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COMO VIVEMOS?

Projeto de tipologias de habitações típicas paulistanas contadas em quadrinhos

Bruno Jin Young Kim orientação: Alexandre Delijaicov

| julho.2011


COMO VIVEMOS?

Projeto de tipologias de habitações típicas paulistanas contadas em quadrinhos

Bruno Jin Young Kim orientação: Alexandre Delijaicov

| julho.2011


Aos professores, que na verdade são orientadores aos amigos, que são os verdadeiros professores à família, que é a família mesmo a Kim Dong Chul


I | INSPIRAÇÃO 06 I.I TRAJETÓRIA ACADÊMICA 10 I.I I MOTIVAÇÕES

I I | QUEM SÃO OS PAULISTANOS? 16 I I.I A POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO 18 I I.I I O QUE DIZ A RENDA? 24 I I.I I I O PAULISTANO DAS ESTATÍSTICAS

I I I | COMO E ONDE VIVEM OS PAULISTANOS? 32 I I I.I A “FABRICAÇÃO” ATUAL DO MUNICÍPIO 34 I I I.I I A NOSSA VIDA NESSE MUNICÍPIO

IV | COMO SÃO FEITAS AS MORADIAS PAULISTANAS? 38 IV.I A ARQUITETURA DE CADA CLASSE SOCIAL 40 IV.I I OS DISTRITOS E SUAS ARQUITETURAS

V | QUAIS SÃO AS MORADIAS TÍPICAS PAULISTANAS? 102 V.I AS MORADIAS TIPO

VI | AS MORADIAS TIPO VI I | COMO VIVEMOS? (RASCUNHO) VI I I | COMO VIVEMOS?


I| INSPIRAÇÃO


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I.I TRAJETÓRIA ACADÊMICA

Para entender as motivações que me levaram a desenvolver esse trabalho, é preciso considerar os interesses que guiaram a minha trajetórica acadêmica ao longo do curso. Talvez, a característica que mais me atraiu na FAU foi a produção estudantil extra-curricular. Pesquisas, publicações, produções audio-visuais e intervenções executadas por iniciativa dos alunos com ou sem amparo dos meios acadêmicos oficiais. Entre elas, a revista Caramelo, com monografias de professores e alunos sobre a produção arquitetônica atual, a revista Contravento, com reflexões sobre a cidade exprimidas por meio da experimentação gráfica, e a Cogumelo, que, a princípio surgiu como uma sátira à falta de produção da Caramelo, cujo objetivo era produzir quadrinhos com frequência de forma descompromissada com temas como arquitetura e política e que acabou sendo um trabalho que dava continuidade à produção de quadrinhos de núcleos anteriores que sempre foram presentes no histórico da faculdade. No entanto, ao ingressar a faculdade, muitos daqueles núcleos de produção estudantil que tanto me interessavam estavam minguando ou completamente extintos. Dessa forma, comecei a me interessar em juntar amigos para formar novos grupos para retomar a produção que havia cessado. Com o início do curso de Design no ano que entrei na FAU, foi possível aproximar alunos dos dois cursos nas reuniões desses núcleos, o que acabou gerando discussões interessantes sobre os temas recorrentes na faculdade e também algumas publicações e intervenções


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AUP179 Projetos Normativos


puderam ser executadas. 10 Um dos grupos com que mais me envolvi foi a Cogumelo. No entanto, como tinha certeza que meu interesse principal era projeto do edifício, frequentemente me perguntei sobre a relevância de participar em núcleos que aparentemente não tinham nada a ver com arquitetura. Com o passar do tempo, percebi que a participação no núcleo havia, de certa forma, acrescentado mais uma forma de se pensar no projeto dos espaços. Isso porque, parte das discussões eram voltadas para a relação do quadrinho com a arquietura. Ao fazer as plantas e cortes do projeto de arquitetura, percebi que o que eu antes considerava apenas uma escala humana para dar a noção das dimensões dos espaços, agora era um personagem que habitava o espaço que eu havia projetado. Dessa forma, em algumas situações durante a elabooração do projeto, me colocava na posição desses personagens, o que me dava uma outra aproximação com o projeto e que, muitas vezes foram determinantes para a tomada de algumas decisões. Passei a imaginar o desenho da arquitetura habitado por um personagem que percorria os espaços, como uma história em quadrinhos. Como por exemplo no corte ao lado, feito na disciplina de projetos do terceiro ano, em que as escalas humanas não são estáticas, mas é o morador sentado em sua cama ou o comerciante que abastece sua loja com mercadorias. Pensar dessa forma acabou me dando uma maior compreensão do funcionamento dos espaços que estavam sendo desenhados. Esse tipo de leitura acabou se tornando uma ferramenta de projeto e um hábito que se repetiu nos projetos posteriores.


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AUP152 Projeto VI


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I.I I MOTIVAÇÕES

A compreensão do desenho de arquitetura depende de certas convenções, assim como qualquer outro tipo de comunicação. Por isso, sempre me incomodou a dificuldade de comunicação entre arquitetos e as pessoas para quem a arquitetura está sendo feita. Muitas vezes, por falta de contato com o desenho técnico, o cliente tem dificuldade na compreensão dos desenhos. Com a convivência com o núcleo de quadrinhos, no entanto, acabei cruzando com alguns autores que se utilizam em muito de elementos do desenho de arquitetura nos seus quadrinhos. Entre eles está Will Eisner, em que o cenário onde estão os personagens é fundamental o desenvolvimento da narrativa da história e Cris Ware que se vale de desenhos em projeção perpendicular ou no máximo isométricas. Dessa forma, desejei que o trabalho pudesse melhorar a compreensão do desenho de arquitetura por aqueles que não tem nenhum contato com ela. Quando mostramos um corte de um edifício, a compreensão dos espaços é muito difícil, no entanto, a partir do momento em que “habitamos” esse desenho com o carro passando rua, as pessoas na calçada e os moradores vivendo seus cotidianos nos apartamentos, o desenho se aproxima dos quadrinhos, e acaba se tornando mais compreensível. Além disso, ao longo da formação, nos deparamos com alguns desenhos-chave que explicam algumas situações como visibilidade, fluxos e ventilação. Como o trabalho tem uma característica didática, voltada para o público não necessariamente arquiteto, julgou-se interessante que ele reunisse alguns desses desenhos de forma a servir como uma biblioteca de


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pequenas lições. 13 O estudo das tipologias de habitação do município de São Paulo e a vida dentro delas foi escolhido como tema principal uma vez que é o tipo de edificação mais recorrente e talvez, o espaço que todos vivenciamos mais. Particularmente, me interesso pelo tema uma vez que é a edificação que basicamente compõe o “miolo” da cidade. É o que preenche o espaço entre os eixos estruturadores da cidade como vias, eixos comerciais, de serviço, etc... Propõe-se estudar e criticar essa arquitetura feita em massa, principal fator de expansão frenética da mancha urbana. Arquitetura essa que trata antes das relações de custo e lucro do que considerar aspectos de relações humanas e dignidade de moradia. Dessa forma, o trabalho se divide em duas etapas. A primeira, de pesquisa a esse tipo de arquitetura tentando ser o mais impessoal, tratando os projetos a serem desenvolvidos como mera consequência da lógica projetual atual e a segunda etapa, que é a crítica à essa produção na forma de quadrinhos.


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WILL EISNER NOVA IORQUE


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CRIS WARE JIMMY CORRIGAN


I I|QUEM Sテグ OS PAULISTANOS?


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I I.I A POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO

De acordo com o IBGE, a população do município de São Paulo era mais de 11 milhões de habitantes. Porém, é certo que esse número é composto de uma grande variedade de pessoas de diferentes cenários, etnias, situações, rendas, etc...Então, o que significa esse número? Quem é o paulistano? O artista, Alex Flemming, partindo da mesma indagação, resolveu tirar retratos de transeuntes que passavam pela Avenida Paulista procurando saber qual é o perfil do paulistano. No entanto, pelo resultado das fotografias, é possível concluir que a procura desse perfil é muito mais complexa e vai além de aspectos da fisionomia. A cidade e as habitações, a princípio, são feitas para esses 11 milhões de pessoas, no entanto, cada pessoa tem necessidades diferentes aos quais o espaço deveria responder. Já que não há condições de se fazer um tipo de moradia para cada família, como é dividida essa população levando em consideração a especificidade de cada um? Quais são os critérios de agrupamento? As pessoas têm diferentes características segundo as quais seria possível formarmos inúmeros conjuntos diferente levando em consideração critérios diferentes. Por exemplo, estabelessessemos como critério de agrupamento a etnia, tão rica no nosso município, provavelmente acabaríamos formando grupos diferentes em que as principais características em comum entre as pessoas de um mesmo grupo seriam a fisionomia, que acaba refletindo na ergonomia dos espaços (dimensionamento dos espaços e objetos levando-se em consi-


deração as dimensões humanas) e aspectos culturais, que acabam refletindo na organização espacial e funcional da casa. Em outras palavras, uma casa feita para uma família de descendentes africanos seria extremamente diferente de uma casa para famílias orientais. As dimensões dos cômodos seriam diferentes uma vez que os africanos tendem a ter corpos mais robustos que os orientais, e a organização dos cômodos da casa também seria diferente, uma vez que as culturas e valores são diferentes. No entanto, nem a cidade nem os edifícios são feitos levando-se em consideração esse critério. Agora, pensemos de outra forma. Quem constrói a cidade e para quem eles constróem as habitações? Em tese é para nós. Mas para eles, quem somos nós? São basicamente três os agentes que atuam na construção atualmente. O mercado imobiliário, o Estado e a construção informal. E como os “clientes” são distribuidos entre esses três agentes? É tudo uma questão de renda.

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ALEX FLEMMING SUMARÉ

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I I.I I O QUE DIZ A RENDA?

A população pode ser dividida em 7 grupos, segundo sua renda. A1 (25sm<), A2(15sm-25sm), B1(10sm-15sm), B2(5-10sm), C(2-5sm), D(1sm-2sm) e E(<2sm) sendo “sm” sigla para “salário mínimo. A partir da renda, é possível saber diversas características que traçam o perfil da fatia econômica a partir de tabelas de instituições como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Seade (Fundação Sistema de Análise de Dados) e FGV (Fundação Getúlio Vargas). Por exemplo, se uma família pertence ao grupo A1, pode-se saber quais são os bairros em que essa fatia tem maior representatividade em porcentagem, a taxa de fecundidade das famílias desse bairro e talvez até a profissão provável dos membros dessa família e os crimes aos quais essa família está mais vulnerável. Portanto, os agentes construtores podem estabelecer o programa de necessidades básico para seus edifícios de habitação a partir o tratamento das pessoas como dados de estatística. Em outras palavras, faz-se uma generalização das pessoas a partir da renda a fim de se construir a habitação.


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1.Medicina Salário médio: R$ 8.977,07 - mestre ou doutor R$ 6.705,82 - graduado 2.Administração Salário médio: R$ 8.112,20 - mestre ou doutor R$ 4.006,61 - graduado 3.Direito Salário médio: R$ 7.490,19 - mestre ou doutor R$ 4.649,63 - graduado 4.Ciências econômicas e contábeis Salário médio: R$ 7.085,24 - mestre ou doutor R$ 4.644,67 - graduado 5.Engenharia Salário médio: R$ 6.938,39 - mestre ou doutor R$ 4.931,61 - graduado 6.Engenharia mecânica Salário médio: R$ 5.576,49 8.Engenharia civil Salário médio: R$ 5.476,85 9.Geologia Salário médio: R$ 5.285,77 10.Engenharia elétrica e eletrônica Salário médio: R$5.231,07 11.Militar Salário médio: R$ 5.039,14 12.Ciências agrárias Salário médio: R$ 5.028,37 13.Ciências biológicas e da saúde Salário médio: R$ 4.947,44 14.Engenharia química e industrial Salário médio: R$ 4.844,92 15.Ciências humanas e sociais Salário médio: R$ 4.677,14 16.Agronomia Salário médio: R$ 4.356,56 17.Propaganda e marketing Salário médio: R$ 4.199,05 18.Odontologia Salário médio: R$ 4.075,63 19.Letras e artes Salário médio: R$ 3.864,82 20.Estatística Salário médio: R$ 3.846,21 21.Arquitetura e Urbanismo Salário médio: R$ 3.835,08 22.Medicina Veterinária Salário médio: R$ 3.758,94 23.Física Salário médio: R$ 3.516,52 24.Química Salário médio: R$ 3.516,52 25.Comunicação Social Salário médio: R$ 3.435,09 26.Farmácia Salário médio: R$ 3.381,98 27.Ciências da Computação Salário médio: R$ 3.325,40 28.Outros de Ciências Agrárias Salário médio: R$ 3.278,04 29.Pedagogia Salário médio: R$ 3.219,14 30.Ciências contábeis e atuariais Salário médio: R$ 3.105,60 31.Outros de ciências humanas e sociais Salário médio: R$ 3.099,10

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TABELA DE SALÁRIOS MÉDIOS SEGUNDO PROFISSÃO FGV


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DISTRIBUIÇÃO DOS DOMICÍLIOS, POR FAIXAS DE RENDA FAMILIAR, SEGUNDO DISTRITOS DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO 2000 Seade


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TAXA DE FECUNDIDADE TOTAL 2000/2002 Seade


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I I.I I I OS PAULISTANOS DAS ESTATÍSTICAS

Os dados e estatísticas definem as características dos paulistanos agrupando-os segundo algumas características em comum. Portanto, se reinterpretarmos esses dados e tentarmos interpretá-los na figura de personagens, podemos chegar à caricatura do que seria o cidadão típico. Ao longo dos anos, vários estudos foram feitos à procura das proporções e medidas do que poderia ser considerado o homem universal. Procurou-se achar a lógica dos cânones das proporções humanas. Essa pesquisa é melhor representada pelo “Homem Vitruviano” de Leonardo da Vinci em 1940. As proporções humanas sempre foram objeto de estudo dos arquitetos, uma vez que o espaço é feito para o ser humano. Dessa forma, descobrir os cânones seria uma forma de transformar os edifícios mais harmônicos ao homem. Mais tarde, esses estudos foram usados e continuados a fim de que os espaços pudessem ser projetados levando em consideração o conforto da pessoa no espaço. A conclusão dos estudos foi que esses cânones variam de local para local. Consideremos como base de desenho as proporções do homem paulista. Se atribuirmos as características das estatísticas para essa pessoa, podemos traçar o que seriam as famílias tipo do município com dados como renda, distrito de residência, número de filhos e até a profissão do chefe da família. Para representar a variedade de fisionomias e personalidades dentro desse universo, tomemos como inspiração alguns dos atributos de celebridades.


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O HOMEM VITRUVIANO LEONARDO DA VINCI DER MENSCH NEUFERT

MODULOR LE CORBUSIER

DESENHO FEITO A PARTIR DOS CÂNONES BRASILEIROS desenhado por FERNANDO MARTINES


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A FAMÍLIA DA CLASSE ALTA distrito: Moema taxa de fecundidade: 1,20 profissão do pai: advogado


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A FAMÍLIA DA CLASSE MÉDIA distrito: Moóca taxa de fecundidade: 1,50 profissão do pai: engenheiro


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A FAMÍLIA DA CLASSE BAIXA ALTA distrito: Cidade Tiradentes taxa de fecundidade: 2,02 profissão do pai: motorista


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A FAMÍLIA DA CLASSE BAIXA BAIXA local: Favela taxa de fecundidade: não levantado profissão da mãe: trabalho informal


I I I| COMO E ONDE VIVEM OS PAULISTANOS?


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I I I.I A “FABRICAÇÃO” ATUAL DO MUNICÍPIO

Para entendermos o crescimento da São Paulo atual, é preciso entender primeiro os fatores que conduziram o crescimento dela ao longo da história até atingir o estado em que nos encontramos. O crescimento de São Paulo só se deu de fato quando o negócio do café veio do nordeste e se estabeleceu nas terras férteis do Vale do Ribeira. Dessa forma, uma nova burguesia foi sendo formada na região e estabeleceu suas chácaras no território que acabaria sendo ocupado pela cidade de São Paulo. Essa burguesia investiu na instalação de infra-estruturas na cidade, principalmente no que diz respeito ao transporte. Primeiro vieram os bondes da Inglaterra que ligavam as chácaras dos barões do café e faziam o transporte no centro. Mais tarde, veio o advento do automóvel. A essa época, começava a marcar a paisagem paulista a construção de arranha-céus naregião do centro e dessa forma a cidade foi se firmando e consolidando infra-estruturas como edifícios públicos, correio e parques, sempre espelhando o estilo em voga na Europa. Dentre esses novos edifícios vale ressaltar a presença da construtora de Ramos de Azevedo dada a quantidade de edifícios com presença marcante que construiu na época. No entanto, junto com a infra-estrutura veio a especulação imobiliária nas regiões ao redor destas, o que impossibilitou a população de renda mais modesta a viver em regiões centrais. Se antes era a várzea que era a região menos valorizada devido a frequentes inundações e origem de surtos de epidemias, agora os mais pobres procuravam regiões cada vez mais


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periféricas para poder morar. Essa situação é clara até os dias de hoje. 35 Em tese, caberia ao poder público construir moradias e levar infra-estrutura para a periferia para possibilitar um assentamento adequado sem comprometer os recursos geográficos naturais disponíveis. No entanto, o crescimento da população paulista era tão grande que o Estado não conseguiu acompanhar o ritmo do crescimento da cidade e acabou permitindo a construção de moradias inadequadas em regiões impróprios. Talvez por falta de interesse em investir maciçamente nessas regiões, os conjuntos habitacionais construídos pelo Estado são até hoje de uma qualidade muito baixa e ainda assim insuficiente em relação à demanda. Assim, a mancha urbana foi crescendo em um ritmo tão frenético e sem planejamento que a cidade acabou atingindo o estado em que se encontra hoje. Enquanto isso, foi o mercado imobiliário que se apropriou daquelas áreas mais providas de infra-estrutura. Nesse breve resumo da história de São Paulo podemos identificar o papel que cada um dos três agentes construtores construiram e constróem nossa cidade até hoje. São eles o mercado imobiliário, o poder público e a construção informal.


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I I I.I I NOSSA VIDA NESSE MUNICÍPIO

Foi dessa forma que o município foi construído e convivemos com as implicações dessa história até hoje. Uma das consequências principais, talvez o maior problema da metrópole atualmente, seja o problema da locomoção. Em parte, ela decorre de dois fatos históricos. O primeiro, é que a população de renda mais baixa foi obrigada a se mudar para regiões mais periféricas. Esse movimento não foi acompanhada de uma distribuição melhor das ofertas de trabalho. Como pode-se ver no mapa ao lado, as ofertas de trabalho ainda hoje se concentram na região central. Disso decorre a grande necessidade percorrimento de grandes distâncias entre moradia e trabalho de um grande contingente de pessoas, o que, inevitavelmente agrava o problema do trânsito. O segundo fato é a priorização do automóvel sobre o transporte coletivo. É inegável que o automóvel como meio de transporte foi considerado como prioridade sobre o transporte coletivo em várias cidades no mundo em meados do século XX. No entanto, o movimento que trouxe de volta a importância do transporte público diante do problema da dificuldade de locomoção devido a congestionamentos nessas cidades ainda não foi aceito em São Paulo. A criação de grandes vias e estruturas como pontes para a locomoção do transporte individual também são fatores determinantes que ajudam a segregação da cidade tanto em termos econômicos quanto sociais. Além disso, a falta de planejamento frente à expansão frenética da mancha urbana acaba tendo como consequência problemas como inundações frequêntes, falta de parques acessíveis para lazer, diminuição da oferta de água potável entre outros além do agravamento da questão do transporte.


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e a o -

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MUNICÍPIO

AS EM MAP MÁTICA

Estabelecimentos, segundo Setores de Atividade Distrito do Município de São Paulo 2004

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Distritos

Distritos

Distritos

Número de Estabelecimentos

Número de Estabelecimentos

Número de Estabelecimentos

1.580 1.501 1.422 1.343 1.264 1.185 1.106 1.027 948 869 790 711 632 553 474 395 316 237 158 79 0

2.899

3.016

2.754

2.865

2.609

2.714

2.464

2.563

2.319

2.412

2.175

2.262

2.030

2.111

1.885

1.960

1.740

1.809

1.595

1.658

1.451

1.508

1.306

1.357

1.161

1.206

1.016

1.055

871

904

727

754

582

603

437

452

292

301

147

150

3

0

0 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego. Relação Anual de Informações Sociais - Rais. Nota: Realizado com Philcarto - http://perso.club-internet.fr/philgeo

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URBANA

Serviços

Comércio

Indústria

SÉRIE TE

ECONOMIA

6

12

Quilômetros

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IV|COMO Sテグ FEITAS AS MORADIAS PAULISTANAS?


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IV.I A ARQUITETURA DE CADA CLASSE SOCIAL

Até agora, pudemos ver como os três agentes construtores construíram o município de São Paulo e quais são as consequências diretas da construção desse ambiente em nossos cotidianos. Como cada agente tem um “público alvo” diferente, pode-se associar cada um segundo classe social. O poder público, com companhias como a CDHU, Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, atende às famílias com renda de um a três salários mínimos, o que equivale às classes C e D. Dessa forma, pode-se deduzir que as famílias abaixo dessa faixa de renda têm suas moradias construídas pela construção informal e as famílias acima dessa renda são disputadas pelas empreteiras do mercado imobiliário. Dentro deixa faixa extensa de renda, no que se refere à tipologias de apartamentos, pode-se separar o mercado em dois: o mercado imobiliário de alto padrão e o de médio padrão. Como metodologia de estudo, vamos eleger os distritos mais representativos de cada classe social para analisar como é feita a moradia de cada grupo. Para efeito de pesquisa, vamos reformatar as classes sociais em classe alta, classe média, classe baixa alta e classe baixa baixa. A partir da tabela de rendas da Seade, podemos deduzir quais são os distritos mais representativos de cada classe social. O distrito que mais representa a classe alta (A1 e A2) é Moema. Observa-se que a classe média (B1 e B2) é bem distribuída no território do município. No entanto, vamos tomar como objeto de estudo a região do distrito da Moóca, que hoje passa por um processo muito


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comum em São Paulo que é a proliferação de condomínios fechados com torres de mais de vinte andares em grandes terrenos frente às construções já existentes no local. A classe baixa alta (C e D) pode ser representada pelo distrito de Perus ou Cidade Tiradentes. Vamos eleger como distrito representativo o segundo uma vez que é o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina. Já a classe baixa baixa (E) reside em lugares muito periféricos ou onde ninguém despertou interesse diante da impossibilidade de se edificar qualquer coisa com qualidade. São as favelas, localizadas principalmente em regiões de risco de inundação ou desmoronamento. A seguir, iremos estudar cada um dos distritos eleitos levando-se em consideração a sua formação histórica e o principal agente construtor das moradias. Além de monografias complementares, utilizou-se do desenho como meio de estudo e reflexão das regiões. Procurou-se fazer uma caricatura de cada distrito no que diz respeito à sua paisagem e tecido urbano. Foi através da busca pela caricatura que se refletiu sobre aspectos como gabarito e plantas das edificações, presença ou não de áreas verdes, traçado de vias, largura da calha da rua, faixas de pedestre, etc...

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IV.I I OS DISTRITOS E SUAS ARQUITETURAS MOEMA Classe alta Mercado imobiliรกrio de alto padrรฃo


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Moema era o nome de uma parada do trem a vapor que ligava São Paulo com Santo Amaro e, a partir de 1913, a região passou a ser propriedade da Companhia Territorial Paulista que, posteriormente, loteou o terreno. A região tem um padrão de ocupação de quadras retangulares de aproximadamente cem por cem ou cinquenta por cem metros a 45 graus em relação ao eixo leste-oeste, na maior parte da região. Esta orientação, que permite bom aproveitamento da luz solar pode ser indicado como um dos fatores que contribuem para a valorização e sucesso dos empreendimentos imobiliários residenciais ali lançados e que tanto marcam a paisagem. As ruas têm em média 12 metros de largura e é caracterizada durante os dias da semana por tráfego de veículos leves na região predominantemente residencial. A presença do Parque do Ibirapuera também é um fator que influi no alto valor da metragem quadrada das residências ali presentes. As quadras menores, de cem por cinquenta metros são predominantemente de casas e sobrados com pouco ou nenhum recuo lateral enquanto que as quadras de cem por cem metros são ocupadas em sua maioria por torres residenciais soltas no lote respeitando um a taxa de ocupação de 0,5 e um coeficiente de aproveitamento de até 2,5. Devido ao tamanho do lote e demandas do mercado imobiliário, os edifícios resultam em torres de 15 andares em média com dois apartamentos de cerca de 150m2 ou um apartamento de 300m2 por andar.


O mercado imobiliário é o setor que lida com a comercialização de edifícios. Tratando-se de habitação, além de ser um local onde uma pessoa ou família vai morar, é também um produto que deve ser comercializado visando o lucro daquele que investiu capital na produção deste. Desta forma, ao longo dos anos, foi se montando um sistema de produção que visa a melhor eficiência em se atingir o objetivo de se lucrar mais a partir de um dado investimento. Ele consiste em quatro frentes de trabalho: incorporador| contrutor| arquitetura| vendas O incorporador, hoje em dia, também faz a função de construtor, visando a redução de etapas no processo. Este, através de estudos e enquetes define o local e uso de um possível empreendimento e os apresenta aos construtores e arquitetos para que o projeto possa ser desenvolvido. Muitas vezes, a partir desses estudos, as incorporadoras desenvolvem material junto com equipes de propaganda e marketing e os apresentam à equipe responsável pela arquitetura para que um projeto seja feito em função do material de divulgação. Esse material é decorrência de pesquisas de demanda, que procura saber o que as pessoas querem, e pesquisas de oferta, que procura saber quais imóveis foram vendidos na área recentemente. Algumas vezes, o arquiteto participa de todos os processos, mas isso não é tão frequente. Terminada a etapa de pesquisa e desenvolvimento da propaganda e marketing, esse material é apresentado aos arquitetos que ficam encarregados em espacializar o produto criado pela propaganda. Em outras palavras, não se vende uma arquitetura com essas ou aquelas qualidades, mas se vende um modo de vida, que não necessariamente é assegurado pela arquitetura. Isso porque, muitas vezes, não se pode resolver todas as demandas do público alvo em um lote visto as suas peculiaridades e legislações. Dessa forma, segundo Elizabeth Goldfarb, arquiteta formada pela FAU-USP atuante no mercado imobiliário, os arquitetos “Não fazem o projeto de arquitetura, [mas] racionalizam o


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projeto obra”, projeto este que procura satisfazer à medida do possível uma série de demandas feitas por um público alvo sem nenhum tipo de consideração com as peculiaridades do entorno do empreendimento. No final das contas, o arquiteto não faz proposições, mas tenta materializar um modo de vida idealizado pela propaganda que não passa de um desejo do público. No entanto, vale afirmar que nem sempre o que as pessoas desejam é o que, de fato é bom para elas e atender às demandas, nem sempre significa o sucesso garantido de um produto. É por esses motivos que muitos desses empreendimentos são feitos com uma piscina que nunca recebe sol ou com muros altos que impossibilitam a visão para a rua e aumentam a probabilidade de crime nesta via. Todas essas são decorrências do simples atendimento aos desejos do público alvo, sem preocupação em sugerir melhores idéias para a habitação dada a dinâmica do mercado e a necessidade de se vender rapidamente as unidades de forma a recuperar o lucro mais rapidamente. Neste caso, vale citar Steve Jobs, “As pessoas não sabem o que querem até você mostrar a elas.” quando fala sobre o sucesso do iPod. Da mesma forma, em arquitetura, são frequentes os casos em que clientes se supreendem e logo acatam uma proposta feita pelos projetistas em relação à um problema. Christian Topalov, um importante sociólogo e historiador françês define a eguinte relação, TAXA DE RETORNO =

LUCRO LÍQUIDO CAPITAL EMPREGADO x TEMPO

De acordo com essa equação, quanto menor o tempo de execução do empreendimento e o capital empregado, maior a taxa de retorno para o empreendedor. Isso é o que justifica a metodologia de projeto daqueles que trabalham com o mercado imobiliário. Tudo é feito


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visando diminuição do custo, seja em mão de obra ou em material, e diminuição do tempo 47 de projeto e de obra. Atualmente, os projetos complementares e de arquitetura se desenvolveram de forma a ser cada vez mais padronizados de maneira a diminuir interferências negativas um no outro. Dessa forma, os edifícios vão ganhando todos um aspecto semelhante, diferenciados apenas pela fachada. Segundo Aflalo, “o produto vai se aperfeiçoando”. Como parte da pesquisa para se entender a sistematização e programa dos lançamentos imobiliários de lato padrão de hoje em dia, foram coletadas diversos propagandas destes num período de três meses e listados os temas e palavras mais recorrentes chegando-se assim à um apanhado geral de o que os consumidores desse mercado desejam. Pôde-se observar um desejo comum de se morar em áreas de muita vegetação e em edifícios que se destoam na paisagem principalmente pela sua altura. A maioria das plantas tipos dos lançamentos são de uma unidade por andar, o que revela talvez um receio de se perder a privacidade da família, o que, para muitas pessoas significa também um risco à segurança. No entanto, Jane Jacobs, em “Morte e vida das grandes cidades” diz ser de extrema importância a convivência com vizinhos uma vez que a vizinhança zela pela segurança um dos outros sem grande perda da privacidade da família. Existe também uma tipologia de sala muito comum em todos os lançamentos de uma grande sala linear integrada com varanda dividida em três ambientes: televisão, poltronas e jantar. No entanto, apesar de elas aparecerem nas plantas, nem sempre essa sala aparace como na planta nas fotos do apartamento decorado por denunciar a discrepância da dimensão dos móveis nas plantas. Além dsso, empreendimentos deste porte, geralmente oferecem 5 vagas por unidade, sendo uma delas um “box”, ou seja, conversível em depósito. Estranhamente, o número de dormitórios oferecidos costuma ser maior que o número médio de integrantes das famílias no caso de Moema.


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A metodologia de projeto padronizada do mercado imobiliário de alto padrão se reflete 49 claramente na paisagem de Moema. na região do bairro onde os edifícios têm maio predominância, a paisagem é caracterizada por torres de 65 metros de altura na sua média (cerca de vinte andares) isoladas em lotes com frente que variam de 20 a 40 metros e fundos que variam de 20 a 60 metros. Isso se deve às dimensões das quadras que ficam em torno de 100 x 100m e a tentativa de se dividir as quadras em proporções semelhantes. Essa paisagem é um contraponto à de outros distritos do município que passaram por ocupação mais lenta, onde muitos proprietários vão comprando ou vendendo partes de terrenos adjacentes tendo-se então como resultado, lotes com formatos diferentes dos simplesmente retangulares e acabam, por consequência, tendo uma composição da paisagem mais diferenciada. O modo operacional padronizado do mercado imobiliário acaba se refletindo na volumetria dos edifícios, e portanto, na identidade do bairro. Isso porque o produto já está tão desenvolvido e sistematizado, que é difícil que um edifício tenha volumetrias muito distintas, tendo todos o mesmo caráter diferenciando-se apenas pelas fachadas, encarregadas dentro da metodologia projetual à um arquiteto especializado nesta disciplina do edifício. A seguir, segue um estudo de volumetrias dos edifícios de Moema. Observa-se que não se consegue sair dessas proporções (com excessão dos flats).


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Estudo de volumetria dos edifĂ­cios de Moema 1 por andar

Estudo de volumetria dos edifĂ­cios de Moema 2 por andar


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ESTUDOS DE CASO

As padronizações mencionadas anteriormente feitas afim de acelerar o processo projetual e construtivo tratam fundamentalmente de aspectos técnicos do edifício, como menor desperdício de materiais, otimização do tempo da obra e atendimento às normas e legislações do município deixando de lado a relação e o impacto direto que estas edificações têm sobre seu entorno. Isso pode ser comprovado no fato de que raramente, manuais de construção que tratam sobre diretrizes e padronizações de projeto tratam do problema da rua ou calçada. Hoje em dia, afasta-se o edifício do limite frontal do lote e as únicas preocupações que o projeto considera em relação à via é a emissão de ruído que essa pode gerar e a visibilidade que compromete a privacidade dos moradores dos andares mais baixos. Porém, existem experiências no mercado imobiliário com bons projetos que trataram a construção de edifícios residenciais com maior variável de problemáticas e soluções. Algumas delas foram bem incorporadas pelo modo de projetar do mercado, outras incorporadas de forma não adequada e muitas vezes, rejeitadas como será estudado a seguir no estudos de caso.

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EDIFÍCIO PRUDÊNCIA Rino Levi, 1944/ 1948

O edifício, apesar de ser da década de 40, leva em consideração diversos problemas considerados hoje em dia como modulação, flexibilidade de planta, insolação e estacionamento subterrâneo. Hoje em dia, muitos edifícios visam a flexibilidade da planta com o objetivo de satisfazer a uma fatia maior da população. É comum encontrar em anúncios de lançamentos imobiliários expressões como “3 suítes ou 4 dormitórios” e este edifício e este edifício já apresentava esta qualidades. A área destinada a dormitórios não trazia divisões; elas seriam feitas de móveis, divisórias leves, colocadas a critério dos clientes. No entanto, este tipo de divisão não foi acatada pela maioria dos moradores. A implantação em U, solta no lote permite que todos os dormitórios e salas do edifício tivessem boa insolação. Ele possui quatro unidades por andar com um hall de entrada para cada duas unidades. Hoje em dia, edifícios para esse público são feitos, no máximo com dois apartamentos por andar. Isso porque tem-se o preconceito de que quanto menor o número de vizinhos, maior a privacidade. O acesso dos veículos ao estacionamento subterrâneo são feitos pelas extremidades do lote enquanto que a de pedestres é feita pelo meio o que faz com que a calçada sempre tenha alguma dinâmica. Atualmente, a entrada de pedestres também fica no meio do lote e a de automóveis fica em uma extremidade do lote. Isso muitas vezes devido a pouca disponibilidade de frente. No entanto, nos casos em que a frente é mais extensa, concentra-se o acesso de automóveis numa extremidade do lote e ao invés de grades, contróe-se um muro de três metros de altura (o máximo permitido pela legislação) a fim de uma suposta privacidade e segurança. No entanto, isso acaba criando pontos cegos, por parte do porteiro, propiciando a ocorrência de assaltos.

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EDIFÍCIO GÊMINI Eduardo de Almeida, 1969

O edifício Gêmini foi projetado por Eduardo de Almeida a pedido da Formaespaço e se 54 localiza no bairro de Moema. Entre suas maiores virtudes, está o rigor da modulação dos elementos construtivos, fundamental na racionalização da construção, e a distribuição dos ambientes na planta. Estes são distribuídos de forma que o morador pudesse acessar um ambiente sem a necessidade de se passar por outro. Isso se deve ao fato de a circulação ser feita através de uma galeria de circulação que hoje, foi incoporada nos grandes empreendimentos como uma solução de distribuição para os seus muitos cômodos. Porém, neste segundo caso, não é possível otimizar este ambiente, que muitas vezes, chega a ter dimensões de um quarto de casal de um empreendimento de médio padrão. Outra característica que o edifício tem em comum com os grandes empreendimentos é a circulação vertical localizada no meio da planta. Isto porque tem um papel de contraventamento e travamento da estrutura de concreto. O fato de os quartos e sala estarem afastados dos elevadores através da galeria de circulação garante que o ruído gerado pelos elevadores não chegue nos cômodos. Em termos de área, o Gêmini tem uma planta muito econômica, pois consegue ter cômodos com dimensões confortáveis com uma área de circulação dentro do apartamento muito reduzida.


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EDIFÍCIO BRETAGNE João Artacho Jurado, 1944/1948

Artacho Jurado, por muito tempo foi condenado pelos seus contemporâneos por divergir dos ideiais projetuais modernistas, reflexos do comunismo. Grande parte da sua produção foi dedicada ao mercado imobiliário, sendo o Bregane, Louvre, Cinderella e Viaductos, provavelmente os mais reconhecidos pelas suas qualidades, localizações e estado de preservação. Suas soluções projetuais de planta tiveram grande influência sobre os projetos desenvolvidos posteriormente no que diz respeito à posição do bloco de elevador e escadas e a disposição dos cômodos consequente à localização deste. No entanto, seus edifícios apresentavam uma infra-estrutura que era um grande diferencial na época e que foi incorporada e foi sendo desfigurada ao longo do tempo. Era comum seus edifícios disporem de bares, piscinas e restaurantes na cobertura ou no térreo. Pode-se intuir que estas infra-estruturas, muitas vezes abertas ao público que não habitante são responsáveis, em grande parte pelo bom estado de conservação dos edifícios uma vez que exige um maior cuidado para que estes serviços sejam bem sucedidos. Atualmente, grandes empreendimentos, principalmente condomínios fechados também oferecem grandes cozinhas, estúdios de música, academia, espaçøs para recém-nascidos e outras infra-estruturas à exemplo do que fazia Artacho Jurado. No entanto, costumam ser espaços de alta manutenção e de pouco uso nos condomínios uma vez que a população destes raramente é suficiente para garantir um uso que compense os custos da manutenção.

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MOÓCA Classe média Mercado imobiliário de médio padrão


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Apesar de existir desde 1556, a consolidação do bairro da Móoca só foi se dar em 1876, quando Rafael Paes de Barros, dono de muitas terras da atual Zona Leste construiu no local o primeiro Jóquei Clube de São Paulo. Isso despertou um grande interesse por parte dos apaixonados pelo esportes que era em grande parte composta pelo mesmo círculo social dos detentores das riquezas que do café, principal fonte de renda que marcou a industrialização de São Paulo. Para se chegar no Jóquei, foi criada uma linha de bonde movida à tração animal que ligava o Centro à Moóca. Mais tarde, os ingleses levaram a estrada de ferro à região com parada no edifício que hoje abriga o memorial do imigrante. Ele era a principal porta de entrada dos imigrantes à cidade. Isso propiciou um forte caráter residencial no bairro, já que os imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, no inicício de 1900 se instalavam por um breve período no bairro antes de partir para trabalhar nos cafezais. As riquezas geradas pelo café juntamente com a disposição cada vez maior de imigrantes com capacitação técnica propiciou a substituição das antigas chácaras por usinas e fábricas e seus operários foram se instalando ao redor delas caracterizando a Móoca como um bairro industrial habitado por operários imigrantes, caráter este que se mantém até hoje. No entanto, a saída dessas fábricas para regiões mais periféricas foi deixando como herança, grandes fábricas abandonadas em imensos terrenos. Atualmente, estas fábricas estão sendo


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compradas pelos profissionais do mercado imobiliário, que vêem nestas áreas um terreno 61 muito propício para a construção de condominínios fechados, muito visados pela população da classe alta média e média alta da sociedade paulista. O funcionamento do mercado imobiliário de médio padrão não difere muito do de alto padrão quando se trata da sistematização do processo que vai desde a pesquisa de demanda até vendas do edifício passando-se pelo projeto. No entanto, vale a pena mencionar que tais empreendimentos estão cada vez mais com características que já foram típicas dos de alto padrão. Por exemplo, os condomínios fechados que possuiam toda uma infra-estrutura para atender aos moradores virou desejo de consumo da classe média e portanto, acabou sendo incorporada, à medida do possível. Hoje, nota-se muito a presença de pequenas varandas com churrasqueira, como uma miniatura do que existe nos grandes apartamentos de 400m2. Vende-se muitos empreendimentos que oferecem estúdio para ensaio de bandas e grandes salões de festas, que acabam sendo subutilizados por serem restritos aos moradores do edifício e os custos da manutenção acabam por ser mais um fator de aumento do valor do pagamento do condomínio do que, realmente uma infra-estrutura disponível. Além disso, é comum a presença de salões de festas que não são equipados convenientemente para receber os eventos que deveriam e acabam não podendo ser utilizados por incomodar os moradores na ocasião de uma festa ou ensaio de banda. Apesar disso, as plantas costumam ser melhor resolvidas em termos de insolação, ventilação e aproveitamento da área em relação aos investimentos de alto padrão uma vez que o número de cômodos é menor e o perímetro que necessariamente deve receber luz solar também diminui.


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ESTUDOS DE CASO

Apesar de ser tão sistematizado quanto o mercado imobiliário de médio padrão, as plantas de mercado imobiliário de médio padrão apresenta, na maioria dos casos, problemas que não são tão graves em relação ao anterior, uma vez que a planta exige uma complexidade menor. No entanto, alguns dos artifícios usados no alto padrão são utilizados também no de médio padrão como por exemplo, aproveitar ao máximo as varandas para contar como área construída, para que esta se torne um produto mais atraente. Além disso, muito do que foi feito no alto padrão se repete nos de médio padrão uma vez que a o público alvo destes empreendimentos sonham num modo de vida semelhante aos dos mais ricos. Isso acaba se refletindo em minaturas de churrasqueiras, garage-bands, quadras poliesrportivas, etc que acabam sendo subutilizadas nestes edifícios não só por falta de população para garantir a dinâmica destes usos mas como também pela falta de qualidade destas por apresentar dimensões muito reduzidas.

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EDIFÍCIO LOUVEIRA

O edifício Louveira, localiza-se em Higienópolis, que apesar de ser conhecido como área muito tradicional, próxima ao centro de São Paulo, foi uma das áreas que mais recebeu João Vilanova Artigas e João Cascaldi, projetos de arquitetos modernistas como Artigas, Rino Levi e Artacho Jurado. 1946 Hoje em dia, é um bairro conhecido pela identidade com a tradição da cultura judia e recebe muitos projetos de arquitetos desta sociedade como Mário Curi e Israel Rewin que têm produção fortemente ligada ao mercado imobiliário. Os dois volumes em forma de lâmina que delimitam um jardim voltado para a praça Vila Boim, frente principal do lote, vão contra a solução que provavelmente teria sido adotada por outro arquiteto da época com solução em “L” com suas fachadas voltadas para as ruas da esquina e com jardim interno fechado. Pode-se dizer que a solução em “L” teria sido preferida por outros arquitetos uma vez que, dessa forma, utiliza-se um único bloco de circulação vertical com elevador e escada para duas unidades. No entanto, a solução escolhida deixa um jardim entre os blocos de 20m de largura que permite boa insolação e ventilação para os apartamentos além de ser um jardim de caráter semi-público integrado à praça Vila Boim dando maior sensação de amplitude do jardim para moradores e pedestres. Cada bloco é equipado com dois elevadores, um que dá para as salas e outro , com maior capacidade, que dá acesso às cozinhas e áreas de serviço através de uma circulação aberta, garantindo um desenho mais cuidadoso para a fachada dos fundos, que hoje em dia, costuma ser muito rejeitada apesar de também fazer parte da paisagem da cidade e dos moradores.

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EDIFÍCIO GUAIMBÊ Paulo Mendes da Rocha, 1962

O Guaimbê, projetado por Paulo Mendes, faz é integrantes de uma série de edifícios residenciais de mesmo porte projetados pelo arquiteto entre as décadas de 60 e 80. Ele tem como principal virtude a liberdade permitida para o desenvolvimento das plantas de cada andar permitindo uma maior variedade de perfil de residentes, muito importante para a qualidade do ambiente urbano, segundo Jane Jacobs. Esta libertade é possível pela estrutura do edifício com pilares que ficam apenas na periferia da planta. Hoje em dia, os edifícios de mesmo porte do mercado imobiliário também apresentam a estrutura na periferia, uma vez que a planta não tem área tão grande que justifique pilares no meio dela. No entanto, a padronização dos cômodos e a necessidade de se diminuir a área do apartamento cada vez mais acaba resultando em plantas com desenho com muitas reentrânças que acaba limitando muito a liberdade da planta, e portanto, variedade do perfil dos moradores. Além disso, a entrada do edifício no térreo, uma grande cobertura que abriga os acessos dos moradores e automóveis com uma ilha central com medidores acaba servindo como um alargamento da calçada semi-público que garante uma grande visibilidade no térreo por parte dos pedestres e moradores do edifício e uma dinâmica mais ativa espalhada por toda a frente do prédio, o que acaba contribuindo para a segurança da via pública porque garante que mais pessoas acabem zelando o espaço público direta ou indiretamente sem a necessidade opressiva de se ter um policial ou cabine de segurança protegida por altos muros opressivos ao pedestre.

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CONDOMÍNIO ZOGBI Daniel Libeskind, 1974

O edifício Zogbi foi projetado 30 anos depois do Conjunto Nacional pelo mesmo arquiteto. Apesar de ser um condomínio, o projeto contempla muitas qualidades herdadas do projeto na Av. Paulista que contribuem para que os moradores não fiquem alienados ao resto da cidade, como acontece nos condomínios projetados atualmente. O arquiteto aproveita o grande desnível existente entre a Rua Juventos e a Rua Celso de Azevedo Marques para fazer um embasamento com comércio servindo a um calçadão sob o estacionamento e acima deste, a laje térrea que une os quatro blocos de edifício, quadras poliesportivas, salões de festas e outras áreas comuns aos moradores. Se por um lado, o comércio garante a dinâmica e segurança da Rua Juventus, servindo a escala do bairro, a entrada dos automóveis e moradores localizadas em pontos diferentes na rua superior, juntamente com o antigo tanque de areia e áreas de estar, garantiam a visibilidade de toda a Rua Celso de Azevedo Marques. No entanto, o edifício passou por uma reforma em que foram eliminadas as àreas de estar e infantil juntos à grade que foi substituída por um muro de 3m. Isso fez com que, apesar da vigilância das câmeras, o canto do cruzamento da Rua Celso com a rua lateral virasse um ponto de consumo de droga dos jovens moradores, já que a visibilidade foi muito prejudicada e o contato com a via pública se tornou praticamente inexistente neste ponto.

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CIDADE TIRADENTES Classe baixa alta Poder público


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A região ocupada pelo distrito de Cidade Tiradentes costumava ser parte da Fazenda de Santa Etelvina na Zona Leste da cidade a cerca de 30km do centro, com grande predominância de vegetação de Mata Atlântica. A partir de 1970, a prefeitura começou a negociar glebas neste terreno para implantar seus projetos de conjuntos habitacionais populares da COHAB e CDHU. Muitas empreiteiras também foram para o local construir habitações de mesmo caráter com financiamento do Banco Nacional da Habitação. Hoje em dia, Cidade Tiradentes é o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina. Desde o começo de sua ocupação, a paisagem do local tem se transformado radicalmente. A vegetação nativa foi sendo substituída por edifícios residenciais padronizados desprovidos de equipamentos urbanos como escolas e parques. Os espaços residuais consequente dos conjuntos implantados de forma padronizada, desadequada aos seus entornos foi ocupado pela construção informal que hoje é um contraste em relação à “cidade formal”. Enquanto um é equipado de 70 equipamentos o outro só dispõe de 3. Isso se deve à falta de planejamento necessário da ocupação da região e o Estado acaba correndo atrás da demanda da população. Um contingente muito grande de famílias que sonha em ter a casa própria vai para Cidade Tiradentes e se depara com um local desprovido da infra-estrutura necessária para uma boa qualidade de vida. Sendo assim, para muitos o local não é o ponto final de estabelecimento


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de suas vidas, mas um ponto transitório. 73 A história da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano data desde 1949. Desde então, a companhia passou por vários nomes: CECAP, CODESPAULO, CDH e finalmente, em 1989, CDHU. A companhia beneficia famílias com renda de 1-3 salários mínimos e cobre os custos do lote e material da construção do edifício. O processo de construção é dividido basicamente em nove etapas: 1 - Estudo da área e viabilidade/ negociação com movimento sociais 2 - Estabelecimento do programa báscio a partir da peculiaridade da população e do terreno 3 - Levantamento do terreno e cadastramento das famílias 4 - Anteprojeto urbanístico/ cálculo das prestações 5 - Organização da produção/ treinamento dos mutirantes 6 - Definição dno número de unidades construídas/ elaboração do projeto executivo das moradias 7 - Aprovação pela Prefeitura do Município de São Paulo/ programação e apresentação com mutirantes/ aquisição do material 8 - Treinamento dos multirantes/ início da construção 9 - Comercialização das unidades Assim como no caso do mercado imobiliário, a CDHU dispõe de um caderno de padronizações de projetos a fim de facilitar a execução, diminuir o tempo de obra e economizar ao máximo os recursos. Ela não é uma empresa cujo objetivo principal é obter lucros, portanto não dispõe de muitos elementos que são considerados caprichos do mercado imobiliário como grande número de banheiros, varandas, etc. No entanto, a sua produção, por ser uma companhia pública, está fortemente atrelada à interesses políticos da gestão política vigente e muitas vezes, não consegue ter continuidade


de obras e evolução dos projetos uma vez que equipes inteiras podem ser substituídas segundo interesses políticos. A companhia é conhecida por implantar sem grandes reflexões o seu modelo típico de edifício em planta “H” com as unidades separadas em dois blocos unidos no centro pelo bloco de escadas. A altura dos edifícios raramente passa de seis andares mais térreo para se economizar em elevadores, obrigatórios segundo a PMSP para edifícios residenciais com mais pavimentos. A técnica construtiva é a alvenaria estrutural e lajes de concreto com vãos pequenos para se econimizar nos materiais, o que acaba gerando uma planta excessivamente compartimentada e sem flexibilidade. Por outro lado, apesar de o projeto da tipologia dos edifícios ser pensado de forma ao menor gasto possível, são feitos grandes terraplenos, de custo muito alto e que acabam gerando acidentes causados por deslizamentos para que estes edifícios possam ser implantados, uma vez que as especificidades de cada terreno não são consideradas com tanto cuidado uma vez que esta consideração demandaria novos projetos de tipologias e mais tempo. Para a companhia, é interessante que o tempo de projeto e construção seja o mais reduzido possível por motivos políticos da duração da gestão de cada partido. Isso acaba comprometendo a qualidade das habitações.

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ESTUDOS DE CASO

A solução de planta da CDHU em formato de “H” não passa de uma desfiguração de experiências anteriores de arquietos renomados como Abrahão ����������������������������� Sanovicz e Paulo Mendes da Rocha. Muito do que foi idealizado originalmente nunca veio a ser executado, como as “unidades de vizinhança” que acaba refletindo nas más qualidades de vida dos habitantes destes conjuntos apesar de alguns dos projetos apresentarem boa insolação, ventilação e outros requisitos. Isso vai de contra um pensamento retrógrado vigente de pessoas que acreditam que as necessidades de habitação se encerram na unidade habitacional. Dessa forma, vale a pena ressaltar a importância da afirmação de Vilanova Artigas quando diz que a cidade é a casa.

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CONJUNTO CECAP ZEZINHO MAGALHÃES João Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, 1967

O CECAP Zezinho Magalhães pode ser considerao como um projeto-piloto do que viria a ser os conjuntos da CDHU. Sob a regência de Vilanova Artigas, o projeto considerava a construção de habitações com muitos elementos pré-fabricados de concreto que tinham outro papel além da estrutura a fim de economizar os custos e tempo da obra, se estes fossem fabricados em série. Por exemplo, o mobiliário dos quartos, peças de concreto pré-fabricadas, assumiam papel de armário e vedação. No entanto, apesar de terem sido projetados, nem todos elementos como fogões chegaram a ser executados porque iam contra empresas de eletrodomésticos, que tinham grande influência política. As unidades familiares ficam justapostas de duas em duas e se distribuem em duas lâminas de três pavimentos mais térreo unidas por um bloco de circulação vertical. Essa tipologia em “H” permite várias possibilidades de arranjo que podem se acomodar de acordo com as especificidades do terreno. A proporção entre a distância entre as unidades e altura dos edifícios foi definida de forma a garantir boa iluminação solar direta em todas as unidades. No entanto, os edifícios construídos pela CDHU com tipologia “H” que deriva deste projeto piloto aumentou o gabarito e diminuiu a distância entre as unidades prejudicando o conforto dos moradores tanto em termos de insolação e ventilação quanto privacidade. Uma coisa que foi pensada no projeto mas que nunca chegou a ser implantada, mesmo nos projetos mais recentes da companhia é a falta das “unidades de vizinhança” e dos equipamentos urbanos básicos que faz parte de uma postura retrógrada por parte do Estado de achar que as necessidades de habitação se encerram na unidade habitacional.

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PARQUE HABITACIONAL CECAP SERRA NEGRA Abraão Sanovicz, 1975

Depois da experiência relativamente bem sucedida do CECAP Zezinho Magalhães, a companhia chamou outros arquitetos para fazerem a implantação de projetos derivados do executado em Guarulhos para serem implantados em outros locais. Abrahão Sanivcz, dentre outras experiências de trabalho com a companhia implantou o projeto no Parque Habitacional CECAP Serra Negra. Apesar de apresentar pequenas alterações em relação ao projeto de Artigas e Paulo Mendes, principalmente no que diz respeito às áreas molhadas da unidade, o partido do projeto permanece o mesmo. Duas lâminas com unidades justapostas duas a duas unidas por pela circulação vertical a cada quatro unidades. Uma das variações que este partido permitia que foi apropriado por Abrahão Sanovicz foi a possibilidade de fazer as lâminas se acomodarem no terreno, minimizando a necessidade de cortes e aterros no terreno.

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V052G-01 (ANTIGO V122F-V2) Luíz Flávio Gaggetti, 2005

Apesar de terem se passado quatro décadas desde as experiências de Artigas e Paulo Mendes no CECAP Zezinho Magalhães, pode-se observar através desta planta, de 2005, que em termos de distribuição de usos, a planta da unidade-tipo das unidades habitacionais não foi modificada. No entanto, observa-se que, ao passar do tempo, existe um esforço cada vez maior em se reduzir a área das unidades a fim de diminuir também o custo final das construções. No caso desta planta, além da redução geral das dimensões dos cômodos, observa-se a redução de um cômodo, que implica numa redução drástica nas dimensões da sala de estar, já prejudicada desde o projeto da tipologia original em função do fluxo de circulação. Além disso, os móveis pré-fabricados concebidos em 1967 foram eliminados totalmente, sendo substituídos por simples paredes de alvenaria, o que reduz mais ainda a dimensão dos cômodos em função da necessidade do mobiliário e significa um custo a mais para o morador. A distância entre as lâminas que compõe os módulos em “H” diminuiu drasticamente assim como o tamanho dos vãos para janelas, que se antes tinha a largura de quase 2,50m , hoje não passa de caixilhos padronizados de 1,20m. Dessa forma, a quantidade de luz natural que penetra nos quartos, principalmente em andares inferiores foi drasticamente reduzida. O térreo, antes livre que abrigava medidores de água e gás e além disso poderia ser usado como área comum ou estacionamento foi ocupado por habitações no térreo criando-se a necessidade de se criar pequenas edículas para cada edifício a fim de abrigar os medidores e a possibilidade de áreas comunitárias foi totalmente excluída, o que vem a se tornar um problema sério, uma vez que a falta de estruturas comunitárias em regiões antendidas pela CDHU é um problema muito comum.

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RESTOS URBANOS Classe baixa baixa Construção informal


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Segundo um levantamento feito pelo HABI-COPED, em 1974, a maioria das favelas do município se localizavam entre as marginais Tietê e Pinheiros. Ainda de acordo com esse estudo, habitavam de 2-6 pessoas por barracos sendo a maioria deles de um cômodo, piso de cimento e feitas em madeira. As população que morava nessas favelas eram, quase em sua totalidade composta por pessoas de outras regiões do Brasil que procuravam emprego no município e construíam seus barracos com caráter provisório, uma vez que se pretendia sair deles assim que se tivesse condições financeiras. Por falta de oportunidades, a maioria das mulheres que habitavam nestes lugares acabaram se tornando lavadeiras, fato que acabou sendo ilustrado por muitos compositores como Adoniran Barbosa, Cartola e Arlindo Cruz. Com o passar dos anos, a cidade foi se expandindo e as áreas de várzea e perto de galpões industriais foram sendo compradas pelo mercado imobiliário uma vez que as grandes indústrias encerraram suas atividades e se mudaram para o interior do estado, com maior oferta de mão-de-obra barata e ainda com incentivo fiscal das respectivas gestões. Dessa forma os moradores de favela foram obrigados e se instalar em regiões cada vez mais periféricas desprovidas de infra-estrutura, onde a prefeitura se esforça em correr atrás do prejuízo construindo grandes conjuntos habitacionais. Essa migração para a periferia é um problema comum de muitas cidades globais. No entanto, algumas regiões do município, entre as marginais não despertaram nenhum


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interesse, apesar da forte expansão que teve a cidade nas últimas três décadas. 85 Estas áreas são heranças das transformações que a cidade sofreu em obras que visavam privilegiar o transporte individual privado. Vale lembrar que este fenômeno não é própria do município de São Paulo ou do Brasil, mas que desde o fim dos anos 90 vem sendo superado por muitas cidades globais européias e asiáticas. Estas áreas não são próprias para nenhum tipo de uso uma vez que são localizadas entre vias de alto fluxo de automóveis de carga pesada que além de gerar altos níveis de ruído, prejudica muito a qualidade do ar pela poluição. No entanto, essas áreas são apropriadas por pessoas que não têm escolha de viver em outras condições porque estão presas à questões financeiras ou de trabalho. Hoje em dia, as favelas são feitas de madeira ou alvenaria. Através de entrevistas à moradores em diversas ocasiões, pôde-se concluir que o barraco de hoje não tem o mesmo caráter temporário que costumavam ter. Se tornou muito mais uma questão permanente em que as novas gerações estão se apegando e criando raízes.


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MAPEAMENTO DAS FAVELAS DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO infolocal.prefeitura.gov.sp.br


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FAVELA DO MOINHO Google Earth

PARQUE DO GATO Google Earth

REAL PARQUE I Google Earth

REAL PARQUE II Google Earth


ESTUDOS DE CASO

Pode-se separar os barracos dos aglomerados basicamente em duas categorias em que o material de construção é condicionante para a organização da planta: os barracos de madeira e os de alvenaria. Os primeiros, costumam possuir não mais de um cômodo sendo apenas de pavimento térreo apoiado diretamente sobre a terra. Isso implica na pouca durabilidade da madeira devido à umidade e a necessidade de se refazer o barraco com frequência. Já os de alvenaria, costumam ter pelomenos dois pavimentos podendo ou não ser de estrutura de concreto e chega a ter pelomenos dois cômodos. Observa-se que a questão do material está diretamente relacionada com o caráter já não mais transitório que a favela passou a ter. Na década de 70, a maioria da população desse tipo de moradia era de pessoas que vieram de outras regiões do país a procura de emprego e imaginava-se que o barraco seria uma moradia temporária antes de a pessoa ter condições de melhores moradias. No entanto, com o passar do tempo, as favelas foram se consolidando cada vez mais com caráter permanente e a própria comunidade passou a ter uma estrutura mais hierarquizada com líderes sociais, e muitas vezes, “donos de morros”. As novas gerações que nascem nas favelas a encaram como uma situação permanente, e não mais temporária, e os barracos passaram a ser feitos de alvenaria.

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Favela Real Parque Favela em consolidação. Observa-se a presença tanto de barracos de madeira como de alvenaria

Cenas do documentário “Depois rola o mocotó” Favelas em alvenaria. A sociedade se estruturou de tal forma que o “batimento de laje” do barraco de uma família se tornou evento com ajuda organizada da comunidade com desenvolvimento de cultura construtiva própria.


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RUA Morador de rua Abrigos


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Apesar de muitos acharem que morador de rua são pessoas que não têm casa e que estão nas ruas por falta de condições, muitas dessas pessoas tomaram essa decisão. Em conversa com assistentes sociais, póde-se observar que muitas destas pessoas optaram por essa vida devido ao vício às drogas e problemas pessoais que isso causava e outras vivem dessa forma por problemas familiares e se recusam a viver com esta ou aquela pessoa. Deixando-se de lado o que motivou cada um a morar na rua, este capítulo da pesquisa visa estudar as estratégias de sobrevivência que estas pessoas adotam. Seja sob viadutos, saídas de supermercados e igrejas ou saídas de ar quente das máquinas operantes em um edifício, estes espaços têm algum tipo de qualidade que serve de abrigo para a sobrevivência de um morador de rua que pode ser nômade, ou se estabelecer em algum lugar fixo. No município de São Paulo, estes são tão frequentes que, são parte da paisagem urbana cotidia da maior parte da população.


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CENTRO Todas as classes EdifĂ­cio misto


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Apesar de o que vai ser discutido a seguir não se tratar de habitação, mas sobre o centro de São Paulo, cabe aqui uma reflexão sobre o centro do município, uma vez que é o local onde pessoas de diferentes classes sociais convivem no mesmo espaço. Segundo Nestor Goulart Filho, o centro de São Paulo, tem desenho urbano típico das regiões de colonização portuguesa. Isso significa a definição de eixos entre os edifícios de administração pública, bancos e religiosos marcados por praças. Uma prova disso é a presença da Rua Direita, que em todas as cidades de mesma colonização liga a Sé, largo central, a um edifício religioso. No caso de São Paulo, esta liga a atual Praça da Sé à Praça do Patriarca, onde está localizada a igreja de Santo Antônio. No entanto, apesar da estruturação da cidade, desde o início de sua urbanização mais consistente, em eixos, a àrea remanescente entre os eixos, foi sendo ocupada sem muito planejamento em relação à dimensão das quadras e lotes e largura de vias e dessa forma, a cidade foi adquirindo a conformação que conhecemos hoje. As antigas chácaras, ao longo do tempo, foram sendo parceladas cada vez mais em lotes menores preservando os limites originais e eixos originais das grandes glebas. Isso determinou a dimensão dos lotes pelos edifícios, em grande parte dedicados ao setor terciário, existentes hoje na cidade.


Por não ter havido uma padronização em relação à dimensão dos lotes e traçados das vias entre proprietários de glebas e prefeitura, as dimensões e porte dos edifícios do centro são muito variados. No entanto, uma característica comum a muitos edifícios de diferentes tempos da região é o acoplamento entre os edifícios, que acaba gerando soluções comuns de planta como a presença do fosso interno dos edifícios .

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ES

C P re


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ESTUDOS DE CASO

CENTRO DE SÃO PAULO, 1881 Planta elaborada pela Companhia Cantareira e Esgotos

Os centros das grandes cidades costumam também ser seu berço de nacimento e portanto, a região mais antiga e que agrega a maior diversidade de funções da mancha urbana. No entanto, um mal comum, principalmente às cidades de países de desenvolvimento mais tardio, foi o esvaziamento dos centros por diversos fatores e o consequente aumento da violência e degradação. São Paulo vive hoje uma tentativa de requalificar o centro por meio de muitos projetos. Por mais contraditórios que sejam, não se pode negar a atenção que tem sido dada ao assunto. Uma das vertentes desses projetos segue a idéia de que a diversidade de funções é capaz de dar vida e qualidade a um lugar. Existe um certo preconceito que nos centros das cidades só existem edifícios antigos. É claro que estes compõe com força a paisagem, no entanto, observa-se a presença de muitos edifícios com menos de 20 anos. Jane Jacobs observa a importância da mistura de edifícios novos e antigos no centro da cidade. Isso porque os edifícios novos não permitem muita variedade de usos. Eles costumam ser destinados à empresas de deste ou daquele porte. A presença de edifícios de diferentes épocas permite que a população que frequenta a região também seja de perfis diferentes, o que implica em rotinas diferentes e uma dinâmica mais intensa por períodos mais longos em relação a regiões dominadas por edifícios de mesmo padrão e uso. Dessa forma, neste capítulo, pretende-se estudar qual é a qualidade dos edifícios antigos que permitem a variedade de usos nos diferentes pavimentos e projetar um destes edifícios seguindo essas premissas.

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EDIFÍCIO ITÁLIA Franz Heep, 1965

O edifício Itália, projetado pelo arquiteto imigrante Franz Heep, pode ser considerado um do melhores exemplos dos edifícios de São Paulo no que diz respeito à diversidade de públicos. Os seus 41 pavimentos são ocupados por escritórios que atendem desde o ramo de advocacia até turismo e imobiliárias. Seus dois restaurantes, um no terraço e outro no embasamento, somado ao salão de festas garante um uso do edifício praticamente ininterrupto e proporciona uma dinâmica no seu entorno imediato dada por táxis, usuários, seguranças e transeuntes. Além disso, o edifício abriga também um teatro, diversificando ainda mais o público do edifício. Ele é organizado em embasamento, com lojas e café voltados para a calçada, galeria interna que também serve de foyer para o teatro, restaurante e salão de festas na sobreloja; torre, ocupada por escritórios de diversos perfis com pavimentos com planta livre e protegidos por brise e torre de circulação vertical central; e cobertura com restaurantes. Além disso, um volume de dez pavimentos, encostados nos limites do lote, faz o acoplamento com os edifícios vizinhos.

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EDIFÍCIO MARTINELLI William Fillinger, 1929

Considerado o primeiro arranha-céu de São Paulo, o Edifício Martinelli foi construído em duas etapas. Em 1929, ele foi inaugurado com 12 pavimentos e assumiu a conformação atual em 1934, totalizando 30 pavimentos. Apesar de não ter grande diferenciação de usos dentre os pavimentos, com o passar do tempo, serviu de diferentes funções, chegando em 1932, durante a Revolução Constitucionalista a abrigar metralhadoras em sua cobertura para se defender de ataques inimigos. Com o passar do tempo, foi sede de diferentes partidos políticos e clubes de futebol. Desde 1979 tem servido para abrigar diferentes setores da administração pública como EMURB e COHAB.

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CONJUNTO METROPOLITANO

O Conjunto Metropolitano possui um programa semelhante ao edifício Itália, mas apre- 100 senta diferenças no que diz respeito às relações que tem com o entorno. Salvador Candia, Giancarlo Gasperini, O projeto foi vencedor de um concurso promovido pela Companhia São Paulo de Hotéis 1959 e Imóveis e escolhido para construção pela solução arquitetônica do programa e qualidade urbanística. Ele é composto de subsolo usado para estacionamento, embasamento de três pavimentos com bares, restaurantes, bancos e escritórios e torre de 19 pavimentos de escritórios. Além disso, costumava ter um cinema, que com a degradação por que passada pela região, foi desativado. Todos os módulos destinados para o serviço no embasamento possuem pé-direito suficiente para possibilitar mezanino, o que possibilita ainda mais a diversidade de usos que vão ocupar cada módulo. Além disso, a planta livre permite a união de quantos módulos forem necessários. O edifício permite a transposição entre a rua Basílio da Gama e a praça Dom José Gaspar. Essa possibilidade garante grande movimento nesta rua, que é sem saída. Além disso, o sucesso de alguns estabelcimentos do interior do edifício pode ser dado pelo fato de eles se localizarem nas esquinas criadas no interior do edifício, que na verdade, são esquinas de escala urbana para pedestres. A solução de jardim central e volume muito permeável propicia ótimas condições de ventilação e insolação para os serviços que ocupam o edifício.


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V|QUAIS SÃO AS TÍPICAS MORADIAS PAULISTANAS?


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V.I AS MORADIAS TIPO

Como pode-se observar no capítulo anterior, ao longo do tempo, cada agente construtor foi desenvolvendo diferentes formas de se projetar que refletem diretamente as necessidades e limitações da situação de cada um. Neste capítulo, foi feito um esforço de se esquematizar a metodologia de projeto de cada um desses agentes para, finalmente se chegar num metaprojeto que fosse o tipo de moradia. Em outras palavras, tentou-se chegar num projeto que fosse a repetição dos edifícios que são construídos no município. Além disso, a partir do estudos de tecido urbano dos distritos, foi desenhado uma situação fictícia de entorno para os edifícios que seguissem a lógica de estruturação dos bairros. Os desenhos em escala desses metaprojetos encontram-se em anexo. No caso do edifício de classe média da Móoca, optou-se por se projetar um edifício moderno na década de 70/80 ao invés de um edifício de mercado imobiliário de médio padrão, uma vez que a lógica se assemelha muito ao de alto padrão com diferenças apenas na quantidade de cômodos.

M

C M

es


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MOEMA Classe alta Mercado imobiliรกrio de alto padrรฃo esquema


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planta tipo


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planta tĂŠrreo


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corte longitudinal


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elevação


situação


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MOĂ&#x201C;CA Classe mĂŠdia predinho anos 70/80 esquema


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planta tipo


planta tĂŠrreo


corte longitudinal


elevação


situação


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CIDADE TIRADENTES Classe baixa alta CDHU esquema


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Existe um caderno com todas as plantas dos conjuntos da CDHU feitos desde a fundação da companhia até hoje. No geral, apesar de o caderno apresentar diferentes formas de acoplamento entre os edifícios, a planta da unidade habitacional não sofreu grandes alterações nos últimos trinta anos. São feitas apenas pequenas alterações na área que concentra as áreas molhadas de cozinha, banheiro e área de serviço. Além disso, são feitas pequenas alterações a fim de diminuir a quantidade de material utilizado para baratear a construção e outras em função de diferentes caixas d’água e escadas. Já no corte, o projeto muda de acordo com o terreno em que se encontra. Em áreas de maior declive, o edifício chega a ter seis andares, com três pavimentos para cima e para baixo do nível de acesso. Uma vez que a planta não apresenta grandes transformações ao longo do tempo, optou-se pelo redesenho da unidade ao invés de tentar sugerir uma nova tipologia a fim de se criticar essa postura e a qualidade desse projeto no próximo capítulo.

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planta tipo


planta tĂŠrreo


corte longitudinal


elevação


situação


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RESTOS URBANOS Classe baixa baixa Barraco de favela esquema


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Dentre todos os tipos de moradia, o barraco de favela é o que menos tem uma metodologia de construção. Isso porque ele é feito com o material que a pessoa adquire ao longo do tempo. No geral, primeiro ele faz um barraco de madeira e com o tempo consolidam-se barracos de vizinhos ao seu redor, o que delimita o espaço disponível para ocupação. Com o tempo, a família se estabelece e tem uma renda mensal. Com o dinheiro juntado, constrói-se um barraco mais resistente em relação ao anterior, de alvenaria e até com laje de concreto. Isso porque sempre considera-se a possibilidade de expansão do barraco verticalmente. Muitas vezes, um familiar é agregado a família, o que exige uma nova expansão do barraco, que vai crescendo para onde der. Não são estranhos os casos em que o primeiro andar do barraco não corresponde à projeção do térreo.


barraco etapa 1 papel達o e madeira


barraco etapa 2 alvenaria


barraco etapa 3 planta tĂŠrreo comĂŠrcio


barraco etapa 3 planta 1pav dormit贸rios


elevação 2


elevação 1


situação


VI| COMO VIVEMOS? (rascunho)


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A partir dos metaprojetos elaborados, pensou-se em como as famílias típicas poderiam viver nessas habitações típicas para chegar assim a uma conclusão de como as pessoas vivem hoje em dia no município de São Paulo e como essa cidade que se constrói influencia nossa rotina, e humores. Dividiu-se a história em seis capítulos. Quatro deles, mostrando como é a rotina das famílias durante o período que estão dentro de casa. Os dois últimos parte para uma visão de escala mais urbana, onde saímos da privacidade de nossas casas e vivemos a cidade, estabelendo relações públicas com desconhecidos. Isso sempre considerando o município, as habitações e as famílias segundo as estatísticas. Cada capítulo apresenta uma capa introduzindo a família que vai protagonizar o episódio e um texto que introduz o tema a ser discutido. Segue o rascunho dessa história.


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VI I|COMO VIVEMOS?


PRÓLOGO Do nascimento do município de São Paulo até os dias de hoje


TUDO COMEÇOU COM O CAFÉ.


CHEGOU PELO NORDESTE E FOI DESCEN- O DO ATÉ DAR CERTO NO VALE DO PARAÍBA.

CAFÉ

VIROU

DINHEIRO,

E O DINHEIRO VIROU INFRA-ESTRUTURA.


INFRA-ESTRUTURA GEROU ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

E A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA ENCARECEU O TERRENO.

AÍ QUEM NÃO TEM DINHEIRO TEVE QUE IR MORAR NA PERIFERIA. E “MORAR” DEMANDA ESGOTO, ELETRICIDADE, ESCOLA, TRANSPORTE PÚBLICO, ETC...

...QUE QUEM FAZ É A PREFEITURA.


BOM...NEM SEMPRE FAZ.


A VERDADE É QUE A CADA DIA QUE PASSOU, MAIS GENTE PRECISOU “MORAR”

E A MANCHA URBANA FOI CRESCENDO...

. . . C R E S C E N D O

...CRESCENDO

...E CRESCEU.


CRESCEU DE FORMA TÃO DESORGANIZADA E FRENÉTICA...


...QUE É DIFÍCIL ENTENDER COMO TUDO ACONTECEU.


ESTAMOS EM 2011 E ESSA FOI Sテグ PAULO QUE FIZEMOS


CAPĂ?TULO I Sobre um pai advogado, uma esposa vaidosa e um filho com asma


A CASA Depois de mais um dia de duro labor sobre o quentes asfalto e gélidas brisas dos ares condicionaos dos ambientes confinados, milhares de paulistanos gastam suas energias restantes na última batalha do dia que é o voltar para casa. Foi este edifício que o homem, mais intelectual dos seres vivos levantou no início dos tempos com seu próprio suor para se abrigar do frio, do vento e da chuva. É nela que desempenha seu papel na instituição mais primordial da humanidade - a Família. É em seu lar que o homem guarda seus mais profundos segredos e constrói seu castelo, sua fortaleza, para descansar e se preparar para a próxima batalha que é o dia seguinte.


EM UM PRÉDIO DO NOBRE BAIRRO PAULISTA, MOEMA.


É NOITE E O PAI AINDA NÃO CHEGOU...


O FILHO DORME NO SOFÁ, MAS ATENTO À QUALQUER SINAL DO SOM DAS CHAVES GIRANDO NA FECHADURA DA PORTA DE ENTRADA

A MADAME SE CONCENTRA FAZENDO UMA DE SUAS NECESSIDADES DIÁRIAS


TERMINADO SEUS AFAZERES, VAI A SALA VER COMO ANDA SEU FILHO. Filho...

Filho!

Vai dormir no quarto. Acho que o papai vai demorar pra chegar denovo.


Ah! Mas o quarto é muito longe...

20 METROS

é longe mesmo... longe...

longe...


LÁ VAI O FILHO ENCARAR OS 20 METROS DE ASMA ATÉ SUA CAMA

COF!

COF!

COF!

COF!

COF!

COF! asma...

COF!

Unf! Perdi o sono agora...

TSSSSSSSSSS!!!

Será que o pai chega hoje?


O SOM DAS CHAVES DO OUTRO LADO DA PORTA

JÁ É MADRUGADA...

Chegou...

CLECK

E EIS QUE CHEGA O HOMEM DA CASA


Trabalhou até tarde hoje? A Naná fez peixe hoje. Se quiser está na geladeira. É só esquentar no microondas.

Tá. Brigado, mas prefiro dormir. Amanhã vou sair mais cedo pra não pegar trânsito e sair antes do rodízio. Hoje foi terrível com as chuvas na marginal.

Tá...

E É A ISSO QUE SE RESUME O DIÁLOGO COTIDIANO ENTRE HOMEM E MULHER DESTA RICA FAMÍLIA DO NOBRE BAIRRO DE MOEMA. AGORA, MARIDO E ESPOSA SE RETIRAM PARA O QUARTO DO CASAL PARA DORMIREM NA MESMA CAMA, COMO MANDA O PROTOCOLO DA UNIÃO MATRIMONIAL.


O R . A O M O O .

Zzzzzzzzzzzzzzzzz


A NOITE PASSA E POUCO A POUCO, O SOL VAI DESENHANDO SUA LUZ NO PISO E PAREDES DO QUARTO DO FILHO. JÁ É QUASE HORA DE ACORDAR.

A

5:00

6:00

7:00

O M T B T R A C P D M D M P P O E


AMANHECEU. O PAI ACORDOU MAIS CEDO PARA TENTAR IR AO TRABALHO FUGINDO DO TRÂNSITO E DO HORÁRIO DO RODÍZIO. A MÃE TOMA SEU CAFÉ DA MANHÃ PREPARADO PELAS SUAS DUAS CRIADAS E O MOTORISTA AGUARDA NA COPA TOMANDO O SEU CAFÉ PARA LEVAR O FILHO PARA A ESCOLA. O FILHO ACORDA E PROCURA O PAI.

??

Uaaah! Pai?


Pai! Pai?

Filho! Cadê você?


M達e?

Filho!


Hm......

Jรก. Mรฃe! O pai jรก foi?

Tรก!

O MOTORISTA


ENQUANTO ISSO, NO TRÂNSITO...

Porra! Não adiantou nada. Essa cidade tem muito carro. Sai da frente, caralho!


CAPÍTULO II Sobre um pai engenheiro, uma mãe secretária, uma filha e uma avó


A ESQUINA Muito tempo atrás, o cruzamento de rotas costumava dar origem a uma cidade. Era o lugar onde viajantes pernoitavam e faziam suas refeições antes de prosseguir em susas viagens. Hoje em dia, o cruzamento de duas ruas tem a mesma vivência. É onde ficam os botecos, padarias, salões de beleza, etc... O lugar de encontro onde as patronas compram o café da manhã e conseguem as últimas notícias do dia. Onde os homens discutem a política e o futebol. São os nós de encontro desse grande sistema que é a cidade.


EM UM PREDINHO DO SÉCULO PASSADO DO TRADICIONAL BAIRRO PAULISTA, MOÓCA.


Sテグ QUASE 7H00.

A Mテウ ACORDA.


O SOL MAL NASCEU E A MÃE JÁ SE APRESSA EM SE ARRUMAR, ACORDAR A FAMÍLIA, CHECAR O TEMPO NA VARANDA E IR COMPRAR OS PÃES QUENTINHOS NA PADARIA DA ESQUINA.


ELA HERDOU ESSA ROTINA JUNTO COM O APARTAMENTO EM QUE VIVE DE SUA MÃE, COM QUEM VIVE ATÉ HOJE. É ASSIM TODAS AS MANHÃS. ACORDA, PREPARA A FAMÍLIA E FAZ O CAFÉ-DA-MANHÃ COM OS PÃES DA PADARIA DA ESQUINA, FUNDADA POR COMPANHEIROS DE IMIGRAÇÃO DE SUA FALECIDA AVÓ.


Padaria


Padaria

Bom dia, Dona JĂşlia! Bom dia, seu Adriano!


Me vê quatro pãezinhos, por favor! Vejo! Só um minuto!

Pois é. O carro parece importado. Pelo jeito deve ser gente desse condomínio novo aqui na frente. Apareceu tanto carro assim de repente na rua, né?

Aliás, a senhora viu que ontem morreram pai e filho num acidente de carro aqui na rua de cima?

Essas coisas não costumavam acontecer por aqui, né?

Vixe Maria! Que horror!

Agora dá licensa que preciso preparar o café. Já é está quase na hora de levar a menina pra escola Tudo bem! Tenha um bom dia, Dona Júlia.

Pra você também. Até amanhã, seu Adriano!


Ih! Olha a hora!

Deixa que eu lavo a louรงa depois, filha . Estรก quase na hora de levar a Clara para a escola!

Beleza! Valeu, mรฃe!


Ui! Espera aí que a Clá está quase pronta! Vamos descer juntos!

Tô indo trabalhar, amor!

Vamos!

TCHAU, CLÁ!

Fala “tchau” pra vó, Clá!

TCHAU, VÓ!


Cuidado, filha! Vou de escada! Vamos ver quem chega antes!


Hihihihihihi...


Hihihihihihi...

Hahaha!

Hahaha!

BUUU!

Ok!

N達o atrasa pra janta, amor.


Tchau, meninas! Cuidado pra andar atĂŠ a escola!

Tchau! Tchau, pai!

Padaria


CAPĂ?TULO III Sobre um pai manobrista, uma mĂŁe dona-de-casa e dois monstrinhos


A VIZINHANÇA O ato de morar nunca se encerra entre as quatro paredes de uma casa. O morar pressupõe aquele vizinho que empresta o sal e também o vizinho que faz barulho a noite inteira. O morar pressupõe a mercearia em que se compra fiado e o parquinho onde as crianças podem fazer bagunça a vontade sob vigia do moço da loja em frente. O morar pressupõe relações humanas variadas em espaços distintos. No entanto, não é assim em Cidade Tiradentes. Os edifícios se multiplicam uns iguais aos outros, como se fossem carimbos. A qualidade dos espaços é tratada com o mesmo cuidado que a qualidade de vida dos moradores. Os edifícios não são moradias, são apenas construções para abrigar pessoas. Pessoas estas que não são seres humanos, são números de campanha política.


NO MAIOR COMPLEXO DE CONJUNTOS HABITACIONAIS DA AMÉRICA LATINA, CIDADE TIRADENTES.


TUM!

TUM!

! TUM TUM! TUM!

ROOOOONC... ...Saco.


Brrr... O chão tá frio! UAAAAAAH!

Hoje o vizinho acordou mais cedo. Ele vai colocar o carpete quando, hein?

Já faz seis meses que a gente se mudou e ainda não deu dinheiro pra pôr o piso... Não posso falar nada do vizinho...


ROOOOOOOOOOOOOOOONC...

? Ahm...Bom dia.


Amor. Dรก uma lincesinha pra abrir o armรกrio rapidinho, vai.

Arghbtghbrbthrkpmnhnmmmmm....


AI, PORRA! TODOS OS DIAS!

Ih! Estou atrasado, jรก. Deixa eu levar um pรฃo pra ir comendo no caminho...

ROOOOONC...

P!

TUM


Hmmm...Arg... Pão seco... Bom...É o jeito.

Uaaah... Que sono...

A essa hora o ônibus já vai estar lotado....

Também não é pra menos. Como se já não bastasse o ronco da patroa, tem o vizinho de sapato de martelo...


ROOOOONC...

?


CAPÍTULO IV Sobre mãe, dois filhos abandonados e tia encalhada


A VÁRZEA As várzeas são as margens inundáveis de um rio, que por via de regra, é o ponto mais baixo da cidade. Toda a água vai escorrendo a procura o ponto mais baixo de uma geografia, para lá encontrar outras águas e se tornar um rio. Todo o esgoto vai escorrendo a procura do ponto mais baixo da cidade, para lá encontrar outros esgotos e se tornar um grande lixo. Os rios que outrora serpenteavam a superfície e modelavam a paisagem sendo as principais referências dos viajantes, hoje foram reprimidos e reduzidos a esgoto de lixo a céu aberto. Tudo o que é feio, São Paulo empurra para a várzea: o esgoto, o trânsito, o tráfico, os assassínios, os pobres e a favela. Espera-se que a sujeira flua para outro lugar, como fluem as águas. Mas ela fica lá guardada, como sujeira embaixo do tapete. Até que um dia, quem escondeu ela lá, acaba de deparando novamente com ela.


EM UM CANTO QUALQUER, BEIRANDO A MARGINAL.


CONSTRUIR UM BARRACO DE FAVELA É IMPROVISAR. POUCO SE PLANEJA. CONSTRÓI-SE COM O QUE É POSSÍVEL COM O QUE SE TEM. E POR CAUSA DISSO, NEM SEMPRE TEM QUARTO, NEM SEMPRE TEM COZINHA. NEM SEMPRE TEM SALA DE JANTAR E NEM SEMPRE SE TEM BANHEIRO. OS CÔMODOS SÃO VERSÁTEIS E QUASE NÃO SE TEM SEPARAÇÃO DE CÔMODOS. É UM VERDADEIRO FLAT. ALÉM DISSO, SEMETAPA 1: O SUJEITO JUNTA TODO MATERIAL QUE PODE CARREPRE ESTÁ MUDANDO. GAR E MONTA SEU BARRACO NUM CANTINHO. É O BARRACO DE ENVELHECE E PAPELÃO E MADEIRA EVOLUI.

E M N É


ETAPA 2: AS PAREDES DE MADEIRA E PAPELÃO NÃO AGUENTAM MAIS E O MORADOR, JÁ ASSENTADO E GANHANDO UM DINHEIRINHO INVESTE SEUS GANHOS NUMA MORADIA MAIS RESISTENTE. É O BARRACO DE ALVENARIA.

A MORADIA É UMA FORTALEZA. NÃO SE PÕE JANELAS POR MEDO. SEM CONTAR O BARULHO DOS CARROS DA MARGINAL QUE É INFERNAL. AS PESTES INVADEM O BARRACO E ADOTA-SE UM CÃO PARA AFUGENTAR BANDIDOS E RATOS. MAS O CÃO NÃO TEM ONDE DEFECAR. DEFECA NO BARRACO. O CHEIRO IMPREGNA NAS PAREDES E NA CAMA. A CASA ASSIM FICA SUFOCANTE. COMO JÁ DISSE, NÃO HÁ JANELAS.


ETAPA 3: O MARIDO, PRINCIPAL FONTE DE RENDA AUSENTA-SE E A TIA ENCALHADA VEM CONSOLAR E APROVEITAR DA IRMÃ. É PRECISO GANHAR ALGUM DINHEIRO PARA MANTER OS FILHOS. O BARRACO É AMPLIADO. GANHA UM ANDAR. O TÉRREO VIRA LOJA.


E O ANDAR DE CIMA VIRA QUARTO.


BIBI!

UÉO UÉO

FÓO

OON

! M U R V


Ahhh! Çái, Preto!

VR

BIB

I!

UM

Unf.

!

N O OO

Mãi. Ô, Mãi!

Ki é!

Tá na óra de abrí a loja, Mãi.

Abri vussê ôji, fílio. Tô cum dôdicabessa.


Rooonc...mfnf... Rooonc

BIBI!

UÉ UÉ O O

Sacu. Tudo êu.

FÓO

OON


O É U O É U

VRUM

! Tudo êu, tudo êu, tudo êu.

! M U

VR Tudo êu, tudo êu.

CLECK


BIBI! vruush

Upa!

Anda logu muleqe. Pega logo as bala e vai na rua vendê! Aprovêta u trânsitu! Eu cuidu da loja! Mais vucê tinha faladu qe...Ah! Dêxa.Tudo êu.

Me ajude Por Favor Jesus Te Ama Muito Senhoras(es) Primeiramente meus comprimentos, venho até aqui por-que perdi o meu pai há alguns meses e de lá pra cá temos uma situação difícil, pois meu pai não nos deixou pensão e minha mãe se encontra desempregada

estou pedindo a sua ajuda porque tenho irmãos menores precisando, ser alimentados e por que também preciso ajudar minha mãe no aluguel e a dona da c asa vai nos expulsar se minha mãe se não pagar o aluguel. Muito obrigado!!


O É U O UÉ

Bom dia, seu Zeca!

Tomô ontem, êin, curintianu!

Aí, Bâmbi!

Bom dia, seu Pedro! Bom dia, seu Pedro!

unf.

VAI TRABALHÁ MOLEQE!


Du ôtru ladu vendi máis... Têm qi paçá u ladu.

BIBI!

! M U R V

Me ajude Por Favor Jesus Te Ama Muito

Senhoras(es) Primeiramente meus comprimentos, venho até aqui por-que perdi o meu pai há alguns meses e de lá pra cá temos uma situação difícil, pois meu pai não nos deixou pensão e minha mãe se encontra desempregada estou pedindo a sua ajuda porque tenho irmãos menores precisando, ser alimentados e por que também preciso ajudar minha mãe no aluguel e a dona da c asa vai nos expulsar se minha mãe se não pagar o aluguel. Muito obrigado Jesus Te ama!

FÓO

OON

UÉO UÉO


Puf

Puf

Puf

Puf

Puf


Hm...Vรกi balinha, tio?


CAPĂ?TULO V Um dia qualquer da rotina paulistana


UNIVERSO PARTICULAR A rua é entendida como o espaço público em que o direito de ir e vir, garantido pela Constituição, é plenamente realizado. E por ser espaço público, o cidadão tem o dever de agir com consciência coletiva de forma a exercer o seu direito de locomoção sem comprometer o dos outros. No entanto, quando se fala em rua, se pensa em carro. Tamanha é a influência dessa máquina em nossas vidas que se tratando de meios de transporte, pensa-se antes no carro do que nas nossas próprias pernas. E também é nele que cada pessoa constrói seu universo particular, seu mundo isolado, sua pequena cápsula em que trafega pelas vias públicas tentando se isolar e ignorar ao máximo o mundo, os problemas e as belezas do mundo ao redor.


Saia logo da frente moleque. Hoje estou com pressa.

Hoje não. Tío...Léva uma balinha, vái...

Outro dia... Ah. Vái, tio. Entaum si u tíu tiver umas muedas pra ajudar. Ajuda vai tiu. Sinão minha mãin num mi deixa entrar em casa não.


Sai da frente! Ó, o trânsito tá andando. Tchau, viu.

Mas...vai tío! Pur favor!

VRUUUUUUUM

AAAAAAAAAAAAAI!

TUDUMP!


Aiai! Meu pé, tío!!!!

Falei pra sair, moleque!

Ai! Ai! Ui!

Moleque folgado. Acha que pode vir tocando meu carro.

FUNHÉ!


E DESSA FORMA, O ADVOGADO SEGUIU SEU CAMINHO EM SEU TANQUE DE GUERRA PARA SEU TRABALHO NO CENTRO.


ESTACIONAMENTO

ZZZZZZZZZZZZZZZZ

ESTACIONAMENTO PARK TABELA DE PREÇOS 1 HORA 2 HORAS DEMAIS HORAS

10R$ 15R$ 4R$

E

ZZZZZZZZZZZZZZZZ

VRUUUUUUUM

NHOIF.....ZZZZZZZZZ

ESTACIONAMENTO PARK TABELA DE PREÇOS 1 HORA 2 HORAS DEMAIS HORAS

10R$ 15R$ 4R$


CRIIII!

EITA, PORRA!

E esse manobrista vagabundo....

Ah! Oi doutor. Só um minutinho! Já vou aí manobrar.

ESTACIONAMENTO PARK

ESTACIONAMENTO PARK

TABELA DE PREÇOS

TABELA DE PREÇOS

1 HORA 2 HORAS DEMAIS HORAS

1 HORA 2 HORAS DEMAIS HORAS

BÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ 10R$ 15R$ 4R$

10R$ 15R$ 4R$


Estou atrasado, manobra você. E toma cuidado, hein! Se alguma acontecer com meu carro...

Pode deixar, doutor. Pode ir tranquilo que aqui eu estaciono ela direitinho.

Sei... Ó! Deixa meu carro fácil que é rodízio e eu quero sair cedo, viu!

COM ESSA EXIGÊNCIA, O ADVOGADO CONFIOU SEU MUNDO SECRETO PARTICULAR AO MANOBRISTA DO ESTACIONAMENTO E SE DIRIGIU AO SEU ESCRITÓRIO A UMA QUADRA DALÍ. SE NÃO FOSSE PELO SONO TERRÍVEL QUE ELE SENTIA DEVIDO AO MARTELAR DOS PÉS DOS VIZINHOS DE CIMA QUE ATRAVESSAVAM A FINA LAJE DO APARTAMENTO ONDE MORA, SENTIRIA-SE COM OS PODERES DE UM MILIONÁRIO NESSE MUNDINHO QUE LHE FOI CONFIADO POR UM BREVE MOMENTO.


C

N OO

O

TUM!

O RO

TUM!

ROO O

TUM!

OON

C

C

OON

O RROO OO

OO ON C ROOOOOOOOONC

TUM! Ui. Que sono


CATAPOF ZZZZZZZZZ


. . . CRIIIIIIIIIIC

PORRA.


ENQUANTO ISSO, NO ESCRITÓRIO, JÚLIA CHEGA AO TRABALHO MAIS CEDO DEPOIS DE DEIXAR A FILHA NA ESCOLA. DESDE ENTÃO, FICARA NA FRENTE DO COMPUTADOR TENTANDO FAZER MILAGRES PARA ORGANIZAR A AGENDA DO CHEFE.

Bom dia, Seu Guilherme.


Oi, Júlia. Qual é a agenda de hoje? Me conta alguma coisa boa, vai.

Deixa ver, Seu Guilherme

Bom. Os clientes japoneses estão esperando na sala desde as 8h00. Depois, 12h00, tem o almoço com os sócios e depois

Ah...Tá bom, tá bom. Me faz um favor e traz um café.


E leva lĂĄ na sala de reuniĂŁo. Sim, senhor...


A NOITE VAI CHEGANDO E O CÉU PAULISTA, AZUL DESATURADO, VAI SE TINGINDO NO HORIZONTE DAS BEL SÃO AS CORES DO NOSSO COTIDIANO.


AS BELAS CORES LARANJA E ROXO. SÃO AS CORES DA NOSSA POLUIÇÃO.


CAPĂ?TULO VI A volta para casa


MAIS UM DIA É comum dizer que nunca se pode saber o que o dia guarda para a gente. Mas chega ao fim mais um dia como qualquer outro e nada aconteceu. Os paulistanos iniciam suas jornadas de volta para a casa. No trânsito, pessoas debruçadas sobre os volantes se perguntam o que vai ter para o jantar. Nas filas dos pontos de ônibus e nos metrôs, pessoas se deixam levar pela inércia do fluxo das muvucas. É fim de mais um dia e tudo que esperamos é o conforto de nossas casas onde podemos comer e descansar.


SÃO QUASE 17H00 E O ADVOGADO QUER SAIR CORRENDO PRA NÃO PEGAR O HORÁRIO DO RODÍZIO.


Júlia, está quase na hora do meu rodízio. Cancela os próximos compromissos e prepara isso aqui até amanhã cedo.

A...Amanhã de manhã?!

É.


Mas estรก quase na hora de ir pegar a minha filha na escola! Eu preciso ir!

?


Ué? Mas você não falou que seu marido trabalha lá perto? Pede pra ele ir buscar, uai. Para que serve a família?

Tá. Então... Tá.

Bom. Vou nessa. Pra não ter que ficar até depois do rodízio.


ESTACIONAMENTO

E

E O ADVOGADO SE DIRIGE AO ESTACIONAMENTO SEM TER A MENOR NOÇÃO DO QUE HOUVERA ACONTECIDO COM SEU MAIS AMADO PATRIMÔNIO RODOVIARISTA CANCERÍGENO PEÇONHENTO.


VAI TOMAR NO CU!

PORRA! CACETE! VOCÊ RISCOU TODO O MEU CARRO, SEU IMBECIL! FALEI PRA VOCÊ TOMAR CUIDADO.

Desculpa, doutor! Mas é que sabe o que é? Eu tava manobrando assim e aí eu não aguen....


MEU CARRO! Faz assim. Manda consertar e blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla Ai, droga...Mais um blablabla blablabla blablabla blablabla mês de piso gelado... blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla blablabla e no final desconta tudo do seu salário, né?


Ei! Manobrista! Eu estou falando! Você está prestando atenção? Ah. Quer saber. Esquece. Já não vou poder ir de carro mesmo. Você riscou tudo! Além disso...deixa ver as horas.

CINCO HORAS! Quer saber. Tive um dia pesado e não estou com cabeça pra isso. Conserta o carro pra amanhã e a gente resolve isso depois com seu chefe.


Bom. Não posso voltar com o carro riscado. Imagina, figurão como eu andar de carro riscado! Acho que vou de táxi. Se bem que a essa hora o táxi é mais devagar que baiano. Falam que tem esse tal de corredor de ônibus. Será que é rápido mesmo? Bom. Deve ser. Pra roubar uma pista inteira e piorar o trânsito dos carros. Vamos tentar. Talvez não seja tão ruim. Ninguém deve andar disso. deve estar vazio agora. Finalmente vou usar aquele cartãozinho que a Júlia me deu.


IP

P PIP

Que sufoco pra conseguir sentar! E essa gorda aqui do lado. Podiam fazer o banco mais largo nĂŠ.


UM RUU CAB

E mais essa agora...Chuva!

CORTA PRA MIM! E A CHUVA ASSOLA DENOVO A CIDADE DE SÃO PAULO! Ô PREFEITO! FAZ ALGUMA COISA, PREFEITO!


ISSO É INCRÍVEL

PASSAM ANOS E A CENA QUE VEMOS REPETIR TODOS OS DIAS DE CHUVA...

Ô PREFEITO! PRESTA ATENçÃO E DÁ UM JEITO NISSO! SE REPETEM TODOS OS ANOS! QUANDO ALGUÉM VAI FAZER ALGUMA COISA?


É NOITE E JÁ NÃO CHOVE. O ADVOGADO DESCE EM UM DOS PONTOS DE ÔNIBUS DE MOEMA POR ONDE SÓ HAVIA ANDADO DE CARRO. PODERIA CHEGAR MAIS RÁPIDO EM CASA, MAS NÃO CONHECIA O CAMINHO A PÉ. RESOLVEU FAZER O MESMO CAMINHO DO CARRO.


Carro riscado. Cidade inundada. Ônibus com cheiro de sovaco. Que dia!. Amanhã vou pro trabalho de táxi!

Puf. Puf. Puf. Nunca pensei que minha casa fosse tão longe do ponto de ônibus!


CLE

CK! CLE

CK!

...

CLE CK!

Bom. Jรก estou chegando em casa. Ainda bem que colocaram essas luzes com sensor.


?

!

CLE CK!


É NOITE E O PAI AINDA NÃO CHEGOU...


BIBLIOGRAFIA

_PIGNANELLI, Pablo E.B. - Origens históricas e involução da arquitetura: Os últimos vinte anos de projetos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulho| CDHU. Dissertação de metrado FAU-USP _JACOBS, Jane - Morte e vida de grandes cidades| Martins Fontes, São Paulo, 2000 _FONSECA, Nuno de - Anexos à tese de doutorado FAUUSP, 2000 _HABI-COPED - Estudo sobre o fenômeno da favela no município de São Paulo,| 1974 _KAHNEY, Leander - A cabeça de Steve Jobs| Agir Editora LTDA, 2008 _LEFÈVRE, José Eduardo de Assis - De beco a avenida: A história da rua São Luiz| EDUSP, 2006 _CDHU - Unidades habitacionais padrão utilizadas nos empreendimentos da CDHU| 2007 _CORBUSIER, Le - Urbanismo| Martins Fontes, São Paulo, 2000 _EISNER, Will - Nova York: A vida na grande cidade| Companhia das letras, São Paulo, 2009 _WARE, Cris - Jimmy Corrigan: O menino mais esperto do mundo| Companhia das letras, Sãao Paulo, 2009 _ARTIGAS, Rosa - Paulo Mendes da Rocha: projetos 1999-2006| Cosac Naify, São Paulo, 2007 _ARTIGAS, Rosa - Paulo Mendes da Rocha| Cosac Naify, São Paulo, 2006 _BRASIL, Luciana Tombi - David Libeskind - Ensaios sobre as residências unifamiliares| EDUSP, São Paulo, 2007 _FRANCO, Ruy Eduardo Debs - Artacho Jurado - Arquitetura Proibida| SENAC, São Paulo, 2008 _ANELLI, Renato/GUERRA, Abílio/ KON, Nelson - Rino Levi: Arquitetura e Cidade| Romano Guerra, São Paulo, 2001



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