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Pa.ra [quem] se expressa || por palavras escritas || é comum recorrer ao dicionário. Es.te, [além] de ajudar a desvendar o funcionamento de palavras na linguagem, aponta outras. Fo.lhe.á-lo [não] se presta unicamente a obter material a respeito da palavra pela qual busca || Pode ser que haja palavras por lá à sua espera || Por exemplo || quando você pro.cu.ra [sinônimos] para o advérbio finalmente. U.ma [vez que] são hoje em dia menores as chances de se realizar uma || tarefa que || não seja || postado diante de || um aparelho computador || você pode valer-se das facilidades de busca em dicionários online. A.lém [da experiência] sensorial ser obviamente distinta nos dois meios, ca.da [tipo de] consulta ao dicionário promove uma || cadeia || de acontecimentos || que || devem ser observados. Vo.cê [pode procurar] pela palavra finalmente nesse volume enorme de papel || correndo o risco de || após curiosos minutos descobrindo que há em sua língua ababone ou juçana (com cedilha), per.ce.ber [que não] encontrou a palavra finalmente. Juçana e ababone são realmente novas aquisições para seu re.per.tó.rio [de bonitos] conjuntos de sílabas. Ao contrário do que mentes ligeiramente mais românticas que a sua poderiam afirmar || você não acredita que a busca digital || mais rápida || retiraria a admissível espontaneidade de desviar entre verbetes. Pro.va [disto é] que essa rápida tarefa trouxe a surpreendente frase a palavra finalmente não foi encontrada || A vantagem dos formulários que já há muito nos [acostumamos] a preencher ao realizar cadastros e buscas na internet é o aparecimento de combinações meio aleatórias de palavras. Com sor.te [você] as encontra articuladas numa frase. A palavra finalmente não foi encontrada.

Cla.ro, [a palavra] finalmente vem destacada no meio da frase || em negrito || e poderia ser sublinhada. Mas o que mais o satisfaz é a falta de aspas. Porque elas, quando presentes, promovem uma intervenção a.brup.ta [uma mudança] de ritmo || assim como o fazem as vírgulas || os travessões || os pontos e vírgulas. Ao reler a frase, se a palavra finalmente estivesse en.tre [aspas quase] nada aconteceria. Mas sua falta promove esse acidente. Ge.ra-se [uma frase] que adquire outro sentido. A palavra finalmente || este advérbio que em geral modifica outras palavras ou frases || não estaria ali funcionando || mas apenas presentificando-se. As aspas erigiriam em torno de si sua típica muralha gráfica, esse portal para outra dimensão meio que fora do texto || O simples negrito pode destacar, mas no máximo demarca || dramatiza || não é violento como podem ser as aspas || A frase com o finalmente sem aspas, entretanto, abre sutilmente a percepção para outro lugar || Se ela é uma palavra ou um advérbio, poderá haver a dúvida e esse acidente trazer um frescor de poesia no meio do tão sisudo texto lexicográfico. Essa defesa da fal.ta [de aspas] pode se estender para uma defesa à falta de pontuação e à construção de frases longas. Algumas reg.ras [de redação] sugerem que as frases sejam concisas e curtas || pois isso conferiria clareza ao que se deseja dizer || Se as vírgulas ajudam a sugerir uma res.pi.ra.ção [para o texto] elas também podem interferir na respiração do leitor || Poupar pontuação dá a cada leitura um ritmo cardíaco || uma vez que o tamanho dos pulmões e o estado de repouso ou movimento de quem lê estampar-se-á automaticamente na página se as divisões são mais sutis. Fra.ses [também] podem ser pontuadas pelas próprias palavras || A me.di.da [para o] tamanho de versos de um poema é o metro || O dicionário || pode-se dizer || dá uma medida da palavra || Com sorte o sig.ni.fi.ca.do [é tão inesperado] que o faz procurar pormenores daquela definição em enciclopédias. Dessa maneira você descobre o que aconteceu na história do metro || Este é uma unidade de medida de comprimento do Sistema Internacional de Unidades || Foi definido em 1832


como sendo a décima milionésima parte do trajeto que sai da linha do Equador, perpendicularmente, em direção a um dos polos da Terra. Ou seja, ele equivaleria à quadragésima milionésima parte da circunferência terrestre, então medida em laboratório. Estava criado || pois || um sistema de medida que veio suprir a necessidade de uma unidade de comprimento não arbitrária e que estabelecesse um padrão internacional, que melhoraria as relações comerciais entre nações. Em 1889 a primeira Conferência Geral de Pesos e Medidas estabeleceu || assim || o metro padrão: uma barra de platina iridada conservada em condições de temperatura ideais no Bureau || Internacional de || Pesos e Medidas || em Sèvres. Os instrumentos de medição deveriam considerar esse padrão e os países deveriam ter || seus || metros || padrões baseados || no || que || encontra-se conservado nas proximidades de Paris numa câmara a 0 o Celsius || Para isso os métodos de comparação deveriam ser os mais ficazes || Em 1975 15a Conferência Geral de Pesos e Medidas fixa a recomendação de uso da velocidade da luz medindo 299792458 metros por segundo || À época percebeu-se que a medição da circunferência da Terra não havia levado em consideração as irregularidades de sua superfície || Com isso era desejoso estabelecer um outro padrão que fosse mais reprodutível e exato || Para não interferir no padrão há tanto tempo estabelecido (que, inclusive, interferia no valor da própria velocidade da luz em metros por segundo) || a 17a Conferência || Geral || de Pesos || e Medidas || em 1983 || decidiu por mudar a definição do sistema métrico || Sabe-se a.tu.al.me.nte [que] a quadragésima milionésima parte da circunferência da Terra mede 1,0018 metro – o que seria o real valor do metro caso sua medida fosse corrigida. Mas para isso || todas || as || outras || convenções e medições da astronomia e geodésia deveriam ser também modificadas. Era mais viável manter a imperfeição do metro e para isso mudar sua definição || Se em um segundo a luz percorre 299792459 metros, isso significa que o metro só podia ser do tamanho da distância percorrida pela luz numa fração de se.gun.do [correspondente] a 1/299792458 do segundo. Os sub.múl.ti.plos [e múltiplos] do metro vão do yocotômetro ao yottametro, no Sistema In-

ternacional. Ao se per.ce.ber [a necessidade] de marcar distâncias menores do que o que era medido até então || inventou-se o ångström || que equivale [a dez] elevado a menos dez metro, com o que [se mede] o espaçamento interatômico em ma.té.ria [condensada] e os comprimentos de onda da luz. O ångström não faz par.te [do Sistema] Internacional de Medidas || Porque esse sistema não o aceita? || Porque é nomeado como homenagem dada ao físico sueco Anders Jonas Ångström? || Dar o nome de uma pessoa a um submúltiplo do metro talvez soe ar.bi.trá.rio, [indo de] encontro aos preceitos do Bureau Internacional || Se o metro é um equipamento de medição não arbitrário que vem substituir as braças || os pés || as polegadas || porque incorpora uma imperfeição na origem de sua definição? Is.so [parece] ter a ver com arbitrariedade || Segundo dizem, medida é o processo que busca a obtenção || de || quantidade do mundo físico || Você pode pensar sobre o fato disso se pa.re.cer [com a ideia] que tem de sensação || Medida e sensação parecem avizinhar-se || principalmente em sistemas mais arbirtrários || A polegada || além de ser uma unidade fixada em 2,54 centímetros, pressupõe o uso do cor.po [para se] obter quantidades do mundo físico e, mais, pressupõe o tato. Qual é a medida da sensação? Para o dicionário, a psicopatologia entende a palavra sensação como sendo o mesmo que alucinação.


caro w, engraçado, escrever-lhe depois desse tempo, há tanto que não nos vemos. você nem sabia, acho, que certa vez me referi a você contando um fato certamente esquecido, mas de que eu sempre me lembro. desde há muito tenho uma propensão a deter minha atenção às coisas mais discretas e atribuir-lhes um calor, uma memória, um valor estético. não me pergunte porque, ou como, ou se isso é uma escolha – pode ser que em algum momento isso se tornou mais claro e que, sim, eu tenha iniciado um processo mais consciente que envolva a valoração de elementos fragmentados e desimportantes em busca de uma estética. o fato é que há uns bons anos você lia uma lista de tarefas, em seu caderno, que continha tarefas como buscar o xerox na copiadora que haveria de biblioteca, fazer o sacolão. o que eu acho mais bonito nesse tipo de lista é que há uma ordem que só existe para quem escreveu. lembretes que alguém escreve para si mesmo podem ser enigmáticos se outra pessoa lê. é uma espécie de intimidade, registrada em palavra, que alguém tem só consigo mesmo. os itens de uma lista como essa não seguem uma hierarquia ou categorização evidentes. quem redige a si mesmo um bilhete ou uma lista de atividades obedece ao tempo de sua própria ansiedade ou mesmo intuição sobre lista, conferia o que já tinha sido feito e o que ainda estava por fazer. eu me lembro mui-

conferia não me recordo mais, evidentemente, mas cheguei a comentar como eu achei bonitos juntos na mesma página, como parecia ser um lapso completamente inesperado de poesia latente. nenhuma relação eu tinha com aquelas palavras, eu estava livre para percebê-las de uma forma bem distinta do uso que você atribuíra-lhes. lembro-me de você achando aquilo um disparate, comparando isso a poesia. você se lembra? quem sabe não nos encontramos em breve e conversamos sobre essa época? um abraço, m


oi M, tudo jóia? Que bom saber notícias suas, quanto tempo... Eu me lembro sim que vc gostava de bisbilhotar alguns rabiscos que eu fazia, como se fossem literatura ou desenhos de arte. Eu realmente não entendo muito seu entusiasmo, mas desde essa época você é um artista, então deve fazer algum sentido, ou não... Eu tenho essa mania de anotar as coisas que de riscos repetidos de caneta. Quando a tarefa foi muito custosa, deu muito trabalho ou encheu o saco o risco sai bem forte, com raiva, quase rasga o papel. É engraçado porque depois de conferir se tudo foi feito, a gente joga fora o papel. Vamos encontrar no aniversário da L? O pessoal todo da escola vai aparecer, um abraço, W


dear P, é com certo receio, mas também alívio e vontade de prolongar o acontecido, que escrevo e eu registramos nossas conversas, logo na primeira pergunta, quando quero tematizar a ‘delicadeza’ - como qualidade, como estratégia, como ética criativa, como forma de "conversei uma vez com um amigo e ele me dizia que entendeu a "dimensão da delicade o comovia. ele entendeu esta escala, esta condição mínima, esta precisa intensidade". se você consultar sua memória, vai encontrar, meses atrás, C., você e eu almoçando no ed. maletta, no centro de Belo Horizonte, após passearmos e nos reunirmos no museu. estamos rindo, bebendo, as frases nos aproximam ... é ótimo o encontro entre nós 3, de certa forma inaugural, e num determinado momento, quando conversávamos sobre um trabalho da RN, e eu falei alguma coisa sobre a delicadeza com que ela procede, sempre, na escolha de materiais e gestos, no investimento sensível de cada trabalho, etc, e você me respondeu falando que se interessava muito nesta idéia/proposta da delicadeza, em via uma exigência ao toque de ser muito preciso e delicado. detalhista, como convém ao se falar da delicadeza, vc falava com o indicador tocando o polegar, levemente traçava linhas imaginárias naquela tarde com as mãos, movendo-as calmas e seguras, modulando nuvens... seu relato dedicado dos primeiros banhos, o trato com o umbigo, a cabeciuma outra ordem, outra qualidade de percepção... muito mais que uma escala reduzida, a delicadeza constitui um partido estético (com suas amplas repercussões), concluímos em convicção. e, por resposta à breve percepção de que nós três de certa forma alinhávamos nosso desejo nessa direção, produziu-se uma faísca. tudo isso, talvez, tenha sido quase imperceptível, mas se resguarda como marca do afeto. então sinto que devo te agradecer por participar, por compartilhar. receba, uma braço , J


querido J. estou pra lhe escrever há dias, mas precisei viajar para uma fazenda do séc. 18, para uma gravação com águas e pedras que me deixou com uma certa ressaca sensorial. uma puta experiência, nova, com o espaço. eu me lembro desse encontro com C. e das nossas conversas sobre a armadilha arte/vida. era véspera da nossa exposição e você sempre presente. época. a delicadeza é algo que segue, talvez por associá-la justamente às mudanças, aos começos. uma imagem recorrente hoje é a da vida como um sopro contínuo, frágil, sempre disponível, inesgotável. tal sopro, se experimentado com a devida sensibilidade, pode se transformar em vendaval, arrastando coisas da pesada, fazendo a vida passar por cada poro. vejo que muitas vezes a obra de arte é apenas um exercício de aproximação ou de sensibilização para que a verdadeira experiência estética aconteça, atravessando tudo, atualizando o corpo. para nós que colhemos o sensível, as medidas se tornam caras. a delicadeza opera a delicadeza bruta, sem gorduras. o corpo, pescoço, umbigo pedem o toque, a mão, o amor. se não damos amor a uma criança ela morre. essa delicadeza brutal que o corpo da criança pede e que depois expressa é uma medida que me comove. a experiência da criação está em todas as crianças, latente. talvez quando aprendermos a contabilizar os ecos de uma infância saudável teremos mais tempo pra ela. não consigo encontrar outro lugar tão fértil para uma revolução do pensamento. às vezes me sinto aprendiz de criança, querendo mais distância da truculência que sobeja por aí. forte abraço, P.


ILUMINURAS ii , de júlio martins e marco antonio mota tiragem de 100 exemplares encadernados à mão, numerados e assinados belo horizonte, 2011-2012

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