Issuu on Google+

054

PÁG.

COMO FOI SURFAR A ONDA PELA PRIMEIRA VEZ?

Ensaiei na minha mente todos os movimentos necessários para surfar essa onda. Fiz isso muitas vezes. Foi como um aquecimento para o grande momento. É complicado imaginar-se surfando uma onda que você nunca surfou e saber que você terá somente uma chance para dropar, que seu tempo está passando, tudo isso é mentalmente desgastante. A onda começa gorda e devagar, aí fica rápida e, depois de 20 ou 30 segundos, atinge um banco de areia e nos cinco segundos seguintes fica realmente rápida e oca. Se tivesse outra chance de surfar a onda, tentaria ficar dentro do tubo, atravessá-lo até o outro lado e surfar toda a parede até a areia.   COMO O FATO DE TER DESCOBERTO A ONDA INFLUENCIOU SUA VIDA?

A coisa que mais amo naquele pico é que não há ninguém lá. É calmo, surreal, e a beleza disso tudo faz com que você nunca queira sair de lá. Por esses seis longos meses de inverno, perdi completamente o contato com a realidade. Minha família, meus amigos, minha namorada, todos ficaram sem notícias minhas, foi tudo muito intenso. Estava tão consumido por minha busca particular que a maioria dos meus sonhos

era sobre aquele lugar, aquela onda. E, infelizmente, eles não eram bons. Todos compartilhavam de um mesmo tema, a onda na Alemanha, embora o pior deles tenha se passado em minha cidade natal, Santa Cruz. Estava com meu irmão dirigindo rumo a um dos nossos picos de surf favoritos. Remamos, sentamos no meio do crowd, e, de repente, vi ao longe o navio chegando, meu navio! Comecei a brigar com os outros surfistas por uma boa posição no line-up porque sabia que haveria apenas uma única onda. E então, bem na hora que a onda me alcança, eu acordo, estressado. Foram seis meses muito duros.   QUAIS FORAM AS PIORES DIFICULDADES?

Uma das minhas casas durante o tempo em que estive gravando o filme foi um velho galpão industrial construído em 1910. O espaço tem um pé-direito de 4 metros de altura, 160 metros quadrados e apenas um fogão a lenha. Tinha também janelas enormes e antigas e nenhum ponto de eletricidade. Meu corpo costumava ficar tão frio e estressado por tentar tantas vezes surfar naquela água congelante que eu era forçado a ferver água e até mesmo a cozinhar minha comida naquele fogão para sobreviver. Certa noite, depois de ficar do lado de fora, em um ar de -14 ˚C e uma água a 0 ˚C, quase tive hipotermia e passei a noite inteira vomitando. Pela manhã era completamente impossível avistar o lado de fora porque as janelas estavam inteiramente cobertas de gelo. Apesar de ter sofrido bastante durante aquele inverno, eu realmente o aproveitei. Acho que me sinto atraído por lugares escuros, frios, silenciosos e difíceis. Talvez o fato de ter crescido no frio nebuloso da costa da Califórnia tenha algo a ver com isso.   COMO FOI A ROTINA DA BUSCA POR ESSA ONDA?

Quando me vi de mudança para Berlim, em 2005, não tinha nem pensado em checar se havia costa por perto. Eu me apaixonei pela cidade e por uma garota, e tive a sorte de meu local de trabalho, em que produzia vídeos para a revista “Vice”, ficar a apenas algumas quadras de uma das poucas surf shops de Berlim. Fiz amigos e passei a frequentar estranhos campeonatos de remo em pranchas de surf na cidade de Cologne. Em 2008, comprei com minha namorada uma pequena casa de campo na frente de um lago, e comecei a remar pelos lagos e rios de Berlim, à procura de um banco de areia que pudesse estar bem localizado, no rastro de um dos navios de contêineres que costumam passar por ali. Mas não tive sorte nessa minha pesquisa.   QUANDO SERÁ A ESTREIA DO FILME?

Creio que daqui um ano, em julho de 2014. Ainda há centenas de horas de gravações que não vi. Também estou planejando lançar a trilha sonora do filme em vinil e produzir um livro de fotografias, além de um cartaz para acompanhar o lançamento do filme. Aprecio muito o jeito que as pessoas faziam os filmes de surf dos anos 60 e 70. As cenas eram longas, os sons eram mostrados em toda sua forma, até o fim, e não apenas trechos, e tudo fluía de maneira lenta. Quero que o filme seja longo o suficiente para que o espectador faça mais do que se sentar e assistir a tudo enquanto almoça. Foi uma aventura incrível. Quero criar um filme que irá trazer as pessoas junto comigo para deslizar nessa onda. <

PÁ G .

54


Pauta: surfista descobre uma onda gerada por um navio na Alemanha (2) - Agosto de 2013, Fluir.