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Caminhos da Graciosa Paisagens, recantos e encantos da Estrada da Graciosa

Bruno Rolim


Caminhos da Graciosa Paisagens, recantos e encantos da Estrada da Graciosa


Texto e Fotografias Bruno Rolim Orientação Prof. Dr. Toni André Scharlau Vieira Projeto Gráfico Bruno Rolim Produto realizado para a disciplina Trabalho de Conclusão de Curso, como requisito final para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social habilitação em Jornalismo. UFPR, 2010


Caminhos da Graciosa Paisagens, recantos e encantos da Estrada da Graciosa

Bruno Rolim

ufpr, 2010


Sumário 7 1. A estrada 9 2. Os recantos 21 3. Os produtos 37 4. As pessoas 51 Introdução

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Introdução Este livro não aconteceu por acaso. É resultado de um difícil e extenso trabalho, de bastante paciência, muita luta. Fotografias das paisagens e cenários da majestosa Estrada da Graciosa, que corta a Serra do Mar paranaense, ligando a capital do estado ao seu litoral. O conjunto de fotografias aqui apresentado mostra uma história, mostrando o contexto histórico da Estrada, suas características peculiares: o calçamento em paralelepípedos, a integração do caminho com a mata nativa, a convivência e interação entre o que o mundo trouxe naturalmente e o que o homem alterou, trazendo de forma poética e apresentando o cenário ao leitor. Apresentada a estrada, o trabalho segue com fotografias mostrando um corte sobre uma peculiaridade da Estrada da Graciosa: seus inúmeros recantos e pontos de parada, espalhados durante todo o trajeto, e nos quais os viajantes podem parar para repousar, admirar as vistas e mirantes, e interagir com a natureza. Nessas paradas, os viajantes conhecem um pouco mais sobre os produtos típicos da região, e outros produtos que são vendidos nos recantos e nas cidades de Morretes e Antonina, destinos finais da Graciosa: desde as famosas balas de banana da cidade de Antonina até o artesanato local, passando pelo caldo de cana e pelo milho verde que são servidos nos recantos. E, finalizando, as pessoas que usam os recantos, e as pessoas que vivem dos recantos, e vivem da rodovia - uma forma interessante de se retratar uma região, mostrando-a pelas pessoas que têm, cada qual em suas particularidades, relações com o caminho. Em um retrato etnográfico, a minha intenção foi mostrar um pouco mais desse que é um dos atrativos mais importantes do Paraná: os Caminhos da Graciosa.

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Capítulo 1: A estrada A mais antiga, e até a construção da BR-277, única ligação de Curitiba com o litoral do Paraná - a Estrada da Graciosa, que sai da capital, e corta a Serra do Mar, passa por Campina Grande do Sul, Quatro Barras, tendo como destinos finais as cidades turísticas de Morretes e Antonina. A Estrada da Graciosa começou a ser utilizada antes mesmo da chegada do homem branco à região – por bastante tempo, foi a única rota trafegável permanente que transpunha a Serra do Mar. Várias lendas circundam a sua história, inclusive casos que relacionam a construção do caminho aos jesuítas, e a sua relação com o explorador que encontrou as Cataratas do Iguaçu, Cabeza de Vaca. Importante rota turística do estado, a Estrada da Graciosa tem sua infraestrutura mantida pelo poder público, permitindo manter grande parte de suas características originais intactas. Em seu traçado sinuoso, apenas veículos de pequeno porte são permitidos com a exceção de micro-ônibus e uma linha diária que faz a ligação entre as cidades litorâneas e Curitiba - os outros horários fazem o trajeto através da moderna BR-277. A Graciosa é um grande exemplo de como podem interagir natureza e ser humano, mostrando como o progresso pode modificar uma região, mantendo ainda assim grande parte de seus caracteres originais. É uma volta ao passado realizada, seja em quatro rodas ou mesmo de bicicleta ou caminhando, nos casos mais radicais.

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Tudo comeรงa nas margens da BR-116, em um Portal que simboliza mais do que a entrada da Estrada...

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Portal de Entrada Estrada da Graciosa, 2010

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Simboliza a entrada em um mundo diferente um mundo com menos sinais da intervenção do homem. Uma estrada parada no tempo.

Portal de Entrada Estrada da Graciosa, 2010

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Nesse mundo, pequenos detalhes fazem toda a diferenรงa.

Detalhe do Portal Sino Estrada da Graciosa, 2010

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Nesse caminho, homem e natureza convivem em uma uni達o, em simbiose.

Ponte sobre Rio Estrada da Graciosa, 2010

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Ă gua, asfalto e paralelepĂ­pedos, estruturas humanas sobre estruturas da natureza.

Ponte sobre Rio Cascata Estrada da Graciosa, 2010

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Nessa simbiose, a natureza trata de ocupar cada pequeno espaço deixado pelas construções do homem.

Detalhe do Calçamento Estrada da Graciosa, 2010

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E o homem, com outras construções, percorre o caminho que ele mesmo traçou com pedras.

Carro passando Estrada da Graciosa, 2010

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Nesse caminho, a natureza compreendeu a necessidade do homem, e se estabeleceu em volta das estruturas.

Flor e mureta Estrada da Graciosa, 2010

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Observando o homem, e cuidando dos seus elementos.

Flor e carros Estrada da Graciosa, 2010

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Saindo um pouco da rodovia, podemos observar que, à distância, o mar já nos espreita.

Visão do Recanto Engenheiro Lacerda Estrada da Graciosa, 2010

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Mas, para chegar até o mar, devemos seguir o caminho que construímos.

Estrada com sinalização Estrada da Graciosa, 2010

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Capítulo 2: Os recantos Encravados ao longo do trajeto da Estrada da Graciosa, os recantos, nos quais os viajantes aproveitam para descansar, observar as belas vistas, comprar produtos e interagir com a natureza. O primeiro recanto está no alto da serra. Geralmente cercado por uma insistente neblina, o Recanto Engenheiro Lacerda, que tem um mirante com vista para o Oceano Atlântico, mesmo situando-se a mais de vinte quilômetros da costa. Descendo um pouco mais, acha-se o Recanto Rio Cascata, com uma estrutura menor, mas uma paisagem igualmente linda: uma ponte, por baixo da qual passa um rio, que vem de uma cascata - daí o nome do recanto. O terceiro recanto é o Recanto Grota Funda, com algumas encostas e uma vegetação particular, seguido pelo Recanto Bela Vista, que honra o seu nome, com uma visão muito bonita da estrada e da Baía de Antonina. Após este recanto, há a famosa Curva da Ferradura, que tem o Recanto que carrega o mesmo nome, e apresenta uma boa estrutura para os viajantes. O último recanto é o Parque Mãe Catira, que apresenta uma estrutura maior, com vários quiosques e churrasqueiras, para atender melhor os visitantes. Natureza, lazer e recreação: os recantos garantem boa parte da diversão na curta viagem pela Estrada da Graciosa.

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Dentro do caminho construído, há pequenos detalhes da natureza que só percebemos com algum esforço.

Detalhe de vegetação Estrada da Graciosa, 2010

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E, ao mesmo tempo, estando distantes, podemos ver o quanto homem e natureza podem conviver juntos.

Recanto Rio Cascata Estrada da Graciosa, 2010

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Cada recanto possui seus encantos e seus pontos que cativam.

Recanto Rio Cascata Estrada da Graciosa, 2010

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Seja olhando para cima numa cascata, ou para baixo observando a correnteza do rio.

Parque M達e Catira Estrada da Graciosa, 2010

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E não apenas às margens da estrada, mas dentro de cada recanto há uma série de mistérios.

Parque Mãe Catira Estrada da Graciosa, 2010

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Que somente s達o desvendados com um pouco mais de explora巽達o

Parque M達e Catira Estrada da Graciosa, 2010

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Há, nos recantos, a preocupação com a preservação, e com a conscientização dos visitantes.

Placa no Recanto Engenheiro Lacerda Estrada da Graciosa, 2010

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E, de certa forma, hรก um entendimento por parte de todos.

Recanto Rio Cascata Estrada da Graciosa, 2010

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Claro, há algumas exceções, que somente fazem fortalecer o caráter místico dos recantos.

Oferendas no Recanto Rio Cascata Estrada da Graciosa, 2010

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E, ao mesmo tempo, outros detalhes, que nos levam aos produtos que caracterizam a Estrada.

Detalhe de moedor de cana Estrada da Graciosa, 2010

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Detalhes que se destacam em meio a um universo verde.

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Dando mais cores a este caminho.

Feixes de cana moĂ­dos Estrada da Graciosa, 2010

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Capítulo 3: Os produtos Quando se pensa na Estrada da Graciosa, em Morretes, em Antonina, se pensa em duas coisas: banana e barreado. O barreado não é visto durante o percurso da Estrada, ficando mais presos aos restaurantes das cidades litorâneas. Mas a famosa bala de banana antoninense é uma das mais fortes presenças nos recantos da Graciosa. Os produtos “industrializados”, feitos em sua grande forma em locais semiartesanais, passam por biscoitos de polvilho, salgadinhos, amendoins, doces e compotas, das mais variados aromas e sabores. Outro produto bastante comum são as cachaças, fabricadas em alambiques artesanais, especialmente na cidade de Morretes. O artesanato é presença constante, desde bonecas até bijuterias e peças entalhadas em madeira, como barcos dentro de garrafas de vidro. Mas não é apenas de produtos prontos que vivem os recantos - o milho verde, que é trazido dentro da espiga, ao natural, e é cortado e cozido no próprio recanto, há o caldo de cana, cortado e moído na hora, há as coxinhas de frango, preparadas e fritas na hora, para os viajantes mais esfomeados. Em Morretes e Antonina, além da gastronomia variada, há as balas de gengibre, tradicionais na região (Morretes já foi a maior produtora de gengibre do planeta), as flores, vendidas pelo comércio ambulante, derivados de mel e outros produtos, que somente aguçam o exotismo dos pratos locais. Da história, vive a Graciosa. Dos recantos, vive a Graciosa. Dos produtos, vive a Graciosa.

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Os produtos esperando um viajante disposto a saciar a sua sede.

Detalhe de feixes de cana de açúcar Estrada da Graciosa, 2010

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Produtos típicos, mostrando o caráter de uma região que vive seu próprio tempo.

Balas de banana e compotas Morretes, 2010

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Em vidros, sachês ou embrulhos de papel, a escolha é do freguês.

Sachês de doce de leite Morretes, 2010

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O artesanato tambĂŠm se faz presente no litoral do estado.

Bonecas Antonina, 2010

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O toque picante das mais variadas pimentas do litoral.

Vidros de pimenta Morretes, 2010

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E pequenas peรงas de artesanato para entretar as clientes que se interessam.

Peรงas ornamentais para meninas Morretes, 2010

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Os biscoitos também são parte importante do comércio na região da Graciosa.

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Pacotes de biscoito de polvilho Morretes, 2010

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Não pode faltar espaço para as belezas que a natureza criou, e que o homem cultiva a seu modo.

Flor vermelha Morretes, 2010

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E, em suas diferentes formas, cativam e conquistam as pessoas.

Flor violeta Morretes, 2010

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TambÊm temos o esforço manual, preparando produtos da natureza, para que eles fiquem prontos para quem for comprar.

Panela de milho verde Estrada da Graciosa, 2010

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E as mรกquinas, que devem estar prontas sempre, para que tudo corra como planejado.

Moedor de cana Estrada da Graciosa, 2010

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Capítulo 4: As pessoas Já falamos sobre a história da Estrada, sobre os seus recantos, sobre os produtos vendidos. Nada disso teria o mínimo significado se não tivéssemos as pessoas. Pessoas que viajam, e se utilizam da estrada, se divertem com a estrada, aproveitam a estrada. A família que viaja para o fim de semana, levando suas crianças, para um dia ensolarado. O grupo de amigos que se junta num carro para passar o dia em meio à natureza. Mas, mais importante do que isso: para tudo funcionar, precisamos das pessoas que vivem para a Estrada, que vivem da Estrada. A família que acorda antes do sol raiar, levando os seus produtos numa Kombi, e organizam tudo, desde o pai que arruma o quiosque até os filhos que ajudam limpando o banheiro e cortando as espigas de milho. Esse lado passa despercebido: para o viajante, essas pessoas são apenas prestadoras de serviços. Mas há muito mais do que isso - estando perto deles, conversando, aprendemos que por trás de cada uma das expressões, há corações batendo acelerados, mãos calejadas pelo esforço desprendido, sorrisos inocentes nos momentos de diversão, que surgem da forma mais inusitada - até mesmo pingos de chuva arrancam expressões felizes. A beleza dos Caminhos da Graciosa está nisso, em cada pequeno momento de felicidade, no sentir a vida percorrendo cada curva, cada paralelepípedo, cada trilha e cada recanto. Enquanto houver alegria nos rostos de quem trabalha, haverá alegria para quem visita - e isso, sabemos todos, faz toda a diferença no encanto de uma viagem.

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O dia de trabalho se inicia com a chegada do furgĂŁo com a famĂ­lia e as mercadorias.

Porta de Kombi Estrada da Graciosa, 2010

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Não há tempo para relaxar, as mercadorias precisam ser descarregadas.

Início dos trabalhos Estrada da Graciosa, 2010

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No quiosque, os produtos sendo montados para exposição.

Montagem do quiosque Estrada da Graciosa, 2010

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E, no outro lado, o milho sendo preparado para cozimento.

Corte do milho verde Estrada da Graciosa, 2010

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Enquanto os maiores preparam a loja, as crianรงas observam, e tentam pensar no que podem fazer para ajudar

Crianรงas no recanto Estrada da Graciosa, 2010

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Enquanto isso, a criancinha visitante recebe um bom conselho do senhor vendedor.

Conselho Estrada da Graciosa, 2010

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A senhora arrumando os seus produtos, esperando a venda desejada.

Barraca de cachaรงas Morretes, 2010

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A menina olhando para baixo, em um misto de sono e frio.

Menina em recanto Estrada da Graciosa, 2010

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Com o ânimo já recobrado, as crianças se animam para ajudar nos serviços.

Preparação para o trabalho Estrada da Graciosa, 2010

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A presença das crianças é fundamental para o ambiente ficar mais feliz.

Criança durante preparação Estrada da Graciosa, 2010

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Enquanto o trabalho acontece, em Morretes se pode aproveitar a beleza da paisagem Ă s margens do Nhundiaquara

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Conversa no Nhundiaquara Morretes, 2010

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A interação entre cliente e o atendente é uma característica das relações na Graciosa.

Conversa de quiosque Antonina, 2010

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E, jรก em um braรงo de mar, o pescador parte, jรก imaginando como voltarรก depois.

Pescador partindo Antonina, 2010

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A pesca ĂŠ em sua grande maioria masculina, mas a menina observa, admirada, o trabalho dos pescadores.

Menina observando pescadores Antonina, 2010

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Voltando Ă Graciosa, pequenas cenas do cotidiano da famĂ­lia que trabalha e vive da estrada.

Menino com cana ao fundo Estrada da Graciosa, 2010

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E a criança que visita a estrada, com sua família.

Criança viajante Estrada da Graciosa, 2010

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E, claro, a crian巽a que n達o larga o colo de sua m達e, mesmo nas paradas do recanto.

Menina no colo da m達e Estrada da Graciosa, 2010

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A vida de quem vive da estrada tem muito trabalho, muito sacrifĂ­cio, mas certamente vale a pena.

Quiosque do Engenheiro Lacerda Estrada da Graciosa, 2010

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Ainda que para a pequena menininha o fim da tarde signifique um descanso merecido.

Menina dormindo Estrada da Graciosa, 2010

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A diversão está em pequenos momentos, como brincar com o pequeno filete de água escorrendo do telhado com a chuva.

Menino com fio d’água Estrada da Graciosa, 2010

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Mas, ao mesmo tempo, devemos lembrar que as pessoas que est達o trabalhando s達o, acima de tudo, a raz達o pela qual as viagens se tornam prazerosas.

Cana sendo mo鱈da Estrada da Graciosa, 2010

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É um trabalho duro, mas que traz a todos a recompensa: pro viajante, a Estrada torna-se mais prazerosa; pra quem vive da estrada, a certeza do sustento.

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Cana sendo retirada do moedor Estrada da Graciosa, 2010

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Caminhos da Graciosa  

Livro-reportagem fotográfica sobre a Estrada da Graciosa - qualidade baixa, para web.

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