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LONDON EDITION February 13th - 26th 2014

COPA 2014 Belo Horizonte, a capital dos mineiros, está pronta para receber a Inglaterra pela segunda vez em Copas >> Páginas 12 e 13 Foto: Divulgação

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É PÊNALTI Entidades de proteção a crianças e adolescentes lançam campanha “It’s a Penalty”, com o objetivo de combater a exploração sexual e abuso de menores durante a Copa do Mundo >> Páginas 10 e 11

Foto: Divulação

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EM FOCO Morre cinegrafista atingido por rojão no Rio

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BRASILIANCE Democratizar a mídia é preciso

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BRASIL NO UK Casa Brasil completa 25 anos em Londres

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UK NO BRASIL David Bowie desembarca em São Paulo

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PERFIL Lúcia Fukuthi: A dama da beleza

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REPORTAGEM DE CAPA Brasil-UK contra a prostituição infantil

COPA 2014

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Especial cidades-sede: Belo Horizonte

CONECTANDO

Egberto Gismonti e muito mais...

EDITORA - CHEFE Ana Toledo ana@brasilobserver.co.uk

EDITORES Guilherme Reis guilherme@brasilobserver.co.uk Kate Rintoul kate@brasilobserver.co.uk

RELAÇÕES PÚBLICAS Roberta Schwambach roberta@brasilobserver.co.uk

COLABORADORES

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Antonio Veiga, Bruja Leal, Clarice Valente, Deise Fields, Gabriela Lobianco, Luciane Sorrino, Michael Landon, Nathália Braga, Renato Brandão, Ricardo Somera, Rômulo Seitenfus, Rosa Bittencourt, Shaun Cumming, Zazá Oliva

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PROJETO GRÁFICO & DIAGRAMAÇÃO

O beijo de Nico e Félix... e a vida real

BRASIL OBSERVER GUIDE

LONDON EDITION Feb 13th - 26th 2014

wake up colab

wakeupcolab@gmail.com

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E D I T O R I A L

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16 - 17 CAPA DO GUIA 18 GRINGO`S VIEW 19 NINETEEN EIGHTFOUR 20 - 21 TRAVEL 22 GOING OUT 23 COOL HUNTER 24 MIND & SOUL 25 FOOD

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IMPRESSÃO

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CAMINHANDO E CANTANDO EM 2014 por Ana Toledo – ana@brasilobserver.co.uk

A maioria já sabia: o ano de 2014 não seria tranquilo para o Brasil. Mas só agora começamos a perceber na pele a real abrangência desta transição de ciclo. Começamos o ano com um cenário confuso: polêmicas rondam a mídia e as redes sociais a e transformam cada semana em uma nova batalha de ideias, opiniões e visões. O Brasil ainda é uma jovem democracia e muita coisa precisa amadurecer. No entanto, como disse Geraldo Vandré em versos que não envelhecem, não podemos parar: “quem sabe faz a hora”. O resultado de nossa imaturidade é a exposição a qual nossos erros são submetidos por uma mídia carente de regulamentação e, muitas vezes, de bom senso. Leia nas páginas 4 e 5 desta edição um panorama geral do processo de democratização da mídia no Brasil. Emblemático ano para o Brasil, sou obrigada a reafirmar. Somos o país da Copa, queremos mostrar ao mundo que somos modernos. Mas, ao mesmo tempo,

DISTRIBUIÇÃO

somos o país onde crianças se prostituem. Fechar os olhos para isso seria um erro crasso, por isso destacamos nesta edição a campanha “It’s a Penalty”, que visa combater a exploração sexual de menores durante a Copa do Mundo. Seguindo nosso especial com as cidades-sede da Copa 2014, nesta edição você vai poder saber mais da preparação da capital mineira, Belo Horizonte, para o torneio – nas páginas 12 e 13. Assim como poderá saborear as atrações turísticas que BH oferece com todo o acolhimento que só o jeitinho mineiro é capaz de oferecer! Confira também, na reportagem de capa do Brasil Observer Guide, por que o carioca Egberto Gismonti é o erudito mais popular do Brasil – e por que ele está de volta a Londres para mais uma apresentação. Com mais uma edição nas ruas de Londres, esperamos que você se informe, reflita e se divirta! E não esqueça, mantenha contato através do e-mail ana@ brasilobserver.co.uk!

BRASIL OBSERVER é uma publicação quinzenal da ANAGU UK MARKETING E JORNAIS UN LIMITED (Company number: 08621487) e não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados. As pessoas que não constarem do expediente não tem autorização para falar em nome do Brasil Observer. Os conteúdos publicados neste jornal podem ser reproduzidos desde que devidamente creditados ao autor e ao Brasil Observer.

CONTATO

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EM FOCO

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O rojão do descompasso Por Guilherme Reis

Foto: Reprodução

Foto: Agência Brasil

À esquerda, cinegrafista da TV Bandeirantes sendo atingido por rojão; à direita, colegas realizam homenagem Foto: Agência Brasil

A morte de um cinegrafista da TV Bandeirantes na segunda-feira 10 de fevereiro, dias após ser atingido por um rojão durante a cobertura de um protesto no centro do Rio de Janeiro, escancarou o que há algum tempo já podia ser notado: o completo descompasso dentro das manifestações que desde junho do ano passado tomam as ruas das principais cidades do Brasil, ora em maior, ora em menor escala. Descompasso também no rito de passagem entre a insatisfação popular e a solução dos problemas pelas instituições políticas. Santiago Ilídio Andrade, de 49 anos, foi atingido por um rojão quando filmava um protesto contra o aumento das passagens de ônibus na cidade do Rio de Janeiro, dia 6 de fevereiro. Ele teve afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda. Câmeras registraram o momento em que o cinegrafista foi atingido pelo rojão (foto). Até o fechamento desta edição, uma pessoa havia sido presa: Fábio Raposo, de 22 anos, que admitiu ter pas-

sado o rojão ao homem que acendeu o artefato, indiciado por tentativa de homicídio e crime de explosão. O responsável por acionar o rojão, já identificado pela polícia como Caio Silva de Souza, 23 anos, ainda não havia sido encontrado, apesar do mandado de prisão expedido por homicídio doloso qualificado por uso de explosivo. Desde junho do ano passado, as manifestações legítimas que ocorrem no país, sejam contra os preços abusivos do transporte público ou contra os gastos e a realização da Copa do Mundo, entre outros motivos, trazem consigo o ingrediente da violência, ora por parte do aparato militar de segurança pública do Estado, a Polícia Militar, ora por parte de parcela dos manifestantes. Como se sabe, a violência por parte da polícia na repressão das primeiras manifestações de 2013 foi o estopim para que as mesmas tomassem proporções maiores – sem levar em conta a já notória insatisfação por conta de um longo histórico de truculência por

parte das polícias militares, principalmente em áreas pobres, o que remete aos tempos em que o país estava sob comando da ditadura militar. A resposta à violência do Estado se deu mais notadamente sob a figura dos Black Blocs, grupo de pessoas encapuzadas e com inspirações anarquistas que se misturam aos manifestantes ditos pacíficos e praticam atos como depredação de símbolos do capitalismo, principalmente bancos e catracas de metrô. Ao que parece, os dois responsáveis pelo disparo do rojão que matou o cinegrafista da TV Bandeirantes são membros do Black Bloc. Em um primeiro momento, as táticas desses manifestantes foram consideradas legítimas e defendidas por setores da população, pois não se comparava à violência praticada pelo Estado: afinal, o que é mais violento, o preço do transporte ou uma catraca quebrada, os assassinatos cometidos pela polícia na favela ou colchões queimados no meio da rua? O sentido desses protestos, porém, perdeu valor com o passar do

tempo, pois tais ações não levavam a uma solução efetiva dos problemas, e pior: fazia com que a polícia passasse a ter o aval para agir de maneira ainda mais truculenta e intimidadora. A morte de Santiago, portanto, é o estopim trágico de uma tática que até aqui se mostrou totalmente falida, ao promover a desconstrução sem que nada de efetivo seja construído, dividindo os manifestantes e diluindo a força de pressão legítima que os movimentos das ruas poderiam exercer sobre os governantes. Não é aceitável que, mesmo depois de quase um ano de protestos pelo país, a prefeitura do Rio de Janeiro decida aumentar o preço dos transportes coletivos da cidade – justamente o motivo que levou ao início da onda de manifestações – sem que melhorias significativas tenham sido feitas na área. Os protestos pelo país certamente irão continuar. Resta saber se o movimento das ruas será levado para o caminho da construção democrática ou do caos generalizado.


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Lei dos meios; marco regulatório, democratização ou “reforma agrária” da mídia. Estas são algumas das denominações para um tema sempre barrado nos veículos de comunicação tradicionais, hegemônicos, razão pela qual tal assunto encontre dificuldades para ecoar perante a opinião pública. No entanto, cada vez mais setores da sociedade começam a se dar conta de que, na área das comunicações sociais, algo no Brasil não funciona como deveria funcionar, não está como poderia estar ou não é como precisa ser. Fatos ocorridos nas últimas semanas despertaram nos brasileiros essa sensação, o que torna o momento fértil para discutir a questão. Os acontecimentos recentes que levaram brasileiros à reflexão vieram de dois dos mais tradicionais canais de televisão. Mesmo aqueles cidadãos menos envolvidos ou ainda não introduzidos ao tema demonstraram constatar que os veículos de comunicação não estão a agir como se espera numa sociedade democrática. E, mais que isso, de que é preciso instrumentos para fazer com que esses veículos estejam a serviço da sociedade, e não de seus interesses privados. A conclusão nem sempre é expressa com essas palavras, mas, em síntese, foi a esse ponto a que se chegou – a partir dele, é imperioso que o debate se mantenha em pauta. O mais recente desses acontecimentos se deu com o Sistema Brasileiro de Televisão, conhecido pela sigla SBT, do empresário e comunicador Sílvio Santos (que inclusive chegou a se candidatar à Presidência da República, em 1989). Na edição do dia 4 de fevereiro do Jornal do SBT, transmitido em horário nobre, a apresentadora Rachel Sheherazade, ao opinar sobre uma determinada notícia, fez evidente apologia à barbárie, ao crime. A notícia era a de um menor de idade, de 16 anos, negro, acusado de cometer furtos, que foi amarrado, nu, a um poste, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. A apresentadora deixou a sua condição de jornalista e assumiu o papel de juíza. Em seu “comentário” de pouco mais de um minuto, por duas vezes chamou o menor de idade de “marginalzinho”; defendeu o que classificou de “legítima defesa coletiva” e “contra-ataque aos bandidos” a ação dos que fizeram “justiça com as próprias mãos” ao amarrarem e exporem o adolescente na rua. Por fim, desdenhou dos defensores dos direitos humanos. Pode ser repugnante, mas é uma opinião e todo mundo tem o direito de expressá-la, muitos disseram pelas redes sociais em defesa da apresentadora. Há, porém, algo a se considerar: a jornalista utilizou, para expor apenas um ponto de vista, um canal de televisão, que deve ser “isento”, “imparcial” - ou, na impossibilidade disso, deve ser “plural”, deve ceder igual espaço ao contraditório. Além disso, um canal de televisão é uma

BRASILIANCE concessão pública. A emissora, no caso o SBT, é privada, do Sílvio Santos, contudo o espaço (espectro) que o SBT ocupa para fazer sua programação chegar aos aparelhos de televisão é público, como públicas são as ruas, avenidas, estradas, linhas de energia. É, apenas, concedido à iniciativa privada, da mesma maneira que as rodovias e a distribuição de luz são concedidas a operadoras privadas. Por essa razão, o Ministério Público Federal está sendo instado a agir. O Partido Socialismo e Liberdade (Psol) emitiu nota que prepara representação para ser ingressada no Ministério Público. “A jornalista e o SBT fizeram incitação ao crime, à tortura e ao linchamento”, argumentou o líder do Psol na Câmara dos Deputados, Ivan Valente, de São Paulo. Dois dias depois do comentário, a apresentadora procurou se retratar, utilizando o próprio Jornal do SBT. Nem se desculpou, tampouco retirou seu comentário. Apenas tentou se justificar dizendo que foi mal interpretada, que ela, Rachel, não era aquela que estavam pintando. A emissora, por sua vez, fez questão de deixar claro que a opinião emitida pela apresentadora era um posicionamento seu, particular, e não a opinião do SBT. LUIZA X MAINARDI Líder de audiência e maior conglomerado de mídia do país, a Rede Globo também está presente nessa lista de acontecimentos recentes que evidenciam a distorção nas comunicações sociais que historicamente marca o Brasil. Quem, meio que sem querer, expôs e fez os telespectadores notarem a deturpada atuação da mídia foi a empresária Luiza Trajano, dona de uma das maiores redes de lojas de móveis e eletrodomésticos do país, a Magazina Luiza. A empresária fez sucesso nas redes sociais, no final de janeiro, por deixar desconsertados os apresentadores do Manahatan Conection, programa transmitido dos Estados Unidos pela Globo News, canal pago da Rede Globo. O mais desconsertado foi o articulista Diogo Mainardi, popular entre os mais conservadores e, principalmente, entre os opositores dos governos de Lula e Dilma. O debate no Manahatan Conection era sobre economia. Durante todo o ano de 2013, a grande mídia brasileira, por meio da distorção de dados e da apresentação de análises sob o ponto de vista do neoliberalismo, espalhou na opinião pública que o Brasil vivia (vive) uma crise econômica iminente. No debate com Luiza Trajano, esse era o único ponto de vista lançado pelos apresentadores, que se esforçavam para tirar da empresária a confirmação dessa tese. O episódio fez sucesso porque Luiza não só se safou da manipulação como, de forma espontânea e simples, expôs ao telespectador a desinformação ou a total parcialidade dos apresentadores ali presentes no debate – e

DEMOCRATIZAÇÃO DA MÍDIA: PAUTA OBRIGATÓRIA PARA 2014 Episódios recentes – que expõem a falta de pluralidade das emissoras de televisão do Brasil e o desrespeito às premissas constitucionais – dão impulso à luta por um novo marco regulatório, que democratize a comunicação no país Por Wagner de Alcântara Aragão

que, por tabela, retratavam a completa falta de imparcialidade da mídia de um modo geral. Numa derradeira tentativa de acuar a dona do Magazine Luiza, Diogo Mainardi ouviu da empresária que ele dispunha de informações incompletas, desatualizadas. Luiza foi além: “te passo os dados [corretos e atualizados] por e-mail”. Constrangido, mas tentando fingir não se sentir derrotado, Mainardi tentou escapar com um “me poupe”. Luiza não poupou: dias depois, enviou o e-mail a Mainardi, segundo noticiou o portal Estadão, do jornal O Estado de São Paulo. CAMPANHA Diante do cenário de oligopólio midiático, de programação que não respeita os preceitos constitucionais – promoção da cultura nacional, de valorização das diversidades, de repúdio a qualquer tipo de discriminação – e, principalmente, diante de uma sociedade cada vez mais ciente de que algo está errado e precisa ser corrigido, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) pretende intensificar sua atuação. A campanha


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Na Secom, expectativa de mudanças

Hábitos de mídia no Brasil

/ Informações: Fundação Perseu Abramo

“Para Expressar a Liberdade – Uma Nova Lei para Um Novo Tempo” tem sua primeira plenária do ano em fevereiro com objetivo de planejar ações mais efetivas. “Durante todo o ano de 2013 a sociedade se organizou para divulgar e coletar assinaturas do projeto (Lei da Mídia Democrática) e levar o debate às ruas. Agora seguimos em luta, neste que será um ano de intensificação de batalhas. Temos de reivindicar a democratização da comunicação, inclusive, como parte das plataformas das campanhas eleitorais”, diz, em texto publicado no site oficial da iniciativa, a coordenadora nacional do FNDC, Rosane Bertotti. Segundo o FNDC, o projeto de lei de iniciativa popular batizado de “Lei da Mídia Democrática” tem alcançado “grande apoio de vários setores da sociedade e já conta com mais de 50 mil assinaturas”. O documento propõe um novo marco regulatório para os setores de rádio e televisão brasileiros. O marco atual é de 1962. Desnecessário dizer que, criado há 50 anos, o marco se encontra extraordinariamente desatualizado. “A campanha ‘Para Expressar a Liberdade’ é fruto de anos de luta da sociedade civil organizada para regulamentar a comunicação no Brasil. Ela nasceu em 2012, resultante das propostas apresentadas na I Conferência Nacional da Comunicação (Confecom), realizada em 2009. Em 2013, recebeu centenas de novos apoios de entidades de vários setores”, assinala o FNDC. POSIÇÃO DO GOVERNO Foi da Confecom, em 2009, que saíram subsídios para o governo federal preparar, em 2010, ainda no governo Lula, uma proposta de novo marco regulatório. Coordenado pelo então ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República,

Franklin Martins, o projeto foi deixado para ser aprimorado pelo governo Dilma. Todavia, permaneceu na gaveta nos últimos três anos. Nem a sucessora de Franklin Martins, a ministra Helena Chagas (que deixou o cargo em fevereiro), nem o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, demonstraram empenho em levar o projeto adiante. Pelo contrário. O próprio Paulo Bernardo, em diversas declarações à imprensa, negou qualquer intenção de viabilizar a proposta deixada por Franklin Martins. Só dias atrás, no início de fevereiro, é que o ministro das Comunicações reconheceu que o setor de radiodifusão carece de um novo marco regulatório, que contemple as inovações tecnológicas das últimas décadas. As declarações de Bernardo, no entanto, denotam preocupação primordial apenas em garantir aos atuais grupos espaço no mercado (sobretudo publicitário). Disse Paulo Bernardo, em entrevista a jornalistas, logo depois da cerimônia de transmissão do cargo de Helena Chagas ao novo titular da Secom, Thomas Traumann: “Acho que o Google está se tornando o grande monopólio da mídia. E a gente vê assim uma disputa entre teles e TVs que, provavelmente, se durar mais alguns anos, o Google vai engolir os dois”. Sobre corrigir aberrações como o oligopólio e a falta de canais públicos ou comunitários para dar voz e vez a mais segmentos da sociedade, Paulo Bernardo não tem se pronunciado.

Depois de pouco mais de três anos no cargo, a titular da Secom, que tem status de ministério, jornalista Helena Chagas, pediu demissão e deixou o posto em fevereiro. A gestão de Helena Chagas à frente da secretaria foi bastante criticada por integrantes do próprio governo, alinhados mais à esquerda, e por manifestantes do campo progressista. Sob o argumento do “critério técnico”, a gestão de Chagas beneficiou as emissoras tradicionais na distribuição de verba publicitária oficial. Só a Globo ficou com quase 44% (R$ 495,3 milhões, só em 2012) de toda a publicidade governamental feita na televisão. Não à toa a saída de Helena Chagas foi lamentada pelos veículos de comunicação tradicionais. O sucessor, o jornalista Thomas Traumann, já era porta-voz da presidenta Dilma Rousseff, desde janeiro de 2012. A expectativa é a de que o novo secretário equilibre os investimentos da Secom, voltando as ações para o jornalismo digital.

Marco Civil da Internet segue emperrado Por incontáveis vezes, desde outubro passado, o projeto de lei que institui o Marco Civil para a Internet no Brasil (PL 2126/2011) entra na pauta de votações do plenário da Câmara dos Deputados – a expectativa é a de que seja apreciado ainda em fevereiro. Ocorre que na essência do projeto – o ponto que garante a neutralidade da rede, ou seja, que proíbe a cobrança de acesso à internet por conteúdo acessado – não há consenso. O Executivo, autor da proposta, defende a manutenção da neutralidade da rede. A bancada do PMDB, sob a influência de seu líder, o deputado federal Eduardo Cunha (do Rio de Janeiro), não aceita esse ponto. A neutralidade da rede desagrada as prestadoras de serviço, hoje feito pelas operadoras de telefonia. A pedido do Executivo, o projeto de lei tramita em regime de urgência. Quando é assim, a pauta das sessões ordinárias do plenário é trancada, e só liberada quando o projeto em questão é apreciado. Até o fechamento desta edição, a Agência Câmara dava conta de que não havia consenso que pudesse levar o projeto a votação.


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BRASIL NO UK

Casa Brasil: 25 anos de história em Londres Da Redação

Perto da estação de Queensway do metrô de Londres há um cantinho especialmente brasileiro. Para os “brazucas” que moram a mais tempo na capital britânica, não precisa nem dizer – certamente já passaram por lá ou, no mínimo, já ouviram dizer. Para os recém chegados, talvez seja questão de tempo. Fato é que qualquer brasileiro com saudades da terrinha tem ali um ambiente propício para se sentir em casa. E o nome do lugar não poderia ser outro: Casa Brasil, que agora em fevereiro comemora seus 25 anos. À frente da loja, onde é possível encontrar uma ampla variedade de produtos brasileiros, está Itamara Dall Alba, que chegou a Londres há dez anos e que, por obras do acaso nem sempre tão fáceis de digerir, vestiu as cores da Casa Brasil e encarou o desafio: “Criar uma loja é como criar um bebê”, diz ela nesta entrevista ao Brasil Observer. Itamara conta também como começou a história da Casa Brasil, em 1989, quando surgiu para ser um divulgador cultural brasileiro; reflete sobre o que levou o empreendimento a completar 25 anos e aproveita para agradecer aos clientes e parceiros que estiveram junto com a Casa durante todo esse processo. Confira a seguir: Como começou a história da Casa Brasil? Começou em 1989, com o objetivo de importar produtos do Brasil, pois não havia oferta de produtos brasileiros por aqui. Mas acabou se tornando um divulgador cultural. Meu falecido marido realizava noites de sarau com literatura brasileira, e também trabalhava com turismo. Há mais ou menos 15 anos houve a mudança para Queensway, então começamos a vender produtos brasileiros. Na realidade já vendíamos, mas aqui foi criada a primeira loja física.

E como sua história cruzou com a da Casa Brasil? Cheguei à empresa por acaso. Conheci o dono, me apaixonei, casei com ele e vim para Londres para passar um tempo, pois tinha tirado licença do meu trabalho no Brasil. A ideia era ficar um período aqui e retornar ao Brasil. Mas a coisa não saiu como a gente planejou; meu marido adoeceu e faleceu não muito tempo depois, em 2005. Então eu decidi tocar a empresa por um tempo, para ver o que acontecia até eu me organizar e depois voltar para o Brasil. Nessa brincadeira já são oito anos à frente da Casa Brasil como diretora. A princípio eu decidi tocar a empresa por conta do meu marido, por uma questão emocional, pois criar uma loja é como criar um bebê, e ele que fez a Casa Brasil acontecer nos primeiros 15 anos. Qual o segredo para a Casa Brasil ter chegado aos 25 anos? São vários pontos. Um dos fatores são a credibilidade e a confiança que passamos aos clientes pelo fato de estar no mesmo lugar há 15 anos. Ou seja: se você está a 15 anos no mesmo local, você passa a sensação de estabilidade, solidez, confiabilidade. Por isso que o nosso lema é diversidade, qualidade e tradição. Não vendemos só o que os distribuidores locais oferecem, mas também importamos. Outro ponto é não desistir. Quando meu marido faleceu, eu não falava uma palavra de inglês, passei seis meses para resolver meu visto, tinha que sair com um tradutor junto comigo para falar com gerente de banco, advogado etc. Foi um período muito difícil, mas foi superado. A gente tem que se adaptar de acordo com a necessidade. Outro ponto que as pessoas elogiam muito é o fato de a loja ser ampla, lim-

pa, aberta; não é aquela coisa com caixa jogada. Outro diferencial é que a gente faz a distribuição das revistas da Editora Abril para toda a Europa e Japão, isso há quase 20 anos. Quem são os clientes da Casa Brasil? A maioria dos clientes é de brasileiros. Mas tem muito russo que procura a linha de cosméticos, portugueses também. E muitos ingleses: hoje nossa clientela de ingleses já está em torno de 25%, 30%. São ingleses casados com brasileiras, que já viajaram para o Brasil ou que se interessam por nossa cultura. O que os ingleses mais procuram é a linha de produtos para feijoada: feijão, arroz, farinha... Essas coisas. Guaraná, havaianas, cachaças e açaí também. O que há de especial para comemorar os 25 anos? Estamos realizando sorteios durante todo o mês. Já temos 30 prêmios. Toda sexta-feira tem sorteio para as pessoas que deram “like” no Facebook da Casa Brasil, para pessoas que compraram no website e para as pessoas que compraram na nossa loja – basta preencher o formulário e deixar seus dados. Também criamos uma sacola especial de aniversário e estamos dando uma garrafa de vinho pra quem comprar acima de 80 libras na loja, além de desconto de 25% numa série de produtos. Gostaria de deixar alguma mensagem? Gostaria de, em nome da Casa Brasil, tornar público meu agradecimento aos clientes que fizeram parte da nossa história. Estamos aqui porque os clientes são o nosso suporte. Quando administramos um negócio tendo em vista o cliente, vamos para frente. Então temos muito a agradecer aos clientes e parceiros que estiveram conosco nesses 25 anos.

Foto: Divulgação Itamara Dall Alba, diretora da Casa Brasil

Casa Brasil Queensway Market | Queensway 23 - 25t | W2 4QJ +44 (0) 20 7792 2931 www.casabrasillondres.co.uk www.facebook.com/casabrasillondres


UK NO BRASIL

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Exposição de David Bowie estreia em São Paulo Brasil é o primeiro país da América Latina a receber a mostra organizada pelo V&A Museum de Londres, em mais uma parceria que demonstra que os tempos são promissores para trocas criativas e artísticas entre os dois países. Da Redação

Conhecido como “camaleão do rock” e consolidado como uma das expressões artísticas mais fortes do Reino Unido, o músico inglês David Bowie ganhou recentemente sua primeira exposição internacional. Desde o dia 31 de janeiro, até 20 de abril, o Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, exibe mais de 300 itens relacionados ao artista, que chegam ao Brasil depois de uma temporada de muito sucesso no Victoria & Albert Museum de Londres. A curadoria é de Victoria Broackes e Geoffrey Marsh. O V&A, um dos mais importantes museus do mundo na área de design, teve acesso sem precedentes ao The David Bowie Archive para criar esta exposição. Além de set lists, letras de músicas, manuscritos, instrumentos e desenhos, a mostra brasileira inclui 47 figurinos, trechos de filmes e shows ao vivo, videoclipes e fotografias. Organizada tematicamente, leva os visitantes a uma viagem por meio de inúmeros personagens de Bowie e performances lendárias, destacando suas influências artísticas e suas experiências com o surrealismo, o expressionismo alemão, a mímica e o teatro Kabuki. Entre os figurinos que compõem o inventário da mostra, estão peças do álbum Aladdin Sane, como o macacão assimétrico feito de vinil (Tokyo Pop) assinado por Kansai Yamamoto e a bota plataforma vermelha, ambos usados na turnê do álbum em 1973; o terno azul claro usado na gravação do curta feito para Life on Mars? e o conjunto de calça e jaqueta multicoloridos, de Freddie Burretti, feito para a turnê Ziggy Stardust. A produção fotográfica também traz interessante material, como a foto promocional feita para a banda The Kon-rads, quando Bowie tinha apenas 16 anos; uma colagem feita por Bowie a partir de stills do vídeo de The Man Who Fell to Earth; e outra imagem dele com o escritor William Burroughs, fo-

tografados por Terry O’Neill, e colorida manualmente pelo cantor. A exposição coloca os visitantes dentro do processo criativo de Bowie e mostra como sua obra influenciou diversos movimentos artísticos. Ela apresenta o artista como um astuto observador da nossa sociedade, que sempre fez intervenções significativas na cultura, deixando um poderoso legado.

DIPLOMACIA Durante a pré-abertura para a imprensa da exposição “David Bowie is”, o Embaixador do Reino Unido, Alex Ellis, começou sua fala dizendo que Bowie é “internacional, global e essencialmente britânico”. Para Beatriz Correa, estudante de Relações Públicas da USP, as palavras do embaixador a fizeram refletir sobre como Bowie traduz perfeitamente as razões que fazem do Reino Unido, e da cultura britânica como um todo, um agente de apelo mundial. “Bowie é uma ferramenta do soft power britânico e um porta-voz da música, cultura, criatividade e inovação únicas do país. Essas são áreas em que o Reino Unido se destaca e possui expertise para trocar experiências com o Brasil”, escreveu Beatriz em artigo para o blog Speaker’s Corner, da Embaixada Britânica no Brasil. “O famoso raio pintado na face de Bowie, na capa do álbum Aladdin Sane, é um símbolo que tem força e alcance similares à bandeira britânica. O cantor reflete o Reino Unido no sentido em que ambos possuem uma imagem muito forte e característica, mas difícil de definir. Excentricidade e quebra de valores são questões sempre associadas à Bowie, ao mesmo tempo em que a tolerância com relação ao ‘diferente’ é um ponto sempre exaltado com relação à Grã Bretanha. A natureza multicultural de Bowie fala direto com um Reino Unido que vive a diversidade em seu dia a dia”, concluiu Beatriz.

Macacão usado na turnê de Aladdin Sane, em 1973 Foto: Divulgação / The David Bowie Archive


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PERFIL


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Lúcia Fukuthi: A dama da beleza Um trabalho desafiante, que envolve a realização de muitos sonhos de brasileiros que vêm a Londres para se aprimorar e, de quebra, entender a ousadia que sai das passarelas para as ruas da capital britânica. Entrevista e Foto: Rômulo Seitenfus

Lúcia Fukuthi organiza cursos para cabeleireiros, maquiadores e profissionais de moda e beleza, em Londres. Sua empresa, a LF Cursos - em parceria com academias de moda e beleza, entre eles: Toni&Guy, Vidal Sassoon, Saco Hair, London College of Fashion e Make Up Atelier – mostra profissionais renomados, que compõem os looks apresentados nos desfiles do London Fashion Week, a semana de moda da Europa. Fukuthi fala sobre os desafios e prazeres ao realizar sonhos de brasileiros na terra da rainha, explica a política de ingresso nas academias de moda e beleza onde trabalha, e salienta o estilo ousado dos europeus como reflexo da cultura moderna e evoluída. Como foi largar a carreira de professora no Brasil, há 14 anos, e abrir uma empresa voltada à educação e ensino no exterior? Cheguei em Londres no final do ano 2000. Em São Paulo, trabalhava em uma escola, na Lapa, que se chamava Colégio Marcel Proust, por dez anos, e enquanto estava lá decidi abrir uma escola de cursos livres, localizada ao lado do colégio. Ali dávamos aulas de inglês e espanhol utilizando um moderno laboratório de línguas, aulas de atendimento ao cliente com inserção dos alunos no mercado de trabalho, e reforço escolar para os alunos do Marcel Proust. Em 2000, o meu esposo faleceu. Vendi a escola e decidi vir com a minha filha para Londres; eu já havia vindo a passeio e tinha duas amigas de faculdade que já estavam estabelecidas aqui. Na verdade, tentei fugir das lembranças e desejei que o tempo passasse bem depressa. Quais são os maiores desafios ao organizar cursos e receber brasileiros em Londres? E qual é o maior prazer nesse contexto? Acho que o maior desafio não está na organização dos cursos, e sim nas diferenças culturais, a começar pelo pagamento. No Brasil existe um processo de parcelamento, compra-se com o cartão de crédito e paga-se a prazo. Isso não existe em Londres e dificulta o meu trabalho, uma vez que os cursos, hotéis e

outros serviços são pagos à vista. O que tento fazer é aconselhar a pessoa que realmente quer vir fazer um curso comigo, a programar-se. A política da minha empresa é pagar a prazo sim, mas quitando até um mês antes do início do curso; sem pendência. Sinto um prazer enorme quando as pessoas conseguem planejar-se e chegam aqui; isso exige disciplina e força de vontade. Quais são os requisitos para estudar no Toni&Guy, Vidal Sassoon, Saco Hair, London College of Fashion ou Make Up Atelier? Geralmente no Toni&Guy, Sassoon Academy, Saco Hair, Andrew Jose - para fazer um curso de curta duração - o profissional deve ter no mínimo três anos de experiência. Já a London College of Fashion que faz parte da University of the Arts London, apresenta cursos curtos para iniciantes, assim como para profissionais. Inclusive, a LFC oferece cursos gratuitos em maquiagem e beleza para jovens iniciantes com residência permanente, ou que façam parte da comunidade europeia. Possuímos mais de 200 cursos que vão desde joalheria, fotografia, moda, beleza e maquiagem, até cursos para fazer sapatos. Qual é o público que escolhe estudar em uma das academias de Londres? São profissionais já formados que querem aprender novas técnicas, ou aqueles que almejam fazer uma reciclagem. Como em qualquer profissão, profissionais que buscam aprimoramento no exterior destacam-se no mercado de trabalho, ganham prestígio e reconhecimento, além de apresentar novidades internacionais para seus clientes, levam também a experiência de ter vivenciado uma cultura diferente que muito influencia no oferecimento de seus serviços. A nossa empresa oferece tradutores na maioria dos cursos, portanto não falar inglês não é uma barreira. Quais as diferenças no ensino e no mercado de trabalho na moda e na estética, entre a Inglaterra e o Brasil? O Brasil é o terceiro maior consumidor de produtos de beleza do mundo,

ficando atrás apenas dos Estados unidos e Japão. O País é também referência na área da estética e cirurgia plástica, embora a moda brasileira ainda se inspire nos lançamentos europeus. No Brasil há faculdades que oferecem cursos superiores de tecnologia nas áreas de estética e cosmética, algumas com ênfase em maquiagem profissional. O visagismo também é altamente valorizado e muitos profissionais qualificados estão fazendo seus nomes com o uso da psicologia aliada a esse tema. Já aqui na Inglaterra estamos tão acostumados a ver tantas pessoas ousadas que isso não é novidade. Os brasileiros não são tão ousados quanto aqui na Europa. O que mais escuto dos brasileiros quando vêm para Londres estudar em uma das academias que mencionei é “se eu fizer um corte ou uma coloração como essa no cabelo de uma de minhas clientes ela me mata”... Mas no decorrer do curso eles percebem que podem adaptar as técnicas europeias, podendo mudar progressivamente o pensamento de suas clientes. No ensino na Inglaterra são abordadas as coleções que as academias lançam todos os anos, começando no London Fashion Week que acontece duas vezes por ano e finalizando no Salão Internacional. As academias que trabalho são responsáveis por abrilhantar esses eventos e, por essa razão, esses profissionais educadores possuem o conhecimento necessário para transmitirem a moda corrente. O mercado de trabalho é vasto já que, como não há tanto conservadorismo, as pessoas tendem a experimentar o novo. Qual foi a situação que mais lhe marcou ao realizar sonhos de brasileiros na terra da rainha? Uma profissional veio estudar na Academia Toni&Guy e no último dia do curso, durante um corte de cabelo com a modelo ainda na cadeira, ela começou a chorar. Então o professor perguntou à intérprete o que havia acontecido e se estava bem. A aluna respondeu que estava emocionada por ter tido a oportunidade de estar lá e que aquilo era um sonho que havia se tornado realidade. Eu olhei para o professor e percebi que ele também se emocionou e saiu para tomar um copo de água, disfarçando os olhos cheios de lágrimas.

ID O momento mais marcante da sua vida: O nascimento da minha filha. Um medo: De altura. Seu maior defeito: É achar que não os tenho. Sua maior qualidade: Generosidade. Uma grande extravagância: Tomei escondido três sorvetes Magno com castanhas (risos). Algo que adora: Comida mineira. Algo que detesta: Pessoas ansiosas, que falam alto e se mostram apressadas. Ocupação favorita: Fazer o meu trabalho bem feito. Um momento inesquecível: A primeira vez que vi o pai da minha filha. Quem escolheria para abraçar: O meu clínico geral. Um produto cultural surpreendente: O filme Canadense Incendies, do diretor Denis Villeneuve... realmente surpreendente! O lugar mais maravilhoso que seus olhos já viram: Florença, Itália. Um lugar que quer conhecer: Japão. Uma personalidade: O ex-jogador de futebol alemão Ballack. Um livro: Zorba, o Grego. Uma música: How Can I go on, com Freddie Mercury e Montserrat Caballe. Um restaurante: Terraço Italia, em São Paulo. O que deseja hoje? Relaxar. O que a atrai em alguém interessante: A delicadeza e a consideração formam um conjunto interessante. Qual é o defeito mais fácil de perdoar? Quando as pessoas erram tentando acertar. Se sua vida fosse uma música, qual seria? Are you lonesome tonight? (laughing version) - Elvis Presley. Essa vale a pena ouvir... Para conferir o trabalho de Lúcia Fukuthi, acesse www.lfcursos.com


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Entidades de proteção aos direitos das crianças e adolescentes lançaram no início do mês a campanha ‘It’s a Penalty’, com o objetivo de combater a exploração sexual de menores de idade durante a Copa do Mundo Da Redação

CAPA Dados do Mapa da Violência no Brasil, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, apontam que, em 2011, um total de 10.425 crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual no país. A grande maioria, de acordo com o mesmo estudo, é do sexo feminino: 83,2%. Ao todo, naquele ano, foram 16,4 atendimentos para cada 100 mil crianças e adolescentes. A maior incidência de atendimentos registrou-se na faixa de 10 a 14 anos, com uma taxa de 23,8 notificações para cada 100 mil adolescentes. Ainda mais alarmantes são os números do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, uma rede de organizações não governamentais cujos estudos indicam que o número de trabalhadores infantis na indústria do sexo estacionou em 500 mil em 2012 – o número aponta um largo crescimento desde 2001, quando 100 mil crianças trabalhavam na indústria do sexo, de acordo com iniciativas da Unicef, ligada à ONU. Tal realidade fez com que entidades que atuam em defesa dos direitos das crianças juntassem forças com figuras importantes do mundo do futebol e lançassem, no início do mês, a campanha “It’s a Penalty” (“É Crime, em tradução livre), cujo objetivo é proteger crianças e adolescentes da exploração e abuso sexual durante a Copa do Mundo deste ano, que acontece nos meses de junho e julho. Lançada pelas organizações não governamentais Happy Child International, Jubilee Campaign e A21 Campaign, a iniciativa conta com o suporte do técnico da Seleção da Inglaterra, Roy Hodgson, e de jogadores como Frank Lampard, David Luiz e Ramires, além do aval dos governos brasileiro e britânico, assim como a participação da Metropolitan Police Service e da Polícia Federal do Brasil. A campanha conta com um vídeo que será transmitido nos vôos da British Airways para o Brasil durante a Copa do Mundo, destacando a questão de exploração sexual de menores. Espera-se que, por meio da Associação de Futebol da Inglaterra (Football Association), os 5 mil torcedores ingleses que vão viajar para o Mundial sejam alertados sobre a campanha. “Tendo trabalhado com meninos de rua no Brasil desde 1991, estou muito agradecida por todo o apoio que conseguimos levantar para esta importante campanha. Se nos unirmos contra este crime horrível, centenas de vidas

de crianças serão salvas desse efeito catastrófico da exploração sexual”, afirmou, em nota, Sarah de Carvalho, CEO da Happy Child International. Há mais de 20 anos no Brasil, a Happy Child International começou sua atuação com uma pequena casa em Belo Horizonte, e hoje conta 14 centros de emergência para crianças de rua e sob risco pelo país e também em Angola, na África. Desde sua fundação, a entidade já ajudou mais de dez mil crianças brasileiras a se reabilitarem e voltarem para suas famílias, comunidades e sociedade.

O RISCO DA COPA No ano passado, o Comando de Exploração das Crianças e de Proteção Online (CEOP) da Agência Nacional de Crimes do Reino Unido já havia alertado, em seu relatório anual, que o fluxo elevado de turistas durante a Copa do Mundo poderia aumentar o mercado de prostituição infantil no Brasil. De acordo com Embratur, 600 mil turistas estrangeiros devem ir ao Brasil durante o evento. “A maioria dos torcedores que viajará ao Brasil durante as finais da Copa do Mundo ficaria horrorizado com o pensamento de causar mal a crianças brasileiras. No entanto, nós sabemos que há riscos significativos para as crianças antes, durante e depois desses eventos esportivos de grande magnitude e algumas pessoas explorarão as crianças por dinheiro”, disse Johnny Gwynne, diretor do CEOP. “Crianças brasileiras são submetidas a abusos no mercado de prostituição e talvez mudem a aparência para parecer mais velhas. Não ache que porque elas se aproximam de você isso significa que elas estão consentindo com a relação sexual e você não será responsável criminalmente. Elas são crianças, e elas são ameaçadas e intimidadas por pessoas inescrupulosas que querem ganhar dinheiro com isso”, alertou Gwyne aos turistas britânicos. “A lei não vai se importar se você não sabia que a pessoa com quem você praticou sexo é menor de idade. Você corre risco de ser detido e preso no Brasil ou em seu retorno ao Reino Unido. Se você estiver em dúvida, não vá em frente”, acrescentou. O mesmo alerta foi feito por pesquisadores em 2012, após a divulgação em Paris de um estudo que mapeia a relação entre o turismo de lazer e a exploração sexual de menores no Brasil. O pesquisador Miguel Fontes, que

BRASIL E RE UNEM FORÇA PROSTITUIÇÃ

Prostituição infantil é mais comu áreas periféricas das grandes ci


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Foto: Divulgação

EINO UNIDO AS CONTRA A ÃO INFANTIL

além de atuar na área de pesquisas estratégicas do Sesi (Serviço Social da Indústria) também está ligado à Universidade John Hopkins, analisou na ocasião a relação existente entre o número de entradas de turistas estrangeiros em São Paulo e na Bahia de 2008 a 2010 e o total de denúncias de exploração sexual infantil nesses dois Estados no período. “Na Bahia, onde o turismo é de lazer, os resultados demonstram que para cada 372 turistas internacionais, houve o aumento de uma denúncia de exploração sexual de crianças. Em São Paulo, onde o turismo de negócios é maior, somente com o aumento de 2,5 mil turistas se detecta o aumento de uma denúncia de exploração sexual infantil”, disse Fontes em entrevista para a BBC Brasil. “A exploração sexual de crianças e adolescentes está ligada às atividades turísticas de lazer. Por isso, podemos projetar que a realização de grandes eventos esportivos mundiais, ao promover um aumento do fluxo de pessoas (para o Brasil), pode ampliar o número de casos desse tipo”, concluiu o consultor. Segundo Fontes, as crianças exploradas sexualmente no Brasil têm por volta de 11 anos em média. As meninas representam quatro de cada cinco casos. E a região nordeste concentra 37% das denúncias.

Foto: Divulgação

NA MÍDIA

Foto: Divulgação

um na região Nordeste do Brasil, em idades onde o consumo de drogas é feito quase que livremente

No começo deste mês, a SKY News transmitiu uma reportagem de aproximadamente cinco minutos na qual mostra que adolescentes de 12 anos estão se vendendo por sexo por até três reais em Recife, uma das cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil. A matéria mostra como os casos de prostituição infantil são mais recorrentes em áreas periféricas da cidade, onde não há qualquer tipo de assistência a mães que são viciadas em crack e que, para conseguir dinheiro para comprar a droga, vendem suas próprias filhas. Há também o uso de cola por parte das adolescentes. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República designou R$ 8 milhões para que as cidades-sede da Copa do Mundo desenvolvam projetos de combate à prostituição infantil. Um valor bastante baixo se comparado com os mais de R$ 30 bilhões em estádios, transporte e outros projetos de infra-estrutura para a realização do torneio conforme as exigências da Fifa.

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COPA 2014 Capital mineira receberá seis partidas no Mundial; ingleses e argentinos jogam na cidade na primeira fase do torneio

Belo Horizonte, uai! Por Nathália Braga

Capital do Estado que é conhecido pelo jeito mineirinho de ser, Belo Horizonte (BH para os íntimos) não ficou para trás e foi escolhida como uma das cidades-sede para a Copa do Mundo 2014. E mais: a cidade vai receber seis partidas, entre elas uma semifinal, sediando o mesmo tanto de jogos do que São Paulo e Salvador, e mais jogos do que Recife ou Natal, grandes centros turísticos do país. Reconhecimento merecido, já que entre os critérios usados pela Fifa para a escolha das cidades estão, além dos projetos entregues pelas mesmas, opções de hotéis e lazer e segurança pública. Sendo assim, a sexta maior cidade brasileira e seus quase 2,5 milhões de habitantes não poderiam ficar de fora. Belo Horizonte é ainda o quinto município mais rico do país, com 1,37% do PIB nacional, ficando atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba, segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A capital foi ainda indicada pelo Population Crisis Committee, da ONU, como a cidade com melhor qualidade de vida da América Latina.

HISTÓRIA

Fotos: Portal da Copa

Agora, sediando partidas da Copa do Mundo 2014, a expectativa é de que a cidade se desenvolva cada vez mais. “Ao sediar a Copa-2014, o PIB da microrregião de Belo Horizonte cresce aproximadamente 1,1% acima do que ocorreria sem os investimentos da Copa-2014, na fase de obras”, diz um estudo feito pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais. A grande aposta é no setor de turismo. Cerca de 600 mil turistas são esperados em BH, que irá receber seleções de alto escalão, como a Inglaterra e a Argentina (leia mais sobre o turismo na região nas páginas 20 e 21).

Belo Horizonte foi uma das primeiras cidades planejadas do Brasil. A cidade foi construída para substituir a capital Ouro Preto, ideia que surgiu ainda na época da Inconfidência Mineira, no século XVIII, e que só foi consolidada após a Proclamação da República em 1889. Naquela época, BH era apenas a vila de Curral Del Rei, depois foi nomeada como Cidade de Minas, sendo oficialmente inaugurada no ano de 1897. Em 1906, o nome foi alterado para o atual. O projeto da cidade não previa um crescimento tão rápido como aconteceu, fazendo com que os bairros fossem expandidos, entre eles um dos símbolos da cidade, a Pampulha, com projeções do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.

FUTEBOL Assim como o resto do país, os mineiros são apaixonados por futebol e o belo-horizontino geralmente se divide entre dois times de muita tradição no Brasil e na América do Sul, o Clube Atlético Mineiro e o Cruzeiro Espor-

BELO HOR

Região: Sudes

População: 2 Área: 330,95

Clima: Tropic de 21ºC

Vegetação: M

Altitude: 884.

ESTÁDIO M

Valor investid Capacidade:

Dimensões do

LINKS ÚTEIS

belohorizonte visitbrasil.com http://pt.fifa.c


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POSITIVO: TRANSPARÊNCIA Capital da transparência. É assim que Belo Horizonte pode ser chamada após ser apontada pelo Instituto Ethos, em dezembro do ano passado, como uma das três cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 que tem um nível de transparência em seus projetos e ações acima da média. Porto Alegre e Brasília também se destacaram. O apontamento avalia diferentes aspectos dos portais de acesso à informação, criados pelas diversas instâncias governamentais, que fornecem dados dos investimentos públicos para a realização da Copa. Critérios de disponibilidade de informação e informação popular são avaliados e recebem uma nota. A partir daí são elaborados os indicadores de transparência. Em 2012, o instituto havia divulgado o mesmo estudo em que a capital tinha 49,86 pontos. Já em dezembro de 2013, os mineiros avançaram 20 pontos, ficando com 70,33. A Prefeitura de BH lançou o portal Transparência Copa 2014 em março de 2012. “A Copa é um dos assuntos de grande interesse da população, por isso decidimos criar um canal específico sobre a preparação da cidade. Alcançamos o nível de alta transparência graças ao processo contínuo de aprimoramento da informação”, afirmou Cristiana Fortini, controladora geral do município. A Controladoria Geral do Município e a Secretaria Especial de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas trabalham juntas para cumprirem com a responsabilidade de divulgar periodicamente os dados sobre os projetos da Copa do Mundo.

Fotos: Portal da Copa Estádio do Mineirão foi totalmente reformado por dentro e ganhou uma cobertura, mas a marquise foi mantida

RIZONTE – MINAS GERAIS

ste

2,479,175 habitantes km²

cal com estação seca, média anual

Mata Atlântica e Cerrado

.1 metros

MINEIRÃO

do: R$ 677 milhões 62 mil pessoas

o campo: 105 x 68 metros

e.mg.gov.br/copa2014 m com

te Clube, conhecidos pela torcida como galo e raposa, respectivamente – sendo a segunda equipe a responsável por revelar o craque Ronaldo “Fenômeno”. O estádio do Mineirão, que já foi palco de grandes disputas entre os dois times, além de outras equipes nacionais, recebeu no ano de 2013 três partidas da Copa das Confederações. Após uma reforma que custou mais de R$ 677 milhões, de acordo com informações oficiais, o estádio obteve capacidade para 62 mil torcedores. Colômbia e Grécia inauguram os gramados durante a Copa na primeira fase da competição, no dia 14 de junho. Depois, ainda no mesmo mês, é a vez de Bélgica e Argélia jogarem no dia 17, seguidos pelos “hermanos” da Argentina, que disputam partida contra o Irã. Fechando a primeira fase, o Mineirão recebe ainda Costa Rica e Inglaterra, no dia 24. Os mineiros irão ter ainda uma disputa pelas oitavas de final, no dia 28 de junho, e o último jogo será uma semifinal que acontecerá na terça, 8 de julho.

MÁ RECORDAÇÃO Na Copa do Mundo de 1950, também no Brasil, a seleção inglesa jogou na mesma cidade de Belo Horizonte um dos jogos mais emblemáticos da história da competição. Foi contra os Estados Unidos, adversário considerado muito inferior à Inglaterra naquela ocasião. O resultado foi surpreendente: 1 a 0 para os americanos. Contra a Costa Rica, em junho, a Inglaterra entrará em campo com amplo favoritismo. Qual será que vai ser o resultado desta vez?

NEGATIVO: BRIGA ENTRE TORCEDORES Durante a Copa das Confederações, o transporte até o estádio foi o item que apresentou menor avaliação positiva por parte dos estrangeiros que visitaram o país. De acordo com o Ministério do Turismo, em uma análise parcial dos dados na época, 61,5% dos estrangeiros entrevistados avaliaram positivamente o transporte, enquanto o processo de compra dos ingressos obteve 69% de avaliação positiva e a sinalização do estádio, 78,8%. A pesquisa foi feita em junho de 2013. Já em janeiro deste ano, durante o Tour de Inspeção de Estádios, realizado pela Fifa e Comitê Organizador Local (COL), o Mineirão foi elogiado, mas o transporte foi motivo de preocupação dos organizadores. Um dos representantes do comitê, o gerente geral de Integração Operacional, Tiago Paes, chegou a afirmar à imprensa que seria preciso ter algumas mudanças. Segundo ele, a Copa do Mundo trata-se de um evento mais complexo, sendo que em termos operacionais o transporte precisa “ser um pouco ajustado, algumas variações de um evento para o outro”. Linhas especiais devem ser criadas para os dias de jogo. Também em janeiro deste ano, o Centro da cidade recebeu protestos por mudanças no transporte público. Os manifestantes pediram redução do preço do transporte coletivo, tarifa zero e investigação dos custos do serviço. Alguns também manifestaram contra a Copa do Mundo, reclamações que vem se repetindo em várias cidades. Ainda no caso do transporte, a Prefeitura de Belo Horizonte afirmou que, diferentemente do esquema adotado durante a Copa das Confederações, a cidade não terá ônibus gratuito para torcedores que apresentarem ingresso para assistirem aos jogos. A justificativa é de que os torcedores têm condições financeiras de arcarem com mais esse custo para ver um jogo do Mundial. Os preços das tarifas ainda não foram definidos.


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No fim de janeiro a novela “Amor à vida”, da TV Globo, terminou com um desfecho emblemático: o primeiro beijo entre homens gays em uma novela da emissora e uma declaração de afeto entre pai e filho - este último, chamado Félix (protagonizado por Mateus Solano), um homossexual rejeitado pelo pai durante toda a trama. As duas cenas retrataram a redenção de um personagem que, apesar de sua homossexualidade, se adequou direitinho à sociedade e até conseguiu ser feliz. E acreditem: o mundo não acabou! Bom, eu não sou noveleiro faz muito tempo, mas quando era torcia por personagens “tipo Nazaré Tedesco”, mais próximos da caricatura humana, o que me soa mais interessante como crítica social. Afinal, a loucura é muito mais verdadeira do que a regra velha e chata de “o bem vence o mal”. No entanto, como era de se imaginar, pude acompanhar as dores e logros de Félix através das redes sociais, e como muita gente fiquei atento às manifestações de ódio e amor. O rancor veio daqueles que não conseguem aceitar que o mundo não funciona exatamente como eles querem, assim como dos defensores de uma héteronormatividade compulsória: controladora de corpos e afetos e promotora da felicidade excludente, típica dos donos da arrogância e da prepotência que desejam mandar em todos. Outros usaram do discurso religioso, cheio de preconceito, nojo e medo dignos da “cara de pau” humana em expor seus sentimentos mais sórdidos e vis usando o nome de Deus. E pior: ainda há aqueles que, sem saber

CONECTANDO do que estão falando, arrotam violência e ignorância alegando que cenas assim destroem as famílias e educam para a libertinagem. Daí eu me pergunto: você quer que a TV eduque seus filhos? Motorista, pára na próxima que eu quero descer… Por outro lado, houve muita felicidade, choro e festejo. Em todos os rincões do país, e inclusive no exterior, milhões de pessoas comemoram o beijo tímido de Félix e Nico. Muitas famílias se viram representadas naquela cena. Estavam ali irmãos, amigos, conhecidos e nós mesmos. Outros tantos se emocionaram com a piedade do pai homofóbico e a redenção do filho que, agora do bem, cuidava do progenitor doente. OK, ok, ok! Já sabemos que há muitos casos assim, quando só se reconhece o afeto quando um precisa do outro, que aquela cena messiânica fez com que pais e mães revissem suas posturas. Eu mesmo recebi uma linda e singela mensagem de um irmão. Mas não dá para dizer que os meios de comunicação são transgressores da ordem, que são de vanguarda. A TV Globo só vendeu mais um de seus produtos – e muito bem, diga-se. No começo do mês, o jornal Folha de São Paulo, em reportagem sobre a violência homofóbica na cidade, dá dicas para que LGBTs (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) se protejam de possíveis agressores. Poderia até ser interessante, se a lógica não tivesse sido invertida. Em vez de fornecem os contatos para denúncias e proteção do Estado, o jornal orienta as pessoas a não aparentarem ser homossexuais. Afinal, você até pode ser gay, mas bi-

cha já é demais. Se você for comportadinho, for higienizado, tudo bem. Caso contrário, você vai apanhar sim, e a culpa é toda sua. Você pode até dar um beijinho de bom dia no seu boy, mas romper com os códigos heterossexuais de convivência? Nem morta, santa! Eu sou daqueles que valoriza a pinta, seja ela do “bofe”, da “perua”, da “bee”, da “sapa”... Cada um com sua forma de expressar, desde que isso não gere opressão, violência e preconceito. A riqueza da “bichice” está em transgredir com o rótulo, com o lugar comum, com o modelo binário. Essa é uma valorosa contribuição da cultura gay para o mundo. E não me venham com o discurso de que há hora para tudo. Pode até ser, mas eu topo um acordo desde que mulheres, negros, LGBTs, pobres e todos os outros grupos discriminados estejam em pé de igualdade quando da construção das regras sociais. Senão, estou fora. Félix e Nico são apenas personagens do folhetim; 20 milhões de LBGTs são seres de carne e osso que sofrem cotidianamente com o preconceito, a discriminação e a violência homofóbica. A vida da gente não é novela. O Brasil precisa de um conjunto de políticas públicas contundentes e eficazes, a nível nacional, estadual e municipal, no combate a “trans-lesbo-homofobia”, além da promoção da cidadania de LGBTs. Um passarinho me contou que estão esperando as eleições passarem... Por acaso LGBT não vota?

COMO PARTICIPAR? Conectando é um projeto desenvolvido pelo Brasil Observer que visa colocar em prática o conceito de comunicação ‘glocal’, ou seja, uma história local pode se tornar global, ser ouvida e lida em diferentes partes do mundo. Mande sua história para nós! Saiba como participar entrando em contato pelo conectando@brasilobserver.co.uk.

ENTRE BEIJOS E PINTAS Por Caio Varela

Cada um com sua forma de expressar, desde que isso não gere opressão, violência e preconceito.

Foto: Reprodução

Cena de “Amor à Vida” levou a reações diversas, mas a vida de 20 milhões de LGBTs não é novela


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Brasil Observer

GUIDE

GISMONTI: A MODERN VIRTUOUS Brazilian multi-instrumentalist Egberto Gismonti is back in London for a sell-out one night concert at the Barbican. We found out more about his rare talent and unique sound >> Read more on pages 16 and 17 Multi-instrumentista brasileiro Egberto Gismonti está de volta a Londres para apresentação de uma noite no Barbican >> Leia mais nas páginas 16 e 17

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CLUBE DO CHORO UK IS BACK IN 2014 FOR A NEW SEASON OF MUSIC, DANCE AND HAPPINESS!!! LEAVE LONDON AT THE DOOR AND ENTER LAPA FOR THE EVENING! TOCA DE TATU WILL BE PERFORMING ON MARCH 8th! FULL DETAILS ON OUR WEBSITE, WWW.CLUBEDOCHORO.CO.UK !!


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Gismonti the music man returns to London

photos: Divulgation Egberto Gismonti

By Antônio Veiga

A year and a half after impressing audiences and critical acclaim for his appearance at the London Jazz Festival in 2012, the multi-instrumentalist Egberto Gismonti, is back in the British capital, one of the cities where his music is most recognised and admired. The gig will take place on Thursday, the 27 February at the Barbican. “There is simply no one out there remotely like Gismonti. He plays with intensity, holding the audience in rapt attention and hardly daring to breathe until the applause at the end of each piece. The music simply flows, engrossing and entrancing”, according to the website London Jazz News. Gismonti enjoys international prestige as he has always made his own path with an individual sound throughout his career. With a sound considered “not commercial” by Brazilian labels in the late 1960s and early ‘70s, Gismonti found more than a refuge in Europe but also an experimental environment that enabled him to emerge then mature and garner admirers wherever he played. Born in Rio de Janeiro in 1947 to a family of musicians, he began studying piano as a boy, aged just six. Not long after he began to master many other instruments including guitar, flute and clarinet, there was no limit for the apprentice, later on his travels around the

world he discovered and perfected the use of synthesizers, which were still scarce in Brazil at the time. The appreciation from the wider public came in 1968 with the song “O Sonho” (The Dream), presented at a TV Globo Festival. His first album, recorded in France, came a year later, however, the album did not have classic French ingredients, for it showcased the great influence of the Bossa Nova sound that had conquered the world ten years earlier. With a rare talent on piano and guitar (right from six to ten strings), Egberto Gismonti solidified his career in instrumental music. Drawing upon the influences of Brazilian rhythms, interpreted in his own way, with the help of legendary composers including, the master Heitor Villa- Lobos, Gismonti enjoyed success for their work on the “Trem Caipira” album in 1985. It is also well worth a mention that Villa- Lobos, will be celebrated in a day of concerts, lectures and film screenings, also at the Barbican, on 8 March. Experimentation with collaborators has always been a huge part of Gismonti’s music, he played alongside other legends including Hermeto Pascoal, with whom recorded an album in 1983, and the respected percussionist from Pernambuco, Nana Vasconcelos, whom he workeded with extensively at various stages of his life. Egberto Gismonti has deservedly become known as

the most popular alternative musician to come out of Brazil with his ability to express the rhythmic diversity that exists within and outside the country, and throughout Brazilian history. For all this and more, Gismonti can be considered a genius, that’s why he wowed audiences in London in 2012 and why the concert later in February is great opportunity to enjoy and understand an irrepressible Brazilian Master of Sound.

WITH SPECIAL GUESTS Those lucky enough to attend the concert, will also have the opportunity to enjoy the music another multiinstrumentalist: Ralph Towner. The organiser’s choice to have Towner perform on the same night as Egberto Gismonti is a great one as both share a common love for experimentation. Just as Gismonti unites classic rhythms from Brazil with other popular sounds, the American mixes jazz with folk music of the United States. The concert will be a great way to experience rare musical talent and vision so is the top choice for discernable Londoners.


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photos: Divulgation Ralph Towner

Egberto Gismonti + Ralph Towner When: 27 February 2014 / 19:30 Where: Barbican Hall Tickets: £17.50 – 25

O erudito mais popular do Brasil está de volta

Info: www.barbican.org.uk

Por Antonio Veiga

Um ano e meio após ser aclamado pelo público e elogiado pela crítica em sua apresentação no London Jazz Festival 2012, o multi-instrumentista carioca Egberto Gismonti volta para se apresentar na capital britânica, uma das cidades onde sua música e virtuosidade são mais reconhecidas e admiradas. O show do brasileiro está marcado para quinta-feira, dia 27, às 19h30, no Barbican Hall. “Não há ninguém por aí parecido com Gismonti. Ele toca com intensidade, prende o público, que mal ousa respirar até os aplausos no final de cada peça”, descreve o London Jazz News, que complementa: “A música simplesmente flui, cativante e fascinante”. Egberto goza de tanto prestígio internacional por conta do caminho que trilhou em sua longa carreira. Com um som considerado “pouco comercial” pelas gravadoras brasileiras, no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970 encontrou na Europa mais que um refúgio, mas também um ambiente que o possibilitava emergir no universo experimental, amadurecer musicalmente e angariar admiradores. Nascido em 1947, no seio de uma família de músicos, começou a estudar piano ainda garoto, aos seis anos. Não demorou muito para que começasse a dominar outros instrumentos, como violão, flauta e clarinete. Daí em diante, não houve limites para o então aprendiz, que em suas andanças pelo velho mundo conheceu e dominou também o uso de sintetizadores, ainda escassos no Brasil na época.

O desabrochar para o público em geral aconteceu em 1968, com a canção “O Sonho”, apresentada no Festival da TV Globo. Seu primeiro álbum viria no ano seguinte, após fase de estudos na França. No entanto, o disco não possuía ingredientes franceses, pois trazia grande influência da Bossa Nova, som que conquistara o mundo dez anos antes e que apresentava uma sonoridade que seria marca da música brasileira. Com um talento fora de série e a mesma capacidade para tocar piano e violão – seja este de seis, sete, oito, nove e até dez cordas – Egberto Gismonti solidificou a sua carreira na música instrumental. Passeou pela variedade rítmica brasileira e interpretou, à sua maneira, compositores que são verdadeiras lendas da música do Brasil, como, por exemplo, o maestro Heitor Villa-Lobos, homenageado por Gismonti no álbum “Trem Caipira”, de 1985. Villa-Lobos, aliás, será tema de um dia de concertos, palestras e filme no mesmo Barbican Centre, dia 8 de março. O experimentalismo também sempre foi uma marca do carioca, que tocou ao lado de outras lendas do gênero, como Hermeto Pascoal, com quem chegou a gravar um disco, em 1983, e o respeitado percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, com quem tocou, gravou, somou e multiplicou em diversas fases de sua vida. Podemos dizer que se o poeta Vinicius de Moraes, compositor de clássicos como Garota de Ipanema – ao lado de Tom Jobim –, é considerado o branco mais preto do Brasil, Egberto Gismonti pode carregar a al-

cunha de o erudito mais popular, tamanha capacidade em passear pela diversidade rítmica que encontra dentro e fora de seu país, e também pelo amplo domínio instrumental, que o possibilita adicionar música clássica a sons que emergiram do folclore brasileiro. Por tudo isso e muito mais, Gismonti pode sim ser considerado um gênio. E como toda pessoa que esbanja genialidade, ele conquistou o público de Londres sempre que exibiu sua música por aqui. Portanto, dia 27 é uma oportunidade de entender e deixar os ouvidos viajarem pela musicalidade que o brasileiro leva para as suas apresentações.

RALPH TOWNER Quem comparecer ao show do brasileiro, de quebra, terá a oportunidade de apreciar outro multi-instrumentista: o músico Ralph Towner. O jazz pedirá passagem quando o americano levar para o palco as fusões que faz em suas canções. Colocá-lo para se apresentar na mesma noite que Gismonti é um grande acerto, pois Towner também passeia pelo experimentalismo e, assim como o brasileiro une ritmos clássicos do Brasil com outros de origem popular, o americano tempera o jazz com música folk dos Estados Unidos. “Bela música de um mestre do violão”, define a BBC Music Magazine.


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GRINGO’S VIEW

Gilles Peterson: a case of love with Brazilian music By Kate Rintoul

Gilles Peterson: um caso de amor com a música brasileira Por Kate Rintoul

Gilles Peterson has been working on a new album that’s going to be released in just ahead of the World Cup in June

Photo: Divulgation

On a Saturday evening in mid-January, Camden had a different kind of buzz to it. Gone were the usual crowd of perma-goths with dubious long hair and hooded garments. In their place were a dare I say it, all together more chic crowd drawn ready to descend upon Koko for the Worldwide Awards. Now in its 15th year, with nine live awards ceremonies behind it, this annual showdown of the best tracks and albums, headed up by Gilles Peterson is firmly on the calendar for those people who might have outgrown the London club scene (if one even exists anymore), but still love to listen to dance, hip hop, soul and all those genres that have never been big enough to go mainstream in the UK. The live acts were a good mix of the different sounds Peterson plays out from the Finnish Jimi Tenor with his weird and wonderful sounds to Mount Kimbie, who met in Elephant and Castle’s Southbank Uni and started recording in a home studio in Peckham. In between there were some fantastic acts – I was enthralled by the performance

given by Memphis-born, Brooklyn-residing Valerie June. Perhaps a little more variety in the line up would have gone down well. For a night of worldwide music, it seemed a little sad that most acts were American or British. Writing for a Brazilian newspaper, I felt sad there weren’t any Latin American acts to see and was reminded of a panel discussion I went to last summer at the Brazilian Embassy, on which Peterson was a panellists. The speakers included Luiz Gabriel Lopes (Graveola e o Lixo Polifônico) who was talking about the high costs for Brazilian bands who are starting out to travel to events. I suppose that’s why so many people still tune in to listen to Peterson, now in his cosy Saturday Afternoon slot on BBC 6 Music -radio remains a fantastic lowcost means of connecting the world and sharing experiences and it’s on been improved by the internet. Peterson has long been a great advocate of Brazilian music and while this annual awards ceremony might not be a great platform for it,

don’t worry he has much more up his sleeve. GP had just returned from Brazil two days before the Awards, where he’s been working on a new album that’s going to be released in just ahead of the World Cup in June. According to a report in O Globo Culture while he was in Rio, Gilles has been collaborating with the likes of Elza Soares, Ed Motta, Wilson das Neves, Arlindo Cruz, Mart’nália, Lucas Santtanna, Emanuelle Araújo and Gabriel Moura. Currently without a title, with acts like these there is no doubt this is going to be a great follow up to GP’s last foray into Brazilian music “Gilles Peterson back in Brazil” that was released in 2006. He told O Globo “I have been in love with Brazilian music since I heard the ‘Brazilian Love Affair’ album by George Duke, and with this album I hope to show what sparked this love, from a contemporary point of view, with the participation of these artists that I admire so much and with a bit of my touch.” More information: www. gillespetersonworldwide.com.

Numa tarde de sábado no meio de janeiro, a região de Camden estava com uma cara diferente. No lugar de roupas e cabelos inusitados estavam, digamos: os mesmos cabelos inusitados, mas roupas um pouco mais chiques. E a aglomeração dessas pessoas descia para o Koko, onde aconteceria o Worldwide Awards. Agora em sua 15ª edição, com nove cerimônias ao vivo já realizadas, esse evento anual de melhores músicas e álbuns, liderado por Gilles Peterson, está fortemente inserido no calendário daqueles que ainda amam ouvir dance, hip hop, soul e outros gêneros que nunca se tornaram grandes suficientes para virar algo popular no Reino Unido. As apresentações ao vivo foram uma boa mistura de diferentes sons selecionados por Peterson, desde Jimi Tenor com seus belos e estranhos sonidos até Mount Kimbie. No meio disso outras exibições fantásticas – uma das que mais me entusiasmaram foi Valerie June. Talvez um pouco mais de variedade na line-up teria caído bem. Para uma noite de música global, foi um pouco frustrante o fato de a maioria das apresentações ter sido de britânicos e americanos. Escrevendo para um jornal brasileiro, senti falta de atrações latino-americanas, o que me lembrou de um debate que eu fui no verão passado na Embaixada do Brasil em Londres, no qual Peterson era um dos convidados. Entre os participantes estava Luiz Gabriel Lopes, da banda Graveola, que falou sobre o alto custo para grupos

brasileiros que estão começando a viajar para eventos. Eu suponho que seja esta a razão para que tantas pessoas ainda sintonizem seus rádios para ouvir Peterson, agora em seu aconchegante programa de sábado à tarde na BBC 6 Music – o rádio segue sendo uma forma fantástica e barata de conectar o mundo e compartilhar experiências. Há anos Peterson tem sido um grande divulgador da música brasileira e, embora a cerimônia deste ano não tenha sido uma plataforma para isso, ele guarda uma carta debaixo da manga. Antes do evento, Gilles estava no Brasil, onde ele tem trabalhado em um novo álbum que será lançado pouco antes da Copa do Mundo em junho. De acordo com uma reportagem do jornal O Globo, Gilles está trabalhando junto com artistas como Elza Soares, Ed Motta, Wilson das Neves, Arlindo Cruz, Mart’nália, Lucas Santtana, Emanuelle Araújo e Gabriel Moura. Ainda sem título, não há dúvidas de que o álbum será uma ótima continuação da última aventura de Peterson pela música brasileira, “Gilles Peterson back in Brazil”, de 2006. Ele disse ao O Globo: “Tenho um caso de amor com a música brasileira desde que ouvi o álbum ‘Brazilian Love Affair’, de George Duke, e com esse novo álbum eu espero mostrar o que deflagrou esse amor, a partir de uma visão contemporânea, com a participação desses artistas que eu admiro muito e com o meu toque também”. Mais em www.gillespetersonworldwide.com.


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NINETEEN EIGHT-FOUR Filmmaing loses two great talents By Ricardo Somera

At the beginning of February, Brazilian cinema lost Eduardo Coutinho, one of the most important documentary filmmakers in its history. Coutinho, responsible for modern classics like “Edifício Master” (2002), “Peões” (“Peons”, 2004), along with historical works like “Cabra Marcado Pra Morrer” (“Man Marked to Die”, 1984), was murdered by his son in his Rio de Janeiro home, according to initial investigations. Coutinho was a great listener and director who created surprising documentaries as he brought out people’s experiences and at times surreal stories. From “Edifício Master”, in which Coutinho documented the lives of families living in a 12-storey apartment block in Copacabana to the legion of peons (labourers) strikes, led by former

President Lula, head of the union at the time, in the 1980s he brought unique experiences to the wider public. Though his technique of conducting lengthy interviews meant that not many of his films were translated so they were not well known outside of Brazil. Coutinho liked to tell the story of real Brazilian people, the factory labourers, residents of Rio’s hills and those who were part of the syncretism of Brazilian religions. The recent social history of Brazil passed through the lens of Eduardo Coutinho and thanks to him is part of those who watch his films. The country lost a major talent who had cast a light on the various “Brazils” to audiences at home and afar. To know the work of Coutinho,

is to understand the nation and the Brazilian people a little more of - essential for those who want a deeper insight into the country. Tragically, on the same day – 2 February, the world of cinema lost another talent and the most versatile actor of our time, Philip Seymour Hoffman who died of a drug overdose aged just 46. Hoffman won an Oscar his lead in for “Capote” (2005) and was well known and respected for countless memorable roles including cult-leader Lancaster Dodd (“The Master”), Rock journalist Lester Bangs (“Almost Famous”) and Father Brendan Flynn (Doubt). Hoffman did announce that he had sought help through rehab last year though his death came as a surprise to many and leaves an immutable gap in the performing arts.

The loss of Eduardo Coutinho and Philip Seymour Hoffman leaves cinema a poorer place

photos: Divulgation

Cabras marcados para morrer Por Ricardo Somera

No começo do mês de fevereiro o cinema brasileiro perdeu um grande nome, Eduardo Coutinho, um dos mais importantes cineastas do Brasil. O documentarista responsável por clássicos modernos como Edifício Master (2002) e Peões (2004), além de registros históricos como Cabra Marcado Pra Morrer (1984), foi assassinado a facadas em seu apartamento no bairro do Jardim Botânico (Rio de Janeiro) pelo próprio filho, de acordo com as primeiras investigações. Coutinho era conhecido por ser um bom ouvinte, um diretor que deixava os personagens surpreender os expectadores a cada frame, com histórias surreais que pareciam roteirizadas de tão criativas – como o caso de Paulo Mata

(Edifício Máster), técnico de futebol que diz ter tirado a roupa em protesto a jogos comprados no campeonato carioca, ou a legião de peões que contam como foi a época vivida no ABC Paulista e a participação nas greves lideradas pelo ex-presidente Lula, na época sindicalista, na década de 1980 (Peões). Eduardo gostava de contar a história do povo brasileiro, do trabalhador braçal das fábricas, dos moradores dos morros cariocas e do sincretismo das religiões brasileiras. A história do Brasil recente passou pelas lentes de Eduardo Coutinho e está nas memórias dos cinéfilos e também no Youtube. O país perdeu um grande nome do cinema e

da sociedade que mostrava os diversos “Brasis” para os próprios brasileiros e para o mundo. Conhecer a obra de Coutinho é entender um pouco mais da nação e do povo brasileiro – indispensável para quem quer ter uma visão mais profunda de quem realmente somos e como agimos. Coincidentemente, no mesmo dia 2 de fevereiro, o cinema mundial perdeu o mais talentoso e versátil ator da atualidade, Philip Seymour Hoffman. Hoffman ganhou o Oscar pelo filme Capote (2005) e fez papéis memoráveis como o guia religioso Lancaster Dodd (O Mestre), o padre Brendan Flynn (A Dúvida) e o radialista The Count (Os Piratas do Rock). Vai deixar uma lacuna nas artes cênicas.


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Belo Horizonte: Packed with great local food, natural wonders and architectural beauties

TRAVEL Minas Gerais in Belo Horizonte is famed for it’s vibrant social and nightlife, and any duration of a stay will show that it really lives up to this expectation. Around restaurant and bar tables, “mineiros”, as the locals of Minas Gerais are nicknamed, treat eating and drinking as sacred acts and are quick to encourage visitors to join in this carefree way of life. Inspiring architecture, breath taking natural beauty, good weather and of course great regional food, enchant many tourists, city catering for all tastes. If you visit and wish to understand what the state of Minas Gerais and city of BH have accounted to the history of Brazil, reserve a day to tour the Liberty Square Cultural Circuit. Opened in 2010, the complex features of eight museums and cultural spaces and is home to one of the most

Photo: Cris Bonfatti Church of St. Francisco de Assis

BH: Das comidas típicas às belezas naturais e arquitetônicas

O que pensar de uma cidade que tem média de um bar para cada 170 pessoas? Pois é, este dado dá fama à badalada vida social de Belo Horizonte. E faz jus a tradição de que, nas mesas dos mineiros, os prazeres de beber e comer são sagrados, aproximando as pessoas com o jeitinho acolhedor que o mineiro recebe seus visitantes. As belezas arquitetônicas e naturais, as comidinhas típicas e o clima agradável de BH encantam e deixam a capital mineira mais charmosa, com muitas opções para todos os gostos. Para entender o que o Estado de Minas Gerais e BH representam para a história do Brasil, indispensável fazer o Circuito Cultural Praça da Liberdade. Inaugurado em 2010, o complexo reúne oito museus e espaços culturais na região central, num dos cartões-postais da cidade, com experiências

famous views of the city. If you are more of a design junkie than history buff, make sure you visit the Pampulha architectural complex designed by Niemeyer, which can be found 12 km from the centre. The area is a work of art in open space, the Church of St. Francisco de Assis, on the shores of the lagoon, is the most beautiful icon of BH. Gastronomic tour To enjoy the flavours Minas can offer, begin the day with a tasty breakfast, accompanied with local coffee and cheese bread. Then wonder around the Central Market and go on a discovery of colours, smells and sounds. Have lunch at one of the numerous restaurants specialising in local food, usually cooked to order right in front of diner’s eyes, proving that the flavours of Minas Gerais are

Photo: Visit Brazil Belo Horizonte overview

sensoriais além apreciação visual. Já o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetado por Niemeyer, a 12 km do centro, é uma obra de arte a céu aberto. A Igreja de São Francisco de Assis, às margens da lagoa, é a mais bela da cidade e um dos símbolos de Belo Horizonte. Roteiro gastronômico Apreciar os sabores mineiros pode começar cedinho com um saboroso café de minas, acompanhado de um pão de queijo. Em seguida, partir para uma descoberta de cores, cheiros e sons num lugar único, que abriga diversos aspectos da cultura mineira: o Mercado Central. Deixe o almoço por conta das inúmeras opções de comidas típicas e feitas praticamente aos olhos do freguês, provando os sabores mineiros que são um verdadeiro patrimônio histórico.


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Time Tunnel: Historic towns of Minas

something to be very proud of in the heritage of Brazilian culture. End the day in the capital of “botecos” (a kind of pub), with great regional delicacies like sausage, cracklings, cassava or pasties, washed down with a cold beer or an authentic “cachaça”. For those looking to embrace tradition to the most sophisticated foodies and hipsters there’s great local food and drink for everyone, especially if you head to the Savassi and Lourdes neighbourhoods. Ecotourism The imposing mountain ranges of Serra do Curral almost as a frame to Belo Horizonte, visible from different parts of the city. Serra do Curral stands as one of the main symbols of the city and in late 2012, the site became a Municipal Park

filled with trails and places to explore. For those looking to connect with nature, the park has ten lookouts, three of which can be accessed quickly by walking along safe and well-marked roads, so you don’t need to be an intrepid explorer to discover them! Though if you see yourself as a Bear Grylls type, you can explore the whole mountain, though you will need to schedule this with park’s authorities beforehand. For more information visit: www. parqueserradocurral.com.br.

After the discovery of gold and diamonds in the region, there was a massive migration of Portuguese people who previously lived on the coasts of Brazil. Between 1700 and 1800, the period of the Gold Cycle in Brazil, the historic towns in Minas Gerais were founded and much of the baroque architecture has been preserved till today. This, coupled with the natural beauties of the landscape means that more tourists are attracted to the area, which is thankfully well equipped to deal with the influx of tourists with everything provided whether it’s hiking or eating that you’re there to do. Here we give you a closer look at four of the region’s nine cities:

Tiradentes: This city is rich in traditional handicrafts (wood, brass, weaving), also some modern perks – known for its large supply of local sweets. In Lago das Forras, there is a monument to the martyrs of the Minas Conspiracy, which sparked the independence movement in Brazil and gave the city it’s name.

Ouro Preto: The best known of all the cities of the region thanks to the magnificence of its buildings and the preservation of historic streets, Ouro Preto was named after the colour of the gold nuggets that were found in its mines, black on the outside and shiny within.

Photo: Visit Brazil Central Market

Photo: Visit Brazil and city of Tiradentes

Túnel do Tempo: Cidades históricas de Minas

Para acabar o dia na capital dos botecos, nada mais justo que um tour acompanhado por linguiça, torresmo e mandioca ou o pastelzinho de angu, chope gelado e em uma autêntica cachaça. Dos mais simples e tradicionais aos mais sofisticados e moderninhos, uma característica é comum a todos eles: o capricho na hora de preparar os petiscos tipicamente mineiros. Uma sugestão é são os bairros Savassi e Lourdes. Ecoturismo Moldura de Belo Horizonte, visível de diferentes pontos da capital, a Serra do Curral se impõe como um dos principais símbolos da capital mineira. No final de 2012, o local virou Parque Municipal e agora conta com trilhas, mirantes e praças de convívio. Para quem busca o contato com a natureza sem

muitos obstáculos, o parque conta com dez mirantes e os três primeiros podem ser acessados com pequenas caminhadas em estradas largas, seguras e bem sinalizadas. Já os mais aventureiros têm a opção de fazer a travessia completa da serra. Neste caso, é necessário fazer o agendamento no parque. A duração estimada da trilha é de três horas. Mais informações: www.parqueserradocurral.com.br.

Depois da descoberta de ouro e diamante na região, houve uma massiva migração de portugueses que até então viviam no litoral do Brasil. Entre 1700 e 1800 - período do Ciclo do Ouro surgiram as cidades históricas de Minas Gerais, que até hoje preservam igrejas e monumentos que documentam a arte barroca da época. Com as belezas naturais que formam o cenário da região, cada vez mais turistas são atraídos para o local, que conta com infra-estrutura necessária para a prática de esportes voltados à natureza, como caminhadas, rafting e escalada. Das nove cidades da região, o Brasil Observer selecionou quatro que são as mais conhecidas.

Tiradentes: Cidade rica em artesanato (em madeira, latão, tecelagem), com grande oferta também de doces mineiros. No Lago das Forras, há um monumento ao mártir da Inconfidência Mineira que dá nome ao município.

Ouro Preto: Mais conhecida entre todas as cidades de região pela magnificência de suas edificações e pela preservação das ruas, Ouro Preto ganhou o nome da cor das pepitas de ouro que foram encontradas em suas minas, pretas por fora e reluzentes por dentro. Em sua praça principal foram expostas partes do corpo de Tiradentes.


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GOING OUT PENTA: BRAZILIAN FASHION EXHIBITION

EL CARACAZO February 25, 2014

February 10 – 18, 2014

Where Bolívar Hall / Tickets Free >> http://goo.gl/g0GM7L

Where Embassy of Brazil / Tickets Free >> culturalbrazil.org

El Caracazo is 2005 Venezuelan historical film that deals with the events of El Caracazo on 27 February 1989 in and around Caracas. It was produced and directed by the veteran Venezuelan filmmaker Roman Chalbaud. Part of the Bolíwood season.

Total Immersion: VILLA LOBOS

London-based designers, Barbara Casasola (photo), Lucas Nascimento and Fernando Jorge, as well as two emerging talents from Brazil, Vitorino Campos and Guilherme Vieira, participate in Brazil’s inaugural International Fashion Showcase exhibit.

Adriano Adewale & DELE SOSIMI

STONECRABS YOUNG DIRECTORS FESTIVAL

March 8, 2014

March 7, 2014

February 27, 28 & March 1, 2014 Where Albany Theatre / Tickets £5 per show or £12 per evening >> stonecrabs.co.uk

There’s no doubt Villa-Lobos was an iconoclast whose raw, zestful music gave expression to a vibrant new polyglot culture. We welcome Celso Antunes (photo) from Sao Paolo to conduct the BBC Singers, and soprano Anu Komsi, who is soloist in the popular and beautiful Bachiana brasileira No. 5. The concert is part of a day dedicated to the Brazilian composer.

The ABC Trust Danceathon will feature a diverse range of Brazilian dance lessons, including Axé, Frevo, Carnival Samba, Gafiera, Forro and Coco. You can buy a ticket for £35 and take part in as many of the classes you like, or you can register for free and pledge to raise £100 to help thousands of children across Brazil.

Eight piece Afro-Brazilian band led by Adriano Adewale (photo) and singer/keyboard player Dele Sosimi will explore the magic of Brazil and Nigeria’s music, playing styles such as samba and Afro-beat.

Where Barbican Hall / Tickets £10-32

Where Rich Mix / Tickets from £12

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MIND & SOUL

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VALUES OF THE SOUL PEACE This is calmness and non-violence. It can relate to a reconnection with harmony and quite self contemplation. This can be peace with yourself, with others and with your past - if there is any aspect of the past that you have not reflected and accepted it will continue to affect the present, try and move on and be consistent in what you do. PURITY This relates to the authenticity, sincerity, honesty and transparency of the soul. In modern life this is what we miss most, because we often leave the more authentic, real and pure self and reside in the periphery of being, taking up identities, roles, temporary and permanent labels. LOVE True love is what you give to others without desire, without tethering, without control, without you or the other person losing their freedom. With meditation, you can learn to recover this dimension of universal love. THE INNATE WISDOM It is the wisdom of our intuition that guides us. When you connect with your intuition, not failures, you become wise. To access this wisdom, we need to find this “connection” between intuition and conscience and we need to listen to it. FREEDOM The basis of happiness is true freedom. Feel the true fullness of being, not a fullness that comes from the outside, but what emerges and spreads from the inside out. Each of us is a star with five points. Each one is unique and should not be afraid to shine, be unique and be different. Meditation helps to hear the voice that tunes your being with originally peaceful, authentic, loving, wise and free.

The soulful spiritual being, has faculties of the mind to think, imagine, dream, wish; the intellect to analyse, reason, discern, decide and also the archive of memory, where we store our experiences, beliefs, habits and conditioning. When we are aware of it, we realize that we are spiritual beings having a physical experience, not physical beings trying to have a spiritual experience. This awareness is like a five-pointed star, with each point representing one of the core values of the soul.

A alma, o ser espiritual, tem faculdades da mente para pensar, imaginar, sonhar, desejar; do intelecto para analisar, raciocinar, discernir, decidir; e também dos arquivos da memória, onde estão as lembranças, as crenças, os hábitos e os condicionamentos. Quando estamos conscientes disso, sabemos que somos seres espirituais tendo uma experiência física, e não seres físicos tentando ter uma experiência espiritual. Esse ser é como uma estrela de cinco pontas. Cada uma dessas pontas representa um dos valores essenciais da alma.

A PAZ É serenidade e não violência. É reconectar-se com a harmonia e estar tranqüilo consigo mesmo. A paz com os outros, a paz com seu passado – se houver algum aspecto do passado que você não superou ou integrou, isso afeta o presente – e ser coerente com o que faz. A PUREZA A autenticidade, a sinceridade, a honestidade, a transparência. Hoje em dia isso é o que mais sentimos falta, porque deixamos o centro mais autêntico, real e puro do ser e residimos na periferia do ser: em identidades, papéis e rótulos temporários e passageiros. O AMOR O amor verdadeiro é o que se dá ao outro sem desejar, sem se amarrar, sem controlar, sem a outra pessoa perder a liberdade e nem você a sua. Com a meditação, você aprende a recuperar essa dimensão do amor universal. A SABEDORIA INATA É a sabedoria da nossa intuição, a que nos orienta. Quando você se conecta com sua intuição, não falha. Você, o ser, é sábio. Para acessar essa sabedoria, precisamos estar com essa “ligação” entre intuição e consciência bem apurada. E precisamos dar ouvidos a ela. A LIBERDADE A base da felicidade é a verdadeira liberdade. Sentir a verdadeira plenitude do ser, uma plenitude que não vem de fora para dentro, mas que emerge e se transmite de dentro para fora. Cada um de nós é uma estrela com cinco pontas. Cada um é único e não deve temer brilhar, ser único e ser diferente. A meditação ajuda a ouvir a voz que sintoniza com seu ser originalmente pacífico, autêntico, amoroso, sábio e livre.

VALORES DA ALMA Por Inner Space (innerspace.org.uk)


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FOOD Lentil Soup

Sopa de Lentilha

P R E P A R A T I O N

P R E P A R A Ç Ã O

In a casserole dish, heat the olive oil and fry the garlic and onion until soft and translucent (about 7 minutes). Add the lentils, salt and 3 cups of hot water. Leave on medium heat until the lentils soften, about 20 minutes. Add the potatoes, carrots, chorizo, pepper, basil and 2 cups of water cook for 10 minutes. Turn off the heat and stir in the parsley and chives. Serve immediately with crusty bread – perfect on a cold spring day!

Em uma panela de pressão aquecer o óleo ou azeite e refogar o alho e a cebola. Acrescentar lentilha, sal e três xícaras de água quente. Deixar no fogo até amolecer a lentilha, cerca de 20 minutos. Acrescente batata, cenoura, calabresa, manjericão, pimenta e mais duas xícaras de água quente. Deixar por 10 minutos após pegar pressão. Desligar o fogo e colocar a salsinha e cebolinha. Servir em seguida.

Ingredients 1 and 1/2 cups lentils 3 potatoes, peeled and diced 1 large carrot, diced 1 red chili, deseeded (optional) Salt, basil, parsley and chives to taste 1 onion, chopped 2 cloves of garlic squeezed 10 cm chorizo, diced 2 table spoons olive oil

Ingredientes Ingredientes: 1 xícara e meia de lentilha 3 batatas descascadas e cortadas em cubos 1 cenoura grande em cubos 1 gomo de linguiça calabresa em cubos 1 pimenta dedo de moça sem sementes picadinha (opcional)

Sal, manjericão, salsinha e cebolinha a gosto 1 cebola picada 2 dentes de alho espremidos 2 colheres (sopa) de óleo ou azeite

By Luciane Sorrino

Brasil Observer #005 Portuguese Version  

Campanha 'It's a Penalty' contra a prostituição infantil no Brasil durante a Copa.

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