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´ POLITICA OPERARIA ´ Nº 133

JANEIRO | FEVEREIRO 2012

ANO XXVII

3 EUROS

300 MIL NA RUA...

E DEPOIS DA GREVE GERAL? Moeda única: a quadratura do círculo Palestina: a demografia e o terror1


POLÍTICA OPERARIA ´ REVISTA COMUNISTA FUNDADA POR FRANCISCO MARTINS RODRIGUES

Propriedade Política Operária Corespondência Política Operária Apartado1682 1016-001 LISBOA E-mail politicaoperariaxx@gmail.com Periodicidade Bimestral Tiragem 1000 exemplares Piblicação inscrita na DGCS sob o nº 110858

SUMÁRIO 3 PONTO DE VISTA 4 HÁ 20 ANOS 5 Concertação dos Patrões Vítor Colaço Santos 6 A pobreza de uns… Vítor Colaço Santos ...e outros 7 Genética do cavaquismo Paulo Jorge Ambrósio 8 Crise… qual crise? António Barata Esta economia gera fome 9 Que CGTP agora? Paulo Jorge Ambrósio 11 Quem não luta perde 12 TELEX 13 Quadratura do círculo da moeda única José Luís Fiori 14 Cazaquistão: sexta-feira sangrenta KRAS 15 Aos que deram o voto ao PP Antonio Doctor 16 Palestina: a demografia e o terror Yuri Martins Fontes 18 Como se cozinhou a “libertação” do Kosovo 21 Franz Fanon 22 VOZ DA GALIZA - Voltaram ao poder os melhores representantes da oligarquia Anjo Torres Cortiço 24 VISOR

ASSINATURAS POLÍTICA OPERÁRIA - 27 ANOS DE PUBLICAÇÃO

Continente e Ilhas Europa Rsto do Mundo

5 números (1 ano)

10 números (2 anos)

5 números (apoio)

12,50 euros 17,50 euros 20,00 euros

25,00 euros 35,00 euros 40,00 euros

25,00 euros 35,00 euros 40,00 euros

Pagamento por cheque ou vale de correio em nome de Política Operária e endereçado ao Apartado 1682 | 1016-001 LISBOA, ou por transferênia Bancária para o NIB: 0033 0000 4537 0742 1710 5 - IBAN: PT50 0033 0000 4537 0742 1710 5 2


PONTO DE VISTA Greve geral, sim

Não levamos a nossa ingenuidade ao ponto de acreditar que os apelos à razão ou ao respeito pelo homem possam modificar o real. Para o preto que trabalha nas plantações de cana, há apenas uma solução: essa luta iniciá-la-á não depois de uma análise marxista ou idealista, mas muito simplesmente porque não poderá conceber a existência fora das condições de um combate realizado contra a exploração, a miséria e a fome.” Franz Fanon

Os resgates e as ajudas ditas suficientes para debelar as crises da Grécia e Portugal produziram o efeito contrário ao anunciado e mostraram-se incapazes de travar o alastramento da crise à Itália, Espanha, França e Alemanha. Tudo está a acontecer às avessas do que nos prometeram. Surgem todos os dias números e estatísticas que dão razão aos que, como nós, desde a primeira hora dizem que tais medidas só produzem o aumento do desemprego e da miséria, a degradação das condições de vida dos trabalhadores e das classes médias, a recessão económica e as falências, o aumento da repressão e o cerceamento das liberdades, o diktat alemão, traduzido na nomeação de governos não eleitos e de funcionários e “comissões” para gerir as finanças e as economias “incumpridoras” à sombra dos pseudogovernos nacionais e da redução da democracia a uma caricatura. Por isso os trabalhadores portugueses e europeus não têm de se haver só com partidos ou opções políticas, mas com a linha geral do grande capital europeu. Na guerra que este trava com o seu rival americano e com as chamadas economias emergentes, é do seu interesse privatizar tudo o que dê lucro, desmantelar os serviços sociais, despedir, generalizar a precariedade, baixar os salários, flexibilizar, recorrer ao trabalho escravo dos imigrantes e dos desempregados, reforçar a vigilância e o controlo policial e a alienação das massas. Nunca como agora o “interesse nacional” se confundiu tanto com o interesse do grande capital europeu. Nunca os partidos se assemelharam tanto entre si e as suas alternativas políticas se reduziram a uma única – a aceitação dos ditames do FMI e da dupla Merkl/Sarkozy. Por isso a alternativa ao actual estado de coisas não passa pelo PS nem pela derrota de Sarkozy nas próximas eleições. A 22 de Março vai realizar-se nova greve geral, plenamente justificada e merecedora de todo o apoio. Sabemos que por si só não derrubará o governo, não correrá com a troika nem alterará a relação de forças entre o trabalho e o capital, assim como sabemos que as cúpulas sindicais tudo farão para impedir a sua radicalização. A burguesia dominante está convicta de que pode ganhar esta guerra, dada a desmoralização e a confusão a que chegou a resistência operária. Mas o alastramento do desemprego e da miséria, a catadupa de escândalos, roubos e abusos que todos os dias vêm a público, a insolência e arrogância dos ricos aumentam o descrédito dos debaixo em relação aos de cima. A greve geral pode ser um passo importante na corporização deste sentimento. Basta que seja capaz de ganhar voz própria, autónoma, e de demonstrar nos locais de trabalho e nas ruas o repúdio dos trabalhadores pela política de esbulho e repressão em que o país vem sendo arrastado. Fazer da greve geral um êxito é o que mais importa.

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HÁ 20 ANOS INDULTO OU INSULTO? – Dirão os ingénuos que o indulto pre-

Ainda na PO nº 33, Janeiro/ Fevereiro 1992 - A farsa, a farda e o fardo - Quem matou Júlio Ribeiro? -Nem todos os presos políticos pedem clemência - Furar o tecto salarial de Cavaco - Capitalismo de rosto humano - Marrocos aqui tão perto... - Linha de fractura no sandinismo - Recessão - Doença imparável - FMI dá a mão ao Leste - “A lenda da ditadura comunista em 1975 ainda hoje encobre os afilhados da CIA” - afirma Varela Gomes - Compromisso centro-direita no Congresso do PT - Não confundir a agonia com um parto - PC(R): perestroica e hara-kiri - A triste “alvorada democrática” nos PALOP - CEE acirra racismo

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sidencial, ao contemplar por igual os presos da FUP/FP-25 e o bombista do ELP Ramiro Moreira, demonstrou isenção face aos extremismos de sinal contrário. Isenção uma ova! Tratar no mesmo plano o terrorismo fascista que paralisou a livre expressão da vontade dos trabalhadores em 1975 e a violência dos que depois tentaram (equivocadamente, para o caso não interessa) devolver aos trabalhadores a confiança em si mesmos não é ser isento, é tomar partido. Pela direita. Além de que não se compara a situação dos indultados dum e outro lado: o Moreira, que, estando condenado a 21 anos, andava há dez em liberdade e é director da Petrogal (!), pode agora fazer novos progressos na sua carreira; os acusados da FUP/ FP-25 saíram da cadeia na expectativa de para lá voltar outra vez, quando forem julgados nos outros infindáveis processos que os esperam.

FORAM OS ERROS QUE PERDERAM A REVOLUÇÃO RUSSA? – Diz este (Engels) que na acção recíproca entre a superestrutura e a base económica, “esta leva sempre a melhor em última instância”. E não é isso, afinal, o que acaba de provar o afundamento do chamado “socialismo real”? Se há uma lição a tirar do naufrágio das revoluções deste século, ela é precisamente a da implacável necessidade com que as criações “socialistas” imaginárias foram desmentidas pelos limites da base económica-social… Metendo-se a criar a “base técnico-económica” para o socialismo pelos seus métodos de “engenharia social” (industrialização a todo o vapor, planificação ultracentralizada, colectivização forçada, terror massivo), os estalinistas produziram uma catástrofe de enormes proporções. Mas é preciso reconhecer que na URSS da época não havia alternativa revolucionária a esta opção desesperada. O caminho da revolução proletária estava bloqueado porque o nível das relações económico-sociais só abria passagem ao capitalismo, fosse ele estatal ou privado. A escolha era só essa. Acreditar que foi a política de Staline que “impediu todo o avanço da luta de classes na URSS após os anos 20” é ver o fenómeno de pernas para o ar. A política de Staline exprimiu as novas relações de classes provocadas pelo bloqueamento da revolução. O problema de Staline não foi de erros; foi ele ter sido o executor fiel das exigências do capitalismo de estado… Staline, como edificador fanático do capitalismo de estado, via na propriedade estatal uma espécie de talismã para “socializar” as relações sociais e como um álibi para negar a formação de uma nova burguesia.


Concertação para os patrões

Aquando da implementação da socrática flexigurança, houve flexibilidade para o patronato e muita insegurança para os trabalhadores. Agora, com este acordo de concertação dita social, a lei da selva vai continuar a imperar com mais força no mercado de trabalho. No que toca aos despedimentos, estes vão ser mais fáceis, rápidos e baratos. Os trabalhadores serão ainda mais descartáveis. Chegámos à desumana situação de um patrão poder despedir, porquê? Porque sim! A base do acordo vai obrigar os assalariados a trabalhar por menos salário, aos sábados e feriados, por mais horas, sempre que o patrão assim o entender, e sem ser pago. Este entendimento tripartido vai para além do memorando da troika: corta dias de férias, elimina feriados e passa a contar as pontes como férias involuntárias porque, dizem-nos, elas são contrárias à competitividade e à produtividade. Os dias “colados” às pontes e fins-de-semana, em caso de falta, originam perdas até quatro dias de salário... Para os trabalhadores o valor e a duração do subsídio

de desemprego vão diminuir mas, em contrapartida, o governo pretende estendê-lo aos patrões. Diminuição no pagamento de horas extras, em que o trabalho ao sábado não dá – como outrora – direito a um dia de folga. Os patrões podem obrigar a trabalhar seis dias por semana, 25 vezes por ano. O banco de horas foi alargado para 250 horas/ano, permitindo aos patrões utilizá-las no horário que lhes interessa, pagando-as como se fossem horas normais de trabalho. A CGTP, com a sua eterna postura “responsável”, voltou a sentar-se à mesa da concertação social, sabendo que nada havia a negociar (ela mesma não se tem cansado de afirmar que o governo se limita a informar os parceiros das suas intenções) envolvendo-se em discussões que nunca deveria ter aceitado. Com isso deu crédito à concertação social e alimentou algumas ilusões de que seria possível fazer recuar o governo e o patronato, abandonando depois as negociações, a pensar na grande batalha parlamentar para obrigar o governo a recuar. Não é preciso ser adivinho para saber que o acordo vai ser aprovado pela Assembleia com o conteúdo que o governo entender. Muito mais rasteiro, João Proença, líder da UGT, deu mais uma cambalhota, içou a bandeira branca, subiu às ameias e disse: “Rendo-me!” Esta central sindical deu o seu acordo a um conjunto de medidas muito penalizadoras para os trabalhadores, apesar de ter realizado há poucos meses uma greve geral com a CGPT contra aquilo a que aprovou. Disse o líder da UGT que “assumimos que é um acordo de crise e de sacrifícios” e que “é mau” para os trabalhadores. Mas deu-lhe aval, assinando-o... Desgraça desgraçada! Os presidentes da Sonae e Galp ficaram satisfeitos... Pudera! Ampla concertação para patrões, desconcerto para trabalhadores. As conflitualidades sociais ganharão forma e ânimo porque a injustiça, o desespero e a fome amplamente as justificam.

Vítor Colaço Santos

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A pobreza de uns... Portugal está perante uma gravíssima crise, que obriga a maioria a sacrifícios sem paralelo, até à miséria extrema. Entre as razões que motivam o descrédito da política e o afastamento dos cidadãos em relação ao poder, destacam-se a falta de verdade, ética e transparência do discurso político. Foram uma obscenidade, da mais baixa demagogia, as palavras do presidente da República ao dizer “que não sabia se as suas pensões eram suficientes para [pagar] as despesas”, lamentando-se da sua “atormentada situação financeira”. Actualmente, recebe mais de 10.000 • brutos, tem 650 mil euros em depósitos bancários e, enquanto estiver em Belém, tem grande parte das despesas pagas e um abono de representação de 2.600 •. O presidente da República desfruta de privilégios que muitos poucos portugueses têm: transporte e viagens de

graça, uso gratuito dos serviços do Palácio de Belém, como secretária particular, alimentação e médico permanente. Quanto vale tudo isto, sr. presidente? Muito, muitíssimo! Um milhão de desempregados reais em Portugal, a maioria dos trabalhadores no activo a ganharem o salário mínimo nacional e a grande parte dos pensionistas ainda menos… estes sim, têm extremas dificuldades para conseguir pagar as despesas. O dr. Cavaco é um político que não compreende o sofrimento que o povo está a sentir. Auto-intitula-se “Provedor do Povo”, mas para este cargo pede-se muito, muito mais. Os reformados na penúria agradeceriam – no mínimo – um pedido de desculpas por parte do medíocre “nosso” presidente da República.

Vítor Colaço Santos

Genética do cavaquismo Chocaram-se muitos, gente humilde, com os queixumes públicos do presidente aparentemente angustiado com o facto de as suas reformas de professor universitário e funcionário de topo do Banco de Portugal não lhe chegar para pagar as contas da velhice. Outros mais avisados, em menor número, foram ver a declaração cavacal de IRS de 2010 e denunciaram a hipocrisia e má-fé de Cavaco Silva ao ocultar que, somadas, as reformas ultrapassavam os 10 mil euros, “esquecendo-se” também de mencionar os outros generosos rendimentos e benesses inerentes à função presidencial, aquando do desabafo público. Outros ainda, platonicamente amofinados, desataram a fazer apelos e petições propondo a sua destituição do cargo. Por último, alguns patuscos passariam à acção recolhendo sacos e cabazes alimentares de primeira necessidade para ofertá-los em mão ao Palácio de Belém. Todos, porém, ao não darem uso à memória (relaxe tipicamente português), passaram ao lado da explica-

... e outros Dados do Eurostat e do INE sobre a pobreza em Portugal em 2010, publicados no início de Fevereiro, confirmam a degradação dos salários e o agravamento da miséria das classes trabalhadores, que continua a crescer entre os que tem emprego – o número de pobres com emprego disparou 12%, de 2009 para 2010. 6

Ou seja, há mais 124 mil trabalhadores forçados a viver com menos de 434 euros por mês, elevando para 1,2 milhões aqueles que, trabalhando, não conseguem satisfazer as suas necessidades básicas. Cenário que se torna ainda mais negro se tivermos em conta os idosos, as crianças e os desempregados, o que eleva para

25,3% o número de portugueses que se encontram nesta situação. Os dados mostram ainda que o país regista a terceira maior taxa de pobreza da União Europeia entre os trabalhadores: mais de 30% dos empregados são pobres ou estão em risco de o vir a ser. Pior só os espanhóis (41%) e os romenos (50%).


ção de classe de mais este “caso” do cavaquismo. Sim, é preciso recuar a 1985, à primeira maioria relativa do PSD de Cavaco, e ao frenesi neoliberal que então começava vertiginoso, a contagiar viciosamente a média e pequena burguesia lusas, até então sem luz ao fundo do túnel. Era o tempo do quase estupefaciente slogan cavaquista “fazer de cada português um proprietário”, e dos milhões de contos da CEE que, às revoadas, cá entravam a espaço de meses, quase que a fundo perdido, cegando quase todos, mas de facto abatendo firme e implacavelmente os sectores produtivos primário e secundário e, colateralmente, criando novos-ricos, muitos e novos negócios fugazes, novas mansões, motos, jipes e iates de luxo – tudo isto sob uma grande aura alaranjada que começava a embebedar as próprias franjas populares. Daí – nem poderia ser de outra maneira – em 1987 a maioria cava-

quista relativa passar a absoluta. O resto da saga é conhecida. A elite de serviço no poder de Estado banqueteia-se alarvemente, começa a perder a noção de toda a compostura pública, adquire a sensação de inimputabilidade e protagoniza um rol coerente de malfeitorias, algumas com caracterísicas criminais gravíssimas mas obviamente sem consequências, relatadas na imprensa da época: - o ministro André Gonçalves Pereira lamuria-se porque o que ganha não lhe dá para os charutos; - o primeiro comissário português na CEE, na altura Cardoso e Cunha, com 1.200 contos/mês, dá-lhe as mesmas voltas; - o ministro Dias Loureiro põe jipes da Guarda Fiscal a fazer-lhe graciosamente a mudança de casa; - a ministra Leonor Beleza protagoniza o crime sem castigo da compra de lotes de sangue contaminado com HIV que mataria muitos doentes em transfusão. Depois de uma retirada para Riba Fria, reapa-

rece mais tarde, transitando, após fugaz passagem pela política, para a presidência da administração da Fundação Champalimaud; - o ministro Arlindo de Carvalho ainda hoje é apontado como responsável pela intoxicação com alumínio e morte de 22 doentes de hemodiálise do Hospital de Évora; o ministro Carlos Borrego faz graçolas com estes 22 mortos; - o ministro Miguel Cadilhe compra andar nas Amoreiras sem pagar sisa; - Isaltino Morais, o “autarca modelo” desvia para depósito na Suíça, na conta de um sobrinho taxista, altas maquias de estranhas proveniências. Anos depois aparece envolvido, tal como outros cavaquistas notórios e o próprio Cavaco, nas vigarices do BPN. Permanece em liberdade; - “Duarte Lima, com dolo de matar, desferiu disparos de arma de fogo contra a vítima Rosalina que, por sua natureza, sede e extensão, foram a causa de sua morte. O crime foi cometido por motivo torpe, pois o denunciado matou a vítima justamente porque ela não quis assinar declaração no sentido de que ele não possuía qualquer valor transferido por ela, não satisfazendo os interesses financeiros do denunciado, o que demonstra sua ausência de sensibilidade e demonstra sua depravação moral.” Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (http://www.jn.pt/ infos/pdf/Acusacao_Duar te_Lima.pdf ). Cavaquismo, elite demodée, inofensiva e risível ou gangue burguês-mafioso de elevado grau de perigosidade? A conclusão ficará por conta dos leitores. Paulo Jorge Ambrósio

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Crise… qual crise? É sabido que em Portugal o fosso entre ricos e pobres não cessa de aumentar e que é o país mais desigual da União Europeia. Também se sabe que a média dos salários dos “nossos” gestores, sem contar com outras benesses, é bastante superior à média europeia e à de países ricos como a Alemanha ou os Estados Unidos; que, por exemplo, o presidente do Banco de Portugal ganha mais que os seus homólogos da Reserva Federal dos EUA e banco central alemão. Ou que o presidente da Caixa Geral de Depósitos, banco por enquanto público, ganha mais que a presidente do FMI. E que, em contrapartida, os trabalhadores portugueses ganham, em média, menos de 50% que os dos restantes 27 países da EU. Ao contrário do propagandeado e do que Passos Coelho havia jurado antes de ascender a executante oficial dos ditames da Merkl para o país, as nomeações para cargos públicos seguem a bom ritmo. São comissões para isto e para aquilo, algumas sem que se vislumbre qualquer utilidade, como a Comissão de Acompanhamento da aplicação do programa da troika. Dados vindos a público mostram que nunca nenhum governo tinha nomeado tanto como este e que, tal como os seus antecessores, lá vai colocando os seus homens de mão aqui e ali – na comunicação social, nas secretas, na banca, e por aí fora. Um desses felizardos do regime é Faria de Oliveira. Os dados não são secretos, encontram-se no site da CGD, e referem-se a 2009 (ainda não divulgaram os de 2010): Presidente - remuneração base: 371.000,00 • Prémio de gestão: 155.184,00 • 8

Gastos de utilização de telefone: 1.652,47 • Renda de viatura: 26.555,23• Combustível: 2.803,02 • Subsídio de refeições: 2.714,10 • Subsídio de deslocação diário: 104,00 • As despesas de representação não estão quantificadas. Também se sabe que Estado gasta milhares de milhões com institutos, empresas públicas e municipais (são mais de um milhar), a maioria sem outra utilidade que não seja a de alimentar e satisfazer clientelas e

duplicando as funções do Estado central e das autarquias, todas com gestores auferindo vencimentos e regalias muito superiores às dos deputados e do presidente da República. António Barata

Esta economia gera fome A OCDE diz que Portugal é o país mais desigual da União Europeia e que as alterações da legislação do trabalho ainda vão acentuar mais essas desigualdades. Os pobres estão cada vez mais pobres, de facto. A fome gerada por esta economia, que só vê algum benefício na austeridade somada à austeridade, vai corroer o que nos resta de auto-estima. Passos Coelho diz: “custe o que custar” para sairmos da crise. Temos dois ou três anos de estagnação e empobrecimento geral e depois tudo regressa à normalidade. Este governo alimenta uma pura e dura ilusão. Estamos vivendo uma recessão económica que nos faz regredir até como civilização. O desprezo pelas pessoas, incidindo nos mais despossuídos, representa um desastre calamitoso. Mas também há desprezo governamental pela saúde pública,

pelo ensino, pela cultura, pela inovação e pela ciência. A emigração de quadros, tal como o governo promove, já se contabiliza por milhares. Não são pedreiros rumo a França, mas sim académicos que saem do país, deixando-o na penúria no campo da inteligência. Portugal está a ficar sem futuro. Vítor Gaspar, ministro das Finanças, foi a Londres dizer: “Somos bons navegadores, experimentados em tempestades.” Quis “motivar-nos”, restaurar a confiança externa. A tempestade que nos assola tem sido tenebrosa e não há navegante experimentado capaz de comandar este barco carregado de problemas vastos e gravíssimos. O peso do infortúnio tem caído sobre o povo sem clemência. Até quando? Até conseguirmos matar o medo!


Que CGTP agora?

Saiu diminuída do XII Congresso a ala direita da central (PSs, “renovadores comunistas”, bloquistas, católicos e independentes) ao perder considerável influência política nas decisões de cúpula e bastantes lugares de direcção, particularmente no Conselho Nacional e Comissão Executiva. Mas este revés já era esperado pelos próprios. Nos últimos anos do consulado Carvalho da Silva – e com a bênção cada vez menos discreta do então secretário-geral – estiveram enleados e empenhados em projectos e manobras ultra-reformistas e social-democratas Entre estas pontificam as continuadas e tenazes tentativas de arrasto da Intersindical para dentro da ultra-reaccionária Confederação Sindical Internacional (CSI), a maior participação nas iniciativas “unitárias” da CES, o corte total de colaboração com a Federação Sindical Mundial (FSM) e a asfixia democrática da vida sindical através do reforço das comissões executivas em detrimento de todos os outros órgãos sindicais (incluindo as assembleias gerais e de delegados), a imposição progressiva do organigrama dos sindicatos da UGT, como a introdução do voto secreto e do método de Hondt em tudo o que é eleição, e a introdução dos “Conselhos Gerais”, areópagos de modelo parlamentarista, onde têm assento as “tendências sindicais” desse

sindicato, que tudo decidem nas costas dos sócios, usurpando poderes estatutários que eram antes das assembleias gerais e de delegados. Por outro lado, o PC institucional, e ortodoxos, retomam nas estruturas da Intersindical o lugar proporcional que ocuparam na década de 80 e princípios de 90. O partido de Jerónimo recuperou maior “legitimidade” política para essa retoma, ou não tivessem as últimas eleições no país mostrado a manutenção da base de apoio (e até ligeira subida parlamentar) e volatilizado metade dos eleitores do BE, que, mercê das desavergonhadas direitadas e ausência de autocrítica, também perdia assim metade do seu grupo palamentar, aqui no continente. Já na Madeira a coisa era ainda mais gravosa: enquanto o PC mantinha representação, o BE era varrido da Assembleia Legislativa Regional da Madeira, onde, é bom lembrar, foi a primeira força de esquerda a entrar desde 1974 e onde também sindicalmente, pela então UDP, foi o único local do país onde conseguiu conquistar à hegemonia absoluta do PC uma União de Sindicatos da CGTP, a USAM. Sinais dos tempos, mas sobretudo da decomposição social-democrata da antiga esquerda revolucionária, aliás prevista por FMR e pela PO à distância de quase 20 anos.. Assim, as lamúrias dos “direitalhos” ora afastados de que “vem aí uma CGTP mais sectária,

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crispada, incapaz de ouvir os outros, etc.”, bombardeadas em directo em todos os canais das televisões, antes e durante o congresso, e secundadas pelo patronato e UGT logo depois, soam aos desabafos típicos de quem se teve de ver reduzido à real dimensão: alguns sindicatos dirigidos oportunisticamente, em que os actuais BEs, para se guindarem às direcções, parasitaram primeiro os “renovadores comunistas”, que, ironia da história, tinham feito o mesmo há 11 anos aos dirigentes do PC. É notório que o rame-rame em dose dupla imprimido nos últimos anos pela direcção cessante da CGTP começava a fazer soar campaihas de alarme no movimento sindical, com sindicatos de assalariados pobres e operários a proporem e a aparecerem a votar isoladamente pelo endurecimento da luta, nos plenários de sindicatos. É certo que Arménio Carlos está mais solto destas “amarras” que Carvalho da Silva – apoiante e até ultimamente votante confesso do PS, já na calha de brilhante académico, quiçá professor catedrático – mas... vai enfrentar inevitáveis desafios da rua, da radicalização da luta de classes, de acções mais ou menos isoladas dos deserdados da troika, que estravasam os nossos brandos costumes e o colete de forças da “legalidade democrática”. Aliás, como as que já surgiram, caso das portagens. Que fará Arménio Carlos perante estes desenvolvimentos sociais previsíveis? A resposta real será mais reformismo, mesmo que adornado com retórica, escritos e tons mais firmes e radicais. Em Dezembro do ano passado a CGTP abandonou uma reunião da Concertação Social. 10

A questão que se põe é: será esse abandono para manter de futuro? E depois da participação na manifestação do Terreiro do Paço e da greve geral? É que agora, os arautos costumeiros das “cautelas”, do “ainda não há condições” do “vale mais dar um passo à frente sem recuar dois atrás”, já não servirão de bodes expiatórios para “as coisas não avançarem”, até porque já não integram a cúpula máxima da central. Assistiremos a mudanças de postura por parte desta CGTP em relação às organizações e colectivos à sua esquerda, nomeada-

mente em acções e manifestações unitárias? Não alimentemos esperanças nesse campo... Por tudo isto, vêm aí tempos interessantes de observar, quer no seio da militância da central, quer nas futuras decisões políticas da CGTP. Por isso nunca foi tarefa tão importante como agora continuar a actuar militante e persistentemente, na base sindical, como activista ou delegado sindical com programa revolucionário mínimo, grangeando simpatia e alargando-a.

Paulo Jorge Ambrósio

Miguel e Telmo, liberdade! Acusados de participar em actos de sabotagem no sul da Galiza contra interesses da burguesia e do Estado espanhol, encontram-se presos os camaradas Miguel Nicolás e Telmo Varela. Detidos em 15 de Dezembro de 2010 e 9 de Março de 2011, respectivamente, ambos são operários metalúrgicos e membros da central sindical galega CUT (Telmo é secretário da Comarca de Vigo), tendo desempenhado papel destacado nas massivas greves gerais de 29 de Setembro e 27 de Janeiro. A sua prisão insere-se na persistente campanha do Estado espanhol de criminalização das lutas dos trabalhadores, com o objectivo de os atemorizar e desmobilizar e, em particular, golpear os seus elementos mais conscientes. Contra eles tem vindo a ser desenvolvida pela imprensa uma obscena campanha de intoxicação e condicionamento da opinião pública e do sistema judicial, condenando-os antes de sequer serem julgados. Aos amigos e leitores da PO apelamos a que manifestem a sua solidariedade com os camaradas galegos presos escrevendo para: Miguel Nicolás Aparício CP Vilabona – Módulo 6 Finca de Tabladiello s/n 33.271 Xixón

Telmo Varela Fernández CP Topas - Módulo 2 Ctra. N-630, km 313,4 37799 Topas (Salamanca)


MARTIFER CONSTRUÇÕES / CERÂMICA VALADARES

contrapor que, se esta fábrica não dá lucro, as outras dão. E que não viria nenhum mal ao mundo se os accionistas fossem remunerados abaixo do que estavam à espera. Numa multinacional daquela dimensão, um prejuízo de 31 milhões não é nada que não possa ser coberto pelos lucros das outras unidades do grupo, e a sugestão aos trabalhadores para se deslocarem 300 km continuando a receber o mesmo salário de 600 euros, somado a outros 600 no caso de emigrarem, não é uma proposta séria, mas uma esperteza saloia. Os operários têm idades que rondam os 40 anos e as óbvias razões da inutilidade da proposta expressou-as um dos operários, com 56 anos, que, impotente, disse: “Sou casado, tenho filhos e netos e não posso abandonar assim a minha família de um dia para o outro”. Uma situação comum aos restantes trabalhadores, como um outro, de 50 anos, que sempre trabalhou na fábrica, e que também diz que não pode abandonar os dois filhos, a esposa desempregada e os pais em idade avançada. Dos 120 operários, só um, de 36 anos, com a esposa desempregada e um filho de 5 meses, não se importa de deixar Benavente na condição da empresa garantir alojamento para si e para a família e um aumento de ordenado. O que, tendo em conta a proposta patronal, está fora de questão. Atitude diferente foi a dos operários da Cerâmica Valadares que, enfrentando uma situação idêntica à dos da Martifer, não se resignam a serem eles a suportar o peso da crise. Com salários em atraso, cujo pagamento os patrões foram adiando semana a semana com a desculpa de falta de dinheiro, e o anúncio do encerramento e do despedimento, entraram em greve com piquetes que não deixam sair nada da fábrica. Durante semanas exigiram o pagamento dos salários e explicações convincentes. E a provar que vale a pena lutar, os patrões da Valadares, que diziam não ter qualquer encomenda, lá “desencantaram” uma que vai permitir à cerâmica laborar por mais algum tempo e pagar salários.

Quem não luta perde

A Martifer Construções, multinacional da construção metálica e solar, anunciou a 26 de Janeiro que vai encerrar a fábrica de Benavente, em Agosto deste ano. A administração, em vez de despedir, “convidou” os 120 operários daquela unidade a mudarem-se para a fábrica de Oliveira de Frades ou a emigrarem para a Polónia, Roménia, Angola ou Brasil, países onde tem unidades fabris. Ao mesmo tempo, fazia saber que o fecho da fábrica de Benavente se deve ao agravamento da crise, que abrigou a “adequar as necessidades à realidade actual” – o peso da península Ibérica na carteira de encomendas da Martifer Construções representava 70% em 2010. Em 2011, 30%, e em 2012 não deverá ir além dos 3%. Ou seja, os trabalhadores que paguem a crise. A atitude dos operários perante a decisão e os argumentos de uma multinacional que emprega mais de 3 mil trabalhadores, aquém e além fronteiras, retrata a resignação com que boa parte dos portugueses está a aceitar o esbulho a que estão sujeitos, a mando da troika, pelos amanuenses que fazem a vez de governo e o patronato. Sinais deste estado de espírito podem ser encontrados nas colunas de leitores dos jornais diários, nas vozes de populares que se pronunciam contra os malefícios das greves e a necessidade de todos termos de trabalhar ainda mais para ultrapassar a crise O que está a contecer não é uma fatalidade, nem a crise justifica tudo. No caso da Martifer, pode-se

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TELEX Mais retrocessos no direito das mulheres a decidir

O governo ultraconservador do Partido Popular na Galiza acaba de anunciar a aprovaçom do denominado Plano Integral de Apoio à mulher grávida 2012-2014. Com o falso pretexto de favorecer a natalidade na Comunidade Autónoma da Galiza (CAG), esta medida nom é mais do que um instrumento de controlo para nos relegar ao rol tradicional reprodutor e impedir que avancemos na nossa luita por decidir sobre algo tam básico como o nosso próprio corpo. Para garantir o seu sucesso e perpetuar os estereótipos machistas mais rançosos e tradicionais, oferecerá ainda mais benefícios económicos a organizaçons antiabortistas. Para além disso, confirma-se, por parte do Ministério de Justiça do Estado espanhol, a intençom de modificar a Lei orgánica de saúde sexual e reprodutiva, que se traduz numha imposiçom da maternidade e, entre outras cousas, quer obrigar as jovens a contarem com o consentimento materno e pater12

no para interromperem a gravidez. As mulheres organizadas em NÓS-Unidade Popular, conscientes da delicada situaçom que já padecíamos, consideramos inadmisível que este tipo de medidas avancem e exigimos a retirada imediata de qualquer tipo de subsídio económico a instituiçons e organizaçons que, longe de contribuírem com a igualdade, vaiam contra os nossos interesses como mulheres. Perante estas duas novas ameaças, queremos manifestar mais umha vez o nosso rejeitamento a qualquer forma de retrocesso nos nossos direitos e aproveitamos para fazer um apelo a todas as mulheres a participar nas mobilizaçons que vinherem a ser convocadas polo movimento feminista galego nos próximos dias. Avante a luita feminista! (Direçom Nacional de NÓSUnidade Popular - 7 de fevereiro de 2012)

“O levantamento dos invisíveis”

Milhares de trabalhadores dos serviços de limpeza, ditos “invisíveis”, liderados pelo sindicato holandês FNV Bondenoten, entraram em greve há mais de um mês (a greve iniciou-se depois do fim do ano) exigindo respeito e salários mais justos. Não estão a pedir milhões nem grandes riquezas. Só querem coisas normais, tal como serem pagos quando estão doentes, tempo suficiente para realizar as suas tarefas, seguros para os contratados à hora e um salário suficiente para manterem as famílias. Trabalham para grandes e

ricos clientes, como a Philips, a ING, a Ahold, o governo holandês, o fisco e as universidades, que lhes exigem muito trabalho em troca de salários incrivelmente baixos. Ponhamos fim ao silêncio e à invisibilidade. O preço do “outsourcing” (subcontratação) é igual em todo o mundo, com efeitos negativos na qualidade de vida. Os trabalhadores de limpezas da Holanda, vindos de todos os países do mundo, estão-se a levantar e a fazer ouvir a sua voz.(http://www.labourstart. org/cgi-bin/solidarityforever/ show_campaign.cgi?c=1258)

Direito à habitação, ao vivo Alfredo, um jovem deficiente motor com 23 anos, vive com os pais num barraco sem as mínimas condições na Praia da Torreira. O barraco é construído com chapas de zinco e madeira, divide-se em duas divisões, separadas por cortinas de pano, sem electricidade, sem casa de banho e sem privacidade nenhuma... Talvez daqui a 18 anos, quando o

Alfredo estiver com a idade dos seus pais, lhe entreguem habitação condigna. Entretanto vai ter que se sujeitar a viver nestas duas pequenas e míseras divisões, a passar frio, a chover-lhe em cima da cama e a fazer as suas necessidades para dentro de uma lata e a enterrar à noite esses mesmos detritos em covas. (Notícias Ribeirinhas, 11/2).


Quadratura do círculo da moeda europeia Ao contrário da crise americana de 2008, a crise europeia de 2010 não é apenas financeira, nem se restringe à insolvência de alguns Estados de menor importância económica dentro da Comunidade. Agora trata-se de uma crise monetária de insolvência do próprio euro, moeda que é emitida por um Banco Central “metafísico”, que não pertence a nenhum Estado nem administra a dívida de nenhum tesouro central. O novo sistema monetário europeu começou a ser construído com o Tratado de Maastricht, em 1992, e culminou com a criação do euro, em 2002, baseado na suposição dos dirigentes europeus de que esta nova moeda “global” conduziria à criação de um poder central capaz de geri-la. Isto, apesar de a história europeia ensinar que foram sempre os seus Estados que emitiram as próprias moedas soberanas, definindo e garantindo o seu valor e circulação com base na sua capacidade de tributação e endividamento. Deste ponto de vista, pode-se dizer que o euro tem uma “falha genética”, e que funcionou até hoje como uma espécie peculiar de moeda semiprivada, aceite com base na crença privada e na certeza pública de que o BCE, e a Alemanha, cobririam todas as dívidas emitidas pelos 17 Estados da “eurozona”, o que aconteceu até 2008, permitindo que todos estes países praticassem taxas de juros quase iguais às da Alemanha, apesar da sua imensa desigual-

dade de poder e riqueza. Esta situação mudou depois do colapso financeiro de 2008, quando a primeira-ministra alemã Angela Merkel estabeleceu o novo princípio de que cada país europeu teria de ser responsável – a partir daquele momento – pelos seus próprios bancos e pela cobertura de suas dívidas soberanas. A consequência imediata da nova posição alemã foi a crise de insolvência de alguns governos da Europa Central, no ano de 2009, contornada pela intervenção do FMI. Entretanto, no início de 2010, o anúncio pelo novo governo socialista da Grécia de que o deficit orçamental grego do ano anterior havia sido maior do que o divulgado inicialmente serviu de rastilho a uma nova crise, ampliada pelo veto alemão – durante seis meses – a qualquer tipo de ajuda comunitária ao

governo grego. Até ao momento em que a situação da Grécia ameaçou estender-se a outros países endividados e acabou por atingir a própria “credibilidade” do euro, obrigando a Alemanha a aceitar a aprovação apressada do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, com capacidade anual de mobilização de até 750 bilhiões de euros, valor suficiente para contornar a crise imediata, mas incapaz de reverter a desmoralização do sistema monetário europeu criado em 2002 sob a tutela alemã. Para corrigir esta “falha de fabrico” do euro, a França propôs a criação de um “governo económico europeu”, que não foi aceite pela Alemanha. O governo alemão, por sua vez, propôs – sem o apoio francês – a criação de um Fundo Monetário Europeu para exercer o controlo rigoroso da disciplina fiscal da eurozona,

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com poder para expulsar os incumpridores. O impasse permanece, apesar de no curto prazo a posição alemã, favorável a um ajuste fiscal draconiano de todos os países incorporados na zona do euro, se ter vindo a impor. Como o ajuste está a ser aplicado às economias estagnadas e com altas taxas de desemprego, isso é como lançar gasolina sobre a fogueira e apostar numa profunda e prolongada recessão, como fizeram os EUA no início da crise da década de 1930. Mas atenção, porque neste caso, a recessão e a desvalorização do euro, apesar de tudo, estão a beneficiar a Alemanha, principal economia exportadora do velho continente, e a transferir para as economias mais fracas o ónus da recessão, do desemprego, da perda salarial e da protecção social, e o aumento da luta de classes, da xenofobia e do nacionalismo de direita. O pior é que nada disto resolverá o problema da insolvência do euro, porque a moeda europeia só terá valor efectivo a partir do momento em que for suportada por um poder e por um tesouro central capazes de assumir a responsabilidade permanente pela sua sustentação com base na capacidade de tributação e endividamento. Se isso não acontecer, e se os pequenos Estados europeus não aceitarem a condição de províncias fiscais da Alemanha, o sistema monetário europeu, e o próprio euro, estão com os dias contados. Por quanto tempo? Talvez o tempo da duração do actual armistício europeu, pós-II Guerra Mundial, que desta vez foi chamado União Europeia. José Luís Fiori 14

CAZAQUISTÃO

Sexta-feira sangrenta A 16 de Dezembro a polícia cazaque disparou contra uma manifestação dos grevistas da indústria petrolífera, em Zhanaozen, no Cazaquistão Ocidental. Os 1500 trabalhadores reivindicam aumentos salariais e melhores condições de trabalho. A greve começou em Maio e foi proibida. O campo petrolífero de Karazhanbas, onde o conflito rebentou, é explorado pela China International Trust Investment Company e pela companhia cazaque KazMunayGaz. A repressão tem vindo a intensificar-se: centenas de grevistas foram despedidos; o sindicalista Zhaksalyk Turbayev foi assassinado por desconhecidos e a casa de um outro, Aslambek Aydarbayev, foi incendiada; a advogada sindical Natália Sokolova foi condenada a 6 anos de prisão por “incitar à discórdia social”. Destacados sindicalistas como Akzhanat Aminov e Kuanysh Sisenbayev e mais de 30 companheiros seus também foram presos e condenados. O regime do presidente Nazarbayev é conhecido pela repressão brutal contra os trabalhadores em luta, pelo seu autoritarismo e por ter

proclamado como ideologia oficial do regime o autoritaal (versão local do eurasianismo, teoria promovida pelo etnógrafo da “nova direita” russa Lev Gumilev). Na sequência da repressão contra a manifestação, muitos trabalhadores foram mortos: 11, segundo os dados oficiais; 70, segundo os dados extraoficiais. Centenas de pessoas foram feridas. A cidade está sob estado de emergência e recolher obrigatório. O regime colocou o exército nas ruas e isolou a cidade do resto do mundo. Nas cidades próximas, têm-se realizado concentrações e acções de solidariedade com os trabalhadores de Zhanaozen. As autoridades dispararam sobre estas manifestações, provocando novas vítimas. Apelamos ao protesto imediato para fazer parar o massacre de trabalhadores no Cazaquistão. Enviem cartas de protesto à Embaixada do Cazaquistão e à companhia CITIC, realizem piquetes e manifestações. Também apelamos a um boicote dos produtos do Cazaquistão. (Secretariado internacional da KRAS, secção russa da AIT)


Aos que deram o voto ao PP

Acabaram mais umas eleições. Limpas, ninguém põe em dúvida. E depois o terramoto. As promessas eleitorais transformaram-se de imediato em o Inocente! Inocente! próprio daqueles dias. Recompilemos: sobe o IRPF (imposto sobre rendimentos pessoais). As pensões sobem mas menos, porque o IRPF absorbe largamente a subida. O aborto, regresso ao passado. A “Educação para a Cidadania” para o cemitério. A saúde e a educação nas garras das empresas privadas. Camps inocente, mas de verdade. Garzón, outrora louvado pela sua sanha contra a ETA e cegueira perante as torturas, defenestrado agora por querer tocar nas intocáveis fossas do franquismo, mesmo que à custa de deixar a justiça espanhola mal vista aos olhos dos juristas de todo o mundo que se prezam de o ser. Talvez encaixe aqui o “Roma não paga a traidores”. E, para rematar, os trabalhadores para a precariedade, o desemprego e o “salve-se quem puder”. O trabalhador como uma mercadoria perecível, de usar e deitar fora. E para os banqueiros, um tapete vermelho. E pregunto eu: Alguém esperava outra coisa? Alguém não sabia que o PP não é só um partido,

mas também um aparelho judicial e mediático das famosas duzentas famílias que mandam, com Franco ou sem ele? Mas o caudal de votos que recebeu prova que uma boa parte das classes populares (assalariados, independentes, desempregados..) votou no PP. Cabe perguntar: Em que mundo vivem, quais são os vossos sonhos, esperanças, ilusões? Dirijo-me a vocês, aos que votaram no PP sem fazer parte desse círculo de “filhos de papá” que o compõem, que surgem ao conjunto da sociedade como “triunfadores” por um lado e “perdedores” por outro. Aos que só vêem no horizonte o bipartidismo e votaram no forte para castigar o fraco. Acaso acreditam nas promesas do PP de criar milhares de empresários, (não de empregos, que é coisa de párias), quando vêem como eu vejo o crescente encerramento de negócios de toda a espécie nas cidades e aldeias onde vivem? Não conhecem as estatísticas sobre os milhares de profissionais independentes que fecharam as portas ao longo do ano passado? Que tábua de salvação esperavam que vos lançasse o PP no meio deste tornado? Para onde nos estão vocês a levar? Antonio Doctor

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PALESTINA

A demografia e o terror A disparidade de meios militares entre o Estado de Israel (apoiado pelos EUA) e o povo palestiniano, sem exército, dispondo apenas de arcaicas armas caseiras, transformou o conflito num lento genocídio. O terror chegou a tal ponto que são várias as vítimas do Holocausto que começam a denunciar publicamente a semelhança das práticas do governo sionista com as do regime hitleriano. Tortura, uso de seres humanos como cobaias e racismo são práticas comuns do governo de Tel Aviv, que se estão a agravar devido a um factor – a elevada taxa de natalidade dos 16

palestinianos, muito superior à dos israelitas. Este facto vai em poucos anos obrigar Israel, para manter os privilégios dos seus habitantes, a abandonar os últimos resquícios de “Estado democrático”, limitando o direito de voto dos cidadãos não-judeus ou, ainda pior, expulsar ou assassiná-los, realizando uma limpeza étnica. Este aparente absurdo institucional está perto de se tornar realidade. Basta atentar nos dados divulgados pelos organismos internacionais. E, paradoxalmente, a representação diplomática do líder da Autoridade

Nacional Palestiniana (ANP), Mahmoud Abas, na ONU, ao defender a solução de “dois Estados”, ofereceu ao povo judeu a única solução para evitar tão bárbaro rumo. CRIMES DE GUERRA, COBAIAS HUMANAS E CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO Recordemos os dados mais recentes do terrorismo israelita: no último bombardeamento massivo de Gaza (2008/2009), a desproporção de forças foi tal que, por cada israelita morto, foram assassinados 100 pa-


lestinianos. Dois terços das 1300 vítimas eram civis, a maioria crianças. Conforme análise do sociólogo Emir Sader, da Universidade do Rio de Janeiro, a matança “foi uma das piores que o mundo conheceu nos últimos tempos”. Sob a premissa de que “não há inocentes em Gaza”, esta zona de alta densidade populacional foi bombardeada como se de um campo de tiro a céu aberto se tratasse. Foram lançados sobre o território mil toneladas de bombas, que destruíram o pouco que restava das infra-estruturas públicas – hospitais, fábricas e escolas – numa zona das mais pobres do mundo e onde se amontoa milhão e meio de pessoas. Segundo a Cruz Vermelha e a ONU, os comandos israelitas ordenaram o uso de armas químicas, em clara violação das leis internacionais de guerra. Os documentos referem que os pára-quedistas lançaram pelo menos 20 bombas de fósforo branco sobre o campo de refugiados de Biet Lahaiya. O fósforo branco é uma substância altamente inflamável, que reage ao oxigénio e causa graves queimaduras. Ao explodir, as bombas pulverizam o fósforo, que é lançado a grandes distâncias e se pega à pele, continuando a arder depois de a penetrar. Mais, os médicos noruegueses da ONG Norwac, Mads Gillbert e Erik Fosse, denunciaram o uso de uma nova arma conhecida como Explosivo de Metal Denso. Trata-se de uma pequena munição envolta em carbono, com uma cobertura de ferro, cuja explosão num fluxo de poucos metros “corta um corpo ao meio”. Ao experimentar estas armas nunca usadas, nem pelos EUA, os israelitas fizeram dos palestinianos cobaias, repetindo uma prática abominável dos tempos de Adolf Hitler.

O ÓDIO QUE SE SEMEIA Desde então realizaram-se diversas manifestações israelitas de protesto. Norman Finkelstein, filho de sobreviventes do Holocausto e autor de A indústria do Holocausto, afirmou que as acções israelitas contra os árabes “são comparáveis às dos nazis contra os judeus”. E como exemplo lembrou a expulsão dos palestinianos, depois da guerra de 1948, quando os israelitas ocuparam – com a ajuda do exército – imensos territórios árabes dizendo serem “abandonadas”. O autor, depois de visitar o Sul do Líbano, que esteve sob domínio israelita durante duas décadas, declarou: “Era um campo de concentração”. Outra significativa denúncia dos crimes israelitas partiu de uma judia que fugiu da Alemanha e cujos pais morreram em Auschwitz. Para Hedy Epstien, as acções do governo israelita mostram que não aprenderam nada: “Como podem fazer aos palestinianos o mesmo que os nazis?”, declarou à BBC, acrescentando: “Estas acções horríveis aumentam o anti-semitismo”. DA PRÁTICA DO TERROR À SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO Michel Warschawski, director do Centro de Informação Alternativa de Jerusalém, considera “particularmente significativo” que um sector da direita já tenha percebido que a “democracia israelita está em perigo”. Israel converteu-se num Estado fundamentalista e poderá caminhar para o fascismo. Um quinto da sua população é árabe e é a parte mais pobre de uma sociedade em que a concentração de riqueza é das maiores do mundo. Vários analistas vêm

referindo que a “solução de dois Estados” é a que mais convém a Israel porque, como explica o professor de Relações Internacionais da Universidade Hebraica, Arye Katzovich, “se Israel não permitir a independência dos territórios ocupados, o país não poderá sobreviver como ‘Estado judeu e democrático’, já que a população árabe-israelita em poucos anos superará a judia – devido às altas taxas de natalidade e o não acesso à informação sobre planeamento familiar. Os árabes-israelitas são 19,4% numa população de quase oito milhões. Porém, têm uma taxa demográfica duas vezes superior à dos judeus. Se os sionistas impedirem a criação de um Estado palestiniano para onde possam ‘deportar os árabes’, só restam duas possibilidades: ou os árabes acabam por controlar o Estado ou, à semelhança do apartheid, haverá necessidade de um regime autoritário e segregacionista que permita manter o poder nas mãos da minoria judia”. No limite, poderá acontecer algo semelhante ao extermínio nazi – sempre em nome da manutenção do Estado do “povo eleito”. Henri Lefebvre, filósofo de meados do século XX, já tinha notado a semelhança: “Os ideólogos hitlerianos tomaram do antigo judaísmo a ideia de um povo eleito e de uma raça, a qual aperfeiçoaram recorrendo a considerações biológicas discutíveis”. Agora, os novos membros do povo eleito, depois do débil optimismo da experiência liberal, parecem querer voltar ao pessimismo do fundamentalismo político-religioso baseado no terror.

Yuri Martins Fontes

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Como se cozinhou a “libertação” do Kosovo Recentemente passou num canal temático um documentário alemão — Es began mit einer Lüge (Começou com uma mentira). Nele um ex-observador da OSCE revela como o governo alemão manipulou a comunicação social e fabricou o consenso nacional e internacional que levou à intervenção militar daquele país no Kosovo sob a capa da NATO.

Henning Hensch, polícia alemão reformado e militante do SPD residente em Lütjenburg, diz-se “amargurado” pelo que viveu em 1999 nos Balcãs. Em 1998 integrou a equipa de observadores da OSCE no Kosovo. Nessa qualidade trabalhou como perito em Rachak e Rugovo, duas localidades onde o governo social-democrata da Alemanha encenou dois massacres que não aconteceram com o objectivo de manipular e intoxicar a opinião pública alemã, que estava maioritariamente contra a intervenção nos Balcãs. A Alemanha iniciava assim com mentiras a sua primeira participação numa guerra depois de Hitler. O MASSACRE QUE NÃO EXISTIU Rachak e Rugovo são duas aldeias no noroeste de Kosovo, a sul da capital do distrito de Pec, situadas muito próximo da fronteira albanesa. Em 1998 a região era zona de actuação do UCK, apoiado e financiado pela NATO, CIA e pelos serviços secretos britânicos. Naquele ano o UCK cometeu tantas atrocidades contra civis sérvios, ciganos e albaneses “colaboracionistas” que o seu chefe local, Ramush Haradinaj, que viria a ser o primeiro-ministro do Kosovo após 18

a “independência”, acabou – devido às insistentes e mais que documentadas denúncias – por ser julgado em Haia por crimes de guerra, no TPI. Mas como este é um tribunal criado pela “comunidade Internacional” para realizar a justiça dos vencedores e dar um ar humanitário e justo às suas aventuras militares, castigando os políticos e os governantes que atrapalham os seus interesses, Haradinaj, sem surpresa, acabou absolvido porque, entre outras coisas, dez das nove testemunhas foram convenientemente “falecidas” em acidentes de viação, zaragatas de bar e atentados. A ofensiva desencadeada pelo UCK na região a mando da NATO forçou a intervenção em força do exército jugoslavo, no início de 1999. Nas imediações de Rachak e de Rugova foram muitos os membros do UCK que morrerem nas emboscadas montadas pelo exército jugoslavo. Hensch esteve lá, viu os guerrilheiros mortos com as armas, documentos e emblemas do UCK cosidos nas fardas. Em Rugovo, os jugoslavos juntaram os cadáveres, que foram fotografados pelos observadores da OSCE. “Essas fotos, convenientemente limpas de armas e emblemas do UCK, foram usadas para fazer passar a ideia que não se tinha tratado de um confronto militar armado e provar que se estava perante um massacre de civis… os dois lados cometiam exactamente os mesmos crimes, porém tínhamos instruções para responsabilizar só um deles”, disse Hensch. As fotos, com os cadáveres dos guerrilheiros amontoados, como se de civis inocentes massacrados se tratasse, foram apresentadas a 27 de Abril numa conferência de imprensa pelo então ministro da Defesa alemão, Rudolf Scharping. No dia seguinte o diário Bild publicou uma delas na capa com o título: “Contra isto fazemos a guerra”. Nos anos 80 havia na sociedade alemã um grande consenso pacifista, da esquerda à direita. Para alterar esse consenso, a NATO, o governo SPD e Verdes (1998-2005) e os meios de comu-


nicação tiveram de se empenhar a fundo. O jornal Media Operation Center, da NATO, dirigido pelo sinistro Jamie Shea, foi uma fábrica de mentiras, retransmitidas acefalamente pela comunicação social. O truque, dizia Shea, era “manter os jornalistas o mais ocupados possível, alimentando-os constantemente com briefings, de tal maneira que não tenham tempo para se informar”. COZINHAR UMA VERSÃO A guerra nos Balcãs assentou num conjunto monstruoso de mentiras e omissões. Os croatas, depois os bósnios e finalmente o UCK utilizaram os serviços da mesma empresa de relações públicas norte-americana, a Ruder Finn, para intoxicar e manipular a opinião pública. Hoje já não é segredo que antes da intervenção da NATO no Kosovo não havia qualquer “catástrofe humanitária” e que tudo não passou de uma invenção das potências europeias para justificar a intervenção. O que existia era a

violência iniciada em 1998 pelo UCK, à qual o exército jugoslavo respondeu com igual violência, explicaram o general alemão reformado Heinz Loquai e a diplomata norte-americana Norma Brown, que integraram o grupo de observadores da OSCE. Empenhada na diabolização da Jugoslávia, a imprensa alemã ignorou três dados fundamentais: a tradicional hostilidade do seu país para com aquele Estado, considerada pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung, pelo Der Spiegel e pelo Die Welt uma “criação artificial”; que os croatas e os bósnios muçulmanos foram aliados da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial, participando com os alemães no genocídio de um milhão de sérvios; a natureza ilegal da intervenção da NATO, violadora das leis internacionais. O ministro dos Assuntos Externos, o verde Josef Fischer, comparou os sérvios aos nazis e a intervenção jugoslava no Kosovo com Auschwitz, comparações que o general Loquai qualificou de monstruosas, “especialmente na boca de um alemão”.

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u Antes da intervenção da NATO no Kosovo, o ministro da Defesa Rudolf Scharping afirmou que os sérvios tinham aí morto 100 mil albaneses. Terminada a guerra, contabilizaram-se cinco a sete mil mortos e desaparecidos, de todos os lados, somados às vítimas das bombas da NATO. Foi um activo difusor do “Plano Ferradura”, uma fantasia que só existiu na sua cabeça, segundo o qual Milosevic estava a cercar e a deportar os albaneses, garantindo a “expulsão de milhões” e a existência de “400 mil refugiados” antes de iniciados os bombardeamentos da NATO. O que realmente aconteceu foi que, no Verão de 1999, a poucas semanas da ocupação do Kosovo pela NATO, 230 mil sérvios, montenegrinos, ciganos e albaneses “colaboracionistas” foram expulsos do Kosovo, quando na região já havia 46 mil soldados da NATO. Também falou da existência de um “campo de concentração” de Milosevic, que nunca existiu, no Estádio de Pristina, com “vários milhares de internados”. Dez anos depois, o ex-ministro disse que eram só “suspeitas”; pôs a correr que “cinco dirigentes albaneses” tinham sido executados, e que “vinte professores” albaneses tinham sido fuzilados, sendo os alunos obrigados a assistir à execução. Aldeias destruídas depois dos ataques da NATO foram apresentadas como se tivessem sido destruídas antes, numa tentativa de justificação da intervenção. Ocultou-se que a miséria dos refugiados albaneses e a sua fuga foi provocada pelos ataques da NATO. Todo se fez para justificar os mais de 6 mil ataques da NATO com a suposta protecção humanitária aos kosovares da violência — na verdade agravada pela intervenção ocidental —e para convencer a opinião pública da necessidade de dissolver a Jugoslávia, um estado anómalo na nova ordem europeia pós-guerra fria.

INFORMAÇÃO ALTERNATIVA

é um projecto de contra-informação anticapitalista e anti-imperialista. Com importante presença internacional, conta com uma rede alargada de bons colaboradores ibéricos e latinoamericanos

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Franz Fanon Há 50 anos, em 6 de Dezembro de 1961, com 36 anos, morria vítima aquele que é talvez o mais importante e influente ideólogo das lutas de libertação nacional e anticolonial depois de Mao Tsé Tung

Franz Fanon nasceu em 20 de Julho de 1925, em Fort-de-France, na colónia francesa da Martinica, no seio de uma família com certo desafogo financeiro (o pai era funcionário da administração colonial), com antepassados negros, tâmiles e brancos. Em 1943, com 17 anos, parte clandestino para França e alista-se nas Forças Francesas Livres para combater o fascismo. Integrado num dos destacamentos para colonizados, combate na Alsácia e é condecorado. Em 1944 sofre um choque que o marcará política e ideologicamente – com a derrota alemã à vista, o seu destacamento é “branqueado”. Ele e todos os soldados não-brancos são separados e concentrados em Toulouse. Numa carta à família expressa a sua desilusão: “Cometi um erro. Nada, absolutamente nada justifica a brusca decisão que tomei, de defender os interesses de um latifundiário. A ele pouco importa que eu o tenha defendido ou não.” Fanon apercebe-se que a força a que pertencia, apesar de combater o nazismo, estava imbuída da ideolo-


gia racista e praticava semi-oficialmente a discriminação racial e étnica. Apesar de todos usarem o mesmo uniforme, as desigualdades de tratamento entre soldados negros e brancos eram insuportáveis. Terminada a guerra, regressa às Antilhas para terminar os estudos e inicia-se na política, participando na campanha do seu amigo e poeta, professor e comunista, Aimé Cesaire, um dos primeiros teóricos da negritude. Depois vai para França, onde se forma em psiquiatria, em 1951. A sua tese de doutoramento sobre a alienação dos colonizados é publicada, com o título Pele negra, máscaras brancas, e causa enorme impacto. Escandalizado com a desumanidade das práticas psiquiátricas da altura, e influenciado pelo médico francês de origem catalã Francesc Tosquelles, inicia-se na “terapia social”,

que recusa os electrochoques e recorre ao trabalho e à música como terapia. Colocado como director num hospital psiquiátrico em Argel, altera todo o seu funcionamento, juntando às práticas terapêuticas por si aplicadas em França o desporto, espaços de convívio de estímulo intelectual (cria uma cafetaria onde os doentes podem conviver e um jornal feito por eles, o que causa algum escândalo). Em 1954 começa a revolução argelina. Fanon entra em contacto com a FNL através do médico Pierre Chaulet, que havia conhecido em França. Aproveitando a sua condição de médico e a mobilidade que ela lhe permite, serve de correio da FNL e o hospital converte-se num centro de tratamento de traumatizados de guerra, de torturados, torturadores e combatentes anticoloniais. Em 1956 escreve uma carta aberta ao chefe do governo colonial, demitindo-se por discordar da brutal repressão militar ordenada pelo governo francês. Declara que, como psiquiatra, não podia devolver os seus pacientes a uma sociedade que, fundamentalmente, os aliena e desumaniza. É expulso, primeiro da Argélia e depois da França. Vai para Tunes, onde trabalha no hospital psiquiátrico de La Menouba e integra a redacção do órgão central da FNL, El Moudjahid, revelando qualidades de teórico anticolonial. A sua atenção dirige-se principalmente para os problemas coloca-

dos após a independência dos Estados africanos, alertando contra a conversão dos movimentos de libertação em partido único, “a forma moderna da ditadura burguesa, sem máscaras, nem maquilhagem, sem escrúpulos, cínica”. Em 1959 é nomeado embaixador itinerante do Governo Provisório da República Argelina. Em França é publicado O V ano da revolução argelina, que é imediatamente proibido. Trata-se de uma análise das condições sociais que levaram à revolução argelina – opressão colonial, humilhação e pobreza. É convidado para vários fóruns internacionais, onde o escutam com grande interesse e atenção, tornando-se por isso um alvo a abater pelo colonialismo francês. No ano seguinte estuda e negoceia com o Mali a abertura da terceira frente de combate, permitindo a infiltração dos combatentes anticoloniais argelinos vindos daquele país, pelo Sul do Sahara. Em 1961 publica-se o seu mais importante livro, Os condenados da terra. Nele Fanon considera que o colonialismo está acabado e alerta contra a perversão neocolonial. Com vários anos de avanço, chama a atenção para o restabelecimento da dominação estrangeira através da corrupção dos governos nacionalistas, tornados antipopulares e submissos aos interesses das antigas metrópoles. Com grande argúcia entendia que a conquista da independência, sendo uma etapa preliminar e necessária, não era de forma alguma o fim do processo de libertação. Três dias depois da publicação do livro, Fanon morria de leucemia num hospital dos EUA.

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VOZ DA GALIZA

Voltam ao poder os melhores representantes da oligarquia O passado 20 de novembro decorriam as eleiçons gerais no Estado espanhol. Mais um processo eleitoral no circo político burguês em que nom houvo surpresas, confirmando-se a esperada maioria absoluta da extrema direita espanhola representada polo Partido Popular que encabeça Mariano Rajói. O novo presidente do governo do Reino de Espanha, nascido na Galiza, tem um amplo currículo político, iniciado na década de oitenta como deputado autonómico e presidente da Deputaçom provincial de Ponte Vedra. Nestes anos Rajói relaciona-se com alguns dos narcotraficantes galegos mais conhecidos naquela altura (sempre fieis apoios da direita espanholista na Galiza). Também saltou à fama graças aos seus polémicos artigos de imprensa, com títulos tam sugestivos como “A inveja igualitária” ou “A desigualdade humana” e nos que, seguindo a moda ideológica da direita anglo-saxona, defende a inevitabilidade das desigualdades e das hierarquias humanas em base a razons genéticas. Toda umha declaraçom de intençons. O seu bom fazer à hora de trepar face o poder levou-no a ser ministro nos governos do imperialista Aznar, cujo dedo finalmente o designou como sucessor. Mas ainda ficava umha longa “travessia do deserto” até atingir o poder, as duas legislaturas de Zapatero, cujo governo era considerado ilegítimo pola direita espanhola 22

após a surpresiva vitória eleitoral do PSOE em 2004 devida à reaçom popular contra o PP depois dos ataques islamistas do 11-M em Madrid (algo que todos os dias se encarregava de repetir a nova e pujante extrema-direita mediática). Após a formaçom do novo governo todos os prognósticos começárom a confirmar-se aginha. Bem rodeado de experimentados ministros neoliberais, como o ministro de economia Luis de Guindos (ex-diretivo de Lehman Brothers) todas as medidas “anti-crise” saídas do Conselho de Ministros espanhol vam na linha de acrescentar os ganhos da burguesia e laminar o pouco que resta das conquistas operárias e populares no ámbito laboral e social, além de indicir no processo recentralizador e espanholizador contra as naçons sem Estado como a Galiza e de dar passos atrás nos direitos sociais. Nada novo, no básico, a respeito do caminho que levava o governo do PSOE, mas adubiado com a prepotência que caraterizou historicamente os melhores representantes da burguesia, da monarquia e das elites sociais espanholas. A direita espanhola que nom renega do fascismo e que considera que o exercício do poder é legitimamente seu, por direito de conquista. Nas semanas que o PP leva à frente do governo espanhol, e depois de que Mariano Rajói louvasse

as medidas implementadas polo governo português, aprovou congelar o SMI (Salário Mínimo Interprofissional) e os salários das e dos empregados públicos (além de aumentar a sua jornada de trabalho), aumentar o imposto do IRPF e suprimir milhares de milhons de euros dos serviços sociais. A escusa aducida, poupar 40.000 milhons de euros para reduzir o déficit do Estado espanhol como exigem a Uniom Europeia e Alemanha. Já foi apresentada a nova contrarreforma laboral, menos de dous anos depois de que o PSOE impugesse a anterior. Também o esperado: despedimentos mais baratos e doados, expedientes de regulaçom de emprego que nom precisarám da autorizaçom administrativa, possibilidade de reduzir os salários ou de saltar-se os convénios coletivos em cada empresa. A reaçom de CCOO e UGT, sindicatos do regime sempre dispostos a pactuar o que for para manter os privilégios das suas corruptas cúpulas, foi tímida e entreguista, convocando umhas mínimas mobilizaçons para cubrir o expediente e insistindo em negociar com o novo governo em lugar de convocar umha greve geral a nível estatal. De novo na Galiza a resposta é mais contundente. A Confederaçom Intersindical Galega, o principal sindicato de nacional e de classe, sim anunciou umha greve geral nacional mesmo antes da aprovaçom da re-


forma laboral. Constata-se outravolta a maior combatividade do sindicalismo galego, ainda apesar das limitaçons impostas pola sua dependência política do reformista BNG. Umha realidade que também se pode aprezar noutras naçons sem Estado, especialmente no País Basco onde existe umha maioria sindical “abertzale”. No nosso país a lógica de cortes e reformas pro-burguesas repete-se, com um governo também em maos do Partido Popular. As políticas contra os serviços públicos, com o alvo posto na privatizaçom, orientam desde 2009 a agenda do governo autonómico, tendo como vítimas principais a sanidade, o ensino e os serviços sociais. Também na Galiza as trabalhadoras e os trabalhadores públicos estám a sofrer o pioramento das suas condiçons laborais e salariais em nome da sacrossanta austeridade e dos “sacrifícios necessários”. Voltando ao contexto estatal, ainda estám pendentes de concretizar-se a anunciada Lei de Estabilidade Orçamentária, que antecipa a possibilidade de mais regressons no sistema público de pensons ao pre-

ver que “em caso de déficit de longo prazo no sistema de pensons, este poderia ser revisado”. Revisado, por suposto, na linha iniciada polo anterior governo de retrassar a idade de reforma e acrescentar os anos de quotizaçom de trabalhadores e trabalhadoras. Outra frente do novo governo será completar a reestruturaçom do sistema financeiro espanhol com as fusons de bancos e caixas e medidas encaminhadas a recuperar a saúde da maltreita Banca, doente após o fim da orgia especulativa vinculada ao setor imobiliário e da construçom. A volta ao poder do nacional-catolicismo também anuncia retrocessos nos direitos das mulheres e das pessoas homossexuais. A Conferência Episcopal espanhola e as seitas ultra-reacionárias como o Opus Dei e Legionários de Cristo, que tanta influência tenhem no PP, farám valer o seu trabalho à hora de mobilizar na rua e eleitoralmente os setores mais conservadores da sociedade contra as insuficientes reformas do PSOE. O governo de Rajói está a defender umha volta atrás na Lei do Aborto para retornar à lei de supostos apro-

vada em 1985. Também os casais homossexuais estám postos em questom polo novo governo. A proteçom do ambiente e do território também nom se livra do planificado ataque da burguesia. Será reformada a Lei de Costas para facilitar ainda mais a destruiçom do território e do meio em benefício das indústrias contaminantes, da especulaçom e dos bolsos do patronato. Está por ver qual é o nível de resposta popular perante estas e outras medidas. O individualismo inoculado às massas trabalhadoras, o esterilizador medo ao desemprego e a falta de umha esquerda sindical e política revolucionária com projeçom de massas jogam a favor do governo do PP e da burguesia, mas o malestar popular cresce e o efeito do incremento da pauperizaçom, da precariedade e da exploraçom da classe operária (especielmente da juventude, que é consciente de que a sua vida será pior do que a dos seus pais) levará antes ou depois à reaçom popular, abrindo novas possibilidades para umha saída revolucionária à crise geral do sistema capitalista. Anjo Torres Cortiço

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VISOR CINEMA OS DIAS DE MAIO, William Klein, 1968; GREVE OCUPAÇÃO, Marin Karmitz, 1972; MORRER AOS TRINTA ANOS, Roumain Goupil, 1982 - França, Midas Filmes.

Em 2008, assinalando os 40 anos do Maio de 68, foram editados em DVD vários filmes e documentários. Em Portugal, pela mão da Midas Filmes, apareceram estes três documentários, agora reeditados a preço de saldo (5 euros cada) pela FNAC. Para além do registo histórico, este é um tipo de cinema que actualmente não tem grande aceitação, é estigmatizado e ignorado pelas distribuidoras e canais públicos e privados de televisão. São três bons exemplos do que foi o cinema militante dos anos 60/70, e de que este não é um cinema menor, nem primário nem maniqueísta – Morrer aos trinta anos foi premiado com a Câmara de Ouro no Festival de Cannes, em 1982. 24

Os Dias de Maio é uma crónica apaixonada do Maio de 68. De câmara na mão, no calor dos acontecimentos, Willliam Klein filmou o dia-a-dia das assembleias, as discussões e debates espontâneos, as manifestações, as greves, as barricadas, os confrontos de rua com as forças repressivas, as palavras de ordem, as esperanças e as ilusões dos estudantes e operários que, aos milhões, em Paris, contestavam a autoridade burguesa. Para muitos, este é o melhor e mais importante documentário sobre o Maio68.

que refere à luta das mulheres pela emancipação. É um dos mais conhecidos e apreciados exemplos de cinema militante. Nele o autor mostra-nos o dia-a-dia de uma fábrica têxtil igual a tantas outras. A rotina pouco entusiasmante das operárias sob a vigilância de patrões e encarregados, o cansaço, as más condições de trabalho e as necessidades que obrigam a suportar tudo aquilo. Depois é o regresso a casa, após oito horas de trabalho, as compras, as refeições, os filhos e o marido, o salário que é curto, os problemas afectivos e as relações que se ressentem com as contingências de uma vida de exploração. Toda esta rotina, este aparente remanso, é quebrado de um momento para o outro, quando as “agitadoras” são despedidas. Estala a revolta e elas como que se transformam e descobrem a força da solidariedade e sabem como impor as suas reivindicações.

seu amigo Michel Recanati, com quem viveu intensamente os acontecimentos de Maio68 e, entretanto, se suicidou. Desde muito cedo o realizador se envolveu na militância política (LCR) e começou a filmar de uma forma compulsiva (presidenciais de 1965, guerra do Vietname). Filma tudo, comícios, manifestações, activistas. Com o seu amigo, igualmente militante da LCR, envolve-se profundamente no Maio68, sempre de câmara na mão. É com esse material que, após o desaparecimento do amigo, irá fazer este documentário, que dá um retrato emocionado de uma geração de militantes politicamente envolvida com um partido da esquerda radical (no caso trotsquista, mas poderia ser outro qualquer), que queriam mudar o mundo e fazer a revolução.

LIVROS MOI, SAMPAT PAL, CHEF DE GANG EN SARI ROSE, Editions Pocket, 2010.

Greve ocupação é um documentário único sobre a influência do Maio68 nas lutas operárias poucos anos depois, em particular no

Morrer aos trinta anos foi realizado, muitos anos depois de terem sido colhidas as imagens, como uma homenagem de Goupil ao

Sampat Pal Devi nasceu em 1960 no Uttar Pradesh, uma das regiões mais pobres da Índia. A sua história, que ela conta neste livro, tem muitos pontos de contacto com a de uma outra indiana – Phoolan Devi – que nos anos 80 se ergueu contra a opressão de género e de classe, as violações e os castigos corporais, pe-


VISOR

gou em armas e liderou durante vários anos uma guerrilha que fez vergar o governo. Eleita deputada, viria a ser assassinada anos depois. As Saris Rosa (Gang Gulabi em hindi) é o nome dado ao grupo de mulheres vestidas com saris dessa cor, organizado e liderado por Sampat Pal Devi, em 2006, na altura em que nas altas montanhas e campos inundados de Uttar Pradesh começou a correr o rumor de que havia uma mulher que se tinha levantado sozinha contra a lei da selva e queria restaurar a justiça, com um pau, se necessário. Exigia justiça para as mulheres e os intocáveis (a casta mais baixa da Índia, impedida de ter qualquer propriedade ou ofício) que sofrem todos os tipos de abusos pelos brâmanes. No seu livro, Sampat Pal conta-nos como ela, uma menina da casta gadarias (a quem cabe a pastorícia) se revoltou e se tornou uma lutadora. Como em criança aprendeu a ler escondida atrás de um pilar da escola, inacessível aos pobres. Casaram-na aos doze anos. Um dia defendeu um vizi-

nho contra os interesses de uma família rica que mantinha relações com o seu marido. Como isso representava um desafio intolerável e é perigoso desafiar os poderosos, os costumes e os homens de sucesso, ficou com a cabeça a prémio e foram contratados assassinos para a matar. Teve de fugir com os filhos e deixar tudo, a casa e a aldeia. Percebeu então que sozinha não podia travar uma luta, que sabia longa, talvez para toda a vida. Procurou ajuda e outras mulheres juntaram-se a ela – cinco, dez, cem. Hoje, o Gang Gulabi integra três mil mulheres vestidas com saris rosa e armadas de compridos bastões. Sampat Pal mudou a sua vida e a de centenas de pessoas ao seu redor. E sabe que a luta está apenas no começo.

MEMÓRIA HENRY KARAYAN (1921 – 2011)

vembro, aos 90 anos. Karayan nasceu a 3 de Maio de 1921, em Istambul, Turquia. Chegou a França em 1923. Em 1942 conheceu Missak Manouchian e juntou-se à resistência realizando acções armadas e de sabotagem, integrado numa organização constituída por imigrantes, a FTP-MOI – Franco-Atiradores e Partisans – Trabalho Imigrante, em Paris. Responsável por um dos seus grupos, costumava dizer: “Não matei civis, não matei alemães, matei nazis fardados.” Com Arsene Tchakarian, de 94 anos, agora o último sobrevivente do Manouchian, costumava realizar palestras para jovens e ajudou Robert Guediguian no filme The Army of Crime, de 2009. Segundo a ANACR - Associação Nacional de Veteranos Arménios e Resistentes – Karayan, referindo-se aos seus camaradas, “sempre enfatizou a fraternidade de armas entre os imigrantes, que se sobrepunha a todas as diferenças religiosas e identidades.”

O Grupo Manouchian foi um dos mais activos da Resistência. Em Paris, a FTP-MOI surgiu em Abril de 1942, e depois na província, chegando a haver cerca de 200 destes grupos comunistas constituídos por imigrantes e refugiados. Em Fevereiro de 1943, Missak Manouchian recrutou para a FTP-MOI um grupo de cinquenta romenos e judeus húngaros e arménios que, durante os seis meses em que os comandou, realizou trinta operações de sabotagem e executou colaboradores. Em Novembro de 1943 vinte e três membros da Manouchian são presos em Paris. Torturados e entregues à polícia militar alemã que os julga em tribunal militar, os homens, 22, são fuzilados em Mont Valerian, dias depois, em 21 de Fevereiro de 1944. A única mulher no grupo, Olga Bancic, é decapitada na prisão de Stuttgart, em 10 de Maio. Durante o julgamento, os alemães afixam 15 mil cartazes com as fotografias,

INFORMAÇÃO ALTERNATIVA

Karayan Henry, um dos dois últimos sobreviventes da Manouchian, grupo comunista da resistência francesa, morreu a 2 de No-

Diário Liberdade é um projecto jornalístico anticapitalista e anti-imperialista, virado para a realidade social e as lutas de classes na península Ibérica, América Latina e África de expressão portuguesa e galega

www.diarioliberdade.org 25


VISOR os nomes e as acções de 10 membros do grupo, com os dizeres: “Que libertadores? Que libertação! O exército do crime ‘e Manouchian,’ líder do gangue arménio, respondem por 56 atentados, 150 mortos, 600 feridos.” O cartaz tornou-se rapidamente um símbolo da resistência, quando mãos anónimas escrevem sobre o cartaz “Mortos pela França”. Onze anos depois, Aragon escreveu um poema sobre o cartaz vermelho (L’affiche rouge), musicado e cantado alguns anos depois por Léo Ferré. http://www. youtube.com/watch?v= 6HLB_EVtJK4 reproduz a interpretação do cantor acompanhada de impressionantes fotografias da época).

TELEVISÃO PRÓS E CONTRAS, RTP 1, 5 de Fevereiro.

Há muito que o Prós e Contras deixou de ser um programa de debate onde se esgrimem argumentos e ideias contraditórias sobre questões políticas e sociais, mas uma espécie de sessão 26

de esclarecimento sobre o entendimento que as “forças vivas” da nação têm sobre os problemas do país. Há até quem já lhe tenha chamado Prós e Prós. E ao que parece, as coisas vão de mal a pior. Depois da lamentável sessão de propaganda e promoção dos negócios entre as burguesias portuguesa e angolana, seguiram-se um programa sobre a proposta de lei da habitação – na verdade uma sessão em que a ministra foi sorridente e pacientemente “esclarecendo” sobre a bondade da sua lei e como são infundados os receios de que ela se torne uma lei dos despejos – e outro sobre o desemprego. Este foi um espectáculo lamentável, de baixo nível, mas que teve a utilidade de elucidar sobre a estreiteza de vistas e a alienação da nossa classe média. A grande maioria dos convidados e dos assistentes, assim como a moderadora, descobriram que a empregabilidade é a grande solução. (A empregabilidade é um conceito vindo de Bruxelas como a solução para o desemprego descoberta pelos burocratas comunitários e em cuja “implementação” por associações, fundações, institutos e empresas têm vindo a ser gastas centenas de milhões de euros há mais sete anos). E como dizia um doutor em marketing com a boçalidade de quem vê o mundo do alto da universidade e das acções de forma-

ção, é uma imbecilidade pensar que há emprego e salário ou que a culpa é do sistema capitalista e dos governos. Essas são ideias e atitudes do passado, o mundo agora é outro. O que temos de nos interrogar é sobre o valor que podemos criar, se somos capazes de vender a ideia e se foram acertadas as decisões que tomámos. O desemprego nada mais é que o resultado dessa incapacidade. Por outras palavras, o desemprego é culpa do desempregado. Pelo meio, três patéticos desempregados, todos licenciados e com um largo percurso de vendedores: uma a dizer-se sensibilizada com o drama dos patrões que se vão deitar a pensar como vão pagar aos seus “colaboradores” no fim do mês – os trabalhadores não têm qualquer preocupação, e só chegar ao fim do mês e receber o ordenado –, outro a gabar-se de nunca ter descontado nem recebido subsídio de desemprego, e o terceiro perfeitamente convicto da justeza do seu despedimento, porque tinha de calhar a algum e calhou ser ele, foi para bem da empresa. Depois uns casos de empreendedores de sucesso, a provar que com pensamento positivo, vontade e uma boa ideia, tudo se consegue. E como não podia faltar, um bastante aplaudido representante da igreja, a confundir pregação e caridade com emprego. Ficámos a saber que Jesus é o salvador do mundo e que os vicentinos já deram 180 mil euros a pessoas que os procuraram

aflitas para criar um negócio. E para a comédia ficar completa, no fim assistiu-se a um ataque em forma ao actual secretário-geral da CGTP, como se ele e ela fossem afinal os grandes culpados da crise e do desemprego, à mistura com saudosos elogios ao anterior líder Carvalho da Silva, um homem cordato e responsável que nunca deixou as lutas dos trabalhadores ultrapassarem certos limites.

RECEBIDO A Batalha, 247, Lisboa Boletim Anarco-Sindicalista, 39, Lisboa Challenge, v. 44 – 4, Brooklyn – Nova Iorque Che fare, 75, Roma Contramarcha, 58, Madrid Contropiano, 2, Roma Dans le monde une classe en lutte, Nov. 11, Paris El Martinete, 25, Saragoça Éxodo, 111, Madrid Lutte de classe, 140, Paris Lutte ouvrière, 2270, Paris Monthly review, v. 63 – 7, Nova Iorque N+1, 30, Turim O militante socialista, 92, Lisboa Partisan, 252, Paris Resumen Latinoamericano, 115, Donostia/San Sebastián


EDIÇÕES DINOSSAURO Lutas Velhas - Futuro Novo - Paula Godinho, Miguel Cardina, Luís Farinha, João Marques Lopes, Inês Fonseca, António Barata - 136 Pág., 14 • História de uma vida - Francisco Martins Rodrigues - 362 Pág., 13,65 • Anti-Dimitrov - 1935/1985: meio século de derrotas da revolução - Francisco Martins Rodrigues - 328 Pág., 21 • Os anos do silêncio - Francisco Martins Rodrigues - 120 Pág., 11 • Abril traído - Francisco Martins Rodrigues - 120 Págs., 8,40 • Cuba: a transição - Janette Habel, J. Petras, Robin Eastman-Abaya, Narciso I. Conde, Guillermo Almeyra, Heinz Dieterich - 128 Pág., 8 •

Na selva Os estudos desconhecidos de Che Guevara A propósito dos seus Cader nos de leitura da Bolívia Cadernos Néstor Kohan Edição conjunta Abrente - Dinossauro

Crónicas iraquianas - de que lado vem a barbárie? - Manuel Raposo - 120 Pág., 9 • Europa sem máscara - Henri Houben, George Polikeit, Arno Nauber, Ralf Jespers, Jo Cottenier, Herwig Lerouge, Nadine Rosa-Rosso - 200 Pág., 8,40 • O gulag americano - Susie Day, Angela Davis, Eve Goldberg, Linda Evans, Monthly Review - 104 Pág., 6,30 • Ruanda - um genocídio na consciência - Michel Sitbon - 184 Pág., 5,50 • A teia - Harold Pinter - 56 Pág., 8,40 • De Cabul a Bagdad - a guerra infinita - António Louçã, Pedro Caldeira Rodrigues, Rui Zink, Carlos Morais, Francisco Martins Rodrigues, Tarik Al-Khudairy - 72 Pág., – 9,45 • Direito de agressão – a agonia do império USA - Michel Chossudovsky, Phyllis Bennis, Arundhati Roy, Noam Chomsky, Geoffrey Geuens, Naomi Klein, Michael Ruppert, Ramsey Clark - 160 Pág., 12 • A crise crónica ou o estado senil do capitalismo - Tom Thomas - 160 Pág., 12 • Livro Negro do racismo em Portugal - Elsa Sertório - 196 Pág. , 10,50 • Mundo em declínio - Claude Bitot - 68 Pág., 6,30 • O espírito humano no socialismo - Óscar Wilde - 64 Pág., 7 • Marx e a liberdade - Terry Eagleton - 80 Pág., 6,30 • O Estado e o Capital - o exemplo francês - Tom Thomas - 172 Pág., 14 • Desafios da mundialização - Samir Amin - 306 Pág., 14,96 • O Eurocentrismo - crítica de uma ideologia - Samir Amin - 256 Pág., 14,70 • A hegemonia do capital financeiro e a sua crítica - Tom Thomas - 184 Pág., 9,45 • História da Comuna de 1871 - Prosper-Olivier Lissagaray - 358 Pág., 14,70 • A conspiração dos Iguais - Ilya Ehrenburg - 190 Pág., 12 • O império a preto e branco - Ana Barradas - 80 Pág., 9,45 • Aivados - posse da terra, resistência e memória no Alentejo - Inês Fonseca -224 Págs. - 15 Euros Marx no seu tempo | 176 Págs. – 11,55 Euros A última revolta em Timor - Jaime do Inso | 176 Págs. – 12 Euros Resistência - Pedro Goulart | 144 Págs. – 9,45 Euros Pais de Abril, filhos de Novembro - memória do 25 de Abril - Tiago Matos Silva - 180 Pág., 10,50 • LITERÁRIOS O segredo de Conceição - Cândido Gonçalez Ferreira - 200 Pág., 16,05 • As aventuras de uma pretinha à procura de Deus - Bernard Shaw - 120 Pág., 12 • Brecht – Poesia, Textos, Teatro - Bertolt Brecht - 128 Pág., 8,40• Contos de Odessa - Isaak Babel - 128 Pág., 10,50 •

Tiveram que passar mais de quatro décadas desde o assassinato do Che Guevara para começarem a aflorar, tímidamente, outras facetas da sua vida. O Che como estudioso do capitalismo, analista das dificuldades da transição para o socialismo, teórico dos problemas da revolução mundial e polemista no interior do marxismo. Néstor Kohan estudou essas dimensões do Che como estudioso sistemático do marxismo, leitor dos clássicos do pensamento social e apaixonado explorador da literatura revolucionária. Em suma, o Che como pensador radical.

430 páginas - Preço: 25 euros Clube Dinossauro - 20 euros

Contos - Guy de Maupassant - 120 Págs., 10,50 • Coração forte - Licínio Azevedo - 176 Pág., 9,45 • Notícias da raiva - 180 Pág.,18 •

Pedidos a Política Operária / Edições Dinossauro Apartado 1682 - 1016-001 LISBOA

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FERRUCCIO BRUGNARO

O tempo do silêncio Nada mudou. A fábrica é cínica e tremenda. A produção impera sobre toda a nossa vida. A solidão milenária ergueu a sua bandeira

Nasceu em Veneza, em 1936. Operário, poeta e autodidata, trabalhou em Porto Marghera desde o início dos anos 50 até se reformar. Protagonista, durante décadas, das lutas operárias, fez parte da comissão de trabalhadores da fábrica Montefibre-Montedison. Em 1965, começou a divulgar nos bairros, nas escolas e entre os trabalhadores em luta o seu trabalho literário. Parte desses escritos, policopiados e distribuídos como panfletos, foram recolhidos pela editora Bertani, que os publicou. Desde então esses trabalhos estão traduzidos e publicados em vários países e presentes em antologias. Alguns dos versos encontram-se inscritos em murais, desde as lutas operárias dos anos 70. 28

em todos os mastros em todas as praças. Voltou o tempo do silêncio com todo o seu armamento de morte.


Política Operária nº 133