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Lumiar

Azulejaria do Lumiar

Colours in Town

Tiles from Lumiar

Augusto Moutinho Borges

Augusto Moutinho Borges

Cores na cidade | colors in town

Cores na Cidade

Junta de freguesia do lumiar

BY THE

BOOK

BY TH E

BOOK


©EDIÇÃO EDITION BY THE BOOK, EDIÇÕES ESPECIAIS, LDA para/to JUNTA DE FREGUESIA DO LUMIAR TÍTULO TITLE CORES NA CIDADE – AZULEJARIA DO LUMIAR | COLOURS IN TOWN – TILES FROM LUMIAR © TEXTO TEXT AUGUSTO MOUTINHO BORGES REVISÃO REVISION BY THE BOOK, EDIÇÕES ESPECIAIS, LDA T RA D U Ç ÃO T RA N S L AT I O N MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES © FOTOGRAFIA PHOTOGRAPHY ADELAIDE NABAIS (p. 37 inf./ p.46 meio/middle, p.52, pp.54-55, pp.61-62, p.68 exceto 1.ª sup./ except 1.ª from top, p. 72-73 p.74 inf. dir./above right, p.75 sup. dir. meio e inf./up right middle and above, pp.76-81, p.108, p.127); PEDRO BRÁS (pp.10-13, p.17 sup. dir. e inf.esq./up right and above left, p.26 inf./bottom, p.27 sup./up, pp.29-31, p.47 inf./above, p.50 meio e inf./middle and above, pp.59­‑60 inf./above, pp.89-90, p.94 sup. e meio/up and middle, p.105, p.107 inf./above, pp.109-110, p.113 marcadas com quadrado/marked with a square, p.114, p.116 marcadas com quadrado/marked with a square, p.117 sup./up, p.118 sup. e marcada com quadrado/up and marked with a square, p.119 sup. esq. e inf./up left and above, p.121 sup. e inf. dir./up and above right, p.122, p.125 exceto inf. dir./except above right, p.126 1.ª, 2.ª, 3.ª inf./1.ª, 2.ª, 3.ªfrom bottom, p.128 dir./right, pp.129-134, pp.136­‑138, p.141, p.143 dir./right, p.145, pp.152-153, p.155, pp.157-161); SANDRA GAMEIRO BAPTISTA (p.7, p.14 1.ª e 4.ª sup./1.ª and 4.ª from top, p.17 sup. esq./up left, pp.18-20, p.21 sup. e inf./up and above, pp.32-35, p.69 sup./up, pp.71-72, pp.8385, pp.87-88, p.93, p.94 inf./above, pp.95-104, pp.111-112, p.115 esq./left, p.117 marcado com círculo/marked with a circle, p.140, p.143 esq. e inf./left and above, p.156); AUGUSTO MOUTINHO BORGES (todas as restantes, all other photos) T RATA M E N T O D E I M AG E M P H O T O G RA P H Y P O S T P R O D U C T I O N MARIA JOÃO DE MORAES PALMEIRO DESIGN FORMA, DESIGN: VERONIQUE PIPA | MARGARIDA OLIVEIRA C O O R D E N AÇ ÃO E D I T O R I A L E P R O D U Ç ÃO C O O R D I N AT I O N A N D P R O D U C T I O N ANA DE ALBUQUERQUE | MARIA JOÃO DE PAIVA BRANDÃO IMPRESSÃO PRINTING PRINTER PORTUGUESA ISBN 978-989-8614-36-0 DEPÓSITO LEGAL 418 012/16

LEGAL DEPOSIT

Coleção “Cores na Cidade” – 3.º volume Já editados: Cores na Cidade, Azulejaria de Alcântara (2013) Cores na Cidade, Azulejaria de Santa Maria de Belém (2012)

BY THE BOOK Edições Especiais, lda Rua das Pedreiras, 16-4º 1400-271 Lisboa T. + F. (+351) 213 610 997 www.bythebook.pt


Índice Contents 04

PREFÁCIO PREFACE

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AGRADECIMENTOS ACKNOWLEDGMENTS

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PALAVRAS PRÉVIAS FOREWORD

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AZULEJARIA NOS PALÁCIOS, QUINTAS, EDIFÍCIOS RELIGIOSOS, EQUIPAMENTOS ASSISTENCIAIS E DE ENSINO TILES IN PALACES, MANOR HOUSES, RELIGIOUS BUILDINGS, CARE AND EDUCATIONAL INSTITUTIONS

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Palácios e Quintas 1. Palaces and Estates (Quintas)

Palácio Angeja-Palmela 18 Palácio dos Lilases 22 Quinta dos Azulejos 26 Quinta das Camélias 32 Quinta das Conchas 36 Quinta de Nossa Senhora do Carmo 38 Quinta de São Vicente 42

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Edifícios religiosos Religious buildings

Ermida de São Sebastião 48 Igreja de Nossa Senhora do Carmo 52 Igreja de São João Baptista 56

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Equipamentos assistenciais Care institutions

Hospital Pulido Valente 62 Inválidos do Comércio 64

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Equipamentos de ensino Educational institutions

Colégio de Santa Doroteia 70 Escola Alemã 72 Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar 74 Agrupamento de Escolas Professor Lindley Cintra 76 Instituto Superior de Educação e Ciências 82 84

ARQUITETURA CIVIL CIVIL ARCHITECTURE

Mercado Municipal do Lumiar 92 Estação de Metropolitano do Campo Grande 94 Estação de Metropolitano do Lumiar 100 Estação de Metropolitano da Quinta das Conchas 102 Estação de Metropolitano de Telheiras 104

Academia Musical Joaquim Xavier Pinheiro 106 Academia Musical 1.º de Junho de 1893 107 Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro 108 Sporting Clube de Portugal 112 Fachadas e padrões Facades and patterns 114 Registos Devotional panels 120 Balaustradas, urnas, pináculos e estátuas Balustrades, urns, pinnacles and statues 124 Outros exemplos Other examples 126 134 ARTISTAS E CENTROS PRODUTORES ARTISTS AND MANUFACTURING CENTERS

Mestres e Pintores Masters and Painters 138 Fábricas, Oficinas e Ateliers Factories, Manufacturers and Ateliers 142 146 CRONOLOGIA CHRONOLOGY 154 GLOSSÁRIO GLOSSARY 158 BIBLIOGRAFIA BIBLIOGRAPHY


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PREFÁCIO PR EFACE Remontando ao século XIII a fundação do As Dom Rodrigo da Cunha Lumiar, identificada tradicionalmente na refers in his work, Lumiar Pedro Delgado Alves obra de D. Rodrigo da Cunha a 2 de abril was founded in the 13th Presidente da Junta de 1266, e formalmente documentada na century, on April 2, 1266. de Freguesia do Lumiar criação da paróquia em 1276, a Freguesia The creation of the parish manteve a sua existência ao longo dos sete was documented in 1276. séculos seguintes, subsistindo incólume à sua sucessiva inSince then the Parish has retained its idenclusão no Termo de Lisboa, no efémero Concelho dos Olitity during the following seven centuries vais e, a partir de 1886, no alargado Concelho de Lisboa. and remained within its borders after beHoje, fruto da reforma administrativa da cidade de 2012, ing included in the Outskirts of Lisbon, que agrupou as mais antigas freguesias da cidade em novas in the ephemeral Olivais municipality and autarquias recém-nascidas, o Lumiar tornou-se a mais ansince 1886 in the extended Lisbon municitiga freguesia de Lisboa em existência ininterrupta desde pality. a sua fundação. Today, as a result of the 2012 town administrative reform, which brought together Partindo dos pequenos núcleos urbanos medievais, em the oldest town boroughs on newly born torno do Lumiar, Paço do Lumiar e Telheiras, a ocupamunicipalities, Lumiar became the oldest ção humana conheceu a partir do século XVI, e para lá da Lisbon parish with an unbroken continusua vivência rural típica do Termo de Lisboa, um impulso ity since its foundation. significativo de expansão através de quintas de lazer e veraneio para as classes sociais mais abastadas da capital, polFrom small urban medieval centers around vilhando o território de casas senhoriais e palacetes. Esse Lumiar, Paço do Lumiar and Telheiras, the perfil característico subsistiria, em grande medida, até à human occupation, since the 16th century, segunda metade do século XIX , momento a partir do qual a has known a major boost through several expansão urbanística e o aparecimento de meios de transleisure estates and summer houses for porte coletivo asseguraram gradualmente a aproximação à the upper classes, beyond its typical rural malha urbana da cidade, que culminaria, já no século XX , habitat, sprinkling this area with stately com a sua integração plena na cidade e consequente redefihomes and palaces. This distinctive pronição como zona de crescimento da urbe alfacinha. file remained largely untouched until the second half of the 19th century, when urDesde muito cedo, o Lumiar tem vindo a adquirir e conban expansion and emergence of collective solidar um riquíssimo património azulejar que, apesar de transport facilities gradually assured the inúmeras vicissitudes urbanísticas, foi sendo possível conrapprochement to the town urban frameservar e registar para a posteridade. A obra que agora dawork. This would lead, already in the 20th mos à estampa traça com rigor e mestria essa evolução de century, to its full integration in town and vários séculos, assente, numa primeira fase nos elementos its redefinition as a Lisbon town growth decorativos das quintas e palacetes e da arquitetura reliarea. giosa, mas que paulatinamente foi invadindo edifícios e


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espaços públicos e particulares, em praticamente todos os pontos da Freguesia. O retrato que hoje traçamos permite assegurar um levantamento tão exaustivo quanto possível dos estabelecimentos de ensino, instituições de saúde, equipamentos culturais, instituições de solidariedade ou de natureza associativa e infraestruturas públicas de transportes, aos quais acresce a riquíssima diversidade no recurso à azulejaria na decoração exterior de fachadas da habitações particulares. Nesta que é a Freguesia do mais eminente dos olissipógrafos, Júlio de Castilho, podemos através do levantamento do património azulejar encetar uma inesquecível visita à História do Lumiar, coincidente com os períodos mais ricos dos seus sete séculos, em que evoluiu de um conjunto de comunidades que polvilhava o antigo Termo de Lisboa para a Freguesia mais populosa da cidade de Lisboa, zona de progressivo crescimento da cidade, de implantação de novos desafios urbanísticos e de nova vitalidade demográfica.

Notwithstanding several urban difficulties, since early ages Lumiar acquired and consolidated an extremely rich tile patrimony, which it has been possible to keep and record for the posterity. The work that we now publish portrays accurately this evolution along the centuries. First, tile work appeared as a decorative element in estates and palaces and religious architecture. But gradually it spread to buildings and private and public spaces in practically every segment of the parish. The picture that we present ensures a comprehensive survey of teaching establishments, healthcare institutions, cultural facilities, solidarity institutions or corporations of associative nature and transport facilities, to which it’s added the rich diversity of tiles in the exterior decoration of facades and private households. In this Parish, where Júlio de Castilho, one of the most noted olissipographer, was born and lived, through this comprehensive panorama of the tile patrimony we can start an unforgettable trip to Lumiar History and to the richest periods of its seven centuries, in which it has evolved from an assembly of communities that sprinkled the ancient Outskirts of Lisbon to become the most populous Lisbon borough, an area of constant town growth, vibrant with new urban challenges and a new demographic vitality.


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AZULEJARIA NOS PALÁCIOS, QUINTAS, EDIFÍCIOS RELIGIOSOS, EQUIPAMENTOS ASSISTENCIAIS E DE ENSINO TILES IN PALACES, MANOR HOUSES, RELIGIOUS BUILDINGS, CARE AND EDUCATIONAL INSTITUTIONS


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Palรกcios e Quintas

Palaces and Estates


No Paço do Lumiar encontram-se diversas habitações integradas em aprazíveis quintas de recreio, havendo registo de presença régia desde o tempo de D. Afonso III (1210-1279), estando atestada a existência de um Paço e extensa Quinta que foram sua propriedade, e que foram posteriormente objeto de doação por D. Dinis (1261-1325) ao seu filho ilegítimo, D. Afonso Sanches (1289-1329). No reinado de D. Afonso IV (1291-1357), o Paço e a Quinta foram confiscados pelo Rei D. Afonso IV, integrando os bens da coroa. As quintas perfilam-se ao longo do eixo viário que se inicia no Palácio Angeja-Palmela ou Monteiro-mor (atual Museu Nacional do Traje), atravessando o Paço do Lumiar, contornando a ermida de São Sebastião e continuando até Telheiras. É uma via de interligação entre zonas povoadas da cidade, mas que pelo património edificado nos transporta a um passado que medeia, essencialmente, os séculos XVIII e XIX . O Paço do Lumiar sempre foi procurado pela elite aristocrata e burguesia para residir durante o estio e calor, saindo do centro da cidade para esta zona, onde procuravam viver interligados com a natureza e os ciclos das colheitas. Neste contexto, no Paço do Lumiar e em outras artérias da Freguesia, ainda hoje se respira uma atmosfera rural ou, em alguns casos, um misto social de influência citadina, onde prédios se interligam com moradias, ora concentradas, ora entrecortadas por muros de quintas, azinhagas e baldios. De entre os muitos espaços edificados, evidenciamos, pelas linhas arquitectónicas das construções, alguns exemplos merecedores de destaque, onde se conjuga a arquitetura com a decoração azulejar. Esta pode ser de exterior, com mera função utilitária de proteção à fachada, mas também decorativa, desenvolvendo‑se, muitas vezes ciclos temáticos no interior das habitações e nos jardins que as rodeiam.

We find different types of houses in Paço do Lumiar, integrated in pleasant estates. Royal presence is recorded here since king Afonso III (1210-1279), and we can document a Palace and a large Estate which he owned. These were subsequently given by King Dinis (1261-1325) to his illegitimate son D. Afonso Sanches (12891329). During Afonso IV kingdom (1291-1357) the palace and the estate were confiscated by the King himself, and integrated into the Crown’s Estate. The estates succeed one after the other all along the axis road which begins at Palace Angeja-Palmela ou Monteiro-Mor (currently Museu Nacional do Traje), traversing Paço do Lumiar, circumventing São Sebastião Hermitage then running into Telheiras. It is an interlinking road between populated town areas, which due to its built patrimony takes us back mostly to the 18th and 19th centuries. The Paço do Lumiar was always sought by the aristocratic and bourgeois elite to spend the hot summertime. They travelled from the town center to this area, where they tried to live interlinked with nature and the harvest cycles. Thus, even today in Paço do Lumiar and other roads of this parish we can still breathe a rural atmosphere or, in some cases, a mixture of city life, with buildings interlinked with detached houses, either concentrated, or crisscrossed by farms, alleyways and waste land. Among the several built environment – for their architectural lines – there are some examples deserving highlight because in them tile decoration matches architectural design. Tile decoration can be both on the exterior, having the simple and useful function of protecting the facade, but it can also be decorative. And thematic cycles are frequently developed in the interior of the dwellings and their surrounding gardens.

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No todo, salientam-se, como já referimos, algumas quintas de recreio, estando umas bem preservadas, enquanto outras foram já devoradas pelas vicissitudes temporais do abandono e urbanizações ao longo dos séculos, sendo possível imaginar a complexidade decorativa da Quinta da Paz, hoje bastante delapidada do seu imenso património azulejar. De reconhecido valor estético e formal, pela sua autenticidade para o estudo das artes decorativas nacionais, a Quinta dos Azulejos, atual Colégio Manuel Bernardes, sobressai pelo seu notável conjunto cerâmico que decora o pátio carral e jardim intimista. Exemplar único no género em Portugal, é representativo do culto azulejar que em território nacional se interliga entre a arte de construir e da sua decoração. Embora no Lumiar os exemplares edificados sejam diversos, vamos apresentar dois palácios e cinco quintas, património representativos da combinação da arte azulejar e do espaço habitado: o Palácio Angeja-Palmela e o Palácio dos Lilases, a Quinta dos Azulejos, a Quinta das Camélias, Quinta das Conchas, Quinta de Nossa Senhora do Carmo e a Quinta de São Vicente.

All in all, as we have referred, we outline some Quintas de Recreio (leisure estates), some well preserved, whereas others were already devoured both by the hazards of neglect and urban developments along the centuries. And it’s possible to imagine the decorative complexity of Quinta da Paz, nowadays quite deprived of its large tile patrimony. Having an aesthetical and formal recognized value, and also by its authenticity, Quinta dos Azulejos, currently Manuel Bernardes School, stands out for the study of the national decorative arts by its remarkable ceramic collection that decorates the patio carral (coach yard) and its intimate garden. In its genre it’s a unique example in Portugal, representative of the tile cult that interlinks the art of building with decoration. Although in Lumiar we have diverse examples of buildings, we will present two palaces and five Quintas (estates) which are typical of the combination between tile art and living space: Palace Angeja-Palmela, Palace dos Lilases, Quinta dos Azulejos, Quinta das Camélias, Quinta das Conchas, Quinta de Nossa Senhora do Carmo and Quinta de São Vicente.


Quinta dos Azulejos ESTRADA DO PAÇO DO LUMIAR, N.º 44

Classificada IIP – Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 44 675, DG, 1.ª série, n.º 258 de 9 novembro 1962, Incluído na Classificação do Paço do Lumiar Sobre a história da Quinta dos Azulejos já muitos autores analisaram o seu património, havendo estudos desenvolvidos sob a forma de livros e artigos científicos, centrados em temáticas diferenciadas, mas interdisciplinares na abordagem, que tem como centro o património azulejar desta casa. Foi, como as restantes construções à sua volta, uma das muitas quintas de recreio de Lisboa, mas que sobressai do vulgo pela quantidade e variedade azulejar localizada no interior da habitação, no pátio carral e no jardim, enriquecidos por temas decorativos: desde representações mitológicas, religiosas, animalescas, palacianas e mundanas, representações do quotidiano (quer de interior, quer de exterior), onde não faltam as figuras de convite e a heráldica, esta dos condes de Santar, já de finais do século XIX , quando foram alguns dos seus inúmeros residentes. O seu primeiro proprietário, António Colaço Torres, era muito próximo da Casa Real, tendo recebido nesta quinta, em 1753 e 1760, a família reinante, perpetuando-se em registo azulejar tal efeméride. Em finais do século XVIII a rainha D. Maria I (1734-1816) passou aí uma temporada, assim como em finais do século XIX , o poeta António Feliciano de Castilho (1800-1875), aqui recuperou de grave doença. O jardim de recreio é de pequenas dimensões, mas muito preenchido por elementos azulejares que cobrem, quase na totalidade, os altos muros que o fecham integralmente. O espaço está dividido por um eixo central, determinado pela posição da habitação, que se desenvolve da porta até uma casa de fresco adulterada e revestida com elementos cerâmicos do século XX . Regalamos os sentidos por todo o espaço preenchido por galerias com bancos e banquetas, por colunas

Classified IIP – Public Interest Building, Decree n.º 44 675, DG, 1.ª série, n.º 258 of November 9, 1962. Included in the Classification of Paço do Lumiar Many authors have already analyzed its patrimony, and there are several studies in books and scientific papers, centered on a different thematic but with an interdisciplinary approach, that has its focus on the tile patrimony of this house. As the remaining buildings surrounding it, it was one of the many pleasure estates of Lisbon, however it stands out by the tile quantity and variety found in the interior, in the pátio carral (coach yard) and in the garden, enriched by decorative themes which include mythological, religious and animal, palatial and mundane representations of everyday life (both interior and exterior), where we find figuras de convite (invitation figures) and heraldic elements of the counts de Santar, who were some of its countless dwellers, by the end of the 19th century. Its first owner, António Colaço Torres, was very close to the Royal House, and in 1753 and 1760 he received the royal family in his estate. The ephemeris was perpetuated on a tile panel (registo). By the end of the 18th century Queen D. Maria I (1734-1816) spent there some time, as well as António Feli-

Funções atuais Current function ESTABELECIMENTO DE ENSINO PRIVADO, COLÉGIO MANUEL BERNARDES PRIVATE EDUCATIONAL ESTABLISHMENT, MANUEL BERNARDES SCHOOL

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de suporte a trepadeiras, pelos lagos e cascatas de embrechados e uma anormal variedade de temas que se entrecruzam entre cores azuladas, vinosos, roxos-manganês e coloridos ocres e verdes (ATTLEE: 2008, 109-113) . “O homem recriou este jardim, exaltando a natureza que nele cresce, e se cruzam entre a harmonia e o desalinho da vegetação, dando um sentido aos sentidos, onde o olhar, os cheiros e a audição fazem parte do jardim da Quinta dos Azulejos, abundante em temas diversificados ao natural, onde os painéis representam cenas bíblicas que se entrecruzam com fêtes galantes e cenas mitológicas” (SIMÕES: 2010). O jardim, pela sua orientação perfeita com o Norte magnético, permite dispor cada ala pela rosa-dos-ventos: Lado Oriental – o nascimento e o renascimento – Primavera; Lado Sul – plenitude do sol, do fogo e da iniciação – Verão; Lado Ocidental, declínio, da tarde, da morte – Outono; Lado Norte, passagem entre a vida e morte que renasce – Inverno (LEMOS: 2013, 8-9) . A proveniência azulejar é da Real Fábrica de Faianças do Rato, da Fábrica de Sant’Anna e Fábrica Viúva Lamego, tendo, no século XVIII, trabalhado na decoração Francisco Jorge da Costa (atribuído) e, em 1869, José Maria Pereira Cão (1841-1921), amigo pessoal do conde de Santar (D. José Pedro Paulo Melo Figueiredo Pais Amaral, 1853-1914), que também tem obra azulejar sua no interior e jardins na Casa de Santar, desenvolvendo programa decorativo no Lumiar onde sobressaem os painéis de embrechados com heráldica condal em azulejaria. Sobre este jardim, as expressões de diversos autores são unânimes, ao definir como único, todo este espaço decorativo, onde “a opulência estética não tem rival em nenhum jardim da Europa” (BOWE: 1989, 56) .

ciano de Castilho, who recovered from a serious illness here. The pleasure garden has small dimensions, but it is quite filled up by tiles covering almost completely the high walls enclosing it. A central axis determined by the position of the house divides the space, which runs from the entrance door until the casa de fresco, adultered and covered with ceramic elements from the 20th century. Our senses have a treat in all this space filled with galleries displaying garden benches and stools, by columns supporting climbing creepers, and by lakes and cascades of embrechados and an extraordinary variety of themes that are interwoven amidst bluish, vinous, manganese purple and ochre and green tonalities (ATTLEE: 2008, 109-113). “Man has recreated this garden, glorifying the nature growing in it and finding a balance between the harmony and the vegetal disorder. He also gave a sense to the senses of seeing, smelling and hearing that are part of Quinta dos Azulejos garden, which abounds in natural and diversified themes, where we find tile panels representing biblical scenes that are interwoven with gallant parties and mytho-

logical scenes.” (SIMÕES: 2010). The garden which is perfectly oriented towards the magnetic North, allows each wing to be aligned with the Compass Rose. Eastern Side – birth and rebirth; South Side – Plenitude of the sun, fire and initiation. Summer: Western Side, decay afternoon, death – Autumn; North Side, passage between death and the rebirth of life – Winter, (LEMOS: 2013, 8-9). The tiles are from Real Fábrica de Faianças do Rato, from Fábrica de Sant’Anna and Fábrica Viúva Lamego, and, in the 18th century, Francisco Jorge da Costa (attributed to) worked in the decoration and in 1869, José Maria Pereira Cão (18411921), a personal friend of the Count of Santar (D. José Pedro Paulo Melo Figueiredo Pais do Amaral, 1853-1914), who also has some of his tile works in the interior and in the gardens of Casa de Santar, and who developed a decorative program in Lumiar where we find chequed tile panels (embrechados) displaying a count heraldic. Authors who define this garden are unanimous considering it unique, as well as all its decorative space where “aesthetical opulence finds no rival in any European garden” (BOWE: 1898, 56).


Quinta de São Vicente ESTRADA DE TELHEIRAS

Exemplo das múltiplas quintas de recreio que se foram edificando e desenvolvendo nos arredores da cidade, a Quinta de São Vicente (padroeiro de Lisboa) ou do Alvito (por ter sido durante séculos propriedade dos condes-barões de Alvito) constitui-se como elemento que sobressai no espaço urbano, principalmente pela capela. Esta dependência, de portada voltada a sul, evidencia-se da linha harmónica do alçado de piso térreo e andar nobre, desenvolvida com estrema singeleza numa espacialidade horizontal. Tal como muitas outras propriedades limítrofes, sofreu de múltiplos estados de alma, desde a opulência à ruína, até que pelos anos 90 do século XX foi de novo intervencionada e devolvida à sua função social. O imóvel, quando foi mexido, já não apresentava grandes vestígios azulejares no interior, excepto fragmentos caídos pelas salas e corredores, guardados pelo seu atual proprietário, para memória futura dos espécimes decorativos existentes, sendo alguns do século XVII. É no corpo da capela, magnificamente restaurada, que os silhares de azulejos pré-pombalinos do século XVIII se evidenciam entre o ocre das paredes contornados por listeis acastanhados marmoreados e medalhões com pintura mural, alusiva ao mártir São Vicente. Os azulejos são pintados em cor azul e contornados com esponjado roxo-manganês, desenvolvendo-se um programa com albarradas e palmitos. A luz, para iluminar o interior do templo, é proveniente de um zimbório de reduzidas dimensões, mas o suficiente para refletir e expandir as cores da azulejaria. No exterior, na parede nascente e sul da capela, salientam-se duas cartelas azulejares, de finais do século XIX , com a informação “Quinta de S. Vicente”.

As an example of the many leisure estates that were built around town, the Quinta de São Vicente (Lisbon’s patron saint) or Quinta do Alvito (because over the centuries it was owned by the count-barons of Alvito) mainly because of its chapel, stands out in the urban space. This building, with its gate facing south, stands out of the harmonious line of the ground floored building and the main floor, and it was designed with an extreme simplicity on a horizontal spatiality. As many other neighboring estates it went through several states of mind, from opulence to ruin, until by the nineties of the 20th century it was again restored and given back to its social function. The building, when it underwent profound improvements, did not present many tiles in the interior, except for several fragments fallen in the halls and corridors, which were kept by its current owner, for the future memory of the decorative samples used in this building, and some were from the 17th century, In the chapel’s body, magnificently restored, the pre-pombaline tile silhares from the 18th century stand out amidst the wall’s ochre, circumvented by brownish and marbled strips (listéis) and medallions with a mural wall painting alluding to martyr São Vicente. Tiles are

Funções atuais Current function RESIDÊNCIA PRIVADA, SEDE DE EMPRESAS PRIVADAS PRIVATE RESIDENCE, SEAT OF PRIVATE COMPANIES

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O frontão do alçado principal da capela era guarnecido com seis fiadas de azulejos, desde a cruz cimeira até aos pináculos laterais, de forma a proteger a parede de infiltrações, cerâmica que já não subsiste, mas que fica o registo em obra já por nós referida, e fundamental para o estudo em análise, Nova Monografia do Lumiar (FERREIRA e LEMOS: 2009, 316) .

painted in blue and circumvented with sponged a purplemanganese, developing a series of albarradas and palm hearts. The light that illuminates the temple comes from a dome of small dimensions, but which is enough to reflect and expand the tiles’ colours. In the exterior, on the east wall, there two tile cartouches (cartelas azulejares), from the end of the 19th century with the indication: ”Quinta de S. Vicente.” From the top cross until the lateral pinnacles the front of the chapel was garnished with six layers of tiles, in order to protect the wall from infiltrations. This ceramic no longer remains, but it was registered in a work we already referred, which is fundamental to the study of ceramics: Nova Monografia do Lumiar (FERREIRA e LEMOS: 2009, 316).


Mercado Municipal do Lumiar Horário: 2.ª feira – sábado: 7h00 - 14h00 Obra assinada, sem centro produtor. O Mercado Municipal do Lumiar, inaugurado a 24 de janeiro de 1967, da autoria do arquiteto Fernando da Costa Belém, destaca-se por ter no alçado voltado ao eixo viário, um notável património azulejar de 1993, da autoria de Teresa Cortez, constituído por oito painéis temáticos, alusivos aos produtos da terra e do mar, com as dimensões de 3,50 x 3,50m cada. Colocados no exterior do mercado, evidenciam-se, no todo edificado, pelas cores vibrantes e grafismo efusivo, diretamente relacionado com a atividade comercial desenvolvida no seu interior. A autora soube captar muito bem a interligação entre a arquitetura a decorar, a sua função e os utilizadores deste espaço comercial, prática a que já habituou a cidade por obras anteriores e posteriores a esta (PEREIRA: 2008) . Nos oito painéis, elevados do eixo viário para serem visualizados à distância, com temas recriados do natural, contabilizamos: 1.º painel Peixes, 2.º painel - Frutos (uvas, maçãs e cerejas), 3.º painel - Abstrato, 4.º e 5.º painéis - Flores, 6.º painel - Abstrato, 7.º painel - Carne (touro, vacas, galinhas e ovos) e 8.º painel - Legumes (melancia, tomates, alfaces, cenouras e rabanetes).

Opening hours: Monday–Saturday:7h00-14h00 Signed work, without manufacturing centre The Mercado Municipal do Lumiar, inaugurated in January 24, 1967, designed by architect Fernando da Costa Belém, stands out because its architecture layout, on the road side, has a remarkable tile patrimony designed by Teresa Cortez, composed by eight thematic panels, alluding to the earth and sea products, with a size of 3,50 x 3,50m each. Placed on the exterior market wall, they stand out in the building, due to its vibrant colours and effusive graphism, directly associated with the trade developed inside. The author knew very well how to capture the interlink between the function and the users of this trade area, a practice she already had employed on

ALAMEDA DAS LINHAS DE TORRES

her former and would use again in subsequent works in town (PEREIRA: 2008). In the eight panels – facing the road and specifically set to be looked at a distance – with themes taken from the natural world, we can find: 1st panel Fish, 2nd panel - Fruits (grapes, apples and cherries), 3rd panel - Abstract, 4th and 5th panels Flowers, 6th panel - Abstract, 7th panel - Meat (bull, cows, chicken and eggs) and 8th panel - Vegetables (watermelon, tomatoes, lettuce, carrots and radishes).

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Estação de Metropolitano do Campo Grande A estação Campo Grande, com projeto do arquiteto Ezequiel Nicolau e intervenção plástica de Eduardo Nery, inaugurada em 1993, foi a primeira estação do Metropolitano construída em viaduto. O artista concebeu uma decoração centrada nas “figuras de convite”, elementos tradicionais na azulejaria do século XVIII (ARRUDA: 1993) . As “figuras de convite” eram normalmente colocadas à entrada dos palácios e casas nobres, ou nos vestíbulos e escadarias, procurando conceitualmente referir a intenção de receber os convidados. Encontramos diversos destes elementos azulejares em palácios, casas nobres e quintas em Lisboa e seus arredores, nomeadamente na Quinta de São Sebastião, no Paço do Lumiar. O artista Eduardo Nery transpôs estas figuras tradicionais de boas-vindas para a estação de Metropolitano do Campo Grande, propondo uma interligação entre o tradicional e o contemporâneo. Os temas base são quatro figuras, duas femininas e duas masculinas, que foram desmontadas e novamente recompostas, aproveitando a quadrícula própria do azulejo, numa representação totalmente inovadora. A sua experiência artística com os conceitos da Op Art fazem desta composição uma excelente aplicação da simulação ótica (NERY: 2007), proporcionada a quem chega de metro em grande velocidade, que vai sendo, como o próprio referiu, atenuada com a paragem do metro ao longo da estação. Ao partir, o viajante sente a mesma ilusão da desconstrução das figuras de convite que se partem e repartem no imaginário da velocidade temporal. Na conceção artística do embelezamento do espaço exterior, Eduardo Nery pôs mais uma vez em prática os seus conhecimentos da arte da ilusão de ótica, colocando linhas oblíquas em azulejo ao longo dos painéis acústicos de betão que sustentam o viaduto. As barras de azulejos multicolores acentuam a sua verticalidade aumentando a volumetria do espaço.

The Campo Grande station – with architectural project by Ezequiel Nicolau and artistic intervention by Eduardo Nery – was inaugurated in 1993. It was the first subway station built as a viaduct. The artist designed a decoration inspired by the “welcoming figures” tiles, which were traditional elements of the 18th century tiles (ARRUDA: 1993). Generally, the “welcoming figures” were placed by the entrance door of palaces and manors, or on the entrance halls and staircases, expressing the intention of welcoming guests. We find several of these tile elements in palaces, manors and estates in Lisbon and its surroundings, namely at Quinta de São Sebastião, in Paço do Lumiar. The artist Eduardo Nery transposed the traditional welcoming figures to the Campo Grande subway station, proposing a connection between traditional and contemporary. His basic themes are four figures, two feminine and two masculine, which were dismounted, then remounted again – taking advantage of the square form of the tile – in a totally innovative representation. His artistic experience with Op Art concepts render this composition an excellent application of optical simulation (NERY: 2007), provided to those arriving at high speed by subway to the station, a speed

ACESSO ACCESS: CAMPO GRANDE

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which is progressively reduced as the carriages smoothly stop along the station, as the artist has referred. When leaving, the traveler feels the same illusion of deconstruction of the welcoming figures that are broken and rebroken in the imaginary of the temporal speed. In his artistic conception of adornment of exterior space, once more Eduardo Nery displayed his knowledge about optical illusion, placing oblique lines of tiles along the acoustic concrete panels that support the viaduct. The multicoloured tile bars enhance its verticality increasing the space volumetric.


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Cores na Cidade, Azulejaria do Lumiar  

A Junta de Freguesia do Lumiar remonta ao século XIII e o seu  património azulejar é riquíssimo e muito variado. Espaços públicos e privados...

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