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Todos os direitos em língua portuguesa reservados por © 2009, BV Films Editora Ltda e-mail: comercial@bvfilms.com.br Rua Visconde de Itaboraí, 311 – Centro – Niterói – RJ CEP: 24.030-090 – Tel.: 21-2127-2600 www.bvfilms.com.br / www.bvmusic.com.br É expressamente proibida a reprodução deste livro, no seu todo ou em parte, por quaisquer meios, sem o devido consentimento por escrito. Originalmente publicado em inglês com o título: Inconceivable Copyright © 2006 Shannon Woodward All Rights Reserved This edition is published by special arrangement with COOK COMMUNICATIONS MINISTRIES Cook Communications Ministries, Dept. 201 4050 Lee Vance View Colorado Springs, CO 80918 Web site: www.cookministries.com Classificação: Moral Cristã e Teologia Devocional Editor Responsável: Claudio Rodrigues Coeditor: Thiago Rodrigues Capa: Guil Editoração: Josnei Formagio Tradução: Roseli Ferreira da Silva de Lima Revisão de texto: Kelly Cristina Gonçalves Barros, Ariana Fátima C. Baptista e Daiane Rosa Ribeiro de Oliveira ISBN - 978-85-61411-35-0 1a edição - Abril 2010 Impressão: Imprensa da Fé Impresso no Brasil


Para David, que segurou a minha mão quando esta longa jornada começou e disse: “Tudo vai ficar bem.”


Sumári o Agradecimentos................................................................................................... 7 Introdução ........................................................................................................... 9 Capítulo 1: Pânico............................................................................................. 15 Capítulo 2: Amor e Aversão.............................................................................. 19 Capítulo 3: Figura Paterna............................................................................. 25 Capítulo 4: Suposições ..................................................................................... 31 Capítulo 5: Pegadas ........................................................................................... 37 Capítulo 6: Mitos............................................................................................... 43 Capítulo 7: Fissura ............................................................................................ 49 Capítulo 8: Derrubando as Barreiras ............................................................. 55 Capítulo 9: Esperança ....................................................................................... 61 Capítulo 10: Injustiça........................................................................................ 67 Capítulo 11: Celia ............................................................................................. 73 Capítulo 12: Corda Bamba .............................................................................. 79 Capítulo 13: Trabalho de Parto...................................................................... 85 Capítulo 14: Indo para Casa............................................................................. 91 Capítulo 15: Dia das Mães ............................................................................... 97


Capítulo 16: Medo e Admiração ................................................................. 101 Capítulo 17: A Corrida .................................................................................. 107 Capítulo 18: Deslocada ............................................................................... 113 Capítulo 19: Indefesa .................................................................................. 119 Capítulo 20: Beleza ......................................................................................... 127 Capítulo 21: A Lição ...................................................................................... 133 Capítulo 22: Aflição Benéfica ...................................................................... 139 Capítulo 23: Encontrando um Espaço......................................................... 145 Capítulo 24: Perdida e Achada .................................................................... 151 Capítulo 25: Obediência ............................................................................. 159 Capítulo 26: Graça Imensurável .................................................................. 165 Capítulo 27: Água Viva .................................................................................. 173 Capítulo 28: Desafio ...................................................................................... 177 Capítulo 29: Contentamento ...................................................................... 183 Capítulo 30: Presentes ................................................................................. 189 Capítulo 31: Árvore Genealógica................................................................. 193 Capítulo 32: Sinais ......................................................................................... 199 Capítulo 33: Morte e Vida .......................................................................... 203 Capítulo 34: A Escolha................................................................................ 213 Guia do Leitor.................................................................................................. 219


Agradecimentos Mary McNeil – Eu devo agradecer-lhe em primeiro lugar porque se você não tivesse tomado a palavra naquele dia quente, em nosso camarote na Mount Hermon Christian Writer’s Conference [Conferência Cristã de Escritores Cristãos Monte Hermom], e perguntado: “Você já pensou em escrever um livro sobre infertilidade?”, eu provavelmente nunca teria me aventurado nesta estrada. Você é um editor do melhor tipo – você acredita nos seus escritores. Obrigada por ser meu amigo. Joan Husby, Diana Savage Kruger, Agnes Lawless, Carolyn Meagher e Peggy Downing – obrigada por debruçarem-se sobre cada palavra do meu manuscrito. Vocês ajustaram as descrições, cortaram as redundâncias, corrigiram as vírgulas e, principalmente, encorajaram a autora. Eu valorizo a sabedoria e estimo muito a amizade de vocês. Laurie Watson, Elaina Watson, Mary Ann Berkbigler, Heidi Williams, Pam Severns, Cora Welch, Jennifer Calvin, Sally Brandenburger, Chris Underwood, Diane Poirier e Nancy Baca – suas orações mantiveram meus dedos em ação. Obrigada por sua amável fidelidade. Nancy Henry – você é a melhor assistente pessoal que eu poderia desejar. Eu sou abençoada por poder lhe chamar de minha irmã e amiga. Elen Boda e as senhoras do Shiló Garden – vocês são mulheres fortes, formosas e preciosas. Obrigada por abrirem o grupo... e o coração de vocês para mim. Dave, Zac and Tera Woodward, Mike Douglas, Megan Johnson, Makenna Ryder, Todd, Tarri, Christian e Nathan Slater, Denise Webber – obrigada por me deixarem contar suas histórias, amo todos vocês!


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Meu Senhor e Deus – quando eu não podia mais correr, levantaste-me e carregaste-me para casa. Obrigada por amar esta filha pródiga.


Introdução Você quer abraçá-la?”, Karen perguntou.

Eu não consegui ver a criança em questão. Sua mãe tinha-lhe embrulhado como uma criança prestes a entrar em uma nevasca, embora o cômodo estivesse quente devido ao calor de cinquenta mulheres agrupadas e uma mesa cheia de panelas de barro e caçarolas. Eu não conseguia vê-la, mas eu sabia que em algum lugar no fundo daquela macia manta rosa, a pequena Makenna Purdue aguardava. Pelo menos cinco outras mulheres tinham-lhe segurado no colo, e agora tinha chegado a minha vez. Eu tinha quarenta e um anos de idade e nunca tinha concebido uma criança. Eu nunca havia descansado minha mão sobre minha própria barriga em admiração pela vida crescendo dentro de mim. Eu nunca tive o privilégio de trazer um clone em miniatura de mim mesma a uma reunião de estudo bíblico e passá-lo aos braços de minhas amigas para que o vissem e o abraçassem. Então a pergunta permanecia: Será que eu queria segurar o bebê de outra mulher? Já se passaram dezoito anos desde que ouvi a palavra infértil direcionada a mim. Durante a primeira metade daqueles anos, eu chorei demais, gritei com os céus e invejei todas as pessoas férteis de todos os lugares. Evitei chás de bebê e passei longe dos departamentos infantis das lojas. E gastei muito tempo sobre meus joelhos. Eu também li vorazmente e aprendi a pesquisar. Li debates éticos sobre fertilização in vitro, decifrei periódicos médicos e estudei livros


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que me diziam como relaxar, ou simplesmente mudar meus hábitos alimentares. Li histórias inacreditáveis que alimentavam minha esperança e detalhavam concepções milagrosas. Por muito tempo, eu tentei me convencer que se eu simplesmente relaxasse, comesse melhor e continuasse a acreditar, finalmente receberia o meu próprio milagre. Mas não aconteceu. Embora eu tenha seguido religiosamente as ordens do meu médico, com mudança de dieta, exercícios, cirurgia e tenha tentado cada uma das mais recentes dicas que aqueles livros sobre fertilidade sugeriam, nada aconteceu. No final das contas, eu não estava assim tão surpresa. Todas as vezes em que eu pegava um daqueles livros promissores e permitia que as minhas esperanças se renovassem, primeiramente eu tinha o trabalho de silenciar a voz cética em minha mente, a voz que permanecia sussurrando, E se? E se essa nova opção não funcionasse? E se nenhuma outra coisa jamais funcionasse? E se – ao final de uma jornada longa e torturante – eu simplesmente não pudesse engravidar? Não encontrei nenhum livro que abordasse essa possibilidade. Então eu calei aquela voz da melhor maneira que pude e continuei lendo... e esperando... e aguardando. Esperar é o estigma da infertilidade. Torna-se o verbo de sua vida. Você espera em consultórios médicos... espera o início do seu ciclo... espera pela ovulação. Espera pelo termômetro basal para registrar sua temperatura. Você espera que o indicador do teste de gravidez marque a cor positiva. Você espera por um milagre. Se você ainda tem muita disposição para “esperar”; se há um termômetro e uma pilha de tabelas em sua cabeceira; se você já comprou o medicamento Clomid esta manhã; e ainda espera que este livro lhe revele os segredos da concepção, então é melhor largá-lo e continuar sua busca nas prateleiras de livros. Tenho certeza de que você vai encontrar dezenas de livros de tratamentos médicos para escolher. Mas eu não estou escrevendo um desses livros. Ao contrário, estou escrevendo para a mulher que está cansada de esperar durante toda uma vida. Estou escrevendo para a mulher que não


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mais suporta tratamento médico; para a mulher que chegou a um ponto do tratamento ao qual ela não aguenta mais se submeter; para a mulher que não mais suporta deixar suas fracas esperanças se fortalecerem e uma vez mais vê-las desfalecerem irrecuperavelmente. Eu estou escrevendo para a mulher mais idosa que acabou de adentrar a menopausa e para a mais jovem que já teve que se submeter à histerectomia; mulheres que sabem que suas batalhas já chegaram ao fim. E estou escrevendo para um grupo de belas mulheres que encontrei por meio da Internet. Mulheres que tiveram a coragem de expressar as suas mais profundas aflições: “Eu vivo em um poço sem fundo de depressão.” “Eu tenho pensado em suicídio.” “Eu queria morrer para que meu marido encontre uma esposa que possa dar-lhe filhos” Se esses pensamentos parecem com os seus, estou escrevendo para você. Este é um livro que aborda as dúvidas que se alojam em um canto escondido de sua mente. Eu sou a mulher que você temia em se tornar – aquela que tentou tudo que estava dentro de seu alcance e ainda assim não conseguiu conceber. Porém, sou também uma mulher que pode lhe assegurar que minha vida é plena, completa e satisfatória. Estou em paz com meu caminho, e tenho vivido assim por um longo tempo, então eu gostaria de oferecer a você a esperança de encontrar essa paz para si mesma. Vou revisitar a minha dor nestas páginas. Muito do que vou dizer não tem perpassado minha mente nos últimos nove anos. Parece difícil de acreditar, eu sei, mas quando comecei a relembrar e ponderar, fiquei surpresa em descobrir o quão completa a minha cura foi. Pensamentos que costumavam trazer-me tremenda angústia e sofrimento não tinham mais poderes sobre mim. Este livro começa com o início de minha jornada, em um turbilhão de pânico. Compartilharei com você a dor, a ira e até mesmo a autoaversão quando tinha que lidar com os diagnósticos. Levei nove longos anos para mudar o rumo, e é nesse ponto que a melhor história começa. Em


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uma bifurcação na estrada, pude ler claramente as placas em ambas as direções. Em uma estava escrito “amargura”; na outra prometia “paz”. Deus se posicionou em uma das direções e acenou. Eu O segui – e nunca me arrependi de ter feito aquela escolha. Vou falar para você sobre a cura, mas não aquela pela qual você talvez esteja orando. Depois de anos desprezando o que não funcionava em mim e medindo o meu valor pelo o que eu conseguia ou não conseguia produzir, implorei a Deus que curasse meu corpo. Entretanto, Ele tinha um plano melhor. Ele curou partes de mim que eu não sabia que estavam doentes, regenerou a pele sobre as minhas velhas feridas e livrou-me de minha dor e ódio por mim mesma. A cura, de acordo com o que aprendi, é um trabalho oculto. É o toque de Deus nos lugares sensíveis e inexplorados da sua alma. É algo que você não sente de uma vez só; é algo que não se pode ver, que não se pode marcar em um calendário. Você simplesmente olha para as semanas e os meses que se passaram e percebe que não sente mais a dor que costumava sentir. A própria natureza da cura, é claro, envolve dor. Eu estou fazendo o melhor que posso para ser verdadeira com você neste livro – para não economizar palavras no que diz respeito à dor da infertilidade. Partes desse livro são intensas e, desta forma, podem mexer com algumas emoções difíceis. Se você se sentir mal durante a leitura, minha sugestão é que você use as perguntas do guia de estudo para ajudá-la no processo. Você pode até mesmo achar útil fazê-lo sempre após a leitura de alguns grupos de capítulos. Durante a leitura, eu espero e oro para que Deus inicie o processo de cura em você. Ele estará pronto, se você também estiver. Ele está sempre pronto. Aquele bebê que eu mencionei no início desta introdução? Ela foi um dos nove bebês nascidos na nossa congregação em um período de cinco meses. E como esposa de pastor nessa igreja tão fértil, eu segurei todos. Naquela noite, quando sua mãe a ofereceu, estiquei meus braços e aceitei pegá-la. Removi o cobertor rosa da face daquela criança, dei uma espiada e sorri abertamente para a pequena Makenna. Ela cumpriu a sua parte no que diz respeito à perfeição, simplesmente deitada em meus braços


Introdução

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com uma linda aparência. Eu não conseguia parar de olhá-la. Ela parecia muito com uma boneca de porcelana, exceto uma vez ou outra quando ela levantava suas sobrancelhas, assustada com o meu largo sorriso. Se você tivesse me dito que um dia eu poderia segurar o filho de uma outra mulher por uma hora, simplesmente apreciando aquelas miniaturas de dedos e aquela face pequena, dócil e perfeita sem uma ponta de dor ou inveja, provavelmente eu não teria acreditado. Eu teria pensado assim... bem, isso é inconcebível. Entretanto, foi o que aconteceu. Nosso Deus é o Deus que cura. Foi assim que Ele me curou.


1 Pânico

Janeiro de 1988

Ninguém jamais veio me perguntar como eu me sinto em relação a

ser infértil. Mas eu tenho uma resposta pronta. Se alguém chegasse para mim e pedisse: “Diga-me exatamente como é descobrir que não se pode conceber”. Eu responderia: “É exatamente como se afogar.” Não que eu já tenha realmente me afogado antes. Mas cheguei bem perto disso, no verão em que fiz doze anos. Era um dia normal na piscina pública – sol brilhante, céu azul, ociosas nuvens brancas. Minha mãe, com a cobertura fresca de uma mistura de óleo infantil e iodo (nós não sabíamos nada sobre câncer de pele nos anos setenta), estava deitada semiconsciente, numa espreguiçadeira junto a um verdadeiro mar de mães igualmente untadas. Na piscina infantil ao lado, minha irmã mais nova, Tarri, fingia saber nadar. Na piscina grande, Megan, minha irmã de oito anos, tinha acabado de pular sobre minhas costas para brincar de “táxi”. “Para aonde deseja ir, senhora?” Perguntei com o meu melhor sotaque de taxista. Ela apontou para o lugar mais fundo da piscina. “Preciso fazer compras. Deixe-me lá naquela loja”. Como que convencida de que eu a obedeceria, ela segurou o meu pescoço da mesma forma que, imagino, uma cobra de trinta quilos faria e deu-me um forte chute para me impulsionar.


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Olhei para a extremidade distante da piscina. Tinha estado lá antes – muitas vezes, na verdade – mas nunca com uma jiboia apertando o meu pescoço. Seu chute me colocou em movimento. O trânsito estava pesado naquela tarde, mas eu abri caminho entre a multidão, buzinando em todos os lugares apropriados e agradecendo a todos os que nos davam passagem. Quando nos aproximamos da corda que fazia a divisão entre as partes da piscina que mediam um metro de profundidade e três metros e sessenta, respectivamente, o chão da piscina começou a declinar e a água subia a cada passo. Logo o meu pescoço estava coberto e depois o meu queixo. Megan continuava me cravando as esporas: “Vamos lá!” Meu plano era agarrar a corda e nos puxar para o lado da piscina. De lá, nós simplesmente nos apoiaríamos ao longo da margem até que alcançássemos o fundo. Quase um metro antes do meu alvo, a dúvida me preencheu. A corda estava lá – bem à nossa frente – mas eu já estava na ponta dos meus dedos, e cada passo fazia a água elevar-se. A água contaminada por cloro espirrava contra meus lábios. Ondas errantes atravessavam o meu canal nasal. Eu vi que não iríamos conseguir, então comecei a nos puxar de volta. Todavia, quando fizemos a meia volta, um tanto inesperadamente, alguém maior e mais pesado tombou contra nós. A força nos impeliu para frente uns cinquenta centímetros. Metade dos meus pulmões tinha ar – mas agora a água cobria a minha cabeça completamente. Debaixo da superfície, eu conseguia ouvir o protesto da Megan. Ela não gostava quando a água chegava ao seu queixo, sem se importar que a sua taxista estava completamente imersa. Ela segurou e chutou-me ainda mais forte. Abri meus olhos. Havia uma multidão na piscina. Corpos remexendo e braços e pernas nadando no estilo cachorrinho agitavam a água por todos os lados. Olhei para cima e vi o céu azul muito além do meu alcance. Uma dúzia de conjuntos de dedos – seus donos nada cientes do drama que se desdobrava ali em baixo – respingavam a água da superfície próxima à margem da piscina. Gritos abafados e risadas


Pânico

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sussurravam lentamente através da água. A vida continuava por todos os lados à minha volta enquanto meu coração palpitava e meus pulmões começavam a arder. Isso provavelmente durou uns dez ou quinze segundos, mas o meu tempo debaixo da água parecia que já durava uma hora. O peso leve da Megan era demais para mim. Eu tentei, mas não consegui dar um impulso para subir e respirar. Presa entre a segurança da extremidade rasa e os perigos da extremidade funda, sem ter nada para segurar, eu não via saída. Morreria ali no lado fundo da Piscina McCollum, enquanto minha mãe se bronzeava e minha irmã chutava minhas laterais com indignação. Mas exatamente quando eu sabia que não poderia segurar a respiração mais um segundo sequer, alguém mergulhou e eu levei outra pancada. Dessa vez, o empurrão me levou para debaixo da corda. Eu podia vê-la bem acima de minha cabeça, flutuando como uma corda salva-vidas. Eu a alcancei e mal conseguia tocar uma daquelas boias brancas. Nada jamais foi tão gostoso quanto encher o pulmão com aquela primeira inalada do ar quente de agosto. Eu engoli e arquejei e tive ânsia de vômito até conseguir me recompor. Depois eu tirei a Megan de cima de mim para o lado da piscina e corri para contar a todos que eu sabia que quase tinha morrido afogada.

Em um outro dia azul, alguns quatorze anos mais tarde, eu afundei novamente. O cenário, dessa vez, era uma sala de exame de esterilidade. Meu marido sentou-se em um banco perto de mim. Meu médico sentou à nossa frente segurando uma prancheta. Inadvertidamente, ele sacudiu a cabeça e disse palavras que pularam no meu peito, tiraram o ar dos meus pulmões e empurraram-me para o fundo: “Você é estéril”. Não houve tempo para respirar. Eu simplesmente comecei a ficar sufocada. Ele continuou falando, mas eu já estava tão lá em baixo naquele momento que suas palavras mal alcançavam meus ouvidos.


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O que eu realmente consegui ouvir – apesar do peso do choque que caíra sobre mim – era o som de uma criança dando gargalhadinhas no corredor além da porta. Pequenos dedos se arrastavam contra a parte de baixo da porta e eu ouvi uma voz feminina dizendo: “Segure minha mão, querido.” Eu imaginei aqueles dedos rechonchudos e a criança que eu sabia que era dona daqueles dedos – um menininho loiro, um menino com os grandes olhos azuis do meu marido e meu sorriso, um menino sendo levado para longe antes de eu ter tido a chance de vê-lo, tocá-lo ou segurá-lo. A gargalhadinha distanciou-se, juntamente com o meu último fôlego. O médico falou o meu nome. “Shannon? Você ouviu o que eu disse?” Eu não ouvi. “A laparoscopia mostrou que as suas duas trompas de Falópio estão bloqueadas. Não consegui corrigi-las durante o procedimento. A menos que você passe por uma cirurgia, não há nada mais que eu possa fazer.” Nosso plano de saúde não cobriria qualquer outro procedimento, pelo menos nenhum que estivesse relacionado ao propósito urgente de aumento de fertilidade. Nós mal conseguimos que cobrisse o custo da laparoscopia, e isto somente porque eu tinha dores frequentes e meu médico insistiu que verificássemos se o problema era endometriose. O peso dessa notícia me pressionava, cada vez mais. “Quanto custaria essa cirurgia?” Dave perguntou. “Aproximadamente oito mil dólares.” A quantia era sete mil dólares a mais do que tínhamos em poupança. “Será que poderíamos parcelar?” O médico sorriu fingidamente. “Claro – metade hoje e a outra parte no dia do procedimento.” Ele olhou rapidamente para o relógio. “Sinto muito por não ter trazido melhores notícias. Se resolverem fazer a cirurgia, informem-me.” Ele e sua prancheta deslizaram para fora, deixando o meu marido lidar comigo da melhor maneira que ele pôde. Eu não me lembro da volta para casa. Só lembro-me da sensação de que algo estava morrendo. E estava.


Livro Inconcebível