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Livro-reportagem desenvolvido como Trabalho de Conclusรฃo do Curso de Jornalismo do Centro Universitรกrio Toledo - UniToledo. Professor orientador Me. Fernando Henrique Bononi Verga Araรงatuba, novembro de 2020.


A peça sem palco A sobrevivência das companhias de teatro de Araçatuba


Este livro-reportagem foi produzido em meio Ă pandemia do novo coronavĂ­rus.


Índice Introdução ------------------------------ 10 Capítulo 01 ----------------------------- 13 A abertura dos espaços públicos culturais

Capítulo 02 ----------------------------- 39 Associação transformada em festival, a âncora do teatro araçatubense

Capítulo 03 ----------------------------- 61 A recuperação do cenário

Personagens --------------------------- 85 As vozes da história


Introdução


A P E Ç A S E M PA L C O Quando pensamos no movimento cultural de uma cidade, é preciso analisar alguns pontos. Dentre eles, estão o processo de desenvolvimento da região, qual a principal atividade econômica, quais características a população possuía em comum e como acontecem os jogos sociais da época. Araçatuba, cidade pertencente à região noroeste do estado de São Paulo, foi fundada em 1908. Seu nome, derivado de uma fruta conhecida como Araçá, carrega consigo uma história de anos de lutas e conquistas, de um povo que valoriza a terra fértil e têm a agricultura e os animais como principal riqueza, já que o município é conhecido como “A terra do boi gordo”. A indústria, junto às atividades agropecuárias, sempre foi o carro chefe da economia da cidade. Logo, as relações de poder se davam entre os membros desta sociedade de donos de terras e empregadores. É curioso pensar que o início do movimento cultural de Araçatuba respira colonialismo, pois foi o imigrante italiano Franco Baruselli que trouxe para o município o instrumento mais importante da Cultura da cidade até então, o Intec (Instituto Noroestino de Trabalho, Educação e Cultura). O espaço foi inaugurado em 1968, em meio à ditadura militar, possuía um teatro em suas dependências e era mantido por instituições da Holanda, Itália e Alemanha. Atualmente, onde era a sede do Intec funciona a Secretaria Municipal da Cultura de Araçatuba, e o antigo teatro da entidade hoje atende por outro nome: Teatro Castro Alves. 10


B R YA N B E L AT I Baruselli contou ao jornal Folha da Região em reportagem publicada no dia 2 de outubro de 2011 que a implementação da instituição se deu pelo seu entendimento do quanto a cultura é importante na maneira como as pessoas enxergam o mundo, e que ele tinha o objetivo de colaborar para que a população tivesse a oportunidade de desenvolver um senso crítico. O italiano, então deputado-estadual, não estava errado. Pois, em 1973, agentes do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações Centro de Operações de Defesa Interna), órgão da ditadura militar brasileira, estiveram no local para uma inspeção e levaram a maioria dos documentos e fotografias, como relatou Franco à Folha. Anos depois, o Intec passou a ser gerenciado pela própria Prefeitura, o que viria a se tornar anos mais tarde a Secretaria Municipal da Cultura do município. A semente plantada por um imigrante que acreditava na cultura como um instrumento de transformação social passou a dar frutos, em todos os sentidos. Os cinemas da cidade, que eram a sensação das noites de Araçatuba anos antes, se transformaram em teatros, e os espaços passaram a receber grandes nomes da dramaturgia e da música. Toquinho, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Gianfrancesco Guarnieri, Marília Pêra, Eva Wilma e Tony Ramos são alguns dos artistas que estiveram em Araçatuba, se apresentando para a população de toda a região. Estes nomes colaboraram para que o movimento cultural se consolidasse como uma atividade de responsabilidade pública, que necessita de apoio social e político, até os dias de hoje. 11


A P E Ç A S E M PA L C O Destes momentos iniciais até então, os movimentos culturais de Araçatuba passaram por diversas situações, com altos e baixos, enfrentando adversidades políticas e financeiras. Este livro-reportagem contará a história de como os grupos teatrais da cidade conseguiram se manter frente à falta de recursos, de apoio do poder público e a escassa estrutura dos espaços públicos para receber os artistas. Pois, como disse sabiamente o ator e diretor russo Constantin Stanislavski, “o ator deve trabalhar a vida inteira, cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons, desenvolver seu caráter; jamais deverá desesperar e nunca renunciar e este objetivo primordial: amar sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo”.

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Capítulo 01 A abertura dos espaços públicos culturais


A P E Ç A S E M PA L C O O corpo humano é complexo e perfeitamente desenvolvido para que tudo funcione ao mesmo tempo. Cada órgão desempenha uma função, e caso algum deles tenha algum problema ou pare de funcionar, é questão de tempo até outros órgãos também desenvolverem disfunções, e assim sucessivamente. Você deve estar se perguntando, “mas por que este livro começa falando sobre anatomia se o tema é teatro?”. Fique tranquilo, você entenderá o motivo. Eu não sou médico, mas sei que na anatomia o sistema nervoso e a região cardiorrespiratória são um conjunto que faz com que estejamos vivos, basicamente. Com as organizações não é diferente. Existem os principais departamentos, pautas e decisões a serem tomadas. Na década de 1970, o Intec (Instituto Noroestino de Trabalho, Educação e Cultura) era o coração de Araçatuba. Era naquele prédio, situado no centro da cidade, mais especificamente na rua Anita Garibalde, que o espírito de liberdade e a licença poética pulsavam por meio da arte. O endereço não tinha número, mas era conhecido e frequentado por muita gente. Afinal, em tempos em que a liberdade de expressão era uma prática proibida, somente a arte poderia dar vida a um município onde a cultura era destinada à elite. A entidade promoveu grandes festivais de teatro nesse período e artistas de todo o país vinham a Araçatuba para se apresentar. Os espetácu14


B R YA N B E L AT I los eram bem montados, ricos em cenografia e com vários atores em cena. Os grupos locais também desenvolviam ações, mas o forte da época eram as peças trazidas dos grandes centros para o interior. E como na arte - assim como em qualquer outro universo criativo -, nada se cria, tudo se reinventa, os artistas locais tiveram acesso a montagens vindas dos quatro cantos do país. Assim surgiam os espetáculos de berço araçatubense, nascidos e criados na terra do boi gordo. O de maior repercussão nos anos 1970 foi Os Fuzis da Senhora Carrar, de autoria do teatrólogo alemão Bertold Brecht. Adaptada e dirigida por Agostinho Aparecido de Souza, uma figura importante da velha guarda do teatro da cidade, a obra conta a história de uma senhora que perdeu o marido nos combates contra o governo do general Franco durante a Guerra Civil Espanhola, em 1936. A peça retrata a luta de uma nação a favor da democracia e contra governos ditatoriais. Como dizemos que a arte imita a vida e vice-versa, adivinhem: nesse caso não foi diferente. A única diferença foi que os guardas não eram conterrâneos de Cervantes. Talvez tivessem barrigas iguais à de Sancho Pança, “pero” não falavam espanhol, muito menos xingavam “hijos de puta”. A realidade se encaixava mais com “filhos da tortura”. Agentes do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) estiveram em Araçatuba à procura de Agostinho. Ele teve sua casa revistada. O que pensaria um militar a serviço de um governo 15


A P E Ç A S E M PA L C O ditatorial se encontrasse em uma casa cheia de armas, mesmo que fossem apenas cenográficas? Pois é, a revolução cantou no pensamento daqueles homens, e os objetos de cena agora eram chamados de outro nome: arma do crime. O diretor e os atores foram presos, tudo em nome da liberdade de expressão por meio da arte. E o fato deste relato estar presente no imaginário de gerações mais antigas do município só confirma outro acontecimento que prejudicou a memória cultural da cidade. Não existem fotografias ou documentos que ilustram esse contexto histórico, pois anos depois o governo confiscou a maioria dos objetos e pastas que estavam no Intec. Nada poderia mudar o que aconteceu. E isso fez com que os artistas locais seguissem na luta por direitos como cidadãos e como profissionais da arte, principalmente do teatro. Foi durante esse período que surgiu a Fetaano (Federação de Teatro Amador da Alta Noroeste), presidida por Nelson Pires. Era um sonho se tornando realidade. Com uma organização filiada à Confederação de Teatro do Estado de São Paulo na cidade, o acesso a artistas e espetáculos que eram apresentados somente na capital seria ainda mais possível. Diversas cidades do interior de São Paulo recebiam os festivais e as apresentações concorriam ao Prêmio Governador do Estado, considerada a honraria máxima do teatro naquela época. Araçatuba já era honrada por ter o Intec como ferramenta de impulsionamento da cultura 16


B R YA N B E L AT I local, principalmente na formação de público. Mas a entidade tinha ficado pequena para a grandiosidade das montagens. E lá estavam eles, Agostinho e os atores, da cadeia direto para o palco da premiação. A cidade foi representada com “Os Fuzis”, sendo a ganhadora do evento, o qual premiava não só o diretor, mas também o ator principal com uma bolsa de estudos e o restante da equipe com prêmios em dinheiro. •———————• Entre os anos de 1970 e 1980, o movimento teatral se intensificou graças aos prêmios conquistados por Agostinho e seu grupo. Esse acontecimento mostrou à classe artística da cidade que era possível romper a barreira entre pequenos e grandes centros, e que tudo dependia do esforço e do trabalho de cada grupo. Foi nessa época que os espaços públicos culturais foram inaugurados. As portas do Teatro São João se abriram na década de 1980. O espaço precisou ser reformado e reestruturado, pois não existia palco, camarim e muito menos estrutura de iluminação. Tratava-se apenas de um local com poltronas e um telão, pois antes de ser transformado em teatro, o prédio era a casa de um dos cinemas do município. Moradores antigos da cidade e artistas que vivenciaram esse acontecimento contam que o responsável pela reestruturação foi um sujeito conhe17


A P E Ç A S E M PA L C O cido como “espanhol”. Ninguém sabia ao certo seu nome. Porém, foi ele quem coordenou a instalación do palco e o cambio de la estructura da caixa cênica. Teatro devidamente estruturado e pronto para receber o público, só faltava chegar o tão aguardado dia da estreia. As expectativas dos moradores de Araçatuba e da região aumentavam a cada dia, e a inauguração estava mais próxima do que nunca. Na noite de estreia, o espetáculo ficou por conta de Ana Botafogo, a primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A carioca que iniciou sua carreira em Marselha, na França, pisava pela primeira vez em terras araçatubenses. Vinda da Europa com passagem por importantes companhias de dança, Botafogo imprimiu na apresentação a união de todas as manifestações artísticas em uma só: a arte por meio da dança, porém, em sua mais pura concepção. O momento ficou imortalizado na memória da população, principalmente da classe artística, que agora dividia o espaço de igual para igual com uma figura importante do cenário nacional. Um belo encontro entre o regionalismo que buscava autonomia e receptividade do público e o grande centro representado em uma apresentação cujo movimento expressava ternura e resistência. A famosa bailarina retornaria novamente para Araçatuba em 2014 para se apresentar em outra inauguração, o primeiro EDARA - Espetáculos de 18


B R YA N B E L AT I Dança Araçatuba, dividindo o palco com Carlinhos de Jesus no evento organizado pela Secretaria Municipal de Cultura. A abertura de espaços culturais em Araçatuba, como é o caso do Teatro São João e de outros locais, sendo eles o Teatro Paulo Alcides Jorge e o Teatro Castro Alves, trouxe aos artistas uma esperança de que a partir daquele momento o cenário mudaria para melhor. A formação de público, o apoio vindo da comunidade e o fomento à cultura por parte do poder público colaboraria para o desenvolvimento dos grupos e do trabalho dos artistas. Porém, não foi bem isso o que aconteceu. A Secretaria da Cultura foi criada no mesmo período. Antes, as decisões relacionadas à esta pasta eram de responsabilidade da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, a qual possuía uma regional em Araçatuba. Os primeiros secretários foram Genilson Senche e Paulo Grobe, sendo eles os responsáveis por gerir o funcionamento da estrutura cultural da cidade: os teatros. No final dos anos 1970, começo dos anos 1980, o Intec passou a ser responsabilidade do município. Franco Baruselli, o idealizador da entidade, contou ao jornal Folha da Região em 2011 que existia um acordo entre ele e a administração, visto que o terreno para construção do espaço foi cedido pela Prefeitura. Sendo assim, os grupos que desenvolviam atividades se juntavam para escrever e adaptar es19


A P E Ç A S E M PA L C O petáculos, ao mesmo tempo que em que buscavam apoio de empresas e do governo local, para a utilização desses espaços, seja para ensaiar ou até mesmo estrear uma peça. Foi a partir de 1980, até o início dos anos 2000, que a produção artística e cultural se intensificou ainda mais em Araçatuba, com o trabalho de resistência e militância em diversos aspectos, por parte dos artistas. Os grupos teatrais em atividade naquela época eram: Grupo de Artes Mancomunados, Grupo Center de Teatro e a Companhia Pináculo de Produções Artísticas. O Grupo Pináculo, fundado no final dos anos 1980, era composto pelos artistas: Carlos Paupitz, Norma Século, Ricardo Evernon, Luiz Francisco e dirigido por Paulo Sebastião. Eles ensaiavam na república onde três deles moravam. O texto era “batido” no alojamento e as marcações feitas no palco do Teatro Paulo Alcides Jorge, anexo à Biblioteca Municipal Rubens do Amaral. Norma e Paupitz já tinham trabalhado com Sebastião em outros espetáculos, e foi por isso decidiram formar o grupo. Os demais integrantes se juntaram à formação logo após a fundação. O Marinheiro, de Fernando Pessoa, foi o texto que deu as boas-vindas à Pináculo nos palcos araçatubenses, mais especificamente no Teatro São João. O espetáculo tinha três atores em cena que interpretavam um personagem em três fases diferentes da vida. Paupitz dava vida à infância, já Luiz à adolescência, e Norma à madureza. 20


B R YA N B E L AT I Na semana de estreia, com auxílio de patrocínio, o grupo imprimiu panfletos convidando o público a prestigiar a apresentação. Em um dos dias de panfletagem, a Secretaria Municipal de Educação estava promovendo uma reunião com todos os professores do município na sede do Instituto Educacional Manoel Bento da Cruz, mais conhecido como I.E, e os atores e amigos entregaram os folhetos a muitas pessoas naquela região da cidade, no bairro São João. A produção do espetáculo foi feita inteiramente por eles, como era feito naquela época. Cada um dos integrantes ficava responsável por uma tarefa, dentre elas iluminação, montagem de cenário, figurino, direção, gerenciamento de som etc. Quem desenvolveu a arte para O Marinheiro foi o próprio Paulo Sebastião, que além de diretor, também trabalhava como artista plástico. A Companhia Pináculo se apresentou duas vezes no Teatro São João, sendo uma apresentação no sábado e a outra no domingo. As duas noites tiveram casa cheia, e a recepção do público foi muito boa, principalmente por ter sido um dos primeiros espetáculos a serem apresentados no Teatro São João. O grupo participou de vários festivais de teatro, regionais e nacionais, como o Festival de Teatro de Marília, Festival de Teatro Sesc Pompeia, Festival Internacional de Teatro de S. José do Rio Preto e o Festival de Teatro de Tatuí, e viajava o Brasil todo com as montagens desenvolvidas por eles.

A Pináculo foi uma das primeiras compa21


A P E Ç A S E M PA L C O nhias de Araçatuba em que os integrantes realmente fizeram do teatro um ofício, pois nenhum deles desenvolvia nenhuma ação paralela às apresentações. Era o teatro como forma de sobrevivência. Eles viajavam o país com dois espetáculos, O Marinheiro e um espetáculo infantil. As apresentações aconteciam em cidades do estado de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Um fato interessante dessa saída da Pináculo na busca por voos mais longos foi a parceria entre o grupo e a Secretaria de Cultura do município. A administração emprestava uma Kombi para que os artistas pudessem viajar, e eles pagavam a diária do motorista, a manutenção do carro e o combustível. Essa necessidade de um carro e o acordo entre o grupo e a Prefeitura fez com que os artistas pudessem mostrar a realidade da produção teatral e quais eram as necessidades dos coletivos enquanto formação, além daquilo que ainda faltava para o teatro se desenvolver ainda mais enquanto movimento. •———————• No final dos anos 1980, começo dos anos 1990, o Grupo de Artes Mancomunados, fundado por Alexandre Melinsky, se reunia aos finais de semana no antigo prédio do Cefam (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério), no bairro Ipanema.

O prédio, que exalava conhecimento e cul22


B R YA N B E L AT I tura por ser utilizado como centro de treinamento para professores, foi palco da maioria dos ensaios da companhia. Quando os artistas não conseguiam autorização para utilizar o local, o refúgio eram salas de aula vazias de alguma escola municipal. Não existia remuneração, os grupos não tinham uma estrutura organizacional, e a produção dependia única e especificamente de cada um deles. O teatro enquanto produção caseira carregava consigo o apreço de cada um dos artistas pelo simples fato de produzir arte. Montar espetáculos e ir para festivais era o objetivo maior, visto como uma necessidade pelos artistas locais que buscavam espaço e notoriedade em uma sociedade sem tradição de pensar a cultura como um instrumento de transformação e ferramenta da educação. O Mancomunados foi iniciado a partir da integração de alguns artistas vindos do Grupo Center de Teatro, o qual Melinsky havia feito parte anos antes. Por se tratar de um coletivo formado por pessoas que até então estavam em outra companhia, criou-se um entendimento de que os artistas estavam “mancomunados” uns com os outros, ou seja, armando uma espécie de “complô”. Assim nasceu o Grupo de Artes Mancomunados. A primeira montagem desenvolvida por eles foi O Auto da Barca do Inferno, do dramaturgo português Gil Vicente. O grupo movimentava a cidade em busca de patrocínios para a produção de espe23


A P E Ç A S E M PA L C O táculos, assim como as outras companhias. Pois, até então, não existiam editais ou leis de fomento à produção cultural. Os finais de semana, normalmente aproveitados como descanso, eram utilizados como tempo para se dedicar à arte de transformar vidas e a mágica de apresentar um novo universo a crianças e adultos. Os ensaios aconteciam no Teatro Castro Alves, naquela época conhecido como “antigo teatro do Intec”. O prédio caminhava para um estado de abandono. O chão era composto por tacos de madeira soltos que acumulavam ácaro e sujeira. Os artistas se deparavam com poltronas quebradas e, de vez em quando, eram surpreendidos com rajadas de morcegos no ar. Como o espaço não estava sendo usado para apresentações, pois os espetáculos eram remanejados para o Teatro São João e Paulo Alcides Jorge, o local se transformou em um ponto de encontro das companhias de teatro da cidade, para fazerem marcações no palco e ensaiarem. Naquela época, era preciso protocolar presencialmente um requerimento na Secretaria de Cultura e checar quais eram as datas disponíveis para apresentação. Por alguns anos, o município cobrava dos artistas uma taxa para usar o teatro, depois a dinâmica havia mudado e o grupo deveria pagar pelo 24


B R YA N B E L AT I borderô, ou seja, percentual do dinheiro arrecadado com a apresentação. Caso o Executivo Municipal aprovasse a apresentação, um técnico de luz e som era disponibilizado para operar os equipamentos, próprios do município, disponíveis no teatro, além da abertura de todos os espaços que o teatro possuía, como camarins, coxia, banheiros, bilheteria etc. •———————• Em um sábado à tarde, próximo das 16h, o Grupo de Arte Mancomunados se reunia no Teatro Castro Alves para discutir os detalhes finais sobre a estreia do primeiro espetáculo da companhia, O Auto da Barca do Inferno. Algumas ideias surgiram durante a conversa, mas a maior preocupação era em qual teatro a companhia se apresentaria. – Nós vamos apresentar no Teatro São João, eu não quero nem saber! – indaga Melinsky. – Não sei não, viu! – questiona um dos integrantes. – Mas mesmo com os espaços disponíveis, eles sempre jogam a gente para o Paulo Alcides Jorge, e lá não tem saídas de emergência porque é um anfiteatro, construído em um prédio anexo ao da biblioteca. – reitera um dos atores. – Eu vou dar um jeito, deixa comigo! – diz Melinsky. O ensaio ocorreu normalmente, e por um 25


A P E Ç A S E M PA L C O instante o grupo deixou de lado a preocupação sobre qual palco poderia recebê-los em Araçatuba. As opções eram limitadas, e tudo dependia da boa vontade da Prefeitura. Até porque, se a apresentação não fosse autorizada em um determinado local, não havia segunda opção. Uma praça, talvez? Uma escola? Adaptar o espetáculo para uma apresentação itinerante? O domingo de ensaios foi mais tranquilo. Outros grupos também estavam no Castro Alves ensaiando, e o rodízio para fazer a marcação no palco era combinado entre os membros de cada um dos coletivos. Quando amanheceu, antes mesmo do sol esquentar, Melinsky estava a caminho da Secretaria de Cultura. O local onde o Grupo Mancomunados faria sua estreia precisava ser decidido, o mais rápido possível. - Bom dia! O sr. Genilson já chegou? – pergunta o ator a respeito do secretário de Cultura. - Bom dia! – respondeu a recepcionista – Ele está para chegar, se quiser aguardar um momento, ele não vai demorar. - Com certeza eu vou esperar! – comunicou Alexandre. Enquanto esperava sentado na recepção do prédio onde funciona o Intec (Instituto Noroestino de Trabalho, Educação e Cultura), Melisnky pensa26


B R YA N B E L AT I va no quanto aquele lugar era significativo para a cidade, e o quanto o trabalho desenvolvido pela entidade foi importante para o cenário em que eles estavam inseridos naquela época. Perto das 10h, Genilson Senche adentrou as portas da Secretaria de Cultura do Município. Camisa cinza, calças jeans preta e um sapato esporte-fino marrom, o empresário e também secretário de Cultura exibia uma feição tranquila, mas ao mesmo tempo receosa por ter um dos nomes de maior importância na militância do teatro araçatubense esperando por ele em plena segunda-feira, no primeiro horário do dia. - Ô, Melinsky! Entra aí, vamos conversar. Feche a porta, por favor – pede Genilson. - Então, Genilson – explica Melinsky - nós estamos com o espetáculo montado, O Auto da Barca do Inferno, e queremos nos apresentar no Teatro São João. Eu sei que vocês vão nos colocar no Paulo Alcides Jorge no final das contas, é por isso que eu vim aqui pessoalmente para tratarmos desse assunto. - Olha, Alexandre, eu não sei se esse espetáculo de vocês é para o Teatro São João, me entende? – diz Senche. - Mas por que não seria? Só porque nós somos um grupo local? Até hoje o teatro recebeu mais espetáculos vindos de fora do que os próprios artistas do município. – indaga Melinsky.

- Não é isso. É que o Teatro São João tem uma 27


A P E Ç A S E M PA L C O história, é um espaço renomado. Os grupos que se apresentam lá trazem espetáculos grandes. – reitera Genilson. - Nosso espetáculo é grande. – afirma o ator – Nós temos 24 pessoas em cena, vários personagens, diversos elementos cênicos presentes no palco, trilha sonora. O que você quer além disso? - Mas vocês têm certeza de que vão conseguir lotar esse teatro? – pergunta o secretário – Porque é preciso lotar para dar certo. - Olha, secretário – questiona Melinsky – com todo o respeito, qual é a garantia que o senhor tem de que nós não vamos lotar o teatro com a nossa apresentação? Eu te convido a assistir à nossa peça na estreia e quantas vezes você quiser ver. - Tudo bem, vou dar um voto de confiança para o seu grupo. – declara Senche – Mas eu quero ver aquele teatro lotado, sem mais! - Você verá, pode esperar! – enfatizou Alexandre. Essa não foi a única vez que Genilson dificultou o acesso dos artistas aos espaços culturais por meio da Secretaria de Cultura. O Grupo Pináculo vivenciou a mesma experiência quando foi estrear o espetáculo O Marinheiro, também no Teatro Castro Alves. Carlos Paupitz, ator que fazia parte do corpo de profissionais da companhia, relata que Senche pediu para que a companhia apresentasse a montagem para ele primeiro, antes da estreia oficial, para 28


B R YA N B E L AT I que a “secretaria” avaliasse se autorizaria ou não o uso do teatro e se seria preciso censurar algo no conteúdo do espetáculo, lembra Melinsky. •———————• O tão aguardado dia da estreia havia chegado. Todos os atores estavam muito ansiosos. Ao amanhecer, cada um dos artistas reuniu os elementos cênicos que estavam em suas casas e foram direto para o Teatro São João, que naquela noite seria palco da estreia do espetáculo O Auto da Barca do Inferno e do Grupo Mancomunados como companhia teatral. Melisnky não tinha carro. Então, ele pediu que alguns familiares o levassem até o local ou emprestassem algum veículo para que ele pudesse se deslocar até lá. Exatamente às 10h30 da manhã daquele dia, estacionava em frente ao teatro um Fusca cor ocre marajó, ano 1973. Era Alexandre, com o carro de sua tia, trazendo tudo que o estava em sua casa para compor o cenário. Com ajuda de patrocínio, o grupo conseguiu fretar um pequeno caminhão e levar o restante dos itens que compunham a cenografia. Todos os outros integrantes já o esperavam em frente ao prédio. Com sacolas, bolsas e objetos espalhados pela calçada, o Mancomunados estava completo, pronto para fazer sua estreia para o mundo. Aquele foi o momento de “despertar”. A ficha realmente havia caído, o dia estava apenas começando. 29


A P E Ç A S E M PA L C O Mas havia muito a se fazer, principalmente porque aquela era a primeira vez que a companhia colocava os pés dentro do Teatro São João. Eles não sabiam quais equipamentos de iluminação estavam disponíveis, se a técnica era de qualidade, como era a acústica, o tamanho do palco, os camarins... um mundo de novas descobertas se abria para o grupo. A dinâmica era estabelecida de acordo com a divisão de tarefas. Era necessário montar o cenário, posicionar as luzes, revisar a trilha sonora, ensaiar no palco uma única vez, ajustar os últimos detalhes, se maquiar, colocar o figurino, se apresentar, desmontar e carregar o carro antes de ir embora. Ou seja, os dias de apresentação eram os mais exaustivos. O cenário era composto por duas barcas enormes de madeira, com mastros e velas nos moldes das navegações portuguesas. O desenvolvimento desses elementos era pensado com foco na versatilidade, pois os próprios artistas faziam a montagem. Por isso, tudo precisava ser de fácil manejo. Enquanto o cenário era posicionado, a equipe de camarim montava as salas, separava os figurinos e organizava o espaço, ao mesmo tempo em que as equipes técnicas, de luz e som, alinhavam os equipamentos para que tudo saísse como o planejado. O grupo era numeroso, 24 pessoas integravam a formação. A logística de trabalho era exaustiva, porém divertida. Principalmente ao pensar que todas as pessoas que estavam ali trabalhando e se 30


B R YA N B E L AT I esforçando não ganhavam nem um centavo por aquilo que faziam. Era por amor à arte e resistência ao ofício de fazer teatro. Neste trabalho, além de interpretar o Diabo, um dos personagens principais do espetáculo, Melinsky trabalhou como assistente de direção. Portanto, precisava colaborar com todos os processos: ensaiar, assistir o ensaio dos demais atores, e depois de tudo, se preparar para o espetáculo, com maquiagem e figurino. Quem dirigiu O Auto da Barca do Inferno foi Antônio Carlos Silveira. Os ingressos eram vendidos pelos próprios membros da companhia, em formato de tabelas de rifas. Os integrantes se dividiam e percorriam a cidade toda, vendendo os ingressos e divulgando o trabalho do grupo. Naquele período, todos os atores do Grupo Mancomunados tinham um trabalho fixo, e desenvolviam o teatro como atividade paralela. Por isso, o valor cobrado pelos ingressos era simbólico. Não havia um objetivo capitalista com as apresentações. O dinheiro arrecadado seria usado como investimento em outros espetáculos e ferramentas de trabalho para a companhia. Conforme o tempo passava, o frio na barriga aumentava. Era um dia muito importante. Bem ali, naquele palco, o Mancomunados faria a sua estreia e apresentaria um clássico da comédia. As faxineiras do teatro faziam café de manhã e à tarde, e o cheiro da bebida quente se misturava 31


A P E Ç A S E M PA L C O ao cheiro das poltronas antigas com estofado de cor bordô, feitas em madeira com aspecto áspero e de cor escura. As paredes eram revestidas e cobertas por lambris amadeirados. Assim como o prédio, que possuía um teto alto, com uma escada estreita que permitia o acesso a barra de iluminação frontal do palco. Toda essa sensação de incerteza sobre a quantidade de público o qual compareceria, paralelo ao frio na barriga e o cheiro característico do espaço, fazia com que a experiência se tornasse ainda mais emocionante. Quando o relógio marcou 19h30 em ponto, as portas do Teatro São João se abriram e o público começou a ocupar os lugares. Era uma noite com temperatura amena, característica do início do outono. Ao se aproximar das 20h, as luzes foram apagadas e a cortina se abriu. Era a hora do show. O espetáculo foi um sucesso, e se tornou uma verdadeira febre em Araçatuba e na região. A estreia aconteceu em abril, mas as apresentações se estenderam até novembro, uma vez por semana. O Auto da Barca do Inferno ficou em cartaz por praticamente um ano, sempre com casa cheia. O poder da comédia na formação do público atraía quem estava em busca de um momento de descontração, de viagem no tempo, de início de uma jornada nunca vivida.

O contexto entre céu e inferno exemplifica32


B R YA N B E L AT I va muito bem a dinâmica entre as relações sociais de poder, e promovia uma reflexão. O local das apresentações dependia da disponibilidade de datas de cada um dos teatros. Dessa forma, quando não era possível se apresentar no Teatro São João, o espetáculo se adaptava ao espaço do Teatro Paulo Alcides Jorge. Com a montagem, a companhia conseguiu mostrar à sociedade araçatubense que a cidade possuía grupos de teatro que produziam peças e se apresentavam, e que existia público para esse tipo de atividade. Entretanto, esse movimento não colaborou para uma mudança efetiva com relação ao apoio da administração pública. Os artistas continuaram colocando dinheiro do próprio bolso. A Secretaria de Cultura, na época, apoiava apenas com o espaço ou conseguia o Intec para os ensaios. Os atores não podiam ensaiar no palco onde a peça seria encenada, pois não existia a certeza de qual seria o teatro que o órgão aprovaria para que a apresentação acontecesse. Durante este período, no ano de 1992, o Teatro Castro Alves estava fechado, isolado com tapumes. O espaço não era utilizado para nenhum evento há alguns anos, e estava abandonado. Por isso, os artistas do grupo Mancomunados pediram autorização ao Executivo para promover uma força tarefa entre os próprios atores, com objetivo de limpar o teatro e, assim, passar a utilizá33


A P E Ç A S E M PA L C O -lo para ensaios e apresentações. E quando estava tudo em ordem, os demais grupos também começaram a frequentar o local. Esse era o motivo pelo qual os grupos teatrais sempre lutaram pela reabertura do Teatro Castro Alves. Logo, o local se transformou em o ponto de encontro de vários grupos, para ensaios e desenvolvimento de espetáculos. Mesmo não sendo o endereço oficial onde as apresentações aconteceriam, o prédio tinha um palco, possuía a estrutura que os artistas precisavam. Além de que as paredes carregavam uma história, e era possível sentir essa energia. Com a utilização do espaço para ensaios, os grupos se dividiam e combinavam os horários entre si. Em um sábado, enquanto uma companhia estava no palco, as outras utilizavam as salas do teatro, e assim sucessivamente. Quando o antigo teatro do Intec não estava disponível, o refúgio dos artistas era a Casa da Cultura, ou salas de aulas vazias liberadas pela Secretaria de Educação. Até mesmo o Coreto da Praça Rui Barbosa, no centro da cidade, foi utilizado como para ensaios. Ainda assim, a liberdade da rua recebia os atores de braços abertos, e muitos ensaiavam no próprio Calçadão da rua Marechal Deodoro, no centro da cidade. E o Teatro São João, que até então tinha sido palco de diversas apresentações memoráveis, dei34


B R YA N B E L AT I xou de existir de uma hora para outra. Anos antes, o espaço tinha ganhado outro nome. Agora era conhecido por Teatro Floriano Camargo Arruda Brasil, após a Prefeitura comprar o prédio. Porém, os precatórios referentes à compra do imóvel não foram pagos, e o prefeito da época, Jorge Maluly Neto, decidiu devolvê-lo aos antigos proprietários. Mas isso não significou uma derrota por parte da classe artística. Muito pelo contrário. Nos anos seguintes, as companhias não se deixaram vencer pelas dificuldades, e mesmo sem o São João, os grupos continuaram montando espetáculos e lutando por pautas na Secretaria da Cultura para que as apresentações acontecessem ou no Teatro Castro Alves ou no Teatro Paulo Alcides Jorge. Quem casa quer casa, de Martins Pena, foi a peça que sucedeu O Auto da Barca do Inferno nas atividades desenvolvidas pelo Grupo Mancomunados. A montagem aconteceu graças ao dinheiro arrecadado com as centenas de sessões feitas pela companhia durante todo o ano anterior. A comédia do dramaturgo carioca foi a porta de entrada para os atores em diversos festivais, como o Festival de Teatro de Penápolis e o Festival de Teatro de Marília. Em ambos os eventos a companhia foi premiada. Na sequência, a raiz do teatro mundial conduziu as pesquisas e as experimentações do grupo. Sófocles, dramaturgo grego que viveu antes de Cristo, foi um dos reis da tragédia no teatro que sur35


A P E Ç A S E M PA L C O giu na Grécia Antiga. Um de seus trabalhos que sobreviveu por séculos e até hoje é utilizado como referência na composição de espetáculos foi Antígona. Os dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinices, morrem em uma luta pelo trono de Tebas. Quem assume a linha de sucessão é Creonte, parente mais próximo da linhagem. Ele ficou responsável por sepultá-los. Porém, apenas Etéocles teria direto ao cerimonial, e o Polinices seria deixado para o disfrute de aves e animais terrestres. O novo rei queria demonstrar aos súditos que este seria o destino de todos aqueles que se voltarem contra o governo de Tebas. Antígona, a irmã mais nova dos dois guerreiros, não aceitou o tratado imposto pelo rei. Segundo ela, o corpo do irmão não poderia ser sepultado sem os ritos sagrados, mesmo que a própria tivesse que pagar com a própria vida. A única filha mulher de Édipo não se submetia à submissão pelas leis do homem, e condenava quem não respeitasse as leis divinas. Por se tratar de uma tragédia grega, a produção era grandiosa. A narrativa apresentava um contexto de guerra ao mesmo tempo em que a hierarquia social ditava quais regras os cidadãos deveriam seguir. Dessa forma, os figurinos carregavam elementos da nobreza e do status o qual essa sociedade possuía. 36


B R YA N B E L AT I O espetáculo foi produzido com ajuda de patrocinadores. Naquele período, os artistas utilizavam uma ferramenta conhecida no jargão teatral como “livro de ouro”. Tratava-se de um livro em que era registrado o nome de todas as pessoas que contribuíram de alguma maneira com o espetáculo e cada uma delas era agradecida ao final de todas as apresentações. Os ensaios continuaram acontecendo no Teatro Castro Alves, e as apresentações no Teatro Paulo Alcides Jorge. A relação dos atores com a comunidade sempre foi primordial para que os grupos pudessem se destacar no meio social. Cada integrante conhecia alguém, ou tinha algum grau de parentesco com algum empresário da cidade, e os apoios aconteciam dessa forma, baseado na mobilização dos grupos em levantar patrocinadores e doações de tecidos e objetos de cenografia. E esses patrocinadores tinham as logomarcas de suas empresas estampadas em um cartaz que os grupos se mobilizavam para produzir nas gráficas da cidade. O fazer teatral com característica artesanal proporcionava esses movimentos social entre um grupo seleto de pessoas que detinham um poder aquisitivo maior, e aqueles que buscavam por apoio. A cobertura jornalística também ajudava os artistas a serem vistos por um público que não frequentava a cena cultural da cidade. A troca entre os 37


A P E Ç A S E M PA L C O jornalistas e os atores beneficiava ambos os profissionais. De um lado, a prestação de serviço por meio da informação. De outro, os artistas em busca de fazer da arte uma fonte de renda, mas ao mesmo tempo também prestando um serviço à população, visto que a educação, a cultura e o lazer são direitos previstos constitucionalmente na sociedade. O fato de a cidade estar localizada no interior do estado e não ter um número tão expressivo de habitantes, quando comparada com outras metrópoles do país, colaborava para que as pessoas conhecessem umas às outras. E não somente as pessoas que trabalhavam com setores relacionados à arte, mas também médicos, farmacêuticos, escrivães, advogados e muitos outros. Os artistas conheciam os moradores de fato, a relação não tinha características mercantilistas. E essa relação afetuosa foi primordial para o início da formação de público nos teatros.

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Capítulo 02 Associação transformada em festival, a âncora do teatro araçatubense


A P E Ç A S E M PA L C O

O ano de 1995 foi muito significativo para o movimento teatral de Araçatuba. O declínio do Teatro São João foi uma perda irreparável, visto que o único teatro disponível no momento era o Paulo Alcides Jorge em decorrência da falta de estrutura do Teatro Castro Alves. A Biblioteca Municipal Rubens do Amaral e suas dependências sempre estiveram de portas abertas para os artistas. Afinal, em um ambiente onde se encontram histórias, memórias, retratos e recordações de épocas passadas, a arte se transforma em uma ferramenta de coexistência junto aos livros e quadros expostos no espaço. Foi ensaiando no Teatro Castro Alves e se apresentando no teatro da biblioteca que os grupos mantiveram as produções e os estudos teatrais. Naquele período, já havia a formação de público e a cultura já havia alcançado espaço na cobertura jornalística local e regional. Com isso, as companhias lançavam peças e se apresentavam mesmo sem o apoio direto do poder público. O artista chama de casa o local onde é possível expressar a arte em sua essência, de maneira livre e sem rótulos. E, com o passar dos anos, Araçatuba deixou de ser a casa dos artistas. Pois grande parte das apresentações acontecia em festivais de teatro de outras localidades. Essa busca por um novo lar colaborou para a ascensão de companhias que já estavam na estrada há alguns anos. 40


B R YA N B E L AT I As instituições de apoio aos artistas, principalmente àquelas focadas na arte teatral, desenvolviam conversas e debates com o Governo do Estado de São Paulo para a criação de políticas públicas culturais, o que conhecemos hoje por “editais de fomento”. Enquanto essa estrutura governamental não se consolidava, artistas se reuniam e criavam federações de teatro. Uma delas foi a Fetalpa (Federação de Teatro Amador da Alta Paulista), fundada em 1964 na cidade de Marília, interior de SP. Na época, a entidade era presidida por Ramis Pedro Boassali, ator, diretor e um dos precursores do teatro do município. Boassali foi aluno de Zbigniew Ziembinski, ator e diretor de teatro, cinema e televisão polonês naturalizado brasileiro. As federações estavam subordinadas à Confederação de Teatro Amador do Estado de São Paulo, e desenvolviam um papel de assistência à constituição jurídica dos grupos amadores e suas filiações, além de promoverem atividades que contemplavam as diversas manifestações artísticas. A participação do Grupo Mancomunados em festivais por todo o estado proporcionou o contato com essas instituições e seus idealizadores, mais especificamente Boassali à frente da Fetalpa. Em uma dessas viagens, o diretor questionou Melinsky do porquê não existia uma federação de teatro em Araçatuba, visto que a cidade tinha diversos grupos produzindo espetáculos e se apresentando em festivais. 41


A P E Ç A S E M PA L C O Melinsky ficou pensativo. Naquele momento ele gostaria de ter uma resposta na ponta da língua para dar à Boassali. Mas não foi o que aconteceu. – Não sei te dizer, Ramis. Sinceramente. Na verdade, nós nunca pensamos em fundar uma federação. Eu não sei se já existe uma, mas não está em funcionamento, ou se de fato nunca houve uma entidade dessa natureza em Araçatuba – explicou Melinsky. – Olhe, Alexandre. Converse com pessoas da área que já atuaram ativamente com o teatro local e veja se essa instituição existe. Caso exista, mas não é utilizada, é possível encerrá-la e abrir outra. – aconselhou Boassali. – No nosso próximo encontro, quando voltarmos para Araçatuba, eu vou iniciar essa discussão com o pessoal da companhia. É muito legal ver o que vocês conseguem desenvolver aqui em Marília por meio da federação. Se nós conseguirmos esse feito em Araçatuba, será um marco histórico para a cidade. – disse Melinsky. – Dá muito trabalho, mas vale a pena. Afinal, se nós não lutarmos pelo nosso espaço, quem nos concederá esse lugar? – indagou Boassali. •———————• Ao retornar à Araçatuba, o grupo se reuniu para discutir as possíveis ideias para o próximo espetáculo, e Melinsky introduziu o assunto da federação. 42


B R YA N B E L AT I Alexandre expôs toda a situação e explicou como os artistas de Marília conseguiam pautas na Secretaria de Cultura da cidade, além da relação com o poder público se estabelecer de uma maneira mais próxima por meio da entidade. É possível dizer que aquele foi o momento em que os artistas entenderam a necessidade de se ter uma instituição desse caráter em Araçatuba. Mas quais eram os primeiros passos a serem dados? Quantas pessoas estavam dispostas a encarar esse desafio? Como saber se já existia uma entidade assim no município? Ao estabelecer conversas com pessoas que já trabalhavam com teatro há anos na região, e principalmente em Araçatuba, Melinsky passou a conhecer a Fetaano (Federação de Teatro Amador da Alta Noroeste). A instituição não desenvolvia mais nenhuma atividade, e ainda estava aberta pois os integrantes da época não se preocuparam em encerrar, já que não havia nenhum projeto em andamento para a formação de uma nova federação. Mas a nova federação havia chegado e começado a dar os primeiros passos. Por isso, foi necessário encerrar a anterior. A Fetaano fechava as portas para dar espaço à Fetara (Federação de Teatro Amador da Região de Araçatuba). Sylvio José Venturolli, o prefeito da época, apoiou os artistas no encerramento da antiga instituição. Ele havia feito parte da fundação anos antes. 43


A P E Ç A S E M PA L C O Grande parte dos integrantes da Fetara eram atores do Grupo Mancomunados. Em 1995, enquanto a entidade estava sendo desenvolvida e os organizadores formalizando o processo burocrático, a companhia estava fazendo pesquisas e experimentações para um novo espetáculo. Desta vez, a aventura seria mais lúdica e divertida. Pinóquio, um clássico da literatura mundial, ganharia vida em solo araçatubense. Este foi o primeiro espetáculo infantil apresentado pela companhia. A oportunidade foi importante para o crescimento do grupo enquanto empresa e para a sobrevivência da atividade teatral, pois estas montagens focadas no público infantil eram vendidas para às prefeituras de da região. Assim, o Grupo Mancomunados e outras companhias passaram a instituir o que é conhecido como “Teatro Escola”. Guararapes (SP) foi a primeira cidade a receber Pinóquio. No ano seguinte, em 1996, A viagem de um barquinho, de Sílvia Orthof, sucedeu a história do garotinho que mentia. As apresentações continuaram acontecendo em escolas e festivais de teatro da região. Mas Araçatuba já tinha um número grande de grupos desenvolvendo espetáculos, e a atividade teatral já era o ponto forte da cultura da cidade. Estava na hora do município ter o próprio festival de teatro.

Com a Fetara (Federação de Teatro Amador 44


B R YA N B E L AT I da Região de Araçatuba) já em atividade e com os processos burocráticos concluídos, o próximo passo era promover o tão aguardado festival. Assim nasceu o Festara (Festival de Teatro de Araçatuba), com a primeira edição realizada em 1996 somente com grupos locais e algumas companhias da região. Se apresentar em um festival era uma enorme responsabilidade. Ao mesmo tempo em que o público teria a oportunidade de assistir espetáculos que possivelmente não assistiriam caso o evento não acontecesse, a apresentação era uma vitrine para diretores e organizadores de eventos culturais de outras cidades. Esse encontro potencializava a economia cultural da região, visto que o sucesso da peça poderia resultar na organização de novas sessões. A promoção de um festival local de teatro também incentivava outros artistas a desenvolverem trabalhos autorais. Em decorrência desse cenário, novos grupos surgiram, não só de teatro, mas também de dança, circo e outras linguagens artísticas. Se na década de 1970 o Intec (Instituto Noroestino de Trabalho, Educação e Cultura) era o coração de cultura araçatubense, no final dos anos 1990 o Festara surgiu como um fôlego de esperança e empreendedorismo para a classe artística. O festival continuou acontecendo em 1997 e 1998, já com a participação de companhias de outros estados. Porém, em 1999 a prefeitura decidiu não apoiar o evento. 45


A P E Ç A S E M PA L C O Naquele ano, houve uma quebra de expectativa da população, que aguardava pelo festival que acabou se tornando uma tradição nos últimos três anos, e dos artistas, que aguardavam o ano todo pela oportunidade de se apresentar. Mas nem tudo estava perdido. A federação havia sido criada para facilitar o diálogo com o poder público na busca por apoio e promoção de eventos culturais. O Festara não aconteceu em 1999, mas a entidade poderia desenvolver outros eventos e buscar auxílio do governo local. Naquele ano, a Fetara se instala em uma sala na Casa da Cultura para desenvolver as atividades da instituição, o que facilitou o acesso à Secretaria de Cultura e tornou o diálogo mais próximo entre os artistas e o poder público. As companhias continuaram montando espetáculos e se apresentando em outras cidades. O Grupo Mancomunados, com Alexandre Melinsky na figura de diretor, trouxe ao mundo O Pássaro Encantado, de Eliane Potiguara; e O Rei Salomão e a Rainha de Sabá. Enquanto o Festara não podia acontecer, outros projetos foram promovidos pela federação. Um deles foi a Mostra de Esquetes. O evento recebeu cerca de 200 artistas de teatros, que ficavam alojados em uma escola municipal. Os grupos se apresentavam com cenas curtas, em diversas modalidades. Algumas das apresentações aconteciam no próprio alojamento e outras no Teatro Paulo Alcides Jorge. O projeto teve 12 edições.

Vários atores vinham à Araçatuba para par46


B R YA N B E L AT I ticipar da mostra, alguns deles com grupos criados especialmente para o evento. Os artistas locais também participavam, e neste período alguns grupos foram fundados, como é o exemplo do Grupo Um e Outro, com Laerte Silva Júnior à frente da companhia, e O pregadores do riso, grupo de palhaços formados por dois atores que faziam parte do Grupo Mancomunados. A ideia de fundar a segunda companhia surgiu de uma apresentação da Companhia Bela, de Santos, cidade do litoral paulista. Os palhaços Paulo e Plínio se apresentaram no encerramento do Festara em 1998, e os atores, que até então eram do Mancomunados, se apaixonaram pela linguagem do Klaun. E a Mostra de Esquetes foi a oportunidade de tirar o projeto do papel. Em uma das edições da mostra, o Grupo Um e Outro apresentou a esquete Nem isso nem o contrário disso, com Laerte no papel principal. Meses depois, a cena é transformada em espetáculo, com a direção de Alexandre Melinsky. A peça foi um divisor de águas tanto para Laerte quanto para os demais atores que integravam a montagem, pois as apresentações passaram a ter projeção estadual e nacional, com participações em festivais importantes de teatro. No período entre 2000 e 2005, a produção teatral continuou crescendo, em decorrência dos eventos promovidos pelos artistas por meio da Fetara. Companhias de teatro foram surgindo e ganhando espaço em meio a apresentações e divul47


A P E Ç A S E M PA L C O gações. A Companhia Catavento, que atualmente foi transformada em um espaço cultural e comercial conhecido por Vem Vento, foi fundada nessa época. Alguns artistas que já tinham uma carreira no teatro se reinventaram com a implementação de outras narrativas, como é o exemplo da atriz Silvia Regina Teodoro. Ela havia feito parte da primeira formação do Grupo Center de Teatro. Em 2000, montou o Grupo Explique-me o Porquê nos Dionísimos Detalhes. As companhias Culsp (Companhia Cultura Paulista de Teatro), Companhia da Casa Amarela e o novo elenco da Companhia Pináculo de Produções Artísticas iniciaram os trabalhos neste período de efervescência do fazer teatral em Araçatuba.

Reforma das instalações do Teatro Castro Alves no ano de 2010 (Foto: Assessoria de Imprensa/Prefeitura Municipal de Araçatuba)

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B R YA N B E L AT I Entre os anos 2005 e 2008, na gestão do ex-prefeito Jorge Maluly, a Secretaria de Cultura perdeu o status de secretaria e foi transformada em Secretaria de Educação e Cultura. Portanto, a dotação orçamentária que pasta, que agora respondia por duas áreas, estava comprometida apenas com a produção de atividades gerais, visto que a maior parte das ações eram focadas na Educação. Ainda sem leis de fomento, políticas públicas de incentivo à produção, formação e circulação artística, ou ao menos editais e apoio efetivo do poder público, o movimento teatral cresceu, expandiu horizontes, alcançou locais nunca imaginados e se estabeleceu mais uma vez como uma atividade de importância para o município, mesmo que o governo local não considerasse dessa forma. •———————• O ano era 2007. O último Festara tinha acontecido em 1999, e desde então a organização não conseguiu promover o festival. O motivo não era a falta de empenho dos artistas, muito pelo contrário. Neste meio tempo, o movimento teatral continuou acontecendo, e a cena cultural se manteve ativa. Não como era há alguns anos, mas ainda existiam ações e artistas buscando espaço. Alexandre Melinsky, do Grupo Mancomunados, e os palhaços Marcelo e Flávio, do grupo Os pregadores do riso, continuaram frequentando festivais de teatro e circo, como artistas e especta49


A P E Ç A S E M PA L C O dores. Em um desses encontros, enquanto conversavam trivialidades, o Festara surgiu como assunto. –Nossa, mas e o Festara, em? Nunca mais aconteceu, não conseguimos trazer por conta da falta de apoio. Não temos mais uma Secretaria de Cultura em Araçatuba. Não sei o que será dos artistas – diz Marcelo. – Eu estou sempre conversando com o secretário de Educação para que ele converse com o prefeito e desenvolva as ações para os artistas. Mas ele não é da Cultura, e a Secretaria de Cultura não existe mais, aí fica difícil – conta Melinsky. – Então, mas tudo o que aconteceu em Araçatuba na área cultural foi resultado do trabalho e da luta dos artistas, o poder público nunca fez nada por nós. Se formos esperar por eles estaremos perdidos! – afirma Flávio. – Quer saber, Flávio? Você tem razão. As cidades da região de Araçatuba, que são menores e possuem menos grupos estão promovendo festivais, e nós que éramos os líderes do movimento e representamos a maior cidade da região estamos largados às traças. Temos que mudar isso! – indaga Melinsky. – Eu concordo! O Festara precisa voltar, urgentemente. O público clama por isso, e o público também. – reitera Marcelo.

– Vocês me ajudam? – pergunta Melinsky.

– Claro! – responderam os palhaços simulta50


B R YA N B E L AT I neamente. – Então é isso, teremos o retorno do Festara! – menciona Melinsky. Aquele era o entusiasmo que faltava nos artistas para que o festival voltasse a acontecer. Ao retornar da viagem, no outro dia, Melinsky e os dois atores já iniciaram os planejamentos do evento. Por serem nomes renomados da cena cultural regional, os profissionais conheciam muitas pessoas ligadas à arte e instituições de apoio aos artistas. Depois de muitas ligações, apresentações de projetos, orçamentos e planejamentos, eles conseguiram o apoio do Mapa Cultural Paulista, programa cultural do Estado que tem o objetivo de fomentar as produções culturais do interior, revelando valores em segmentos que não teriam acesso aos meios de comunicação e com pouca visibilidade no meio cultural; e do Sesc (Serviço Social do Comércio), que já desenvolvia um trabalho em Araçatuba e Birigui (SP), cidade a 12 quilômetros de distância da terra do boi gordo. Porém, surgiu um problema. Para que o festival fosse realizado, com os gastos gerais, os artistas precisavam angariar R$ 10 mil. Este valor seria custeado pela Prefeitura, mas o município desfez com a parceria dias antes do início do evento. Mas qual foi o motivo do rompimento o acordo? 51


A P E Ç A S E M PA L C O Segundo Melinsky, dias antes do evento acontecer, com o material sendo impresso na gráfica, houve uma reunião com o secretário de Educação para tratar assuntos relacionados ao Festara. Neste encontro, o funcionário do município afirmou que a apoio só aconteceria caso o evento fosse divulgado como uma ação promovida pela Prefeitura, não pelos artistas. Alexandre, Marcelo e Flávio não aceitaram as condições impostas, e ficaram preocupados com relação ao dinheiro. – Algum de vocês têm R$ 10 mil no banco? – questiona Melinsky.

– Quem dera eu tivesse! – responde Marcelo.

– Se vocês não têm, por que eu teria? – diz Flávio aos risos. – Agora ferrou de vez. O que vamos fazer? – contesta Alexandre aos atores. – Vamos ter que cancelar. É uma pena, mas não temos outra saída. – indaga Marcelo. Infelizmente, Marcelo tinha razão. Não era possível realizar o evento se a organização não teria como arcar com os custos do festival. Em decorrência dos acontecimentos, Melinsky foi obrigado a contatar todos os apoiadores informando o cancelamento do Festara. O material que estava sendo impresso na gráfica foi encaminhado à reciclagem, junto às expectativas e frustrações dos artistas que haviam se 52


B R YA N B E L AT I empenhado para fazer o festival retornar à Araçatuba. Aquela foi a gota d’água, tanto para os organizadores quanto para a classe artística. Depois de todos os esforços feitos para que Araçatuba voltasse a ter um festival de teatro, voltasse a movimentar a cidade e mobilizar a população por meio da arte, não tinham sido suficientes. A pressão política, mais uma vez, atrapalhou a promoção de ações culturais, que por sua vez é um direito constitucional. Não seria essa uma das hipocrisias defendidas pela democracia moderna? Neste contexto, os artistas se reuniram e refletiram sobre o que poderia ser feito para que a classe artística deixasse de depender 100% do poder público, visto que o dever não estava sendo cumprido há anos. Assim nasceu a Associata (Associação dos Artistas Teatrais de Araçatuba), que existe até hoje. Por meio da entidade, o Festara retornou em 2009, com grupos da cidade e da região. Essas companhias foram convidadas a se apresentarem no evento por intermédio do Mapa Cultural Paulista. E foi um sucesso estrondoso. A promessa feita por Melinsky e por todos os artistas era de que, a partir daquele ano, céus e terra seriam movidos para que o festival acontecesse todos os anos. Neste período, novas companhias foram surgindo e Araçatuba foi ganhando corpo enquan53


A P E Ç A S E M PA L C O to metrópole cultural. E assim o movimento cultural, mais especificamente teatral, voltou a ter força institucional e, principalmente, política. Em 2009, o ex-prefeito Cido Sério (PT) assume o Executivo e convida Alexandre Melinsky para estar à frente da Diretoria de Cultura, Hélio Consolaro para ser o secretário da pasta da Cultura, e Carlos Paupitz, que havia feito parte do Grupo Pináculo, um dos primeiros grupos teatrais de Araçatuba, para ser responsável pelo Patrimônio Histórico do município. Consequentemente, o Museu Marechal Rondon. Com a Cultura conquistando novamente o status de Secretaria, o município direcionaria a dotação orçamentária focada em ações culturais. E ter profissionais técnicos da área em cargos de gestão colaboraria para que o movimento cultural tivesse de fato o apoio necessário da Prefeitura. Aquela era a primeira vez em muitos anos que o prefeito nomeou profissionais da área para ocupar estes cargos. E o município só tinha a ganhar com isso. O Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), empresa do Sistema S, já ofertava cursos em Araçatuba, e convidou Melinsky para coordenar a implantação do Curso Técnico de Teatro. A Cultura ganhou ainda mais com o início desse curso, pois a cidade agora oferecia o aprendizado técnico da área cultural para os artistas que, até então, se tornavam profissionais por tempo de trabalho, não por formação. 54


B R YA N B E L AT I Durante a gestão do professor Hélio Consolaro na Secretaria de Cultura, foram criados os mecanismos mais importantes em toda a história político-cultural de Araçatuba. Tratava-se do Conselho Municipal de Políticas Culturais, o Fundo Municipal de Cultura e o Programa de Ação Cultural Municipal. Com a instituição do Conselho, os conselheiros se reuniam em sessões e discutiam quais eram as necessidades dos artistas, quais eram os possíveis gastos que os artistas teriam com determinada atividade e como a cena cultural poderia se expandir, abrangendo diversas linguagens.

Hélio Consolaro, secretário de Cultura entre 2009 e 2016, discursa em sessão da Câmara dos Vereadores de Araçatuba. (Foto: Assessoria de Imprensa/Prefeitura Municipal de Araçatuba)

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A P E Ç A S E M PA L C O Essas conversas acontecem em decorrência da vontade política do secretário e do prefeito para a construção de um mecanismo de incentivo à Cultura, que envolvia a Câmara dos Vereadores. Com o assunto sendo tratado em instâncias mais altas da hierarquia política, a Cultura deu um salto em comparação aos anos anteriores, pois dessa forma era possível que os artistas trabalhassem e recebessem o respaldo do poder público. Dessa forma, foi criado o Fundo Municipal de Cultura. Mas a pergunta era: o que vai alimentar o fundo? De onde virá o dinheiro? A Prefeitura garante 5% da dotação orçamentária do município para a Cultura, e assim devolvia a autonomia da pasta enquanto secretaria. Foi a partir desse movimento que os artistas passaram a ter dinheiro para produzir os projetos. Por se tratar de um novo mecanismo, nunca utilizado pelos artistas, em sua maioria profissionais por levarem anos se dedicando ao fazer teatral, a procura não foi intensa no lançamento dos primeiros editais. Mas será que os artistas sabiam como escrever projetos e se inscrever nesses editais? A Prefeitura, por meio da Secretaria de Cultura, promoveu uma série de oficinas focadas no público artístico. Esses workshops ensinariam aos artistas como funcionavam os editais, não só os municipais, mas também nacionais, quais eram os documentos necessários, as modalidades presentes nos fomen56


B R YA N B E L AT I tos e informações do gênero. Com isso, os grupos teatrais passam por uma transformação, de coletivos para empresas culturais.

Ex-prefeito Cido Sério (PT) entrega projeto de leis culturais ao ex-presidente da Câmara dos Vereadores Cido Saraiva, em outubro de 2011 (Foto: Assessoria de Imprensa/Prefeitura Municipal de Araçatuba)

Em 2011, com o conselho instituído, a procura se intensificou, em decorrência da formação das turmas do Curso Técnico em Teatro, oferecido pelo Senac. Os alunos do curso montavam suas próprias companhias e concorriam aos editais de espetáculos de produção e circulação, nas mais diversas linguagens: dança, teatro, circo etc. Naquele ano, o Festara aconteceu na Associação Cultural Nipo Brasileira, com 500 pessoas 57


A P E Ç A S E M PA L C O kpor noite assistindo aos espetáculos. Entretanto, mesmo com todas as oportunidades, Melinsky afirma que a qualidade artística dos projetos caiu. Pois, segundo ele, criou-se a mentalidade de que se existe verba, o projeto é feito para cumprir somente as exigências do edital e depois o trabalho morre. Não existia mais um processo de produção e desenvolvimento teatral com foco no objetivo maior do teatro: debater os assuntos atuais e educar o público por meio da arte. O teatro passou a ser apenas uma atividade feita sem objetivos, na mentalidade de alguns grupos. Já em 2010, o Festara aconteceu no antigo Cine Peduti, hoje conhecido como Teatro Thathi Coc. Por conta da mobilização promovida pela Associata (Associação dos Artistas Teatrais de Araçatuba) na edição anterior do festival, a população já aguardava por novos espetáculos com novas temáticas. De acordo com Melinsky, essa foi uma das edições com maior número de público que o evento já teve: 700 pessoas assistindo teatro em uma segunda-feira. Em 2011, o Teatro Castro Alves é reformado e reinaugurado. Desde 1992, o espaço estava fechado para apresentações, e era utilizado apenas para 58


B R YA N B E L AT I ensaios e outras atividades da Secretaria da Cultura, sempre restritas a grupos fechados. Mas havia chegado a hora do famoso teatro do Intec voltar à ativa. E o Festara 2011 acontece lá, em meio à inauguração. Melinsky conta que a equipe técnica estava montando as poltronas, fazendo a manutenção do espaço e colocando o carpete horas antes dos espetáculos começarem. Com o teatro em funcionamento, Araçatuba passou a receber o Circuito Cultural Paulista. Lucélia Santos, atriz conhecida por personagens nas novelas Escrava Isaura (1976), Ciranda de Pedra (1981) e Sinhá Moça (1986), dá abertura à noite de espetáculos do evento. O programa também promoveu shows da cantora Tulipa Ruiz, e com o sucesso do Circuito, a Virada Cultural Paulista também chegou à Araçatuba. O Grupo Mancomunados é transformado na Mancomunados Criações Artísticas, início da parceria entre Melinsky e Fernando Fado, que agora assumia a direção do Festara. Por meio da empresa, os artistas criam o Festival de Cenas Curtas, que aconteceu durante 3 anos, e a Sim (Semana da Diversidade Sexual).

Caique Teruel, ator e artista local, se forma 59


A P E Ç A S E M PA L C O em uma das turmas do Curso Técnico em Teatro do Senac e monta seu próprio grupo, a Companhia Obscenos. O primeiro espetáculo apresentado pelo coletivo foi A Obscena Senhora D, de autora Hilda Hilst. Em pouco tempo depois, Teruel entra para o time de colaboradores da Associata e passa a integrar a organização do Festara. Em 2014, a Mancomunados Criações Artísticas monta o espetáculo O menino detrás das nuvens, inspirado na obra de Carlos Augusto Nazareth e Dane D’angeli. A montagem foi contemplada pela lei de fomento municipal, e aquele era a primeira peça desenvolvida pelo grupo a qual financiamento era 100% público. Dessa forma, os editais colaboraram para a sobrevivência das companhias.

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Capítulo 03 A recuperação do cenário


A P E Ç A S E M PA L C O No ano de 2010, Heitor Gomes de Andrade, ator, nordestino, natural de Aracaju, no estado do Sergipe, iniciava os estudos de teatro na 62ª turma da EAD-USP (Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo). O curso tinha duração de quatro anos, sendo os dois últimos focados nas montagens teatrais. Ao final de cada semestre, os grupos desenvolviam um espetáculo. Uma dessas peças foi A Escada de Madame D, uma comédia musical com estética de cabaré. Heitor interpretava um travesti barbado, e se apresentava com um número que contava somente com uma cadeira em cena. Ao finalizar a grade de apresentações estipuladas pela instituição, o grupo começou a buscar festivais que estavam selecionando montagens. Nessa busca por uma oportunidade de levar o espetáculo, até então acadêmico, para os palcos do mundo afora, o grupo conhece o Festara. Esse foi o primeiro contato do ator com Araçatuba. A peça foi selecionada para integrar a programação do festival em 2013, e todos os membros do coletivo viajaram até a terra do boi gordo para se apresentar. A sessão aconteceu em um local conhecido na época por Pub Rock Beer, e teve ingressos esgo62


B R YA N B E L AT I tados horas antes do início da peça. Nesta vinda à Araçatuba, Heitor conheceu Alexandre Melinsky, Fernando Fado e todos os organizadores do evento. Já em 2014, a companhia se inscreveu novamente para participar do Festara. Dessa vez, com a montagem B.O, uma lenda urbana humana, com direção de Claudia Schapira. A apresentação aconteceu no Teatro Castro Alves. Com todos os acontecimentos no setor cultural da capital e a crise econômica, após sua formação em 2015, outro grupo o qual Heitor fazia parte veio novamente à Araçatuba, a Cia Bruta de Artes. O coletivo estava inscrito para encenar no Festara 2016 o espetáculo Pequenos Burgueses. Mas os planos do aracajuano de continuar morando em São Paulo não estavam se concretizando. Em um período de férias, de volta ao Sergipe, o ator estava procurando na internet oportunidades de emprego, e encontrou aberto o processo seletivo para professor do Curso Técnico em Teatro do Senac Araçatuba. Ele não queria voltar para o nordeste, pois havia renunciado a tudo por amor ao teatro e apostado todas as fichas em sua carreira. Heitor já havia tentado participar de outros processos seletivos anos antes, mas não teve suces63


A P E Ç A S E M PA L C O so. Ao tentar novamente, no início das dinâmicas propostas pela seleção, Alexandre Melinsky reconhece o ator das edições anteriores do Festara, e entra em contato com ele por WhatsApp. – Oi, Heitor! Como vai? Fiquei surpreso ao ver o seu nome aqui nos inscritos para o processo seletivo do Senac – afirma Melinsky. – Oi, Alexandre! Então, eu preciso trabalhar, e fiquei interessado na vaga. – conta Gomes. – Nossa, mas você mora em São Paulo. Tem certeza de que você quer vir para o interior? – questiona Melinsky. – Alexandre, eu estou procurando um trabalho. Se esse trabalho aparecer em qualquer lugar, não importa onde, eu vou. – reitera o ator. Dias depois, Heitor recebe um e-mail do Senac informando de que ele havia sido aprovado na primeira fase do processo seletivo. As demais etapas aconteceriam presencialmente, na sede do Senac em Araçatuba. Como fazia um tempo que Gomes não vinha à Araçatuba, ele entrou em contato com um colega que conheceu na faculdade, que já era professor da entidade naquela época. Este amigo sugeriu que ele procurasse por um grupo de caronas no Facebook, para economizar com a viagem. 64


B R YA N B E L AT I Foi por meio desse grupo que Heitor conheceu Giordana e Fernanda, duas amigas moradoras de Araçatuba que estavam na capital paulista participando de um curso, e que estavam oferecendo carona para Araçatuba. Ali começava a se formar a rede de contatos do ator no município. No domingo, dia 29 de janeiro de 2017, próximo das 16h, Gomes entrava no carro das duas estudantes com destino à terra do boi gordo. Os três conversaram trivialidades a viagem toda, com Fernanda dirigindo, Giordana no banco da frente do carona e Heitor atrás, com sua mala. Ele contou a elas o que estava vindo fazer em Araçatuba e toda sua trajetória no teatro. A primeira e única parada aconteceu no posto Alameda, ponto de descanso de motoristas e viajantes. A lembrança que Heitor carrega consigo desse percurso da Rodovia Castelo Branco, de São Paulo a Araçatuba, foi o período da viagem em que estava chovendo muito forte, e eles ficaram preocupados por conta de a visão da motorista estar prejudicava devido ao mau tempo. Porém, meia hora depois a chuva cessou, e o sol brilhou mais uma vez. O ator conta que aquele momento pareceu que ele estava participando de um filme, em que a cena mostra a luz no fim do túnel e promove o sentimento de gratidão dos telespectadores.

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A P E Ç A S E M PA L C O Às 00h30, na madrugada do dia 29 para o dia 30 de janeiro, Heitor chegou à Araçatuba. O combinado com as estudantes era de que elas o deixariam na rodoviária da cidade. Porém, a região que cerca o terminal é perigosa nesse horário. E elas se identificaram tanto com a história do ator que resolveram levá-lo até o hotel onde ele ficaria hospedado, que ficava próximo à rodoviária. A fachada da hospedaria era alta, com uma parede repleta de azulejos azuis e brancos. Ao chegar, tocou a campainha, bateu na porta, esperou alguns minutos, mas não foi atendido. Parecia que o local estava fechado. Heitor ficou apreensivo. As companheiras de viagem, vendo o desespero do rapaz, mencionaram que havia um outro hotel próximo de onde eles estavam. Portanto, se dirigiram ao estabelecimento para pedir mais informações. Ao abrir a porta, o ator se assustou com a cena que presenciou. O local tinha uma estética de mansão mal assombrada do século XIX. Todas as luzes estavam apagadas, e havia duas pessoas sentadas no hall de entrada: dois homens vestidos de preto fumando e mexendo no celular, próximos a um abajur. 66


B R YA N B E L AT I – Boa noite! Meu nome é Heitor, eu liguei aqui ontem para fazer uma reserva. Você pode confirmar para mim, por favor? O atendente o encarou dos pés à cabeça e disse: – Não tem reserva nenhuma aqui, mas se você quiser ficar é só pagar adiantado. – Mas como eu vou pagar adiantado se no anúncio de vocês não consta essa informação? Você vai me dar algum recibo? – indaga o ator. O homem continuou insistindo para que ele ficasse e pagasse o valor das diárias naquele momento. Heitor não sentiu confiança no atendimento e voltou ao carro. – Meninas, não quero abusar da paciência de vocês, mas vocês podem me deixar de volta naquele outro hotel? Esse aqui não tem condições de se hospedar. Acho que se eu dormir aí essa noite, amanhã eu não acordo vivo. – contou Gomes. – Nossa, Heitor! Que exagero! – comentou Giordana, rindo da situação. Fernanda dirigiu-se ao hotel anterior, que agora já estava com as luzes acesas e a porta aberta. Heitor se despediu de sua carona e foi recebido pelo atendente. 67


A P E Ç A S E M PA L C O Ele precisava descansar, pois no outro dia, pela manhã, aconteceria o processo seletivo do Senac. Poucas horas depois, o ator já estava acordado. Já havia tomado banho e se arrumado para ir à entidade participar da seletiva. Naquele dia, o processo seria dividido em duas etapas: uma prova teórica pela manhã e uma entrevista à tarde. Ao concluir o primeiro teste, Heitor voltou ao hotel para descansar até o horário da entrevista. Na hora do almoço, enquanto tirava um cochilo, seu celular vibra no criado mudo. Qual seria a novidade? Alguma mensagem sem importância? Algum problema familiar? Não, muito pelo contrário. Era um informativo do Sesi (Serviço Social da Indústria) dizendo que ele havia sido aprovado para integrar o Núcleo de Dramaturgia do Sesi São Paulo. Mas e o Senac? Onde Araçatuba se encaixaria nessa situação? No dia seguinte, ele participou da aula teste e avisou à organização da seletiva que ele havia sido aprovado em um outro processo seletivo na capital, e que não tinha certeza de como seria toda a situação. Ao final, Heitor e outro candidato foram os finalistas da seletiva, e Alexandre Melinsky, naque68


B R YA N B E L AT I la época já funcionário do Senac, afirmou que ele estava mais apto para a vaga, mas que eu teria que decidir se iria para São Paulo ou se ficaria em Araçatuba. Caso decidisse voltar à capital, a vaga seria do outro candidato. Esse foi um dos momentos mais decisivos de sua vida, segundo Heitor, pois ele sempre pensa demais antes de tomar uma decisão. Mas ao abaixar a cabeça e refletir por alguns segundos, o ator sentiu que ali era o seu lugar, e que ele não deveria mudar o ciclo dos acontecimentos. A escolha havia sido feita. Araçatuba era a nova casa de Heitor Gomes. Para concluir o processo de contratação, ele precisava reunir alguns documentos que estavam em São Paulo. Por isso, retornou à capital paulista. Porém, a retirada desses documentos se prolongou, e sua contratação foi de fato finalizada um mês depois do previsto. Nesse meio tempo, Heitor ficou em São Paulo no apartamento de Amarildo, um amigo de Aracaju, também ator, sem dinheiro, sem trabalhar e tendo que lidar com a ansiedade e a possibilidade de não dar certo. Antes de sua partida, a terra da garoa proporcionou as últimas oportunidades ao ator. Ele 69


A P E Ç A S E M PA L C O participou de um teste para uma série do canal History Channel. Mil dias contaria a história de Brasília pela perspectiva de personagens considerados anônimos, como engenheiros, mulheres que trabalharam na construção da cidade etc. E um desses personagens era um retirante nordestino, papel o qual Heitor foi indicado para fazer o texto. Porém, sem sucesso. A semana que antecedeu a mudança do ator para Araçatuba foi um período de dúvida. Ele não sabia se aquela escolha realmente tinha sido a melhor para ele. Pois, até então, Gomes não tinha amigos na cidade, não tinha uma rede de contatos. Mas ele estava decidido. Em uma segunda-feira, dia 6 de março de 2017, o profissional do teatro chega em Araçatuba, próximo das 06h30 da manhã. A viagem foi feita de ônibus, o que colaborou para o cansaço do rapaz, visto que ele estava indo de vez, sem volta atrás. Na busca por moradia, Heitor descobriu uma mulher que gerenciava um pensionato. Ele estava tão desesperado por um lugar para ficar que nem pediu para a senhora lhe enviar fotos do lugar, apenas pediu um quarto com cama, armário, fogão e geladeira. Assim que Gomes pisou em solos araçatu70


B R YA N B E L AT I benses, o calor característico da cidade lhe deu as boas-vindas. Acostumado com a capital, Heitor pensava que a cidade tinha motoristas de aplicativo rodando toda a região. Mas ele se enganou. Precisou pegar um táxi e gastar o dinheiro que não tinha para pagar a viagem até sua nova casa. Quando chegou ao local, por um momento ficou parado em frente ao portão, com todas as malas empilhadas na calçada, pensando em quais surpresas a vida ainda lhe daria. O pensionato ficava na Rua Antônio Freitas de Menezes, esquina com a Rua do Fico, bairro Dona Amélia. Ao tocar a campainha, atende a porta uma senhora baixa, de cabelos grisalhos e olhos castanhos. Ela cumprimenta o rapaz e o convida para entrar, dizendo que estava limpando seu quarto. A primeira surpresa de Heitor chegaria agora. Ao chegar no local, ele se deu conta de que sua hospedagem não seria naquela casa, e sim em um dos quartos separados, que ficavam ao fundo, no final do terreno. A pensão era basicamente um conglomerado de vários quartos pequenos, com uma casa principal e um corredor que dava acesso às habitações.

À noite, o local era muito escuro. Heitor con71


A P E Ç A S E M PA L C O ta que sentia que alguém iria pular o muro a qualquer momento e assaltar a casa. Ao analisar a situação e se dar conta do que estava acontecendo, ele entendeu que tudo o que a mulher havia prometido oferecer não era verdade. Dentro do quarto, havia apenas uma cama, sem colchão, apenas com o suporte de madeira, e um armário para guardar as roupas. – Ah, você não trouxe colchão? – pergunta a senhora. – Então, senhora. Eu vim de São Paulo até aqui de ônibus, com várias malas. Como eu ia conseguir trazer um colchão? Eu havia te avisado que eu precisaria de um colchão. – explica o ator. – Ai, me desculpa, moço! Mas eu não tenho isso para te oferecer. – responda a dona da pensão. Esse foi o momento exato em que todas as dúvidas que ele tinha sobre se mudar para Araçatuba voltaram à sua mente da maneira mais negativa por isso. “Nossa, que porra eu vim fazer nessa cidade, eu só vou me ferrar e ficar mais endividado. Preciso ir embora daqui urgentemente. Parece que eu estou em um dos filmes do cineasta pernambucano Cláudio de Assis, extrema periferia de recife, pensio72


B R YA N B E L AT I natos pulguentos”, mentalizou Heitor. Como ele não tinha onde dormir, optou por forrar alguns edredons acolchoados no chão e usou a mala de mão como travesseiro. Deitou a cabeça na mala para ver se conseguia dormir, mas não tinha como. Estava muito quente. O quarto estava abafado e ele não parava de soar. Gomes não se sentia confortável em ficar com a porta do quarto aberta. Pois, em frente ao seu quarto, estava hospedado um homem que lhe causava um certo pânico. Segundo o ator, houve uma situação em que este homem estava sentado em cima de dois tijolos, fumando um cigarro com uma faca na mão enquanto cantava muito alto uma música dos anos 1950. Heitor ficou com medo dele, por isso não deixava a porta de seu quarto aberta. O banheiro era compartilhado. Todos os hóspedes tomavam banho e saíam de toalha, diretamente para os respectivos quartos, para trocarem de roupa. E essa situação era um pouco constrangedora, pois o ambiente em si não possibilitava o respeito à privacidade das pessoas. Por ter chegado em Araçatuba na segunda-feira, alguns dias antes do seu primeiro dia de tra73


A P E Ç A S E M PA L C O balho, ele ficou a semana toda trancado no quarto, sem conhecer ninguém, com pouco dinheiro, comendo lasanha congelada. O fogão não funcionava, somente a geladeira e o micro-ondas. As horas pareciam anos. O tempo não passava, e tudo que Heitor queria era começar a trabalhar e ficar o mais longe possível daquele local. Por se lembrar de algumas pessoas que havia conhecido em edições anteriores do Festara, o ator ligou para alguns de seus amigos da área cultural: Caique Teruel e Giulia Sorpilli, que estavam à frente da Associata (Associação dos Artistas Teatrais de Araçatuba) e Otávio Almeida, um dos vocalistas da Banda Código de Conduta. O motivo do contato era claro: a indicação de amigos que estavam buscando pessoas para dividir apartamento. O pensionato deixou de ser uma opção. Pelo visto, Araçatuba seria a casa de Heitor por longos anos. •———————• A gestão do ex-prefeito Cido Sério (PT) teve fim em 2016, ano em que o político teve o seu mandato cassado, inclusive, por improbidade administrativa. Na sequência, o povo araçatubense elegeu o empresário Dilador Borges (PSDB) à prefeitura, acompanhado de Edna Flor (Cidadania) no cargo de vice-prefeita, com início da gestão em 2017. 74


B R YA N B E L AT I Como é de praxe, quando um novo governo se inicia, há uma troca de funcionários, principalmente os secretários, escolhidos a dedo pelo prefeito e vice-prefeito. Desta vez, o chefe do Executivo nomeou como secretária da Cultura a então vereadora Tieza Lemos Marques (PSDB). No início do mandato, segundo Alexandre Melinsky, o novo prefeito não assumiu os valores necessários para a dotação orçamentária da pasta, o que colaborou para que a cena cultural se enfraquecesse, visto que a secretaria deixaria de promover ações por falta de verba. Por mais que o Festara continuasse acontecendo e os editais de fomento fossem lançados durante o ano, um novo pensamento estava se estabelecendo no cenário cultural. Principalmente, de acordo com Melinsky, por conta de a figura mais importante à frente da Cultura no município não ser alguém da área. Um médico dedica toda sua vida aos estudos. Os anos de preparação até ter habilidade e capacidade para lidar com a vida de outras pessoas são trabalhosos e exigem muito do profissional. Mas ele é a pessoa certa para o trabalho. Foi ele quem escolheu essa carreira e se dedicou ao máximo para prestar este serviço básico e ajudar o próximo. A jornada do artista não é diferente. A dedicação é feita em busca de um resultado, com foco na produção de um espetáculo, que envolve profissionais de diversas áreas: atores, diretores, drama75


A P E Ç A S E M PA L C O turgos, escritores, costureiras, estilistas, iluminadores, técnicos de som, e tantos outros. E quando precisamos de auxílio médico, não confiamos em qualquer informação. Há um questionamento, a busca por saber mais sobre aquilo, o pedido de orientação aos especialistas. Você confiaria a sua vida a uma pessoa que não é profissional da área? Muito provavelmente, a resposta é não. Alexandre conta que esse era o sentimento dos artistas para com a nova gestão da Secretaria de Cultura. Como seria possível confiar o movimento cultural nas mãos de alguém que não faz parte do cenário cultural araçatubense e que não participou da conquista de espaços promovida pela classe artística anos atrás? Neste contexto, as ações culturais promovidas pelo órgão passaram a ser menos frequentes. A prefeitura organizava eventos. Porém, não existiam projetos a longo prazo, com objetivo de promover a reflexão e a educação por meio da arte, teatro, dança, circo, pintura etc. E a Cultura não se resume a eventos, explica o ator, e sim ao diálogo entre a comunidade e a classe artística por meio da arte. Enquanto este cenário se moldava, os artistas foram perdendo espaço e importância na opinião pública, levando em consideração que o próprio município não investia na pasta da Cultura. O Conselho Municipal de Políticas Culturais continuou atuando na criação e no lançamento de editais de apoio aos grupos locais, para que os atores pudessem se desenvolver, mesmo sem oportu76


B R YA N B E L AT I nidades de se apresentar à vista. Por uma série de fatores, em decorrência da crise imobiliária e econômica em que o país se encontrava, e se encontra até hoje, a economia cultural se manteve em baixa graças ao descrédito por parte da classe política. Logo, a venda de espetáculos para outras cidades e a promoção de festivais e mostras já não aconteciam com a frequência com a qual costumavam acontecer. Mesmo com os editais de fomento, foi difícil para as companhias conseguirem manter suas sedes abertas. Parecia que o movimento cultural estava iniciando um período de retrocesso. O que poderia ser feito para ajudar os artistas? Quais eram as soluções que a classe artística poderia buscar para que a situação normalizasse? Mais uma vez a resistência dos artistas em fazer da arte um ofício teve bons resultados para a cena cultural araçatubense. Em decorrência da deficiência do Teatro Paulo Alcides Jorge, por não conseguir receber um número grande de pessoas e não ser equipado com saídas de emergência, os grupos não poderiam se apresentar no espaço. O Teatro Castro Alves passou por uma outra reforma e não estava disponível. Com isso, os estabelecimentos comerciais abriram suas portas para que os artistas pudessem se “instalar” nos respectivos locais. Quando algum evento acontecia na cidade, os espetáculos que até 77


A P E Ç A S E M PA L C O então estavam programados para acontecer em um dos teatros, passaram a ser apresentados em locais que faziam parte da cena cultural, mas que não pertenciam ao município, tampouco recebiam apoio do governo local. Lugares como O Quintal Cultural, Oficina de Macacos, o Centro Cultural Casa Maré, o Centro Cultural Um e Outro, que anos antes atendia por Grupo Um e Outro, Associação Nipo Brasileira de Araçatuba e Associação Cultural Afro Brasileira passaram a receber espetáculos e apresentações culturais. As apresentações eram adaptadas a cada local, de acordo com as instalações e os espaços disponíveis. O movimento de resistência ao fazer teatral como ofício se intensificou, e os artistas se reinventaram ao apresentarem peças utilizando vários ambientes ao mesmo tempo. E as companhias que conseguiram sobreviver a todos os desafios e obstáculos até aqui? Acabaram se desmembrando. Agora a realidade era outra, e os atores precisavam ajudar uns aos outros. Enquanto grupos de teatro por todo o território nacional encerram suas atividades, as companhias araçatubenses promovem uma divisão dos atores no que ficou conhecido como “coletivos”. Cada coletivo possui um projeto, uma narrativa a ser trabalhada, e esquetes montadas. Alguns deles com espetáculos que integram um corpo grande de profissionais, todos se ajudando como podem. 78


B R YA N B E L AT I O ator, ao invés de fazer parte apenas de um grupo e trabalhar com as mesmas pessoas sempre, agora tem a oportunidade de desenvolver vários projetos ao mesmo tempo, interpretar diferentes personagens e até mesmo desempenhar diferentes funções em cada um dos coletivos. O coletivo não possui uma sede, logo não precisa arcar com os custos essenciais para manter um imóvel aberto e em funcionamento. Os ensaios acontecem nas casas dos atores, ou em alguma escola cedida pela Secretaria da Cultura ou Secretaria da Educação. Os espetáculos são montados a partir do processo de pesquisa e experimentação teatral do grupo, dependendo do objetivo da montagem e qual mensagem a companhia quer transmitir ao público. Em contrapartida, ao analisar a situação pela perspectiva do cenário pandêmico, o fato de grupos teatrais não conseguirem manter uma sede atrapalha a angariação de fundos, principalmente os editais emergenciais, relata Alexandre Melinsky. De acordo com reportagem publicada pelo jornal Hojemais Araçatuba no dia 9 de outubro de 2020, espaços e entidades culturais de Araçatuba terão um subsídio de R$ 594 mil da lei de emergência cultural Aldir Blanc, sendo R$1.326.737,46 o valor total que o município receberá do governo federal para a cultura local. O edital incluir auxílio emergencial para artistas e premiação em editais.

A iniciativa é nacional, e contempla todos os 79


A P E Ç A S E M PA L C O estados do país. O subsídio, segundo a reportagem, é destinado à manutenção de empresas locais, que tiveram as suas atividades culturais interrompidas devido às medidas de isolamento. Atualmente, o município possui 19 espaços e entidades culturais que já receberam o certificado comprovando sua natureza. •———————• A atuação de Heitor Gomes como professor do Curso Técnico em Teatro do Senac Araçatuba proporcionou que o profissional ministrasse algumas oficinas, de teatro e de dramaturgia, e tivesse contato com atores engajados e que tinham interesse em desenvolver projetos. Foi com esse contato mais próximo com os artistas que ele passou a acessar esse movimento dos coletivos. Não só em Araçatuba, mas também em Penápolis (SP). Segundo Gomes, existe uma geração de jovens que procuram o teatro não pela arte de fazer teatro, e sim como forma de resolução de certas questões existenciais, ou para resolver problemas com ansiedade e timidez. E o processo de aprendizagem desses alunos acaba se desenvolvendo de uma maneira deslocada, como se o teatro fosse somente um lugar de divertimento, uma ponte entre a vida real e a televisiva, ou que o teatro pode ajudar a pessoa a se tornar um influenciador digital. 80


B R YA N B E L AT I Heitor afirma que esse não é o teatro o qual ele acredita enquanto instância política e transformadora. De acordo com ele, algumas pessoas procuram teatro sem nunca ter assistido algum espetáculo. E os professores indicam peças de teatro para leitura enquanto festivais estão acontecendo, e os alunos não prestigiam. E esse pensamento influencia na atual produção teatral da região. As pessoas que vivenciaram o teatro enquanto movimento e entendem a função do ator possuem mais clareza sobre o processo de aprendizagem, de acordo com ele. Pois o teatro é uma profissão que você faz porque ama. Ele não vai te dar dinheiro e nem um salário fixo, dependendo do contexto. Ainda existe um olhar para a capital como o centro da Cultura no país. Mas os grupos de lá também sofrem com escassez de público. Sofrem para conseguir espaço em um teatro. Os teatros públicos promovem seleções, e quem não tem condições de ser selecionado em um edital precisa dar um jeito para conseguir um local para os ensaios, relata o profissional. Segundo Gomes, é preciso entender que estamos em uma cidade em que, caso você não se mova para que as coisas aconteçam, não será possível alcançar espaço. Principalmente em 2020, ano em que o mundo parou por conta da pandemia do novo co81


A P E Ç A S E M PA L C O ronavírus, e as políticas públicas culturais estão em crise pois existe a necessidade de remanejar a verba destinada à cultura para a implantação de programas emergenciais. Outro acontecimento que demonstra o desrespeito com os artistas e o movimento cultural nacional é a perda do status de ministério da pasta da Cultura e o rebaixamento para a agora chamada de Secretaria Especial da Cultura, integrada ao Ministério do Turismo. A mudança foi promovida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). De acordo com Heitor, o ato se resume a um pensamento conservador de que só é considerado cultura aquilo que está atrelado a um determinado padrão de gosto. Um exemplo claro desse fenômeno é a escassez de público para prestigiar produções locais, mas a lotação de teatros quando a cidade recebe atrizes globais, como foi o caso de Renata Sorrah e Letícia Sabatella em Araçatuba. Isso dificulta a manutenção dos grupos, pois eles não possuem estrutura para se manter. Se não é possível viver do teatro, o teatro acaba se tornando uma atividade paralela. Com isso, a escolha de fazer teatro aos finais de semana implica no sacrifício de outras coisas, como estar com os amigos e a família. O teatro é um lugar de sacerdócio, de sacrifício, reitere o ator. E não são todos os artistas que estão dispostos a isso. 82


B R YA N B E L AT I O acesso lazer por meio da educação e cultura é um direito constitucional. Porém, a cultura está sendo colocada, e sempre foi, com uma perspectiva de lucro e jogo político, até nas escolhas temáticas, conclui o professor de teatro. E isso impacta profundamente o fazer teatral, pois o ator se vê refém de renunciar ao seu projeto enquanto verdade artística, daquilo que é interessante discutir em cena, para que seja possível acessar os jogos de interesse e as verbas de uma máquina pública. Se não é possível ter acesso a isso, o próprio ator banca a iniciativa. É como se o fenômeno teatral estivesse em um cenário muito potente, enquanto a base desse fenômeno é o ator. Se há um ator potente em cena, o teatro existe. Também entender que as lógicas de produções entre capital e interior se diferem. Nem sempre haverá verba, nem por isso as produções devem paralisar. Como é possível contar essa história com os recursos disponíveis? Nos últimos 50 anos, desde a instalação do Intec (Instituto Noroestino de Trabalho, Educação e Cultura) e o início de uma efervescência cultural, a classe artística enfrentou diversos desafios, foi confrontada e diversas vezes impedida de realizar seu trabalho por falta de interesse político e desmerecimento do fazer teatral enquanto profissão. Cinquenta anos se passaram e, atualmente, os artistas se encontram na mesma situação que a primeira formação de atores da cidade vivenciava 83


A P E Ç A S E M PA L C O nos anos 1970, com a falta de apoio e o desrespeito para com o artista e o seu trabalho. A Cultura existe, resiste e sempre resistirá única e exclusivamente pelo trabalho desenvolvido pelos artistas, que se reinventam e oferecem ao público aquilo que é direito de todos: acesso à educação, arte e cultura.

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Personagens As vozes da histรณria


A P E Ç A S E M PA L C O Alexandre Melinsky Ator, diretor, escritor e professor de teatro araçatubense que começou sua carreira aos 18 anos no Grupo Center de Teatro. Anos depois, fundou o Grupo de Artes Mancomunados.

(Foto: Reprodução/Facebook)

Carlos Paupitz Ator e professor de história, Carlos fez parte do elenco da Companhia Pináculo, a primeira a viver inteiramente da arte da cidade e uma das primeiras do estado. Ele foi diretor de teatro do Teatro São João e integrou a Secretaria da Cultura de Araçatuba de 2009 a 2016. (Foto: Reprodução/Facebook)

Genilson Senche Genilson Senche foi um empresário e político araçatubense. Figura conhecida na região por ser o fundador do jornal Folha da Região, ele foi secretário de Cultura e esteve presente no contexto aprensetado no livro-reportagem. (Foto: Reprodução/Facebook)

Heitor Gomes Ator, diretor, escritor, dramaturgo e professor de teatro sergipano, Heitor é formado em Teatro pela Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo, integrada à ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo). (Foto: Reprodução/Facebook)

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Profile for Bryan Belati

Livro-reportagem: A peça sem palco - A sobrevivência das companhias de teatro de Araçatuba  

Livro-reportagem desenvolvido como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Toledo - UniToledo. Professor orient...

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