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MARÇO / ABRIL 2011 Nº 129

Fundador: Francisco Martins Rodrigues

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Cheira a petróleo Colónia lusitana Dando o dito por não dito, Sócrates anunciou que ia pedir “ajuda” ao Fundo Europeu e ao FMI. De imediato o PSD declarou apoiar tal pedido, lamentando que só agora se tenha dado tal passo. Não sendo surpresa nem o pedido da intervenção, nem o apoio do PSD, principalmente a partir do momento em que começaram a surgir notícias dando conta de que as empresas públicas de transportes não tinham dinheiro para pagar os próximos salários, é de registar:

A Líbia tem as maiores reservas de petróleo da África e grandes depósitos de gás natural, fácil de canalizar para a Europa. O país é interessante para os grandes bancos, as instituições financeiras internacionais e as petroleiras do império. É esse o principal motivo da “intervenção humanitária para salvar vidas” – conseguir o controle da produção de petróleo e produtos derivados. Pág. 9

PEC 14

- que o governo só tomou essa decisão depois do anúncio da banca portuguesa de que ia deixar de financiar o Estado, acompanhado da “sugestão” ao governo para recorrer à “ajuda” externa; - que mais uma vez se provou que Sócrates é um charlatão. Depois de ter dito repetidamente que jamais pediria “ajuda” externa, bastou o pronunciamento dos banqueiros para de um dia para o outro mudar de opinião. O que mostra quem de facto manda no país; - que para os trabalhadores isto é o pior que lhes poderia ter acontecido. Com a intervenção do Fundo Europeu e do FMI, tudo aquilo que de péssimo preconizava o PEC 4 agora será pior. A intervenção externa significa mais despedimentos na função pública, mais reduções salariais e nas prestações sociais, impostos mais altos e privatização de tudo o que no sector público é rentável. A “ajuda” externa não é para salvar o país. Destina-se antes a salvar o euro, a impedir a reestruturação da divida externa portuguesa e a garantir que os bancos credores vão receber o “seu” dinheirinho e respectivos juros. Com a intervenção do Fundo Europeu e do FMI, deu-se um passo com graves consequências políticas. Se os governos portugueses há muito não passam de comissões executivas da UE, agora nem isso. O seu poder de decisão será menor que o de um governador colonial. E a democracia e parlamentarismo não mais que meros pró-forma.

CP - greves da sob chantagem Não são as greves que estão a desorganizar os serviços, mas as medidas que o PS e o PSD, por via do PEC 3, estão a impôr para obrigar os ferroviários a fazer horas extraordinárias e a trabalhar nos dias de folga. Pág. 7

SUPLEMENTO PO As três doenças da esquerda FRANCISCO MARTINS RODRIGUES

O 25 de abril e os órgãos de vontade popular ANA BARRADAS

O PCP nos alvores do Estado Novo ÂNGELO NOVO

Há três anos sem o Chico VÍTOR COLAÇO SANTOS


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O COMBATE À CRISE }O TEATRO ELEIÇOEIRO ESTÁ AÍ! – Ninguém acredita

na tecla repisada por Cunhal no comício do Campo Pequeno: “As eleições legislativas abrirão uma grande oportunidade a uma viragem democrática na política portuguesa”. O PS não quer este namoro do PC, que sempre recusou. Há 16 anos que os trabalhadores perdem regalias conquistadas, sofrem derrotas e humilhações, e sempre Cunhal promete que a “viragem democrática” está para breve. A única viragem que tem havido tem sido para a direita, não para a esquerda.

} PRECISAMOS DE PROTESTO, NÃO DE PASSEATA – Aquilo que Carvalho da Silva chama, com a sua reconhecida boa educação, “a filosofia da precarização e da flexibilização das relações laborais”, a “tentação de resolver os problemas da competitividade das empresas à custa do factor trabalho”, é muito mais que uma “tentação” – é uma decisão firme do patronato de elevar as taxas de lucro. Chegámos a uma situação em que a greve se tornou para eles (os operários) um luxo incomportável. Fazem greve, às vezes, os empregados dos serviços, as profissões liberais, certos sectores da função pública. Para os operários, se o dinheiro não lhes chega, a solução é outra: fazer horas extraordinárias, arranjar trabalhos por fora, apertar o cinto. E um movimento operário em que o direito à greve foi, na prática, perdido, está privado de força. Os trabalhadores que hoje amaldiçoam Cavaco, como há dez anos amaldiçoavam Soares, fariam melhor se deixassem de esperar por governos “honestos” e pensassem na força operária que é preciso contrapor à força do capital.

Na

Os estudos desconhecidos d e Che Guevara de A propósito dos seus Cadernos de leitura da Bolívia

}O SEGUNDO FÔLEGO DO NACIONALISMO – Para a

burguesia, a questão nacional está antes de tudo. Para o proletariado, esta questão está sempre subordinada aos seus interesses de classe. É pois uma falsa questão saber se somos a favor ou contra os movimentos nacionalistas. A questão é de como intervir sem fazer concessões ao chauvinismo nacional nem ao imperialismo. Somos inequivocamente a favor do direito à autodeterminação de todos os povos, concretamente os que compõem a União Soviética e a Federação Jugoslava. Mas isto não nos obriga a ignorar a dinâmica capitalista reaccionária desses nacionalismos. Na PO 29, Março/Abril de 1991: - Jovens do Porto contra o racismo - Guerra do Golfo - CCIG abalou torpor pacifista - Gangster americano impõe a ordem - Podem os partidos comunistas tomar partido por uma burguesia reaccionária? - O social-imperialismo nunca existiu? - Marrocos - A voz dos presos políticos - Contribuição às Comemorações dos Descobrimentos - Capitalismo selvagem na Suíça

selva

Néstor Kohan Edição conjunta Dinossauro - Abrente Tiveram que passar mais de quatro décadas desde o assassinato do Che Guevara para começarem a aflorar, tímidamente, outras facetas da sua vida. O Che como estudioso do capitalismo, analista das dificuldades da transição para o socialismo, teórico dos problemas da revolução mundial e polemista no interior do marxismo. Néstor Kohan estudou essas dimensões do Che como estudioso sistemático do marxismo, leitor dos clássicos do pensamento social e apaixonado explorador da literatura revolucionária. Em suma, o Che como pensador radical.

dinopress@sapo.pt ASSINATURAS Colaboraram neste número: Ana Barradas, Ângelo Novo, António Barata, Anjo Torres Cortiço, Antonio Doctor, Paulo Jorge Ambrósio, Vítor Colaço Santos Propriedade: Cooperativa Política Operária Correspondência: Apartado 1682 - 1016-001 LISBOA | TM: 960 135 270 Periodicidade: Bimestral | Tiragem: 1100 exemplares Publicação inscrita na DGCS com o número 110858

5 números

10 números

5 números

12,50 euros 17,50 euros 20,00 euros

25,00 euros 35,00 euros 40,00 euros

25,00 euros 35,00 euros 40,00 euros

(1 ano)

Continente e Ilhas Europa Resto do Mundo

(2 anos)

(apoio)

Pagamento por cheque ou vale de correio em nome de POLÍTICA OPERÁRIA e endereçado, Apartado 1682, 1016-001 LISBOA, ou por transferência bancária para o NIB 0033 0000 4535 4654 3330 5


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Tempos duros Todos suspeitávamos que após as presidenciais o governo ia cair e que essa queda ocorreria com a vinda do FMI. Também não era segredo que nenhum partido da oposição queria derrubar o governo antes disso e que este andava mortinho para que o derrubassem, pelo que o único “picante” da comatosa vida política nacional estava em adivinhar quem tomava a iniciativa e quando. Basta uma consulta aos jornais antes e depois das eleições presidenciais para se verificar que o guião da queda do governo e da “indesejada” crise política há muito estava definido. Dia 5 de Junho vai o país a eleições. A farsa continua. Todos o sabem e acham natural que assim seja — volta mais uma vez o mesmo guião, com a diferença de que os seus autores são o Fundo Europeu de Estabilidade e o FMI. E para que tudo tenha um aspecto de “normalidade democrática”, desde o dia em que a banca portuguesa anunciou que o governo deixara de ter crédito, pelas televisões começaram a desfilar, um atrás de outro, banqueiros e grandes patrões esclarecendo-nos sobre a bondade da “ajuda” externa. Com a intervenção externa o país, cujos governos nos últimos anos vinham obedecendo servilmente ao directório franco-alemão, perdeu o muito pouco que lhe restava de autonomia (não é esclarecedor que os fiscais de Bruxelas nos imponham o PEC 4, apesar de ele ter sido chumbado pelo principal órgão de soberania nacional?). É certo que vão continuar a existir eleições, deputados e governo. Mas tudo isso será simples pró-forma. Não é segredo que, sejam quais forem os resultados eleitorais, vamos ter um pacto de governo do bloco central, alargado ou não ao CDS; que esse governo vai aplicar o programa que a troika (Fundo Europeu, FMI e directório da UE) lhe ditar; que esse programa incluirá tudo o que vinha no PEC 4, acrescido de outras medidas ainda mais gravosas: aumento de impostos, cortes nas pensões, congelamento das prestações sociais, flexibilização do mercado de trabalho, aumento das rendas de casa e facilitação dos despejos, despedimentos no sector do Estado, reduções salariais no sector privado (pela criação de impostos com essa finalidade), revisão das leis laborais, fim das indemnizações por despedimento, redução do subsídio de desemprego, redução do salário mínimo, fim do 13º mês e do subsídio de Natal. Ao mesmo tempo, o Estado recapitaliza bancos e empresas e entrega à privatização tudo o que der lucro. Vai ser este o programa que o PS e o PSD vão defender e aplicar, já que uma das exigências dos “nossos salvadores” é um “entendimento interpartidário”. Aos trabalhadores portugueses vai ser imposta uma canga pesadíssima, e por largos anos. Desgraçadamente tardam em aparecer entre nós forças revolucionárias e anticapitalistas capazes de contrariar este rumo. Só a indignação na rua o poderá fazer.

Espartilho reformista No dia 12 de Março o país foi palco de dois protestos de características diferentes, quer pela sua génese, apoios e adesões, quer pela expressão e dimensões alcançadas. De semelhante tiveram o espartilho reformista que manteve os descontentes nos limites do previamente definido. O protesto da “Geração à rasca”, tão politicamente difuso como abrangente nas suas reivindicações (contra a precariedade e o desemprego, por empregos qualificados e com direitos sociais) foi o primeiro a ser anunciado e mobilizado, exclusivamente nas redes sociais, com destaque para o Facebook, beneficiando do acolhimento e da colaboração de praticamente toda a comunicação social dita de referência – a mesma que costuma ignorar ou apoucar as manifestações e greves ou os conflitos sociais de maior radicalidade. Ele acabaria no entanto por surpreender os próprios organizadores e apoiantes, ao movimentar centenas de milhares de heterogéneos manifestantes nas principais cidades do continente e ilhas (com destaques para a apinhada avenida da Liberdade, em Lisboa), bem como frente a embaixadas e consulados portugueses, um pouco por todo o mundo. Ele corporizou o mal-estar difuso e real que assombra transversalmente várias gerações - mais ou menos precárias, que se descobrem (só agora?) sem perspectivas de futuro - e não só a que o convocou, uma juventude dos 25 aos 35 anos com estudos superiores e ansiosa por reformas dentro do sistema que lhe permita vislumbrar um porvir minimamente digno, ou conforme ao seu estrato social, sem contudo questionar os responsáveis directos pela situação a que se chegou. Apesar dos graduais e largos apoios sociais e partidários que foi congregando, da direita à esquerda (o mais surpreendente, ou talvez não, terá sido o do PC), os objectivos destas manifestações, enunciados em manifesto, eram à partida castradores de qualquer veleidade pré-insurreccional, de resistência activa, de organização embrionária do “precariado” ao desaguarem numa tímida exigência de “um futuro melhor a nós mesmos e (para) Portugal”. Ou seja, a milhas de qualquer comparação com a realidade grega ou tunisina. Os dias seguintes confirmaram-no, com os organizadores a desactivarem o seu site na internet e a migrarem para uma plataforma diletante no Facebook. Assim, um protesto que, intervencionado por uma vanguarda revolucionária, poderia ter assumido outros e mais animadores contornos, ficou para a história como megadesa-

bafo interclassista, uma catarse colectiva inconsequente. É caso para perguntar: onde ficou a luta de classes no pensamento e intenções destes organizadores? E a resposta óbvia: não ficou porque nunca existiu, nem nunca se quis que viesse a existir. O segundo protesto foi o “plenário” convocado pela novel plataforma sindical dos professores, encabeçada pela FENPROF e que aglutina outros sindicatos, da UGT e independentes. Pressionado pela base e pelo crescente desconforto nas escolas face aos recentes e selváticos ataques governamentais aos postos de trabalho, estabilidade, vencimentos e condições de ensino, o dirigismo sindical docente achou por bem fazer algo e mostrar serviço. Sabedores, porém, de que a mobilização pouco mais está que no grau zero – por culpa da assinatura aposta há um ano no “acordo de princípios” com o ministério da sorridente Isabel Alçada – e não querendo arriscar novamente os cenários a céu aberto das megamanifestações de 100 e 120 mil professores que ocorreram imediatamente antes do sufocar da luta pelo dito acordo, toca a escolher um recinto fechado que não comporta mais de 9 mil lugares, a praça de touros do Campo Pequeno. Mas mesmo esta, apesar do esforço das máquinas sindicais e dos autocarros gratuitos, se viria a revelar grande demais, com os lugares cimeiros vazios. Sem ovos não se fazem omeletas e os ovos, neste caso, eram a coerência, firmeza e combatividade das direcções sindicais. Assim, discursos e resolução mais uma vez soaram a oco, e formas de luta como greves obviamente não foram ali sequer planificadas e agendadas. A anunciada “consulta nacional aos professores” sobre as ditas formas de luta, com o passar do tempo, parece também não ir sair do papel. A única nota dissonante deste comício foi trazida pela presença colorida e vibrante de centenas de professores de EVT, que, unidos em torno da sua associação profissional e acabados de impor, pela luta continuada e tenaz, a única derrota digna desse nome ao ministério (revogação do Decreto Lei 18/2011 – que previa o despedimento de metade deles, sete mil), entraram no Campo Pequeno em desfile autónomo a partir da concentração prévia nos jardins da Gulbenkian. Um sinal e um exemplo do que tem de ser feito pelos outros professores se quiserem sair do beco para onde foram conduzidos. PAULO JORGE AMBRÓSIO


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O mês em relance SÓCRATES – O engenheiro relativo era menta a fome e o desespero; a toda a hora um cadáver político. Escrevi-o aqui na última PO. Levou o país ao desespero, quebrou laços sociais e foi forte para os fracos. O PS, antes de ser nunca o foi. Mário Soares (enjoa a defender os pobrezinhos) suspendeu o socialismo metendo-o na gaveta. Nunca foi um verdadeiro partido de causas da esquerda, degenerando na massa obscura do clientelismo, das cumplicidades duvidosas, dos tortos acordo de poder. Exactamente porque jamais foi “socialista”. O governo aponta Estado máximo para poucos e Estado mínimo para quase todos. Portugal está de rastos. Ou melhor, o povo está faminto de pão e esperança. Sócrates corta pensões de 180 e 200 euros e diminui a taxa do IVA do golfe para o mínimo de 6%... Castiga até ao absurdo os rendimentos do trabalho e taxa em termos ridículos a grande especulação financeira e imobiliária. Sufoca as pequenas empresas e permite o escândalo da zona franca da Madeira, um paraíso de lavagem de dinheiro e fuga ao fisco. Em suma: O PS e Sócrates são insensíveis para com os mais pobres, mas prestam vassalagem aos mais ricos. Para os mais pobres não há nenhuma protecção por parte do governo e nenhuma melhoria económica. Nenhuma democracia. O povo não interessa para nada. Estamos de rastos. Quem nos governa – afinal – é uma senhora alemã, prepotente e estúpida, arrogante e pouco educada. Au-

somos metralhados com a subida dos juros da dívida e ter de pagar ainda mais; ninguém nos dá conta (verdadeiramente) do que está a acontecer; tudo é feito às escondidas. Menos a nossa infelicidade que está bem à vista desarmada...

VAIDADES ONEROSAS - Figuras gradas da nação deixam uma “marca” para a posteridade da sua passagem por altos cargos, fazendo-se retratar por pinturas pagas pelos cofres do Estado. 17.150 euros foi quanto o Estado português desembolsou há menos de dois anos pelo retrato a óleo do comandante da Academia Militar tenente-general Fernando Manuel, encomendado à Europress. Uma pechincha, se tivermos em conta que o do “autarca modelo” do PSD a contas com a justiça, Isaltino Morais, custou só a quantia de 8.800 euros, mais que os 7.400 euros pagos pela Universidade do Minho para que o seu sexto reitor também tivesse o retrato pintado ao lado dos que o precederam. (Dados recolhidos do portal base.gov.pt, despesas públicas referentes a 2009)

PASSOS COELHO – O problema de Portugal e dos portugueses não tem importância. O que os move são os interesses, os benefícios do poder. No interior do partido, as perseguições e as maledicências com que uns atacam outros, a intriga, caracterizam-no. Serviram algum dia, alguma módica vez, quem trabalha? O povo? Nada, nunca. Servem-se dele para, eleitoralmente, abocaFESTAROLAS, VIAGENS E OUTRAS MINUDÊNCIAS nharem o poder. - As autarquias portuguesas gastaram: Deste maldito PEC4, o PSD e Passos - 800.000 euros em espectáculos com Tony nem quiseram ouvir falar dele. Não por disCarreira; cordarem. Nada disso. Mas porque foram - 275.000 euros em espectáculos com a fadista dizer à Merkel “é insuficiente e ineficiente”. Mariza; É portanto preciso mais – e mais duro. E - 12 milhões de euros em viagens do grupo Passos com a lágrima (de crocodilo) ao canOneworld (o equivalente a 5.646 bilhetes de to do olho lá foi dizendo “e os velhinhos avião para dar a volta ao mundo); com reformas pequenininhas”! Não se toca - 13 milhões de euros em festas e festivais; nelas que é crueldade! No livro que escre- 650.000 euros em cafés; veu Mudar (para que tudo fique na mesma), - 75 milhões de euros em programas informáticos Passos condena os impostos indirectos porque se encontram disponíveis gratuitos na que são socialmente injustos. Mas agora, se internet. for preciso, aumenta o IVA. Porquê? Para (idem) não sacrificar as míseras pensões! Como tudo o que os pensionistas pobres recebem é gasto no consumo, com o PEC do PSD as coisas ficam mais caras desde já, subinvez o manso Miguel Macedo – líder parlamentar do do o IVA. Dá vontade PSD – que foi o único a ver um escondido facho. Um de mandar Passos Codia, creio, o dr. Cavaco fará (sou optimista) um acto elho à Merkel! de contrição e reconhecerá que foi responsável directo pelo estado a que Portugal chegou. Desbaratou montanhas de dinheiro vindo de Bruxelas; promoveu CAVACO – O dis- gente menor; permitiu que se atribuíssem pensões a curso do presidente agentes da PIDE por “serviços distintos prestados à da República na to- pátria”; obstou a que a viúva Salgueiro Maia recebesse mada de posse não uma modesta pensão de viuvez; inventou escutas teleteve nem rasgo nem fónicas. A lista é enorme... O discurso revelou esses grandeza. O costume: aleijões. Só não viu ou percebeu quem tresleu. No 50º aniversário do início da guerra colonial “Eu bem avisei...” O quê? Para quê? Para em Angola, o ultramarino Cavaco Silva disse: “imporos mesmos... A de- ta que os jovens deste tempo se empenhem em mismocracia de Cavaco sões com a ‘coragem’, ‘desprendimento’ e com a ‘depara os mais pobres é terminação’ dos jovens que combateram em África”. pura fachada. Como Cavaco compara muito mal. Os milhares de jovens se sabe, é um que que foram combater para a guerra colonial foram obrinunca se engana, rara- gados. Caso recusassem iam presos. Cavaco Silva foi mente tem dúvidas e alferes miliciano, combateu de caneta na mão durante quer que todos pen- a guerra colonial em Maputo (Lourenço Marques), sem como ele. O cita- nos anos 1962--1965. Coragem, desprendimento, dedo discurso reflectiu terminação contra o desemprego e o trabalho precário arrogância, soberba e de hoje é a mensagem para os jovens de hoje, em falta de humildade e nome da guerra colonial. Para Cavaco a ditadura de senso. Foi um texto Salazar nunca existiu. Por tal, a comparação faz senbélico, agressivo, obs- tido... O ex-presidente almirante Américo Thomaz (que curo e desmotivador. Nenhum português o povo apelidava de “cabeça de abóbora”) não faria foi atraído por aquelas pior discurso. Discurso colonial-fascista, entenda-se. VÍTOR COLAÇO SANTOS palavras, excepto tal-


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Má consciência Foi curiosa e significativa a atitude de boa parte dos comentadores face à manifestação da “geração à rasca” de 12 de Março. Quando a convocatória da manifestação começou a circular na internet e até à sua realização, enquanto uns marcavam distâncias com cautelas e reticências – com a desculpa de que não se sabia quem a convocava por não esta ter origem em partidos ou sindicatos – outros desvalorizavam-na. Os argumentos eram do tipo “os jovens precários até nem estão assim tão mal, porque pior estão os desempregados de longa duração, os que não recebem subsídio de desemprego e a maioria dos reformados”, que o protesto era uma guerra de gerações, que os precários não apresentavam alternativas nem nada propunham, que o seu basta era demagógico e anti-partidos, que deviam estar muito contentes por já não terem de ir para a guerra colonial como os seus pais, etc.). Depois esses comentadores, muitos deles tidos de esquerda, e dirigentes dos partidos do sistema, da Igreja Católica, académicos, etc., confrontados com a simpatia e a dimensão do protesto, sem paralelo nos últimos vinte anos, reformularam o discurso. Com elogios atrás de elogios, enalteceram o pacifismo da manifestação, a sua tolerância e civismo. Até o PS e o CDS – que nas vésperas fez questão de se demarcar – vieram a terreiro elogiar o bom comportamento da juventude. De repente perceberam que estavam com o passo trocado e teme-

ram ser apontados por estarem contra tão consensual protesto. Era preciso ficar registado que também eles estão com os jovens licenciados que não encontram outro trabalho que não o precário e mal remunerado… quando o encontram. Igualmente elucidativa da mentalidade retrógrada da nossa classe dominante foi a onda de “desagravo nacional” que acometeu alguma dela, incomodada e envergonhada com o facto de o grupo de comediantes Os Homens da Luta ter ganho o Festival da Canção da RTP. E pior, que sejam eles a representar o país na Alemanha, no Festival Europeu da Canção. Por isso surgiram as apreciações negativas sobre a qualidade da canção A luta é alegria, um abaixo-assinado para que os vencedores sejam impedidos de representar o país na Eurovisão e uma vasculha aos regulamentos do festival para ver se se arranjava maneira de eles serem substituídos. Como se já não bastasse o êxito dos Deolinda com a canção com que tudo começou, Que parva eu sou, retrato irónico dos jovens precários, eis que o povo volta a fazer má escolha e a envergonhar a pátria. Por isso não faltam vozes alarmadas a clamar contra o regresso da canção de protesto. Se a burguesia é tão temerosa dos protestos populares não enquadrados nem espartilhados pelos seus partidos, sindicatos ou outras instituições “responsáveis” e tende a ver nelas tenebrosas ameaças de

Rejubilemos “O pedido de ajuda faz com que os portugueses vivam com menos angústia. O PSD não deixará de apoiar o pedido de ajuda.” (Pedro Passos Coelho, à imprensa, 6 Abril).

Conversa da treta “Espero que o povo português, tradicionalmente tão sensato, não aceite responsabilizar pelas consequências da crise o único partido que através do seu Governo até agora as combateu e, mesmo em gestão, vai continuar a combatê-las.” (Almeida Santos, Lusa, 8 Abril).

Surpresa! “Há anos receava-se uma UE comandada por um Directório dos Estados membros de maior peso. Pois o Directório está aí em descarado funcionamento, constituído por apenas um país, a Alemanha, ainda que apoiada pela Finlândia, Áustria e Holanda nas questões do euro”. (Sarsfield Cabral, Sol, 9 Abril).

anarquia e caos, lá terá as suas razões. E se mobiliza aparatos militarizados, ridículos de tão desproporcionados, como aquele que colocou na rua para controlar a manifestação contra a cimeira da NATO ou, no caso presente, larga os seus fazedores de opinião contra epifenómenos culturais com alguma dimensão política e social e um protesto que nada tinha de radical e ainda menos de subversivo, anti-sistema ou anticapitalista, apenas está a revelar a sua tradicional tacanhez e reac-

cionarismo. E também toda a sua fragilidade. É caso para perguntar: se ela reage com tão má consciência a protestos cívicos que estão longe de formular qualquer reivindicação capaz de pôr em causa o sistema de dominação e a sua ordem económica, como irá reagir quando os trabalhadores saírem para a rua como fizerem os tunisinos ou os gregos? Será esse o dia em que os nossos democráticos governantes vão revelar a sua verdadeira natureza ditatorial? ANTÓNO BARATA

A OCDE e as verdades oficiais Quando os trabalhadores reivindicam melhores salários e condições de vida, ou se discutem as razões da permanente debilidade da economia portuguesa, há sempre um argumento que patrões, governantes e demais “entendidos” chamados a esclarecer o povo nunca se esquecem de evocar como verdade inquestionável – em Portugal trabalha-se pouco, há muitos feriados, muitas baixas injustificadas. Disso são exemplo Miguel Sousa Tavares, que no Expresso de 9 de Abril se faz porta-voz mais uma vez desse preconceito escrevendo que o Estado “paga o maior número de feriados por ano e o recorde europeu de baixas por doença”; ou as ridículas campanhas que de vez em quando surgem pedindo a redução dos feriados, o fim das “pontes” e que datas históricas como o 1º de Maio, o 25 de Abril ou o 5 de Outubro deixem de ser feriados ou passem a ser comemorados aos domingos. Já o vimos sugerido pelo PSD, por Cavaco, e por umas invisíveis deputadas do PS e do PSD que, por uma vez, saíram da sombra para fazer votar uma lei com esse propósito, que foi chumbada. A OCDE acaba de publicar o relatório anual “Panorama de Indi-

cadores Sociais 2011” onde mais uma vez repete o que há largos anos vem dizendo sobre as condições de trabalho em Portugal. Ou seja, que, ao contrário do que dizem os nossos “especialistas” em malandrice dos trabalhadores, este são os que na Europa têm a jornada de trabalho mais longa (8,79 horas/dia) e com maior número de horas de trabalho não remunerado (3,8 horas/ dia), tanto no que respeita a homens como a mulheres, embora sejam estas a principais vítimas deste tipo de exploração. E que, apesar disso, continuam com o rendimento médio por família abaixo da média europeia. Isto num país em que, curiosamente, os “nossos” gestores são os mais bem pagos do mundo ocidental, com rendimentos escandalosamente elevados, muito superiores aos que auferem os seus colegas norte-americanos e europeus. Nada disto constitui novidade. No entanto, para os devidos efeitos, a verdade oficial vai continuar a ser a de que os trabalhadores portugueses são uns mandriões. E que se os gestores nacionais auferem tão milionários rendimentos, reformas e indemnizações, a culpa não é deles, mas do mercado, que os obriga a empochar tanto dinheiro.


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Igualdade de género segundo os burocratas da EU

Geração precária à rasca Um mar de gente enchia por completo a Avenida da Liberdade na manifestação da Geração à Rasca. Estavam 60, 200, 300 mil pessoas? Foram centenas de milhares que gritaram a uma só voz: “Precários nos querem, revoltados nos terão!”; “Apostar na precariedade é investir na mendicidade!”; “Com precariedade não há liberdade!”; “À rasca mas... em luta!”. Foi também um protesto contra a precariedade que atinge mais de 35% dos trabalhadores do sector privado e contra o facto de Portugal ser o segundo país na Europa com mais contratados a prazo. Este sistema não sabe o que há-de fazer a estes jovens. Chama-os parvos e diz “vão trabalhar malandros” e tratou a manifestação como infestação. Têm medo deles. Medo da força deles porque sabem que a exploração, o trabalho grátis (estagiários) e a miséria vão explodir, não se sabe é quando e como... É claro que é compreensível ver Mário Soares, Miguel Sousa Tavares, Pacheco Pereira ou Ribeiro Ferreira dizerem que esta gente jovem é absolutamente descrente, reles, indolente, dependente ou rasca porque os seus filhos ou enteados têm emprego garantido. Esquecem-se é dos restantes jovens que pertencem à geração dos 500 euros, dos call-centers, do trabalho à hora e à peça. Aalém de lhes tirar o pão da boca ainda os caluniam. Impressiona esta arrogância instalada. Impressiona esta elite de barriga cheia, quase toda da mesma geração, que decide o futuro dos jovens e, não

sabendo dos problemas ( porque nunca assim lhes tocou), como poderá indicar soluções? Os muitos mil desemprega dos ou precários e sobretaxados não são coitadinhos do sistema nem aleijados mentais. Reclamam oportunidades de trabalho pago – efectivamente pago – para terem vida independente. Está aí o novo PEC – Plano de Extermínio dos Contribuintes – em que nem um euro é pedido à banca e aos grupos económicos com lucros obscenos. Alguma coisa vai um dia acontecer e alguns milhares de jovens, até em Portugal, disseram agora que estão vivos e despertos... VÍTOR COLAÇO SANTOS

Faz parte das políticas sociais da União Europeia o combate pela igualdade entre mulheres e homens. Com este objectivo tem canalizado fundos que põe à disposição dos Estados, das ONG, associações, empresas e outras entidades que se candidatem aos programas criados para combater as discriminações de género. É assim há uns três ou quatro anos, sem que se tenha obtido (pelo menos no nosso país) qualquer melhoria significativa da condição feminina em resultado da aplicação desses programas, principalmente quando falamos das trabalhadoras. Ao ponto de só com muita boa vontade e condescendência se conseguir vislumbrar outra utilidade para esses programas que não seja a de sustentar toda uma gentalha de académicos, doutores, consultores, especialistas, dirigentes associativos, oportunistas e carreiristas que pululam em torno de partidos, autarquias, fundações, institutos e associações. Idealizados e controlados por burocratas unicamente preocupados com as suas carreiras, estes programas comunitários não podem produzir outros resultados

Acordou agora O deputado do PSD Adriano Rafael Moreira propõe ao Governo cortes nos vencimentos e no número de chefes nas empresas públicas. A média são 60 chefes em cada empresa, mas existe o caso da Refer que tem 158 chefes, alguns sem subordinados. Passou seis anos hospedado no hotel Tivoli Oriente, pago pela CP, e nada fez para diminuir o número de quadros desta empresa quando foi administrador em três administrações da CP presididas por Martins de Brito do PSD, António Ramalho do PSD e Cardoso dos Reis do PS. Depois foi assessor da Refer, antes de ir para deputado do PSD. Agora diz que “é necessário que o Ministério solicite informações sobre estes casos”.

que não seja um simulacro de luta contra a discriminação salarial, a violência, o assédio e a subalternização que vitimam as mulheres. Exemplo vivo desta farsa e da tacanhez dos burocratas da União Europeia sobre como entendem o combate aos preconceitos e atavismos que remetem as mulheres para um estatuo subalterno foi a escolha do dia 5 de Março para celebrar o Dia Europeu da Igualdade Salarial, iniciativa que, no seu entendimento, “assinala o compromisso de pôr termo à discriminação das mulheres no mercado de trabalho”. Preocupados com as discriminações”salariais injustificadas” (será que há discriminações justificadas?), propõem-se combatê-las instituindo “prémios, galardões e distinções para empresas que promovam a igualdade entre homens e mulheres”; desenvolver “instrumentos adequados, tais como calculadoras para visualizar as disparidades salariais entre homens e mulheres” e assim ajudar “os empregadores a identificar e corrigir disparidades salariais”. Como se os patrões desconhecessem o que pagam aos seus trabalhadores. Parece anedota, mas não é.


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Greves da CP sob chantagem Os ferroviários vêm realizando greves ao trabalho prestado em horas extraordinárias e nos dias de folga, medidas aplicadas pela administração da CP e CP Carga, e decorrem do acordo PS/PSD sobre o Orçamento de Estado de 2011, que suspendeu a vários itens da contratação colectiva. Prevendo a recusa dos trabalhadores a fazerem horas extra e trabalharem nas folgas, a administração pediu ao “tribunal arbitral” que definisse os “serviços mínimos”. O qual, solícito, considerou que para garantir esses “serviços mínimos” não bastava que os trabalhadores cumprissem a jornada de trabalho normal. Foi o que bastou para a administração da CP - Comboios de Portugal – empresa pública a desmembrar para privatizarem as linhas rentáveis – encher as estações e apeadeiros das linhas suburbanas com cartazes em que acusa os trabalhadores e os seus sindicatos de quererem “obrigar a administração a desrespeitar as leis da República” e de reivindicarem “a criação de regras de excepção… que não estão ao alcance do conselho de administração”; de estarem a impor mais sacrifícios às populações e aos outros trabalhadores, pôr em perigo a continuidade dos postos de trabalho e de “prejudicar irremediavelmente” a empresa; que as greves tem vindo a ser conduzidas de “forma cirúrgica e selectiva” com o único objectivo de

“provocar os maiores danos à circulação dos comboios, através da recusa do cumprimento de tarefas imprescindíveis à adequada prestação do serviço”; que a greve viola a lei da greve. O comunicado termina ameaçando os trabalhadores que persistirem na greve de esses dias virem a ser considerados faltas injustificadas, abrindo caminho à instauração de processos disciplinares, de despedimento e cíveis. Esta é uma inqualificável tentativa dos

administradores da CP para tentar virar a população contra os grevistas, que merece uma resposta mais firme e contundente que aquela anunciada pela CGTP, pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário e pela FERTANS: a apresentação de uma queixa-crime contra a administração e a ida, a 21 de Março, ao ministério que tutela os transportes para “exigir a reposição da legalidade na CP”.

Em defesa dos salários } Uma calculadora, se faz favor – Portugal tem hoje 349 institutos públicos, dos quais 111 não pertencem ao sector da educação. Se descontarmos também os sectores da saúde e da segurança social, restam ainda 45 institutos com as mais diversas funções. Há ainda a contabilizar perto de 600 organismos públicos, incluindo direcções gerais e regionais, observatórios, fundos diversos, governos civis, etc.). (Estudo do Economista Álvaro Santos Pereira, Professor da Simon Fraser University, no Canadá) A contabilidade mais recente da administração pública nacional indica a existência de 349 Institutos Públicos, 87 Direcções Regionais, 68 Direcções-Gerais, 25 Estruturas de Missões, 100 Estruturas Atípicas, 10 Entidades Administrativas Independentes, 2 Forças de Segurança, 8 entidades e subentidades das Forças Armadas, 3 Entidades Empresariais regionais, 6 Gabinetes,

1 Gabinete do Primeiro Ministro, 16 Gabinetes de Ministros, 38 Gabinetes de Secretários de Estado, 5 Gabinetes dos Secretários Regionais, 2 Gabinetes do Presidente Regional, 2 Gabinetes da Vice-Presidência dos Governos Regionais, 18 Governos Civis, 2 Áreas Metropolitanas, 9 Inspecções Regionais, 16 Inspecções-Gerais, 31 Órgãos Consultivos, 350 Órgãos Independentes (tribunais e afins), 17 Secretarias-Gerais, 17 Serviços de Apoio, 2 Gabinetes dos Representantes da República nas regiões autónomas, e ainda 308 Câmaras Municipais, 4040 Juntas de Freguesias. A estas devemos juntar as CCDRs e as Comunidades Intermunicipais, centenas de Observatórios e as sempre misteriosas e omnipresentes Fundações. (Texto que corre na internet)

Os trabalhadores travam lutas contra a degradação dos salários e em defesa da contratação colectiva: – Grupo REN Gasodutos, Bucelas - Exigindo o cumprimento integral do acordo colectivo de trabalho pelo Grupo REN, a negociação de um ACT comum para todos os trabalhadores do grupo, impedir cortes salariais e obter uma actualização salarial em 2011 para todos os trabalhadores do grupo, estes convocaram uma concentração junto à empresa, em Bucelas; – Europac Kraft Viana, Viana do Castelo - Os trabalhadores da antiga Portucel Viana realizaram

uma greve durante 4 dias, em Março, para desbloquear o processo de revisão do acordo de empresa. Querem um aumento mínimo de 40 euros, um regime de diuturnidades igual para todos e a melhoria do subsídio de turno. A Europac Kraft Viana teve em 2010 um lucro superior a 50 milhões de euros. A empresa pertence ao Grupo Europac, que vai distribuir pelos accionistas 10 milhões de euros de dividendos. Existe, também, um clima de insatisfação geral, resultante de uma distribuição desigual dos benefícios ligados ao bom resultado da empresa.


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A rua quer mais A avenida Habid Burguiba fervilha. Carros de som por todo o lado. Na escadaria do Teatro Nacional, o megafone passa de mão em mão. Discursa-se, grita-se, com toda a liberdade diz-se que a revolução tem de continuar. Ben Ali não se foi: ficou a sua polícia política, agora camuflada, mas a funcionar, ficou a sua teia de corrupção, ficou a clientela do RCD, distribuída agora por vários partidos e pronta para regressar ao poder, donde verdadeiramente nunca saiu. Os apelos da “Kasba 3” repetem-se, espalham-se e discutem-se na rua. É a resposta ao discurso do novo primeiro-ministro Sebsi, que fala com a arrogância dos poderosos e uma legitimidade que não lhe foi dada pelo povo. A rua responde-lhe. Afirma que está presente e viva e que não se vai dobrar facilmente a uma “normalidade” que não realize mudanças reais na sociedade tunisina. Dos cantos da marginalização e da exclusão, de Sidi Bouzid, Rdayef, Thala, Kasserine… e estendendo-se por todo o país, o povo tunisino na rua está fazendo a revolução da dignidade. Nenhum despacho, nenhum poder oculto, nenhum partido, ninguém traçou esse programa. Foi o povo tunisino que se pôs a escrever a sua própria história, não com jasmins, mas com a dignidade e o sangue dos jovens, dos seus mártires. Na “Kasba 1”, a caravana da revolução, milhares de pessoas, vindas das zonas mais marginlizadas de Túnis e do país, ocuparam de 23 a 28 de Janeiro, dia em que foram brutalmente desalojados, a Praça do Governo em Kasba. Não estavam dispostos a aceitar um governo em que a maioria dos seus membros pertenciam ao partido de Ben Ali, a começar pelo seu primeiro-ministro Ghanouchi. Com a “Kasba 2”, Ghanouchi caiu. Já derrubaram dois governos depois da queda do ditador. O povo tunisino, de novo, deu um passo em frente, passando como um rolo compressor por cima do governo de Ghanouchi, apoiado pela União Europeia e os Estados Unidos. Os principais chefes policiais da época Ben Ali foram destituídos, os presos políticos libertados, o RCD dissolvido. Porém, a rua quer mais. A contra-revolução ainda não foi derrotada. 1 de Abril. Os apelos à “Kasba 3” juntaram milhares de pessoas. É impossível chegar à praça. Polícias e militares controlam os acessos. O exército também está presente nas ruas. Tanques, camiões. Na rua de acesso à praça, vários cordões de polícia vigiam as primeiras filas de manifestantes. Discursos improvisados entre a gente. Meher, um jovem que anima os debates, fala de revolução, de que os assassinos continuam sem castigo e os corruptos livres. Querem mudanças reais, destruir todo o aparelho do partido-estado, ou seja, uma outra Tunísia. Não confia nos partidos, nem nos sindicatos. Sabem que a força está neles e nas ruas. De repente, a multidão começa a mover-se. Alguns retrocedem, a maioria avança para a polícia. Parece que esta começou a carregar,

começam os empurrões, os golpes, as pedras que voam, grades que se arrancam e o ar enche-se de gás lacrimogéneo, provocando a dispersão para as ruas da medina. O gás persegue-nos entre as ruas. Uma companheira da CGT, asmática, cai desmaiada. Mas o povo está aí. Das casas saem mulheres, homens, crianças, para acudir. Leite, limão, mantas, tudo. Uma jovem traz Ventoline. Beijos de respeito na testa. Carinho e solidariedade popular. Outro companheiro, de Solidaires, ficou só e também foi gaseado. A mesma resposta: é rapidamente acolhido numa casa para ser socorrido e evitar a detenção. Dizem-nos que foram presas umas vinte pessoas. Na avenida Habid Bourguiba, a gente vai chegando e volta-se a concentrar frente ao Teatro Nacional. Discute, debate-se. Uma jovem estudante fala-nos, sentindo-se protagonista do que se está passando. Repudia a contínua ingerência do Ocidente no seu país, o nosso sentimento de superioridade, falanos de uma Tunísia tolerante, capaz de conviver, de construir uma democracia diferente e mais verdadeira que a nossa. Vemo-la segura de si e convicta. É a imagem de um povo que se está organizando, que tem esperança e capacidade de construir e avançar. Os desempregados puseram-se de pé e organizaram-se. Só em dois meses, já são 45.000, com estruturas criadas a partir da base. Os comités de salvaguarda da revolução estão por todo o lado. Com funcionamento mais fechado (coordenação das organizações) ou mais aberto (assembleias), gerem na prática muitos bairros. Preparam-se importantes mobilizações contra o actual governo se este não começar a desmantelar o antigo aparelho de poder e não prender os responsáveis pelos assassinatos cometidos

durante a revolução. Sucedem-se os debates nas comissões que estão a preparar as mudanças constitucionais e a preparar as eleições, convocadas para 25 de Julho, as lutas e alianças partidárias. A situação é difícil. São muitos os que querem travar o processo ou manipulá-lo. Porém, a rua tem claro: a revolução na Tunísia só está a começar. MOUATAMID

E

M.H,

DA

CGT, ABRIL

Partido… quê? E por nós bem conhecido o oportunismo em mais alto grau do PC do B, “partido irmão” de tão má memória para os comunistas que romperam pela esquerda com o rumo direitista e a fossilização ideológica do PCR/ UDP. Vem isto a propósito de uma recente e enjoativa nota do PC do B sobre a morte de José Alencar, “a encarnação contemporânea daquilo que no passado se chamou ‘burguesia brasileira’… um dirigente empresarial importante e respeitado e um senador de enorme prestígio… um militante da causa do Brasil e do seu povo” que partilhou a presidência com Lula numa “espécie de reedição da aliança… entre o grande empresariado industrial nacional e os trabalhadores”. Prossegue, depois de referir a “amizade (entre o PC do B e Alencar) soldada pelo projecto comum de defesa do país e do povo”, lembrando que ele “teve origem nas camadas mais pobres da população, homem do interior que nunca rompeu com o sonho de um país progressista, democrático e moderno, foi um guerreiro”. Uma homenagem que é todo um programa nacionalista burguês, totalmente alheio a qualquer ideário comunista.


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Cheira a petróleo Nos últimos anos, com a Líbia retirada da lista negra dos Estados terroristas, Khadafi tornou-se íntimo amigo das potências imperialistas e dos ditadores na região, chegando a tomar a defesa activa de Ben Ali antes de este ser obrigado a abandonar o poder na Túnisia. As relações económicas com a União Europeia, a venda de petróleo aos países europeus e aos EUA resultaram na entrada na Líbia das grandes petrolíferas ocidentais (Repsol, British Petroleum, Total, ENI, OM, etc.), além do que deram muito dinheiro a ganhar às empresas europeias de construção civil. Os acordos de cooperação de Khadafi com os EUA na luta contra o terrorismo – com entrega de informações sobre antigos aliados, como os irlandeses do IRA que tinham treinado na Líbia, as organizações palestinianas ou os líbios suspeitos de apoiarem Bin Laden – no comércio, na proliferação nuclear e em manobras militares pan-africanas sob comando do dispositivo imperialista Africacom, o reconhecimento da responsabilidade líbia no atentado de Lockerbie, a criação em 2003 de campos de concentração onde estão detidos milhares de africanos que

procuravam atingir as costas da Europa, a entrega a Ben Ali de opositores tunisinos refugiados na Líbia, a assinatura com a Comissão Europeia de uma “agenda de cooperação” para a “gestão dos fluxos migratórios” e o “controle das fronteiras” a troco de 50 milhões de euros, as sucessivas visitas à Líbia de Zapatero, Cameron, Sócrates, Sarkozy, Berlusconi e outros – tudo isto indicava que o regime antes conhecido pelos seus alinhamentos anti-imperialistas se deslocava a pouco e pouco para a esfera ocidental, situação favorável para os países ocidentais importadores de petróleo. Com as primeiras revoltas na Líbia, estes viram posta em xeque a situação laboriosamente criada para defender os seus interesses.

BOICOTE A campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra o Estado de Israel conseguiu que a Universidade de Joanesburgo pusesse fim a uma cooperação de 25 anos com a universidade israelita Ben Gourion. A universidade de Joanesburgo, a mais importante da África do Sul, decidiu romper com essa colaboração numa votação que decorreu no dia 23 de Março, tendo-se 60% dos participantes pronunciando a favor dessa decisão. O arcebispo Desmond Tutu, entre outras personalidades, tinha apelado à ruptura das relações, pelo facto de as universidades israelitas estarem intimamente ligadas, por escolha própria, ao regime de ocupação e de apartheid vigente na Palestina. (Da imprensa).

GRÉCIA – APAGÃO INFORMATIVO Os trabalhadores da comunicação social grega iniciaram uma greve de quatro dias contra os despedimentos em massa e a redução de salários, provocando um “apagão” noticioso no país. Num comunicado, o comité de doordenação dos sindicatos gregos de jornalismo informou que “o patronato tenta, com o governo, suprimir os direitos laborais e a segurança social” no sector. Os jornalistas e técnicos da imprensa escrita, como os da rádio e televisão, denunciam “os despedimento de trabalhadores e sindicalistas” e convocaram uma manifestação para o centro de Atenas, sendo apoiados pelos distribuidores e jornais digitais. Os sindicatos denunciam que os profissionais

Por exemplo, a Líbia é um dos principais parceiros comerciais de Espanha. Os seus campos de petróleo respondiam antes do conflito a quase 13 por cento das necessidades de crude das refinarias espanholas. Espanha gasta quase 30.000 milhões de euros/ano nas importações de petróleo líbio, ou seja, 95 por cento do total do que importa desse país. Em contrapartida, a venda de produtos e serviços espanhóis ao mercado líbio é de apenas 2.500 milhões de euros (desde veículos fabricados em Espanha a azeite e aparelhos eléctricos). A União Europeia tem também sérios interesses económicos na Líbia, pois recebe 85% das exportações de energia. A Turquia, Rússia e China também dependem dessas exportade imprensa sofreram reduções salariais de 10% a ções. 30%, e que se degradaram as condições de trabalho. A Líbia tem as maiores reservas (Kaosenlared, 7 Abril). de petróleo da África. Ultimamente produzia 1,8 milhões de barris de MAPUCHES NA TERCEIRA petróleo diários – crude leve, consiSEMANA DE GREVE DE FOME derado de máxima qualidade e mais Quatro líderes mapuches, condenados em Carefinado do que a maior parte do ñete, Chile, cumpriram três semanas em greve de petróleo. Também tem grandes defome. Exigem um julgamento justo e imparcial. pósitos de gás natural fácil de canaliHéctor Laitul, Ramón Llanquileo, José Huezar para a Europa. Com uma grande nuche e Jonathan Huillica foram condenados de superfície, tem uma população di25 a 20 anos de prisão, acusados de um atentado minuta de 6,4 milhões de pessoas. contra o procurador Mario Elgueta. São membros No geral, o país é interessante para da Coordenadora de Comunidades em Conflito os grandes bancos, as instituições fiMapuche Arauco-Malleco (CAM). nanceiras internacionais e as petroDepois de ouvir a sentença, em 15 de Março, leiras do império. É por isso que o os quatro retomaram o jejum iniciado na segunda principal motivo da pressão das pometade de 2010. tências para a “intervenção humaniA primeira greve de fome acabou depois de tária para salvar vidas” é conseguir um compromisso do governo. Os militantes realo controle da produção de petróleo çaram a decisão do tribunal, que não utilizou a lei e produtos derivados. O conflito líantiterrorista como havia prometido. No entanto bio pode prejudicar a produção, mas alegam que durante o processo foram utilizados ao mesmo tempo, a escalada do instrumentos legais do tempo da ditadura de Aupreço do crude proporciona maior gusto Pinochet. A porta-voz dos presos disse num margem de lucro. acto público, em Santiago do Chile, que a greve é As multinacionais dos EUA, até necessária “para que eles possam ser ouvidos”. agora excluídas da exploração de A Comunidade Mapuche entende que a condereservas na Líbia, esperam no actual nação do Tribunal de Cañete demonstra a perseguiquadro poder controlar as fontes de ção do Estado chileno contra a etnia, e que o seu energia deste país e ganhar assim objectivo é travar a luta dos mapuches pelas suas uma posição no mercado. terras ancestrais, usurpadas pelas empresas privaANA BARRADAS das e multinacionais. (Agência Pulsar, 9 Abril).


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Estamos em guerra Queiramos ou não, estamos em guerra. Sou o que se chama um trabalhador por conta de outrem. Comecei aos 12 anos e excepto dois curtos períodos de desemprego, não parei até aos 65. Trabalhei em empresas pequenas, médias e muito grandes. Vi-as todas como campos de batalha. Não por gosto, mas porque recebi ataques por todos os flancos e em todos os terrenos. Desde o “Gastaste muito tempo no lavabo” ao “Há-os mais rápidos do que tu” passando pelo “Se tivéssemos sabido como você era não o teríamos contratado”. Nunca tive uma sanção por não cumprir ou cumprir mal as tarefas que me encomendaram. Mas o tempo e as experiências convenceram-me que isso é o que menos conta. O que conta é que não te sintas agredido, que aceites que isso é normal, que não haja luta. Que transformes a resignação numa virtude, ou pior ainda, que não reconheças a sua existência. Que não te destaques em nada, nem sequer em adulação aos chamados “superiores”. E o meu anedotário não se limita a Espanha. Trabalhei noutros países e presenciei todo o tipo de agressões. Nada me surpreende: Há uma “alma universal” do empresário no trato com os “subordinados”. É como se o “empreendedor” nato, o que não quer nem por nada trabalhar por conta de outrem, transportasse em si o vírus da desumanização. E o virus contagiase os esbirros que as sociedades anónimas contratam para disciplinar o pessoal. Histórias curtas: Brasil, 1965. Fábrica de electrodomésticos. Diante de mim: Um encarregado aborda o seu superior todo aprumado e diz-lhe: “Fulano ficou com a mão esmagada na prensa”. Resposta imediata, sem pensar: “Que mão?” Porque a direita vale mais que a esquerda. Brasil 1968. Wolkswagen. Diante de mim: A empresa constrói uma nova Oficina de Pintura, com todos os avanços técnicos e equipamento importado da Alemanha. A Oficina coberta maior da América Latina, orgulhava-se a gerência. Ao fim de um mês de funcionamento, declara-se um incêndio na cave, destinada a armazenar material, incluindo grande quantidade de pneus. A fumarada obrigou a sair os que ali estavam e de imediato começaram a vir bombeiros de São Paulo e arredores. À gerência não ocorreu coisa melhor que pedir voluntários entre os trabalhadores para salvar o material que se pudesse fazendo uma cadeia humana. Em vista da pouca disponibilidade dos trabalhadores, optou por recrutar os jovens da escola de formação que existia

na fábrica. Não pedindo, mas mandando. Formou-se a cadeia, com o fogo a avançar, e pouco depois ruiu um muro muito próximo dos que entravam e saíam. Por pouco não sucedeu uma tragédia. O sucedido foi objecto de muitos comentários e chegou aos média. De imediato voaram alguns passarões da empresa, da Alemanha para São Paulo, e convocaram uma conferência de imprensa para dar a sua versão do sucedido, livrando os directores da fábrica de qualquer responsabilidade, claro. O que disseram uns senhores que no momento do acontecimento estavam a milhares de quilómetros prevaleceu sobre a versão dos que estavam a 20 metros de distância da porta. Alemanha, 1970. Fábrica de componentes para camiões. Diante de mim: Chega um camião com uns tubos grossos de 6 metros de largo. Os trabalhadores descarregam carregando o tubo no ombro, um à frente e outro atrás. Como é muito pesado, colocam uns trapos de limpeza sobre o ombro. Passa o dono, vê e sem mais contemplações diz-lhes que os trapos não são para isso, que os deixem onde estavam. Barcelona, 1980. Uma empresa “familiar”, com cinco empregados fixos há anos, todos fiéis e respeitosos, e eu como eventual. Instala e repara câmaras de frio para matadouros. Um deles trabalhou numa câmara de congelação sem respeitar as normas legais quanto ao tempo que esta pode permanecer desligada e ao tempo máximo que um trabalhador pode permanecer dentro e fora dela, para se recompor. Adoeceu e teve de dar baixa, mas ao fim de dois dias voltou ao médico e pediu-lhe qualquer medicamento (“de cavalo”, como me disse) para voltar ao trabalho. O dono leva-me no seu automóvel a um matadouro para trabalhar e quando chegamos estava este trabalhador à nossa espera. Sem o deixar falar dirigiu-se a ele com maus modos e gritou-lhe: “Sabes muito bem que não quero comigo trabalhadores que entram de baixa!”. Zaragoza, 1988. Fábrica de automóveis. O encarregado de uma secção comunica ao seu chefe que houve um acidente na linha de montagem. Pergunta imediata: Estragou-se alguma carroceria? Tenho mais, muitas mais, mas é suficiente. Se isto não é um estado de guerra, digam-me o que é. Podemos também chamar-lhe “estado de vigíilia permanente para manter aos operários subjugados”. A sua meta: que o operário interiorize a sua desgraça. ANTONIO DOCTOR

“As revoluções no mundo árabe são o começo duma nova era’’

A esquerda árabe defende, em primeiro lugar: não à intervenção imperialista na Líbia, não à intervenção imperialista no Bahrein. Também no Bahrein tem havido uma intervenção militar terrível e nós somos contra esta barbárie. Trata-se de um outro Iraque. Nelas (revoltas em curso) participam todas as camadas sociais: capitalistas, operários, burgueses, desempregados, toda a sociedade. Em todas as revoluções, também na palestiniana, há uma luta interana entre pobres e ricos, entre direita e esquerda. Na Líbia, sabemos que na oposição há gente do antigo regime. Mas o que me preocupa na esquerda europeia é a criminalização da oposição líbia, e a defesa de Kadhafi como um herói anti-imperialista. Kadhafi chegou ao poder há 40 anos e realizou muitas melhorias sociais, apoiou os pobres e definiu-se como socialista, embora à sua maneira. Politicamente era influenciado pelo pan-arabismo de Nasser e pela União Soviética. Mas Kadhafi mudou radicalmente de posição após a queda do regime iraquiano. Aliou-se aos Estados Unidos, à União Europeia, às multinacionais e aos governos árabes corruptos. A oposição cometeu dois erros: recorreu às armas para resolver problemas internos quando tinha todo o povo líbio com eles; uma parte da oposição entregou-se ao Ocidente. PALESTINA À ESQUERDA A situação do povo palestiniano vai de mal a pior. A situação é complicada por não haver uma unidade nacional entre a direita palestiniana, encabeçada por Abu Mazen, e o movimento islâmico Hamas. As razões dessa divisão, como em qualquer revolução, estão nos interesses de classe. A direita não quer entregar a direcção da revolução palestiniana à esquerda. A Autoridade Nacional Palestiniana não representa os 5 milhões de palestinianos que vivem em condições terríveis no exílio. A direita não representa os interesses do povo. E o Hamas também não, porque segue um caminho quase igual ao da Al Fatah. A única alternativa na Palestina é a esquerda. As sondagens mostram que se se realizassem eleições parlamentares, ou a OLP se renovasse, a direita cairia e a esquerda dirigiria o processo. Na Palestina, como nos países árabes, há um factor muito importante: a juventude. A juventude palestiniana saiu à rua, levantou acampamentos na capital provisória, Ramallah, está a ser perseguida pela Autoridade Nacional Palestiniana, e quer a unidade a qualquer preço. Está a obrigar todas as partes à unidade nacional. (Adaptado de Diario Liberdade, entrevista a Fayed Khalaf, membro da Organização de Libertação da Palestina)


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A fome de lucros inflaciona o preço da comida Fundos de alto risco açambarcam toneladas de um produto para fazer disparar o seu preço. Um terço dos rendimentos do Goldman Sachs tem origem nas matérias-primas. Um apressado moscovita cruza a Praça Vermelha ataviado com uma máscara apocalíptica. Moscovo está cercada pelo fogo provocado pelo Verão mais tórrido da história. A inclemência meteorológica não deixa apenas imagens inéditas. A maior seca em cem anos açoita o continente e leva por diante as colheitas de trigo do sul do país. O primeiro-ministro, Vladimir Putin, impõe uma medida excepcional para conter os preços: não haverá exportações de trigo até 2011. Do outro lado do mundo, um trader (intermediário) do maior mercado de matérias-primas do mundo faz os seus cálculos. A Rússia é o terceiro exportador mundial deste cereal e o Canadá, o segundo, terá uma das suas piores colheitas em três anos. A oportunidade está servida em bandeja. Em apenas dois dias (4 e 5 de Agosto), o trigo sobe 8,42% e os volumes que move chocam com os tectos impostos pela entidade reguladora para conter a especulação num mercado tão delicado. No último semestre de 2010, a subida acumulada chega a 44%. E sobe ainda. O efeito borboleta estende-se seis meses depois ao pequeno povoado tunisino de Sidi Bou Zid. O preço da farinha, e o de outros alimentos, duplicou. A Tunísia, juntamente com o Egipto e o Iraque, é um dos principais importadores de trigo russo. O jovem Mohamed Bouazizi auto-imola-se, angustiado por-

que lhe foi tirado o seu negócio e não pode alimentar a família. Rrepetem-se a cada ano no mundo sequências de acontecimentos produzidos pela alteração dos preços dos alimentos, inflacionados pela acção dos grandes investidores institucionais. O desenlace destes episódios é, no melhor dos casos, uma revolta, porque na maioria das ocasiões o que se desencadeia são fomes. A especulação financeira produz impacto nos preços. Especialistas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), da FAO ou do Banco Mundial concordam neste ponto. Os especialistas destas organizações declinam falar ou preferem não ser citados quando são questionados acerca do papel dos fundos de alto risco (hedge funds), mas assumem que é fundamental, já que amplificam os efeitos de uma má colheita ou um inesperado incremento da procura. No entanto, quantificar no preço o impacto da especulação é quase impossível, segundo os especialistas. O Instituto para a Agricultura e a Política Comercial dos EUA (IATP) recolhe os dados de um estudo preparado por uma consultora no qual se atribui ao efeito da especulação até 31% da subida do preço do milho em Julho de 2008, a anterior bolha dos preços dos alimentos. Quem o tem muito claro é o guru financeiro George Soros, que foi chamado a testemunhar perante uma Comissão do Senado dos Estados Enidos em 2008 para explicar o papel da especulação na subida dos preços das matérias-primas. De “desestabilizadora” e “dani-

nha” chamou o magnata à entrada massiva de especuladores nas matérias-primas, apesar de continuarem a ser os seus investimentos favoritos (sobretudo ouro e crude) hoje em dia. “Há três tipos de actores no mercado financeiro. Os intermediários de derivados, os índices que seguem matérias-primas e os hedge funds. Entre 12% e 16% dos actores que influem no preço das matérias-primas não fazem comércio realmente com elas”, explica um antigo intermediário do Chicago Board, o maior mercado de matérias-primas do mundo. “O volume de Chicago superou os 300.000 milhões de dólares e em três anos tem vindo a triplicar. 80% daqueles que participam neste mercado são bancos de investimento”, concretiza este especialista. Entre todos os participantes, o mais poderoso é o indestrutível (por ser um dos poucos sobreviventes da hecatombe financeira) banco de investimento Goldman Sachs, que em 2008 conseguiu um terço dos seus rendimentos líquidos (em torno de 1.500 milhões de dólares) graças ao seu investimento em matérias-primas. O seu índice Goldman Sachs Commodity Index passou de ter um investimento de apenas 8.000 milhões de dólares no ano 2000 a entesourar actualmente 100.000 milhões de dólares que investe contra a evolução das matérias-primas (incluído o petróleo). Estes milhares de milhões fluindo para o investimento em matérias-primas provocam uma alta instabilidade no preço das matérias-primas. “Quanto mais volume se negoceia, maior é a volatilidade”, explica o economista da FAO Abdolreza Abbassian. A especulação com os alimentos é tão velha como a própria agricultura, mas o seu atractivo como instrumento de lucro disparou na década passada ao ser descoberto como uma oportunidade de investimento única. A rentabilidade está assegurada porque a procura mundial, em linha com a subida da população e o maior poder aquisitivo dos países emergentes, garante o seu crescimento de forma consistente. “Não há praticamente outro produto no qual investir neste momento cuja procura real seja tão clara, isto é, que tenha tão bons fundamentos”, aponta Francisco López Ollés, especialista em matérias-primas e divisas. “No final, tudo isto é resultado das operações dos bancos centrais para que haja mais liquidez nos mercados (conhecido como quantitative easing). O dinheiro tem que procurar rentabilidade em algum lado”, conclui. BELÉN CARREÑO, MARÇO , INFOALTERNATIVA


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Aumenta a repressom contra o movimento operário galego A repressom exercida polo Estado espanhol contra o movimento operário na Galiza continua a aumentar depois de umha nova operaçom da Guarda Civil e da justiça espanhola que finalizou com a detençom de mais dous operários do setor naval, ambos militantes do sindicato CUT, do qual Telmo Varela é secretário comarcal em Vigo. Depois de permanecerem dous dias em dependências da Guarda Civil e da posterior declaraçom no tribunal correspondente, Telmo Varela foi conduzido para o cárcere da Lama. Os corpos repressivos espanhóis acusam-nos de diversas sabotagens contra interesses da burguesia e dos seus aliados, que se produzírom no sul da Galiza nos últimos meses. Estas detençons somam-se à do jovem operário Miguel Nicolás, em prisom desde dezembro e agora dispersado a um cárcere fora da Galiza. A dispersom dos presos e presas políticas é umha prática habitual do Estado espanhol que, incumprindo a sua própria legislaçom penitenciária e os mais elementares direitos das pessoas presas, busca afastar as prisioneiras e prisioneiros políticos do seu ámbito mais próximo, da sua família, amizades e camaradas para assim isolá-los e tentar romper a sua resistência. Mais umha vez, a operaçom policial foi acompanhada por umha forte campanha de propaganda na imprensa do regime contra os dous detidos. Jornais, rádios e televisons ditárom sentença de culpabilidade desde o primeiro momento, apresentando-os, sobretodo no caso de Telmo Varela, como “terroristas” indesejáveis. A presunçom de inocência nom foi respeitada em nengum momento polos mercenários da pena. A operaçom policial chegou depois da Greve Geral nacional decorrida na Galiza em 27 de janeiro, impulsionada polo sindicalismo galego contra a reforma das pensons finalmente aprovada polo governo do PSOE com o apoio dos sindicatos amarelos espanhóis Comissons Operárias e UGT. Nesse mesmo dia, houvo greves nacionais no País Basco e na Catalunha, em contraste com a falta de resposta da classe operária espanhola, que continua a apoiar maioritariamente umhas centrais sindicais completamente nos braços do Capital e que fam parte plena do regime bourbónico. As três naçons oprimidas por Espanha demonstrárom ser realidades diferenciadas, onde a luita de classes tem ritmos, necessidades e objetivos próprios. Esta greve, em que a presença policial foi significativamente mais alta do que na anterior (decorrida a 29 de setembro), saldou-se também com detençons de participantes nos piquetes organizados para garantir o direito à greve. No mesmo dia da greve e nos dias posteriores, um total de 16 pessoas fôrom detidas, militantes operárias e da esquerda independentista que serám processadas nos vindouros meses.

A crescente repressom contra os setores operários mais combativos e o crescente controlo e seguimento policial a pessoas e organizaçons potencialmente perigosas para o regime, especialmente sobre a esquerda independentista e socialista, nom podem ser separadas da crise do capitalismo e das reformas antioperárias e antipopulares que o governo espanhol está a aplicar.

A burguesia teme, e pretende evitar, a radicalizaçom popular perante o pioramento das condiçons de vida e de trabalho e a consolidaçom de alternativas revolucionárias que ponham em perigo o seu domínio, polo que repressom seguirá a acompanhar o desenvolvimento do movimento revolucionário na Galiza. ANJO TORRES CORTIÇO

Justiça espanhola teima em reprimir o compromisso antifascista NÓS-Unidade Popular quer expressar o seu rejeitamento perante a sentença ditada pola Seçom 2ª da Audiência Provincial da Corunha que desestima o recurso de apelaçom apresentado contra a condena de quatro companheiros e membros da Direçom Nacional da nossa organizaçom, emitida previamente polo Julgado do Penal nº1 de Ferrol em setembro de 2010. O órgao judicial espanhol confirma a sançom económica de 600 euros para os companheiros Alberte Moço Quintela, José Dias, Cadaveira, Carlos Morais e Abraám Alonso Pinheiro por um delito de danos e umha falta de deslucimento. Um total de 2.400 euros por limparem as ruas da Galiza da simbologia fascista. Lembremos que a açom pola que os quatro companheiros fôrom condenados consistiu em pintar de cor-de-rosa a fachada da casa natal de Franco na cidade de Ferrol. Esta açom realizou-se em novembro de 2005 e fazia parta da campanha desenvolvida pola nossa organizaçom contra a simbologia fascista ainda presente em múltiplos espaços públicos do nosso País 30 anos depois da morte do ditador. Umha campanha nacional que finalizou com a retirada de centenas de símbolos franquistas por toda a geografia nacional.

Em 2011, e apesar da aprovaçom da Lei de Memória Histórica por parte do Congresso espanhol em 2007, lei que como é sabido inclui a retirada da simbologia fascista presente em espaços públicos, o ativismo antifascista segue a ser perseguido pola justiça espanhola. Nom som denunciadas, julgadas nem condenadas as instituiçons que, pola contra, teimam em manter a simbologia que exalta a barbárie fascista. Umha prova clara da insuficiência da citada lei e das limitaçons democráticas do regime nascido dos acordos entre o fascismo e a esquerda vendida e domesticada. NÓS-Unidade Popular reafirma-se na legitimidade e justiça desta açom, diga o que diga o sistema judicial do Estado espanhol. Continuaremos de defender e a praticar a higiene democrática até que na Galiza nom fique nem um só recordo que exalte o Genocídio Galego e os seus autores e humilhe o nosso povo trabalhador. Fazemos um apelo à solidariedade económica para afrontar as multas dos quatro companheiros ingressando na conta 2091 0316 99 3040015276 (Conceito Solidariedade Antifascistas) a vossa aportaçom. DIREÇOM NACIONAL DE NÓS -UNIDADE POPULAR


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SOS RACISMO - 20 ANOS A QUEBRAR TABUS, Bruno Morais Cabral, Garden Films, 2011.

O LIVRO DOS GUERILHEIROS - DE RIOS VELHOS E GUERRILHEIROS II, José Luandino Vieira, Caminho, 2009.

nial, a um tempo em que essa luta era indissociável de um projecto revolucinário, em que na mata não havia camaradas com privilégios e outros com existências miseráveis, onde a frustração não se afogava em álcool. Uma obra que indicia que algo vai mal na sociedade angolana, que qualquer coisa falhou e ficou pelo caminho.

volume saiu em Março, sob o título The Letters of Rosa Luxemburg (Verso, 512 páginas, $39.95). Nele se encontram 230 cartas dirigidas a 46 pessoas, desde 1891 a 11 de Janeiro de 1919, quatro dias antes de ser assassinada. Este é apenas um fragmento das 2.800 cartas, postais e telegramas contidos numa edição alemã de seus volumes editada há anos.

THE COMPLETE WORKS OF ROSA LUXEMBURG, Verso, 2011.

OS DONOS DE PORTUGAL/ CEM ANOS DE PODER ECONÓMICO (1910-2010), Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas, Edições Afrontamento, 5ª edição, 2010.

Neste DVD dá-se a conhecer o percurso do SOS Racismo ao longo dos últimos 20 anos, as suas origens, preocupações e actividades actuais, de que ressalta a actuação nas escolas. Em cerca de 30 minutos são passadas em revista a lutas contra os skins, a extrema-direita e a violência policial, a defesa das comunidades ciganas e de imigrantes, a luta pelo direito à habitação e contra a homofobia. Imigrantes “ilegais”, vítimas e testemunhas de discriminação racial e violência policial denunciam os seus casos e de como se mobilizaram para os resolver. Um reparo porém: tomando como verdade um erro jornalístico, neste documentário é atribuída ao SOS Racismo a realização de uma dramatização de venda e escravos, em 1994. Acontece que esse teatro de rua, junto à Casa dos Bicos, foi realizada pelo MAR – Movimento Anti-Racista, estrutura criada pela Política Operária. Este DVD vem acompanhado do documentário de Diana Andringa Era uma vez um arrastão, trabalho jornalístico de visionamento obrigatório, principalmente pelos estudantes e profissionais da comunicação social. Um trabalho exemplar sobre o racismo atávico na sociedade portuguesa e de como os média, na ânsia de vender, fabricam um acontecimento com base em boatos e fazem-no ganhar uma dimensão de alarme nacional a que não faltou o contributo precioso dos “especialistas” e dos líderes políticos, que persistiram na mentira, apesar dos desmentidos da polícia, e recusaram retractar-se.

Neste livro de narrativas, na continuação do anterior, O Livro dos Rios, Luandino funde realidade com ficção criando uma espécie de mitologia centrada em guerrilheiros imaginários que, à semelhança da nossa Maria da Fonte, condensam todo um imaginário de luta popular contra a opressão, no caso o colonialismo português. São personagens que evocam as humilhações e injustiças ao longo de 500 anos sofridas pelos povos de Angola e os levaram a pegar em armas, buscado a dignidade e a liberdade através da luta. Veiculam uma mitologia nacional alheia a credos políticos e ideológicos em que, à semelhança dos heróis gregos da antiguidade, o fantástico se mistura com o real e o imaginado. Luandino, vestindo a pele de um guerrilheiro-cronista, vai-nos relatando as vidas de uns tantos guerrilheiros que, no fundo, são toda a guerrilha de libertação nacional. Por isso os factos e as vidas reais dos milhares de combatentes angolanos misturam-se naquela meia-dúzia de heróis camponeses analfabetos e de vidas e objectivos simples. Vidas que ganham a dimensão de lenda e circulam de boca em boca como verdades, construindo e cimentando uma irmandade e identidade nacional. Passados mais de 30 anos sobre a independência de Angola, e sendo esta uma nação consolidada, é significativo este regresso aos tempos da guerrilha, às velhas memórias e vivências da luta anticolo-

Rosa Luxemburg (1871-1919) é a única teórica do socialismo europeu que não tem a sua obra publicada na íntegra. São conhecidos os seus textos sobre a relação entre espontaneísmo e organização, a inseparabilidade entre democracia e socialismo, a tendência do capitalismo para a expansão global, etc., mas a maior parte dos seus escritos ainda não tinha sido compilada e editada. Pela primeira vez vai ser publicada pela editora Verso uma série de 14 volumes com a sua obra completa: livros, panfletos, ensaios, artigos, cartas e manuscritos, alguns dos quais descobertos recentemente. É uma edição inglesa intitulada The Complete Works of Rosa Luxemburg, traduzida directamente do alemão. A primeiro

Os donos de Portugal são os velhos donos do poder económico que repartem entre si o sucesso económico, bem apadrinhados pelo Estado, durante os últimos cem anos... Os autores alavancaram-se e produziram obra. Já vai na 5ª ed. E teve recensões várias. Foi um êxito. Este (útil) livro e os seus criadores cometeram um crime: é contra a corrente. Põem a nu os velhos e

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os novos donos de Portugal que nos comem o sangue, o pão, as esperanças e a vida... Com um vocabulário para não-economistas. “A burguesia portuguesa foi sempre incapaz de democratizar a modernização do país. (...) rejeita a repartição social porque a sua acumulação [de riqueza é] garantida e protegida pela força do Estado, lhe permitiu beneficiar da maior desigualdade social do espaço europeu” e “a economia portuguesa sempre foi um território de desigualdade extrema que se vem agravando: alguns grupos financeiros e industriais dominam desde sempre, muitos deles com raízes na finança ou nas rendas que o Estado lhes assegura desde o século XIX”, escreveram. O livro não se limita a uma visão imediatista ou conjuntural da sociedade portuguesa. Visa a raiz do poder da burguesia económica dominante e como os seus tentáculos – como de polvo se tratasse – se interpenetram nos domínios além do económico, do político e do social. “O atraso, a modernização conservadora, a cristalização de relações políticas fechadas no rotativismo partidário, a garantia pelo Estado de todos os processos de acumulação e distribuição entre as fortunas, entregando a uns o petróleo, a outros electricidade, a estes auto-estradas, àqueles as parcerias público-privadas nos hospitais, tudo isso demonstra como a burguesia portuguesa falhou historicamente a modernização, hostilizou a democracia, detestou o desenvolvimento e garantiu a desigualdade. Os donos de Portugal são o principal problema histórico de Portugal”, concluem os autores. Os velhos e os novos donos de Portugal têm nome: Mello, Espírito Santo, Roquette, Champalimaud, Burnay, Van Zeller, Belmiro, Amorim, Ulrich e, quem diria?, José Eduardo dos Santos, presidente de Angola... entre muitos. Os escândalos do BCP, BPN e BPP também constituem o último patamar da suprema ganância que está a conduzir Portugal à bancarrota. Os senhores das famílias não irão (nunca) à falência, o Estado é--lhes generoso... além de terem sempre à mão (enorme) reserva monetária em paraísos fiscais... Livro a ler. Com urgência. Vítor Colaço Santos

A COMUNA DE 1871

Assinalando o 140º aniversário da Comuna de 1871, realizou-se o colóquio internacional “Olhares sobre a Comuna de 1871 em França. Novas abordagens e perspectivas”, de 24 a 26 de Março, em Narbonne, onde a Comuna foi proclamada e a mais pequena das cidades francesas onde se instaurou uma comuna que, durante oito dias, ocupou a câmara municipal e a subprefeitura para depois insurgir todo o Midi contra o governo de Versalhes. Os organizadores (Centre de Recherche Espaces, Sociétés, Culture, Commission Archéologique et Littéraire de Narbonne e o Institut d’Histoire Sociale - CGT de Aude) explicam-se: “A vivacidade deste movimento revolucionário ainda hoje é fonte de questiona-

mento sobre a vivência democrática. A efervescência democrática e social que caracterizou a Comuna, a força do empenhamento dos que se lançaram nesta insurreição e a violência da repressão que se seguiu levam o cidadão a interrogar-se sobre o poder político, a democracia e a mudança social ou a revolução como momento dessa mudança. Que queriam os comuneiros? Que valores eram os seus? Em que acreditavam? Como podemos procurar compreender a sua acção, naquele final do século XIX, que nos é ao mesmo tempo tão próximo e tão diferente? E que pensar do lugar e da acção de todos os que não se envolveram no movimento comunalista ou que até o combateram?”

gritos, atropelados pelos cavalos. O sangue correu. Os feridos foram retirados à pressa, por entre nuvens de gás lacrimogéneo. Estas pessoas só queriam ser aceites como eleitores, direito que lhes estava negado. Desde 1963, ano em que se iniciou a luta pela cidadania plena, a seita racista branca do Ku Klux Klan tinha atacado casas, espancado e perseguido pessoas e procurado vingar-se dos negros em revolta. Naquele ano de 1965, Jimmie Lee Jackson, de 26 anos, fora assassinado a tiro pela polícia na localidade vizinha de Marion, durante uma manifestação pacífica em que participava acompanhado pela mãe e pelo pai, duas semanas antes. Era também indignados com esta morte que se manifestavam os de Selma, que marchavam em direcção a Montgomery, capital do Alabama, governada por George Wallace, sinistro político da direita racista.

El SOLIDARIO, Inverno de 2011, Madrid.

BLOODY SUNDAY (domingo sangrento), 21 Março de 1965.

Manifestando-se pelos direitos civis para os negros, seiscentos populares atravessaram a ponte Edmund Pettus em Selma, no Alabama, a 21 de Março de 1965. Foram

bloqueados por tropas estatais a cavalo que carregaram sobre eles. A multidão recuou, as matracas abateram-se sobre os corpos de homens, mulheres e crianças aos

Completam-se vinte anos da formação da Solidaridad Obrera, “incipiente confederação sindical” nas palavras dos seus fundadores, em que várias dezenas de activistas da CNT (Renovada) concluíram ser impossível continuar nesse projecto, precisamente no momento em que o seu congresso decidiu mudar o nome para CGT, facção que, a seu ver, deixava muito a desejar. Para comemorar esse aniversário, foi publicada a revista El Solidario, que recorda esses primeiros anos de existência e a evolução da acção sindical. Além disso, contém um artigo sobre o movimento anar-


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quista na Rússia depois de 1917, civil do Zimbabwe (1972-2980) uma entrevista a Andrés Ruggeri, e retrata a experiência das mulheque tem um trabalho de investiga- res que participaram na luta armação de apoio à autogestão das cha- da. No Mosteiro de Santa Claramadas Empresas Recuperadas pe- a-Velha. Comentadora: Giselle los Trabalhadores (ERT) na Ar- Wolkoff gentina, uma evocação de Grego- 19 de Abril – O Leão do Deserto, rio Solera (“Um herói da classe EUA/Líbia, 1981, Moustapha operária”), o manifesto ideológico Akkad. Discute a história da “pada SUMENDI, associação que cificação” da Líbia (conquistada promove a autogestão da saúde e pelos italianos aos turcos em 1911) um artigo de fundo intitulado “Para entre 1929 e 1931, período em que um despertar global” que, com ba- atingiram o auge as acções guerrise nas teses de Samir Amin, Imma- lheiras de Omar Mukhtar, líder nuel Wallerstein e Jorge Beinstein, líbio. No Mosteiro de Santa Claraadmite a possibilidade de que as -a-Velha. Comentador: Celso convulsões que se verificam hoje Rosa um pouco por toda a parte desper- 10 Maio – A Batalha de Argel, tem o “gigante adormecido” que co- 1966, de Gillo Pontecorvo. A luta meça a agitar-se, apesar dos enor- da Argélia para se tornar indepenmes obstáculos. dente da França, a partir da trajectória de Ali, líder da Frente Argelina de Libertação Nacional (FLN). Na Casa das Artes (Fila K). Comentador: Vania Baldi 21 Junho – Something of Value, 21 Março, 1 e 2 Abril – Lenine e o EUA, 1957, de Richard Brooks. leninismo em Portugal, ciclo de O filme tem por cenário o Quéconferências com Manuel Gusnia, discutindo a complexidade mão, Andrea Catone, Bruno Peixe colonial através do desenrolar da Dias, Inês Zuber, Luís Carapinha, revolta dos mau-maus. Na Casa João Arsénio Nunes, José Neves, das Artes (Fila K). Comentadora: Giulia Strippoli, Raquel Varela – Maria Madalena Gracioli. Biblioteca-Museu República e 19 Julho – Lumumba, 1992. Resistência, Rua Alberto de SouDocumentário sobre Patrice Lusa, 10A, Lisboa mumba, a sua ascensão ao poder e a independência do Congo. Na Casa das Artes (Fila K). Comentadora: Carolina Peixoto

22 Março a 19 Julho – Encontros com a História – Ciclo de cinema e debates organizado pelo DECIDe, no quadro do Ano Internacional dos Afrodescendentes, em Coimbra, sempre às 17,30 h., com entrada livre: 22 Março – Cuba, uma odisseia africana, 2007, da francesa Jihan El Tahri, é um documentário sobre a presença cubana em África nos anos 60, no apoio aos movimentos de libertação. No Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Comentadora: Iolanda Valle; 12 Abril – Flame, 1996, de Ingrid Sinclair. Tem por cenário a guerra

26 Março a 22 Maio – O passado e o presente – outro olhar sobre a colecção do MNR. O Museu do Neo-Realismo (Rua Alves Redol, Vila Franca de Xira) expõe 40 obras

do seu acervo, da autoria de Pedro Amaral, Maria Barreira, José Maçãs de Car valho, Avelino Cunhal, Mário Dionísio, Carla Filipe, Rui Filipe, Lima de Freitas, Alice Geirinhas, Querubim Lapa, Manuel Santos Maia, Paulo Mendes, Joaquim Namorado, Jorge de Oliveira, Miguel Palma, Fernando José Pereira, Júlio Pomar, Rogério Ribeiro, Nuno San-Payo, Pedro Cabral Santo, Jorge Vieira, José Dias Coelho.

11 Abril - A CIA contra a Venezuela Bolivariana. A Cooperativa Mó de Vida passa este documentário nas suas intalações (Calçadinha da Horta, 19, Pragal, Almada), às 19 horas. Seguidamente haverá um debate sobre o processo político venezuelano, terminando com uma degustação de produtos venezuelanos.

Até 4 Junho - All Power to the People. Então e agora? Exposição sobre a arte de propaganda política do Partido dos Panteras Negras, nos anos 70, nos EUA. De quarta a sábado, entre as 18,00 horas e as 23,00 horas, na Galeria

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kaosenlared é um projecto alternativo de contra-informação anticapitalista e anti-imperialista. Com importante e relevante presença internacional, conta com uma execelente rede alargada de colaboradores ibéricos e latinoamericanos www.kaosenlared.net

Zé dos Bois (Bairro Alto - Rua da Barroca, 56). 2 euros. 14 - 30 Abril - A mãe coragem, de Bertolt Brecht e encenção de Joaquim Benite. Teatro da Trindade, quartas a sábados, às 21 horas, domingos às 16 horas. 27 Abril – A Associação Abril dá a ver os documentários Tarrafal Memória da Morte Lenta, de Diana Andringa, e Natureza Morta, de Susana Sousa Dias. Escola Veiga Beirão, às 15 horas.

29-30 Abril – Arraial Popular do 25 de Abril, Jardim de S. Pedro de Alcântara, a partir das 17 horas. 1 Maio - Manifestação da CGTP, do Martim Moniz à Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa.

A Batalha, 243, Lisboa Autonomia Sindical, 69 Lisboa Boletim Anarco-Sindicalista, 37, Lisboa Challenge, V. 43 - 8, Brooklyn, Nova Iorque Contramarcha, 54, Madrid Dans le monde une classe en lutte, Março, Paris Démanteler le capital ou être broyés – dês alternatives que révèle la crise , Tom Thomas, Editionsm Page deux, 2011, Paris Échanges, 135, Paris El solidário, 16, Madrid Éxodo, 107, Madrid Lutte de classe, 134, Paris Lutte ouvriére, 225, Paris, Monthly Review Press 2011 , Nova Iorque Monthly Review, Fevereiro, Nova Iorque, O militante socialista, 87, Lisboa Partisan, 245, Paris Resumen Latinoamericano, 111, Donostia/San Sebastián


Tinha uma sala mal iluminada

J

Tinha uma sala mal iluminada Perguntavas pelo amigo e estava a monte A fuga era a última cartada A pide estava ali mesmo defronte Às vezes uma dúvida rondava Valia ou não a pena o que fazias? Se alguém caaía um outro alevantava O tronco que tombava e renascias

José Afonso (1929 - 1987) Falecido em Fevereiro de 1987, activista político profundamente empenhado com as lutas populares, resistente anti-fascista e anti-colonial, compositor e cantor de intervenção, José Afonso é reconhecidamente uma figura maior da música portuguesa.

A velha história ainda mal começa Agora está voltando ao que era dantes Mas se há um camarada à tua espera Não faltes ao encontro sê constante Há sempre quem se prante à tua mesa Armado em conselheiro ou penitente A luta agora está de novo acesa E o caminho é só um é sempre em frente Perdeste a treino falta-te a paciência Ouviste antes do tempo mil fanfarras Já os soldados fazem continência Ao som do choradinho e das guitarras A velha história ainda mal começa Agora está voltando ao que era dantes Mas se há um camarada à tua espera Não faltes ao encontro sê constante

Não quero defender-me, não quero ser defendida! Pertenço por inteiro à revolução social e declaro aceitar a responsabilidade de todos os meus actos. Aceito-a sem restrições. Censurais-me ter participado na execução dos generais? A isso responderei: sim, se me encontrasse m Montmartre quando quiseram mandar disparar sobre o povo, não teria hesitado em mandar disparar sobre os que davam semelhantes ordens. Quanto ao incêndio de Paris, sim, participei nele. Queria opor uma barreira de chamas aos invasores de Versalhes. Não tenho cúmplices, actuei por moto próprio. Louise Michel perante o tribunal, Dezembro de 1871


PO 129  

PO nº 129

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