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O ÚLTIMO

HERÓI DE

JEFFREYS

BAY

Vencedor da tradicional etapa sul-africana do Circuito Mundial em 2012, Adriano de Souza retorna às direitas de J-Bay este ano e se depara com ADRIANO DE SOUZA, DE VOLTA ÀS ONDAS GELADAS DA ÁFRICA DO SUL, PAÍS QUE FREQUENTA DESDE OS 14 ANOS DE IDADE.

o vazio de uma praia sem campeonato. A perfeição quilométrica de Jeffreys Bay deve voltar ao Tour em 2015, segundo a ASP. POR BRUNO ABBUD FOTOS EDUARDO FLECK ROSA


© KIRSTIN /ASP

ABAIXO, A DIFERENÇA ABISSAL QUE SEPARA AS VERSÕES DE J-BAY COM E SEM CAMPEONATO. AO LADO, MINEIRO DENTRO DO TUBO DE UMA DAS QUILOMÉTRICAS JOIAS AFRICANAS.

As

ondas de Jeffreys Bay continuam longas e gélidas como sempre foram. As pedras no fundo permanecem lá. Até os tubarões-brancos que costumam rodear a baía são os mesmos – mas há algo diferente no ar. É o primeiro ano em que não se vê por ali nenhum sinal dos eventos do Circuito Mundial da ASP. É a primeira vez que nenhuma faixa do Billabong Pro é vista desde os anos 90, quando a cidade entrou de uma vez por todas no Tour. J-Bay estreou no WCT em 1984, numa etapa vencida pelo australiano Mark Occhilupo, mas só voltaria a integrar o World Tour em 1996, desta vez com a Billabong, que continuou apostando nas direitas perfeitas do pico até o ano passado. Desde aquele ano, cujo evento foi vencido por Kelly Slater, J-Bay abrigou 15 etapas do “Dream Tour” e duas da divisão de acesso. Foram 16 anos consecutivos em que surfistas de todos os cantos e frestas do planeta apareceram por lá para prestigiar a onda que figura quase sempre entre as favoritas dos Top 34 da ASP. O último deles a vencer nas águas de Jeffreys Bay ignorou o fato de não haver campeonatos este ano e aterrissou no começo de julho naquela ponta gelada do gigantesco continente africano – como faz todos os anos desde os 14 anos de idade. Adriano “Mineirinho” de Souza, 26, foi o primeiro brasileiro a levantar o troféu por ali. Com o título de campeão da etapa 6 estrelas em 2012, tornou-se o último herói de Jeffreys Bay. Este ano, no entanto, Mineiro – que disputou sua primeira etapa em J-Bay em 2006, chegando às quartas de final – percebeu que o cenário da pacata cidade na costa da África do Sul estava muito diferente daquele que encontrou no ano passado. O mundo do surf profissional não estava ali. Não havia nenhum herói levantando qualquer tipo de troféu, ninguém que pudesse “salvar” os cidadãos ao movimentar a economia local. “É notável a diferença em J-Bay com e sem campeonato, dá para perceber ao caminhar pela rua”, diz 86

RE VI S TA FLU I R

“os campeonatos são bons porque movimentam a cidade, os hoteis e restaurantes ganham com isso. Hoje eles sentem falta das pessoas, desse movimento” o guarujaense, que chegou ao pico ao lado do filmmaker catarinense Bruno Tessari, do fotógrafo Eduardo Fleck Rosa e de Lima Junior, da equipe de seu patrocinador Pena. “Eu prefiro assim, sem muita gente, sem barulho, isso ajuda no meu treino. Com menos gente na água tenho a possibilidade de surfar mais ondas. Mas os campeonatos são bons porque movimentam a cidade, os hotéis e restaurantes ganham com isso. Hoje eles sentem falta das pessoas, desse movimento.” J-BAY DE VOLTA AO WCT? O americano Andy Davis, artista e surfista de San Diego, na Califórnia, também chegou em julho a Jeffreys Bay, para acompanhar o Jeffreys Bay Open Of Surfing, campeonato criado por surfistas locais. Davis aportou num bar na Da Gama Road, uma das principais vias da cidade, e descreveu a atmosfera que encontrou: “Mesmo lotado de parede a parede, o lugar parecia um pouco vazio. Estavam fazendo falta todos aqueles sotaques australianos (e suas risadas de hiena), os cabelos recém-penteados e sempre na moda dos a me r ica nos, alé m de sua s câ me r a s G o Pro e Cannon 5D em punho, estavam fazendo falta os ombros arqueados para trás e toda a fanfarronice dos brasileiros e também

aquele glamour dos integrantes da elite do sur f mundial, especialmente suas belas namoradas”. Mas Mineiro estava lá. Ele foi a J-Bay pela primeira vez em 2001, aos 14 anos, para aprender inglês e acompanhar o amigo Danilo Costa, que fora competir num Trial do WCT. Tamanha é a intimidade do guarujaense com a onda africana que o convidamos para escrever sobre J-Bay no Guia de Viagens da FLUIR, lançado este ano. “Como competidor, fico triste de não haver mais uma competição numa onda tão fantástica como Jeffreys Bay”, afirma. Se depender da ASP, a tristeza de Mineiro tem data para acabar. De acordo com Renato Hickel, Tour Manager do WCT, há planos para que a etapa patrocinada pela Billabong em J-Bay volte ao Tour daqui a dois anos. “É intenção da ASP trazer a prova de volta ao WCT em 2015. Todos nós acreditamos que Supertubes deve fazer parte do Tour”, disse o gerente. Mas esse será outro capítulo da história, pelo qual esperaremos ansiosos. O episódio que culminou na retirada definitiva de J-Bay do Tour aconteceu em 23 de fevereiro de 2012, quando a Billabong anunciou que a etapa do WCT na mitológica onda africana seria rebaixada para o nível 6 estrelas. >


© CESTARI /ASP

PROTESTO EM J-BAY: MENSAGEM NA PRANCHA APOIA AS MANIFESTAÇÕES QUE TOMARAM O BRASIL EM JUNHO. ABAIXO, MINEIRO RELAXA COM OS LOCAIS. NA OUTRA PÁG., O ÚLTIMO CAMPEÃO CELEBRA A VITÓRIA NOS BRAÇOS DE FILIPE TOLEDO E PETERSON CRISANTO.

Depois disso, no começo deste ano, a marca australiana informou que a etapa seria retirada totalmente do Circuito Mundial. À época, o 11 vezes campeão mundial Kelly Slater concluiu, em tom de brincadeira: “A corrida pelo título mundial acaba de ficar mais fácil para os goofy footers”. Como Kelly, Mineiro é regular footer, e talvez por isso tenha se transformado num aficionado por J-Bay e suas paredes quilométricas. Mineiro chegou a Jeffreys Bay em 1º de julho. Ficou até o dia 14. No meio da viagem, encontrou o surfista paraibano Jano Belo e o paulista Flávio Nakagima, e a partir de então ganhou companhia para treinar em todas as seções da máquina de ondas sul-africana – que começa a funcionar em Boneyards, a seção mais no outside, passa por Supertubes e Impossibles e termina em Tubes e The Point. Reza a lenda que o santista Picuruta Salazar conquistou a proeza de surfar todas as seções – mais de 1 quilômetro de sonho. A possibilidade inesgotável de manobrar contribuiu para o desempenho de Mineiro no Tour este ano. “Jeffreys Bay foi fundamental para a minha vitória em Bells Beach”, diz ele, que levou a final na Austrália contra o californiano Nat Young e, hoje, aparece em sétimo lugar no ranking da corrida pelo título mundial (até o fechamento desta edição). “Fui criado nas ondas de J-Bay, é uma onda única, não dá para compará-la com nenhuma outra onda no mundo, mas o surf que você executa em J-Bay e em Bells é parecido, é o surf de linha, embora as ondas não tenham nada a ver uma com a outra. Nada se compara àquele line-up, é difícil encontrar no mundo a formação perfeita daquela baía. Quando o mar está menor, a onda fica perfeita para manobras aéreas, manobras de borda e o surf de linha.” REAÇÃO CONTRA O REATOR Mas aquele line-up está ameaçado. Conforme revelou o site Waves em setembro de 2012, a empresa estatal sul-africana Eskom planeja, desde 2009, construir uma usina nuclear em Thyspunt, a 16 quilômetros de J-Bay. A construção de um reator de até 8 mil megawatts – para dar uma ideia, a obra da usina de Belo Monte, no Pará, considerada a terceira maior do mundo, terá capacidade de cerca de 11 mil megawatts – transformaria a cidade vizinha na sede da maior usina nuclear da África do Sul. Com o início das obras, quase 5 mil caminhões passariam a frequentar as ruas de J-Bay, novas estradas seriam construídas e trabalhadores de toda a África aterrissariam na pacata cidade de 40 mil habitantes, dobrando a população. >

AG OS TO

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frequentar as direitas perfeitas de Jeffreys Bay. Nada vai fazer com que o guarujaense deixe de surfar as paredes longas com seções tubulares que lhe apresentaram, durante seu crescimento profissional, ídolos como o havaiano Andy Irons e o sul-africano Sean Holmes, ambos protagonistas de espetáculos particulares nos expressos africanos. “Para mim, os melhores em J-Bay sempre foram o Andy e o Sean Holmes”, diz Mineiro. “A onda de J-Bay não é tão simples quanto parece, tem as suas qualidades e suas dificuldades, como o crowd e a água gelada. Mas quando os melhores fatores se unem... Meu Deus.” < ADRIANO DE SOUZA E EQUIPE VIAJARAM COM APOIO DA WELCOME SURFTRIPS

O HAVAIANO ANDY IRONS FOI CONSAGRADO COMO UM DOS MELHORES SURFISTAS NA LENDÁRIA ONDA AFRICANA. ABAIXO, O SUL-AFRICANO SEAN HOLMES, TAMBÉM DONO DE PERFORMANCES ESPETACULARES NO PICO. NA OUTRA PÁG., A ESTRADA QUE LEVA À FELICIDADE.

© CESTARI /ASP, © JOLI

Além disso, as águas geladas de J-Bay serviriam para resfriar os condensadores da usina, algo que poderia deixar altíssimo o nível de radioatividade do mar. “A Eskom planeja bombear cerca de 6,3 milhões de metros cúbicos de areia no mar. A pesca da lula vai acabar e deixar muitas pessoas sem emprego. Atualmente a lula corresponde a cerca de 30% do pescado da região”, disse à época Trudi Malan, coordenadora da ONG Thyspunt Aliance, organização criada em 2010 para defender J-Bay. O shaper Glen D’Arcy, que vive na região desde os anos 80, também reclama da grande obra. “O dinheiro move o mundo e deixa as pessoas cegas. Mais cedo ou mais tarde, infelizmente, a construção da usina vai acontecer”, disse, na ocasião. Até esse dia chegar, Mineiro vai continuar a

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Pauta: viagem do surfista Adriano de Souza à África do Sul (1) - Agosto de 2013, Fluir.  
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