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Sonho de consumo: que surfista nunca desejou uma piscina de ondas com direitas e esquerdas perfeitas para brincar até não aguentar mais, sem depender de swell, maré, etc? O futuro chegou.

DIVERSÃO NO

jardim A Wavegarden, marca que representa a tecnologia capaz de produzir ondas artificiais de qualidade, planeja lançar duas novas piscinas até 2015. Saiba como funciona essa fonte infinita de diversão. por Bruno Abbud fotos Renato Tinoco e ASP


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m 1779, quase ninguém sabia o que era surfar. Quando o capitão inglês James Cook aportou no North Shore de Oahu e deu de cara com nativos alegres e extasiados dropando paredes azul-turquesa, o mundo ganhou um presente: a humanidade havia descoberto como deslizar sobre as ondas. Para registrar o que viu, Cook escreveu uma carta que chegou à Europa e entrou para a história. Se fosse teletransportado do além para os dias de hoje e visitasse uma piscina de ondas chamada Wavegarden, localizada no País Basco, norte da Espanha, talvez o capitão escrevesse outra carta – desta vez, surpreso e impressionado não com a existência do surf, mas com a descoberta de que o homem é capaz de construir pequenos oceanos particulares. Inaugurada em 2011 na região de Zarautz, a Wavegarden surgiu como uma piscina artificial pouco notada. Outras concorrentes – como a Wadi Adventure, em Al Ain, nos Emirados Árabes, ou a Typhoon Lagoon, na Flórida, Estados Unidos – costumavam atrair mais gente interessada em surfar paredes artificiais. No ano passado, contudo, a Instant Sport, empresa que controla a onda espanhola, anunciou a Wavegarden 2.0 – uma nova tecnologia capaz de gerar ondas maiores e mais potentes. Resultado: hoje é possí-

vel surfar 120 ondas por hora, que quebram tanto para a direita como para a esquerda por 220 metros de extensão e duração de 20 segundos. Cada onda, gerada por uma lâmina hidrodinâmica que percorre o fundo da lagoa, atinge o tamanho de até 1,2 metro. De acordo com Felip Verger, da Instant Sport, o tamanho da onda é proporcional à área do lago. Isso significa que a tecnologia espanhola é capaz de produzir uma Mavericks artificial. “A tecnologia demonstrou, por meio de modelos de simulação avançada, que é capaz de fazer ondas de qualquer tamanho e comprimento, dependendo do tamanho da lagoa”, diz ele. Mas acalme-se: por enquan-

to, isso só existe no computador. Atualmente, a Wavegarden não está aberta ao público. Recebe apenas convidados – geralmente surfistas profissionais e freesurfers famosos que ajudam a divulgar a tecnologia para possíveis compradores. “Os caras não recebem ninguém além de convidados, portanto, se você quer uma água mineral, não pode comprar porque não há lanchonete. Tem que ir buscar na casa do dono do terreno. Ou seja, não tem estrutura para receber pessoas”, conta o fotógrafo Renato Tinoco, que esteve por lá e trouxe as fotos que ilustram esta matéria. Verger explica: “O que as pessoas veem nas redes sociais são vídeos e fotos que usamos para mostrar para potenciais clientes e investidores como a piscina funciona. Também abrimos a piscina a surfistas profissionais e a pequenos grupos como estratégia de mídia e para receber o feedback de surfistas de diferentes níveis de habilidade”. Segundo ele, a Wavegarden abre as portas apenas durante o verão europeu, permanecendo fechada durante o inverno para pesquisas de desenvolvimento. Se você estiver interessado em instalar uma Wavegarden no quintal de casa, terá que desembolsar nada menos do que algo entre 3 e 5 milhões de euros, ou seja, cerca de R$ 15 milhões. “Isso inclui só as obras para a piscina. Não inclui o preço do terreno, licenças, construções nos arredores, como bares, por exemplo, nem obras para trazer o abastecimento de água e energia”, explica Verger. Parece caro.

Nesta pág., de cima para baixo, cansou de surfar? Vai relaxar um pouco na pista de skate; as ondas amigáveis do Wavegarden são um prato cheio para a formação de jovens talentos, que podem aprender o básico ali e depois ir testar seus limites no oceano. Na pág. ao lado, o campeão mundial Mick Fanning é um dos pilotos de testes convidados pela empresa para avaliar a evolução da tecnologia.

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Mesmo assim, existem hoje 18 projetos em andamento ao redor do globo, principalmente na Europa, Estados Unidos e Austrália. “Nós não revelamos onde exatamente essas piscinas estão sendo construídas para não criar falsas esperanças caso os projetos não sejam concluídos”, diz Felip. “Mas esperamos ver ao menos duas novas piscinas inauguradas dentro de um ano”. A Wavegarden foi inventada por um sujeito chamado José Maria Odriozola dez anos antes de a primeira piscina física ser construída. Engenheiro por formação e surfista por paixão, Odriozola foi criado em Donostia-San Sebastián, cidade litorânea no País Basco. Por ali, o crowd é intenso, e já era perturbador surfar naquela época. Odriozola teve uma luz: “Se skatistas e snowboarders possuem suas próprias pistas, por que nós surfistas também não podemos ter a nossa?”. Ele começou a pesquisar tecnologias capazes de gerar ondas. “Odriozola focou as pesquisas em dois pontos: primeiro, tinha que ser uma tecnologia pronta para produzir boas ondas e, segundo, tinha que ser barato”, conta Felip. A pri-

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meira opção foi cumprida. Por isso, a Wavegarden costuma contar com a presença constante de surfistas famosos, entre eles, Jeremy Flores, Craig Anderson, Dane Reynolds, Mick Fanning, Gabriel Medina, Miguel Pupo, Taj Burrow, Adriano de Souza... “Eu achei muito divertido, você surfa mais de cem ondas por hora, é um lugar perfeito para entrar no ritmo”, diz Adriano. “Quando vou à Europa, sempre passo na Wavegarden para me divertir. A onda é boa, você sente que não está em zona de perigo, às vezes é bom sentir essa adrenalina de estar em zona de risco, mas na piscina é pura diversão. Você acaba tentando manobras que não fazem parte do seu repertório e é demais poder surfar em um ambiente diferente”, continua o atleta. Embora a maior parte dos integrantes da chamada “Brazilian Storm” sejam figuras carimbadas na piscina espanhola, a Instant Sport ainda não planeja nenhuma obra no Brasil. Para Mineirinho, uma Wavegarden tupiniquim seria ideal. “O Brasil é o lugar certo para ter uma piscina de ondas artificiais. Temos a cidade mais surf sem ondas, que é Brasília. A cidade respira surf. A construção de uma piscina lá contribuiria muito para o esporte”. Quem sabe, em breve.

Wavegarden em números:

120 ondas por hora. 20 segundos de duração - cada onda. 1,2 metro de tamanho. Entre 3 e 5 milhões de euros (ou R$ 15 milhões) é o preço da tecnologia.

Acima, a praia já não é mais o único paraíso dos surfistas. Na outra pág., no alto, Gabriel Medina jogando água doce para o céu; abaixo, Miguel Pupo experimentando o surf no jardim.

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Pauta: como funciona uma piscina artificial de ondas no País Basco - Abril de 2014, Fluir.  
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