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Sombras de mim Paulo Andrade


Agradecimento, A todas as pessoas que alguma vez se cruzaram no meu caminho ainda que, algumas, por apenas por breves momentos . Um agradecimento muito especial e eterno à Gandaia pelas oportunidades de crescimento e iniciativa que me são dadas. Este “sombras de mim” existe graças ao repto lançado pela Gandaia.


Sombras de mim


Portugal, País antigo… com uma longa vida Vida que conta com anos mil Desde a antiguidade que tens a bandeira perseguida Por razões várias qual a mais imbecil

É sobre ti que vou pensar agora Portugal, o meu país Que país belo, que memória feliz Portugal, a tua alma hoje chora

Ao longo da tua vida muitas razões se bateram Muito sangue derramaste ó Portugal Tantas e tantos sofreram Para que te realizasses e existisses sem igual

Desde os idos dias de 1143 Passaste de condado a país Afonso I melhor obra não fez Viste a luz , que dia feliz


Daí para cá, longa história tens Anos de sofrimento, séculos de conquista Quantos foram, quantos voltaram para as suas mães Portugal que tanto venceste, agora perdido em tanto fogo de vista

Tantos mundos deste a conhecer Tantas aventuras marcaste Na História do mundo entraste Essa mesma que hoje demasiados fazem por esquecer

Não se esquece uma História Não se devem escamotear os passados sacrifícios Não se deve nunca branquear a memória Em ti, Portugal, tais desígnios devem viver vitalícios

Afonso I, D.Dinis, D.João II, Afonso III, Afonso V e Henrique ,o Infante Estes e outros tanto nos deram, por tanto lutaram Para que tu ,Portugal, te transformasses no país triunfante Que todos sabemos que foste, país que tantos amaram Portugal… a tua história e tudo o que deste ao mundo


Pesam agora sobre ti. Olham-te como sendo um país criminoso Meras distrações, para que a verdade não revele que estás no fundo Que tristes atitudes que comportamento abominoso

Hoje muitos desdenham a tua história Preferem até esquecê-la ou pior, fingir que nunca existiu Com valores deturpados vão impondo a sua visão persecutória Fazem-no de forma abjeta e tão dolorosa como nunca se sentiu

Portugal, todos os reis e exploradores que em ti nasceram Hoje vêem-se desdenhados, e a sua ação diminuída Tantos caminhos abriram, tantos por ti morreram Para agora a bandeira outrora tão respeitada, não passar de arguida

Desde a última revolução que atravessaste Essa mesmo, que recebeu de Santarém o salvador da pátria perdida Tanto te enganaram, tanto te mentiram, por tanto passaste Que a esperança quase se foi, para muitos sumida


A sociedade aprenderá a respeitar-te Por agora cede a modernices despropositadas Acordará e saberá o que é amar-te Deixará de lado as cabeças manipuladas

Portugal …

Ergue a bandeira ao alto, deixa-a ondular ao vento Essa bandeira é tua Portugal, é nossa Eleva as quinas no ar, aproveita o glorioso momento Que a tua história se difunda como a erva grossa


Desabafo do soldado Mãe fui chamado para lá Tenho medo, muito medo mas sei que lá terei de ir Chegará infelizmente o dia em que irei partir Um estar lá obrigado, um estar lá com saudades de cá

Desentendem-se os soberanos, picando-se pela ânsia de poder O resultado é sempre o mesmo para o caso de alguém esquecer Junto com centenas sou empurrado Empurrado sem dó, piedade ou respeito, sou maltratado

Empurrado à força no navio que me haverá de levar ao meio ignorado Afinal chega o grande dia, e aqui estou eu saudoso Ainda agora de vós me despeço e tenho já o coração choroso Desconheço totalmente o que vou encontrar Na mente a certeza de que, por cada dia, vou sempre recordar Os bocados de vida felizes e inocentes por que passei quando petiz Os longos jogos de futebol,as tropelias próprias que nessa altura fiz


Parto de lágrima ao canto do olho, de coração cortado Mas pior que ir, é ir tendo a certeza de que não se é desejado

A caminho vou, e abstraído continuo por esse mar fora Obrigando-me a combater, a matar para sobreviver Enviam-se centenas de vidas para além-mar, sem qualquer demora Estou triste porque vou, mas abalado porque não sei se a vós irei rever

Ocupam-me as mãos com uma arma, vestem-me um camuflado Mandam-me para lá, terra que não é minha Empenham a minha vida transformando-a em “vidinha” Estou já tão amargurado, encontro-me morto, afogado

Truque mental para escapar ao destino há muito temido e aguardado Sei contudo que a realidade é bem diferente e mais asquerosa Tenho saudades crescentes de todos por quantos sou amado Traço para mim e agora a parca vida futura, outrora fogosa Mãe recordo com grande saudade as vezes que me acarinhaste Recordo o teu olhar ténue e preocupado Recordo a distância a que ficaste


Desejando que nunca te tivesse deixado Cheguei ao meu destino forçado, ao termo nunca desejado Estou a sofrer, receoso do que posso encontrar Sempre na terrível incerteza se alguma vez irei sadio regressar

Passam-se os dias, passam-se as mortes e calam as madrugadas O som da coluna corta o silêncio na noite escura Rajadas curtas ecoam no breu da escuridão O desejo de te ver, ó mãe, é agora mais forte Camaradas tombam crivados pelo ódio da munição

O camarada que me ladeava foi surpreendido Tal munição perdida no escuro, mas certa do seu alvo Forçou a sua entrada no olho, e saiu livre pelo crânio fendido Ferido de morte, tombou a meu lado

Olhei-o e apercebi-me do desvalor da vida humana Apercebi-me dessa existência parca e tão mundana Se lhe tivesse sido dado a escolher no seu país teria decerto ficado Após muita rajada de lado a lado


Cessa por fim a agressividade da munição Ainda perdido neste mundo , estou alheado Alheado desta rotina, perdido por todas as agressões Que trilham a sua marca não só nos cérebros, mas nos corações

Hora de levantar, hora de agrupar Hora de pegar nos inanimados Minuto para chorar, hora para lamentar O futuro está aí para mim, mas não para os camaradas enterrados

O meu grande dia haverá de chegar A esperança mantém-me com moral e motivação Mato para sobreviver, que tão banal se tornou matar Haverá de chegar o dia que me apaga o cérebro e acende o coração

Mãe para ti voltarei As saudades são mais que muitas, ainda que apagadas É a única defesa que sei Para que possa continuar a deixar pegadas


Não voltes para trás Em frente é o caminho Traça nele o teu objetivo Pensa-o com carinho E sente-te feliz por estares vivo

Faz da desilusão um ponto de partida Transforma a falta de dinâmica em energia Caminha como se fosse o último dia da tua vida Não te deixes dominar pela triste apatia

Deixa de lado o coração Ignora agora o passado recente Pensa com a razão Não deixes que o sentimento invada a mente

Suporta as amarguras com a força do querer Faz das dificuldades lições a aprender Não te deixes raptar pelo abatimento Transforma cada pequena derrota, num grande momento


Se caíres, levanta-te e continua a caminhada Prossegue, rumo ao desconhecido tão ansiado Pois nesta vida tão amada Não pode haver lugar para o coração lamentado

Um dia, logo ao nascer do sol Irás aperceber-te que chegaste ao teu destino Vais felicitar-te por não teres uma alma mole Por teres um espírito forte o bastante, quase divino

Goza agora a vitória da chegada Goza a glória de teres vencido a provação tão odiada Um feito apenas ao alcance de um espírito sagaz Por isso te pedi que nunca voltasses para trás


Assim foste Fiquei solitário, apenas com o meu coração A lágrima teimosa traça o seu caminho na face sofrida Tive uma história contigo , uma história de vida Uma daquelas histórias que se tornam belas, sem senão

Num dia cheio de sol, cheio de alegria Em que se escrevem belas páginas no livro da vida Ansiava ver-te, tocar-te pois há muito não te via O meu espírito precisa de ti, como o meu estômago precisa de comida

Esperei por ti, como sempre fazia Não vieste, mais uma vez faltaste Transformou-se em tempestade a outrora acalmia Fez-me questionar se alguma vez me amaste Procuro e não te encontro em lado nenhum Sei onde estás, mas o teu espírito está distante, desaparecido Achei que para ti fosse eu, e não apenas qualquer um Estou triste de espírito dorido


Nesse dia soalheiro, brilhante à visão Planeei tudo e tanto, mas algo esqueci Os nossos objetivos , agora separados, estavam em colisão Ainda com renitência a verdade eu percebi

Não há mais história, nem mais páginas para escrever A tristeza inunda o meu espírito, e sofre o meu coração Sem ti na minha vida, não sei o que fazer Tínhamos amor, eu achava que sim, quando afinal era não

Por este novo caminho sigo, triste e dorido Abatido com espírito fraturado Não levanto o olhar, não alcanço o horizonte Recordo os dias de tanta entrega, e tanto momento amado Tanto momento querido e tão docemente vivido

Com certeza melhores dias viverei Apesar da dor imensa que me invade o coração E do sentimento de vazio e destruição Para mim digo...Sofro agora, mas outra vez sonharei


Lá dizia o poeta... O sonho comanda a vida A minha haverá de ser outra vez sonhada Haverei de viver doces momentos, como no conto de fada Haverei de ser eu e esquecer esta fase sofrida

Com isto ficará a recordação de cada doce momento Permanecerá a força interior que me permite viver A força que me permite olhar cada dia como outra história a escrever Como uma nova esperança que me dará o necessário alento Por agora vou Penso, sinto e sou sofrido Estou triste, mas derrotado não sou Tenho espírito forte, apesar de coração sofrido


No silêncio da noite No silêncio da noite, escuto o meu coração Sinto o meu pensamento, a lembrança a fluir na mente O silêncio é de ouro, permite o conforto da recordação A manifestação do ser que pensa, do ser que sente

A lembrança de tempos passados Invade-me o cérebro, e apunhala-me o ser Tempo há muito perdidos, e agora tão ansiados Ficaram para trás na vida, sei que não mais os vou viver

É na madrugada que gosto de viver O sossego próprio desta altura deixa-me sofrer Os grandes espíritos sofrem no silêncio das madrugadas Viver o sofrimento faz-me crescer, recordando pessoas amadas

A recordação é árdua, assim como a tortura A lágrima cai, esvaziando o meu coração Que fiz para sofrer tal amargura Como vivi, para tal provação


Ser Solitário Estou sozinho, penso apenas para mim Penso palavras soltas, falo apenas comigo Não tenho expressão para ninguém, que tristeza estar assim Falo para mim, pergunto e dialogo mas sem qualquer amigo

Os dias aparecem, as noites intercalam Espalham o seu silêncio e o seu véu A escuridão e a solidão mais alto falam Quem me dera chegar ao céu

Por cá nada de diferente há para esperar Dias e noites … todos são iguais Não há estímulo, nem novidade para estimular Há dias que parece que não vou mesmo aguentar mais

Tanta solidão, absurda e sem sentido No banco do jardim, olho os outros e a sua vivência Recordo nela a minha própria num passado há muito ido Apercebo-me que os anos não têm comigo nenhuma complacência


As memórias atacam, invadem o meu consciente O olho derrama a lágrima do sofrimento São a pesada herança de um coração que sente De um espírito que sofre a cada momento

De muitos momentos no dia, nasce a amargura Vivo na ilusão da diferença do dia seguinte A realidade atinge- me finalmente de forma dura Magoa-me com malvadeza e requinte Procuro refúgio, o porto de abrigo Ando … corro na vã esperança de o encontrar Estou cansado de tanto correr, não sei se consigo Nesse refúgio me abrigar

Acordo para a vida, a mesma do costume Com a sua tristeza, o seu tédio avassalador Que o meu espírito abarca outra vez, sem queixume Oh que vida … com o seu ódio aniquilador


A rotina esgota-me a energia do pensamento Esgota-me a energia de um espírito sempre irrequieto Nesta dolorosa mesmice a todo o momento Esta vida rotineira … incapaz do mais pequeno afeto

Termino por agora, vou alimentar as memórias Pois parece-me que nada me resta, a não ser a recordação As suas marcas mais indeléveis e notórias Tudo que me alimenta o cérebro e mantém a solidão


A nota musical A nota ressoa pelo ar, viaja até ao meu ouvido Solta – me a recordação, solta – me o sofrimento Que histórias ficaram por contar, que palavras invadem o momento Onde estive, onde fui por onde andei e o que terei vivido

As notas de piano entram- me na alma Como uma lâmina afiada e gélida penetra no meu ser Sinto a recordação a mirar-me, sem calma Que triste estou, sem objetivo para conviver

Que luta travo, o sorriso apaga a sua intensidade A colcheia solitária que me atinge como munição Que mal terei feito para sentir tamanha crueldade Que abre o armazém das recordações, e me faz sofrer o coração

O toque tão outrora tão querido e agora tão odiado O olhar outrora tão cheio de significado, agora tão indiferente O desejo outrora tão intenso, agora tão mal amado A vida outrora tão ansiada, agora tão temente


A teimosa colcheia desapareceu no ar O ouvido captou-a, o cérebro soltou a recordação Senti a pele, como couro, a endurecer e a arrepiar O olho fechou, o sofrimento tomou conta do coração

Uma nota, uma simples nota musical Desencadeia um mar de momentos vividos Recordo os doces com saudade, com mágoa os sofridos Que nota essa … causa sofrimento apesar do som angelical Chopin é meu companheiro de solidão As notas arrancadas do piano por este senhor Perduram no tempo, sem perder esplendor Chocalham o cérebro por vivências, e fazem tremer o coração

Quem sou? Como estou? Hoje assim, amanhã diferente Resumo o momento, sabendo como vou Não sei como, mas irei porque o meu coração sente A chuva divina anuncia a sua chegada Com ela as tropelias próprias de outros dias passados Que aventura...que vida tão mal amada Pobre em doces momentos, rica em pecados


A vida lá fora Deitado, ouço na rua o rebuliço de outras vidas Refugio-me na única parte do meu corpo que me deixa mexer Aprisionado pela minha mente e pelas suas partidas Tenho apenas o pensamento e as recordações para viver

Vidas tão vivas e ocupadas Que inveja eu tenho de não poder ser uma delas Momentos e vivências outrora tão amadas Tornam-se agora em dores que nada têm de belas

Os dias para mim são todos iguais Apenas o meu pensamento faz a diferença É dor e sofrimento demais Noite e dia, a melancolia assalta-me sem licença


Em tempos vivi, fiz e amei Conheci a experiência e tive movimento Tantas experiências vivi e tanto sítio por onde andei Agora nada posso, nada faço e sofro a todo o momento

A enfermidade apanhou-me Movo a mente, é tudo o que tenho restante Apenas o meu corpo vive, a moléstia matou-me Aqui estou neste viver agonizante

Uma buzina lá fora, traz-me inúmeras lembranças Um grito, um assobio, um ruído de motor Assaltam-me com as minhas passadas andanças Onde estive, o que fiz o que aspirei com tal amor

A janela do quarto é a minha amiga mais chegada Qualquer som que chegue lá de fora é meu parente Por vezes a brisa invade o meu espaço, como se fosse nortada Esfria-me o corpo inerte, mas aquece a minha mente


Por vezes imagino que saio janela fora Abro os braços e espanto-me porque consigo voar Pairo pelas cabeças na rua, mas a minha alma chora Pois sei bem que nem tão pouco consigo andar

Um olhar, um pensamento é tudo o que posso desejar O meu sonho é andar, correr por um campo ou por uma avenida Sonho viver, sonho ter e sonho amar O sonho não tem limites, mas para mim tenho os limites desta vida O sono está a chegar, sorrateiro até ao momento O pensamento está lento, o olho vai fechar Despeço-me por agora, que a noite me traga alento Me traga esperança, porque amanhã vou de novo acordar


O diagnóstico Olho para o horizonte, procurando explicação Penso, sinto e choro de tristeza A recordação de felicidade invade-me o pensamento Chora o cérebro, chora o coração

Tal infortúnio atingiu-me com dureza De hoje em diante conta a hora, o segundo, o momento Estou ciente da luta que tenho de travar Soldado sou, e humano também Um plano de batalha vou traçar A esse plano me vou agarrar

Pergunto o porquê, mas estou sempre sem resposta Sei apenas do longo caminho que tenho a percorrer Lanço os dados, faço a aposta Este infortúnio irei derrotar, não me irá vencer


Os químicos que me vão tratar Toldam-me a destreza, e nublam o meu pensamento Um sacrifício não merecido, um sofrer a todo o momento Mas sempre com a esperança de a maleita curar

O caminho é árduo e feito com dificuldade A lágrima cai na face, embalada pela lembrança Oh que vida, que saudosa liberdade Que pouca sorte a minha ter que viver esta herança

Estou numa batalha, e vencerei Sou um guerreiro, combato com a certeza de vitória A realidade da doença trucida-me, mas derrotado não serei Chegará o dia da cura, e da tão merecida glória


Batalhas... Oh que vida esta, que dias tão marcantes Momentos taciturnos, que se transformam em dias de tristeza Dói a alma, nunca me senti assim antes Ainda assim espírito forte e decidido mantém a alma coesa

São demasiados dias nos quais me sinto entristecido Umas vezes com razão, outras nem tanto Exausto-me pensando, fico de espírito exaurido A tristeza estende o seu enorme manto

Este manto que me cobre, e me aperta Quanto mais tento a liberdade, mais preso estou Sinto a chegar a desilusão certa Não sei como estarei, mas sei como estou

A amargura chega, diz-me olá Como se fosse a doce morte a dar o seu cumprimento Recuso-me olhá-la, finjo que não está cá Ela fita-me e rouba-me cada momento


A força de espírito não lhe deixa opção O espírito luta e diz-me que consigo vencer O fervor da luta chega ao coração Luto com a motivação e como se fosse o último dia do meu ser

Liberto-me, rasgo o inexpugnável manto Quem comanda o meu destino sou eu À morte e à tristeza consigo calar-lhes o canto Eu traço o caminho, traço o destino que é só meu Por hoje, uma vez mais, combati Batalha após batalha, vou ganhando a guerra Um dia direi que esta guerra eu finalmente venci Assim a tristeza não mais me ferra

A recordação é sempre o gatilho O gatilho da memória passada Que me traz momentos de uma vida tão amada Mas que representa um entrave, um empecilho


Cansaço da vida Não posso mais continuar, estou saturado, estou farto Não sei que se passa, estou exausto,estou cansado Estou tão perdido que não sei se fico, se parto Nunca assim me senti, nunca me senti em tão mau estado

Olho, observo os dias, e de seguida as madrugadas Sinto o tenebroso frio, que invade o meu interior Penso nas estratégias tão mal estruturadas Não são as de outrora nem os pensamentos com o mesmo fervor

Quando era criança, não havia preocupação Apenas os dias se sucediam, era a brincadeira que imperava Eram os amigos que persistiam, era a amizade que perdurava Eram...


Amor Amor,que palavra essa com tão ambíguo sentido Sentido esse que pode ser num dado momento Base de sonhos e ilusões Ou,por outro lado,o incompreendido sofrimento

O Amor é então um prazer Escondendo a sua face verdadeira Mantendo tudo como um maravilhoso conto a viver

Surge então um agradável isolamento Até que tudo se desvanece e prevalece então a sua face real Transforma agora o agradável num cruel momento Momento esse o mais longo, sem saber se para bem ou para mal

O Amor é transformado em sofrimento É difícil acreditar que o outrora agradável


Fonte de ilusório prazer Se mute agora na realidade mais abominável Que a palavra Amor pode trazer

Mas contudo nem tudo está perdido Pois na mente estão recordações Do belo prazer antes sentido E de agora desfeitas ilusões

Escreveu há muito um célebre poeta português Que Amor é fogo que arde sem se ver Pois mil e uma razões tinha ele para fazer o que fez Passava por grande sofrimento em vez de um pequeno prazer

Todavia guardava na sua mente A impulsão que o fez escrever Escrever para que a posterioridade pudesse compreender Que também sente


Essas recordações que ficam depois da magia acabada Do momento apagado e do fogo extinto Esta é das formas de Amor mais odiada É das formas de fogo menos amada


Quem sou? Sou eu, ser único, especial e só Só no mundo de ideias, no mundo ideológico Só na mente, determinado e perdido no ontológico Perdido no triste fado, na tristeza de estar e ser só

Sou brisa, sou tufão Sou noite, sou dia Vento forte sopra no meu coração Como há muito não sentia Sou presente, sou recordação Sou raciocínio, sou pensamento Sou ser, pessoa, indivíduo a cada momento Sou cérebro e poucas vezes coração


Sou proteção, sou abrigo Um porto no mundo perdido Sou fera, mas sou amigo Sou acontecimento por acontecer, e acontecido

Sou a revolta, sou a paz Sou a determinação capaz Sou a procura, sou a resposta, serei a certeza ? Sou destino que assumo com clareza

A clareza tão ansiada A clareza que procura a resposta final Que procura tão inglória, que tristeza tão amada Tanta demanda, nenhum sinal Sou ansiedade, sou procura, sou demanda Pela certeza de um pensamento, pela certeza de ser A curiosidade talha o espírito, o sofrimento manda Que a minha alma não esqueça nunca que estou a sofrer


Sou alegre, sou triste Sou o que sou, disfarçado de sorriso Com uma gargalhada em riste O meu espirito afirma um doce riso

Sou e continuarei a ser Produto de uma fisiologia cerebral própria, muito minha Sou eu, e serei eu … Sempre a questionar, sempre a doer Tanta demanda transforma a minha vida em “vidinha”

Sou agora, e vou embora Termino por ora a mensagem Parto triste sem demora Como tantos espíritos solitários fazem


A revolta do mar O mar está revolto. Assim tem estado Não há que o acalme, não há quem o amanse No vai-e-vem da chuva e das ondas Fecha o ciclo que o alimenta, deixando-nos em transe As ondas rebelam-se, entoando o seu fado

Viv´lma se vê na torrente

Lembrando Camões e o choro do seu mar Imaginando as doces sereias de outrora Enfeitiçaram homens e naus inteiras com o seu uivar Durante dias e noites fora


O mar revolto continua O que terá incomodado tanto Guarda em si tal poder que causa espanto Se calhar aloja alguma deusa seminua

Dessas que seduziram os nossos bravos navegadores Lendas de há 500 anos, que chegaram até ao presente O mar é rico em histórias e amores Enaltecendo o que o coração sente

Tal como há séculos idos Hoje também o mar está revoltado Hoje, tal como na altura, o mar continua a ser amado Guarda em si muitos homens caídos


Tristes daqueles que não podem contemplar o mar Infelizes serão por apenas poderem imaginá-lo Jamais saberão a que sabe um punhado de água salgada Jamais poderão apreciar quando o mar se elevar Jamais perceberão o que é sentirmo-nos pequeninos Diante do monstro o qual apenas podemos contemplá-lo

Um misto de respeito, amor e admiração É assim o mar em toda a sua realidade Quem nele faz a vida, trá-lo no coração Faz por ter com o mar uma cumplicidade O mar é assim Cada gota, cada história Cada onda, cada dedicatória Cada incómodo, cada revolta Cada desassossego, cada reviravolta


Sombras de mim A penumbra é atraente É com ela que me confundo O seu anonimato funciona-me a mente Nela projeto as sombras do meu mundo As sombras que ensombram Passo a intencional redundância São as sombras que me soltam Que me acalmam a ânsia

São as sombras de mim

Sempre comigo estiveram No meu íntimo escondido Por mim sempre fizeram Sempre partilharam este meu mundo sofrido


Estas sombras sou eu O que penso, o que raciocino, o que sou Pois neste mundo só meu Estas sombras são o mundo onde estou

São as sombras de mim Fazem-me pensar Deixam-me amar Permitem que acorde Do torpor enfeitiçante Esse torpor errante Que trinca tanto que morde As sombras são a minha riqueza Eles são eu, e eu sou elas No meu ser são a nobreza Que por vezes me encerra nas celas São as sombras de mim


Ser poeta é… Ser escrivão do sentimento Escrever para que mais tarde alguém possa compreender Ser poeta é ser desconhecedor do momento Em que tem de se parar de escrever

Ser poeta é descrever o interior Que pode ser sinónimo de regozijo ou sofrimento Próprios de um presente sentimento Que pode ser ódio, rancor ou até Amor

Contudo ser poeta é ser mais que isto É fazer extensas ou curtas escrituras Nas quais o pensamento pode estar confuso, misto Por estar a expressar alegrias ou amarguras


Próprias de um efémero sentir Que anseia ser exposto Estando o poeta a escrever ou a dormir Esse sentimento é-lhe impresso no rosto

Ser poeta é personalizar a poesia É ter esperança de que esta possa ser compreendida Ser então a melhor via a ser seguida Ser poeta é entender poesias outrora escritas É decifrar o sentimento nelas incluído É perceber prosas nunca antes vistas É perceber o invisível que lá está escondido

Ser poeta é ter um enérgico despertar É a recordação do que sentiu É o desejo de ativamente expressar O sentimento que o assaltou enquanto dormiu Pega então na caneta e no papel


Escreve...escreve até onde alcança a recordação A imaginação não chega;parece até nem haver suficiente papel Para o auto-proclamado escrivão

Que não notando o tempo passar Escreve para que alguém possa entender. Chega então ao fim o recordar Com este o início de um brusco adormecer

Ser poeta é descrever um sonho Que não é mais que uma via Onde se esconde um sentimento que pode ou não ser medonho Por conseguinte,recorre o poeta à poesia


Poesia que pode ter sentidos diversos Que estão à interpretação de quem quer perceber Sentimentos na mente do poeta há muito submersos Que,provavelmente,nunca ninguém chegará a entender Então tudo se repete... O sentimento,o entendimento que nunca é certo Idealizando-se diversas visões,mas por cada erro que se comete Fica-se mais longe,e portanto jamais perto!

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(PAA) Sombras de Mim  

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