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FOTO: CARLA GUEDES

CAPA: BRENDA CRUZ

EDIÇÃO 1 - 2018

ASSÉDIO

ENFRENTAMENTO E TECNOLOGIA: UNIDOS PARA TRANSFORMAR


EDIÇÃO 2018

Agradecimentos Prof° Elisangela Sandes pelas dicas valiosas Prof° Luciana Silveira por nos orientar com amor Prófº Adriana Jacob por todas as colaborações Prof° Luciana Sena pelo incentivo e apoio Colégio Estadual Odorico Tavares pela confiança Rita batista por tantas palavras de força e amor Unijorge por nos fazer ir mais longe do que imaginamos E para todos aqueles que acreditaram em nosso trabalho BRENDA CRUZ CARLA GUEDES CAMILA L’ABBATE POLLYANA MORAES SARA NOVAES VERENA PITA


APRESENTAÇÃO: Começamos a agir como mídia independente e produtores de conteúdos relacionados a raça e gênero no período de 2017.1, nossa escolha de plataforma virtual incialmente foi o Instagram, de ig @mamilosprateadoss e permanecemos ativas nessa rede. Após os primeiros seis meses de criação junto a adaptação dos cronogramas do projeto, realizamos nossa primeira roda de conversa na qual os temas abordados foram direcionados a PEC 181 e saúde da mulher negra. Com isso, tivemos uma experiência tão enriquecedora que resolvemos agregar mais ações e dessa forma nos tornamos um coletivo.


QUEM SOMOS

Brenda Cruz, tem 20 anos, é estudante de jornalismo, bissexual e ativista, produz seus debates com recorte racial e de gênero, é potencializadora de redes do Desabafo Social, jornalista do Sarau da Onça, integrante do Coletivo Mamilos Prateados, colaboradora do Portal Black Fem e do Ashismos, produtora cultural, pesquisadora e atualmente estagiária de marketing. Faz parte da equipe responsável por produzir todos os conteúdos com recorte racial no MP, atua nas estratégias de marketing e como social media dominando nossas redes sociais.

Camila L’abatte, tem 23 anos, mulher, mãe de enzo, estudante de jornalismo, forte e decidida. acredita que juntas somos mais fortes e faz disso seu modo de vida.

Carla Guedes tem 32 anos, é rofessora de educação física, estudante de jornalismo e encontrou nas pautas feminstas suporte para enfrentar o mundo.

Pollyana Moraes é estudante de Jornalismo, ativista ta no Movimento Feminista, Mulher Lésbica, Modelo

no Movimento LGBTQ+, ativisFotográfica, Atriz e Palestrante.

Sarah é estudante de jornalismo da Unijorge, terceiro semestre. Faz parte do coletivo Mamilos Prateados desde o seu fundamento, em março de 2017. Mulher, feminista e militante, Sarah revela algumas palavras sobre suas lutas internas e externas: “Ser feminista me levou aos extremos. O feminismo me colocou diante de duas mulheres totalmente opostas, mas que juntas são o que eu sou. Ser feminista dói, machuca, escorre sangue. Doeu cortar todas as cordas que me mantinham presas a essa sociedade doentia, doeu arrancar todos os ideais e estereótipos que cresceram junto comigo, foi um processo longo, doloroso e que eu ainda estou em estágio de construção, mas, esse mesmo feminismo me dá todos os dias forças para continuar lutando para me tornar a mulher que já sou. E aquela que ainda pretendo ser.” Disse.

Verena Pita é estudante de jornalismo da Unijorge. É integrante do grupo Mamilos Prateados desde o seu fundamento, em março de 2017. Desde sua juventude, tem consciência da rotina sofrida por nós, mulheres. Mas no ensino médio, conheceu de fato o feminismo. “Passei a questionar posicionamentos de colegas que no decorrer do tempo, me incomodavam cada vez mais. Queria falar sobre os nossos direitos, queria ser respeitada e ao perceber que queriam tirar isso de mim, meus direitos básicos como cidadã, me vi tão ferida quantos as outras. E isso me deu força para lutar.” Conta.


SUMÁRIO

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Foto Divulgação

PINGUE PONGUE

“Com mulheres pretas, eles se sentem mais à vontade. Não sei se por uma questão de identificação racial, até porque são homens pretos também. Ou porque é a carne mais barata do mercado”


RAÇA E RITA

Porque ou você não ficou constrangida ou não olhou pra baixo. Eu sou de encarar, olhar no olho do sujeito e falar “Você não vai encarar, velho! Se saia. Se respeite! Me respeite! Qual é a sua? Tá maluco?!”

Matéria: Brenda Cruz

Que

o assédio é uma das violências que mais atingem as mulheres no Brasil todo mundo já sabe. Mas, você sabia que as mulheres pretas e/ou pardas são as mais atingidas? Além de serem bombardeadas pelo racismo, o sexismo e o assédio também estão presentes em todos os espaços as quais estão inseridas. No contexto histórico-social e escravagista do Brasil, mulheres negras sempre tiveram seus corpos hipersexualizados e objetificados dando margem para dados alarmantes de assédio, feminicídio e violências. E apresentando essa reflexão, batemos um papo com a jornalista, apresentadora, mulher negra, mãe e de luta, Rita Batista, que nos presenteou com uma entrevista em que aponta vivências, trabalho e o assédio através da sua perspectiva enquanto mulher negra. Se você diz alguma coisa, você é grossa ou você é xingada. Aquilo que parecia um elogio, uma lisonjeia, vira uma agressão, real. Com palavras, ferinas. Porque ou você não ficou constrangida ou não olhou pra baixo. Eu sou de encarar, olhar no olho do sujeito e falar “Você não vai encarar, velho! Se saia. Se respeite! Me respeite! Qual é a sua? Tá maluco?!”

Mamilos Prateados: Diante do contexto atual brasileiro, qual a sua leitura sobre a questão do assédio? Há caminhos possíveis para combatê-lo? Rita Batista: Há caminhos para combater o assédio. Eu sou a favor da pedagogia do constrangimento. Acho que o assediador, antes de tudo, não aguarda uma resposta, nem uma atitude de repressão a aquilo que ele tem feito. Ele se vale de um status quo do machismo, da heteronormatividade, dos pilares que sempre foram reproduzidos na nossa sociedade racista, sexista e misógina, de que mulher é propriedade, de que a mulher é um negócio, de que eles podem fazer absolutamente tudo, porque estão amparados em uma tranquilidade social para esse feitos. Então, eu acho mesmo, que cabe a nós assediadas, fazer valer o respeito e as nossas vontades, nas mínimas coisas, porque a pessoa pode dizer “ah, é brincadeira…”, inclusive, mulheres, né? Nos dizendo “ah, é brincadeira.. não deve

ser assim” DEVE SER ASSIM, SIM! “ Mamilos Prateados: Enquanto mulher negra, você sente que o peso ou a abordagem do assédio acontece de uma forma diferente? Rita Batista: Claro. Com as mulheres negras é bem pior. Cito sempre um exemplo. Eu faço atividade física em uma academia no final do Corredor da Vitória e quando tenho tempo, vou andando, até pra dar uma aquecida e etc. E não é porque eu sou a mais gostosa, a mais bonita, a que chama mais atenção. Os porteiros e seguranças, desses prédios entre Vitória, Graça e etc, pelo menos um deles, olha, fala, assobia, ou aponta. Se faz presente da cantada de mal gosto, que não é cantada, a gente sabe. É assédio. E se você diz qualquer coisa, porque eu sou de falar “Bom dia!” “Boa tarde!” “Tudo bem?”, partindo pra pedagogia do constrangimento real. Se você diz alguma coisa ou você é grossa ou você é xingada. Com mulheres pretas, eles se sentem mais à vontade. Não sei se por uma questão de identificação racial, até porque são homens pretos também, ou porque é “a carne mais barata do mercado”, né? Pois eu duvido que eles façam isso com as filhas dos patrões, com as mulheres dos patrões ou com aquelas que o fenótipo de assemelhem, ou aproximem, de quem seria dominante. Mamilos Prateados: Você já passou por alguma situação de assédio que te marcou? Poderia nos contar? Rita Batista: Por algumas situações de assédio, algumas. Mas a que eu vou contar, é uma na portaria de um prédio desses. O cara fez “psiu” várias vezes, passava, ia, voltava e teve um dia que eu parei e larguei “Qual é a sua, velho? Você acha mesmo, que você vai me comer assim? Você tá maluco? Você não tá entendendo, não?” ele começou “Ah…”, interrompi “Não! Eu quero falar com o síndico, com o administrador deste prédio” (risos) “Dei uma de louca mesmo, fiz escândalo!” E outra coisa. Você só é reconhecida e respeitada, se você for legitimada por outro macho, né? É impressionante isso. Lembro que meu namorado naquela época disse “Vou passar lá com você.”, eu disse “Não! Vou passar lá sozinha.” Passei sozinha mesmo, dei escândalo e pronto. Se você diz alguma coisa, você é grossa ou você é xingada. Aquilo que parecia um elogio, uma lisonjeia, vira uma agressão, real. Com palavras, ferinas.

“Ah, fica problematizando tudo”, eu sou a rainha de problematizar tudo, problematizo mesmo! Claro que a gente não vai ficar procurando chifre em cabeça de cavalo, mas pra mim, a máxima, é “fala mas não pega, fala mas não toca” e a depender do que fala? Cala a boca.”

Mamilos Prateados: Enquanto profissional de comunicação, dentro do mercado de trabalho, você já foi vítima de assédio? De patrões, colaboradores ou fontes? Rita Batista: Você sabe que no mercado de trabalho há. É óbvio e evidente que acontece, em maior ou menor intensidade. Mas as pessoas me conhecem, eu não sou de meter medo, mas eu sou de assustar, porque eu sou muito bocuda, enquanto todo mundo fala baixo, eu falo alto e eu largo mesmo “Não vai me comer não, querido. Se você tá condicionando a minha estadia no seu trabalho a qualquer tipo de relação, vai ficar com sua fantasia aí. Fique com sua fantasia. Material para suas masturbações futuras.” Mamilos Prateados: Como mãe de um menino, quais os caminhos que você entende como potencial para a educação dele em relação ao machismo, assédio e todas as opressões vindo de um homem? Rita Batista: Mãe de menino tem super responsabilidade. De criar homens mais simpáticos aos nossos casos e aos nossos problemas, homens respeitosos, que entendam. E não ficar se gabando do menino que pega, que faz e acontece.. Eu vejo muitas mulheres que quando se tornam mães, acham isso maravilhoso e se eximem da responsabilidade, dizendo “Ainda bem que eu sou mãe de menino e não tenho que passar por isso ou aquilo”, como se fosse mais fácil porque não é uma mãe de menina e tem que se preocupar com essas questões. Não! A gente tem que se preocupar muito mais, para que não tenhamos em casa pequenos abusadores, que se tornam grandes, né? Homens que não respeitam a condição feminina, ou melhor, a condição humana.

“Você só é reconhecida e respeitada, se você for legitimada por outro macho, né? É impressionante isso.”


Carla Guedes

CAPA

A INSERÇÃO DAS NOVAS TECNOLOGIAS NA LUTA CONTRA O ASSÉDIO Cansadas das diversas abordagens vividas, mulheres encontram na tecnologia formas de se proteger e apoiar a quem precisa. Matéria: Carla Guedes

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o Brasil, 42% das mulheres de 16 anos ou mais, já sofreram assédio sexual, em transportes públicos, na rua, em suas casas ou até mesmo no trabalho. Este número por si só já é extremamente assustador, pensar na margem de erro diante dos casos não denunciados e da falta de entendimento sobre o tema traz um peso ainda maior. E infelizmente os dados alarmantes não acabam por aí. Segundo pesquisa Datafolha reali-

zada nos dias 29 e 30 de novembro de 2017, uma em cada três mulheres já foram sexualmente assediadas nas ruas do Brasil, sendo Centro-Oeste e Sudeste as regiões com maiores incidências registradas e mulheres negras ou pardas aquelas que mais sofrem com os abusos. Quando se trata dos lugares com maiores ocorrências de assédio, as ruas levam o maior percentual, sendo indicada por 29% das mulheres, seguido pelos transportes públicos, apontado por 22%.

Uma das grandes lutas das mulheres está justamente no enfrentamento a “cultura do assédio” e a banalização dessa violência. São protestos e iniciativas como a do coletivo Think Olga e a hashtag #primeiroassedio que tomou conta da internet, mobilizando 82 mil menções e depoimentos chocantes, após a polêmica envolvendo um reality show de culinária infantil e um caso de assédio nas rede sociais, assim como o manifesto criado por diversas atrizes de Hollywood, de-


Novas tecnologias Diversas formas de enfrentamento que estão sendo criadas com o suporte das novas tecnologias, principalmente por mulheres que já sofreram este tipo de violência, é o caso da paulistana Catharina Doria (20) que aos 16 anos, após ser assediada por um homem de 60 anos na Av. Paulista, criou o aplicativo, Sai pra Lá lançado em São Paulo no ano de 2015 e que hoje cobre todo o Brasil. O aplicativo foi feito em parceria de dois amigos e tem como objetivo mapear casos de assédio sexual que ocorrem diariamente no país e propor ações de modificação nos espaços com maior taxa de registros. Este mapeamento acontece através das vítimas que informam no aplicativo o local, a data e o tipo de assédio sofrido gerando um banco de dados. Também vítima de um assédio, dentro de um carro chamado por um aplicativo, Gabriela Correa criou o aplicativo Lady Driver que tem como principal característica ser um serviço feito por mulheres e para mulheres. Os meios de transporte, incluindo nesta conta os carros acionados por aplicativo, estão entre os lugares mais citados quando se trata de assédio sexual no Brasil e foi pensando neste sentido que o Lady Driver nasceu sendo um aplicativo com motoristas mulheres que atendem a passageiras mulheres. Lançado em 2017, no dia da mulher, o aplicativo atende a mulheres da grande São Paulo, Guarulhos e a dois meses chegou no Rio de Janeiro, funcionando como outros aplicativos de viagens curtas. As mulheres baixam o Lady Driver disponível para Android e IOS, cadastram seus dados pessoais e forma de pagamento e em seguida já podem solicitar uma motorista.

Pedidos de Socorro A tecnologia dos aplicativos vêm sendo usadas também para atender de forma emergencial mulheres em situação de assédio e perigo iminente. Este é o objetivo do aplicativo NINA, idealizado por Simony César e Lahís Rodrigues, que tem expectativa de ser lançado ainda este ano. Este aplicativo trabalha como um botão do pânico para ajudar mulheres assediadas em transportes públicos, uma vez acionado, o botão emitirá um sinal de alerta para os contatos cadastrados pela vítima com localização, linha de ônibus, hora e o tipo de assédio sofrido. O objetivo do N!NA é atuar emergencialmente, ativando pessoas próximas à vítima, e preventivamente, ao

fornecer dados estatístico. O aplicativo foi selecionado pelo programa de inovação social mais recente da Red Bull Amaphiko e seu nome faz referência a cantora feminista Nina Simone. Também com o objetivo de ajuda imediata outro aplicativo vem ganhando espaço entre as mulheres. Lançado a um ano em João Pessoa (PB), a plataforma ELAS foi desenvolvido pela Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, está disponível para Android e pode ser baixado gratuitamente. Para fazer o cadastro a mulher fornece seus dados e o nome de até 5 pessoas de sua confiança que receberam um alerta por SMS caso o apli-

cativo seja acionado. A idéia é que a mulher que se sentir em perigo nas ruas possa chamar alguém de confiança de forma rápida e segura. Não é necessário estar conectado a internet para usar o aplicativo, porém é preciso ter créditos para o envio do SMS. Abraçar novas tecnologias tem sido um grande avanço no enfrentamento do assédio e as mulheres não estão poupando idéias. Ações como essas fortalecem e abrangem cada vez mais o entendimento e as denúncias sobre a temática, de forma que propostas de as taxas apontadas possam auxiliar nas estratégias de combate e erradicação do mesmo.

Carla Guedes

nominado de Times’Up ( “o tempo acabou” em tradução livre), assinado por mais de 300 profissionais e carrega uma plataforma digital para apoiar e guiar mulheres vítimas de assédio no trabalho, que esse movimento vem cada vez mais buscando se fortalecer.

Salvador nesse cenário de enfrentamento Apesar do crescimento da demanda por aplicativos cujo o enfoque seja o enfrentamento do assédio, os serviços dos mesmos ainda são pouco utilizados em Salvador. Nas primeiras 12 horas após o lançamento da plataforma Sai Pra Lá, 2.600 downloads foram realizados e os novos usuários relataram 300 casos de assédio, no entanto o mapeamento de nenhum deles ocorreu na capital Baiana. Em contrapartida a isso, de acordo com os dados do TRT-5 (Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região) 27.782 processos por assédio moral foram computados na Bahia em 2017, destes casos 236 são de cunho sexual. Na rede de transporte exclusivo só para mulheres a participação de usuárias soteropolitanas é discreta, o Lady Driver ainda não tem

regulamentação dentro do estado e a empresa que possui a prestabilidade mais semelhante foi aprovada a poucos dias (11/05/2018). A visibilidade e propagação desses aplicativos não é feita de modo popular, as que estão relacionadas a matérias veiculadas pela mídia massiva são a respeito de lançamentos (quando os números de adeptos são altos ou a tecnologia usada é inovadora), ademais a divulgação ocorre com mais frequência dentro de páginas virtuais sobre o movimento feminista. Por conta desses fatores a existência do conteúdo dos APPS é algo conhecido por uma parte significativa das mulheres, que são o público alvo, mas os nomes das marcas especificamente não são muito lembrados. Isso é algo que pesa negativamente quando se pesa na contribuição da tecnologia para o enfrentamento do assédio.


Carla Guedes

EDUCAÇÃO

Debate sobre assédio leva estuantes a darem depoimentos emocionados no encontro com o coletivo Mamilos Prateados. Matéria: Brenda Cruz

Em

tempos de reestruturação das grades curriculares em escolas brasileiras e suas reformas, se faz necessário pensar nas suas percepções enquanto espaços provenientes para fomentar e estruturar debates sócio educacionais, auxiliando não só na formação acadêmica, mas também no exercício da cidadania de todos aqueles que por ali passam, e em Salvador, atitudes como essas são comuns. “ Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda. ”— Paulo Freire O Colégio Estadual Odorico Tavares, localizado no Corredor da Vitória, bairro nobre da cidade, possui um extenso histórico de resistência e promoção de atividades extracurriculares voltadas a temáticas como violências contra as mulheres, racismo, feminicídio, combate à violência lgbt e entre outras, contudo, a temática da vez foi o assédio. Na semana do Museu, em parceria com o Museu Geológico da Bahia, a professora e coordenadora Luciana Sena e nós do Coletivo Mamilos Prateados, aconteceu, no dia 15 de maio de 2018, na sala de

Cinema do Museu, um cine papo sobre as estratégias e o uso da tecnologia nas novas formas de enfrentamento ao assédio, como inserir a interseccionalidade em raça e orientação sexual neste debate, e a exibição do documentário “Precisamos falar do assédio”, lançado em 21 de setembro de 2016, dirigido por Paula Sacchetta e produzido por Gustavo Rosa de Moura e Carmem Maia. Documentário que dura 1 hora e 20 minutos, reunindo 26 depoimentos dos 146 recolhidos na gravação do mesmo, sobre assédios e violências vivenciadas por mulheres de diferentes perfis, classes sociais, raças e endereços, filmados em uma van-estúdio em nove localidades diferentes da cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro, “Precisamos falar de assédio” transpassou as telas e transformou a sala do Cinema do Museu em mais um espaço de identificação e recolhimento de depoimentos impactantes. Alunas do Odorico compartilharam com todos ao seu redor os assédios sofridos e as suas estratégias de enfrentamento em relação a essas violências. “Assédio é quando um homem invade o espaço de uma mulher e desrespeita ela de qualquer forma.” - Rebeca, aluna do Odorico Tavares. A mobilização dos depoimentos não

Carla Guedes

Mamilos Prateados vai à escola “ Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda. ”— Paulo Freire partiu só das meninas, os garotos também se faziam presente, respeitando os lugares de fala e se entendendo parte desse movimento enquanto colaboradores. Depoimentos sobre situações vividas com mulheres próximas, indignações passadas dentro do ambiente escolar ou até mesmo na rua em relação ao assédio e seus próprios posicionamentos enquanto a preservação do espaço das mulheres foram apresentadas por eles, dando ainda mais intensidade a importância dessas propostas no ambiente escolar. “Eu incentivo meus colegas a respeitarem. Se eu vejo que uma menina tá desconfortável com o que eu faço, eu paro, é automático.” - Eduardo, aluno do Odorico Tavares. Enquanto juventude ativa, militante, formadora de opinião, defensora dos seus ideias, produtoras de debates, conteúdo, textões e reflexões em meio as convergências midiáticas e a internet. Nós, mulheres, meninas, homens e meninos estamos não só ocupando espaços virtuais já esperados, mas também, espaços consagrados como nossas escolas, universidades e bairros, criando uma rede mútua de troca, sobretudo, entre as mulheres, adolescentes, jovens e mais velhas, fazendo com que a criação e manutenção desses espaços atendam nossas demandas, sejam elas produzindo ações mínimas, pedagogias desenvolvidas por nós mesmas, estratégias de proteção entre si ou novas tecnologias, como aplicativos e etc. Dando vez e voz, não só a fé em um presente mais justo e igualitário, mas de muita luta, pela construção de um futuro melhor. Chegamos todas com os pés na porta para avisar, que a primavera vai ser toda feminista.


ARTE

ataque Ele estava em cima de mim Eu não queria estar ali Senti medo daquele toque Senti nojo daquele toque Fiquei surpresa com aquele toque O que estava acontecendo? Eu não sabia Ele não ia me contar Não ia falar Mas seus olhos ansiosos Estes me disseram E eu senti dor E eu senti medo Naquele momento Em mim não havia mais sentimentos Por dentro Só confusão Gritei Mas foi quase mudo Porque eu estava com medo Quase nadando na paralisia Gritei Mas foi quase mudo Porque não me socorreram Não puniram ele Não teve castigo algum Pra ele não Só teve pra mim E parece não ter fim Minha dor Muita dor Multiplicando-se a cada instante Junto aos assovios Eu gritei E foi quase mudo Porque eles não quiseram me ouvir Eu gritei E foi quase mudo Porque lá no fundo Na minha mente Eu queria calar minha própria voz Lá no fundo Tanta vergonha E eu também não quis me ouvir E é por isso Que ele continua Ele continua bem em cima de mim

Verena Pita faz parte do Coletivo Mamilos Prateados.


Revista MP - Ed 1, 2018  

Revista eletrônica produzida pelo Coletivo Mamilos Prateados, no primeiro semestre de 2018. Agradecemos a todos que colaboraram para a co...

Revista MP - Ed 1, 2018  

Revista eletrônica produzida pelo Coletivo Mamilos Prateados, no primeiro semestre de 2018. Agradecemos a todos que colaboraram para a co...

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