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EDIÇÃO #05 | 01 2014


busca pela perfeição

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Paixão Pela fotografia

Perfeição Ótica

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#05

CARTA AO LEITOR

Durante muito tempo foi vista apenas como um instrumento para vários fins práticos - da identificação policial à informação jornalística - , mas agora é contemplada nas galerias e nos museus por seus próprios méritos estéticos. Em seus 170 anos de vida, espalhou-se pelo mundo, aproximando povos e idéias, até se tornar o que é hoje: uma obra universal em todos os sentidos. Do daguerreótipo à imagem digital e mais recentemente chegando as mãos de todos por meio de seus telefones celulares, a fotografia cria diariamente novos apaixonados por sua essência, o simples registro. E porque não dizer o registro da arte. Alguns estudiosos dirão que para a fotografia ser uma arte, precisa ter uma linguagem própria, que precisa passar uma emoção, uma repulsa ou indignação ao espectador para assim criar uma interação que transcende o olhar indo para o subconsciente de cada um.

Mas quem tem o direito de escolher o que é ou não arte na fotografia dentro deste mercado que ainda engatinha perante aos demais do mundo das artes? Como podemos classificar uma foto ser melhor ou pior? O simples fato do autor ter se tornado fotógrafo a poucos meses pode tirar o seu mérito na criação de uma obra, mesmo ele mantendo uma uniformidade nos resultados? Ele precisa estar maduro, ter passado 20 ou 30 anos no segmento fotográfico para ai sim ser considerado um criador de bons trabalhos? Nos dias de hoje, com o aprendizado literalmente na ponta dos dedos e com o fim da distância entre os diferentes povos, o conhecimento se coloca na frente daquele que quer aprender e evoluir, na hora e no local que ele bem entender. Ou seja, os 20, 30 anos foram reduzidos drasticamente dando assim a possibilidade do conhecimento e do reconhecimento para os diferentes credos, culturas e classes. É para isso que surgiu a BLACK&WHITE IN COLOR, para ajudar na construção desta ponte que uni o conhecimento com aqueles que querem conhecer. Viemos para mostrar a “arte dos fotógrafos” e a “fotografia dos artístas”. Boa leitura. Marcello Barbusci

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Feliz 2014 Começamos o ano muito satisfeitos com os resultados que tivemos em 2013. Muitas abordagens, novos nomes surgindo para fotografia como arte e muitos retomando o prazer pela arte de fotografar, a qual é, sem dúvida, a mais universal das linguagens de representação plástica do mundo. No entanto, a sua legitimidade cultural e artística é bem recente.


Um novo espaรงo. Uma nova loja.


OS COLABORADORES

Beto Andrade

Designer gráfico e proprietário da Original Design. Premiado no London International Advertising Awards e em bienais de design e fotografia.

Tiago Henrique

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Autodidata e de personalidade idiossincrática atualmente dedicado a Fotografia de rua e Design Gráfico é apaixonado por expressões artísticas, filosofia e coisas que desafiam nossa maneira de ver o mundo.

Cristiano Xavier

Mineiro de Belo Horizonte, Cristiano Xavier é fotógrafo atuante em publicidade, industrial, gastronomia e Fine art desde 2002. Na área autoral desenvolve a 14 anos um amplo trabalho de pesquisa em fotografia noturna, usando como meio de captura diversas câmeras digitais , películas 35 mm e grande formato 4x5.

Otavio Costa

Empresário nas áreas de produção de vídeo e interatividade. Há mais de 20 anos utilizando as mais recentes e inovadoras tecnologias na comunicação digital, produção de vídeo e multimedia interativa.

Erico Mabellini

Mais de trinta anos atuando como fotógrafo em diversas áreas. Jornalista e graduado em Direito, com especializações em Direito Autoral e Ambiental. Leciona Fotografia e História do Direito. Fundador e editor da ONG Tribuna Animal, atualmente dedica-se à fotografia de animais e natureza.

Henrique Siqueira

Sociólogo e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Implantou a Casa da Imagem, museu voltado à imagem e a fotografia, onde é curador. É crítico e editor de livros na área fotográfica.

Rui Costa

Profissional de TI desde 1999, apaixonado pela fotografia desde que se lembra. Em breve trocará definitivamente os teclados pelas lentes porque a vida deve ser vivida apaixonadamente. Colaborador internacional diretamente de Portugal

André Corrêa

Carioca por engano, Paulistano de coração, 39 anos, começou a fotografar com filme na infância e não parou mais. Desde 2011 gerencia o site Queimando Filme, dedicado à fotografia analógica, e ministra cursos sobre o tema em todo o Brasil. Como fotógrafo, evita todo e qualquer rótulo, a não ser o de amador.


#05

Leonardo Souza

Fotógrafo e aluno da Academy of Art University em San Francisco, California, com especialidade em Fine Arts e Prints. Colaborador internacional diretamente dos Estados Unidos.

Paulo Kassab Jr.

Sócio fundador da Galeria LUME, formado em Comunicação Social pela ESPM e com mestrado em Gestão Cultural e Artística em París.

Thomas Leuthard

Pepe Mélega

Fotógrafo autodidata, profissional desde Diretor de TI e apaixonado por 1969. Apaixonado pela fotografia, pela fotografia. Colaborador internacio- representação da imagem captada e nal diretamente da Suiça. pela paixão de visualiza-la impressa. Palestrante, consultor para treinamento e orientação para montagem de estúdios, ambientes para tratamento e montagem de exposições, também atua como editor de fotografia junto a editoras.

Zeca Salgueiro

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Luthier, músico e admirador da boa arte porém a arte que se entende não a que cria dúvida sobre ser ou não ser arte.


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ENSAIO MARCO ANTONIO

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EL CALAFATE O INÍCIO DE TUDO

LAS VEGAS ANTÍTESE SEM FIM

015 COLETIVO FOTOGRÁFICO E O DIREITO DO AUTOR

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by Tragic Errors of Hamlet

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O FUTURO DA FOTOGRAFIA NUMA PEÇA DE SHAKESPEARE…

A LUZ DA ARTE

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MARCO MARIA ZANIN DE PÁDUA PARA O MUNDO


FELIPE BERTARELLI INVENTÁRIO URBANO

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DO DOCUMENTO A ARTE

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O SELVAGEM E O FOTÓGRAFO

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SEM SAÍDA?

#MyArtHas PEQUENA E COM BELAS IMAGENS

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VIDA E MORTE DA CARNE E DA ARTE

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O QUE FAZ UMA BOA FOTO DE RUA?

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GALERIA DO LEITOR

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GALERIA DO LEITOR Carlos Alberto Guedes

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Andrês Miranda Ramírez


Sandra Moura

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Milton Pinho Majella


Madhur Dhingra

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Rodrigo Moreira


Rudy Boyer

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Herbert Albuquerque


FOTO CRISTIANO MASCARO - DESIGN GRÁFICO PAULO MORETTO

MUSEU DA CIDADE DE SÃO PAULO CASA DA IMAGEM

FOTOGRAFIAS DE CRISTIANO MASCARO EDU MARIN FELIPE BERTARELLI

DE 18 DE JANEIRO A 16 DE ABRIL DE 2014 DE TERÇA A DOMINGO | DAS 09H ÀS 17H RUA ROBERTO SIMONSEN, 136-B SÃO PAULO SP (METRÔ SÉ) T (11)3106 5122 WWW.MUSEUDACIDADE.SP.GOV.BR


Erico Mabellini erico@mabellini.fot.br

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Os diversos coletivos fotográficos pelo Brasil adentro possuem trabalhos muito distintos, mas na maioria dos casos o resultado final tende para uma linha mais voltada para o artístico e/ou autoral, portanto uma obra intelectual. É nesse quesito que eu gostaria de levantar algumas questões com base na Lei Autoral vigente em nosso país. -Uma obra fotográfica criada em um coletivo é uma obra em co-autoria? Se assim for entendida, então é uma obra criada em comum, por dois ou mais autores. - Nesse caso um simples colaborador é co-autor? Não. É co-autor aquele que através de uma efetiva participação acrescentou com sua colaboração uma criação intelectual de fato à obra. O mero auxílio em tarefas não criadoras não constitui criação intelectual. O colaborador é aquele que somente auxilia o autor na produção da obra intelectual, revendo-a, atualizando-a, bem como fiscalizando-a, aconselhando sua edição ou sua apresentação pelo teatro, fotografia, cinematografia, radiodifusão sonora ou audiovisual. Portanto não se confunde com o conceito de co-autor. Ele não é um co-autor da obra intelectual. - O que é obra coletiva? Obra coletiva é aquela que resulta da reunião de obras ou partes de obras que conservem sua individualidade, desde que esse conjunto, em virtude de trabalho de seleção e coordenação realizado sob a iniciativa e direção de uma pessoa física ou jurídica, tenha um caráter autônomo e orgânico.

Desse conceito de obra coletiva, extraem-se os dois elementos constantes do art. 7.º da Lei Autoral (9.610/98): o critério de seleção e organização e a individualidade das contribuições singulares perante a autonomia do conjunto. Entendemos então, pelas perguntas e respostas acima que uma obra intelectual coletiva não é uma figura nova no mundo jurídico. No entanto entende-se que no caso dos coletivos fotográficos, é dada uma nova importância para os atos de fazer e o criar. A afetividade dos participantes e o compartilhamento da experiência são pontos fundamentais para o resultado final da obra. Outra característica é que alguns coletivos não incluem apenas fotógrafos, mas também profissionais de outras áreas, como design, tratamento de imagens, jornalismo e artes visuais. A participação de cada um dos integrantes é valorizada e a discussão ocorre durante todo o processo de produção, sempre em busca de uma identidade coletiva. Enquanto a agência fotográfica valoriza a criação individual, o coletivo prefere a criação em grupo e a inteligência coletiva. “A autoria na fotografia também é fruto de tais negociações e construções, mas geralmente é determinada pelo operador da câmera, por aquele que coloca o olho no visor e o dedo no disparador. Mas como pensar dessa maneira num mundo com tantas conexões e num processo que abrange tantas etapas e ligações externas? É possível resumir a autoria a apenas um ator?”, questiona Eduardo Queiroga em sua dissertação apresentada para a obtenção do título de mestre em Comunicação. A pré e a pós-produção das imagens digitais, feitas por outras pessoas que não o autor do clique, também abre margem para essas perguntas.

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COLETIVO FOTOGRÁFICO E O DIREITO DO AUTOR

m tema conhecido no mundo das artes, mas recente na fotografia Nos últimos tempos surgiu uma nova figura associativa no universo fotográfico: os coletivos de fotógrafos. Esses coletivos a principio poderiam ser confundidos com agências ou cooperativas de fotógrafos, mas pode estar mais próximo de um laboratório de experimentação de linguagens ou um grupo de estudos e pesquisas.


Conflitos relativos ao Direito Patrimonial de obras realizadas em coletivos fotográficos não serão muito difíceis de solucionar. Mas e os conflitos relativos ao Direito de Autor? No cinema já se resolveu o problema dos créditos, pois geralmente ao final da obra temos os créditos de todos aqueles que participaram de sua criação, em menor ou maior grau. Mas e a fotografia? Não existe espaço para tantos créditos.

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O tema é amplo e novo, vamos aguardar os acontecimentos e deixar que os juristas atuem conforme a demanda social exigir.

Fontes: http://migre.me/h7AJC http://migre.me/h7AKb http://migre.me/h7AKv


Maxi Cohen LADIES ROOMS AROUND THE WORLD 23/01/2014 A partir das 19h


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A LUZ DA ARTE POR BETO ANDRADE


A LUZ DA ARTE

Beto Andrade beto@originaldesign.com.br

Meu avô dizia: “nada no mundo existe sem um propósito”. Bom, isso me marcou tanto que passei anos tentando descobrir o propósito da minha profissão, me perguntando “qual minha contribuição com o mundo como designer gráfico?”. No início acreditei que era apenas ajudar empresas a crescerem para maior geração de empregos e circulação do dinheiro, o que teoricamente melhoraria a questão da miséria e distribuição de renda. Mas, ainda insatisfeito, procurei ser mais amplo e defini esta missão de forma mais generica: “aproximar a indústria e prestadores de serviços da sociedade para que esta seja adequadamente abastecida em todas as suas necessidades”. Assim, corri menor risco de me frustrar. e ganhei um fundamento com uma proposta, digamos, mais evolutiva. Neste exercício de atribuir propósitos, comecei também a pensar sobre a fotografia, uma grande paixão desde os tempos de faculdade e que está intimamente ligada à arte de uma forma genérica. Qual então poderia ser uma missão da arte no mundo atual, e da fotografia especificamente? Qual o benefício social tem o observador ao consumir informações de um trabalho autoral, o que acontece em sua mente neste momento? Bem, elaborei uma associação incomum mas que me soa decisivamente relevante e que pode ser, ao menos, um objeto para um novo estudo. Na última edição da BLACK&WHITE IN COLOR escrevi sobre a origem da linguagem e sua influência especialmente em alguns segmentos da fotografia. Um dos fatores que me motivaram a abordar este tema foi a febre que se tornou a fotografia para pessoas de todas as profissões ou culturas, ricas e pobres, jovens e adultos e até crianças. Pensei que alguma coisa tem aí de diferente, de surpreendente. Uma das conclusões que cheguei foi o fato de o ser humano possuir uma certa obsessão por atribuir significado

às coisas, principalmente pela sua poderosíssima anatomia cerebral favorável a isso. Ok, é uma conclusão lógica mas acredito que hajam outros fatores que motivam o homem a estabelecer linguagem sofisticada, o quanto isso é vital nos tempos em que vivemos, quão grandes são os benefícios sociais em poder atribuir significados diversos a uma mesma informação. É importante citar, antes de qualquer coisa, que esta não é uma visão pessimista ou essencialmente crítica, mas que busca ser analítica e realista como base deste artigo. Convido você a observar o comportamento da grande maioria das pessoas, qualquer que seja sua cultura, principalmente após a revolução industrial e nos grandes centros urbanos. Vamos eleger um personagem que nos servirá de protagonista nesta breve história. Que tal o “Jaime”, como naquela propaganda do Jô Soares? Muito bem, o Jaime acorda cedo, e em uma hora aproximadamente toma um banho, se arruma e toma um café rápido para enfrentar um caótico trânsito e para não atrasar para seu sagrado ofício diário, com o objetivo de ser valioso o suficiente para garantir um salário ou quem sabe uma promoção. Jaime tabalha de 8 a 10 horas por dia, enfrenta desafios, busca soluções, envia e recebe dezenas de e-mails, discute peculiaridades em reuniões para que todos saiam de lá na mesma direção, leva algumas broncas, recebe elogios compensando o desgaste da rotina e se dedica ao objeto o qual foi contratado depois de sucessivas entrevistas. Seis da tarde e missão cumprida! No início da noite Jaime enfrenta mais uma vez o caótico trânsito e chega cansado, com aquele sorriso tímido e olhos baixos e exaustos mas tentando trazer boa energia para casa e para a família, que o aguarda ansiosamente para o jantar e para a televisão.

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ara não perder o costume, eis novamente minha eterna mania de investigar a origem das coisas e a causa dos acontecimentos.


Ele senta à mesa no lugar de sempre e prega os olhos no espaguete à bolonhesa, que já vem pronto para consumo, uma praticidade muito importante pois sua esposa também trabalha 8 a 10 horas diárias para pagar todas as despesas, ficar bonita e na moda. Depois de um belo prato de massa, dois copos de refrigerante e um doce também comprado pronto para comer, televisão. Com os olhos pregados agora na TV e com o controle remoto na mão, assiste programas com histórias românticas, outras violentas, se tensiona vendo pessoas desleais e outras fúteis, ou ainda aquelas que trazem mensagens de fé para dizer que ainda há “salvação”, lhe relaxando finalmente os ombros.

Então vem a publicidade dizer a ele que o mundo é maravilhoso e perfeito, que a felicidade está a poucos metros de casa mas alerta como Jaime, sua esposa e filhos são feios, desatualizados na moda e na tecnologia, como estão desprotegidos, que comem mal e que correm a todo instante o risco de tomar decisões erradas. E lá se vai toda a família às compras motivada pelos ombros novamente tensionados. Telefones fantásticos, sapatos da moda, sessões estéticas e muita comida que dizem ser saudáveis e que trarão todas as razões para ele e sua família serem incrivelmente felizes, e não custa checar o apartamento dos sonhos no bairro onde estão as pessoas mais interessantes da cidade. Pronto, Jaime está “salvo”!

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Espere, ainda não. Alguém tem que pagar por tudo isso, e pagar muito dinheiro. O que ele faz? Volta ao trabalho com ainda mais motivação e fica mais uma vez, e diariamente, 8 a 10 horas se dedicando ao seu ofício, conquistado com aquelas sucessivas

entrevistas, para garantir o salário, ainda com esperanças daquela promoção, o que irá lhe garantir pagar dívidas do cartão de crédito e comprar novamente os telefones atualizados tecnologicamente, os sapatos da moda, os cosméticos com novos recursos e com novas promessas, e a carne daquela marca nova que é “superbacana”, pois a publicidade continua lhe dizendo que, mesmo com seu esforço fazendo todas aquelas compras, continua feio, desatualizado e desprotegido. Eu chamo isso de “ciclo da percepção do consumo”, ou consumo emocional onde nos movimentamos em bloco para fazermos todos uma mesma coisa acreditando no mesmo resultado, em ciclos incessantes, uma visão muito aprimorada do comportamento do Homem contemporâneo construída pela ativista americana Anne Leonard, autora do The Story of The Stuff Project, que percorreu o mundo durante 10 anos para investigar onde está a raiz de problemas globais como o efeito estufa, a degradação do meio ambiente, o aumento exponencial de doenças como o câncer, o sistema de produção desde a extração de minérios até o descarte e, principalmente, o mecanismo que governos e megacorporações utilizam para obter cada vez mais lucro, e controle para manter aquele ciclo de consumo. Mas nesta aparente inocência do mero consumo, ou mesmo aparente benefício por gerar empregos e felicidade incontida por possuir incríveis produtos, há alguns probleminhas importantes de serem citados para concluir o argumento objeto deste artigo. Aquela propaganda, que Jaime viu quando chegou em casa lentamente de sua exaustiva missão diária, ela tinha razão quando disse que comemos mal. Mas certamente não explicou direito. Sim, o mundo come mal e, é preciso dizer, também vive muito mal. Algumas situações explicam o por que deste cenário. O trabalho em regime de semi-escravidão é algo cada vez mais comum. O documentário A Corporação, produção canadense dirigida por Mark Achbar e Jennifer Abbot, a partir de uma publicação de Joel Bakan, mostra documentos comprovando atividades clandestinas de fábricas de peças de vestuário que trabalham para grandes marcas, e são protegidas por capangas e pela polícia local em Honduras e na República Dominicana. Adultos e até crianças de 13 anos em diante


trabalham, na maior parte do grupo, em turnos de 36 horas recebendo em torno de 0,3% do valor do produto no varejo. Sim, o tênis ou a camiseta que estamos usando agora provavelmente estão promovendo a vida em nível de miséria de milhões de pessoas. Grandes empresas controlam o alimento em todo o mundo, ou seja, controlam a vida. Produtos químicos provenientes de fertilizantes, e processos de produção de alimentos geneticamente modificados, contaminam pessoas, o solo, a flora, a fauna e a atmosfera em todo o mundo, causando doenças como o câncer e anomalias diversas como mostra o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”, além de gerar desequilíbrio no ecossistema principalmente pelo desmatamento e reflorestamento mal planejados. E uma destas empresas, a maior no segmento, patenteou sementes de alimentos transgênicos e pune severamente pessoas que utilizam estas sementes para a própria sobrevivência, como normalmente ocorre na África. Sim, alimento patenteado, o controle da fome. Não vemos isso na televisão ou nas embalagens em supermercados, mas empresas estão decidindo quem come, e quem não come.

“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.”

William Shakespeare

Frutos e legumes são facilmente encontrados em todas as épocas do ano, algo enfaticamente combatido pela agricultura biodinâmica que citarei mais adiante, e tomates, por exemplo, são amadurecidos com o gás etileno, o que o documentário Food Inc. chama de “tomate imaginário”. Ou seja, algo distante do que a natureza levou bilhões de anos para criar e nos alimentar.

s e felicidade incontida por possuir incríveis produtos, Cena do documentário “Home”

Oitenta por cento da riqueza mineral é consumida por 20% da população, e até o final do século, todos os recursos do planeta terão se esgotado com a mineração excessiva no ritmo atual, e não há ainda como compreender isso facilmente pela maior parte da população mundial. O Rio Jordão, localizado na Terra Santa, fronteira entre Israel e a Jordânia, é hoje quase um fio e não encontra mais o mar, e sua água foi para supermercados em todo o mundo em caixas de frutas e legumes. Um em cada 10 rios em todo o planeta não encontram mais os oceanos em vários meses do ano. Por causa da seca do Rio Jordão, o Mar Morto baixa seu nível em mais de 1 metro por ano. Cena do documentário “Home” - Rio Jordão

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Hoje se produz mais carne do que o próprio animal pode suportar, graças a substâncias tóxicas introduzidas nos animais para que ofereçam mais carne e mais leite. 50% dos grãos produzidos no mundo, e da água, são utilizados para alimentar o gado, que alimenta apenas uma parcela da população mundial, sendo que este índice sobre para 95% na agricultura amazônica. E são necessários 13.000 litros de água para produzir um quilo de carne. Um desequilíbrio colossal que causa, consequentemente, fome e miséria a aproximadamente 2 bilhões de pessoas, principalmente na África, Índia e China.


Outro fato “interessante” ocorre na região de Las Vegas, um dos maiores consumidores de água do mundo que, como Palm Springs, é abastecida pelo Rio Colorado, um dos que não chegam ao mar, e os lagos de captação ao longo do seu curso estão estão desaparecendo drasticamente. Mas o que importa, as pessoas precisam encher os cassinos, gerar empregos e circular o dinheiro, na promessa de melhor distribuição de renda, um argumento difícil de combater.

Não há indústrias na Groelândia, o que mostra que o clima não tem fronteiras. A SIbéria, como em outras regiões do mundo, tem um clima tão frio que mantém o solo congelado constantemente, fenômeno conhecido como Permafrost, que vem de “permanent” e “frost”, que significa “congelado” em inglês. O Permafrost mantém impermeável uma enorme reserva de metano, um gás 30 vezes mais potente e nocivo do que o dióxido de carbono do efeito estufa. Pesquisadores da Universidade do Alasca alertam que se a liberação do metano por causa do derretimento do solo não for interrompida, as mudanças climáticas terão consquências catastróficas e em grau impossível de se prever. O Homem nunca viveu em um ambiente como este e certamente não saberá em um futuro próximo coexistir com ele de forma adequada. Em 50 anos, a Terra foi alterada mais radicalmente do que todas as gerações da humanidade.

Cena do documentário “Home” - Bornéu

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Bornéu, a quarta maior ilha do mundo sendo sua maior parte pertencente à Indonésia, e o restante à Malásia e Brunei, foi um dos maiores reservatórios de biodiversidade do planeta e, em 20 anos, teve quase toda a sua floresta nativa destruída para a produção de óleo de Palma, um cenário fortemente combatido pelo Greenpeace e pela ONG Save Our Borneo. O óleo é utilizado para produzir alimentos, cosméticos, detergentes e combustíveis considerados alternativos. A calota de gelo do Ártico perdeu 40% de seu volume em 40 anos, e pode desaparecer em 2030. Rios estão aparecendo e riscando o gelo da Groelândia, que se derreter pode aumentar o nível dos oceanos em mais de 5 metros.

Criamos um modelo e fazemos com que ele seja cada vez mais essencial ao nosso modo de vida, e não sabemos para onde esse modelo irá nos levar. Justamente por falta de informação clara e objetiva, aquela mesma escondida em frestas na Internet e nas anotações de cientistas nas gavetas de seus escritórios. Estamos criando um ambiente desconhecido, com fenômenos que não podemos controlar. Porém, neste momento, o mundo está voltado para grandes eventos esportivos que renderão milhões ou bilhões de dólares para uma pequena parcela da população, e chefes de Estado dizendo como Nelson Mandela os inspirou para serem pessoas melhores. E, acreditem, milhões de pessoas se comovem com cada um deles.

Cena do documentário “Home” - Sibéria


E para buscar algum conhecimento útil, precisamos encontrar em algum lugar o dissernimento e motivação para fuçar exaustivamente o Youtube, Wikipedia e outras fontes seguras para buscar informações ocultas e quase inacessíveis para a grande maioria da população mundial, pois na mídia de massa, nos programas populares e na publicidade não encontramos nada que se diferencie de nossa confortável rotina.

Foto: Marcello Barbusci

Mas, será que não podemos encontrar realmente informações relevantes em nosso dia-a-dia, de alguma forma? É neste ponto que eu gostaria de chegar. Qual a reação de um indivíduo que, por exemplo, lê em uma embalagem que o alimento nela contido leva 3 minutos para ficar pronto de forma incrível e mágica, ou encontra um rádio que custa míseros US$ 5,00 que mal paga a sua carcaça ou que vê ONU discursar sobre a necessidade de auxílio para as nações cujas populações vivem em um nível abaixo da pobreza? Você pode dizer que, apesar dos fenômenos naturais, os quais não temos controle, os responsáveis pelas gestões públicas em todo o mundo estão trabalhando para resolver as principais questões globais, e devemos aguardar o tempo necessário pois não é do dia para a noite que todas as mazelas do planeta serão resolvidas.

Ou pode pensar que tudo tem uma causa e efeito, uma lógica natural, que tudo está intimamente ligado, todos os seres vivos, todas as nossas ações, e que está inclinado a se informar para supor onde está na verdade a origem destes fenômenos. A diferença destas duas situações está na leitura da informação que recebemos diariamente, como a interpretamos e quais significados atribuímos a elas. A diferença está no nível educacional ou na capacidade de traduzir informação, sem precisar necessariamente fuçar exaustivamente a Internet e bibliotecas. Mas o que a arte tem a ver com isso? Bom, antes de sugerir uma resposta quero citar um pensamento de Ernest Fisher, austríaco poeta, escritor, filósofo, jornalista e Ministro da Educação em seu país em 1945, que pode ser bastante elucidativo. “A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas”. Ele disse ainda: “Numa sociedade decadente, a arte, se verdadeira, deve também refletir esta decadência. E a menos que ela deseje trair sua função social, a arte deve mostrar o mundo como mutável.” Eu não sei se concordo que a arte “deva” refletir uma decadência social pois isso me soa um tanto imperativo, em princípio, mas certamente ela contribuirá para mudanças se dessa forma ela atuar, ao menos com um sutil espírito crítico. Não posso deixar de citar Rudolf Steiner, austríaco que em 1883 foi responsável pela edição dos escritos científicos de Goethe na coleção Deutsche Nationalliteratur, e acabou tornando-se um estudioso dos conceitos do cientista. Com base neste trabalho criou a Antroposofia, uma ciência essencialmente voltada para a qualidade das relações humanas e com a natureza. Dela, surgiu a pedagogia Waldorf, a arquitetura e a medicina antroposófica, a agricultura biodinâmica e a Euritimia, sendo que todas estas atividades, entre outras, atuam respeitando os processos naturais dos seus respectivos ofícios, de todos os tipos de relações e das interferências na sociedade.

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Bom,isso tudo é bastante preocupante etc. e tal, mas continuamos preocupados em nos manter bonitos, atualizados e protegidos, e em pagar por tudo isso. E para isso, trabalhar de 8 a 10 horas por dia, chegar em casa exaustos, repetir o ciclo do consumo e manter nossa rotina habitual e já conhecida para nos manter seguros e devidamente enquadrados socialmente.


O cérebro humano, ao se deparar com um objeto, ele naturalmente busca identificá-lo por uma questão quase de sobrevivência, a fim de se defender de uma eventual ameaça, ou mesmo para interagir com ele e se beneficiar de uma experiência, de um aprendizado com o compartilhamento em sua relação, ainda que apenas sensorial. Ao visualizar um objeto que, a primeira vista não faz sentido em um determinado contexto, o cérebro se mantém ativo neste ponto até que se conclua sua identificação. Note como ao vermos uma imagem intrigante, sem poder solucioná-la instantaneamente, podemos pensar nela durante horas, dias ou até semanas até que formulemos uma hipótese satisfatória sobre aquela situação. Visitar uma exposição de arte, podemos supor, então, é um exercício mental extremamente modificador em relação ao padrão habitual de pensamento. Rudolf Steiner

Quero analisar algo interessante aqui para, assim, voltamos ao questionamento sobre o papel da arte no mundo atual.

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Se colocamos um indivíduo diante de trabalhos autorais, cheios de simbolismo e elementos forrados de significados que vão muito além do objeto em si, do concreto, do palpável, do visível a olho nú, ele é “obrigado” a interpretá-los ao menos de forma involuntária.

É plenamente possível fazer com que uma pessoa se torne mais criativa, segundo o artigo “É possível se tornar uma pessoa mais criativa?”, de José Cláudio C. Terra. A criatividade humana se revela a partir de associações e combinações inovadoras de planos, modelos, sentimentos, experiências e fatos. Incentivar a mente a realizar estas associações por meio da arte é propiciar oportunidades e motivar os indivíduos a buscar novas experiências, testar hipóteses e, principalmente, a estabelecer novas formas de diálogos, sobretudo, com elementos simbólicos e com pessoas de outras formações, tipos de experiências e cultura.

Exposição “6 Bilhões de Outros” - Masp, São Paulo, 2011 - Foto: Roberto de Andrade


Foto Liz Krause

É neste ponto que acredito que a arte tenha um papel fundamental. No ciclo onde Jaime está mergulhado, sua mente é motivada a absorver informação de forma passiva e inerte, sem questionar seu comportamento, sem processar conscientemente esta informação, sem interpretar ou duvidar do ambiente onde se mantem, mesmo que este ambiente seja degradante a ele e para as pessoas em seu micro universo. Aqui a informação é totalitária e avassaladora. A ansiedade pelo sapato da moda, a necessidade obsessiva de se enquadrar socialmente, a paixão sem controle e descabida por marcas e a busca incansável para solucionar problemas inexistentes estão contidos no pensamento coletivo, de forma igual, comum e sem identidade, sendo que a manifestação artística, ou ser audiência dela, traz o indivíduo para si mesmo, para que ele se elabore, se descubra, busque em si como protagonista soluções pertinentes e visões relevantes de objetos, pessoas e acontecimentos, abrindo sua mente para questões reais e vitais de sua existência.

Talvez este seja um fator que justifique a presença intensa da arte no primeiro setênio da pedagogia Waldorf (crianças até 7 anos), com o objetivo de dar-lhes autonomia, segurança e poder de decisão consciente, formando adultos mais equilibrados e donos de suas ações. E isso é tudo que o sistema que rege o consumo que voa de olhos vendados não quer, que este indivíduo saia de um ciclo cego e desgovernado, que ele obtenha equilbrio e dissernimento para ganhar conhecimento fora deste ciclo e temer a liberação do metano sob o solo siberiano ou questionar o alimento farto e de baixo custo utilizados em sua maior parte não para alimentar pessoas mas para produzir a carne, que alimenta apenas uma parte da população mundial, que enxergue o que sobrevoa diante de seu próprio nariz, fazendo com que ele se certifique equivocadamente que as fatalidades são o custo do desenvolvimento, que são percalços necessários para o crescimento em direção a um futuro próspero.

Foto Liz Krause

A arte me parece ter um fundamento muito mais precioso do que se sabe, e com muito mais mistérios sobre sua relação com a mente humana do que se imagina. Sim, caro fotógrafo, seu trabalho não é apenas gerar encantamento com imagens bonitas, receber elogios e para colocar um certificado de menção honrosa na parede de seu estúdio. Sua atuação faz um grande sentido para o equilíbrio das relações em todos os níveis, para um mundo mais saudável e perceptível em todos os sentidos, ainda que isso seja intrigante e difícil de imaginar e de associar. E nós, profissionais e amadores da fotografia, temos uma mania admirável de compartilhar idéias, momentos e conceitos, muitas vezes gratuitamente, apenas pelo prazer de transmitir valores e pensamentos únicos por meio do simples registro da luz, oriundos de nossa própria história, de nossa personalidade, de nossa visão individual e exclusiva sobre o mundo. Então nada está perdido, muito pelo contrário. Fotógrafos, artistas, organizações em todo o mundo contrariando ações

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A tendência, portanto, é que a mente já mais treinada deste indivíduo trabalhe da mesma forma em outras situações do dia-a-dia, independentemente de seu nível cultural, já que este mecanismo é natural e independe de conceitos e de informações pré determinadas, fazendo-o se distanciar cada vez mais de um status que é chamado de “analfabetismo funcional”, ou seja, a pessoa que mesmo possuindo bom nível intelectual, tem pouca capacidade de interpretar objetos sofisticadamente modificados, ou seu contexto.


egocêntricas da maioria das nações, e até alguns governos como Lesoto, localizado no meio da África do Sul, um dos países mais pobres do mundo e o que mais investe em Educação proporcionalmente, como o Qatar, Oriente Médio, que se abriu para as maiores universidades do mundo oferecendo recursos inesgotáveis de cultura, educação, investigação e inovação, como Bangladesh, Ásia, onde um homem fundou um banco que realiza empréstimos exclusivamente para pessoas pobres mudando a vida de milhões de pessoas em 30 anos, como Butão, Ásia, onde o índice de IDH é calculado pelo nível de felicidade e satisfação das pessoas com suas vidas, o que chamam de “Felicidade Interna Bruta”, como a Antártica cujo território é proibido de estabelecer fronteiras e se dedica exclusivamente à paz e à ciência, além de ONGs em todo o mundo, estão mudando este cenário e quebrando este ciclo estático e fechado há tanto tempo, e trazendo novas formas de se viver.

traga uma mensagem positiva e de reflexão a você e todas as pessoas que você desejar compartilhar esta experiência, e que sua arte trabalhe mais intensamente com um propósito cada vez mais nobre e verdadeiramente produtivo.

Espero que este artigo não apenas relacione a arte com o mundo atual, em sua missão, mas que também

Conheça e contribua para as organizações marcadas com link, acima.

Obrigado e como estamos iniciando o ano, desejo a todos um 2014 com novos ciclos, novos sucessos e muitas novidades! Fontes de consulta: “Home”, http://www.goodplanet.org/?lang=en “A Corporação”, http://hellocoolworld.com/ “Servidão Moderna”, http://delaservitudemoderne.org/ “Food Inc.”, http://www.takepart.com/foodinc “The Story Of Stuff Project”, http://storyofstuff.org/ BBC, Wikipédia e outras fontes.


MARCO MARIA ZANIN DE Pテ.UA PARA O MUNDO POR MARCELLO BARBUSCI


Marcello Barbusci marcello@barbusci.com.br

Bate papo marcado, café agendado e o cenário do Páteo do Colégio preparado para uma boa conversa. Nas próximas linhas, um pouco desta discontraída conversa que teve seu início aqui em São Paulo encerrando na Itália, na região de Veneto.

Qual é a sua formação Marco?

Sempre gostei de aprender. Sou um curioso explorador do universo humano. Acredito muito nessa máxima, gnothi seauton, conhece a ti mesmo, ate compreender como nos funcionamos, o que nos move, quais são os mecanismos do mundo que nos rodeia. Apos as escolas superiores decidi estudar literatura y filosofia, porque queria conhecer os espaços e as nuances da alma humana, entender como essa se relacionava com o momento histórico que vivia. Depois peguei outra formatura em ciências politicas, para aprofundar como construímos e gerimos as nossas sociedades, como o pensamento se cristaliza em regras, ações, hábitos. Acho que vida e conhecimento sejam dois conceitos indivisíveis, interdependentes. A cultura nos permite participar plenamente com o que existe, e fazer nossas escolhas com sabedoria. Como a fotografia artística (fineart) chegou até você?

Outros dois conceitos para mim interdependentes, são vida e arte. Entendi que não queria continuar a minha pesquisa e transmitir os resultados dentro da universidade, ou através de outros meios “tradicionais”. Muitas vezes a nossa cultura fica cristalizada em papeis, categorias e meios onde o conteúdo, com a sua energia vital, fica atrapalhado. Por isso escolhi a arte: essa é uma experiência integral, capaz de fazer vibrar as cordas mais profundas do ser humano. A mesma pesquisa artística nos obriga a uma vivencia, uma participação profunda com a vida, como se fosse uma meditação. A fotografia sempre foi isso para mim: um caminho para entrar em empatia com a realidade, um meio capaz de criar uma ponte entre o universo interior e o universo exterior do humano. Esse tema da empatia, de nos ser parte de qualquer coisa de mais amplio, é central na minha pesquisa.

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DE PÁDUA PARA O MUNDO

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as conversas com os amigos é onde geralmente surgem grandes idéias e boas oportunidades. E foi desta forma que surgiu essa matéria. Em uma conversa com um grande amigo, Jorge Landmann, tive acesso a informação de que Marco Zanin, um jovem fotógrafo italiano estava no Brasil a convite da FAAP e para minha felicidade, hospedava-se no centro da cidade de São Paulo, meu cenário preferido para cafés, bate papos e boas fotos.


Os meus estúdios humanísticos e a minha pesquisa artística vão juntos, e se fortalecem um com o outro. Acho que um projeto artístico fundado, por exemplo, em um pensamento filosófico ou uma solida teoria psicológica, seja muito mais forte de um projeto fundado só em uma boa intuição. Pode tocar níveis mais profundos, mover mais energia, se inserir dentro um espaço mais amplio de pesquisa e ação.. Você me mostrou sua câmera e comentou ter sido produzida por artesãos chineses. Por que você quis construir a própria câmera ao invés de usar algo já estabelecido no mercado?

Comecei a fotografar em analógico, com os negativos de 35mm. Depois mudei para o digital, e provei varias câmaras, mas nunca senti que essa coisa que eu tinha nas mãos tinha a energia, a resposta que eu queria. Cheguei ao grande formato, analógico de novo, e entendi que era isso que eu estava buscando: uma fotografia lenta, meditativa. A minha primeira câmara de grande formato foi um Sinar 4x5, mas era pesado demais para levar, e não gostei dos materiais de construção. Busquei na internet, e encontrei na china um grupo de ótimos artesãos que produziam camaras de grande formato com vários materiais e de varias medidas; foi assim que mandei os detalhes pra construir a minha câmara. Essa é feita de madeira e de carbono, muito leve, resistente, e linda demais. Eu gosto das relações intimas e direitas com o mundo material. Gosto de sentir a energia das coisas, da conexão com os produtos da natureza. Artesanato é isso: a sabedoria e o trabalho do homem numa conexão direita com as matérias primas. Também gosto de pesquisar, de achar as coisas que ficam mais próximas com a minha sensibilidade e o meu próprio jeito de expressão. Com essa câmera sinto essa relação, essa confiança. Onde você comercializa suas obras?

Agora tenho uma galeria em Roma, a Galleria Spazio Nuovo. Eles gostaram muito do meu trabalho das Catedrais rurais, e estão trabalhando muito bem, estão participando em varias feiras no mundo. Também tenho algumas relações diretas com uns colecionadores.

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Agora que tenho mais trabalhos concluídos vou contatar outras galerias, gostaria ter mais uma em Italia, talvez em Turim, e outras duas ou três fora.

Tenho alguns contatos com umas galerias em São Paulo, quando vou voltar em abril vamos ver o que acontece. Quais são os seus projetos atuais?

Tive que deixar São Paulo e voltar na Itália porque no meu país começa o inverno, que é a estação onde eu saio para fotografar. Aqui na Itália tenho um grande projeto sobre o patrimônio rural da minha região, o Veneto. O projeto fica dividido em três capítulos: as humildes e antigas casas rurais dos campesinos, as magnificas casas que os venezianos construíram no interior a partir do século XV, e os contrastes com os edifícios e as fabricas da civilização de hoje. Um projeto muito importante para mim, porque fala das minhas raízes, e porque tem um grande valor social: fala da importância de voltar à terra, da relação harmônica com a natureza, e do valor da beleza dentro do nosso jeito de construir as nossas sociedades. Também nos próximos meses tenho três exposições individuais, uma em Milão, uma na Fundação Benetton em Treviso, e uma na minha galeria em Roma, onde vou a apresentar também o trabalho que fiz durante a Residência Artística FAAP in São Paulo. Como você financia os seus projetos?

Um desses três capítulos do trabalho sobre o Veneto se chama “Le Ville Venete nel contemporâneo”, e para o financiamento vou lançar uma campanha de Crowd Funding. O Crowd Funding é uma solução nova e muito interessante que funciona a traves da internet, onde qualquer pessoa que acredita no projeto pode contribuir com quanto quiser, desde os 5 euros ate os 1000 euros, ou mais. A coisa mais interessante é que por cada contribuição tem uma recompensa com objetos o serviços coerentes com o projeto: eu por exemplo vou colocar umas fotos, que podem ser polaroids ou provas de artista em fine art, visitas guiadas das casas venezianas, workshops etc. Outra coisa linda é que nascem e crescem relações próximas entre o artista e quem acredita no seu projeto. Se alguém quiser me ajudar a realizar o projeto, e ganhar uma das (maravilhosas) recompensas, o link é esse aqui: http://igg.me/at/levillevenetenelcontemporaneo/


Quais são seus projetos futuros?

Estou numa fase criativa vulcânica, tenho muitas idéias. Foi só na ultima semana de residência em São Paulo que entendi realmente o que estava fazendo. Subiu do meu profundo a idéia final, o projeto com todo o sentido que pesquisei por vários meses. Por isso vou voltar em Sampa em abril 2014, e ficar seis meses. Mas ainda não quero falar nada desse projeto, ainda esta madurando. Mas é uma idéia forte, em relação a São Paulo e a humanidade pós-moderna, que vai trocar o meu jeito de fazer fotografia. Um projeto onde vou juntar arte, filosofia, psicologia e antropologia, intentando deixar uma marca bem forte no nosso imaginário. Já comecei a pesquisa, envolvendo alguns ótimos professores da Universidade de Pádova. Agora estou estudando alguns textos de Saskia Sassen e Lewis Mumford sobre a cidade pós-moderna. Estou muito animado! O que você gostaria de dizer para os novos profissionais que estão a procura do mercado de fineart?

Nesta resposta sei que vou ser um pouco radical. Vou dizer isso: pensem, pesquisem, trabalhem duro, façam muita autocritica, mostrem o trabalho à personas competentes antes de se apresentar no mercado. Vivemos na época do pluralismo, do relativismo e da democracia, que é ótimo e maravilhoso, mas também corremos o risco de colocar dentro da sociedade qualquer coisa, e assim perder as referências mais altas, úteis, profundas. A arte não deveria ser uma decoração, mas uma coisa sagrada: as imagens contribuem a construir o nosso imaginário coletivo, abrem visões que criam o nosso mundo. Quem quer se aproximar à arte tem antes de tudo essa grande responsabilidade.

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Então: nunca deixar de pesquisar, com sinceridade e humildade. Sempre se confrontar com os mais grandes, acreditando com confiança nas próprias potencialidades, mas também tendo a humildade de reconhecer os próprios limites. Isso é o mais importante. Depois, para entrar no mercado, tem vários caminhos: feiras, entrar em revistas, exposições, conhecer galerias, muito trabalho, e muita sorte também.


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http://www.marcomariazanin.com

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Conheรงa um pouco mais do trabalho de Marco Maria Zanin em:


André Corrêa andre@queimandofilme.com

Essa frase (“Nós poucos, nós poucos e felizes, nós, bando de irmãos!”) é da peça Henrique V, de William Shakespeare, e vem à minha mente sempre que vejo novos sinais da mudança no mercado da fotografia de filme, ou analógica, como ficou mais conhecida. Isso porque, assim como para outros fotógrafos brasileiros e estrangeiros (como Erik Kim, Ted Forbes, e outros que não me vêm à mente agora) a minha teoria é a de que a fotografia de filme nunca vai morrer. Vai sim deixar de ser uma coisa de muitos, e se tornar uma coisa de poucos: amadores, hobistas, artistas. Poucos, mas poucos e felizes. Um bando de irmãos. Frescura? Exagero? Pois bem, pode ser... pra alguns. Pra outros, é uma batalha, uma luta diária, uma luta de poucos, por uma paixão. Paixão antiga, paixão recente, mas paixão. Que motivos racionais levariam uma pessoa a fotografar com filme hoje em dia? Eu não conheço muitos, até porque todas as pessoas que conheço e que o fazem, fazem por motivos nada racionais. Buscam “os prazeres da fotografia com filme”, sejam eles quais forem. Os rituais, a espera, a imprevisibilidade, a textura, o companheirismo do... bando de irmãos que se une em torno desse hobby. Bando de irmãos que se desentendem, que debatem, que aprendem, que discordam acaloradamente nos já “antigos” Fóruns da internet ou nos “modernos” grupos do Facebook ou no Twitter. Fãs da Lomography, puristas de SLR e Hasselblad em punho. Não interessa. Somos poucos, mas somos poucos e felizes. Querendo ou não, somos um bando, um pequeno bando, um bando de irmãos. “Mas e as empresas? E os fabricantes? E a Kodak falindo, e a Fuji parando de produzir? ” Esse é o ponto: não precisamos da Kodak, irmãos, não precisamos da Fuji. Nós precisamos de filmes, e de câmeras.

Filmes que nos atendam em nossos objetivos criativos, câmeras que nos ajudem a registrar as imagens que vemos. Se a Kodak não vai mais fazer filmes, outros pegarão essa espada e produzirão, não 1.000.000.000 filmes por mês, mas 1.000 que sejam. É o é o bastante para nós? Então que sejam mil, e não um bilhão! Somos poucos, afinal. Câmeras? As antigas vão durar até seus netos terem netos. Sejam Zenit russas, sejam japonesas Olympus, alemãs, americanas, câmeras produzidas no século passado pra durar, fazem exatamente isso: duram. Lentes? Duram ainda mais. Não existem muitas? Não precisamos de muitas. Somos poucos. Poucos e felizes. Vamos às ferinhas, vamos ao Mercado Livre, ao eBay. Vamos nos unir no Facebook, em fóruns e trocar, vender, comprar. Câmeras novas? De plástico, sim, porque não? Na forma de hobby, na forma de brincadeira, na forma de paixão, as câmeras ganharam o nome de “lomo” graças a coincidências e loucuras de universitários de Viena, que acreditando nesses poucos, nesse bando de irmãos, resolveram criar a primeira empresa dessa nova era da fotografia de filme. Hipster? Careira? Modinha? Pode ser, mas também foi, a Lomography, a primeira a dizer que a fotografia analógica como hobby é para todos. E, graças a ela, outros fabricantes de “câmeras de brinquedo” (Toycameras sim, e com orgulho!) vêm crescendo e ganhando espaço. E com isso mais gente compra suas primeiras câmeras de filme, descobrindo novas formas de brincar com a fotografia. E com isso mais filmes são produzidos pelos que seguraram essa onda. Nós poucos, poucos mas felizes, bando de irmãos, temos um mundo maravilhoso à nossa volta. Não precisamos de câmeras novas a cada semestre, centenas de tipos de filmes diferentes de grandes fabricantes. Nós precisamos, cada um de nós, de uma ou duas câmeras, um punhado de filmes, um laboratório de confiança... e dos outros, do tal “bando de irmãos” lá da peça de Shakespeare.

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O FUTURO DA FOTOGRAFIA NUMA PEÇA DE SHAKESPEARE…

We few, we happy few. We band of brothers!”


A força da fotografia analógica como hobby está nos grupos, nos sites, nos blogs, nos encontros. Não está na Kodak, na Fuji, na Nikon, na Canon... ou na Lomography. Está em você. Está em mim. Está nessa vontade de sair fotografando, um filme por vez, pra ver “no que dá”. Na tal peça de Shakespeare, o rei Henrique V da Inglaterra vai à guerra com a frança e, em uma batalha, que acontece exatamente no dia de São Crispim, ele vai pra batalha final contra os exércitos inimigos com, sei lá… coisa de dez vezes menos soldados do que a frança. Então, para motivar seus homens, ele faz o (famoso) discurso do Dia de São Crispim. Nesse discurso ele diz o que digo aqui, copiando descaradamente ele: não precisamos de muitos. Precisamos de poucos, unidos, por um objetivo: fotografar com filme. Unidos, como somos, como estamos, mesmo discordando, ganharemos essa batalha que está mais em nossas mentes e em nossos medos do que no mundo real.

Se estamos destinados a morrer, já somos o máximo Que nosso país pode perder; e, se vivermos, Quanto menos formos, maior a honra que partilharemos. Deus! Te imploro, não queiras nenhum homem mais, Por Júpiter! Não sou avarento com o ouro, Nem me importo que vivam às minhas custas; Não me incomoda que outros vistam minhas roupas: Tais coisas de aparência não estão entre meus valores; Mas se for pecado cobiçar a honra, Sou a alma mais pecadora de todas. Henrique V, Shakespeare Eu me sinto honrado de poder fazer parte desse bando de loucos, bando de irmãos. Me sinto feliz de fazer parte desse grupo que, contra a maré, decide fotografar com filme a cada dia, pelo simples prazer de fazê-lo. #prontofalei


ENSAIOFOTOGRテ:ICO

Ilha de Paquetテ。 Rio de Janeiro PRODUZIDO POR MARCO ARAUJO


ENSAIO BWINCOLOR

Carioca, morando na cidade do Rio de Janeiro desde sempre, casado, duas netas, 61 anos, engenheiro civil de formação acadêmica mas comerciante de produtos odontológocos como profissão. Começou a fotografar aos 17 anos mas nunca profissionalmente. Nesta época, costumava fotografar peças teatrais com filme Ilford 400, “puxado” para 1600 ASA e depois vendia as fotos para os próprios atores. Com isso, conseguia algum dinheiro para as despesas pessoais e também ajudando na renovação dos estoques de papeis fotográficos, filmes e químicos. Como vivia de mesada dada pelos pais, esse dinheiro era de grande ajuda. Encontrou desde o início predileção pelo P&B e hoje é só desta maneira que faz seu trabalho. Já expôs seus trabalhos em exposições individuais na Camara dos Veradores de São João da Barra, norte do estado do Rio de janeiro em julho de 2012 e na Galeria f4, na Cidade do Porto, em Portugal, em setembro de 2012. Para 2013, fará uma exposição em dezembro no espaço de eventos do Monumento a Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo, no período de 08 de dezembro de 2013 à 5 de janeiro de 2014.

Marco Araújo

Participou de alguns concursos fora do Brasil. Foi pré-classificado no concurso da revista francesa Photo em 2012 - ficou entre as 7000 fotos selecionadas de 30.000 fotos enviadas. Foi também pré selecionado no “Street Photography Contrest 2012 com duas fotos. Recebeu menção honrosa no concurso “Centro Latino Americano de Fotografia - 2012”. Ilha de Paquetá - Rio de Janeiro. Pequena ilha situada na região mais interna da Baía de Guanabara, na Cidade do Rio de Janeiro, é uma ilha bucólica e um ótimo refúgio, para momentos de lazer e reflexão. Considero um grande laboratório fotográfico a céu aberto, e bem próximo do centro da cidade do Rio de Janeiro. Sào apenas 50 minutos de barca, desde a Praça Mauá. Tenho feito diversas fotos em minhas idas à Paquetá e procuro neste ensaio, mostrar um pouco da quietude e paz que encontramos lá.

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arco Araújo.


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Desde sua criação até os dias de hoje, a fotografia mudou bastante, assim como modificaram suas utilidades. No entanto, mesmo com cada vez mais entendedores deste meio, a questão da arte fotográfica, já bem difundida, permanece sem resposta.

Paulo Kassab Jr. paulo@galerialume.com

Invenção e preconceito Inventada em 1830, a fotografia floresceu ao mesmo tempo que o socialismo e a psicanalise. Apesar de na época alguns não a considerarem como arte, como Baudelaire, ou mais ainda Roland Barthes, que a qualificava como magia, todas as artes tiveram que se redefinir a partir do seu surgimento. Para a pintura, a fotografia nasceu como rival, para posteriormente ser uma orientação e, mais tarde, uma libertação (de que serviria pintar uma situação ou um objeto, se a fotografia o fazia com muito mais precisão). Com a imagem impressa, a arte deixa de ter a obrigação com o retrato da realidade e ganha força no experimentalismo. Neste período a foto fica presa ao documental, mas prontamente começa a ganhar outras formas de representação.

É verdade que hoje todo mundo, ou quase, já tirou fotos. Qualquer um pode facilmente pressionar o botão do obturador de uma câmera ou celular, muito mais fácil do que extrair algo grandioso de um piano, ou pintar uma tela. Porém, o simples clicar, ou pintar, não faz a arte ou o artista. Uma coisa é certa: o artista oferece à sua arte toda sua vida, e não há solução, pois sem isso ele nunca descobrirá a si mesmo e isso define um pouco seu trabalho, o lançar das suas ansiedades. Arte é partilha, comunhão de sentimentos reprimidos ou exaltados. As mais belas obras têm a ver com o indizível e a preocupação com o mistério absoluto, e isto independe da pintura, vídeo ou fotografia. O que seria arte e como ela pode se desgrudar do invisível? Poderíamos, nós, criadores da arte, nomeá-la?

Fotografia é arte? A fotografia simboliza uma nova era em relação à imagem. Ela evoca a plenitude ou nivelamento de um mundo onde tudo está em seu lugar e o instante é conservado, criando uma aura de imortalidade. A imagem fotográfica não é uma representação ou imitação, é uma impressão, um traço de realidade. Este mistério, ou magia, fez a fotografia ser considerada a “verdade” por anos. Se algo havia sido fotografado, era real. Porém, com a movimento dos anos 20 e a grande relação da imagem com o surrealismo, muito graças aos experimentos de Man Ray, a fotografia atinge um novo patamar. Ela continua sendo um meio mecânico para manter uma representação gráfica de momentos, objetos ou pessoas, mas também é um meio de expressão abstrato, assinado pelo seu autor, fotógrafo, e cuja objetividade é equivalente a qualquer obra artística. Man Ray, Ingres’ Violin, 1924

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DO DOCUMENTO A ARTE

este segundo artigo para a revista BLACK&WHITE IN COLOR decidi fazer uma brevíssimo resumo sobre a história da fotografia, para chegar em um assunto polêmico até os dias de hoje: fotografia é arte?


O SELVAGEM E O FOTÓGRAFO

Tiago Henrique tiagohqsilva@gmail.com

A

través da fotografia é que aprendemos a ver-nos. Convivemos com a fotografia desde que nos conhecemos por gente. Nós fotografamos. Hoje, muito mais do que em toda a história da fotografia. Nós somos fotógrafos. Mas a história da fotografia, e consequentemente a do fotógrafo, podia ser revista como uma luta entre dois imperativos diferenciados: o embelezamento, que tem origem nas belas-artes, e a veracidade, que não só corresponde a uma noção de verdade à margem dos valores, que é uma herança das ciências, como também, um ideal moralizante da veracidade, adaptado dos modelos literários do século XIX e da (então) nova profissão do jornalismo independente. Observadores atentos consideraram que havia uma certa desnudez na verdade que a fotografia transmitia, ainda que o fotógrafo não tivesse a intenção de andar a espreita. O fato é que o fotógrafo, tal como o romancista pré-romantico e o repórter, devia desmascarar a hipocrisia e combater a ignorância. Livres das difíceis decisões que sucediam aos pintores, sobre qual imagem valia ou não a pena contemplar, os fotógrafos fizeram da visão uma espécie de projeto, graças a rapidez da câmera, como se a própria visão, ávida e sincera, fosse capaz de reconciliar as exigências da verdade com a necessidade de achar o mundo belo. O fotógrafo era considerado um observador arguto mas imparcial: um escritor, não um poeta. Os primeiros falavam como se a câmera fosse uma máquina copiadora… em vez de se limitar a registrar a realidade, a fotografia se tornou na norma para o modo como as coisas nos aparecem, transformando nossas próprias noções de realidade e de realismo.

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De qualquer forma a fotografia inaugurou um novo modelo de atividade, pois notouse, com o passar do tempo, que nenhum fotógrafo fotografava a mesma coisa da mesma forma, essa independência permitiu a cada pessoa exibir uma determinada sen-

sibilidade, única e ávida. A “visão fotográfica”. Os fotógrafos partiram para seus safaris culturais, sociais e científicos à procura de imagens surpreendentes que moldam nosso mundo. Uma das coisas que sempre me fascinaram na fotografia, é que seus operadores sempre trabalham sozinhos. Por mais que tenham equipes grandes de assistentes e produtores as soluções para os problemas seja de iluminação ou qualquer outra coisa, são conseguidas de maneira singular, pessoal. Mas como definir o comportamento de um fotógrafo? Como ele pensa e age? Eu não sei justificar a importância das respostas... talvez não tenha nenhuma, mas li no blog de Marcello Barbusci , o fundador da BLACK&WHITE IN COLOR, um texto muito interessante sobre um termo derivado do verbo francês “flâner”. Tal termo, a saber, “flâneur”, significa entre outras coisas, “caminhar” e até mesmo “vagabundo”, “vadio”, ”preguiçoso”. Achei tão interessante que resolvi me apropriar e juntar com outra idéia que tenho sobra a constituição do ser fotógrafo. O texto na integra: “Basicamente um Flâneur é uma pessoa que anda pela cidade com o objetivo de experimentá-la através de seus sentidos. No decorrer da história diversas pessoas tentaram teorizar o significado de Flâneur, inclusive o poeta Charles Baudelaire, que enxergava o papel chave do Flâneur como sendo o de entender o processo da modernidade, do urbanismo e do cosmopolitismo através do fluxo da cidade. Em termos artísticos, existem diversas escolas arquitetônicas e fotográficas que se denominam Flâneur, já que priorizam a participação daqueles que são afetados pelo desenho da cidade e pelo andamento da mesma. A percepção do flanêur parece se dar diante daquilo que é transitório na cidade, mas ele não simplesmente lamenta-se a respeito da transitoriedade, ele se alimenta dela, ele formula uma espécie de abrigo no ventre da caótica urbanidade – bem entendido, caótica para os citadinos, não para os gerenciadores políticos da nova ordem social – tecendo uma narrativa dos atrativos da cidade, numa espécie de reconhecimento do apelo erótico das coisas e das pessoas no contexto dos desencontros modernos.


A minha busca para entender o que move um fotógrafo, encontra significado não só no “Flâneur”, mas em outro termo de origem francesa: “Bricolage”, cujo significado se refere à execução de trabalho sem necessidade de recorrer aos serviços de um profissional. Em essência, se o fotógrafo é um Flâneur na maneira de agir, o mesmo é um Bricleur na maneira de pensar. Quando li O Pensamento selvagem (La pensée sauvage) de Claud Lévi-Strauss (1908 — 2009 - publicado em 1962 pela editora Plon em Paris) uma relação imediata com a fotografia, ou melhor, com o fotógrafo me veio à mente. Esse antropólogo, criador do método estrutural, estudou os povos ditos primitivos, contestando o racismo e a noção de primitivo, e comparou etnografias realizadas em todos os continentes. Talvez a sua principal contribuição seja sua demonstrável constatação de que os chamados selvagens não são atrasados. “(…) é que existem dois modos de pensamento científico, um e outro funções, não certamente estádios desiguais do desenvolvimento do espírito humano, mas dois níveis estratégicos em que a natureza se deixa abordar pelo pensamento científico – um aproximadamente ajustado ao da percepção e ao da imaginação, e outro deslocado”. Enquanto traduzimos o mundo em conceitos, o índio observa as formas, movimentos, cores, sabores e, a partir disso, constrói categorias que organizam o que está ao seu redor. Essa não é uma maneira nem maior nem menor de fazer ciência, é diferente. É aí que surge uma metáfora fundamental construída por Lévi-Strauss: Enquanto nossos cientistas operam como um engenheiro, o índio opera como um bricoleur. Diz Lévi-Strauss sobre o bricoleur: “(...) seu universo instrumental é fechado, e a regra de seu jogo é sempre arranjar-se com os “meioslimites”, isto é, um conjunto sempre finito de utensílios e de materiais bastante heteróclitos, porque a composição do conjunto não está em relação com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular mas é o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentam (…)”.

Sair para rua, um universo pré-organizado, ou seja, que não depende do fotógrafo para existir, onde ele pode recolher, ou melhor, enquadrar, o que precisa para construir sua obra faz da,fotografia uma negociação entre a necessidade de um pensamento e uma disponibilidade do mundo (no caso, uma necessidade estética, não propriamente utilitária). E o fotógrafo não deixa de observar todas as coisas, os prédios, as pessoas, as formas, a luz... como o bricoleur não deixaria de recolhê-las. Não falo apenas do fotógrafo de rua ou o “fotógrafo caçador”, (como diria Flusser), creio que um fotógrafo de moda, de publicidade tenha que se adequar ao tipo de modelo/produto e recolher e produzir o que precisa tirando da sua “natureza”, do seu habitart as ferramentas que precisa para realizar sua obra. O fotógrafo, assim como o índio, não abnega a natureza tal e qual ela se oferece aos sentidos, como só o pensamento selvagem é capaz de fazer. “Não com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular mas é o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentam (…)”. Sair para rua, um universo pré-organizado, ou seja, que não depende do fotógrafo para existir, onde ele pode recolher, ou melhor, enquadrar, o que precisa para construir sua obra faz da,fotografia uma negociação entre a necessidade de um pensamento e uma disponibilidade do mundo (no caso, uma necessidade estética, não propriamente utilitária). E o fotógrafo não deixa de observar todas as coisas, os prédios, as pessoas, as formas, a luz... como o bricoleur não deixaria de recolhê-las. Não falo apenas do fotógrafo de rua ou o “fotógrafo caçador”, como diria Flusser, creio que um fotógrafo de moda, de publicidade tenha que se adequar ao tipo de modelo/produto e recolher e produzir o que precisa tirando da sua “natureza”, do seu habitart as ferramentas que precisa para realizar sua obra. O fotógrafo, assim como o índio, não abnega a natureza tal e qual ela se oferece aos sentidos, como só o pensamento selvagem é capaz de fazer.

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O flanêur atende, inicialmente, a uma necessidade individual burguesa de sobrepor-se à aristocracia e irá tornar-se um instrumento das próprias massas, devido ao protagonismo das mesmas no gênero inaugurado pelo observador da cidade.”


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LAS VEGAS ANTÍTESE SEM FIM POR LEONARDO SOUSA


LAS VEGAS ANTÍTESE SEM FIM

Leonardo Souza leonardo@leonardosousa.com

Minha visão foi a correria da cidade, pessoas andando às pressas sem saber para onde estão indo ou o que vão encontrar pela frente. Las Vegas é a cidade dos sonhos ou pesadelo e o mundo lá não é “o real”, uma antítese sem fim. Matrix! Tudo dentro do nada e nada dentro do tudo. É como aquele velho ditado popular “Tem gente que é tão pobre, tão pobre, que a única coisa que tem é o dinheiro”. Vegas é a cidade onde tudo é permitido nos Estados Unidos, onde tudo é proibido. Você pode jogar, beber e fumar em quase todos os lugares, inclusive na rua e após as 02:00am você não precisa voltar para casa, sempre vai encontrar algo muito interessante para fazer. Famílias , lojas, restaurantes vão se misturando a cassinos, shows, mágicos, stripers e transformando vegas em uma cidade contraditória e surreal. Como a possibilidade de se tirar a sorte grande e voltar para casa rico ou caso contrario falido. E como é a cidade das luzes, a luz no final do túnel representa a esperança das pessoas encontrarem o que foram buscar em Vegas. Grandes construções nascendo no meio do nada, no deserto. Aviões chegando e saindo a todo instante, deixando rastros pelo céu. Você pode estar em New York em plena Times Square; na Itália, em Roma ou navegando de barco nas ruas alagadas de Veneza; em Paris; dentro de uma Pirâmide no Egito; ou abrir uma porta e a escuridão da noite é tomada por um lindo céu azul com perfeitas nuvens; e, ainda pode andar algumas milhas e estar dentro do deserto de Mojave, cercado de areia ou admirar todo o gigantismo e beleza do Grand Canyon.

Esse contraste me chamou muito atenção. Las Vegas é muito diferente do que vemos, aliás Vegas é o que não vemos… Uma verdadeira distorção, um contraste á realidade.

Abaixo algumas frases de Duane Michals o qual sou um admirador.

“O que temos de melhor não é nossa capacidade ver mas de SENTIR. Não somos o que vemos, somos o que sentimos. Não somos os olhos, somos a mente. As pessoas acreditam no que vêem mas estão totalmente erradas… Tristeza, solidão, angústia – como fotografar a luxúria?”

Duane Michals - foto: Michael Somoroff

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ão queria um ensaio tecnicamente perfeito, com imagens focadas e nítidas. Minha vontade era fazer algo diferente, dupla exposição, efeito borrado, movimentos, nada convencional e ao mesmo tempo simples e sofisticado, como a visão de um turista andando sem rumo. Mas sempre focado num resultado final coerente e consistente.


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Gratid達o a todos pelo carinho. + fotos e info: www.leonardosousa.com


FELIPE BERTARELLI INVENTÁRIO URBANO POR HENRIQUE SIQUEIRA


Felipe, o que o motivou a fazer o bacharelado em fotografia do Senac? Você já tinha contato com a fotografia?

Henrique Siqueira hsiqueira.03@gmail.com

Me interessava por fotografia, fiz cursos livres de fotografia e de laboratório preto e branco no Senac. Quando vi a grade curricular do bacharelado, muitas matérias despertaram meu interesse, principalmente a parte técnica da fotografia, a possibilidade de aprofundar os conhecimentos de laboratório preto e branco, de aprender sobre o laboratório colorido e os processos alternativos de impressão fotográfica. Alguns álbuns e livros de pesquisadores e cientistas do século XIX evidenciam o desejo de construção de uma taxonomia do mundo. Sua produção remete a uma tentativa de ordenação da cidade em séries, nas quais o tema é registrado com certa dose de obsessão. Você está produzindo uma espécie de inventariado urbano? Sim, uma das características do meu trabalho é o registro, a organização e o agrupamento de imagens de objetos e lugares, construindo tipologias urbanas. Uma das consequências não-intencionais desse processo é registrar lugares e objetos que deixam de existir ou são completamente transformados.

Quais os seus interesses na fotografia? Pensando na produção e circulação da fotografia, qual é a sua perspectiva autoral e quais seus planos futuros? Me interesso pelo processo fotográfico como um todo, desde a parte criativa até a parte técnica, os métodos de captação combinados com métodos diversos de processamento do material (revelação dos filmes, ampliações). Quando o processo de captação é digital a dinâmica é um pouco diferente, mas os princípios utilizados são os mesmos. Pretende continuar a utilizar filme nas próximas séries? Nas ocasiões em que for a técnica mais adequada à execução da ideia, sem dúvida. A fotografia analógica tem um tempo singular, menos imediato, que requer uma maior dedicação a cada etapa do processo. Já na fotografia digital, a captura produz um resultado instantâneo e o processamento se condensa no tratamento digital da imagem, que se baseia em conhecimentos também empregados no laboratório. Acho que a fotografia digital e a fotografia analógica têm vantagens e qualidades distintas, mas complementares. Em alguns projetos opto por um processo híbrido, que alia a fotografia em filme e a impressão do negativo escaneado.

Poderia nos indicar alguns fotógrafos que de alguma maneira despertam sua atenção e produzem questionamentos sobre seu trabalho? O meu trabalho de fotografia urbana dialoga com Henry Fox Talbott, Bernt e Hilla Becher, a Escola de Düsseldorf, principalmente Candida Höffer e Andreas Gursky. Joel-Peter Witkin, Nobuyoshi Araki, Richard Avedon e Helmut Newton influenciam minha produção de retratos. Jan Saudek e Gregory Crewdson são minhas referências de cor.

Felipe Bertarelli

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FELIPE BERTARELLI INVENTÁRIO URBANO

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enrique Siqueira é crítico de fotografia e curador da Casa da Imagem, unidade do Museu da Cidade de São Paulo voltada à fotografia e a imagem.


Foto: Felipe Bertarelli

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Foto: Felipe Bertarelli


VIDA E MORTE DA CARNE E DA ALMA POR PEPE MÉLEGA


Pepe Mélega pepemelega@gmail.com

Por isso fico muito feliz ao ver o trabalho de minha amiga Ana Druzian que tem muito a ver com essa minha convicção de estar preparado para fotografar um ensaio com mais qualidade. Abs Pepe Mélega Desde minha viagem a Salta na Argentina em 2009 tenho fotografado “Animitas”, mas foi no Chile em 2010, cuja palavra é usada exclusivamente nesse país e é o diminutivo de “alma” (corpo), que algo me tocou e meu interesse foi despertado; passei então a fazer registros do costume deste povo.

de religiosidade e um culto   à memória, eternizando o local onde, normalmente, indivíduos morrem (alguns de forma trágica). Nas minhas pesquisas, descobri que algumas animitas se tornam muito populares de tal modo que se transformam em verdadeiros marcos santificados. Sua arquitetura simples e ao mesmo tempo variada, composta por adornos e pertences da pessoa falecida, está localizada em estradas, nas cidades, no meio do deserto, por todos os lados, bastando somente que naquele local alguém tenha perdido a vida ou tenha sido encontrado morto. Nas minhas expedições fotográficas pelo Chile (foram 5 viagens; a primeira iniciada em 2010 e a última, em 2011), tive o privilégio de encontrar muitas animitas, algumas em lugares inóspitos, outras  abandonadas à própria sorte, algumas muito bem cuidadas, com pertences pessoais e presentes, deixados por familiares que assim celebravam a memória de seu ente querido.

Quando reuni as imagens, comecei a refletir sobre quais eram as motivações do povo chileno ao construir as animitas. Seria uma forma de compensar a dor da perda? Uma   crença? Uma recordação que remetesse a preservação da memória de um ente querido?  A busca por estas respostas passaram a representar um verdadeiro desafio e me fizeram aumentar ainda mais o meu interesse. Depois de tantas idas ao Chile, especificamente ao Deserto do Atacama, aquela paisagem seca e silenciosa, as esculturas nas áreas feitas pelo vento e toda aquela solidão das animitas fizeram com que o meu olhar  pudesse enxergar com mais atenção as motivações e, sobretudo, a representação delas para o povo chileno. Pude constatar, mesmo com olhar estrangeiro, que a tradição, o folclore  e a crença popular   representam uma expressão

Ana Druzian - foto Pepe Mélega

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VIDA E MORTE DA CARNE E DA ALMA

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empre acreditei que é muito importante ter o objetivo quando saímos para fotografar, nem sempre é um voo solo ou um flanar pelas ruas atrás de imagens. Quando planejamos uma viagem onde há o objetivo de fotografar se torna muito importante saber o que vamos encontrar em nosso caminho e estar prontos para fotografar auxiliado pelo que pesquisamos com antecedência e com isso consolidar  melhor nossas capturas que contam histórias.


Vi forte nexo entre este trabalho e minha  vida pessoal, pois nos últimos 5 anos fiz uma busca inquietante e silenciosa para a qual poderia usar como metáfora uma fotografia que vai do claro ao escuro, me permitindo compreender melhor as zonas de cinza. Percebi o quanto os valores da família são importantes e que eles norteiam o meu caminho. Aprendi nesta caminhada; deparei-me com o certo e com o errado; por vezes fui levada pelo acaso, mas vi o passado e o presente, o céu e o inferno, amor e ódio, a vida e a morte da carne e da alma; enfim, para mim é mais, pude perceber tudo com a clareza dos meus olhos, vi nessas viagens um simples registro fotográfico e mergulhei   num sentimento de introspecção.

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Em cada ida ao Deserto, vejo minha percepção aflorar, me deixando muito mais sensível; em cada uma dessas viagens descubro muito mais sobre os meus sentimentos e me motivo com novas razões para continuar desenvolvendo essa pesquisa.

Era para ser somente um trabalho autoral. Mas hoje vejo que essa seleção de imagens fala muito mais de mim… Finalizando, como somos feitos de memória, lembrei-me de uma conversa que tive  no inicio de meus estudos de fotografia, onde aprendi, com um professor, que “só fotografamos aquilo que nos seduz”. Portanto, essas imagens são a representação desta sedução. Poderia dizer que essas imagens escolhidas neste ensaio são frases que reunidas falam da cultura de um povo, de uma crença, da memória. Mas, sobretudo, essas imagens falam de um silêncio latente que habita dentro de mim.


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foto Ana Druzian


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Conheรงa a galeria completa de Ana Druzian em: www.bwincolor.com.br/galeria/adruzian/


EL CALAFATE O INÍCIO DE TUDO POR CRISTIANO XAVIER


Cristiano Xavier cristianoxavier@cristianoxavier.com

Começamos em El Calafate na Argentina , de onde partimos para um dos locais mais túrísticos mas não menos interessante , o Glaciar Perito Moreno. Uma chuva fina e initerrupta nos acompanhou o dia todo. Isso limitou um pouco as imagens no início mas quando percebi que a chuva não iria parar mesmo , coloquei a camera pra molhar de vez. Foi um teste interessante que me fez perceber até que ponto o equipamento aguenta . A luz estava linda , totalmente difusa e azulada . Nuvens baixas , neblina e uma sensação de lugar extremamente inóspito. Dias após descemos 05 horas de carro para cruzar a fronteira Chilena em direção a Torres del Paine. É aí que se percebe toda a potência do vento. Dirigir a mais de 100km/h torna o carro muito instável quando atingido por uma rajada de vento. O perigo te obriga a ser mais cauteloso. Na chegada a vista imponente das 03 torres ao longe nos dá a idéia do maciço Paine. Na madrugada seguinte fui atrás dos primeiros raios de luz a rebater nos Cuernos mas o clima não estava colaborando. Uma massa de nuvens ao leste persistia toda manhã , mas nada que me fizesse perder as esperanças. Foi neste dia que pude presenciar o efeito danoso do incêndio ocorrido em 2011. Muitas árvores centenárias agora transformadas em retorcidos troncos negros preenchiam o primeiro plano. Cena triste e bela ao mesmo tempo. Nos sucessivos dias fiz um reconhecimento geral da área com a ajuda de Álvaro , um experiente guia local até chegarmos ao desafio final : A base das torres.

A caminhada não é leve e já com 07 dias dormindo pouco e alimentando mal , piora um pouco a situação. Vencer os 09 km de subida para chegar lá as 05:00 da manhã exigiu uma reformulação da logística. Só haveria 01 chance pois o tempo fecharia de vez por 03 dias com muita neve. Partimos. Ao alcançar o local o vento já estava furioso. Me posicionei na margem do lago para uma abordagem ampla do primeiro plano. Canon MK3 , 17-40mm e um filtro ND sólido. O tripé vibrava e eu tentava firmá-lo quando as rajadas cruzavam sobre mim. Aguentei ali por uns 15 minutos até me convencer que já tinha a imagem que queria. Quando me virei para pegar a mochila percebi que já não estava no local onde meu assistente havia deixado. Uma das rajadas arremessou-a dentro do lago. Lentes , flash , filtros , acessórios , celular … Tudo foi junto. Peguei do jeito que estava e descemos rápido pois a neve já tomava conta. No abrigo consegui secar tudo próximo a lareira e foram voltando a vida devagar. Mais um tenso teste de resistência. Pro equipamento e pros meus nervos. Faz parte do processo.

Cristiano Xavier www.cristianoxavier.com

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EL CALAFATE O INÍCIO DE TUDO

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ocalizada na região mais ao sul das Américas, a Patagônia abrange parte da Argentina e do Chile. Incríveis paredões de granito e a maior área de geleiras fora da zona polar , fazem da região uma das paisagens mais surpreendentes que conheci. O clima é frio como era de se esperar e o vento forte e constante acentua a sensação térmica que pode chegar a 20 graus negativos no inverno.


Cristiano Xavier

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Cristiano Xavier


#MyArtHas PEQUENA E COM BELAS IMAGENS POR MARCELLO BARBUSCI


#MyArtHas

Marcello Barbusci

E porque não fazer deste dia algo diferente transformando-o em um registro de prazer e tranquilidade? Foi com esse pensamento que levantei da mesa da padaria com a minha esposa para pegar a estrada. Inicialmente sem destino, mas com um objetivo: um lugar tranquilo, sem a loucura da cidade grande e que tivesse belos lugares para serem usados como colírio para os olhos.

marcello@barbusci.com.br

A ideia foi de algo próximo a São Paulo para não chegarmos em casa cansados de uma viagem as vésperas da labuta. Excluímos as próximas, para não ficarmos em filas de restaurantes quando a fome batesse. Chegamos a três pontos interessantes: Campos do Jordão, cidade que não tem mais temporada e sempre está lotada, São Bento do Sapucaí, bem interessante, mas já está com características de Campos quanto a visitação e Santo Antônio do Pinhal, das três a mais tranquila e que poderia ser um belo ponto para o relaxamento de curto espaço de tempo. Santo Antônio do Pinhal venceu por unanimidade e lá estávamos a caminho de pouco mais de 180 km para chegar a pequena cidade de 133 Km² e com uma população de aproximadamente 6.500 habitantes. Uma viagem de apenas duas horas, digo apenas pois as estradas, tanto a Ayrton Senna como a Carvalho Pinto, estão em excelente estado de conservação o que torna a viagem tranquila e digna de poder aproveitar as planícies que ali se encontram. Chegando a Santo Antônio do Pinhal parece que voltamos no tempo, com ruas pequenas e um jeito autêntico de roça que contrasta com as lojas de grife e construções alpinas da vizinha mais ilustre, Campos do Jordão. Em comum entre as duas somente o frio e as montanhas.

Chegamos cedo e visto isso, resolvemos ir ao Pico Agudo, ponto mais alto da cidade. Para chegar até ele, tínhamos de percorrer 8 km de subida em uma estrada de terra a qual pode-se dizer que foi feita para ter o mínimo de gente subindo e tumultuando o espaço. Depois de 40 minutos fomos premiados com uma vista sem igual, 1.700 metros de altitude que proporciona uma visão de 360° do Vale do Paraíba. O sol estava ali para nos recepcionar e a névoa timidamente se apresentava para deixar sua marca na grama e no frescor do ar. “Mas e ai… viagem repentina, no pico do mundo, uma vista incrível e nada para registrar?” Assim foram as palavras da minha esposa quando olhamos para baixo na ponta da plataforma de paraglider e vimos àquela pintura. Neste momento eu saco do bolso da calça, isso mesmo, do bolso da calça, a minha câmera compacta para fazer o registro desta arte da natureza. Paisagem admirada, registros feitos, resolvemos voltar à cidade para conhecer um pouco mais deste local pitoresco. No retorno não poderíamos deixar de tomar um café feito como nos tempos da vovó, no coador de pano com um delicioso pedaço de bolo de laranja feito ali mesmo, na casa da proprietária que ficava nos fundos do pequeno salão. Fomos tratados como se estivéssemos na casa ao lado a mais de 30 anos. Tudo muito simples, porém tudo muito acolhedor. De volta ao centro da cidade deixamos o carro e fomos fazer uma caminhada para conhecer o comércio e seus arredores. Uma cidade limpa, pessoas que cumprimentavam olhando nos olhos e com um sorriso no rosto. Todos indicavam todos sem se preocupar com a concorrência e, além disso, distribuíam cartões indicando seus amigos que faziam as mesmas coisas. Para mim que vive em uma cidade como São Paulo onde cada um é por si e a inquietação é por todos, fiquei surpreso e as vezes até desconfiado mas posso dizer que essa minha forma de pensar durou pouco, na verdade até a hora do almoço.

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m dia de Domingo que poderia ser monótono como os demais a espera de mais uma semana corrida e cheia de novidades.


Passamos na frente de um restaurante que havia sido indicado como um dos melhores da cidade, o Massa ao Mel. Nome sugestivo e de bela aparência.

Nisso já estávamos no final do dia e com uma chuva sendo preparada pelos mesmos Deuses que criaram os cenários sensacionais que registrei durante a nossa estadia na cidade.

Não poderia ter sido melhor. Massa feita na hora na frente dos nossos olhos e com um doce sabor das trattorias Italianas.

Tivemos um dia diferente, conhecemos pessoas diferentes e imagens inesquecíveis.

Uma boa sobremesa e já estávamos prontos para seguir o nosso pequeno, mas interessante roteiro turístico feito de última hora. Fomos à estação de trem Eugênio Lefèvre. Embora fique no município de Santo Antônio do Pinhal, esta estação, inaugurada em 1916, nunca teve oficialmente o nome da cidade. A estação funciona até hoje no mesmo prédio original, situando-se pouco além da metade do caminho da ferrovia. Junto a ela, uma vila ferroviária onde pudemos ver a vida de seus moradores locais e uma subestação da ferrovia. Além disso, possui lojas com artesanatos da região, lanchonetes um café e o melhor bolinho de bacalhau que já comi, feito no bar Bolinho de Bacalhau e Cia. Os trens ainda funcionam até hoje com passeios turísticos, onde a estação Eugenio Lefèvre recebe o trajeto Campos do Jordão/Santo Antônio do Pinhal e é também parada no trajeto Campos do Jordão/Pindamonhangaba.

Passeei, admirei, conheci e registrei lugares iluminados pelo sol e lugares onde o sol só fazia menção e em nenhum momento precisei me preocupar com o equipamento que estava usando, pois apesar de compacta, a minha Fujifilm X20 soube trabalhar muito bem nos diferentes ambientes sem que eu precisasse me preocupar com fotometria ou qualquer outra coisa. Coloquei na prioridade de abertura e deixei que a câmera pensasse, pois eu… eu estava preocupado em passar o dia com a minha esposa curtindo o momento. E para fechar, fiz tudo em jpegs nativos para não ter de fazer pós-produção. Não que seria uma perda de tempo, mas sim pelo fato da câmera dar conta dos ótimos resultados. #MyArtHas Fujifilm X20

A estação é um lugar muito agradável onde em suas instalações principais temos uma luz que vem refletida das hortênsias que estão ao seu redor sem a incisão direta do sol nas mesas que ficam bem próximas da linha de embarque. Neste espaço você pode degustar seu café ou sua refeição olhando para as belas flores e o trilho de trem que segue onde os olhos não podem alcançar. Saindo do local de embarque, vemos as casas do vilarejo, que tem a incidência da luz do sol misturada com a névoa criando um cenário cinematográfico. Sem dúvida alguma não poderia deixar de registrar esses momentos únicos e trazer essa mistura de cores e de texturas para uma realidade eterna.

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Bem ao lado da estação existe o Mirante da Santa onde temos a vista panorâmica do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira. Mais um lugar digno de boas fotos.

ISO 320 | 11,3mm (equiv. 45mm em 35mm) | f 4.5 | 1/1250


ISO 320 | 7,9mm (equiv. 30mm em 35mm) | f 9 | 1/680

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ISO 320 | 10,4mm (equiv. 40mm em 35mm) | f 10 | 1/640


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ISO 320 | 10,4mm (equiv. 40mm em 35mm) | f 9 | 1/125

ISO 320 | 12,4mm (equiv. 50mm em 35mm) | f 9 | 1/500


ISO 320 | 8,7mm (equiv. 35mm em 35mm) | f 8 | 1/60

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ISO 320 | 15,2mm (equiv. 60mm em 35mm) | f 13 | 1/60


O QUE FAZ UM BOA FOTO DE RUA? POR THOMAS LEUTHARD


O QUE FAZ UMA BOA FOTO DE RUA?

Esta é provavelmente uma das perguntas mais feitas e mais difíceis de responder. Se houvesse uma receita para isso, todos seriam capazes de fazer boas fotos a qualquer momento . Há quatro fatores importantes que eu gostaria de mencionar que podem ajuda no processo de criação de uma foto de rua: 1. conteúdo 2. composição 3. qualidade 4. tempo

Thomas Leuthard thomas@leuthard.ch

1. conteúdo O conteúdo faz a fotografia se tornar interessante e vale muito a pena prestar atenção neste fator. Quanto mais tempo você passar a olhar para a fotografia, o que é melhor. Nós fotógrafos temos de contar uma história com apenas um quadro enquanto cineastas têm vários quadros para fazer o mesmo. Nós também temos que contar essa história sem acrescentar qualquer texto ao quadro, ao passo que os jornalistas escrevem textos para compor uma história. Portanto, o maior desafio na fotografia é trazer uma grande história em um único quadro, mas como vamos fazer isso? Eu diria que nós temos que isolar o assunto principal que contará a história. Nós também temos que chegar o mais perto possível, a fim de se livrar de todos os objetos que não são relevantes para a história e o quadro que queremos criar. Quando conseguimos realizar essas duas coisas , estamos no caminho certo para dominar a fotografia de rua. No meu estilo de foto os olhos são cerca de 50% da foto. 2. composição Encontrar o tema certo para a nossa história, isso é o mais importante na composição. A composição básica é parte de cada momento da foto, mas existe uma boa parte de fotógrafos de rua que estão muito ocupados com todas as outras tarefas necessárias para tirar uma fotografia. Todo mundo sabe o que é regra dos terço ou ao menos deveria saber pois é básico.

Mas há muitas outras coisas, como o ponto de vista, a profundidade de campo (abertura) , a velocidade do obturador (mostrando movimento) , camadas , linhas principais , padrões e assim por diante. Quanto mais original melhor é a sua composição, mais interessantes sua fotografia fica. Não há nenhuma limitação na criatividade nas ruas. Muitas vezes você tem que reinventar a sua criatividade e compor o mesmo de forma diferente. A corrida para uma composição original e interessante não tem limites. O processo de criatividade nunca termina. Você deve investir mais do seu tempo na composição. Composição para mim é mais 50 % da foto. 3. qualidade Para a maioria dos fotógrafos uma boa foto tem que ser afiada e corretamente exposta. Quando chegam neste objetivo, pensam que atingiram o estado de uma boa fotografia de rua. Ao pensar isso, eles esquecem que existem as duas regras acima. Para alcançar a qualidade, alguns fotógrafos trabalham somente no modo M de sua câmera. Esses fotógrafos pensam que quanto mais trabalham manualmente melhor fotógrafos são. Mas o que é mais importante? Ter o resultado final ou a forma como você chega nele? O observador só vê o resultado final e não tem idéia de como ele foi criado. Se você fotografou no modo automático ou no modo manual, ninguém vai saber. O tempo que você ganha quando fotografa em modo P pode ajudá-lo a se concentrar em uma composição melhor, o que é muito mais importante do que a forma como você cria suas fotos. Quando o conteúdo e a composição são bons, a qualidade é secundária. Mas, quando a qualidade é perfeita e a composição e conteúdos são fracos, a foto se perde.

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que faz uma boa rua foto?


4. tempo Após 5 anos de fotografia de rua, posso dizer que o tempo que você pratica nas ruas é, provavelmente, a melhor garantia para uma boa fotografia de rua. Você não pode aprender fotografia de rua em um dia. Você tem que ir para as ruas por vários dias e criar um hábito de ir as ruas para fazer novas fotos .

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Se você me perguntar por números, eu diria que você deve praticar 10.000 horas fotografando nas ruas (com base no livro “ Outliers “ ) e você deve fotografar 500.000 quadros a fim de dominar a fotografia de rua. Se você sair por uma hora todos os dias, significa que você tem que fazer isso por 10.000 dias, o que resulta em 27 anos.

Quanto mais você é talentoso e quanto mais rápido você aprende, mais chances de reduzir esses números você tem. Mas nunca pense que dominar a fotografia de rua é um pedaço de bolo. Nem mesmo eu acredito estar no ponto ainda... Conclusão Em teoria, uma boa fotografia de rua contém uma história forte (conteúdo) , é baseado em uma composição única, é feito de excelente qualidade (nitidez e exposição) e foi tirada por um fotógrafo que tem muita experiência . Quando as pessoas reconhecem a sua escrita como fotógrafo baseado no quadro que olham, você pode começar a acreditar que está no caminho para atingir a meta de uma boa fotografia de rua.


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SEM SAÍDA?

Otavio Costa otavio@flyview.com.br

Recentemente acompanhei, ao vivo, via Internet, uma apresentação de ferramentas desenvolvidas para ajudar as pessoas a lidar com as diversas questões relacionadas com a experiência de fotografar e fazer vídeos. Muitos pensam em fotografia apenas como o momento do clique, mesmo que todo mundo saiba que o resultado, em geral, depende de muitos fatores, como o “talento”, o equipamento, o objeto registrado, a capacidade técnica, o momento, a luz... a sorte... enfim, muitos e muitos infinitos fatores. Mas além de tudo isso, há outra quantidade igual ou maior de fatores que não acontecem no momento do clique, ou do REC, mas depois dos mesmos. O evento, que pode ser visto no Youtube, se chamou “A morning with Google+” e apresentou novas ferramentas para auxiliar em todo o “workflow” do pós-processamento e da organização das imagens. Tem uma porção de coisas interessantes e surpreendentes, embora a maioria, por enquanto, ainda sirva mais aos fotógrafos amadores. http://www.youtube.com/watch?v=al0k1Dia6E0

Entre os destaques, a organização automática e “inteligente” que agrupa as imagens pelo seu conteúdo, identifica pessoas e objetos e seleciona as “melhores imagens”, não só por critérios técnicos, mas também com a análise da observação do comportamento do público que navega pelos milhões de imagens produzidos todos os dias. Na verdade, mais de 1,5 bilhão de fotos por semana são incluídas no Google+ pelos usuários. O sistema permite o acesso a todas as imagens produzidas, mas destaca as melhores, as que mostram as pessoas relevantes para você, as que são originais e etc... inicialmente escondendo as “ruins”, as redundantes e as de pouco interesse.

Mas o detalhe é que esse sistema aprende com você e com todos os que fotografam, melhorando e afinando sua capacidade crítica. E se você quer procurar as imagens que não foram destacadas, alem de poder ver uma a uma, pode fazer buscas por muitas dezenas de palavras e objetos que o sistema já entende. E ele as encontra para você, sem uso prévio de tags ou de qualquer organização por parte de quem as postou. A sua inteligência vai além, melhorando automaticamente, a qualidade das fotos, fazendo todo o tipo de correções que normalmente o fotógrafo faz manualmente no seu software preferido. Sim, você pode reverter o processo, parcial ou completamente, mas provavelmente vai se surpreender com algumas correções que ele é capaz de fazer naquelas imagens que o seu celular parecia ter destruído definitivamente. E tem muito, muito mais, porque, além de uma inteligência artifical cada vez mais competente, o sistema trabalha com algoritmos capazes de revelar nas imagens aquilo que parece que nem estava lá. Então me lembrei dos filmes de ficção. E me surpreendi mesmo quando me dei conta que um dos que mais antecipou o que o Google lançava naquele momento, não era um filme de ficção científica, mas sim um filme de ação (e “suspense”), de 1987, o Sem Saída, com Kevin Costner (tem no Neflix). Entre outras coisas interessantes o filme mostra um software capaz de interpolar os pixels de uma imagem digitalizada de um filme Polaroid esposto à luz antes do processo natural de revelação. Apesar de lento, o tal computador é capaz de imaginar todas as possibilidades de cada ponto da imagem para buscar a imagem original que foi perdida logo após o clique. Com ferramentas como essas, mais algumas dificuldades de nossas vidas ficam superadas, mesmo que o herói do filme não tenha gostado muito da ideia. Mas pra tudo tem uma saída, não é? Dica – Assista o filme... e também a apresentação do Google+ (no Youtube, o início é aos 12 minutos do vídeo). Não vai se arrepender.

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Pra tudo na vida, sempre tem uma saída”. É o que a própria vida ensina... que a ficção fequentemente antecipa e que, em geral, o tempo comprova.


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CRÔNICA OS SEUS OLHOS

Zeca Salgueiro zecasalgueiro@gmail.com

Ela chegou do salão de beleza com tudo renovado: cortou os cabelos, tingiu as raízes, cortou e esmaltou as unhas das mãos e dos pés, delineou as sobrancelhas, depilou as virilhas e outras partes. Tudo imperceptível, claro. O corte de cabelos não chegou a meio centímetro, e o penteado continuou o mesmo; trocou a cor das unhas de “branco-neve” por “branco-ártico”; tirou dois fios de cada sobrancelha e chegou em casa de calça comprida, o que impedia a apreciação do resultado da depilação. Ele estava em casa, meio dormindo, meio assistindo um jogo de futebol da série B, deitado no sofá, quando ela chegou toda sorridente e sentou do lado dele. - Oi! – disse ela. - Oi, amor – respondeu ele, também sorrindo. Ela ficou encarando-o e sorrindo. Ele perguntou: - Por que você está me olhando assim? - Assim como, amor? - Assim, com esses olhos tão abertos... Tá me assustando. - Você não reparou nada? – forçou ela. Aí ele ficou assustado de verdade. Reparar em quê? Estava tudo exatamente igual quando ela saiu, quatro horas atrás. Já passava das seis da tarde e a sala estava na penumbra. Mas ele tinha que arriscar algo: - Você mudou o cabelo? – arriscou. - Hum-hum – limitou-se ela. - Ah, bem que eu percebi... - Só o cabelo que você notou? – insistiu ela, irritada.

- Ah, sei lá, pô! A sala tá escura, eu estava dormindo, e você me acorda pra eu ver uma mudança que ninguém conseguiria ver. Fala de uma vez o que você fez, por favor? - As unhas! Como é que você não percebeu a cor das unhas? - Que cor? Continuam brancas como estavam na semana passada! - Branco-ártico! Semana passada eram branco-neve! Olha aqui! – Ela levantou-se e acendeu as luzes da sala. Todas as luzes da sala. - Meus olhos caramba! Agora tá tudo branco! - Olha bem as unhas, e eu me depilei também! - Você está de calça! Como eu vou ver se você se depilou se você está vestindo calças?!? - Você tinha que... Nossa! – ela parou de falar e ficou fitando o marido. - O que foi agora? - Nunca reparei nisso... - Nisso o que, pô? Você tá me assustando de novo. Viu um tumor, por acaso? – perguntou ele. - Não, não é nada... É que eu nunca tinha reparado que seus olhos são castanhos claros... - Depois de dez anos de casados, só agora que você percebeu a cor exata dos meus olhos? – perguntou ele, rangendo os dentes. - É! Engraçado isso... Eu achava que eram bem mais escuros... Ele ficou três dias sem falar com ela. E não adiantou ela mostrar outras partes depiladas.


BWINCOLOR EDIÇÃO #06 MARÇO | 2014 ISSN: ISSN 2318-194X BLACK&WHITEINCOLOR CONTATO: | PHONE: 11 2532.0549 | MOBILE: 11 98208.3698 | EMAIL: CONTATO@BWINCOLOR.COM.BR A BLACK&WHITEINCOLOR é uma publicação bimestral para multiplataforma desenvolvida para web, tablets, smartphones, desktops, laptops e também na versão impressa DISTRIBUIÇÃO DA REVISTA CANAL DIGITAL: WWW.ISSUU.COM/BWINCOLOR E-COMMERCE - VERSÃO IMPRESSA WWW.BWINCOLOR.ALPHAGRAPHICS.COM.BR SITE DA REVISTA WWW.BWINCOLOR.COM.BR

CURTA a nossa página no facebook www.fb.com/bwincolor FOTO CAPA: Rui Costa PROJETO GRÁFICO: Marcello Barbusci EDITOR CHEFE: Marcello Barbusci ADMINISTRAÇÃO DAS REDES SOCIAIS: Tiago Henrique TRADUÇÃO: Marcello Barbusci IMPRESSÃO: www.alphagraphics.com.br Ninguém está autorizado a negociar permutas com lojas, hotéis e similares em nome da BLACK&WHITEINCOLOR, a pretesto de produzir matérias para a revista.

ENTREVISTA COM: Madhur Dhingra Fotógrafo baseado em Nova Déli (Índia). Profissionalmente trabalhando para as agências de publicidade de Nova Déli mas sua verdadeira paixão está nas ruas e fotografias de viagem. NÃO PERCA NA PRÓXIMA EDIÇÃO DA BLACK&WHITEINCOLOR

Este produto é impresso na - uma empresa comprometida com o meio ambiente e com a sociedade, oferecendo produtos com o selo FSC©, garantia de manejo florestal responsável.


já estamos trabalhando na próxima edição


BLACK&WHITE IN COLOR #05 - Pt  

Alguns assuntos dessa edição: Capa Rui Costa, El Calafate, Las Vegas - Antitése sem fim, A Luz da arte, Vida e morte da carne e da arte, Mar...

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