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Existem palavras que nunca atravessarão a ponte. Ficarão para sempre dentro de nós, ainda que ditas, serão como uma língua estrangeira. Ficarão para sempre, irremediávelmente, dentro do peito.


By Raluca Radu

And the night shadows fall down but brings to life the symbol of inner quest. Young people seem to have left some hidden cocoons and spread their translucid wings to become butterflies… The music brings them together, in the same places, like in a secret union that has been “calling’’ them for years. Maurish holly faces, curly hair Giocondas, rastafari profiles, tented feminine figures and a sweet combination of Morrison and Cobain attitude…these are the “masks” the city reveals to me until dawn.

I loose myself in the loud rythms in “Looks” and I mingle the artistic views, perceptions and conceptions with the strong sweetness of a fine glass of Porto wine in ‘Espontânea’….And as ecstasy has an abrupt descent, I step outside the thick wooden doors that separate the dream from reality. But what was true and what is imagination? I wonder while my overwhelmed eyes struggle to recognize the room in my dual state of reverie. I discover that I am back at my friends’ house and her parents will wake us up for a fresh delicious breakfast, while her little sister will play the piano for me, announcing another peaceful day in Vila.


1 Prisรฃo 2 Mata-moscas 3 Camisa de forรงas


A areia invade, deste modo, toda a forma de vida inteligente, secando a vontade e algemando a acção, tornando-a assim, presa fácil ao inexorável avanço do deserto. No exílio, a resistência esqueceu a causa, o porta-voz calçou os chinelos, a desertificação é inevitável. Quanto aos que ficam, dispersos, tecem planos mais ou menos suis generis, mais ou menos maquiavélicos, no combate às moscas da tarde quente e vagarosa do seu ócio. Distraídos e fúteis elegem por arqui-inimigo os seus iguais dedicando-se uns aos outros nas mais intrincadas arquitecturas da vingança mais comezinha. Até nos doutos bastiões do saber, feudos da vaidade, o canibalismo é igualmente prática corrente, não desempenhando o estatuto ou qualquer compromisso ético, em matéria de vingança pessoal, alguma diferenciação relativamente ao menos letrado e imbecil. Entretanto, a casta imprensa autóctone, avessa a ondulações mais alterosas, não polemiza. Guardiã da moralidade, lá vai incensando os feitos gloriosos das horas mortas, cantando e rindo, ao bom estilo café-curto-covilhete-quente de uma qualquer pastelaria da esquina.

- E se... Διογένης ὁ Σινωπεύς

Διογένης ὁ Σινωπεύς

1 Prisão 2 Mata-moscas 3 Camisa de forças


Quem segue a estrada da morte, depois de ultrapassada a barreira física da grande elevação, encontra o fundo de uma bacia rochosa e nela um deserto em forma de cidade. MANDAM OS QUE CÁ ESTÃO. O areal não se vê no primeiro relance, apenas o vulto multiforme das aberrações arquitectónicas que ali foram deixando a sua pegada urbanística. Os edifícios amontoam-se e distribuem-se casuísticos pela paisagem construída, ameaçando invadir a mancha florestal que a circunda. A paisagem urbana reflecte as diversas fases do seu desenvolvimento recente. Evoluindo da lógica de uma cidade de província do Estado Novo para a orgia edificada em que se tornou nas décadas seguintes. O estado de graça da recém-conquistada democracia passou. É certo que o ímpeto empreendedor das engrenagens do alegado Socialismo não se viu por estas paragens. Passada a indefinição desses tempos conturbados da democracia e um pouco ao sabor do acaso, a cidade cresceu sem rasgo, cresceu para dentro, amontoando-se. O delírio urbanístico atingiu o seu ponto alto numa época de grande informalidade no que respeita ao acto de pensar uma cidade. Cometeram-se os mais diversos atropelos em nome de interesses menos cívicos corporizando toda a sorte de promiscuidades entre o sector político e económico. O areal cresceu nessa era, deformado, como demonstra o bizarro das volumetrias. A Europa abarrigou-o. Rendidos ao unanimismo da tal Europa servida a la carte, uma terra prometida cá na terra, inaugurou-se o ciclo da deriva subsidialista. A apatia elevada a filosofia de estado contribuiu para a manutenção do status quo e tornou inviável qualquer pretensão de mobilidade social que não na aparência.

A subsidiocracia capou o espírito de iniciativa, a massa crítica, comprou a independência, a honestidade intelectual e a vontade. Fundamentada pela necessidade imperiosa de reestruturar o tecido produtivo, pela pretensa convergência com a Europa de cima, andou meio mundo a enganar o outro meio, com subsídios próprios para o efeito. Deu no que deu e pagou-se para isso. Agora paga-se por isso. Não havia à data, actividade, ou mesmo inactividade humana, a que não fosse atribuído um subsídio. O resultado foi o que se esperava mas que ninguém quis ver porque não dava jeito nenhum: uma geração adiada. Os tais “jovens europeus do século XXI”, mártires, sem saber porquê, do seu próprio tédio, suicidas do crédito imobiliário. Gravitando entre a euforia e a depressão, entre o subsídio e o cavalo, viveu o areal o pesadelo de um jardim suspenso, porque em queda livre. Deste modo, a pirâmide, e nada de mais natural do que a imagem de pirâmides no deserto, consolidou as suas fundações. Ficou mais fácil a conservação do poder às castas dominantes e seus clãs. O cultivo de massa acéfala é bom investimento no mercado do curto prazo. Nada melhor do que subsidiar sucessivas gerações de entretidos, radicais de uma rebeldia inócua, estremunhados, agarrados. O areal é um ecossistema inóspito à sobrevivência intelectual. Aos poucos não alinhados, os tais cães que não reconhecem qualquer dono, esperou-os quase sempre o exílio ou o desprezo. De todo o lado se promove a inércia e se dissuadem os espíritos menos convenientes. É barato, um tacho ou um poleiro, por mais insignificante que seja, é motivo mais do que suficiente para o iniciado suspirar o tanto que tem perder! Tudo por uma trela.


A areia invade, deste modo, toda a forma de vida inteligente, secando a vontade e algemando a acção, tornando-a assim, presa fácil ao inexorável avanço do deserto. No exílio, a resistência esqueceu a causa, o porta-voz calçou os chinelos, a desertificação é inevitável. Quanto aos que ficam, dispersos, tecem planos mais ou menos suis generis, mais ou menos maquiavélicos, no combate às moscas da tarde quente e vagarosa do seu ócio. Distraídos e fúteis elegem por arqui-inimigo os seus iguais dedicando-se uns aos outros nas mais intrincadas arquitecturas da vingança mais comezinha. Até nos doutos bastiões do saber, feudos da vaidade, o canibalismo é igualmente prática corrente, não desempenhando o estatuto ou qualquer compromisso ético, em matéria de vingança pessoal, alguma diferenciação relativamente ao menos letrado e imbecil. Entretanto, a casta imprensa autóctone, avessa a ondulações mais alterosas, não polemiza. Guardiã da moralidade, lá vai incensando os feitos gloriosos das horas mortas, cantando e rindo, ao bom estilo café-curto-covilhete-quente de uma qualquer pastelaria da esquina.

- E se... Διογένης ὁ Σινωπεύς

Διογένης ὁ Σινωπεύς


By Raluca Radu

Soft raindrops fall on the bus window, luring me into the nature’s cry lacking the pressure, lacking the sadness… I am slowly sliding towards a land of the ocean and the sun….and Porto is waiting me at the end of this long road… Half a continent and the five countries that I have left behind seem a short distance to cover in order to reach the realm of “ fado” and “saudade”…and the mother land of some good friend of mine. She is waiting for me in “Batalha”, anxiously watching my “tired” bus entering the station…Moments full of emotions accompany my hugs and my first curious steps in the city that carefully embraces Douro and rises up from waters with narrow streets and colorful tiled houses.

Her native town is “Vila”, as this is how she and her wonderful interesting friends refer to their dear “Vila Real” during my welcoming dinner. They do not say they love it...but I feel through their stories, through their voices, that they are linked and forever attracted to this place that seems to be the core of their inspiration, of their lives…

The morning I wander in Trás-os-Montes, on snake shaped highways, the warmy sun plays over the mountains and hills, revealing a quiet awakening town. No hurry and no struggle seems to dominate the general atmosphere. There is no traffic to disturb the church bells’ ding dongs and the fountains’ splash. The original architecture is well pre


By Raluca Radu

served and mingled with the contemporaneity that emerges from the window shops’ decorations. Some of the old men that stopped in front of the shops or “tascas” to have a cigarette and a small talk, politely greet the ladies and throw one eye with great lust on the young girls that pass. Mothers, holding the little hands of one or two kids, hurry to reach the churches where their little ones will attend the weekly reunion meant to initiate them into the spirit of Catholicism. And viewed from the perspective of an Orthodox Christian, such rituals and practices have quite an uncommon mystic flavour.

I wander all around the town and I gaze at the mountain stabbed horizon, at the woods and the river that splits it into two and childishly plays with its forms and dimensions. We drive away to Mateus Mansion where its beautiful gardens and noble imposing proportions bring out in me the candor and delicacy of a former princess…from a former existence, of course:).

Legends of wine, ruby grapes, vineyards of Heaven, Dionysus dance that lures us into the fallen abyss of sin, transforming us into trespassers on the “other side” …And I close my eyes…than slowly let the sun beans caress my lashes, swap off the dreams and bring me back…to Vila…

By Raluca Radu

And the night shadows fall down but brings to life the symbol of inner quest. Young people seem to have left some hidden cocoons and spread their translucid wings to become butterflies… The music brings them together, in the same places, like in a secret union that has been “calling’’ them for years. Maurish holly faces, curly hair Giocondas, rastafari profiles, tented feminine figures and a sweet combination of Morrison and Cobain attitude…these are the “masks” the city reveals to me until dawn.

I loose myself in the loud rythms in “Looks” and I mingle the artistic views, perceptions and conceptions with the strong sweetness of a fine glass of Porto wine in ‘Espontânea’….And as ecstasy has an abrupt descent, I step outside the thick wooden doors that separate the dream from reality. But what was true and what is imagination? I wonder while my overwhelmed eyes struggle to recognize the room in my dual state of reverie. I discover that I am back at my friends’ house and her parents will wake us up for a fresh delicious breakfast, while her little sister will play the piano for me, announcing another peaceful day in Vila.


By Raluca Radu

Soft raindrops fall on the bus window, luring me into the nature’s cry lacking the pressure, lacking the sadness… I am slowly sliding towards a land of the ocean and the sun….and Porto is waiting me at the end of this long road… Half a continent and the five countries that I have left behind seem a short distance to cover in order to reach the realm of “ fado” and “saudade”…and the mother land of some good friend of mine. She is waiting for me in “Batalha”, anxiously watching my “tired” bus entering the station…Moments full of emotions accompany my hugs and my first curious steps in the city that carefully embraces Douro and rises up from waters with narrow streets and colorful tiled houses.

Her native town is “Vila”, as this is how she and her wonderful interesting friends refer to their dear “Vila Real” during my welcoming dinner. They do not say they love it...but I feel through their stories, through their voices, that they are linked and forever attracted to this place that seems to be the core of their inspiration, of their lives…

The morning I wander in Trás-os-Montes, on snake shaped highways, the warmy sun plays over the mountains and hills, revealing a quiet awakening town. No hurry and no struggle seems to dominate the general atmosphere. There is no traffic to disturb the church bells’ ding dongs and the fountains’ splash. The original architecture is well pre


Aliquidi Fanzine n.º 1  

Edição n.º 1

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