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Sebastian Rojas dá as últimas dicas aos alunos antes da primeira aula prática no mar.

Diário de um fotógrafo aspirante Graças à evolução dos equipamentos fotográficos digitais e workshops de mestres como Sebastian Rojas, uma das atividades mais admiradas e cobiçadas pelos amantes do surf ficou mais acessível. Por Bruno Abbud

Sexta-feira, 20 de setembro. Manhã de sol. A

PÁ G .

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500 alunos – algo que, muitas vezes, gera controvérsia entre os colegas de trabalho: “Pô, Sebá, você vai ficar colocando concorrentes no mercado?”. Sim, ele justifica. “Sinto que tenho um dom e que o melhor a fazer é passá-lo adiante.”

Sábado, 21 de setembro, 11h49. Sol forte, céu

sem nuvens. Séries de meio a 1 metro vindas de sudeste estampam o horizonte quando Sebastian, eu e mais três alunos entramos no mar. Ondas tubulares, crowd intenso. Cada aspirante tem direito a 20 minutos com a câmera de Sebastian enfiada numa caixa-estanque vermelha. Todo o equipamento – que é armazenado por Sebastian em uma caixa de madeira com uma lâmpada acesa 24 horas por dia, para evitar a umidade – é preso no braço por um curto leash de nylon. Sebastian Rojas é um ser humano com guelras. Ele avança sob a água como um peixe. A série surge no horizonte. Alinho-me ao lado do professor, que minutos antes explicava aos alunos como analisar as correntes. Nós furamos a onda juntos, mas, quando saio da água, Sebastian está quase 10 metros à frente, livre da zona de impacto. “Ao furar a onda, bato as nadadeiras e me arrasto por baixo da água com as mãos encravadas na areia”, ensina. Dois alunos tomam a série na cabeça. Um deles, sem pés de pato, desiste e volta para a areia. A correnteza no Tombo, onde Sebastian mora há oito anos, é chata. Puxa para o canto direito. Alguns alunos não aguentam o baque – e preferem registrar imagens a distância, com a lente de 600 milímetros equilibrada sobre um tripé embaixo dos guarda-sóis, longe da turbulência. Outros enfrentam o desafio. Para garantir a melhor imagem é preciso manter a caixa-estanque na superfície. Isso porque a água cria uma camada no vidro que impede a lente de focar o alvo. >

© DIVULGAÇÃO

sala ao lado do restaurante da pousada Canto do Forte, na praia do Tombo, Guarujá, está lotada com quase 20 alunos interessados em sugar todo aprendizado possível do fotógrafo especializado em surf Sebastian Rojas, 53 anos – metade deles trabalhando na FLUIR. Um telão mostra os conceitos básicos da fotografia: entrada de luz, tempo de exposição, sensibilidade do sensor da máquina. É o início do Workshop de Fotografia de Surf promovido por Sebastian cerca de três vezes por ano. A turma é composta de gente como Lyncon Carvalho, um controlador de contêineres de 34 anos que trabalha durante a madrugada no porto de Santos e quer aprofundar o hábito de fotografar os amigos no line-up, ou Vitor Keese, 22, um filmmaker de São Paulo que pretende gravar vídeos de surf profissionalmente. Há fotógrafos amadores e semiprofissionais acostumados a registrar casamentos, festas de família e eventos em geral. No primeiro dia, Sebastian ensina, por exemplo, como fugir do excesso de luz geralmente refletido pela espuma branca do mar. Explica, com a ajuda do amigo Paulo Henrique Farias, como tratar as fotos no programa Adobe Lightroom e mostra que um dia de céu azul e sol forte exige uma “abertura 5.6 no diafragma, velocidade 1000 no obturador e ISO 100” – em média. Avisa que é preciso passar cera de ouvido em caixas-estanques de vidro reto e saliva nas de vidros convexos para fazer a água escorrer mais facilmente. “A gordurinha do rosto é ideal para evitar que o vidro embace e fazer a água escorrer.” Cada aluno recebeu a missão de entregar, no fim do curso, dez fotos sobre dez temas que variavam entre natureza, ecologia, ação dentro da água, ação fora da água, lifestyle... Desde 2008, Sebastian já ministrou suas aulas para mais de

Pauta: diário de um fotógrafo aspirante (1) - Outubro de 2013, Fluir.