Issuu on Google+

S C O O B Y

SCOOBY EM UM DOS POUCOS LUGARES EM QUE SUA ELOQUÊNCIA NÃO FICA TÃO EVIDENTE: DENTRO DO TUBO.

D O M

D E

S E R

F E L I Z

PUPILO DE CARLOS BURLE,

M A R I D O D E L U A N A P I O VA N I ,

AMIGO DE NEYMAR. NÃO SÃO P O U C A S A S FA C E TA S D O S U R F I S TA C A R I O C A P E D R O S C O O B Y, UM DOS BIG RIDERS MAIS PROMISSORES DO BRASIL. POR BRUNO ABBUD

© PHOTOBRENT


O

telefone toca. É o fim de tarde do último dia da e t a p a brasileira do WCT e alguns surfistas profissionais relaxam num bar na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Pedro Henrique Motta Vianna, 24 anos, atende. Faz tempo – na verdade, desde a infância – que ele é Pedro “Scooby”, e com esse nome se tornou o big rider que desafia toda a ira de ondas gigantes ao redor do planeta, o pupilo de Carlos Burle, o fã de Nathan Fletcher, o surfista bom de aéreos, o marido de Luana Piovani, o amigo de Neymar, o confidente de Gabriel Medina... Mas, agora, ele é Pedro Scooby, o pai do menino Dom. “Só um minutinho, vou atender a babá”, anuncia, no meio da entrevista. “Oi, Simone, falei com a Luana, ela está gravando no ‘Faustão’. Pode levar o Dom para a outra festinha direto, fica lá umas duas horinhas, se ele estiver se divertindo. Se ele não estiver gostando, pode levar embora pra casa. Ele está se divertindo?!”. A preocupação com o filho diz muito sobre o pai: a diversão parece ser a meta número um na vida de Scooby. Como ele mesmo se define em sua página do Twitter, Scooby (que ganhou o apelido depois que alguém notou nele alguma semelhança com o personagem Scooby Doo) é “pai em primeiro lugar, tudo mais depois”. Esse “tudo mais”, meu amigo, engloba muita coisa. Inclusive sua história.  Scooby nasceu no Rio de Janeiro, foi criado na praia do Recreio, onde subiu numa prancha pela primeira vez aos 5 anos, empurrado pelo pai, Alexandre. Com 10, começou a frequentar as aulas de surf na escola de Marcelo Hiena, também no Recreio. Nessa época, Scooby estudou em colégios particulares e passou muitas férias na fazenda do pai em Passos, interior de Minas Gerais. “Eu sou completamente louco por fazenda, mas pego onda. O engraçado é que são opostos”, diz. “Tenho um outro lado da minha vida que muita gente não conhece, que é ir pra fazenda, colocar uma bota, um chapéu, escutar música sertaneja e andar a cavalo.” Da família de criação, hoje, Scooby só convive com a mãe e dois irmãos – um de sangue, mais novo, e um de consideração. “Hoje em dia tenho zero contato com meu pai. Sempre tivemos essa coisa do cavalo que uniu a gente na fazenda, mas atualmente temos uma relação muito ruim. Na verdade, eu não vivo a vida dele. Ele tem uma filha e uma esposa que eu também nunca vejo.”

Hoje a família de Scooby se resume ao filho Dom, de 1 ano, e à mulher, Luana Piovani, 36 anos, a atriz global, estrela de cinema, já eleita a mulher mais sexy do mundo, que encontrou certa vez num camarote da Sapucaí, durante o Carnaval de 2011. “Fiquei conversando com ela e nos apaixonamos, nunca mais nos separamos. Foi muito doido, parece que casamos naquele dia”, conta o big rider, que tinha 4 anos quando

NA PÁG. AO LADO, O SURFISTA DE APENAS 24 ANOS MOSTRANDO SEU LADO FAMÍLIA, COM A ESPOSA LUANA PIOVANI E O FILHO DOM, AMBOS TOTALMENTE À VONTADE. NESTA PÁG., AS FOTOS POSTADAS POR SCOOBY NO INSTAGRAM REVELAM SUA ROTINA E SEUS AMIGOS: DA ESQ. PARA DIR., COM O SKATISTA BOB BURNQUIST; COM O PAGODEIRO THIAGUINHO; COM OS JOGADORES ANDRÉ E NEYMAR, DO SANTOS F.C.; COM A ESPOSA LUANA; COM O PARAQUEDISTA GUI PÁDUA; COM KELLY SLATER E MICHEL BOUREZ NO WCT RIO; COM BOB E MARCELO D2; COM LUCIANO HUCK E GABRIEL MEDINA; NA APRESENTAÇÃO DO UNIFORME DA SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL; COM NEYMAR, LUANA E DOM; COM O MESTRE CARLOS BURLE; COM O IRMÃO SAULO, LUTADOR DE MMA; COM O AMIGO FELIPE “GORDO” CESARANO NO PRÊMIO FLUIR WAVES 2013. ABAIXO, DESAFIANDO OS LIMITES EM TEAHUPOO.

O CÉU É O LIMITE

Pedro Scooby vive o mainstream do surf brasileiro e internacional. Teve seu perfil publicado na revista californiana “Surfing Magazine”, no jornal “O Globo”, na revista “Trip”. Reportagem nas revistas “Veja”, “GQ Magazine” e “Quem”, foi a Londres para uma matéria da “Contigo” e fez um ensaio para a “Marie Claire”. Apareceu no “Caldeirão do Huck” e no programa “Esquenta”, de Regina Casé, da Globo, em programas da MTV e até desfilou ternos para o estilista Ricardo Almeida. Em 15 de junho último, Scooby começou a gravar os episódios do seriado que vai estrear este ano no canal Off, em que percorre ilhas da Indonésia, Califórnia e México atrás de ondas alucinantes. >

© ARQ. PESSOAL, © PETE FRIEDEN

O PELADO DO KERRUPT

Luana estreou na televisão, aos 16. Luana narra o encontro: “Ele estava de chinelo, todo tatuado, cabelo raspado, já achei interessante. Em um mês, a gente estava morando junto. Em três, eu engravidei.  Foi super-rápido. Tinha que acontecer. Vi que ali havia uma calma interior que era bem diferente do que eu estava acostumada”. A diferença de 12 anos de idade do casal também era notável, mas Luana não deu a mínima. “A gente brinca que, lá na frente, quando eu tiver 80 e ele 68, ele vai ter que me ajudar a atravessar a rua.” Os dois planejam ter outros três filhos, e Scooby faz questão que um deles seja adotado e negro. “Eu adoro a cor, tenho grandes ídolos da raça negra, como Tupac, Martin Luther King, LeBron James, Jon Jones, Anderson Silva”, explica. Assim como Luana, o surfista carioca também começou a carreira cedo. Aos 15, foi o segundo brasileiro a completar um kerrupt flip, depois de Marcos Sifu, e, com a ajuda do amigo Rui Costa, conseguiu emplacar a imagem da manobra no filme “FoQueiu”, lançado pela produtora Que! em 2003. Foi o primeiro da carreira. “Naquele dia eu tirei a bermuda, dropei a onda pelado e mandei um kerrupt, na praia da Reserva. À noite o Rui Costa levou o vídeo para o pessoal da Que! e disse: ‘Olha o que esse cara fez’. Isso foi uma das coisas que mostrou o meu lado freesurfer, porque eu não me dava tão bem nos campeonatos, mas, na primeira vez que tentei o kerrupt, completei”, compara Scooby, que foi vice-campeão carioca amador por duas vezes e participou de algumas etapas do Pro Junior. Tempos depois, veio a chance de largar a competição para sempre. “Eu queria muito ser freesurfer. Fui até a ...Lost, que me patrocinava na época, e ouvi: ‘É isso que você quer? Então está fechado’. Passei a viajar o mundo e pegar só onda perfeita.” Não demorou para que outro patrocinador de peso surgisse. Scooby assinou seu primeiro contrato com a Nike aos 18 anos. A parceria, que já dura seis anos e tem validade até 2015, rende ao big rider viagens às maiores e mais perfeitas ondas do planeta, uma casa inteira só para ele durante a temporada havaiana e a participação em filmes ao lado de estrelas como Neymar e Anderson Silva. No ano passado, a Nike renunciou o patrocínio dado a surfistas profissionais – entre eles, Julian Wilson, Alejo Muniz e Filipe Toledo –, transferindo os contratos para a Hurley, empresa que comprou em 2002. Só Scooby permaneceu com a gigante americana. “O mundo inteiro está olhando para o Rio de Janeiro, a cidade é a bola da vez com a Copa do Mundo e a Olimpíada. O Neymar é paulista, o Anderson Silva é do Sul, então, eu estou representando o Rio de Janeiro para a Nike”, explica Scooby.


80

RE VI S TA FLU I R

© SEBASTIAN ROJAS, © FRED POMPERMAYER

Também pretende se mudar com Luana e Dom para o eixo Califórnia-Hawaii e, em breve, lançará um projeto de conscientização ambiental em parceria com a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, no Rio de Janeiro – depois que percebeu que uma tampa de garrafa fabricada no Brasil foi parar no estômago de um pássaro na Polinésia Francesa.  Scooby frequenta círculos completamente heterogêneos. Pode ser visto com Gabriel Medina no outside – “O Medina é como se fosse meu irmão mais novo. Eu atendo ele de madrugada, ele manda beijo, fala ‘te amo’ pra mim. Se bobear, é o meu melhor amigo dentro do mundo do surf” – ou numa noitada com Neymar: “O Neymar é um querido, uma pessoa supersimples. A gente se fala por Whatsapp, eu fui pra Santos, fiquei na casa dele. A gente sai junto quando ele vem pro Rio”. Talvez por manter tantos amigos diferentes, o surfista carioca não se veja por completo dentro do universo do surf. “Eu sou zero surfista, não me visto igual, não ando igual, não gosto das mesmas coisas”, afirma Scooby. O círculo de amizades ainda inclui Ronaldo Nazário e Bruninho, da seleção brasileira de vôlei. “Eu tenho consciência de que levo o surf para pessoas que nunca tiveram contato com uma prancha. Tenho consciência de que eu faço o surf crescer no Brasil”, diz. Mas o que, afinal, levou Scooby a um patamar tão elevado?  Há quem diga que o casamento com Luana Piovani ajudou a decolar sua carreira. Pode ser, mas a habilidade na água e o fato de fazer parte da equipe de big riders liderada por Carlos Burle, ao lado de Felipe “Gordo” Cesarano e Maya Gabeira foi o que realmente levou Scooby às alturas. Existem dois episódios que ilustram muito bem a origem desse sucesso. Um aconteceu em Puerto Escondido, no México. O outro, sob as mandíbulas poderosas de Teahupoo, no Tahiti. Agosto de 2010. Depois de uma temporada de cinco meses parado por conta de um pé engessado, Scooby apareceu na praia de Zicatela, conhecida por ser um dos mais potentes beach breaks do mundo, na mesma semana em que um swell chegava com força na costa mexicana. Ele estava sem prancha. “Eu tinha escorregado na grama e quebrado meu pé em três pedaços. Fiquei dois meses de gesso, um mês de bota e mais dois fazendo fisioterapia. Eu estava branco, até meio gordinho. Pensei: ‘Pô, maneiro, o maior swell do ano e eu assistindo aos caras pegarem onda. O Greg Long, o Twiggy, o Jamie Sterling, todo mundo chegando na praia, e eu lá’”, conta. “Comentei que eu me via lá dentro, que poderia pegar uma onda animal. Aí o (fotógrafo) Daniel Smorigo disse: ‘Ah, duvido, vai lá então’. SCOOBY TALVEZ SEJA UM DOS POUCOS QUE REJEITAM O Bento, um surfista do Sul, me emprestou a prancha e eu O ESTEREÓTIPO DO SURFISTA PADRÃO E NÃO HESITA EM DIZER QUE fui.” Com a gunzeira emprestada, Scooby pegou o maior GOSTA DE FAZENDA E SERTANEJO, ALÉM DE ROCK, FUNK, PAGODE, tubo do dia, que concorreu ao XXL Big Wave Awards de SAMBA E TUDO MAIS: “SOU UM TÍPICO CARIOCA, UM CARA DE 2011. “Foi quando percebi que gostava de onda grande, BEM COM A VIDA”. NA OUTRA PÁG., ALÉM DE BIG RIDER, ELE porque eu me senti bem no mar, em minutos veio a série e, TAMBÉM TEM UM AMPLO REPERTÓRIO DE MANOBRAS AÉREAS. logo na primeira onda, eu virei e remei de cabeça pra baixo. Nunca tinha surfado com uma 9’3” na vida. A maior prancha que eu tinha usado era uma 6’10”. Consegui dropar meio despencando, botei pra dentro do tubo e a praia inteira gritou, o Twiggy veio na areia me abraçar, foi animal.” Um ano depois, o segundo episódio. Durante a lua de mel com Luana em Bora-Bora, bebendo champanhe em um bangalô sobre as águas cristalinas  da Polinésia Francesa, Scooby recebe um e-mail de Carlos Burle. Estava a caminho do Tahiti o mais temido swell da história de Teahupoo, batizado depois de Code Red, que interrompeu a etapa do WCT para a entrada em cena dos maiores big riders do planeta. E, pela segunda vez, Scooby não tinha prancha. Telefonou para Frankie D’Andrea, chefe de equipe da Nike, e pediu a ele que providenciasse uma prancha de tow-in com urgência. Detalhe: Scooby nunca tinha feito tow-in. “Quando chegou, Frankie perguntou: ‘Você já testou prancha de tow-in?’. Eu respondi que não e ele emendou: ‘Cara, é melhor você não entrar’. Eu disse: ‘Vou entrar, sim, relaxa que vai dar tudo certo. Fé em Deus’.” Deu certo. Naquele dia, Scooby pegou cinco ondas, sendo três vacas e dois tubos, com uma prancha leve demais e imprópria. “Alguns me chamaram de maluco, mas eu escolhi aquela prancha porque era a única que tinha um adesivo da Nike. Não dava para pegar um tubão com adesivo de outra marca.” A performance rendeu ao surfista o prêmio FLUIR de Melhor Tubo do ano e um lugar na lista de concorrentes ao XXL Big Wave Awards nas categorias Ride of the Year e Monster Tube.  “Gosto de testar o meu limite, de surfar na água congelando, com long john, gorro, luva, bota. Porque é fácil surfar num lugar que tem canal, com água quente e jet ski. Testar o limite é surfar uma onda gigante, no frio, com tubarão, sem ninguém te olhando”, diz Scooby, que também pretende virar paraquedista e já avisou o amigo Bob Burnquist que quer aprender a dropar a Mega Rampa. Scooby parece mesmo confiar na frase que tatuou no braço direito, “Salvo para todo o sempre”, inspirada nas palavras da mãe, que disse que esse seria o destino do filho caso ele fosse uma pessoa boa. Que continue assim. >


ESTA ONDA EM PUERTO ESCONDIDO, SURFADA EM 2010 COM UMA 9’3” QUANDO SCOOBY VOLTAVA DE UMA FRATURA NO PÉ E NUNCA TINHA USADO UMA PRANCHA ACIMA DE 7 PÉS, FOI O DIVISOR DE ÁGUAS NA CARREIRA DO ATLETA E DESPERTOU A VONTADE DELE EM INVESTIR NO UNIVERSO DAS ONDAS GRANDES.

O PUPILO

Atualmente, a rotina de Pedro Scooby é caçar ondas grandes. E se preparar para elas. Scooby tem um personal trainer três vezes por semana. Faz treinos aeróbicos e funcionais, acorda às 4 horas da manhã para ir surfar e contratou uma nutricionista que visita sua casa toda semana. Mas com certeza o que mais contribui para a sua carreira de big rider são as lições que recebe do pernambucano Carlos Burle. “O Burle é meu mestre, chamo ele de mestre, para onde ele vai eu vou atrás, se ele falou, tá falado”, diz. O mestre afirma que o pupilo está no caminho certo. “Scooby é autêntico dentro e fora da água. Tem muito talento e vontade de aprender, é um surfista de ondas grandes moderno, surfa bem em qualquer tamanho e condição, é um excelente tube rider. O que mais tem dado certo na nossa relação é a sinceridade. A gente não perde tempo com joguinhos. No lado emocional, acho que ele pode trabalhar a paciência. Vai ajudar nas escolhas das melhores ondas”, ensina Burle. “Estamos sempre atentos ao próximo swell. Onda grande é isso, você tem que estar pronto porque, quando acontecer, não pode deixar passar”, diz Scooby. “Eu queria ter pegado aquela onda do Koa Rothman em Teahupoo, ou a do Nathan Fletcher. Se vier, não vou puxar o bico. Tenho total confiança na minha capacidade, sempre penso além do que posso e me imagino fazendo coisas que ainda não faço.” Uma cena clássica que envolveu mestre e pupilo aconteceu durante uma manhã em Dungeons, na costa oeste da África do Sul, um dos picos de ondas grandes mais famosos do mundo. O mar mexido e o vento exagerado não desanimaram Burle. “Vamos ficar aqui até melhorar”, insistiu o experiente big rider, ao lado de Scooby e Gordo. Até o californiano Greg Long e o sul-africano local Grant “Twiggy” Baker tinham aparecido por lá e decidido voltar para casa, desanimados com as condições. “O Burle falou: ‘Vamos entrar no mar’. O Gordo não queria, com medo de tubarão-branco, mas acabou entrando. O mar foi melhorando e chegou uma hora que tinha altas ondas e só a gente na água”, Scooby conta. “A sabedoria do Burle é muito legal. Eu tenho sede de aprender com ele.” Scooby diz que Burle quer passar essa sabedoria antes de se aposentar. “Ele tem 45 anos e o que ele fez e faz até hoje já o transformou em um mito. Acredito que ele tem essa vontade de que alguém o substitua, por isso ele pegou eu, o Gordo e a Maya para criar no mundo de ondas grandes.” Como Maya mora na Califórnia, a maior parte das viagens de Scooby acontece ao lado de Gordo, amigo que conhece há mais de 15 anos, dos tempos do Recreio. “O Gordo é um cara que se joga muito e puxa o meu ritmo. Vejo o cara dropando uma onda da série e penso: ‘Nossa, vou também’. E acabo indo em umas ondas gigantes. E o Burle, que é um cara muito consciente, vai desacelerando a gente, vai colocando a energia no lugar certo.” E o que será que os companheiros de ondas grandes pensam de Scooby? “O Scooby é um moleque de bom coração, um talento nato, surfa de 1 a vários pés, está sempre amarradão e sua principal característica é que ele ama aparecer, mas isso é bom, faz ele trabalhar as mídias sociais como ninguém”, se diverte Gordo ao descrever o amigo. Maya endossa os elogios, mas tem uma reclamação: “O Scooby tem estrela e muito talento. Sempre me impressiono com sua autoconfiança e a tranquilidade quando o mar está gigante. Ele sempre faz com que eu acredite mais em mim e puxe meus limites. O problema é que ele adora usar as minhas pranchas!”, entrega. Scooby é um cara de sorte. Na temporada havaiana de dezembro de 2010, ele viveu uma situação inusitada com um de seus ídolos, o casca-grossa Nathan Fletcher. “Nathan é o meu ídolo número um. Quando encontrei com ele,

O POLÊMICO

É bastante aflorado o lado polêmico de Scooby, que adora surfar pelado e já posou nu com uma prancha que estampava a bandeira gay, numa campanha contra a homofobia. Em 2011, xingou Kelly Slater no Twitter, depois de comemorar a vitória de Gabriel Medina sobre a lenda viva do surf na bateria das quartas de final da etapa do WCT em Hossegor, na França. “Vão falar o que do @gabrielmedina? Fuck @aspworldtour! Fuck @kellyslater.” Slater respondeu: “You wanna have sex with me, Scooby? No thanks, haha” (na tradução: “Quer fazer sexo comigo, Scooby? Não, obrigado”). Eles já fizeram as pazes e inclusive foram vistos juntos na área VIP da etapa do WCT no Rio de Janeiro, em maio passado, mas a maneira como os surfistas brasileiros são julgados no Circuito Mundial ainda tira o carioca do sério. “Eu sou brasileiro e meu time é Medina Surf Clube”, explica. “Na verdade, eu não falei para o cara, falei para a sociedade, falei para o Brasil. F***-se que o Slater é campeão mundial, agora nós temos o nosso ídolo, vamos levantar nossa bandeira e incentivar o Medina.” Além de tudo, Scooby é patriota. “O Brasil é  um país que tem uma beleza natural incrível, um povo incrível, dezenas de ídolos incríveis e que está bombando no futebol, no surf e em vários outros esportes. Temos a ‘Brazilian Storm’, os moleques estão arrebentando, o Gordo, a Maya e eu estamos representando nas ondas grandes, o Ricardo dos Santos e o Bruno Santos são a nova geração de tube riders que destruíram em Teahupoo e Pipeline, eles entubam tão bem quanto qualquer cara do mundo, temos o Medina, um dos melhores competidores do mundo. Sou aquele cara que briga quando falam mal do Brasil...”, avisa Scooby. Ele vai continuar brigando, porque é preciso brigar para alcançar a felicidade. Quando perguntado sobre seu lema de vida, mais um de seus ídolos vem à tona: “Sou fã de um cara que todo mundo sempre crucificou, o Adriano Imperador (jogador de futebol). Vi uma matéria com ele e tive vontade de chorar no fim, quando apareceu ele andando descalço na rua e de fundo rolando aquela música ‘Eu só quero é ser feliz... andar tranquilamente na favela onde eu nasci’. Esse é o meu lema, eu só quero ser feliz”. <

“Eu sempre quis ser um cara

completo no surf. Ser o cara dos aéreos, o tube rider, o estiloso e o big rider. Quando dropei

aquela bomba em Puerto Escondido, comecei a me sentir assim.” © BIDU

82

perguntei se podia dar um presente, ele concordou. Aí dei a ele um pôster da minha onda em Puerto Escondido. Ele olhou e disse: ‘Nossa, é você? Este é um dos maiores tubos que já vi em Puerto Escondido, autografa pra mim?’. E eu autografei.” Mais tarde, Scooby topou com Fletcher novamente, dessa vez durante a cerimônia de premiação do XXL na Califórnia. “Nesse dia encontrei o Nathan e ele virou e disse para a esposa: ‘Esse é o cara que está no pôster pendurado no nosso quarto’. Foi animal”.  Mas não foi só isso. O que poderia ser mais irado para um fã do que estar num pôster pendurado no quarto do próprio ídolo? A resposta é: ser confundido com o ídolo. Foi o que aconteceu com Scooby numa matéria da revista “Surfing”. “Eu estava surfando em Off The Wall havia vários dias, estava grande e fechando e eu estava botando pra dentro. Aí a “Surfing” fez uma matéria que dizia: ‘Tinha um cara de prancha verde e short john botando pra dentro nas fechadeiras. Nossa, é o Nathan Fletcher’. E alguém foi lá e corrigiu o repórter: ‘Não, é o Scooby’”, conta. Mas ele sabe que tem um longo caminho até chegar lá: “Meus dois grandes ídolos sempre foram o Fletcher e o Bruce Irons, dois surfistas que quebram na marola, mandam altas manobras, pegam altos tubos e surfam ondas gigantes. Eu sempre quis ser um cara completo no surf. Ser o cara dos aéreos, o tube rider, o estiloso e o big rider. Quando dropei aquela bomba em Puerto Escondido, comecei a me sentir assim”.

RE VI S TA FLU I R

JULHO

83


Pauta: perfil do surfista Pedro Scooby (1) - Julho de 2013, Fluir.