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o r io que naquel e es pel ho vi bruno m anfra


o r i o que naquel e es pel ho vi bruno m anfra


[2 016]

pre p a r a ç ã o e po em as bru n o man f ra

a p re s e nta ç ã o e rev i s ão d an i el men don ça

pintur a e p ro j eto gr áf ico natali a n u n es


ap res entação da ni el m end onça

Imagine um poeta sério. Mais especificamente, imagine um poeta empertigado, que anda de terno, que desamarra os sapatos antes de descalçá-los; poeta de versos densos, de austeridade quase parnasiana, que narra somente grandiosas ocorrências, descreve o esplendor da natureza, a elevação do espírito, e que para isso desfila no papel palavras vaidosas e aprumadas. Agora imagine que num dia qualquer, sob uma influência metafísica qualquer, esse poeta descubra repentinamente que o mundo é escorregadio, a vida efêmera, a natureza estranha e a realidade porosa. Então nosso dublê de T. S. Eliot, como quem entra numa viagem de mescalina, caminha pelos cantos oblíquos de sua casa e brinca de associar objetos e situações tolas a seus mais íntimos golpes emocionais. E aí não mais lhe seriam objeto de investigação poética os sonhos de morte, os tácitos disfarces, o encontro verdadeiro no reino crepuscular, tampouco os elmos cheios de nada. Flâneur em seu próprio quintal, o poeta espantado observa uma vela derreter e a associa à mesma sensação de desvanecimento própria da condição humana. O poeta descobre que atas de reunião, partidas de time pequeno, camisas sujas de vermelho também são metáforas da vida pulsante, extensões do corpo e do espírito. Descobre que o cotidiano é espesso e profundo, e assim passa a trocar segredos por mistérios – em sua virada poética, sabe que o mistério é um segredo que deseja ser revelado, que se decompõe sutilmente em imagens espalhadas pelo ar. 6


Ele se encontra agora inexoravelmente absorto nos pensamentos que surgem de tal descoberta, como se ouvisse no imaginário a voz doce e teimosa de Manoel de Barros: Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro/ Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Tal como o célebre escritor em Acossado, de Godard, o poeta deseja agora tornar-se imortal e logo depois morrer. O rio que naquele espelho vi, primeira obra poética de Bruno Manfra, também músico e compositor inspirado, poderia ter surgido de devaneios como esse. Leremos aqui versos desabotoados, vozes distraídas a descrever paisagens fugidias, associações inesperadas, objetos fora de lugar – palavras sutilmente desarrumadas no tempo e no espaço. Esses poemas buscam as fronteiras entre a matéria evidente e a irrealidade, o absurdo e o trivial, estendendo ao limite o jogo entre som e sentido num mosaico de imagens e pensamentos. Poemas-aforismos, que comentam e desconstroem tanto irrelevâncias quanto profundezas. Poemas-passagens, que levam o imaginário a veredas excentricamente belas; poemas impressionistas, como se escritos ao ar livre, com rápidas pinceladas; poemas diminutos, que suspendem a resolução das tensões sonoras. Este livro mostra como a escrita, além de transformar experiência em linguagem, pode fazer o contrário; a linguagem torna-se experiência, experimento, improviso. Mais do que traduzir o mundo, a linguagem inventa outro mundo (ou vários). “O mar da história é agitado”, escreveu Maiakóvski, mas aqui o tempo é suspenso para que possamos reparar nele. Porque à margem do caos plana o frescor de um mistério em fase de revelação. 7


Ă€ Matio Morimoto, meu primeiro mestre Zen (in memoriam)

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fug a z o m u n d o

pinta tanta coisa na vida da gente que nem sempre se sente o que ĂŠ necessĂĄrio para pintar um quadro raro sincero e profundo fugaz o mundo. nem sempre se chega ao fundo.

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espantado

de repente ele espantou. um corpo espatifado espantando outras pessoas. estapafĂşrdio acontecimento. um tapa na cara pra acordar e uma estampa na camisa suja de vermelho.

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o t i ro

saiu pela culatra o tiro aquele velho tiro na contramĂŁo parando os carros voltou pra passarela sambando embalos voltou pra avenida fazendo estrago rodopiou e caiu enfim (...) ileso

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a vel a

virado ao acaso o prato serve de sapato Ă vela acesa sobre a mesa a vela agradecida pisa mas pisa macio se derrete toda num ato gentil atĂŠ que nĂŁo sobre nem mais a incerteza a vela desencarna sobre a mesa

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d o ri o

sob os pés do absurdo corre um rio sábio sibila cintilante por entra pedras e desvarios fica e passa fica e passa à espera das palavras asas dadas à imaginação do rio.

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o s fino s tr ato s que re c e b i na i l ha

os finos tratos todos que recebi na ilha foram como um fato farto fogo louco todo foi como rima que anima o poema foi como credo cego recitado por um incrédulo ego foi como um neto para os avós cujos nós já estão desfeitos mas os laços continuam estreitos os finos tratos todos que recebi na ilha foram como um novo samba que nunca foi tocado ou como uma velha alegria que agora não mais é pecado

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p ap éi s chi n es es

do céu azul choviam papéis chineses picotados e vermelhos muitos papéis do céu azul caíam as chinesas embaixo bonitas e bem arrumadas olhavam para o céu azul e esperavam os papéis pousarem em seus rostos como se fossem campos de pouso de olhos puxados esperavam os papéis caírem em seus rostos e assaltar suas almas e inundá-las de festa.

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cai a noite abro os olhos que tudo escuta

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a a ta

ainda agora ela me amola num amontoeiro de uma coisarada mas faz sala a construtora quando termina me aninha e numa empreitada se embrenha na mata e a ata da reunião com a deliberação final e derradeira nem leu.

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c ica t riz

faria diferença a crença do estado em si o estar alado ou inserto em cicatriz o tempo marca a terra, a enxada é rasa o pão à mesa o poeta galopa em nuvens mas não come luz.

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p a d rõ es

contava os passos entre os padrões retangulares das calçadas (três para cada um deles) e como sina, tentava não pisar na linha até que um dia a noite – meio atrasada – me abraçaria e minha mão apertaria como a um irmão que há muito partiu sorrindo com seus dentes de estrelas dançando com seus pés de cometas me inundaria e destituindo déspotas (como os de Moscou) assim me diria – ao final da festa – enfim

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quem eu sou


com vi sta pro mar

nada que assusta de dentro da blusa ofusca a voz que transcende e muda o mudo beijo de abelha do curvado espaรงo que era o fato dado mas se transfigurou em ato instaurado nesta varanda da casa de praia com vista pro espelho

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os sonhos nĂŁo cabem em banheiros

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q uando me vi

quando parei e me olhei no espelho do mundo fiquei profundo o ego incrĂŠdulo derreteu e correu se escafedeu playboy perdeu depois sorri e caĂ­ de joelhos

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u rg ên c i a

quando o poema pensou em ser escrito a caneta por vontade própria se jogou no chão o papel virou origami e voou feito gavião o poeta fez que não era de sua conta e foi se deitar no colchão mas o coração bateu e coração de poeta não é igual coração de ateu a urgência que sentia virou título da poesia.

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vago ĂŠ o vagalume que vaga no vazio

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fa nta s i a

a minha fantasia ĂŠ que antes de ser eu sou poeta. e o poeta, como fantasia, se veste de mim.

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b orb ol eta

a borboleta flor amor doce amargo tambÊm ei minha flor amor desejo dor ei dor velha acochambrada no peito vapor amarelo bagaço de cana caído no chão de terra vermelha e quente

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em b a i x o d a b l u s a

ela tira a blusa azul que usa e me mostra a cicatriz cego não vejo por estar vestindo um enorme ego ela tira a bota a touca as meias mas não me clareia já tendo a ideia me peço a ida à próxima esquina (para ver se ali me encontro) me prego a peça e caio nela já sem mim eu vejo (vê-se) e dela me inundo ela completa e todos os seres do mundo

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no fundo todos querem ser imundos

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so b re o ato d e es ta r a l a d o

sobre o ato de estar alado invariavelmente ĂŠ sobre-medida e as meninas bonitas circulando pela rua com asas abertas, alegorias alas cobertas, flores de um dia hasteadas hastes ao sobreposto desejo de agonia holofotes aos anseios mais alegres: na apoteose de um novo samba, quem sobrevoa a passarela agora sou eu

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a sopa na mesa e tudo me foge agora pensava na bezerra

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ateu d e ca p el a

hoje sei sou um moralista sem tamanho de uma moral de igreja invertida crítico-caquético-catequéticocatedrático-cafona inflexível inversamente proporcional à sanfona

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mol eq ue d a e sc ur id ão

(saindo do banho, a toalha feita de véu trazendo sombra ao rosto assustado) –moleque da escuridão, aonde foi seu carcará?!

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es p el h o

acordei e olhei para o espelho pisquei e minha imagem refletida sumiu saiu correndo tropeรงando em tudo derrubando muro e o que mais encontrou pelo caminho foi ali mesmo no espelho do banheiro e na pia, um copo com รกgua pela metade

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cora ção d e e l efante

tô com o coração igual a time pequeno sempre azarado, chegando atrasado tô com o coração maltratado como a defesa mais vazada do estado tô com o coração sem ritmo na vida de quem já não entra em dividida tô com o coração inseguro que toma balaço até no escuro tô com o coração incompleto jogador expulso, o meio de campo deserto tô com o coração sem capacidade de criação, sem iniciativa, só volante e becão tô com o coração no escanteio mas do outro time me trazendo receio tô com o coração impedido dessa linha pra frente só escondido tô com o coração na reserva quem sabe não muda com novos atletas

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ca s a - g ra n d e

sou o preto da casa-grande o Buda nagô o americano europeu tal qual Shiva falou sou um parto na morte um cais no deserto um antro no altar o eclipse solar sou a pátria do exílio o carinho do soco um cego clarividente sou eu sim senhor uma pedra no sapato de quem classifica segrega separa divide hoje, sou eu quem decide.

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pela manhã é o amanhã que ainda tem muito que esperar

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v i a l á ctea

só pra constar antes do álbum vem a canção antes da canção o verso antes do verso o coração e aí, meu amigo, está a confusão porque no coração está o verso está a canção e está o álbum e não para por aí está a discografia e um sentimento difuso da via láctea toda.

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b uldogues p e l a r ua

o importante mesmo ĂŠ ter um bom relacionamento com o cacique

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pa s ta a l d ente

andei um bom tempo por aí apressado quando não chegando atrasado fora do tom burro empacado ou cavalo desembestado mas um dia chegou a hora de tropeçar e cair no compasso a dança só é bem-feita quando sem esperança

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ando vazio pego sereno e nĂŁo sinto frio

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a vespa fica vesga ao ver a vasta via lรกctea

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sentido que invento: sentimento

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amor é um d r ama

amor é igual ferida, um drama mas ferida quando inflama, fica sério e amor quando fica sério, inflama

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va l s a

sopro, sonho, valsa a criança dança e como seu legítimo herdeiro me torno daqui de onde o tempo curva inteiro

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saindo de si

quando precisei sair e desafogar do desaforo mesmo (estanque ali parado sendo levado pelas circunstâncias) me veio um instante de medo mas depois esqueci e saí quando precisei sair estava inundado de mim mesmo mas me escorri me torci até sair inteiro caiu até cabelo roupa, touca e desespero fiquei tão sem tão rarefeito que fui eu por um instante o mundo inteiro

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vecchi o

eu viro a vela para o destino vero para onde velejo o velho sĂł estĂĄ no pensamento e no verbo derivado pensar o vento ĂŠ quem nos faz na verdade navegar

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escurece

esquálido escapulário dado sórdido destino fato embroma, embroma e desce a ladeira embroma, embroma e desce de noite, é dentro de si que escurece

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g alochas

como escapa, às vezes, a poesia do poema tudo que verso, tudo

não me faz entrar

que rima

no clima a poesia fica rala supérflua e chata. a poesia às vezes usa galochas.

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i n venta çã o

o mar arrebenta na praia e eu fico aqui de tocaia para apanhar pensamentos eu quase nada invento

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ab ra ço

até hoje não sei até onde vai o meu abraço se neste corpo eu me caibo ou se falta ou sobra um pedaço me olho e reolho mas não sei se me acho

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p ô r- d a - ru a

o que se põe agora além do Sol além da Lua é a rua que estava antes nua mas ao passar pela esquina se vestiu com a neblina

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todo s o s futuro s d o mun d o

no vidro de maionese ela se trancou por algum tempo lhe coube o lugar mas pelo que se soube depois de alguns dias faltou ar entĂŁo lhe explico: as pessoas pelas ruas exalavam Ăłdio e diziam nomes enquanto sem se darem as contas sepultavam os pomares, mares, ondas. (distopia do cotidiano ruĂ­nas do projeto civilizacional).

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então ela se trancou no vidro de maionese mas depois de alguns dias faltou ar quando não pôde mais respirar escalou o vidro e retirou a tampa. equilibrou-se na beirada e saltou um salto ornamental como se fosse abraçada caiu suave em uma grande piscina nessa piscina cabiam todos os futuros do mundo

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c’est fini

acabar é uma tentativa ingrata pois no acabar não cabe quase nada pois mais concluídas que se finjam as coisas começam onde terminam por isso amigo é que eu digo acabar é uma tarefa que não se leva a cabo pois este mundo não tem rabo

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[201 6 ] Pri mei ra Edi çã o

Profile for Bruno Manfra

o rio que naquele espelho vi  

o rio que naquele espelho vi  

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