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afu graffiti arte de rua cultura urbana E dicao | a n o |


editorial

Na cidade despida de cores, o que vemos se não tão somente esses muros vazios gritantes. Porque não colorir? Porque calar frente ao branco nu das paredes? A cidade como tela, o cinza como suporte, a escrita em cor na poesia visual que fala o que poucos querem ler e o que muitos querem “limpar”. A realidade das ruas na ocupação da cidade, dos muros, das placas, de todos espaços em branco, em cinza. O mágico invisível que “suja”, que assina, que invade. Afinal, de quem é a cidade? A este pertencimento que poucos sentem, muitos ousam dizer que ela é tão minha quanto sua e se sentem à vontade para dar cor a esta opacidade muda. As intenções muitas vezes não captadas fazem essas inscrições anônimas virarem apenas um escorrer de tinta em meio a tanta uniformidade. O urbano se fragmenta entre a sujeira e a galeria de arte ao ar livre, entre o espectador atento ao que o concreto diz e à higienização do que precisa parecer perfeito, do que precisa permanecer silenciado. (Re)descobrir a cidade é preciso. E é através do efêmero que o apelo pela metamorfose do espaço público clamam as tintas. (Carolina Ferreira)

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bate papo com Cauê da SubsoloArt

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Nova Beat - Rap santamariense

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graffiti e fotografia

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sumario

entre(vista) com Braziliano

expediente Projeto Editorial - Bruna Camargo Carolina Ferreita Projeto Gráfico - Bruna Camargo Redação - Carolina Ferreira

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com

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entre(vista) com

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Afú conversou com o grafiteiro Braziliano sobre a cena da arte de rua e as possibilidades do pixo e do graffiti na cidade de Santa Maria. Afú – Como e quando começou teu envolvimento

com o grafite? Braziliano - Por andar de skate desde 1996, já tinha uma sintonia urbana e tinha consciência de suas possibilidades de expressão, estava muito ligado no que acontecia em outras cidades, mas em 2001 foi o marco zero do grafite em Santa Maria. Com a vinda do Luiz Flávio (Trampo) pra cidade eu comecei a entender esta atitude como cultura, minhas intenções com relação à cidade mudaram, este hábito foi acoplado à minha vida, esta intervenção, uma comunicação direta a todos que estivessem abertos a uma arte livre.

Afú – Qual tua principal influência e motivação? Braziliano - A atmosfera que me cercava era a

principal influência. Freqüentava fliperama, andava de skate, tocava em banda, o grafite era um complemento de tudo isto, motivado pela essência transgressora. Aos 13 anos fui ao meu primeiro show de hard core, aos 14 me tornei ateu, o que pode parecer bobagem, mas era a construção do senso crítico, questionar a base. Hoje entendo a espiritualidade de outra forma, mais horizontal do que vertical, e tudo isso sempre está comigo quando dou o próximo passo nesta cultura urbana.

Afú – Qual é a ligação e/ou diferença do pixo para o grafite?

Braziliano - Esta é uma reflexão muito atual,

chegamos a um ponto que o senso comum deseja muito ramificar estas expressões. Aqui em Santa Maria, por muitos anos quem produzia o grafite, também pixava, usava estêncil, fazia colagens, pintava trem, produzia stickers, não se limitavam a um rótulo apenas. Então, pra se tentar combater as pixações as pessoas de fora tentavam segregar, não entendendo que as duas são livres e não devem pedir autorização para existir, a única diferença entre elas é estética.

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fotos disponĂ­veis em:http://www.f lickr.com/photos/brazilianotv/


Afú – Ao longo dos anos o que mudou no cenário do grafite?

Braziliano - Vou tentar explicar aonde a maionese

desandou ao longo destes mais de 10 anos de grafite. Os primeiros contatos de nós grafiteiros com o público foram bastante positivos, pois era algo novo que surgia pela cidade. Nos bairros que pintávamos recebíamos muitos elogios das pessoas que os habitavam, não fazia o menor sentido pedir autorização para fazer algo que não se tinha o convívio, que estava sendo gerado naquele momento, por muito tempo os artistas escolhiam lugares abandonados, tapumes de obras ou praças, ambientes degradados e esquecidos pelo poder público, prontos para serem restaurados pela presença humana do grafite, era um contato direto da arte com a população. Neste tempo, também, eram muito comuns as oficinas em escolas, para apresentar a cultura as novas gerações, até que com o passar dos anos os problemas começaram a ficar mais corriqueiros. A prefeitura sempre dando de ombros para as tentativas de diálogo, quando interessada, normalmente, não respeitava os artistas ao querer sempre dar temas para as pinturas, não visualizava este cunho social do grafite, dificultava e, ainda, age desta forma até hoje. Nos eventos, por exemplo, a matemática é simples, você organiza os artistas, o material, sem pedir um centavo, digita um documento com todas as especificações necessárias e, mesmo assim, demora no mínimo uma semana para dar uma autorização, o grafite não pode esperar tanto pra acontecer, é uma necessidade imediata. O último caso de demora ocorreu graças ao reflexo desta ignorância, ao solicitar o espaço Guarani Atlântico (Salgado Filho) para uma evento que iria revitalizar os muros do local aconteceu uma avalanche de incompetência. A Secretaria de Cultura disse não poder autorizar, porque o local era um centro esportivo, na Secretaria de Esporte também não quiseram dar

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autorização, alegando não ser um evento esportivo. Fui direcionado ao Departamento de Mobilidade Urbana, ao informar que os muros eram internos escutei que nada poderiam fazer. Este é um caso que resume todos estes anos de relações com o governo, e pra completar a nuvem negra que se abateu sobre o grafite em Santa Maria, vou citar a intolerância da polícia, que faziam questão de B.Os por pintar tapumes, por colar adesivo no lado oposto de placas, que recolhia se tivesse colando um cartaz, sem contar suas abordagens violentas, que nos iguala no rótulo de “fora da lei”.

Estas ações nos deixaram mais unidos e politizados, afinal, temos que superar um sistema e ainda estudar para refinar o traço. Toda esta tolerância zero acarretou no que Santa Maria é hoje: a segunda cidade mais pixada do estado, estamos no olho de um furacão que não tem data pra acabar, quando se derem conta que grafite e pixo não são artes decorativas e sim transformadoras, já vai ser tarde demais.

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Afú – Qual teu ponto de vista a respeito das

pessoas que ainda criminalizam o grafite. Braziliano - Pra começar a mudança, temos que dar foco às pessoas que apoiam, que estão percebendo estas transformações, que geram novas opiniões, pensamentos e ideias, que logo serão os pilares da sociedade contemporânea, não perder tempo tentado convencer mentes abruptas que geram soluções em um segundo pra todos os problemas do mundo, que preferem mãos sujas de sangue do que de tinta.

Afú - Já sofreu ou presenciou algum tipo de

violência policial por estar grafitando? Braziliano - Sim, todas as agressões se transformaram em certeza de que é isto que farei até o último dia de vida, não gosto da ideia de me vitimizar. Para alguém se transformar em seu inimigo ou vilão é necessário que esteja em um patamar de igualdade ou superioridade, não é o caso.

Afú - De que forma tu acredita que a arte de rua

nos influência? Braziliano - A presença poética da arte de rua já é transformadora, não precisa nem mesmo de frase de efeito, a criança que cresse com esta atmosfera no seu bairro e mesmo no resto da cidade, descobre que a arte é livre, e as possibilidades são infinitas, aprende também que existem relações que vão além da econômica. É só fluir pelas ruas, retomar espaços públicos e fortalecer laços viscerais e não digitais. Afú – Gostaríamos que tu falasse um pouco sobre teu trampo, o que representam pra ti, os elementos que tu utiliza nele. Braziliano - Quando fui em busca da minha linguagem, voltei à minha infância, quando desenhava muito robôs por influência da TV e videogame. Estes desenhos simples foram se transformando em algo mais híbrido, dando uma alma e um visual orgânico, ainda assim, não humano, uma crítica às relações humanas robóticas e o apego sentimental que acabamos desenvolvendo por objetos.

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Afú - Além do grafite quais teus interesses como artista? Braziliano - Propagar o máximo possível as minhas

linguagens que não estão somente no meu grafite ou em minhas ilustrações, estão também em minhas relações humanas, gerar emoções com traços, cores e palavras, nesta busca, enquanto mais me interiorizo, mais me encontro com o outro, meu interesses como artista é ir além.

Confira mais trabalhos do cara: http://www.f lickr.com/photos/brazilianotv/

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Bate Papo com Cauê da

SubsoloArt Buscando romper as amarras entre o graffiti e a cidade, a SubsoloArt chega com tudo para inaugurar um trabalho de discussão e ação sobre a arte urbana em Santa Maria.

“O graffiti começou como uma cicatriz no meio da cidade, que hoje muda nossa rotina e nossas vidas.” 14 14


Afú - De onde surgiu o interesse

pelo graffiti e como começou a SubsoloArt? Cauê - De certa forma, quando criança, sempre fui influenciado pela cultura norte-americana. O graffiti sempre esteve em meus pensamentos, mesmo que subliminarmente. Devido a isto, não sei dizer qual foi a primeira vez que vi um graffiti ou quando realmente me chamou a atenção. Tímido ainda, eu treinava em folhas de cadernos assinaturas horríveis, que em um primeiro momento quase me fizeram desistir deste “pequeno” sonho. Mais tarde o retomei, tendo uma leve sensação de satisfação fazendo, então, com que eu tivesse persistência para continuar a lutar por ele. Aqui em Santa Maria, em época de escola, surgiram oportunidades que me aproximaram deste meio. Ali, eu finalmente encontrei um estilo de vida que me completava e, principalmente, uma válvula de escape que fazia eu me sentir mais “vivo”. Através da pixação, comecei a botar meu nome na rua. Meu primeiro contato com spray foi horrível, eu

mal sabia pegar na lata. Se não fosse o empenho (ou a teimosia, rsrs) de querer levar adiante, o meu estudo pessoal, minhas letras e minhas técnicas, eu não teria chegado em lugar algum. Junto com a pixação diversos problemas surgiram, é uma coisa normal a ter de se enfrentar. Quase que simultaneamente fui aos poucos tentando fazer graffiti, e persistindo cada vez mais. Com o passar do tempo, vendo a dificuldade que tínhamos em produzir nossos trabalhos em Santa Maria, por ser uma cidade do interior, comecei a pensar em como poderíamos melhorar e expandir a cena e a qualidade dos trabalhos. Foi aí que surgiu a SubsoloArt. Inicialmente um site que reunia informações e produtos de qualidade. Trabalhando muito, dia após dia fui juntando um capital para investir e desenvolvendo, simultaneamente, o site, com a ajuda de um grande amigo. Hoje, trabalho além da informação e da distribuição de produtos, atuo diretamente em oficinas, palestras, projetos de graffiti, exposições e intercâmbios culturais com diversos artistas.

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Afú - Como funcionam teus projetos que envolvem graffiti e educação? Cauê - O graffiti me concedeu a oportunidade de passar o conhecimento adiante. Não só o conhecimento específico sobre esta área, mas um conhecimento de vida. Isso me fez perceber que as coisas realmente são bem maiores do que pensamos que sejam. A satisfação de poder ver uma criança com um rolo na mão e os olhos brilhando é imensa. Já trabalhei com crianças de 8 à 40 anos de idade. A juventude se identifica muito com o graffiti e a cultura urbana, pois tudo é muito novo, e de certa forma saem dos padrões a que nos obrigam a viver.

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O que percebo das escolas com as quais trabalhei é que a visão sobre o assunto é bem positiva, pois enxerga o resultado nos alunos. O graffiti acaba se tornando um auxílio para que o jovem esteja na escola e, atualmente, é uma ferramenta essencial que pode ser usada a favor de todos. Quem ganha? Eu, você, nossas crianças, a cidade e a sociedade, mesmo que não notem ou achem que seja inútil! O graffiti já faz parte de nossas vidas. Começou como uma cicatriz no meio da cidade, que hoje muda nossa rotina, e nossas vidas. Como arte, nos dá novas cores, formas e perspectivas para viver!


Afu - E para o futuro, quais são os planos? Cauê - A necessidade de expansão é cada vez

maior e, através disso, gerar retorno para os artistas e para a comunidade como um todo. Graças a Deus, apesar de grandes tropeços neste caminho, tenho a certeza de que a coisa está fluindo, mesmo que de uma forma ainda difícil. Se não fosse pra dar certo, já não tinha dado há muito tempo. Pretendo dar continuidade aos projetos já desenvolvidos e elaborar outros novos, ajudando novos talentos a desenvolverem suas produções deforma satisfatória, com recursos e informações de primeira! Por isso, na loja, trabalhamos com um circuito de exposições sobre arte urbana, oferecemos oficinas e produzimos debates onde podemos difundir o assunto e, cada vez mais, produzir e trazer trabalhos inéditos na cidade. A loja física foi uma prova de que podemos chegar longe se baixarmos a cabeça e trabalharmos com fé, amor e dedicação!

Afú - Um convite para a galera: Cauê - Convido a todos a conhecerem um

pouco mais do nosso trabalho, visitando a nossa loja e sala de exposições, que se encontram no endereço: Rua Doutor Eduardo Pinto de Morais, 185, quase esquina com Rua Olavo Bilac, a uma quadra da Praça dos Bombeiros. Horários de funcionamento da loja: Aberta pela manhã das 10 h às 13 h e à tarde das 15 h às 19 h.

fique ligado no que está rolando na loja. Acompanhe as novidades no site nas páginas da SubsoloArt:

(http://www.subsoloart.com/)

e

Facebook (https://www.facebook.com/subsolo.art) Twitter (https://twitter.com/SubsoloArt) Youtube (http://www.youtube.com/user/subsoloart)

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"Represento meu legado chamado Nova Beat, Represento a criação sem fronteira e limite" o que é? a Nova Beat é um grupo de rap nacional underground.

Quem são? Matheus Almeida Bessa, Henrique Henrich, Cauê Jacques, Rafael Feltrin e Igor (Mc Magrão.)

porque nova beat? Inspirado no livro “On The Road” de Jack Kerouac onde ele fala sobre a “Geração Beat”, que fazia poesia marginal na década de 50 com blues e caras do gueto que faziam um freestyle, ou seja uma rima livre em cima do beat (base). Daí surge a ideia de criar uma Nova Beat, uma nova opção pro rap santamariense.

O que querem? Visando tocar em festivais e apoiar atividades socio-culturais não governamentais, sem fins lucrativos, a Nova Beat quer expressar seu repúdio à corrupção e todas as formas de pré-conceito falando sobre o cotidiano das ruas e fortalecendo a cultura hip-hop que é muito influênte na vida do jovem brasileiro.

a relação do Rap com o Graffiti: Grafite e hip-hop se misturam pelo seu caráter de protesto. Grafite é protesto. Pixo é protesto. Rap é protesto. O hip-hop possui quatro elementos, sendo eles Mc, Break, Graffiti, Dj e, quando falamos em graffiti, logo nos remetemos ao pixo, por ser a essência do graffiti, apenas diferente na sua estética. Graffiti e rap se misturam funcionando como forma de expressão e mudança da sociedade.

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nova beat: rap santamariense

A nova beat ainda não gravou os sons, este é o próximo passo do grupo, que está planejando gravar um ep, para levar as músicas além da rua e fazer o som da Nova Beat circular mais longe.

acompanhe os caras: https://www.facebook.com/pages/Nova-Beat/548763718496235

conheça o EP da carreira solo do mc magrão: https://soundcloud.com/el-magro

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graffiti e fotografia l

ightpainting

é uma técnica fotográfica conseguida através da captação por câmera fotográfica em longa exposição e luzes em movimento. O efeito de “pintura com luz” pode ser obtido tanto com a câmera fixa em um tripé quanto com o movimento da própria câmera.

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As fotos são feitas de preferência à noite ou no escuro, para que a luz seja melhor captada e o desenho fique mais saliente. Fontes de luz de qualquer tipo podem ser utilizadas para a pintura. Para o PhotoGraffiti foram usados led’s, palhas de aço, lanternas.


O projeto PhotoGraffiti conduzido pelo fotógrafo Jefferson Ferreira, propõe um diálogo entre grafite e lightpaiting. Para realização do projeto, Jefferson contou com a parceria do fotógrafo Patric Saccol e do grafiteiro Cauê Toledo.

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Afú indica: Filmes e documentários sobre arte de rua

Brazucas:

Pixo (2009)

Direção: João Wainer e Robeto T. Oliveira Teasr: http://www.youtube.com/watch?v=TtlRZdLGi3I

Luz, câmera, pichação (2011)

Direção: Marcelo Guerra e Gustavo Coelho Site oficial: http://www.luzcamerapichacao.com.br/ Twitter: https://twitter.com/lcpichacao

Cidade cinza (2013)

Direção: Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo Trailer: https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=7NpppZaGfJo Facebook: https://www.facebook.com/cidadecinzasp

Gringo:

Graffiti Fine Art

http://vimeo.com/24928787

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Revista Afú  
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