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um arboretum português

A portuguese arboretum

Histórias que fugiram das árvores Stories that ran away from trees

Su sa na N e v e s

Susana Neves

que fugiram das árvores

Histórias

um arboretum português

Stories that ran away from trees

A portuguese arboretum


Editor • Publisher © By the Book

Título • Title Histórias que fugiram das árvores. um arboretum português Stories that ran away from trees. a portuguese arboretum

Texto e fotografia • Text and photographs © Susana Neves

Tradução • Translation Miguel de Castro Henriques

Revisão • Proof reading By the Book

Tratamento de imagem • Photo edition Maria João de Moraes Palmeiro

Design Forma, design: Margarida Oliveira

Coordenação editorial e produção • Editorial work and production Ana de Albuquerque • Maria João de Paiva Brandão

Impressão • Printing Peres-Soctip, Indústrias Gráficas, SA

isbn 978-989-8614-03-2

Depósito legal • Legal Deposit 347895/12

Edições Especiais, lda Rua das Pedreiras, 16-4º • 1400-271 Lisboa • Portugal T. + F. +351 213 610 997 info@ bythebook.pt • www.bythebook.pt


Prefácio • Foreword A árvore reinventada • The reinvented trees Buganvília | Bougainvillea

8

Magnólia | Southern Magnolia

14

Coqueiro | Coconut Palm

20

Tuia | Western Red Cedar

26

Laranjeira-da-China | Sweet Orange

32

Amoreira | White Mulberry

38

Amendoeira | Almond

44

O disfarce de pataguinha • Pataguinha’s disguise A noiva do escaravelho • The scarab beetle's fiancée Orelha de coco • Coconut ears A árvore do totem • The totem tree O Sol no copo • The sun in the glass A grande veloz • Big fast tree A temerária doce • Sweet reckless Nuvem de copas • Treetops cloud

Árvore-do-fogo | Illawarra Flame Tree

52

Tília | Small-leaved Lime

58

Faia | Common Beech

64

Castanheiro-da-Índia | Horse Chestnut

70

Pinheiro-manso | Stone Pine

76

Mimosa | Mimosa

82

Olaia | Judas Tree

88

Ameixeira | Plum

94

Figueira | Fig Tree

100

Freixo | Ash

106

Lódão | European Nettle Tree

112

O espelho escarlate de Gurangatch • The scarlet mirror of Gurangatch O sangue de dragão não vence a árvore da dança • Dragon's blood cannot defeat the tree of dance Rainha com pés de elefante • The Queen with elephant feet As estrelas são verdes como balas • The stars are green like bullets O chapéu do touro • The bull's hat A grande colonizadora • The great colonizer A justiça das olaias • The Judas tree's justice O eclipse da rainha • Queen’s eclipse A vida por um figo • My kingdom for a fig Dormir à sombra da espada • Sleeping in the shadow of the sword O Príncipe discreto • The discreet Prince O bosque audível • Talking forest

Sobreiro | Cork Oak

120

Plátano | Oriental Plane

126

Amieiro | European Alder

132

Aveleira | Hazel

138

Sabugueiro | Elderberry

144

Medronheiro | Strawberry Tree

150

Carvalho-cerquinho | Portuguese Oak

156

Marmeleiro | Quince

162

Metrosídero | Pohutukawa

168

Alfarrobeira | Carob Tree

174

Araucária | Norfolk Island Pine

180

Eucalipto | Blue Gum Tree

186

A árvore que escreve • The writing tree O presente grego • The Greek gift A embriaguez da água • Water’s drunkenness A serpente ao colo • A serpent in the lap Sambuque antes que trambuque! • You ought to sunbook before you trancebook! O cálice da maior borboleta • The goblet of the largest butterfly Sua Majestade a bolota • Her Majesty the tusk Marmelada com flúor • Marmelade with fluor A árvore que se ouve de longe • The tree that can be heard from afar A adamantina algarvia • The Algarvian adamantine As antenas do vulcão • The volcano’s antennas O colosso e o mosquito • The colossus and the mosquito


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A vida por um figo My kingdom for a fig Ao taparem o sexo com folhas de figueira, Adão e Eva inscreveram o Paraíso na História da moda. Original e totalmente ecológica, a primeira roupa interior confirmava, antes de mais, o espírito de invenção do ser humano face a novas dificuldades, mas a leitura canónica do texto bíblico associou a árvore-símbolo da fertilidade à vergonha do corpo. Alimento preferido dos atletas e filósofos na Antiguidade Clássica (Platão recebeu a alcunha de “o comedor de figos”), proscrito pelos herbalistas medievais, entre eles, a temível Santa Hildegarda de Bingen que o considerava uma fruta quente desaconselhável às pessoas saudáveis por lhes estimular a soberba, o figo (do latim "ficus"; em grego "sykon", sícone) suscitou tanto a cobiça como o medo. "Em tempo de figos não há amigos", lembra o provérbio português, e no conto popular A Menina e a Figueira, o roubo de um figo legitima a madrasta a enterrar a enteada viva, deixando de fora apenas os seus cabelos. Da mesma família das amoras, a figueira comum – disseminada em Portugal e no Mediterrâneo – foi durante séculos uma árvore enigmática, capaz de dar fruto abundante sem que se lhe conhecesse a flor; de facto, só no século XVIII se percebe que o figo é uma inflorescência e os “caroços que estalam sob os dentes” o seu fruto.

When they covered their genitals with fig tree leaves, Adam and Eve inscribed Paradise in the History of fashion. Original and absolutely ecological, the first underwear, first and foremost, confirmed the spirit of invention of human beings when confronted with new difficulties. However, the canonical reading of the Bible associated this tree, which is a symbol of fertility, with body shame. Favorite food of athletes and philosophers from classic Antiquity (Plato was nicknamed “the fig eater”), prescribed by medieval herbalists, including the fearsome Saint Hildegard of Bingen who considered it a hot fruit not recommendable for healthy people because it stimulates their haughtiness, the fig (from the Latin “ficus”, in Greek “sykon”, sicone) aroused fear as well as greed. “During fig season, there are no friends”, recalls a Portuguese saying, and in the popular tale The Girl and the Fig tree, the theft of a fig enables the stepmother to bury alive her stepdaughter, only leaving out her hair. From the family of blackberries, the common fig tree, widespread in Portugal and the Mediterranean, during centuries remained an enigmatic tree, bearing abundant fruit though the flower was not seen: as a matter of fact, only in the 18th century it was finally understood that figs are inflorescences and the seeds “that crack under the teeth” are their fruit.

F IGUEIRA | FIG TREE 101 Ficus carica L.


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Como se não bastasse, a madeira demasiado frágil ao arder surpreendia por exalar um fumo acre picante, extinguindo-se em cinzas produtoras de lixívia da melhor qualidade. Quanto ao figo, ao ser arrancado, libertava, tal como os seus ramos, um misterioso suco branco (látex) com o qual se escreviam mensagens invisíveis e se coalhava o leite. Com figos alimentavam-se os gansos, conseguindo assim engordar-lhes o fígado e produzir uma pasta antecessora do foie gras. Se o poeta simbolista francês Saint-Pol-Roux vira na figueira um “troféu de orelhas de elefante”, na Antiguidade, o desenho das folhas desta Moraceae, proveniente da Turquia e do Iraque, evocava o sexo masculino e o suco leitoso, o esperma. No sícone, os romanos e os gregos, reconheciam semelhanças com os testículos, mas uma vez aberto julgavam encontrar a vulva. No dia 7 de Julho (Nonae Caprotinae), em Latium, Roma, as escravas eram libertas para celebrarem o poder de Juno, Deusa da Fertilidade. Debaixo de uma figueira brava (caprifigo) jogavam, comiam, agrediam-se com pedras e abusavam umas das outras. Consagrada também a Dionísio, protector dos Jardins, e a Príapo, deus grego da fertilidade, a partir da sua madeira esculpiam-se grandes falos que integravam os desfiles de homenagem a estas divindades. Quem tinha uma figueira possuía uma parte do Paraíso, a cultura politeísta exaltava-a, as leis preservavam o monopólio estatal: em Atenas, na Grécia, punia-se com severidade quem roubasse árvores sagradas ou vendesse figos para o estrangeiro, premiava-se a denúncia, os sicofantas eram literalmente os “delatores de figos”. Por outro lado, qualquer figueira nascida num templo romano pertencente às vestais, sacerdotisas virgens, teria de ser abatida e uma nova construção executada noutro lugar. Embora considerada "impura" e atraindo alguns suicidas a enforcarem-se, uma ideia sugerida porventura pela prática da “caprificação” (suspendiam-se figos silvestres nos ramos das árvores mansas para facilitar a polinização), a figueira era uma dádiva divina. O ódio a esta arbor felix, o medo de cheirar o perfume das suas folhas, o arrepio perante os seus troncos despidos no Inverno, a caricatura de ver neles uma caveira na noite de Lua cheia, de que fala António Nobre no poema Os Figos Negros ➀, remonta a uma interpretação literal de episódios narrados no Novo Testamento, entre eles, o momento em que Jesus Cristo amaldiçoa uma figueira por esta não ter frutos numa época em que não era suposto tê-los, deixando-o com fome.

Moreover, as if that was not enough, its wood, too fragile while burning, brought about surprise because after extinguishing itself it exhaled a bitter and pungent smoke, subsequently producing a top class bleach. As regards the fruit, when it is plucked (the same happens with its branches) it exudes a mysterious white juice (latex) used to write invisible messages and curdle milk. Geese were nourished with figs, thus fattening their liver to produce a paste which was foie gras precursor. If the French symbolist poet Saint-Pol-Roux saw in the fig tree a “trophy made of elephant’s ears”, in Antiquity, the leaves’ shape of this Moraceae, coming from Turkey and Iraq, evoked masculine genitals and its milky juice, sperm. In the sicone both Romans and Greeks recognized similarities with the testicles but once it was open they thought they were seeing the vulva. In the 7 of July (Nonae Caprotinae), in Latium, Rome, female slaves were freed to celebrate the power of Juno, Goddess of Fertility. Under a wild fig tree (Caprifigo) they played, they ate, and they aggressed each other with stones and abused each other. It was consecrated to Dyonisos, protector of Gardens and to Priapus, Greek god of fertility. From its wood large phallus were sculpted to incorporate parades honoring these divinities. Whoever owned a fig tree owned a part of Paradise, thus the polytheist culture exalted it, and Law preserved the state monopoly: in Athens, Greece, whoever robbed sacred trees or sold figs abroad was severely punished. The sycophants were literally the “figs whistleblowers”. On other hand, any fig tree born in a Roman vestal temple, (the virgin priestess temple), had to be felled and a new edifice built in some other place. Though considered “impure” and able to attract candidates for suicide to hang themselves on it, an idea that came perhaps from the practice of caprification (wild figs were suspended on fig trees branches to facilitate pollination) the fig tree was a divine gift. The hatred of this arbor felix, fear of inhaling the perfume of its leaves, and the thrill of facing their naked branches in Winter, and the caricature of seeing in them a skull in a full Moon night, goes back to a literal interpretation of episodes from the New Testament, namely when Jesus Christ curses a fig tree that had not fruit in a season in which it was not supposed to have them, leaving him hungry. Published in his book Só, in 1892, António Nobre’s poem ① faces hatred “from avuncular centuries” with a voice that questions all

F IGUEIRA | FIG TREE 104 Ficus carica L.


Publicado no livro Só, em 1892, o poema de António Nobre confronta o ódio "desde séculos avós", com uma voz que põe em causa todas as maledicências. Diz o senso comum: "Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente! O goivo é mais feliz, todo amarelo, lá. Ninguém te quer: tua madeira é unicamente Utilizada para as forcas, onde as há...". Contrapõe o poeta: "Que más criaturas! que injustas sois todas Que injustas que sois! Será de figueira meu leito da bodas... E os berços, depois". Na novela, O Filho Natural, de 1876, Camilo Castelo Branco não se

slanders. Common sense says: “Woe to thee! Woe unto thee! O mournful fig tree grove! The wallflower is happier, all yellow, there Nobody wants you; your wood is only used for gallows, wherever they are...” The poet contradicts: “O, what evil creatures! How unjust are you all How unjust! My nuptial bed will be made of fig tree wood... and so the cradles, afterwards.” In the novel O Filho Natural, 1876, Camilo Castelo Branco does not forget to recall that “going from the oratory to the scaffold where he was going to be beheaded” Fernando, Third Duke of Bragança “asked for figs and wine.”

esquece de lembrar que ao "passar do oratório ao cadafalso", onde viria a ser degolado, D. Fernando, terceiro Duque de Bragança,

① António Nobre, Só, Léon Vanier, Paris, 1892.

"pediu figos e vinho". ➀ António Nobre, Só, Léon Vanier, Paris, 1892.

F IGUEIRA | FIG TREE 105 Ficus carica L.


A árvore

Um sobreiro equilibrado desrama-se sozinho: decide qual o ramo que quer eliminar e protege a ferida envolvendo-a em cortiça. Quando, por erosão do solo, sente as raízes expostas usa a mesma estratégia: cobre-as de cortiça. Um sobreiro não pode ser reduzido a uma simples máquina de produzir cortiça de nove em nove anos, para benefício de produtores, industriais e consumidores. Espécie autóctone em Portugal (e em todo o Mediterrâneo ocidental), o Quercus suber L., de aparência rústica, soube muito bem adaptar-se às necessidades da Lusitânia, entre outras coisas propiciando a conservação do vinho (através da rolha) e o apuramento da gastronomia (as bolotas ou landes sempre deram a melhor carne de porco). Da família das Fagaceae, o sobreiro é uma árvore complexa e empática, capaz de servir de bóia de salvação (os coletes dos pescadores eram em cortiça) ou contribuir para a prosperidade de quem o souber aproveitar sem excessos. É o que acontece na Herdade dos Leitões, na Charneca de Montargil, onde a gestão moderada do montado de sobro contribui também para a sobrevivência de alguns dos sobreiros mais notáveis de Portugal. Desde o “Chaparrinho da Cruz”, que há 200 anos terá testemunhado o assassínio de um padre (por isso, cada vez que se tira a cortiça com um machado, fazem-se dois cortes para representar uma cruz), à “Sobreira da Assomadeira”, uma árvore gigante com mais de 500 anos que poderia ter conhecido Camões caso ele tivesse procurado o seu recolhimento — lembro que o escritor francês Marcel Proust escreveu as dez mil páginas de Em Busca do Tempo Perdido num quarto insonorizado com cortiça.

que escreve

The writing tree

A balanced cork oak is able to prune itself and to decide which branch it wants to get rid of and afterwards to protect the wound wrapping it with cork. When, due to soil erosion it feels its roots exposed, the cork oak deploys the same strategy, wrapping them with cork. Anyway, a cork oak cannot be reduced to a simple machine of producing cork every nine years for the benefit of producers and industrialists, entrepreneurs and consumers. A native species in Portugal (and also in all the western Mediterranean) the Quercus suber L., of rustic appearance, knew quite well how to adapt itself to Portugal’s needs, among other things, enabling wine conservation (cork stoppers) and gastronomical improvements (oak’s acorns provide the best pork meat). From the Fagaceae family, the cork oak is a complex and empathic, flexible tree. It can either serve as a life buoy (fishermen’s lifejackets were made of cork) or contribute to the prosperity of all those who know how to exploit it without excess. That’s what happens in Herdade dos Leitões, in Charneca de Montargil, where moderate management of cork oak forest contributes to survival of some of the more remarkable cork trees in Portugal. Namely, “Chaparrinho da Cruz”, which 200 years ago probably witnessed a Priest’s murder (thus each time cork is removed from this tree, two cuts representing a cross are made with an ax) and “Sobreira da Assomadeira”, a giant tree more than 500 years old under whose shade Camões might have sat – I also recall the French writer Marcel Proust who wrote the 10.000 pages of In Search of the Lost Time in a sound proof room layered with cork.

SOBREIRO | CORK OAK 120 Quercus suber L.


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Voltando às Herdades dos Leitões e de Montalvo – cujos montados de sobro progrediram através da cooperação entre o seu antigo proprietário João Lopes Fernandes e os engenheiros agrónomos e silvicultores Joaquim Vieira Natividade e António José Sardinha de Oliveira, bem como de todos que seguindo os seus ensinamentos semearam sobreiros onde outrora havia matorrais, podaram os chaparros já não em forma de taça mas de fuste elevado para obtenção de uma prancha de cortiça de melhor qualidade e souberam evitar excessos no descortiçamento –, é nesta vasta propriedade que se encontram ainda alguns sobreiros que sobreviveram ao devastador ciclone de 15 de Fevereiro de 1941.

Herdade dos Leitões and Herdade de Montalvo have large cork oak forests. They were developed thanks to cooperation between João Lopes Fernandes, his owner, and renowned agronomists Vieira Natividade and Sardinha de Oliveira, as well as all who following their teachings have sown cork oaks where formerly there were only bushes, and pruned young cork oaks not in a bowl-shaped form but in shaft to obtain better quality cork boards. On this large estate some cork oaks which withstood the devastating 1941 cyclone can still be found. “With the 1941 cyclone, two thousand trees fell down and my grandfather ordered their stems to be covered with soil to see what might happen. They said he was crazy,

S OBREIRO | CORK OAK 122 Quercus suber L.


"O ciclone de 1941 derrubou duas mil árvores, o meu avô mandou cobrir a zona do colo dos sobreiros com terra a ver o que acontecia. Diziam que estava louco, mas houve uma grande percentagem que sobreviveu prostrada", conta João Pereira Lopes, Presidente da Fundação João Lopes Fernandes, amável e muito sabedor anfitrião da minha visita a Montargil, que de início tinha como único objectivo conhecer a árvore referida no documentário Três pessoas e um sobreiro, realizado por António Menezes, em 2004. Transplantado no dia 19 de Agosto de 1957 por Vieira Natividade, na presença de João Lopes Fernandes e Sardinha de Oliveira, símbolo da amizade e da "devoção suberícola" que os unia, este "sobreirito

but many of them survived” remembers João Pereira Lopes, president of João Lopes Fernandes’ Foundation. This gentleman, was my knowledgeable host during my visit to Montargil, which initially was for the sole purpose of meeting the tree referred in the documentary Three people and a cork oak, directed by António Menezes, in 2004. Transplanted in August, 19, 1957, by Vieira Natividade, in the presence of João Lopes Fernandes and Sardinha de Oliveira, a symbol of the friendship and the “cork oak devotion” which united them, this cork oak, “reaching a bit more than three hand spans” now stands 12 meters tall.

S OBREIRO | CORK OAK 123 Quercus suber L.


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A

e r o v r á

d e l e o v n u o e s que

e r t e Th Lançada a âncora junto à Baía de Opuragi, no dia 9 de Novembro de 1769, os marinheiros e a restante tripulação do Endeavour voltariam a beber água de ervas cozidas. Era uma precaução contra o escorbuto, imposta pelo capitão James Cook, enviado às Ilhas do Sul do Pacífico a fim de observar a passagem de Vénus sobre o disco solar, uma ocorrência visível quatro vezes em 243 anos. A entrada num dos últimos paraísos, desconhecido do mundo ocidental no século XVIII, levaria o súbdito da Coroa inglesa a reportar não só fenómenos astrológicos mas também a trazer inúmeras espécies botânicas exóticas, entre elas, uma árvore cujo mel é subtilmente salgado. "Pohutukawa", na língua maori, a árvore salpicada pelo mar, que os botânicos Joseph Banks e Daniel C. Solander terão visto carregada de flores vermelhas, viria a ser designada cientificamente de Metrosideros excelsa, não devido à exuberância da cor das suas flores ou ao som dos milhares de insectos e pássaros que o seu pólen atrai mas em função da resistência e dureza da madeira: do grego "metro" = útero + "sidero" = ferro; "excelsa", do latim "excelsus" = alto.

e b n a c t a h et

ge

far a rom f d

r a e h

They dropped anchor near Opuragi Bay, in November 9, 1769. Sailors and the whole crew from the Endeavour could finally drink water with boiled herbs. It was a safeguard against scurvy, imposed by captain James Cook. He had been sent to the South Pacific Islands to observe Venus crossing over the solar disc, a phenomenon only visible four times every 243 years. The entry to one of the last Paradises unknown to the western world in the 18th century, brought the British subject to report not only the astronomical event but also to bring back several exotic botanical species; among them, a tree which has a subtly salted honey. “Pohutukawa”, in the Maori language means a tree spattered by the sea. Botanists Joseph Banks and Daniel C. Solander probably saw it blooming, loaded with red flowers. Subsequently it acquired the scientific name Metrosideros excelsa, not because of its exuberant color or the sound made by thousands of birds and insects attracted to its pollen, but due to its wood resistance and hardness, from the Greek “metro”= uterus + “sidero”= iron, and the Latin “excelsus”= tall.

M E T RO S Í DE RO | P OHUTUKAWA 169 Metrosideros excelsa Soland ex Gaert.


"O metrosídero é uma árvore que se ouve ao longe", lembra Rita Alves, do Núcleo de Programação e Ambiente do Parque de Monserrate, a propósito da árvore que tem a maior copa e terá sido plantada por vontade de outro Cook, mas não da família do navegador: Sir Francis Cook, distinguido em 1870 com o título de Visconde, por deliberação do rei D. Luiz. "Quando está em flor, durante Junho e Julho, ouve-se o zumbido dos insectos" a uma grande distância do Palácio em cuja proximidade foi plantado, supõe-se que por volta de 1860, altura em que Sir Francis Cook (com o auxílio de uma equipa inglesa na qual figurava o botânico William Nevill, o paisagista William Stockdale e o mestre jardineiro James Burt, os dois últimos associados ao Kew Garden em Londres) começa a introduzir espécimes botânicas dos vários continentes. Quando não passeava pelo seu Paraíso botânico montado num burro, fumando charutos mesmo até ao fim, podia observá-lo a partir do terraço e das muitas janelas do Palácio que mandara reconstruir segundo o estilo romântico inglês. Espreitando através das janelas da sala da Índia e da sala da Música, o milionário e sua família teriam uma vista privilegiada sobre os ramos monstruosos da bela "pohutukawa", cujas raízes vermelhas aéreas chamadas espeques são a origem da palavra especado e lembram uma espécie de vassoura gigante, ao mesmo tempo rígida e delicada. Crescendo mais em largura de copa do que em altura – neste aspecto difere da espécie Northern Rãtã ou robusta (também existente no Parque de Monserrate) –, a "pohutukawa" ou Metrosideros excelsa (da família das Myrtaceae), provinha de um país nas antípodas de Portugal e era a árvore sagrada ("Tapu") dos maoris. Nas festas galantes de Sir Cook representava um emblema do seu cosmopolitismo e poder económico, à sombra da qual os convidados podiam repousar durante os quentes dias de Verão, altura em que por feliz coincidência a árvore explodia em flores vermelhas caducas, fenómeno natural tão espectacular que justificaria por si só uma festa. Numa viagem à Nova Zelândia, a escritora e jornalista Carla Maia de Almeida disse-me ter observado "a floração exuberante" desta árvore, durante Dezembro e Janeiro. "É uma árvore sobretudo costeira, mas cresce um pouco por todo o lado. A parte mais a norte da Ilha Norte é onde se encontram em maior número". M E T RO S Í DE RO | P OHUTUKAWA 170 Metrosideros excelsa Soland ex Gaert.


M E T RO SĂ? DE RO | P OHUTUKAWA 171 Metrosideros excelsa Soland ex Gaert.

Histórias que fugiram das árvores | Stories that ran away from trees  

Um outro olhar sobre as árvores, através de histórias que as ligam a pessoas, datas, sítios e acontecimentos. A different look about trees,...

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