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CAPA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE LETRAS E ARTES ESCOLA DE BELAS ARTES CURSO DE GRADUAÇÃO EM PINTURA

Diário de Pesquisa

LINGUAGEM NUA

Aluna

Bruna Souza Azevêdo Orientador

Me. Lícius Bossolan

Rio de Janeiro 2014/1º


Diário de Pesquisa

LINGUAGEM NUA Bruna Azevêdo detalhe da capa


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE LETRAS E ARTES ESCOLA DE BELAS ARTES CURSO DE GRADUAÇÃO EM PINTURA

DIÁRIO DE PESQUISA

LINGUAGEM NUA

Bruna Souza Azevêdo

Orientador Prof. Me. Lícius Bossolan

Rio de Janeiro, Junho 2014


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO Reitor Carlos Antônio Levi da Conceição Vice-Reitor Antônio José Ledo Alves da Cunha Diretor do Curso de Belas Artes Prof. Dr. Carlos Gonçalves Terra Vice-Diretora do Curso de Belas Artes Profa. Dra. Madalena Grimaldi de Carvalho Coordenador do Curso de Bacharelado em Pintura Prof. Marcelo Duprat Pereira

Este Diário de pesquisa foi constituído com base em pesquisas práticas e teóricas, realizadas em 2013 a 2014, como requisito para obtenção do Título de Bacharel em Pintura, com a orientação do profº Me. Licius da Silva Bossolan (EBA-UFRJ). Esse documento é de uso exclusivo do Curso de Graduação em Pintura da Escola de Belas Artes, UFRJ e seu conteúdo não pode ser reproduzido sem autorização da autora. Capa: LINGUAGEM NUA I Pintora: Bruna Azevêdo Ano: 2014

2014/1º


DIÁRIO DE PESQUISA

Bruna Souza Azevêdo

LINGUAGEM NUA

Aprovado em:

Orientador

Prof. Me. Lícius da Silva Bossolan Universidade Federal do Rio de Janeiro

Professora Convidada

Profa. Dra. Martha Werneck Universidade Federal do Rio de Janeiro

Professor Convidado

Prof. Dr. Vladimir Machado Universidade Federal do Rio de Janeiro


DEDICATÓRIA

Dedico a ela que me apoiou nos mais complicados caminhos e nas criações mais prazerosas que tive apenas segurando minhas mãos, desde o momento em que nasci e que a vi partir. Dedico aos que me ensinaram a segurar um lápis e que parede não é papel, mas que com o tempo não se importaram com o cheiro e a casa cheia de tinta, linhaça, telas, tudo para apoiar, se surpreender e admirar a nova pintura realizada no chão da sala. Dedico as duas que serviram de modelo e que emprestaram seus ouvidos para escutar palavras que nada compreendiam. Dedico aos cinco anos juntas, das primeiras palavras sobre arte e das longas conversas sobre assuntos aleatórios e incisivos, dos conselhos artísticos e pessoais, do me ajudar a crescer como amiga artista e pessoa. Dedico aos que conheci desde o meu primeiro pé na faculdade, aos que conheci no caminho de outros passos e por ainda estarmos juntos nesta saída para o novo rumo que irei caminhar. Risadas, conversas, verdades, choros e Arte... Isso não seria nada se não fossem vocês. Dedico a ele, que me cobriu com seu manto e me fez guerreira e brava combatente em cada batalha enfrentada, sempre com respeito e humildade ao próximo. Dedico ao meu maior, da paixão a Arte que tenho e das descobertas realizadas, do talento que sempre busco aprimorar e de nunca me contentar com o pouco, de querer sempre o melhor de mim. Dedico a você, que por vontade e curiosidade parou um pouco da sua vida para ler este projeto.

Muito obrigada.


AGRADECIMENTOS

Agradeço a UFRJ pelos professores de qualidades particulares e que me enriqueceram a cada período concluído com sucesso. Agradeço ao Renato Shamá, pelo momento que achei que fosse cair, você teve a paciência para me ensinar a levantar e corrigir meu erro. Agradeço a Marcelle Fagundes, Aline Lima, Julia Abreu, Alineleni Yuma e Victor Araújo por não me fazer desistir de escrever e por acreditarem nesta pesquisa. Gostaria de agradecer ao Professor Lícius Bossolan, por me apoiar neste primeiro projeto tão ambicioso em minha vida artística. Acreditar é o primeiro incentivo concreto que temos para nossas criações e pesquisas. Ser orientador é ser um porto para preparar um aluno que está saindo da segurança do cais para navegar nas águas mais calmas e ou traiçoeiras encontradas no meio do vazio que é a Arte. Nunca estaremos satisfeitos e nem devemos. Confio em você como você confiou em mim e sei que estou indo além do que simples linhas.

Obrigada.


Estudo para Gravura (Pandant) Tamanho: 15cm x 15cm Técnica: Grafite s/ Canson 2013

Página 01


RESUMO Homem Nu; Corpo despido. A utilização do corpo masculino nu como imagem ainda é desconcertante, principalmente para o gênero masculino, vestidos de valores morais antiquados e equivocados que, pensa ele, definem sua integridade máscula. Baseando-me no estudo do entendimento do “Homem – Identidade / Objeto”, proponho outra maneira de reconhecer e aceitar o nu masculino, não como imagem erótica, mas sim como imagem corporal estética. Dessa maneira, dentro dessa proposta de esvaziamento de qualquer conteúdo sexual que possa ser relacionado ao nu masculino (mesmo que utópica), essa pesquisa consiste em uma série de pinturas e desenhos que tem como tema o “Corpo Comunicativo” (corpo objeto). Nesta série utilizei imagens do nu masculino enroscado em tecidos, criando composições onde, com a presença de espaços vazios, abre-se espaço para ampla interpretação perceptiva do observador, livre para conjugar símbolos e linguagens particulares para além da mera leitura erótica. Palavras chave: Corpo Comunicativo; Nu Masculino; Gênero-Objeto; Imagem; Dança; Tecido.

Página 02


à esquerda Estudo da Pintura 1 Tamanho: 29cm x 21cm Técnica: Grafite s/ Canson 2013

Página 03

acima Ensaio fotográfico Modelo Vivo: Anônimo Fotografa: Bruna Azevêdo 2013


SUMÁRIO Página INTRODUÇÃO

--------------------------------------- 05

O HOMEM NU

------------------------------ 09

„IMAGEM‟ : GÊNERO - OBJETO

------------------------------- 1 1

CORPO COMUNICATIVO

------------------------------- 1 5

TECIDO

------------------------------- 1 7

PROCESSO CRIATIVO

--------------------------------------- 1 9

ETAPA 1: COMPOSIÇÃO

------------------------------- 23

ETAPA 2: REFERENCIAS VISUAIS - ARTÍSTICA - FOTOGRAFICA

------------------------------- 25 ------------------------------- 29

LINGUAGEM NUA

--------------------------------------- 33

-DESENHOS-OBRA - PINTURAS

------------------------------- 37 ------------------------------- 4 1

CONCLUSÃO

--------------------------------------- 57

BIBLOGRAFIA

-------------------------------------- 58


1º desenho do Diário de Pesquisa Sanguínea sobre Canson Bruna Azevêdo 2013 Fotografia : Licius da Silva


INTRODUÇÃO


INTRODUÇÃO

O corpo nu, veículo temporário e imperfeito do espírito, matéria constituída de carne que registra a passagem do tempo, costuma ser submetido às classificações sociais reguladoras e classificatórias de estereótipos por aqueles que intitulam se portadores da verdade e que subjugam o nu perante aqueles que ousam questionar os limites do corpo. A observação dessa imposição me fez direcionar a pesquisa pictórica para questionar essa situação, apropriando-me da representação do nu masculino para criar uma imagem idealizada do “masculino” dentro do conceito de “Homem” que aqui arbitro. Assim, compreendo o nu masculino em seu estado puro e despido de valores eróticos ou pornográficos, onde há a aceitação e apreciação visual apenas como objeto estético corpóreo, sempre manipulado como forma compositiva dentro do espaço pictórico. Aprofundei-me na relação “Corpo Comunicativo” para a construção de uma imagem corporal masculina a favor da troca e criação de informações sensoriais e perceptivas particulares ao transmissor-receptor. Desta maneira, acredito que o olhar do espectador possa criar seus julgamentos, a mercê de seu pensamento individual, pois com a imagem neutralizada, não os direciono, mas lhe dou as ferramentas. Para atingir esse objetivo, o “corpo despido” foi aqui idealizado e relacionado com qualidades presentes no tecido – também sempre compreendido em movimento –, tais como ser um material fluído, frágil, maleável e tradicional. Ao se fundir esteticamente com o nu, transfere a sua leveza material e faz com que o corpo flutue nas amarrações e nos drapeados intensamente desenhados e pintados. Logo, procuro neutralizar o homem para ser gênero-objeto¹.

1- Uma forma corporal de gênero masculino maleável, sem nenhuma relação identidária, para ser simples objeto de uso particular, lido da maneira que preferir.

Página 07


Pintura 2 Tamanho: 70cm x 50cm Técnica: Óleo s/ Tela 2013


O HOMEM NU

NU Modelo: MAX ROGERS Revista: GQ STYLE UK Publicação: Verão 2008

“Quando o corpo despido é de um homem, compreende-se melhor o interesse do nosso velho pudor. Mas os críticos, todos constituídos por homens, não apreciaram. Estavam chocados, ofendidos e enojados. O New York Times acusou a exposição de ser uma manobra feminista que tinha em vista ridicularizar e rebaixar o sexo masculino. No espírito dos críticos, o vestuário era indispensável ao respeito. Nuas, as mulheres parecem estar em seu estado natural. Os homens, esses, por uma razão estranha, têm simplesmente ar de despidos.”

- Gene Thornton, crítico do NY Times nos anos 70. “A exposição conta com 300 obras, muitas de artistas importantes, como Paul Cézanne e Joseph-Desire Court. Mas, muita gente não gostou da história, principalmente das imagens das obras expostas fora do museu e do cartaz de divulgação da mostra, que foram rejeitados pela população local, por conta disso, os organizadores tiveram que censurar as imagens, cobrindo as partes íntimas dos homens retratados. "Nós temos muitas, muitas reclamações. Nós não sabíamos que as pessoas ficariam tão chateadas e com muita raiva mesmo. Também estamos preocupados com a segurança do museu e da proteção aos visitantes, por conta dessa revolta", disse Klaus Pokarny, porta-voz do museu, mencionando que está muito decepcionado com a atitude dos austríacos. "Você sempre tem esperanças de que fizemos progressos, que agora estamos no século 21", lamenta ele.” – Entrevista a Klaus Pokarny, porta-voz da exposição Naked Men, em 2013.

Esses dois eventos provocaram uma reação de perplexidade e de indignação do público frente às obras expostas. Essa violênta recusa pelo tema apresentado ilustra bem essa problemática. É incrível que, mesmo no século XXI, a rigidez moral do passado se faz tão presente. Nota-se que a exposição da imagem do nu masculino ainda causa estranhamento e incomodo ao ser observado.


Hoje, mesmo em sua pouca exposição pública, a „imagem‟ da nudez masculina torna-se desconcertante ao ser visualizada em ambiente público, ocasionando sua má interpretação. Ressalto aqui a diferença entre a „imagem‟ de conteúdo erótico ou pornográfico e a „imagem‟ artística. A imagem de conteúdo erótico ou pornográfico consiste na função de estimular e excitar o espectador, pouco valorizando as questões estéticas artísticas, críticas ou sociais, quase sendo apenas um apelo físico funcional. A imagem de criação artística tem como única função servir a si mesmo, resolvida em diferentes linguagens dentro do discurso do artista, podendo fazer uso, inclusive, dos valores da imagem de conteúdo erótico ou pornográfico. É comum, ao olharmos uma imagem de nu, realizar a primeira análise com aprovação ou reprovação de acordo com seu posicionamento moral e intimo. Nesta pré-avaliação da imagem, o observador não constitui uma separação da „imagem‟ formal do gênero masculino da identidade do Homem como individuo. A imposição das classificações e discursos sobre o nu masculino, podendo dizer erroneamente machista, limita a exploração e valorização mais neutra do nu masculino nas mídias visuais e artísticas. Acredito que a arte foi e é, em sua imensidão, uma das forças pioneiras para a liberdade da abordagem do gênero nu masculino. Esta temática não é recente e se desenvolveu como subgênero artístico da figura humana. Sua abordagem, semelhante à forma em que a conhecemos, remonta aos tempos da Grécia e Roma antiga, retratada em pinturas e esculturas que exaltavam o corpo masculino. Na Idade Média, a interpretação deste corpo nu ficou fundamentada no induzir do homem à perda da fé e a sua entrega à libidinagem.

(detalhes abaixo)

JUÍZO FINAL Michelangelo Técnica: Afresco Capela Sistina, Vaticano 1535-1541

O Renascimento propôs visualmente corpos masculinos idealizados ao natural, voltando a buscar a inspiração nos mitos gregos, na perfeição de suas esculturas. O nu artístico voltou a ocupar espaço. Porém, com o peso da Igreja Católica, o órgão genital sofreu „agressão‟ em sua exposição, condizendo com a diminuição da masculinidade e do pudor do Homem, sendo ocultados pela representação de tecidos, folhagens e outros elementos. Cito como exemplo o afresco Juízo Final, realizado na Capela Sistina (Roma, Itália) por Miguelangelo, podendo ser observado na imagem ao lado. Felizmente nem todas as obras da época sofreram com tal fatalidade. Ao longo dos tempos, os estilos artísticos criaram suas abordagens e importâncias sobre o corpo masculino despido, e com as Vanguardas Artísticas afastaram-se dos padrões e se viram livres da representação como afirmação da identidade masculina dentro de cânones, principalmente com o advento da fotografia permitindo a maior liberdade imagética na arte. O corpo é o nosso suporte, local de registro das marcas vivenciadas e do que somos, todavia não podemos nos basear em uma imagem representativa, sendo possível de caráter imagético, para descrição da identidade masculina, principalmente este gênero que tanto ainda pode ser despido e verdadeiramente questionado além dos próprios pudores carnais e sociais. Página 10


„IMAGEM‟ : GÊNERO - OBJETO

BLACK AND WHITE (série PORTRAIT) Fotografo: ROBERT MAPPLETHORPE Modelo: Anônimo 1986

A razão para este tópico vem por querer propor a idéia de uma imagem corporal vazia de sentido, mesmo que utopicamente, para a concepção de uma nova leitura, destruindo qualquer identificação do individuo com a imagem artística. Faço então a importância de compreender a construção da imagem “gênero-objeto” sobre o corpo, o nu masculino. A imagem é um dos critérios básicos para que o mundo faça sentido na construção de elos significativos. Ao manipular uma imagem corporal masculina é comum ter um conflito no entender de masculinidade, principalmente no entender de gênero masculino, pois o individuo cria uma luta simultânea contra a dissolução de identidade, social e particular principalmente quando o apontamento é sexual. “...no conflitar da mistura das demandas “liberais” pela liberdade de auto-definição e auto-afirmação, e dos apelos “comunitários” a uma “totalidade maior do que a soma das partes”, bem como à propriedade sobre os impulsos destrutivos de cada uma das partes, por outros”. Bauman ²

Vivemos uma identidade „líquida‟, passageira para se definir. Não em seu efêmero existencial e sim na construção comunicativa pertencente a ele na sociedade globalizada. Esquecemos que o gênero é a forma que a diferença sexual assume, nas diversas sociedades e culturas, e que determina os papéis e o status atribuídos a homens e mulheres, resumindo assim, como identidade sexual das pessoas. O corpo nu masculino, mesmo constituído igualmente em sua matéria ao seu semelhante, possui suas particularidade formais que o tornam único, principalmente sua superfície, sofredor da transição do tempo e vivencia, fazendo assim, o gênero masculino uma definição da forma corporal masculina e não uma classificação do individuo exposto.

2- BAUMAN, Zygmunt. Identidade , página 84.


Quando o „homem‟ despido é fragmentado plasticamente e transcende a comunicação criada ou imposta pelo artista, esta imagem se torna objeto de contemplação, objeto de arte. No caráter de oferecer ao olho o prazer de um espetáculo imagético ao observador. Cito como exemplo a pintura Clausura, realizada por mim em 2010, no desprendimento do corpo como identidade e apreciação da poética, no questionar da limitação psicológica e corporal dentro do limite do espaço físico (suporte). Tive uma ótima reciprocidade da opinião pública, havendo apenas uma curiosidade do por que utilizar o corpo masculino despido neste questionamento, ficando em segundo plano o fato de eu ser mulher e de não ter o pudor de fotografar um amigo nu para este fim plástico e poético. O corpo se torna objeto inerte e estático da própria carne despida, anulando qualquer classificação para se tornar pleno fruto de significados particulares, livres de apontamentos pré-definidos, como eróticos ou pornográficos, que degradam a imagem do nu masculino. Atualmente a estética corporal está mais ampla e aceitável em sua construção visual, saindo do padrão estético de beleza para explorar a diversidade das formas, principalmente com adentro da fotografia. Uma das primeiras noções a adquirir é a de que a fotografia é uma representação do objeto, da pessoa ou do grupo que se posicionou ante a máquina no momento da tomada da imagem. Ao ler Barthes, compreendi, que o que vemos não é a coisa propriamente que esteve lá, mas uma imagem da coisa, um rastro, se tornando um signo, não o representando em todos os sentidos, mas apenas em alguns em sua importância. No caso das criações artísticas, na pintura ou escultura, a fotografia foi incorporada como ferramenta de trabalho como referencia visual ou até propriamente como arte. O pintor e fotógrafo americano Thomas Eakins (1844-1916) em busca da compreensão e fidelidade dos movimentos articulatórios do corpo humano, capturou os movimentos seqüenciais no mesmo negativo (frame), em uma área isolada na Universidade da Pensilvânia, onde trabalhava como professor de artes. A fotografia “Nude Male Broad-Jumping”, concebida em 1885, mostra a trajetória da ação corporal exercida a partir da execução de um salto. Não há dúvidas que o principal objetivo foi registrar a figura humana em movimento. O objetivo não foi identificar sujeito ou idealizar sua imagem porque apenas teve a curiosidade de entender a ação das articulações a partir do gesto do corpo humano.

acima

CLAUSURA Bruna Azevêdo Técnica: Óleo s/ tela 70cm x 70cm 2010

NUDE MALE BROAD-JUMPING Thomas Eakins Fotografia, 1885

Curiosidade sobre a fotografia: O artista escreveu extensamente sobre o negativo, anotações detalhando os intervalos (tempo) entre cada exposição da máquina a luz para reter a imagem e conseqüentes movimentos. Página 12


Venho citar outro trabalho do mesmo artista, a pintura “Lutadores”, de 1899 – óleo s/tela, onde a obra apresenta uma pintura de gênero de dois homens no chão em posição imobilizadora de luta. Vejamos a abaixo o processo de criação do pintor Thomas Eakins.

LUTADORES (PROCESSO CRIATIVO) À esquerda Referencia fotográfica Ao centro Estudo à óleo A direita Pintura finalizada

ARTE NA RUA Hudinilson Júnior Publicidade 1981

Página 13

Ao dispor a fotografia referente, tirada pelo próprio artista, ao lado do processo de sua pintura, percebo uma naturalidade ao trabalhar com os corpos masculinos desnudos em movimentos agrupados sem perder a beleza compositiva e idealizada, uma ação de luta. Não se tem o desconforto ao ver esta posição, já que aquele ato é semelhante à defesa pessoal, proporcionando ao observador um anseio para o próximo movimento daquela ação representada. O artista infelizmente sofreu retaliações nesta obra, além da sua moral ter sido julgada e a sua vida pessoal ter sido especulada, por ter utilizado alunos como modelos nus em um contexto de paisagem nada habitual para a época. Na época, esta pintura foi indagada pelo observador por estabelecer certa sensualidade homoerótica para justificar sua implicância e não aceitação da retratação de dois corpos masculinos um sobre o outro. Esta critica não é isolada, como já percebemos no capítulo anterior. O corpo nu masculino ao ser exposto sozinho ou com mais semelhantes no mesmo campo visual, causa um desconforto ao observador, simplesmente por ele assemelhar aquela imagem ilusória a uma realidade que não condiz de homem, ocasionando uma afronta e falta de conhecimento ao homossexualismo. Tachar uma imagem de „Gay‟ conota um adjetivo pejorativo, perdendo a real definição da palavra, que é a relação afetiva e/ou física do mesmo gênero masculino e não uma ofensa a identidade do homem. O nu masculino é um “gênero-objeto” ainda desconhecido e, provavelmente em decorrência deste fato, permanece sem aceitação corporal. A sociedade ainda se nega a assumir a existência e a visualizar uma genitália (pênis) num espaço público. É comum, nas mídia comunicadoras, banalizar o corpo feminino e tornar o corpo masculino em uma simples atração, à ser apreciada apenas intimamente. Um exemplo de confronto da exposição fotográfica do nu masculino no meio artísticopublicitário aconteceu em 1981, pelo artista brasileiro Hudinilson Júnior (1957-2013), censurado por colocar num out-door a imagem do próprio pênis, em uma rua de São Paulo. A exposição intitulada Arte na Rua, discutiu a linguagem do out-door publicitário que, freqüentemente, expõem sem pudor seios e corpos femininos. O desafio de expor a genitália do artista só foi concordado com o acréscimo de uma autocensura, uma tarja vermelha sobre a imagem do seu sexo. Por ironia, o que era para ser escondido acabou sendo revelado devido à curiosidade e afronta estimuladora da imagem ao espectador.


Visto por Ghilardi-Lucena³, a mídia é, em sua totalidade, uma instância poderosa na sociedade, sem nenhum poder isoladamente. É preciso considerar, no diálogo, a importância do processo de recepção, como em um contato que se estabelece entre duas consciências, a de produção e a de recepção. A arte contemporânea deu voz a uma realidade pertencente ao seu sensível como objeto estimulante. Na atualidade artística, adeptos ao nu masculino vêm despindo ou se despindo no cumprir do próprio entender e escancarar da carne, sem se importar qual parte do corpo está sendo exibida. Assim a fotografia tem se tornado, cada vez mais, um forte elemento direto para potencializar uma criação ou uma prévia plástica.. O artista canadense Daniel Barkley, por exemplo, utiliza a fotografia como apoio para realizar suas intensas pinturas hiper-realistas. Com esse objetivo, realiza ensaios fotográficos de seus amigos nus, onde procura compreender e retratar a essência emocional das histórias bíblicas e mitológicas. A intensidade dramática das pinturas de Daniel Barkley fascina e intriga o espectador, do querer fazer parte do ritual que se desenrola diante de nossos olhos. Realmente o espectador pode se sentir pouco à vontade diante de cenas catárticas (sangrentas, cruéis) cenas, confrontado com o realismo absurdo das pinturas, que apresentam imagens de pesadelo ou com os olhares fixos de algumas das figuras. Em todas suas obras, o nu masculino é destaque abertamente, simplesmente, sem artifícios. Despojado do seu vestuário, dotado de uma matéria, nunca indecente a nudez, o poder expressivo da figura aumenta dez vezes. Desta forma, parece transmitir toda a verdade de sua emoção, a realidade intensa do drama interior que se vive, a fragilidade de seu escudo físico. O corpo nu masculino, às vezes coberto por lama de ouro, às vezes sujos com óleo preto ou tatuado com sinais e símbolos esotéricos, assumindo poses que indicam o êxtase, a loucura ou o estado de sonho.

3-GUILARDI-LUCENA, M. Inês. Gênero e Representações sociais na mídia: o corpo masculino. Artigo divulgado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2011 – página 89.

DANIEL BARKLEY A esquerda

FALLEN ANGEL I (estudo) 2011

Ao centro

CAGE I 2007

A direita

DEEP WATER

2006

Página 14


CORPO COMUNICATIVO

EXISTERE Performer: JOCJONJOSCH Joc Marchington / Jonathan Brantschen / Joschi Herczeg Londres 2011

É possível compreender que o meu pensamento sobre a „imagem‟ do nu masculino está fundamentado como um simples gênero-objeto de manuseio artístico, livrando o corpo formal de qualquer reconhecimento identidário e sexual. Compositivamente, desenvolvo uma imagem comunicadora a partir de transformações gestuais para o surgimento de novos símbolos e códigos, completamente instáveis a cada observador. Fecho assim toda a compreensão da minha pesquisa na fundamentação do Corpo Comunicativo. Ao fazer a leitura do livro O corpo como objeto de arte do sociólogo Henri-Pierre Jeudy, comecei a entender o corpo comunicativo. O sociólogo explica que o corpo ausente de prédefinições e pré-conceitos se torna um objeto doador consciente e inconsciente da ação e reação, devido a uma cadeia transitiva de informações gestuais, desencadeando, mesmo imperceptivelmente, uma constante transformação da sua singularidade corporal. O movimento é uma metamorfose, um manifesto das emoções autônomas. Quando o corpo torna-se puro movimento, mesmo em sua expressão estereotipada na repetição dos gestos, é na dança que se percebe o caráter ainda mais irreal ao corpo enquanto objeto. “Kandinsky mostrou que a dança não tinha que ser mimética. A dança não é figurativa, não representa nada...”.

Henri-Pierre Jeudy 4

Percebo que o corpo dançante nem sempre tem a intenção de construir uma informação, pode ser apenas uma questão de movimentação, de testar a potencialidade corporal até o seu limite, desafiando o observador a uma livre interpretação da imagem. O gesto na dança não cumpre uma função, não assume uma tarefa útil, independente. O corpo dançante assume um papel estético e simbólico, certamente intencional em seu compromisso com a arte. Ao estar perto desse desenvolvimento, vejo cada vez mais a multiplicação do corpo nu masculino. Uma imagem aberta para várias compreensões. 4- JEUDY, Henri-Pierre . O Corpo como Objeto de Arte. página 66.


O “Homem” dançante tem a cultura e o doutrinamento de que seu corpo e a do outro são ferramentas criativas, ausentes de quaisquer preceitos classificatórios, o que os torna mais vulneráveis no controle de si mesmo. Em minhas pesquisas sobre o corpo comunicativo e o impacto desta linguagem, um dos exemplos mais usados para expressar o entender do individuo no momento dançante é o filme Billy Elliot , de Stephen Daldry em 1999. O foco principal está no processo de crescimento do personagem principal, um garoto de 11 anos, em se compreender como individuo de vontade e particularidades. Billy Elliot enfrenta numerosos confrontos pelos preconceitos familiares e locais, impostos pela diferença entre os gêneros como parte da formação da dignidade e caráter moral. “Não sei. Sinto-me bem. Mas uma vez que eu estou dançando é como esquecesse tudo. Como se desaparecesse. Como se sentisse todo meu corpo mudado. Como se houvesse fogo em meu corpo. Eu estou apenas ali voando como um pássaro. Como eletricidade. Sim, como eletricidade.” Billy Elliot 5

Billy usa a dança como ferramenta de libertação da opressão sofrida. Cada passagem desde o primeiro contato com a dança, seu corpo necessita dizer, gritar, se transformar em algo além da amargura de sua realidade, chegando a dizer que vira eletricidade. Não se sente mais nada. Está tomado de adrenalina que preenche e esvazia de linguagens, apropriando-se do espaço e objetos como extensão de suas transformações e vontades corporais. Em mero representação comunicativa, o gênero-objeto dançante faz de seu corpo o criador do espaço, de articulações gestuais que interagem e/ou dominam o cenário espacial, compondo formas visuais. Movimentos variados, planos aéreos, trajetos retilíneos ou complicados, pequenos e grandes gestos, contidos ou expansivos em suas expressões, criando composições visuais, visto ao longo do filme, sugerindo a perfeita comunicação entre os corpos e corpos, entre os corpos e objetos. Em 2012, trabalhei na produção do Grupo LICRID da UFRJ, coordenada pelos professores Dr. André Meyer (Dança) e Dra. Martha Werneck (Pintura), no propósito de fundamentar a união educacional entre as Artes Visuais na escola de Nova Friburgo – PROEXT. O projeto, “Da rua para o corpo: grafite em movimento” propões o estimular do corpo em movimento no diálogo com a pintura, o grafite e objetos. Do conhecimento das possibilidades de expressões das partes: o corpo como um todo, bases e situações do corpo no espaço a partir dos elementos básicos visuais. Foi desta experiência que me identifiquei com a dança, na funcionalidade do corpo quando estou pintando. A partir dos Parâmetros da dança, que são regras 6 estipuladas para o conhecimento das partes e do todo, para se apropriar ao máximo das possibilidades do corpo. Estas regras estão relacionadas com a ação pensante e corporal que desenvolvo em meus desenhos e pinturas. A atitude que tomo em frente do meu suporte é de me anular por completo de minha vontade ou insinuação representativa. A imagem surge no pensar de linhas e manchas direcionadas, formas geométricas, seqüências, ritmos e dinâmicas sobre o papel, para me tornar uma Voyeur da conversa de terceiros, entre a obra e o observador. 5 - Trecho retirado do filme Billy Elliot , de Stephen Daldry em 1999. 6 – Regras dos parâmetros da dança: Movimento, Espaço, Forma, Dinâmica; Tempo e Agentes de variação. Organização e catalogado pela primeira professora de Dança Contemporânea da UFRJ, Helenita de Sá Earp.

DANIEL BARKLEY A esquerda FALLEN ANGEL I (estudo) 2011 Ao centro CAGE I 2007 A direita DEEP WATER 2006

BILLY ELLIOT imagens retiradas do filme Ator-dançarino: Diretor: Stephen Daldry 1999

Página 16


TECIDO

ORPHEUS Pintura Artista: Daniel Q. Adel Técnica: Óleo s/ Madeira Ano: Desconhecido Nova Iorque

O tecido sempre foi um material muito requisitado como resguardo das partes intimas dos modelos masculinos, fundindo-se ao corpo desnudo, proporcionando um embelezamento viril e imaculado do homem. Atualmente seu uso é escasso. O conceito contemporâneo está cada vez mais chocando o observador com a limpeza do corpo sem nenhuma interferência que não seja do próprio. O corpo nu masculino está direto, agredindo sem piedade, perdendo um grande valor que muitos julgam e que admiram incognitamente, que é a sensualidade corporal em sua beleza natural. Inicialmente, a valorização artística do tecido em meus trabalhos ficava no plano protetor até eu encontrar uma função atuante como imagem extensiva do nu gênero-objeto em ação. O surgir de tuas formas condizem com o falar gestual do corpo nu, na atitude transportada do gênero em sua anulação como individuo. Ao articular com o tecido, a movimento do corpo nu masculino fica vulnerável a reação sofrida pelo material maleável e independente, criando outras informações corporais compositivas, livrando o nu de conceitos e definições estipuladas , prolongando seus gestos e tornando-se livres em suas novas descobertas como unidade. Grandes artistas, que deram a importância para o nu masculino, utilizaram o elemento para enriquecer suas obras, como Miguelangelo, Eliseu Visconti, Daniel Barkley, Geoffrey Laurence e entre outros, além de fotógrafos como Wilhelm von Gloeden e Bruce Weber. O pano proporciona em seu movimento com o nu masculino um envolvimento aconchegado do sexo, do corpo sensível e carnal, sem qualquer pudor e reconhecimento, fazendo o observador a se enroscar nas curvas e amarrações, gozando da composição como uma nova imagem da sua oculta imaginação, livre para sua própria idealização de linguagem e significação.

Página 17


TECIDO Bruna Azevêdo 2013

Corpos que se embrenham em meus tecidos percorrendo sensações contrárias aos pudores retilíneos dos caminhos mais tortuosos definidos com identidade. Bela explosão acobertado de fibras frágeis que suavizam meus olhos ao passarem por partes tão expostas fazendo-me perder no macio da superfície que enrijece meu desejo construindo a forma em favor de uma imagem vazia sem códigos e símbolos já impregnados. Pano seduz engrandece a curiosidade mesmo sabendo o que irá encontrar debaixo do emaranhado. Segura me segura faço de mim este corpo que atravessa cada ligamento tramado nas valorizações delineadas pelo esbatido do lápis sobre o suporte. Amarra puxa some e puxa novamente quem sabe você encontra outro corpo para acalentar o fervor mesmo que seja um pedaço no meio do vazio.

Primeira imagem ROBERT IN CHEESE CLOTH Daniel Barkley Técnica: aquarela em papel 1997 Canadá

Segunda imagem CULT CORPO MHG Performance Ano: desconhecido

Hoje retiro partes continuo a estender linhas e manchas deslocando este peso para a leve graciosidade compositiva elimino o que não me preocupa pois ainda sei quem és um homem meu Homem.


Sem tĂ­tulo Grafite sobre Canson Tamanho: 37cm x 18cm Bruna AzevĂŞdo 2014


PROCESSO CRIATIVO


PROCESSO CRIATIVO

Nesta etapa, estarei desdobrando o meu processo criativo . Para melhor compreensão do projeto, separei em tópicos a importância de cada desenvolvimento, desde o primeiro traço, na busca de referências artísticas e fotográficas, o processo de realização das composições e chegando, enfim, às criações finais.

Página 21


SEM TÍTULO Tamanho: 23cm x 17cm Técnica: Sépia s/ Craft 2014


Para compreender o meu desdobramento visual, sobre a forma e composição, achei nas palavras da artista Fayga Ostrower, o que não estava conseguindo organizar, teoricamente, sobre meu pensamento e processo criativo. “Exemplificando: ao empreender o trabalho artístico, o pintor parte de um determinado espaço, que é o plano pictórico bidimensional. Ele o transformará em um novo espaço, um espaço vivenciado, multidimensional. Cada elemento que ele introduza na composição e diferencie formalmente haverá de alterar as relações até então existentes entre o contexto e seus componentes. Então a cada passo se desequilibra o equilíbrio anterior. E com novas diferenciações o artista tenta reestruturá-lo. Finalmente ele alcança em sua composição um estado de equilíbrio global , onde todos as ênfases formais e todas as tensões possam corresponder plenamente, integrando deste modo a imagem como configuração expressiva.” Fayga Ostrower 7

É desta maneira que vejo minha criação artística. A minha ação é intuitiva quando estou criando, não pré-determino a figura, composição finalizada, vou construindo cada informação no espaço, desenvolvendo uma ação para contrabalancear a reação da imagem compositiva. Cada peso e tensão, espacial e emocional, se manifesta, a partir de um conhecimento intimo e sensível de meus valores existenciais, onde minha linguagem visual começa a se moldar por informações extremamente novas, se tornando, inicialmente, mais abstrata em sua estruturação e forma, criando novos planos e espaços a serem preenchidos mais a frente, pelo observador. 7- OSTROWER, Fayga. A Sensibilidade do Intelecto. Rio de janeiro. Editora Campus, 1998. - página 96.

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ETAPA 1

COMPOSIÇÃO Ao olhar minhas composições verá, em sua maioria, a predominância de um ponto central ou de uma linha diagonal de força cortando o espaço compositivo, desenvolvido, inicialmente, pela estruturação das formas geométricas. Estendo linhas, pontos, curvas, círculos, quadrados, rabiscos rápidos que vão se transformando, em um corpo nu masculino ou em um tecido, e assim vou desdobrando a imagem, começando a detalhar características formais e particulares dos objetos em seu movimento. Nesta etapa, tenho apoio de uma referencia fotográfica. Esta ação de criação, me deixa livre para explorar novas direções na pintura, permitindo atitudes plásticas sobre a imagem, trazendo novas tensões a composição e à forma, proporcionando mais ênfase e outras direções para a comunicação entre obra e o observador. Não há uma preferência pela criação de uma parte do corpo em especial e nem um planejamento de como será o tecido. Se eu estiver inicialmente com a referencia, vejo na imagem qual a forma gestual, posição ou movimento, me interessa e no que a forma pode se desdobrar, à frente, imageticamente. E se estou criando do nada, sem nenhum apoio visual, também não me direciono ao que irei fazer e sim, permito-me a conversar com o espaço compositivo e deixar que as formas insinuem o que meu pensamento oculto quer me revelar.

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Das muitas imagens artísticas, desenhos e pinturas, pesquisadas e admiradas, selecionei seis artistas que vão de encontro com a minha linguagem visual e emocional, principalmente na temática que tanto exploro, o corpo nu masculino e o tecido. Selecionei três artistas de apoio para o desenho-obra, que são: Miguelangelo, Egon Schiele e Luis Caballero, já para as pinturas são: Martin Jan Van Santen, Kai Samuels Davis e Daniel Adel. Para melhor compreensão, desta influencia artística a minha pesquisa, explicarei separadamente a minha ligação com as particularidades de cada artista e do que delas irei agregar à minha pesquisa. MICHELANGELO Artista Miguelangelo (1475-1564) transitou do Renascimento ao Maneirismo nos ideais do Humanismo e do Neoplatonismo, centrado na representação da figura humana, em especial no nu masculino, que retratou com enorme vigor. Até mesmo suas descrições de gênero sexual são ambíguas, percebida em várias pinturas e esculturas, algumas de suas figuras masculinas, mesmo musculosas, têm um abatimento e afetação postural só encontrada na representação feminina de seu tempo. Agrego em meus trabalho esta construção de corpo, o nu masculino, em excesso de massa, de grupos musculares ou pele, no surgir de informações gestuais ambíguas, para o melhor surgir da composição do gênero-objeto. Podendo ser visualmente agradável e particular do corpo em sua imagética. Os croquis, esculturas e pinturas sempre fizeram parte dos meus estudos acadêmicos, sendo sempre presente em minha linguagem. Defino meus “corpos” como objetos inquietantes em sua graciosidade. Página 25


ETAPA 2

REFERÊNCIAS VISUAIS - Artística EGON SCHIELE Pintor expressionista, Egon Schiele (1890-1918) tem a linearidade corporal como reconhecimento de sua estética, orgânica e gráfica ao mesmo tempo, uma estilização desprendida da naturalização corporal. É em suas obras que absorvo para enriquecer meus desenhos. Não procuro uma estabilidade linear e respeito pela fidelidade visual, e sim, busco uma carência emocional de ser envolvido pelas curvas e torções das formas do objeto-comunicativo, criando poucas variações tonais pelo esbatido do grafite, valorizando a dinâmica da linha para realçar o movimento formal da composição. Inconscientemente, mesmo depois de começar a criar meus desenhos, percebi uma incrível coincidência, o artista também utilizava o artifício de anulação de algumas partes do corpo ao desenhar, não se vendo obrigado em completar para transmitir toda riqueza imagética do gênero-objeto.

LUIS CABALLERO Considerado como um dos grandes mestres do nu masculino no século XX, Luis Caballero (1943-1995) captura seus homens com uma combinação de veracidade e suavidade que retrata emoções e sentimentos íntimos do artista. Caballero proporciona em seu tratamento visual uma instabilidade da ação, como se seus corpos estivessem respirando e sofrendo em constante movimento. Minha relação com o artista esta além da construção estética. Minhas imagens também são construídas no movimento emocional do corpo, induzindo ao observador a uma conversa, mas mesmo que minhas criações não incitam nenhuma informação, nulas de códigos e símbolos, tenho consciência da influencia da minha vivencia e do meu intimo na construção da imagem. Do social e particular inserido na minha característica artística. Página 26


MARTIN JAN VAN SANTEN O artista holandês Martin Jan Van Santen (1968) dedica sua arte na representação plástica de paisagens urbanas, retratos e principalmente em nus masculino – intitulado como Meninos (Boys). Para o artista, sua pintura tem que falar por si, sendo capaz de “respirar” através da essência da beleza do corpo jovem, despido ou não, masculino. Percebo a importância da cor e do grande contraste tonal que o artista propõe para criar uma ambientação dramática ou romântica, Neste jogo de luz artificial, devido a falta de ambientação (fundo), a luz se torna atuante nos quadros, podendo percorrer pela composição em vários momentos que seja interessante para o contraste tonal da composição. Sua paleta cromática desdobrada em cores neutras suavizam o corpo despido, além que as suas variações de tons violáceos me encantam. A alta claridade , que o artista desdobra em alguns quadros, também me mostra uma nova maneira de conseguir criar um contraste rico em sua variação, em que o branco também pode criar profundidade na sua mistura com outras cores. Essas informações acima estão relacionada, juntamente com os outros artistas, foram importante ao pensar em desdobrar minhas pinturas e o artista Martin foi de grande ajuda para o mudar plástico de minhas pinturas.

DANIEL ADEL Daniel Adel (1962) é um pintor e ilustrador americano que tenho profunda admiração por seus tecidos hiper-realistas. Mesmo que eu não busque uma fidelidade visual, o movimento dos panos, das tensões nas amarrações e dobras, áreas fluídas que parecem que estão flutuando ou inflando, lhe acobertando do frio cromático que o artista propõe, mesmo quando passeia pelos tons quentes nas sombras é emocionante e excitante na composição. Vejo a semelhança de nossos tecidos, vivos e intensos no sufoco de se expandir. Como se falassem algo tão intimo para satisfazer o observador, sem se constranja , pois o outro não saberá da conversa. A idéia de contrastar a tensão da figura e fundo, do elemento tecido escuro com o fundo claro ou vice e versa, acho bastante interessante, pois fecha o olhar do observador para dentro daquele “ponto” central, onde, internamente, a composição de desdobra. Também utilizo do artifício de isolar os elementos, nu masculino e o tecido, no centro do espaço, mesmo se minha composição crie várias direções espaciais e visuais ao observador.

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KAI SAMUELS DAVIS Artista americano Kai Samuels Davis trabalha com a gênero de retratos, porém não busca uma retratação do individuo e sim do emocional do momento em suas pinceladas marcadas constrói e desconstrói o rosto de um ser humano. Sua paleta passeia pelos tons neutros, avermelhados, esverdeados, azulados trazendo uma semelhança com o tom de pele, variando pelos quentes e frio da temperatura corporal. Da mesma forma que o Daniel Adel usa, a cor preta também atua nos quadros de Kai , como também faço participar do meu. Ao usar essa cor em minhas pinturas, mostro o quanto arrisco e que a utilizo não só como relação de luminosidade e neutralidade de outra cor, faço ser atuante na construção do diálogo fluido entre o quadro e o observador. Estudei muito seus desdobramentos plásticos, em sua grafia realizada pelas pinceladas curtas e longas, criando planos nas variações sobrepostas pela tinta a óleo, possibilitando ocasionar misturas e reações nessas sobreposições, sem esquecer de mencionar que esta grafia dá a sensação de movimento, de ação temporal do ser humano. Vejo que o artista não se prende ao todo da forma e nem questiona o manter da pincelada ao longo da tela. Variando o fundo em sua plasticidade chapada, recortando a forma corporal ou entrando com as pincelas, violentamente, na figura. O que importa está em quanto mais desconstruir, mais tensão o observador terá ao desdobrar o todo da imagem, que estará tão rico pictoricamente.

Mesmo que tenha separado os artistas por categorias de desenho-obra e pinturas, afirmo que todos, em seu conjunto de informações, me enriqueceram artisticamente, influenciando todas essas duas formas de criação visual. Não importa se estou pensando no linear ou na mancha, todos os artistas aqui mostrados, trouxeram pra mim, um novo pensar e utilizar da forma, do gênero-objeto e o tecido, como um só elemento comunicativo, cheio de carga significativa a serem desdobradas artisticamente no diálogo entre o observador e a obra, ficando apenas como voyeur (coadjuvante) da conversa.

Etapa 2

REFERENCIAS VISUAIS - Artística


Foram realizados dois tipos de coleta de referencias visuais para este projeto: Pesquisa de Imagens online e Ensaio fotográfico com Modelo Vivo. As duas possuem importância particular porém, mantiveram o contexto formal de gêneroobjeto e tecido.

- Pesquisa da Imagem Online, Seleção e Catalogação Antes mesmo de começar a fazer a pesquisa visual voltada para este projeto, eu já tinha o hábito de coletar imagens de homens via internet. Buscava representações que me agradassem, de estéticas variadas, do idealizado ao publicitário, vestidos ou desnudos. Na vontade de deixar de pintar o óbvio e de querer desafiar a anulação da imagem do Homem Nu, principalmente no meio acadêmico, mudei todas as minhas palavras-chaves e também me direcionei em sites que nunca havia cogitado acessar. Inicialmente, meu pudor foi maior, porém não pude deixar que a vergonha prevalecesse sobre o propósito artístico. Policiei-me ao olhar as imagens de homens despidos como simples fragmentações da minha poética e vazia de informações classificatórias e sugestivas, sobretudo as eróticas e pornográficas. Como meu trabalho visual não se limita apenas na construção do corpo masculino, mutuamente pesquisei imagens de tecidos na diversidade de suas texturas, nos contrastes tonais, variedade de cores e dando destaque a dramaticidade e variedade dos movimentos encontrados. Percebia cada vez mais a semelhança que existe entre o corpo masculino despido e o tecido, na maleabilidade de ambos os materiais, em sua transformação e deformação ilusória (escorço), tensões e relaxamentos, resumindo, particularidades instáveis da superfície visual dos objetos. Página 29

Imagens Aleatórias Banco de Imagens


ETAPA 2

REFERÊNCIAS VISUAIS - Fotográfica Para uma melhor organização e visualização das imagens no meu HD, ramifiquei e classifiquei por pastas objetivas e de rápido acesso, para construção de algum estudo futuro, não fazendo perder tempo. Separei por: Aglomeração, Corpo

completo, Dança, Escorço, Fotógrafo, Modelo-Publicidade, Modelo Vivo-referencia pessoal, Pano, Partes do Corpo, Pintura-Desenho, Processo (meu processo de pintura) e Trabalhos realizados. Todas as pastas principais contem subpastas para uma melhor objetivação nas minhas necessidades referenciais.

Performance Fotógrafa: Bruna Azevêdo

Deixo claro que esta etapa de coleta de imagens mantém se constante na minha pesquisa, procurando sempre pesquisar novas imagens de nus masculinos e tecidos para agregar e enriquecer cada vez mais as minhas referencias artísticas.

- Ensaio fotográfico com Modelo Vivo Mesmo com o apoio da coleta online, foi realizado um ensaio fotográfico para que o desdobramento da imagem fosse mais particular e direto para um estudo ou pintura futura. O ensaio serviu para concretizar meu pensamento na liberdade corporal sobre o corpo capturado fotograficamente (posado), na não interferência externa (terceiros) na ação gestual dos objetos, o nu masculino e o tecido. Com alguns croquis realizados no Diário de pesquisa, articulei inicialmente com o modelo vivo, na realização dessas poses com os tecidos (02 lençóis). Não consegui uma naturalidade nas poses, em vista que ambos, o corpo e o tecido, foram organizados compositivamente, impedindo o surgimento mais fluído dos materiais, limitando novas possibilidades visuais que poderiam surgir entre o movimentar do modelo até o seu desfecho na pose idealizada. O modelo preferiu ficar de cueca por não querer suas partes intimas expostas. Preferi não insistir para que não ficasse desconfortável, pondo em mente, que suas partes intimas poderiam ser montadas com outras imagens achadas como referencia visual.

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Propus ao modelo a idéia do movimento aleatório. Realmente, não foi muito bem recebida pelo modelo, simplesmente por não saber como agir, fazendo seus movimentos ficaram mais forçados ao tentar adivinhar o meu pensamento. Lembrei-me do trabalho que participei como produtora no grupo da dança contemporânea LICRID da UFRJ, no anular da ambientação e das pessoas, que circundam a performance. O tocar da musica provoca o ritmo e a transformação dos movimentos do dançarino, neste momento, o performático entende que seu corpo é uma ferramenta de comunicação, anulando-se como individuo para uma conversação aberta para variadas respostas do receptor. Pedi para o modelo que colocasse seu fones de ouvidos, abstraindo a idéia de que seria fotografado e que começasse a dançar sua musica preferida. Esta atitude o deixou confortável para se relacionar com os tecidos, compreendendo de que estes serviram como extensão de seus movimentos corporais, unindo-se num só elemento –objeto comunicativo– livre de qualquer imposição simbólica e classificatória, principalmente das informações voltadas para os valores sexuais e pornográficos. Seus movimentos surgiam espontaneamente, construindo novas percepções e gestos tão encantadores e intensos, e por não escutar a musica que embalava os gestos do modelo, cada desdobramento do corpo e do tecido foi surpreendente. Recebi variadas formas sensoriais e perceptivas que nunca haviam sido idealizadas ou construídas visualmente por mim, devido à instabilidade contínua e admirável a cada passar da dança. Para capturar estas tensões, posicionei a câmera fotográfica de forma que pudesse disparar seqüencialmente, sem ter que me preocupar em interferir na ação para capturar uma determinada pose. Minha participação foi meramente circular pelo espaço com a câmera. Parei em alguns cantos da sala por mais tempo por causa de alguma posição espacial ou até mesmo pela influencia da iluminação do ambiente, sendo mais de meu agrado visual, um contraste maior tonal sobre os objetos fotografado. Obtive alto numero de fotos neste ensaio performático, ciente de que muitas seriam descartadas. Ao analisá-las, cogitei o fato de que estava muito presa na busca de composições completas e que estava deixando de lado certas particularidades gestuais dos objetos (corpo e tecido) em outras fotografias que muito me chamavam a atenção. Ao entender que a imagem fotográfica para mim é uma base visual e que a construção artística é tão maleável quanto o corpo e o tecido que foram fotografados, meus estudos ficaram mais envolventes em suas tensões pelo acúmulo de sugestões particulares em um só espaço compositivo. Ao ler as fotografias, estas informações iniciais capturadas por mim, foram novamente recompostas compositivamente para o surgimento de nova leitura que será feita pelo receptor ao ler a minha pintura. Concluo assim minha poética em uma linguagem aberta e particular, contínua em sua transformação devido à instabilidade emocional do receptor a cada vez que observar meu trabalho.

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acima

Pinturas 1, 2 e 3 Técnica: Óleo s/ Tela Tamanho: 70cm x 50cm Bruna Azevêdo 2013 abaixo Ensaio Fotográfico Modelo: Anônimo Fotografa: Bruna Azevêdo 2013


ETAPA 2

REFERรŠNCIAS VISUAIS - Fotogrรกfica


Diário de Pesquisa Bruna Azevêdo 2014 Fotografia: Licius da Silva


LINGUAGEM NUA


LINGUAGEM NUA

Apresento agora os desenhos-obra e as pinturas conclusivas deste diário de pesquisa – LINGUAGEM NUA. O observador poderá construir um diálogo particular com as obras, já que estou inerte na intenção imagética. Estarei explicando passo a passo a criação da imagem vazia: nu masculino e o tecido, deixando bem claro toda a minha poética construída para este projeto. Iniciarei explicando os desenhos, que ao servirem de rabisco para o desenvolvimento da idéia visual, tornaram-se peculiares em suas riquezas lineares e simplicidade do material utilizado, grafite, assim dou a importância de desenhos-obra, perdendo a função de estudo. As pinturas sofreram um processo diferenciado pós a criação dos estudos, já que o material utilizado sobre o suporte, a tinta óleo, me proporcionaria outro resultado. Dessa forma, para haver uma igualdade nos pesos visuais e pensamento de livre arbítrio do observador, meus estudos lineares e pictóricos foram mais abertos, o que poderá ser visto logo após os desenhos-obra. Todos os trabalhos realizados, tanto o desenho e a pintura, não tem nomes, simplesmente para não haver nenhuma insinuação ou sugestão gramatical para o observador. Deixando assim mais aberto a comunicação visual, independente da raça, credo ou cultura do observador.

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SEM TÍTULO Tamanho: 35cm x 27cm Técnica: Grafite s/ Canson 2013


-“Esqueça tudo.” Foram as palavras que passaram em minha cabeça quando me vi forçar uma imagem vazia, só que estava tão presa às minhas próprias vontades e conhecimentos sociais e culturais, que esqueci que a minha liberdade gestual precisava estar desconhecida de qualquer reconhecimento pré-definido ou préconceituoso sobre o nu masculino. Depois de todo o processo de conhecimento teórico, foi de fácil percepção ao olhar meu suporte e deixar fluir meus gestos sobre o caderno, o diário de pesquisa. Ignorei todo o ambiente em que me encontrava e tudo que poderia insinuar. Comecei estruturando formas ao longo do espaço compositivo. Tudo que minha vontade aleatória permitia, deixava fluir. Não pensei na pose ou no resultado final, e sim no desdobramento dos pesos direcionados, nas curvas torneadas em volta das formas geométricas, o isolamento e afastamento das partes para abrir grandes áreas de respiração visual, rabiscos rápidos para trazer tensões ou fluidez e sem esquecer da dinâmica da linha, que prevaleceu na maioria dos desenhos, deixando o preenchimento, o esbatido do grafite, um acréscimo na valorização já proporcionada pela beleza da linha. É incrível a rapidez que começou a desdobrar minhas composições. Um turbilhão de informações visuais em cada traço, mas sem nenhum significado, surgindo assim um corpo maleável, incompleto em suas partes, pois via que não necessitava construir todo o corpo, para dizer que era do gênero masculino despido. O elemento tecido veio como uma extensão corporal, para sustentar e se expandir no espaço compositivo. Lembrei que já havia realizado um trabalho na faculdade com esses dois elementos visuais, nu masculino e o tecido, e percebi que o tecido é muito mais do que ocultar o individuo ou das partes intimas. O tecido não só embeleza, mas proporciona em conjunto com o corpo nu masculino, a inversão dos pesos físicos e emocionais na imagem construída. Página 37

A esquerda

SEM TÍTULO (imagens pequenas)

Tamanho: 27cm x 35cm Técnica : Grafite s/ Canson 2013 A direta

SEM TÍTULO (imagem grande)

Tamanho: 29cm x 21cm Técnica : Grafite s/ Oficio 2014


Linguagem Nua

DESENHOS - OBRA


Drapeados, laços e nós intensos, excessos, fios sinuosos, rasgos abertos, inflados, amarrações, tecidos lisos e enrugados expandido ao longo da composição conforme o meu necessitar visual. Movimentos e gestos corporais se entrelaçam com os movimentos do tecido, sempre completando um ao outro, na espera de um novo movimentar do gênero-objeto ou do tecido para harmonizar ou conturbar o espaço compositivo. Os meus gestos sobre o suporte são meras ações e reações para o surgir da verdadeira ação e reação da imagem que o observador busca ao olhar a obra. Utilizando fotografias on-line ou tiradas por mim, essas imagens já definidas em seus movimentos, servem de referencia para o desdobramento da imagem, podendo usar toda a composição ou em partes que visualmente me atraem e que possibilitarão o expandir de uma nova composição. Da mesma forma que construo os corpos, os tecidos também não são coerentes com sua estrutura. Aparecem e desaparecem da maneira que eu quiser, sustentando, expondo ou acobertando as partes ou o todo. Percebi que anulo o peso que o corpo nu masculino carrega por sua impregnação social e erótica, deixando-o mais leve, vazio e maleável de encontro com o tecido, que torna-se dramático, alegre ou até misterioso, carregado de volumes que transbordam informações sensoriais continuais. Proporciono ao observador a perda do pudor e a renovação da linguagem, pois toda vez que percorrer o olhar ao longo da unicidade do corpo nu masculino e o tecido, sua percepção poderá ser diferente. Não verás uma realidade vivida e sim uma realidade sentida por códigos e símbolos, transmitidos por uma imagem visualmente naturalista porém completamente idealizada, deixando o confortável e permitindo, particularmente, uma conversa sincera entre a obra e o observador, me pondo no plano de Voyeur para contemplar as ações e reações desse contato tão direto.

Observação: Por ter desdobrado uma grande quantidade de imagens, foram selecionados a meu gosto e distribuídos, ao longo do diário de pesquisa, os desenhos-obras. Particularmente, o exagero de trabalhos, um do lado do outro poderá conturbar a visão, fazendo o observador perder a paciência e a riqueza visual, impossibilitando o entender da idéia: da ação e reação de linguagens entre a obra e o observador.

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A esquerda

SEM TÍTULO Tamanho: 27cm x 35cm Técnica : Grafite s/ Canson 2014 A direita Ensaio fotográfico Modelo Vivo: Anônimo Fotografa: Bruna Azevêdo 2013


Linguagem Nua

DESENHOS - OBRA


Como havia citado anteriormente, o desenvolvimento das pinturas foi diferenciado do processo dos desenhos-obra , em razão da exploração pictórica e do suporte escolhido, papel Craft. Houve uma racionalização dos passos para a criação das pinturas destinadas para a finalização deste projeto, saindo da grafia linear para a obtenção dos volumes nas manchas, contudo mantendo o pensamento espontâneo na gestualidade pictórica da forma compositiva. No diário de pesquisa, em vez de ficar fazendo meus desenhos-obras e pegar eles para desdobrar as pinturas, resolvi esquematizar novos desenhos, só que como estudos iniciais da minha composição. Mas, antes de explicar a construção das pinturas, necessito falar sobre o suporte escolhido para este projeto, o Papel Craft. O papel Craft (ou Kraft) é um tipo de papel produzido a partir de uma mistura de fibras de celulose curtas e longas, provenientes de polpas de madeiras macias. A celulose é não branqueada, ocorrendo mais acidez na fibra, porém o papel mantém sua cor natural, parda característica, e nas variantes castanho, amarelo e laranja. Em um trabalho passado, utilizei deste suporte, o craft, para realizar pinturas para a ilustração de um livro e a experiência foi ótima, obtive bons resultados de absorção da tinta óleo, além da praticidade e o desapego que o suporte proporciona por seu preço módico, caso haja erro, podendo recomeçar a imagem novamente e sem esquecer do meio tom, acastanhado do suporte, o que me facilita trabalhar nas variações e pesos tonais. Com esta praticidade e afeição pelo material, resolvi executar minhas pinturas do projeto neste suporte. Resolvi manter o tamanho padrão 1,2 m x 0,75 m, para a realização das composições em maior escala que estou habituada, além do pensamento principal para a realização da minha primeira exposição individual. No diário de pesquisa, comecei a pensar na quantidade de quadros que iria realizar e de quais imagens seriam desenvolvidas. Foram desdobrados 07 (sete) pinturas finais para apresentação deste projeto. Página 41


Linguagem Nua

PINTURAS Foram criados croquis com a importância de ocupação espacial e obtenção da forma estrutural. Não me preocupei com detalhes, com a riqueza de informações dos elementos, com o nu masculino e o tecido, apenas pensei em linhas de forças que seriam posteriormente tensionadas pela valorização do claro-escuro. Após a criação das tensões, comecei a procurar no meu banco de imagens , corpos e tecidos em posições semelhantes aos que rabisquei no diário, servindo de referencia visual para o desdobramento do estudo linear de cada imagem .

Inicio da estrutura e organização das pinturas Diário de Pesquisa Bruna Azevêdo 2013 Fotografia : Licius da Silva

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Daniel Adel

Depois de desenvolver individualmente cada imagem para minhas pinturas, comecei a estudar a relação pictórica e cromática dos artistas referentes, Martin Jan Van Santen, Kai Samuels Davis e Daniel Adel. Estudei suas paletas pictóricas e como poderia fundir estes três artistas ao que já adquiri em conhecimento plástico, para que não perdesse a minha linguagem visual, e sim enriquecê-la. Para agilizar meus estudos cromáticos, resolvi escannear os estudos lineares e fazer o uso do programa de edição de imagem, Adobe Photoshop, podendo livremente pensar em manchas e ter como referência direta dos quadros selecionados de cada artista. A cada desenho meu, estipulei um grupo de imagem de pinturas, um de cada artista, sempre renovando a cada estudo, para que houvesse novos desdobramentos cromáticos, contudo mantendo uma harmonia plástica na paleta. Ao fazer a seleção das pinturas dos três artistas no programa Photoshop e os dispor ao lado do meu estudo8 , iniciei a pintura digital colocando como plano de fundo um tom semelhante ao suporte, Craft (laranja-acastanhado), para que - ao começar a trabalhar com as cores e tons- o fundo neutro digital pudesse simular simular o fundo real da pintura á óleo sobre o Craft. Com a ferramenta conta-gotas e o brush (pincel) circular, com 35% de transparecia, busquei uma valorização entre as transparências e opacidades, na razão de sobreposição das manchas rápidas realizadas pelo mouse. Esta atitude também foi pensada no meu propósito plástico, no querer soltar mais as pinceladas, proporcionando rapidez de resolver os planos da forma e sua valorização. Prestei bastante atenção no jogo de luminosidade, do peso tonal para direcionar o olhar do observador a percorrer o longo do quadro, possibilitando a quebra das diagonais e pontos que tanto construo em minhas composições lineares. Não fiquei retida a mimetizar uma iluminação natural, ou seja, na mesma pintura podem existir mais de um ponto de luz sobre o „gênero-objeto‟ e o tecido, apenas respeitando a reação da luz sobre a superfície diferenciada dos elementos.

8- Todos os quadros passaram pelo processo de mancha digital. Cada uma teve escolhas diferenciadas de quadros de cada artista e ao lado estava o estudo, que cromaticamente, ia sendo desdobrada, com a influencia das cores e tons capturados nas imagens dos artistas.

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Estudo da paleta pictórica Linguagem Nua II Bruna Azevêdo 2013


Kai Samuels Davis

Martin Jan Van Santen

Linguagem Nua

PINTURAS


A razão de manter um fundo vazio, porém participativo na composição como respiração, tempo e espaço da composição, ajudou no “desintegrar” das figuras, devido as pinceladas soltas, construindo os planos dos objetos, tendo a influencia dos dois artistas, Kai Samuels e Martin J. V. Santen. Vejo uma riqueza e preocupação despreocupada no utilizar da variação de tons sobre tons, da caligrafia plástica marcada dos pincéis, trazendo carga de tinta ou traços curtos ou longos para insinuar mais movimentos e volumes, abstraindo mais a semelhança do individuo e se tornando uma imagem formal de pura construção plástica. Minha paleta foi construída sobre as cores adquiridas por ferramentas digitais, deixando claro que qualquer mudança cromática é permitida, pois caso a pintura a óleo me demonstrasse outra atitude e necessidade, estaria livre para modificar, mantendo a mesma importância do estudo digital. Estudei fisicamente as reações da tinta sobre o suporte Craft e pela semelhança cromática dos sete estudos, consegui construir uma base cromática da minha paleta, tendo apenas alterações complementares, para particularizar e fazer vibrar o contraste na pintura. Assim que estruturei e organizei meus materiais, pude iniciar as pinturas. O suporte Craft foi esticado e aplicado uma preparação de fundo com a fórmula de 01 (uma) parte de cola vinílica de rótulo azul para ½ (meio) de água filtrada (deionizada), deixando leitoso a preparação. Depois de seco, tive uma fina película na superfície do suporte, porém o suficiente, para que haja a proteção das fibras de celulose da agressão possa sofrer do contato com a tinta à óleo, ocasionando uma conservação e prolongamento do tempo de vida da obra. Com a referencia digital ao lado, comecei a busca dos tons violetas, com alguns apontamentos mais avermelhados, para trabalhar a sombra (profundidade), direcionando aos neutros alaranjados e esverdeados na paleta, criando contrastes cromáticos , volumes e tensões ao longo da composição. Senti cada vez mais ao longo das criações a vontade de usar mais branco, conseguindo variações mais azuladas ou saturados mais altos na pintura, proporcionando um contraste mais tonal do que tonal nas composições.

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Printscreen do Processo - Mancha Digital Linguagem Nua II Bruna AzevĂŞdo 2014

Linguagem Nua

PINTURAS


Me preocupei em criar relações de complementares para conseguir uma grande variação e vibração dos neutros e cinzas coloridos (amarelo ocre + violetas / vermelho da china + verde veronese / cinza azulado + laranja de cádmio). Claro que obtive outras cores nas misturas das tintas. Sempre que a minha necessidade plástica pedisse, novamente, ficava livre para modificar o que foi construído na referencia digital, e assim, finalizando minhas pinturas. Ao longo das minhas pinturas, perceberão meu desprendimento em “fechar” a forma com a tinta, comecei a compreender mais a mancha como função visual e a desenvolver a minha fatura, gesticulando em alguns traços, dos pincéis, mais abertos e longos no espaço, criando uma dinâmica na mancha e também deixando o fundo do suporte respirar e fazer parte da valorização do objeto. Cada quadro foi concebido em um determinado dia. Percebi que me soltava mais, conseguindo desdobrar rapidamente e me desprender da minha linguagem visual passada, na qual ficava preocupada em retratar uma naturalidade mais fiel a imagem referente. Pude acelerar meu processo e obter o mesmo sucesso passado, ou até mais, surgindo assim minha linguagem nua.

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LINGUAGEM NUA II 2014 (PROCESSO CRIATIVO) ordem esquerda para direita

Estudo Linear Grafite sobre Canson

Fundo Neutro Adobe Photoshop

Estudo de Mancha Digital Adobe Photoshop

Pintura Finalizada Óleo sobre Craft


Linguagem Nua PINTURAS REALIZADAS


LINGUAGEM NUA 1 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

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LINGUAGEM NUA 2 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

Linguagem Nua

PINTURAS


LINGUAGEM NUA 3 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

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LINGUAGEM NUA 4 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

Linguagem Nua

PINTURAS


LINGUAGEM NUA 5 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

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LINGUAGEM NUA 6 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

Linguagem Nua

PINTURAS


LINGUAGEM NUA 7 Bruna Azevêdo Tamanho: 1,20cm x 70cm Técnica: Óleo s/ Craft 2014

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SEM TÍTULO Tamanho: 17cm x 23cm Técnica: Sépia s/ Craft 2014

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CONCLUSÃO Trabalhei com um corpo visto como "casto" ou "intocável". Este corpo permuta na definição natural do gênero masculino, e sua identidade. O que define ser homem a partir do corpo de gênero masculino.Propus na pesquisa transformar o gênero nu masculino, em um imagem maleável e sugestiva ao pensamento particular do espectador. Trabalhar a imagem para que esteja pronta para possíveis interpretações do espectador foi, e ainda é, um grande desafio para mim. O ato de me aprofundar na pesquisa teórica foi de grande importância para minha construção imagética. Percebi um “Homem” que vê seu corpo masculino como definição moral de sua identidade social e particular, e expor-lo é limitá-lo a definições, na maioria pejorativas, não condizendo com o entender de gênero. Vi na significação de gênero-objeto o que tanto desdobrava em minhas composições, do corpo nu masculino se tornando ferramenta criativa (pensamento principal da dança contemporânea), sendo ausente de quaisquer preceitos classificatórios, moldando sua forma a minha maneira visual, como também o tecido. O gestual está além do entender da movimentação. É uma atitude transformadora de ação e reação para uma possível comunicação imagética entre a obra e o receptor. Usar o tecido como extensão corporal proporcionou um novo ver do gênero-objeto, o corpo-tecido, um corpo orgânico que dobra, amarra e fluí no espaço compositivo, criando códigos e símbolos, a cada passada de olhar do observador na obra. Cresci no campo plástico. Achei nos artistas contemporâneos referentes, que também exploram o corpo masculino despido, riquezas cromáticas e uma caligrafia gestual das manchas que tanto quis explorar e pouco havia arriscado. Minha linguagem visual começou a ter uma particularidade ao me aventurar em resolver a pintura em pouco tempo de sessão , criando gestuais rápidos com o pincel e rapidez em desdobrar a tinta na paleta para o melhor da valorização da obra. Sinto que preciso explorar bem mais meu corpo comunicativo, de pesquisar esta matéria corpórea que tanto influencia um individuo que se diz forte, porém frágil quando seu gênero é articulado ao natural. Pretendo trabalhar mais partes dos corpos que pouco são entendidas como corpo, exemplo: mãos, cotovelos, pés e até a cabeça, deixando mais partes avulsas no espaço, aparecendo ou insinuando formas que se estenderão com os tecidos. O tecido também tem sua importância visual, a forma que surge como resposta do corpo, também tem que ser explorada em suas variações de materiais, cores e movimentos. Farei mais ensaios fotográficos, pois percebi o quanto a fotografia pode capturar de informações compositivas que não percebo a olho nu, devido ao movimento rápido dos elementos, nu masculino e o tecido, podendo usar como referência para ampliar imageticamente minha linguagem nua. Tenho consciência que este projeto é apenas o começo do muito que ainda posso desdobrar e não me dou por finalizada nesta linguagem, estou, apenas, iniciando uma vasta caminhada de novos conhecimentos e crescimento artístico e poético.

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BIBLIOGRAFIA

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Web sites (em destaque)

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DIÁRIO DE PESQUISA

LINGUAGEM NUA BRUNA SOUZA AZEVÊDO 2014/1º


LINGUAGEM NUA - Artista Bruna Azevêdo