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SEGUNDA-FEIRA 4 de abril de 2011 Nº 12.819

Ano 40

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R$ 1,00

INSS Quem recebe o teto vai ter mais dinheiro, graças a uma decisão do STF. Economia, página 18

Terror entre a juventude Problemas como dano, lesão corporal, ameaça e porte de droga são uma realidade cada vez mais comum no ambiente escolar. Segurança, páginas 12 e 13 LUIZ FERNANDO MENEZES/FOTOARENA/AE

Seguro atrairá baixas rendas Congresso Nacional votará projeto para criação dos microsseguros, que devem beneficiar cem milhões de pessoas. Economia, páginas 20 e 21

Socorro para quem precisa da Saúde

Homem é morto dentro de casa

Defensoria Pública é opção para quem não tem atendimento nem pode pagar advogado. Cidades, página 5

Crime em Taguatinga é um mistério. Vítima não tinha histórico de confusões. Segurança, página 10

Gladiador mata o Peixe

Rebelião no Caje deixa 8 feridos Segurança, página 11

RENATO ARAÚJO

Visitantes indesejados e perigosos Moradores da 313 Norte sofrem com escorpiões. Cidades, página 9

Em partida morna, o Palmeiras de Kléber, autor do único gol, derrotou o Santos de Neymar. Na Taça Rio, o Vasco atropelou o Bangu: 4 x 0. No Candangão, em jogo movimentado, o Brasiliense venceu o Botafogo-DF. Torcida, páginas 4 a 12


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SEGURANÇA

Segunda-feira, 4 de abril de 2011

Jornal de Brasília

VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS

Jovens reféns do medo FOTOS: JOSEMAR GONÇALVES

l Os problemas mais comuns são dano, lesão corporal, ameaça e porte de droga ! Bruna Sensêve bruna.senseve@jornaldebrasilia.com.br

“V

ocê não quer mais ir para a escola pelo medo. Brigar com uma menina da sua idade é cruel e pode até matar.” Essa é a declaração da estudante Amanda (nome fictício), 15 anos, quando questionada sobre o que faria se tivesse um desentendimento com uma colega de classe. O medo permeia toda a comunidade escolar. Está entre os professores, alunos, funcionários e direção. A diretora do Centro Educacional 01, em Riacho Fundo II, Alessandra Garcia, confessa que, algumas vezes, ao sair da escola pensa se não há um aluno a esperando em frente ao portão de sua casa para uma retaliação. Para especialistas, policiamento, medidas restritivas, muros altos e repreensões não são a solução. A principal arma das vítimas de violência escolar está no envolvimento e relacionamento da comunidade, pais e professores. A aluna da rede pública de ensino Maria (nome fictício), 18 anos, trocou de escola após uma agressão. “A menina simplesmente não foi com a minha cara, me agrediu e ameaçou continuar.” Houve temor de uma nova investida, mas acima disso a vergonha de pedir ajuda aos adultos. “Já tinha pedido muitas vezes que minha mãe me tirasse da escola. Ofereciam drogas, queriam me obrigar a fumar e eu realmente queria sair dali”, lembra. Quem acabou ajudando foi uma amiga que

São muitos os relatos de agressões gratuitas no ambiente escolar. Vários estudantes preferem nem denunciar, por temer represálias

estranhou as diversas faltas e ligou na residência de Maria. A mãe achava que ela estava doente, até descobrir a verdade. Maria voltou para as aulas e quando a estudante chegou em casa machucada mais uma vez a mãe procurou a direção da escola. TRANSFERÊNCIA “Até consegui bater nela na hora. Acho até que bati mais, no entanto sempre estive com medo. Mesmo depois desse tempo.” No momento em que a família se envolveu, descobriu que a agressora havia passado por momentos de barbárie em sua família. O pai havia matado a mãe e

se matado, em seguida, em frente à criança. Segundo a promotora Márcia Pereira da Rocha, da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Educação e membro do Grupo de Apoio à Segurança Escolar (Gase), os perfis dos jovens agressores são muito diferentes e podem ter seu comportamento motivado pelas mais diversas causas. Seja o relacionamento familiar, situação econômica vulnerável, falta da imposição de limites, ou mesmo a ausência de uma atividade no turno contrário ao escolar. Entre os delitos mais cometidos dentro e nos arredores escolares estão dano, lesão corporal, ameaça e porte

de substância entorpecente. “O índice crescente da violência urbana reflete no âmbito escolar, como reflete em todas as outras instituições da cidade. A escola faz parte da engrenagem social. No entanto, com certeza é difícil para um adolescente ou criança ter soluções pacíficas se convive em uma área de conflito”, analisa a promotora. Ela compara com a facilidade de ver desentendimentos em postos de atendimento ao público, por exemplo. Para a promotora, as escolas precisam apresentar ao aluno uma nova forma de resolver os conflitos entre eles: o diálogo.

Brigas vão parar na internet As brigas, normalmente, são levadas para as imediações das escolas. Felipe (nome fictício) estudou na Escola Classe 60, em Ceilândia, e conta que as brigas eram parte do cotidiano dos alunos. Mesmo com a presença de um guarda, eles se deslocavam para outro local, longe da visão do policial e brigavam. “E para piorar gravavam e colocavam na internet”, acrescenta. Qualquer um que discordar da atitude dos garotos e garotas valentões, também precisa

ficar calado. Quem entrega os culpados, vira vítima. “Uma colega minha ficou com o braço e os dois dedos da mão quebrados porque ela falou que estavam brigando. Eles acham que descer para a DCA (ser conduzido para a Delegacia de Crianças e Adolescentes) é uma glória”, detalha a estudante Amanda. Segundo os alunos, todos temem aquele que já foi conduzido à delegacia, é um status entre os jovens infratores. “Se você cortar e falar que

não quer brigar, você é ‘bichinha’, medroso. Mexe muito com a autoestima, é uma vergonha. A pessoa fica mais quieta, não quer falar com ninguém”, explica Regina, 15 anos. A violência, que está presente em todo lugar, pode ser mais dura nos ombros daqueles que estão no processo de formação de sua personalidade e seus valores. No ambiente escolar existem diversos níveis de violência. São apelidos, provocações, drogas e lesão corporal. Segundo os estudan-

tes, mesmo que o pai seja superprotetor, a identificação do problema normalmente ocorre tarde. Eles contam que quando há o envolvimento de adultos é porque a questão chegou ao último estágio e as consequências são mais graves. “É preciso que o adolescente se ocupe com algo fora da escola. Se ele fica sem fazer nada, vai para a rua. Ninguém sabe o que se passa na cabeça de um adolescente”, avalia João (nome fictício), 17 anos.

SAIBA

+

O Centro Educacional 01, em Riacho Fundo II, junto à Diretoria Regional de Ensino do Núcleo Bandeirante, criou o Projeto Vivenciando a Cidadania. Professores da escola promovem atividades extraclasse, no período noturno, abertas a toda a comunidade e gratuitamente. São aulas de espanhol, saúde na escola, violão popular e cultura africana. A ação busca o entrosamento da comunidade vizinha com o ambiente escolar, além do maior envolvimento entre pais e professores. Haverá uma aula inaugural neste mês para apresentação do projeto em que todos poderão participar. As turmas têm número limitado de alunos. Mais informações: 3901-2199.


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SEGURANÇA

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FOTOS: JOSEMAR GONÇALVES

Aumento das ocorrências O delegado Nilvado Oliveira, da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), afirma que o número de ocorrências, em dois anos, aumentou especialmente pelo crescimento do consumo de drogas entre os jovens. A cada dez ocorrências pelo menos cinco são pelo consumo e/ou tráfico de drogas e o resto se distribui entre ameaça, lesão corporal e pequenos furtos. As principais drogas consumidas são maconha e crack, até mesmo pelo baixo poder aquisitivo do jovem. O delegado acredita que a região administrativa do Distrito Federal com o maior número de infrações cometidas por menores de idade é Ceilândia, seguida de Santa Maria, Planaltina e Taguatinga. Nivaldo também sente que existe um certo orgulho dos estudantes ao serem encaminhados à delegacia. Ele compara a postura ao que ocorre em presídios, onde os presos se vangloriam do grande número de processos, denúncias e ocorrências. “Eles veem isso como um sinal de experiência, de que são mais vividos, sem medir a consequência real dos seus atos.” Segundo ele, os pais precisam estar atentos e repreender os primeiros envolvimentos do jovem com infrações. “O pai tende a pensar que a pichação, por exemplo, não é um problema tão grande e deixa o filho fazer. No entanto, se ele começa a pertencer a um grupo de pichadores é porque está perdendo a noção de valor moral. Naquele grupo, o jovem começa a encontrar a criminalidade”, diz. EJA O medo da violência nas escolas não atinge somente os alunos. Professores e funcionários também se sentem ameaçados constantemente. A aluna Maria conta que sua tia e mãe fazem o programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA) durante a noite em uma escola próxima à casa delas, no Riacho Fundo II. Ali, o medo dos professores frente à agressividade dos alunos se manifestou de forma dura. As luzes da escola começaram a apagar recorrentemente e sempre no horário da noite. Estranhando a situação, resolveram investigar o fato. A Polícia Militar teria descoberto que havia alunos desligando a fonte de energia pelos postes de iluminação pública. Providências foram tomadas para repreender o comportamento, mesmo com medo da retaliação dos estudantes. Ainda assim, mais uma vez as luzes foram desligadas. A única reação dos professores foi trancarem-se dentro das salas de aula e da coordenação, por medo de que os alunos punidos buscassem uma retratação com os professores delatores. Álvaro Fonseca Monteiro, professor do Centro de Ensino 01, vizinho a essa escola, afirma que existe uma pressão constante nos educadores. “Não sei qual a história que aquele aluno traz consigo.”

Medidas preventivas

Quem já foi apreendido pela polícia acha que ganha status. No Riacho Fundo, a escola mantém os portões trancados

Reforço da cultura da paz A subsecretária de Educação Integral, Cidadania e Direitos Humanos da Secretaria de Educação, Gícia Falcão, reconhece o aumento das situações de violência nas escolas, mas reforça que esta não é uma questão interna. A seu ver, é um reflexo da violência urbana que atinge todas as instituições. “Se o problema está na sociedade, infelizmente, também estará nas escolas. Além da ação se sensibilização dos alunos, trabalhamos junto ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) com projetos para a construção de uma cultura de paz nas escolas”, conta Gícia. Segundo ela, a violência também chega por meio da discriminação e do racismo. A ideia é trabalhar para que esses valores estejam mais firmes na vida das crianças. “Queremos tra-

“Queremos trazer de volta a discussão antes da agressão física ou psicológica.” Gícia Falcão, subsecretária de Educação Integral, Cidadania e Direitos Humanos

zer de volta a discussão antes da agressão física ou psicológica.” A promotora Márcia Pereira afir-

ma que uma das soluções para o problema estaria na implementação da mediação escolar. É uma técnica utilizada para enfrentar situações em casos concretos de discórdia entre os pares. No entanto, é necessário que haja um espaço físico adequado e profissionais capacitados para a atividade. “Existem projetos pioneiros bem-sucedidos. É uma adequação baseada em estatísticas concretas. A escola precisa ser um espaço de foro privilegiado onde também existam multiplicadores internos dos conceitos e valores tão importantes quanto a mediação”, explica. Ela conta que já estão formalmente implementados os conselhos de segurança escolar, para a prevenção dos atos infracionais, embora alguns ainda não funcionem efetivamente.

Salas e portão trancados durante os intervalos e a proibição de ficar em locais onde não possam ser vistos e de entrar após o primeiro horário de aula são medidas tomadas pelo Centro de Ensino 01, em Riacho Fundo II. Mesmo que alguns considerem a vizinhança um pouco perigosa, ali, os alunos podem se sentir mais seguros. As regras foram implementadas enfrentando uma grande oposição dos estudantes, mas os resultados foram tão efetivos que, hoje, eles entendem os motivos e apoiam a decisão da diretoria da escola. Os portões lacrados foram uma dica do Batalhão Escolar da Polícia Militar (PMDF). “Dessa forma, conseguimos impedir a entrada de bebida, drogas e pessoas que não pertençam à comunidade escolar”, justifica a diretora Alessandra Garcia. Ela lembra que, antes disso, chegou a ter alunos com bebidas alcoólicas dentro das salas de aula. “Brincava com eles, mas cheirava todas as garrafas que entravam antes de decidir fechar os portões.” A tolerância é de 15 minutos. Depois disso, podem retornar para casa. A atitude foi motivada por conta do grande número de alunos nas imediações da escola. Em um único dia havia 118 do lado de fora. “Muitos fingiam que vinham para a escola e não entravam. Tivemos problemas com o consumo de drogas e bebida. Hoje, se temos cinco alunos atrasados é muito”, comemora. Ela explica que o clima de paz dentro da escola não é mágica, mas resultado de muita firmeza nas ações preventivas.


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4l Domingo, 10 de abril de 2011 l Jornal de Brasília

CIDADES

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VIOLÊNCIA CONTRA A JUVENTUDE

Aumentam as denúncias ANDRESSA ANHOLETE

l Notificações feitas no DF por profissionais de saúde cresceram 25% este ano ! Bruna Sensêve bruna.senseve@jornaldebrasilia.com.br

A

s notificações de violência contra crianças e adolescentes, feitas por profissionais da rede pública de saúde do Distrito Federal, cresceu 25% em 2010, comparado ao ano anterior. Entre as principais ocorrências estão a violência psicológica e sexual, que não apresentavam números tão altos há mais de quatro anos. Foram mais de 500 notificações de violência sexual frente a uma média de 215 nos anos anteriores. Um número ainda mais expressivo foi registrado de violência psicológica, quando foram comunicados cinco vezes mais casos que em 2009. Ainda assim, especialistas consideram que esse índice deve ser inferior à quantidade real de ocorrências. Diversos fatores contribuem para que o crime continue com dimensões obscuras e, em grande parte, reservado ao íntimo da família. Entre eles, estão a vergonha e a culpa. A criança é considerada vítima calada, que prefere não denunciar o agressor por medo de represálias, descrédito, impunidade ou, até mesmo, pelas consequências que seu agressor pode sofrer. Francisco (nome fictício), 32 anos,

Francisco denunciou a ex-mulher após ela agredir o filho de nove anos com socos, pontapés e pauladas: vários hematomas

divorciado há sete anos da primeira esposa e com uma nova família formada, três meses atrás, conta que recebeu um telefonema em que a ex-mulher confessava ter espancado o filho do casal, de nove anos. Segundo ela, João (nome fictício) havia xingado seu enteado e mereceu os socos, pontapés e pauladas desferidos. Aterrorizado, Francisco procurou imediatamente a Delegacia de Polícia para registrar a ocorrência, entretanto, deparou-se com a negativa de João. CONSEQUÊNCIAS “Meu filho estava com a boca sangrando, machucado, com vários

hematomas imensos nas costas e, ainda assim, me pediu para não denunciar a mãe. Minha primeira reação foi fazer o mesmo ou pior com ela, mas busquei fazer o certo. Demorou bastante até conseguir tirar alguma informação dele”, lembra. Ele acredita que os episódios de lesões corporais ocorriam há algum tempo, mas o filho escondia da família paterna. A maior preocupação do pai e dos avós, com quem o menino mora, é que os abusos continuem. “Mesmo com o exame de corpo de delito, a ocorrência e o depoimento, ela nunca foi intimada. Parece que para a Justiça ele é só mais

uma criança. O problema é que ela continua visitando e levando-o para a casa”, relata o pai, apreensivo. A impunidade funciona como um estímulo para a continuidade, e até o aumento, dos casos de violência contra crianças e adolescentes. A psicóloga e diretora do Departamento Psicossocial do Programa de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-vítima), Lílian Marinho, afirma que o aumento dessa violência foi percebido pelo Pró-vítima e que a impunidade é um dos principais contribuintes para esse crescimento. “Em muitos casos, a mãe é a agressora ou é conivente. A criança tende

a confundir o papel do protetor com o do agressor”, diz. As consequências são traumas irreversíveis em que o adolescente ou a criança tende a levar essa dinâmica de violência e agressividade para fora de casa. “Esse é o modelo de reação que eles têm e tendem a copiar. Eles enxergam a violência de forma banal e rotineira por ser uma realidade do seu dia a dia. É essa consciência que deve ser modificada”. A violência contra menores, porém, é cristalizada e se manifesta nos vínculos afetivos. A dependência financeira e emocional dos agredidos são os principais obstáculos para a denúncia.

Pouca adesão médica e estrutura De acordo com a 4ª Promotoria de Justiça Cível e de Defesa dos Direitos Individuais, Difusos e Coletivos da Infância e da Juventude, as notificações feitas pelos profissionais de saúde e as denúncias de trabalhadores em educação são as principais contribuições para mostrar os dados reais de um crime que continua como números encobertos. Isso, porque existe uma diferença substancial entre o número de crimes praticados e o número de crimes conhecidos pelas

autoridades competentes. A promotora Luísa Marillac considera que o maior número de denúncias representa um aumento do esclarecimento da população quanto à gravidade das consequências desses atos. A chefe do núcleo de estudos e programas para os acidentes e violência da Secretaria de Saúde do DF, Laurez Vilela, reconhece o aumento dos registros, mas acredita que eles ainda não alcançam a realidade das ocorrências pela carência de infraes-

“Falta estrutura para amenizar o sofrimento e as sequelas da violência” Laurez Vilela, da SES-DF

trutura e falta de adesão da categoria médica na notificação compulsória da violência, seja por medo, falta de tempo ou descompromisso dos profissionais de saúde com o paciente. Ela explica que, dos 18 Programas de Prevenção e Atendimento às Vítimas de Acidentes e Violências (PAV) que seriam implementados nas Regionais de Saúde da SES-DF, apenas sete estão em efetivo funcionamento, em sua maioria, no Plano Piloto. “Com isso, não é realizado

o apoio integral necessário para que a vítima amenize o sofrimento e as sequelas geradas pela violência”. Para Laurez, ainda falta a consciência de que a violência também é um problema de saúde pública, especialmente, frente à frequência e às elevadas taxas de mortalidade e sequelas provocadas por ela. “O sucesso de um programa de prevenção não está somente no planejamento, mas na adesão e compromisso dos profissionais, gestores e população”.


Domingo, 10 de abril de 2011

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CIDADES

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SAIBA + De acordo com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, a taxa de morbidade de crianças e adolescentes por violência psicológica e sexual apresenta o maior número dos últimos quatro anos. Os números correspondem a notificações da ocorrência de

violência sexual e psicológica em crianças e adolescentes feitas por profissionais da rede pública de saúde. No ano passado, os registros de violência psicológica chegaram a 170, cinco vezes maior que em 2009. As notificações de violência sexual entre crianças e adolescentes aumentaram

144%, se comparado ao ano anterior. Especialistas acreditam que o índice está intimamente ligado ao aumento da violência contra a mulher, já que a maior parte das ocorrências de violência, em ambos os casos, acontecem dentro dos lares brasilienses.

Série histórica Morbidade de crianças e adolescentes por acidentes e violência Tipos de violência Negligência Física Sexual Psicológica Estrutural Acidentes Síndrome de Munchausen** Total

2006 137 160 165 29 3 108 602

2007 430 261 243 34 10 8 2 988

2008 815 299 244 38 8 107 1 1.512

2009 451 212 209 31 12 5 920

2010* 224 246 512 170 1 3 1.156

*Janeiro a Dez/2010 - contendo número aproximado de notificações do último trimestre de 2010 **Síndrome de Munchausen - doença psiquiátrica em que o paciente, de forma compulsiva, deliberada e contínua, causa, provoca ou simula sintomas de doenças. A síndrome "by proxi" (por procuração) ocorre quando um parente, quase sempre a mãe (85% a 95%), de forma persistentemente produz (fabrica, simula, inventa), de forma intencional, sintomas em seu filho, fazendo que este seja considerado doente, ou provocando ativamente a doença, colocando-a em risco. Fonte: Nepav/SES 2010

Violência contra a mulher Tipos de violência Física Sexual Psicológica Estrutural Acidentes Total

2006 284 134 32 188 628

2007 341 109 50 1 1 502

2008 285 69 12 1 4 371

2009 119 65 9 3 1 197

2010* 191 167 59 3 420

*Janeiro a Dez/2010 - contendo número aproximado de notificações do último trimestre de 2010

Fonte: Nepav/SES 2010

O Distrito Federal apresenta o maior número do País de denúncias de violência sexual sofrida por crianças e adolescentes recebidas pelo Disque 100, por grupo de 100 mil habitantes. No período considerado, entre maio de 2003 e fevereiro de 2011, foram 3.677 denúncias. Uma média de 143,47 para cada cem mil habitantes. Os dados são da Secretaria de Direitos

Humanos da Presidência da República. Isso não quer dizer, no entanto, que no DF haja mais violência deste tipo e sim que aqui as pessoas denunciam mais. Conheça os indicadores de maus-tratos e abuso sexual apontados pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente:

Indicadores de maus-tratos

Denuncie Físicos: Fraturas que não condizem com a causa atribuída ou lesões no corpo, como queimaduras, feridas, cortes, mordidas, vergões. Comportamentais: Agressividade intensa, apatia, hiperatividade, depressão, tendências autodestrutivas e ao isolamento, baixa autoestima, medo excessivo dos pais, professores ou responsáveis, problemas de aprendizado, faltas frequentes à escola e relato de causas pouco prováveis às fugas de casa. Indicadores de abuso sexual Físicos: Lesões em geral, hematomas, lesões genitais, anais, gestação e doenças sexualmente transmissíveis. vPsicológicos: Agressividade; condutas sexuais inadequadas; dificuldades nos relacionamentos interpessoais, de ligação afetiva e amorosa; dificuldades escolares; distúrbios alimentares; distúrbios afetivos (apatia, depressão, desinteresse pelas brincadeiras, crises de choro, sentimento de culpa, vergonha, autodesvalorização, falta de estima); dificuldades de adaptação; dificuldades em relação ao sono; envolvimento com prostituição; mudanças de comportamento e de vocabulário; uso de drogas.

Ao presenciar ou tomar conhecimento da ocorrência de um crime, tome as seguintes providências: -Procure imediatamente as autoridades responsáveis. -Obtenha o máximo de informações disponíveis sobre o fato, se possível mencionando o endereço, nome e idade da vítima e do agressor. Os números gratuitos para denúncia são: 197 ou 100.

InfoJBr/ Pacífico


Temperatura de 19ºC a 28ºC

SEGUNDA-FEIRA 11 de abril de 2011 Ano 40

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Na rua é mais seguro Pesquisa inédita mostra que para muitas crianças e adolescentes do DF, o perigo está dentro de casa, onde a violência impera. Cidades, páginas 4 e 5

O temporal que caiu ontem no Distrito Federal trouxe muitos prejuízos, principalmente aos moradores da Asa Norte. A UnB foi invadida pelas águas e as aulas estão suspensas. Cidades, páginas 8 e 9

Inscrição começa hoje Interessados em disputar uma das 799 vagas abertas pela Secretaria de Saúde não podem perder o prazo. Economia, página 35

TORCIDA FÁBIO BORGES/VIPCOMM

Chuva provoca estragos

Vitória garante vaga Thiago Neves foi o homem-gol do Flamengo na partida contra o Botafogo, marcando dois. Com os resultados da rodada, Vasco também já tem lugar garantido nas semifinais da Taça Rio

Filho mata a própria mãe Segurança, página 18 Páginas 56 e 57

Recomeço em Realengo Brasil, páginas 20 e 21

Formosa na liderança Torcida, página 59

Falcão assume Internacional Torcida, página 54

Corinthians perde de novo Torcida, página 51


4lSegunda-feira, 11 de abril de 2011 l Jornal de Brasília

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Mande sua sugestão de pauta para o Jornal de Brasília: Nosso telefone é 3343-8051, ou mande para o e-mail redacao@jornaldebrasilia.com.br.

Editora: Nelza Cristina [nelza@jornaldebrasilia.com.br]. Subeditora: Roberta Luiza [roberta.eduardo@jornaldebrasilia.com.br]. Fone: 3343-8061 GEYZON LENIN

ABANDONO Crianças tentam sobreviver à violência doméstica e à marginalização

O que leva uma pessoa

a preferir a rua l Avaliação é de que os jovens analisados vivem sem qualquer proteção social ! Bruna Sensêve bruna.senseve@jornaldebrasilia.com.br

A

os sete anos ele fugiu de casa e entrou escondido em um ônibus, rumo a Brasília. Aqui, instalou-se na Rodoviária do Plano Piloto e conheceu um mundo não muito diferente do que vivenciou no barraco de lona, em Formosa (GO), onde morava com os pais e oito irmãos. Paulo (nome fictício), 19 anos, conta uma história que acontece diariamente em todas as cidades brasileiras. A reprodução da saga histórico-social de sua classe é uma

trajetória mapeada pelo recente trabalho do Grupo de Pesquisa sobre Violência, Exploração Sexual e Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes (Violes), da Universidade de Brasília (UnB). “Fui para a rua porque não dei certo com meu pai. Ele maltratava minha mãe, batia muito nela, abusava e deixava ela dormindo do lado de fora, na chuva. Eu vi aquela situação e saí”, explica. Paulo não revela a extensão das agressões e abusos que sofreu com os irmãos. Aos poucos, lembra de momentos ainda mais fortes da infância. “Em vez de ir para a escola, me escondi atrás da lona. Meu pai tinha chamado minha irmã para o quarto e eu queria saber o que era. Não consegui ver, mas quando ela saiu perguntei: Vera, meu pai fez alguma coisa com você? Ela falou que não, mas eu vi o lençol cheio de sangue”. As mãos são trêmulas e as marcas do uso de drogas estão na pele, nos dentes e na fala enrolada. Nas ruas, além do abuso sexual,

Paulo viveu prostituição, tráfico e uso de drogas, violência física e humilhação. “É um conjunto de situações que levam ao estado de tragédia social dessas crianças”, constata a professora Maria Lúcia Leal, uma das coordenadoras da pesquisa realizada pelo Violes. CONTEXTO DA RUA No estudo da trajetória social de 22 jovens que viviam nas calçadas da Rodoviária e Setor Comercial Sul, os pesquisadores analisaram qualitativamente o contexto da rua, projetos sociais por onde passaram, histórico familiar, abusos e infância. O quadro encontrado foi de falta de proteção social. Famílias muito pobres, mães com diferentes parceiros, trabalhos informais e, aliado a isso, as relações de conflito existentes em casas com situações muito precárias de violência doméstica, exploração sexual, alcoolismo ou outros envolvimentos com drogas. Segundo a coordenadora, as famílias passam por situações de pre-

carização, estigmas e violência tão grandes que apresentam poucas condições de dialogar para que se compreenda as razões que determinam essa situação. “Um quadro intrafamiliar muito conflituoso e precário. Foi ali que essas crianças nasceram”. As privações materiais vão desde as condições básicas para sobrevivência até a proteção por políticas públicas. Entre sete e oito anos de idade as crianças estão nas ruas e são, normalmente, levadas pelos pais para colaborar com uma atividade informal de trabalho. O contato com a rua é estabelecido ali, seja vendendo balas, mendigando ou vigiando carros. Acompanham os pais em situações laborais e entram no mundo do trabalho infantil ainda com a família. Aqueles que não acompanham, precisam cuidar dos irmãos em casa. “As múltiplas violências não são associadas só à família, mas a todas as políticas sociais e desproteção do Estado. É uma família com um histórico que mexe com as reações psicológicas”, diz Maria Lúcia.

SAIBA

+

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Distrito Federal (Sedest) há um quantitativo estimado de 2.365 pessoas em situação de rua no DF, sendo que 18,9% delas são crianças e adolescentes. O estudo mostra que 41,3% da população de rua cursou até a 4ª série. 14,4% informou que desavenças familiares os levaram para a situação de rua. O Plano Piloto concentra 38,2% da população de rua e , desses, 37,3% estão na região central, 38,3% na Asa Norte e 24,4% na Asa Sul. Depois do Plano Piloto, Taguatinga e Ceilândia têm as maiores concentrações, com 19,9% e 9,7% respectivamente.


Segunda-feira, 11 de abril de 2011

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CIDADES

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Humilhações que se repetem FOTOS: GEYZON LENIN

Após os primeiros contatos com a rua, o rompimento com o ambiente familiar acontece muito rápido. Se no início foram levados pela família, passam a ir sozinhas, e ali, começam a viver outras relações, que também são acompanhadas por práticas violentas. Ana Paula (nome fictício), 17 anos, escolheu essa identificação por ser o nome da amiga, também moradora de rua, que morreu após um estupro, em 2007. Foram nove anos na rua desde que a jovem deixou a casa dos pais, assim como Paulo, aos sete anos de idade. Entre os horrores que viveu, ela conta que, há alguns anos, policiais militares tinham a rotina de retirar os moradores de rua da Rodoviária a pauladas. Enchiam as viaturas e os abandonavam em Sobradinho ou Planaltina para que voltassem sozinhos, a pé. “Isso, quando não nos obrigavam a pular da ponte e nadar. Levavam para lá e perguntavam: Vocês preferem com a mão amarrada ou com a mão solta?. Falavam bem assim”, relata Ana Paula. Para sobreviver, ela confessa que vendeu entorpecentes na maior parte do tempo e, quando o dinheiro não era suficiente para comprar comida ou drogas, também se prostituiu. Uma vez ou outra, ela volta para casa. O braço direito tatuado com o nome da mãe – tem três outras, uma feita há oito anos, ali na Rodoviária – mostra a relação forte que Ana Paula ainda mantém com parte da família. Ela conta que a mãe a buscou na rua quase todas as vezes que a menina, ainda com oito anos, insistia em fugir. “Depois de um tempo, ela desistiu, não adiantava mais”, explica. Hoje, Ana Paula visita a família nos fins de semana e busca um local para alugar com outras duas amigas. O sonho é se formar em design de moda. “As únicas coisas que são oferecidas na rua é morte, prostituição, droga e cadeia”, conclui. Paulo conheceu solventes, bebida, maconha e crack. Em mais de dez anos morando na rua, ele pedia comida nas casas e, para conseguir sustentar o vício, mendigava. “Minha vida não foi tão fácil para eu ser alegre. Nunca tive amigo para conversar. Nunca sentei numa cadeira para escrever uma letra. Eu andava trabalhando. Desde criança meu pai me colocou na carvoaria para trabalhar, e o dinheiro ele gastava em cachaça”. Os pais de Paulo morreram recentemente. VÍNCULOS Ele, Ana Paula e outros jovens participam do Projeto Giração, que abriga e recupera crianças e adolescentes de rua. Dentro do programa existe a possibilidade de reinserção do jovem na família, e foi

Paulo (nome fictício) conta que saiu de casa por causa da violência que o pai costumava cometer contra a mãe e irmã: infância destruída

assim que ele reencontrou e perdoou o pai. No entanto, quando ele morreu, após a mãe, Paulo diz ter perdido todo o vínculo familiar e sua relação afetiva com o mundo. “Para mim, eu não existo mais para minha família. Eu gostava dele, brincava com ele, levava café, batia papo. Tem dia que eu quero sair por esse mundo sozinho. Se um dia eu morrer, só Deus vai saber que eu morri”. Depois da entrevista, Paulo disse para a educadora do projeto que iria até a Rodoviária, porque precisava de mais uma pedrada (crack). De acordo com as constatações finais da pesquisa desenvolvida pelo Violes, é possível afirmar que, em relação ao atendimento às crianças e adolescentes, existe uma forte tendência de ações higienistas e repressivas das instituições do poder público para enfrentar os conflitos sociais que os jovens vivenciam nos locais onde ficam abrigados por longos períodos. Entre as práticas observadas nas intervenções da segurança pública estiveram presentes situações onde foram observados atos de violências físicas, psicológicas e emocionais, inclusive com denúncias de um dos agentes às instâncias do poder público. “Acho que esses meninos de rua, por tudo que passam na mão da polícia e das outras pessoas que chegam a cuspir na gente, aprendem a ser maus, a ser ruins. Pensam que se fazem isso com eles podem fazer com os outros”, acredita Ana Paula.

Direitos violados

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Grande parte dos meninos entrevistados e conhecidos, tanto pelo Giração quanto pelos pesquisadores da UnB, passou por diversos projetos sociais, abrigos, escolas e reabilitações. Ainda assim, não foi possível romper com a trajetória de violação de direitos. “Com a pesquisa, conseguimos entender porque a criança que foi para a rua aos sete anos ainda estava ali. Porque existe uma trajetória total de desproteção social. Todos falharam com eles. A família e todas as políticas públicas falharam”, afirma Maria Lúcia. A falta de uma medida que interrompa esse processo leva as crianças ao cumprimento de uma medida socioeducativo ou até mesmo à morte. “Muitos meninos estavam cumprindo medidas socioeducativas assistidas”, diz a pesquisadora. As constatações do estudo mostraram um tecido tenso e contraditório por onde operam as políticas públicas no DF. Entre as medidas propostas está a adoção de uma metodologia de participação e intervenção social fundamentada no reconhecimento desses jovens e suas famílias como sujeitos de direitos. A principal busca deve estar na promoção intersetorial das ações públicas em todas as vertentes que envolvem a desproteção social: saúde, educação, cultura e transferência de renda.

Os caminhos da juventude  

Da violência nas escolas e a agressão doméstica, àqueles que preferiram as ruas e a companhia do crack.