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Crónica

O desejo de ser “doutor” fez César Bessa Monteiro rumar de Vila Real a Lisboa. Local onde estudou, trabalhou e acabou por fundar a sua própria sociedade – a pbbr. Hoje, recorda de forma saudosa o tempo de faculdade, os mestres, os colegas e os primeiros passos na profissão. Era um tempo diferente…

O tempo que já lá vai!

César Bessa Monteiro Sócio Fundador da pbbr. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1966. Dedica-se especialmente ao Direito da Propriedade Intelectual, TMT e Publicidade e Marketing.

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Abril de 2013

O frio não era, ainda, de rachar, quando em finais de Outubro de 1961, com a trouxa às costas, vim de Trás-os-Montes para Lisboa que não conhecia, mas cujos espaços já ia percorrendo no meu imaginário. Ficava longe essa Lisboa! A quase 12 horas de Vila Real! Vim com a trouxa às costas e com os tostões contados, que o dinheiro não abundava lá em casa e tinha, além disso que ser dividido com a instrução de mais quatro irmãos! Seguravam-me as raízes e guiavam-me as referências herdadas. Trazia a vontade de ser “doutor”, a morada do quarto onde iria dormir e estudar e um aviso do meu pai: “Vê lá se agora em vez de te matriculares na Faculdade de Direito, vais assentar arraiais no Estádio de Alvalade!”. Lisboa era tão grande! Nos primeiros tempos, a Faculdade era um susto! Pela multidão! Pela novidade! Pela exigência! Pelo inesperado! Éramos, no Anfiteatro Um, mais de quinhentos e só havia uma dúzia de meninas, todas na primeira fila! E as dúvidas eram mais que muitas! Como coordenar o estudo das quatro cadeiras? E estudar pelas “sebentas”? E tirar todos os apontamentos do que ouvia? E compreender as aulas que na feliz definição de um Ilustre Professor eram “teoricamente práticas e praticamente teóricas”! Quase desanimei, mas vencido o segundo ano, comecei a ver-me “doutor”! Na mediania dos doze valores que foi o patamar em que me havia situado nos dois primeiros

anos, só tive um catorze e, ainda por cima, dado por um grande Mestre, o Professor Palma Carlos que se não importava de estragar modelos e preconceitos estabelecidos, nem as médias! E foi uma festa! Os da minha geração bem sabem o que valia um quatorze nesse tempo! Em Outubro de 1966, no final do último exame do curso, a Professora Magalhães Colaço, perante uma resposta menos conseguida, lança-me o aviso, mas dá-me a boa nova! “Veja lá, agora que o Código de Seabra vai ser revogado, como vai, a partir do ano que vem, dar parecer a clientes ao abrigo do novo Código?” E havia mais um “doutor!”. Consegui iniciar-me na advocacia. A sorte (e eu creio em bem MAIS do que na sorte) levou-me a ser admitido no, que na altura, era considerado um dos melhores escritórios. E que patrono tive! O Jorge Gonçalves Pereira! Que intuição! Que “olho clínico”. Que perda para a advocacia portuguesa o ter seguido outros destinos! E que saudades do, para mim, inesquecível António Protásio que com paciência, disponibilidade e sentido prático me ajudou a construir os alicerces que me permitem trabalhar, como trabalho, na área a que mais me tenho dedicado! E que saudades tenho das “charlas” do fim do dia em que no seu gabinete – ele mais velho e nós mais jovens – nos permitíamos falar de assuntos mais ligeiros. Mas era assim, porque mais do que sócios ou associados, havia O agregador da advocacia

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