementares em saúde, mobilização comunitária, controle social, entre outras, todas disponíveis no web site da emissora: www.ajir.com.br Vale destacar que a utilização desta ferramenta de comunicação digital está incluída no programa de ensino universitário, possibilitando a interação entre os universitários, os militantes dos movimentos e os jovens do sertão. Além disso, os estudantes da graduação em saúde têm oportunidade de usar e aprender os conceitos das novas tecnologias na prática e no ensino universitário, dialogando com os

movimentos sociais e populares. Este canal também desconstrói a mera reprodução de modelos de comunicação fechados, pautados pelas tradicionais mídias, e, ainda, problematiza a formação e o cotidiano do ensino e da pesquisa em saúde e educação, através de uma estratégia inovadora em que se produz, publica e divulga os saberes relevantes aos atores sociais. Os temas dos seminários on-line são sugeridos pelos participantes e colocados à disposição na grade de programação no site da web rádio. Após a escolha destes temas, são convidados facilitadores do assunto em questão e os grupos fazem as pautas da entrevista, participando como elaboradores do programa, através da locução e controle com as ferramentas de comunicação existentes na internet, como Messenger, Skype, Mural de Recados do site e blog dos programas. Esta experiência possibilita conhecer a realidade dos jovens, movimentos e estudantes universitários do estado a partir de seus territórios. A articulação dos movimentos, através da ANEPS, também contribui no fortalecimento do debate em torno da democratização da comunicação e dos saberes dialógicos, sendo suas interações pontuadas pelo uso destas infovias na rede mundial de computadores e, através da web rádio, realizando trocas dialógicas de saberes e práticas. 

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Pontos de Cultura e Saúde: um encontro de muitas possibilidades Renata Pekelman

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nas são oferecidas, entre elas: produção em áudio e vídeo, artesanato, dança com o hip-hop ou teatro dança, poesia e poética tradicionalista, bonecos, rádio, teatro, música, carnaval e inclusão digital. Os Pontos estão em relação com todo o Grupo Hospitalar Conceição. O coletivo dos Pontos construiu os seguintes conceitos de saúde e cultura:

Saúde é qualidade de vida, acesso às necessidades básicas (alimentação, habitação, educação e lazer), relação saudável com o ambiente e estar incluído socialmente; ter saúde é ter direito às ações de promoção, prevenção e acesso à assistência qualificada. Cultura: é movimento para a vida, criação; tudo aquilo produzido pelo homem; cultura é prazer, diversão, educação, qualidade de vida para orientar sua intervenção. Os projetos dos Pontos de Cultura são de três anos. Neste tempo, as relações comunitárias entre serviços de saúde e as instituições que abrigam os Pontos ampliaram-se. A experiência intersetorial pôde trazer novas formas de cuidado para a produção de saúde, em que a cultura e a arte são elementos especiais para a compreensão das necessidades e potencialidades da população. 

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foto: Arquivo do Ponto de Cultura

Olhar para a cultura e os movimentos culturais como espaços de produção de saúde, vai ao encontro de um conceito de saúde que traz consigo a complexidade da vida cotidiana influenciando o estado de saúde da população. A experiência aqui relatada tem a ver com este encontro, fundamentado na promoção da saúde, em que a intersetorialidade é chave e conta com a ampliação das ações de saúde, da cidadania e participação social. Em 2004 o Ministério da Cultura (MinC) lançou o Programa Cultura Viva, surgindo os Pontos de Cultura. O objetivo é fomentar as iniciativas locais de grupos e movimentos culturais, financiando e promovendo as comunidades. Em 2008, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), de Porto Alegre/RS, lança sua política cultural, pois já realizava ações em saúde vinculadas a práticas culturais (artesanato, grupos de dança, teatro, artes plásticas, entre outras). O GHC tem 04 hospitais, 04 serviços de saúde mental e 12 unidades básicas de saúde e a política veio para dar visibilidades às práticas. O Ministério da Saúde e o MinC constituíram uma parceria com o Prêmio Cultura e Saúde e desenvolveram a proposta de constituir uma Rede de Pontos de Cultura e Saúde com o GHC, criando 10 Pontos de Cultura em sua área de abrangência. Os projetos têm a formação como trabalho central. Várias ofici-


Para pensar o que se fala(va): sobre o Podcast Diálogos de Educação Popular e Saúde Julio Alberto Wong-Un e Sergio Ramos

Faz quase vinte anos que a internet chegou às nossas vidas. Embora exista o que se chama de exclusão digital, o certo é que circuitos culturais informais (equipamentos baratos, software livre ou pirata, “gatos” e outras formas de resistência e busca de inclusão) fazem com que cada vez mais pessoas das periferias mergulhem no aparente infinito da internet. Para bem e para mal, como acontece com toda tecnologia. Os podcasts são arquivos de áudio, geralmente em formato mp3, ou de vídeo, colocados em servidores ou sítios web. Em parte são como os programas da rádio tradicional. Somente em parte. Na verdade, os podcasts podem ser muito mais. Expressão pessoal, de pequenos grupos ou movimentos sociais... Ou até mesmo veículo de informação e propaganda de grandes corporações ou governos. Hoje todo mundo já percebeu as vantagens e potencialidades. E, é claro, há quem queira controlar e lucrar com isso. Uma vez produzidos (com um microfone barato conectado ao computador, ou com equipamento profissional) e “pendurados” na rede do ciberespaço, as pessoas podem baixar os arquivos e escutar ou assistir. Podem fazer assinatura (feed rss) para baixar automaticamente. Ou podem escutar online (streaming). Ainda, muitos podcasts são também transmitidos pelas ondas tradicionais do rádio. Outra coisa valiosa: a pessoa pode escutar, pausar, repetir, copiar, usar em eventos ou processos de educação, etc. As possibilidades são muitas e muitas.

Muitos grupos comunitários, movimentos sociais, ONGs e instituições educativas fazem uso intenso de podcasts para divulgar suas iniciativas e como apoio aos processos pedagógicos. As explicações acima, necessárias, não explicam suficientemente a experiência que foi a criação lúdica e anárquica do Podcast Diálogos de Educação Popular em Saúde, que produzimos ao longo de mais de 1 ano - entre 2008 e 2009. Nós nos conhecemos na troca de textos intensos que foi a lista da Rede de Educação Popular e Saúde (EDPOPSAUDE no serviço de Grupos Yahoo). Essa lista, ainda existente, foi evoluindo como todo sistema complexo e vivo: teve nascimentos, crescimentos, clímax, brigas, desgastes, fisiologismos, envelheceres, burocratismos, etc. Hoje é mais uma lista de troca de informacões. Parte da vida. Os que fomos não somos mais os mesmos. Fazemos outras coisas. Embora às vezes acompanhemos as caminhadas atuais. Lá nos conhecemos e ficamos amigos. Sem nunca termos nos encontrado “ao vivo”. Mas nessa nossa Rede os encontros reais acabam acontecendo. E depois ficamos mais amigos ainda. Amigos dessa qualidade rara de “jam session”: a improvisação intensa, rápida e criativa - uma embolada nordestina

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Para pensar o que se fala(va): sobre o Podcast Diálogos de Educação Popular e Saúde

- recheada de humor, riso, poesia e ironia. E aí um de nós - Julio - já brincava de fazer podcast (o CHIFA Carioca, em espanhol, que teve 25 programas produzidos). E talvez em São Carlos, em um encontro nacional de educação popular, inventamos de fazer o Diálogos. Deslocando-se desde a Ilha até o “cafofo” onde estavam microfones e mesa de mescla e computador na Tijuca fomos gravando de forma caótica - no começo - e depois com um espírito interiorizado (temas, músicas, tom das conversas, e muita improvisação). Os programas duravam mais ou menos uma hora. Por vezes se alongavam demais e tínhamos que dividir em dois programas. Ao todo foram produzidos 13 programas. E parou. Parou por quê? Porque a vida anda sempre pelo caminho outro, esse dos trabalhos e problemas e decisões e responsabilidades. Porque, como disse Jose de Souza Martins sobre a Regimar e seus amigos crianças, as brinca-

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deiras e as rodas só se fazem no fim do dia, como um tempo que está acabando. Mas, magia do podcast, o que ficou ficou. E vai sendo usado ainda por parceiros conhecidos e desconhecidos. Por amigos de antes, de agora e do depois. Nunca tentamos sequer transformar o Diálogos em veículo oficial da Rede WDPOPSAUDE. Até porque o nosso tom era de ironia demolidora, com a missão nobre de impedir a criação de ídolos ou heróis idealizados dentro da Educação Popular e Saúde. Missão difícil que cumprimos disciplinadamente apesar das caras feias dos colegas (brincadeira). A música, paixão compartilhada, foi componente fundamental e não somente acessório. A partir das musicas definíamos temas e comentários. Dialogávamos com as músicas como se fossem mais uma pessoa produzindo os programas. No fundo - bem no fundo, como dizia o Sergio - fazíamos sim educação popular. Na forma que os dois

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encaramos os saberes e as práticas: com leveza e humor, afastando toda solenidade, e toda linearidade no pensamento. E acreditando que a improvisação dialógica é uma arte. É difícil explicitar quais foram os temas e qual a metodologia que empregávamos. Mas a verdade é que as pessoas gostavam. Ainda há quem procure os programas, dois anos depois. Por isso vamos colocar eles em breve no site oficial da rede: http://www.edpopsaude.net Retorno? Continuação? Tudo é possível desde que as configurações de tempo e espaço nos acolham novamente. A experiência de inventar o Diálogos, ao longo de quase 18 meses, foi uma benção e uma alegria compartilhada. Porque, partindo de Paulo Freire, não é só criticidade e boniteza que devemos procurar. É a profunda alegria dos tolos. Aquela que abre as portas da criação. 



Saberes e Práticas: experiências de educação popular em saúde. Vol. 1