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edição especial

Quanto vale o São Francisco? a bril de 2019

circulação nordeste

distribuição gratuita

A lama já chegou ao São Francisco.

E agora?

MAPA DNIT

Rede Brasil Atual


2 | Quanto vale o São Francisco?

abril de 2019

EDITORIAL

O que o Rio São Francisco significa na sua vida?

Quanto Vale o Estado brasileiro?

Queila Patricia Silva Santos,

Professora de Língua portuguesa de Juazeiro (BA) nquanto ribeirinha, nascida e criada às margens do “E São Francisco, afirmo sem titubear que esse Rio é minha vida. Vida em permanente pulsar, pois dele depende nos-

sa sobrevivência, a sobrevivência de todas e todos do Vale do São Francisco; toda forma de produção e sustento das famílias na região se mantém por conta do São Francisco. A morte do São Francisco é a morte de parte relevante da História do Brasil.”

João Pedro Ramalho,

jornalista de Sobradinho (BA) Velho Chico, para mim, significa vida. Embora não me “O banhe em suas águas na frequência que gostaria, passo por ele todos os dias a caminho do trabalho e o vento que vem

LAMA. Defender os bens naturais é defender a soberania do Brasil. Rio São Francisco é O fonte de vida para o Semiárido, hoje este rio de

vida está ameaçado pela contaminação tóxica dos rejeitos que vazaram com o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Mas, para os empresários que compraram a Vale do Rio Doce ao Estado brasileiro no governo de FHC isto não importa, assim como não importa as mortes causadas por suas ações em Mariana e Brumadinho. No momento em que estas linhas são lidas, estes mesmos senhores devem estar a administrar suas fortunas, elaborando planilhas para novas extrações, contratando advogados que amenizem as punições que a justiça por ventura venha a lhes impor por seus crimes. Denunciar os impactos

sociais e ambientais de grandes empresas que lucram com nossos minérios e no caso em questão, os impactos sobre o Rio São Francisco, é fundamental para combater a impunidade que permite a estes senhores do capital continuar a comercializar a soberania do nosso país. Apontar a relação de promiscuidade entre o Estado brasileiro e as grandes empresas é decifrar o grande mistério que por vezes nos atordoa. Por que uma empresa privada tem mais direitos do que os milhões de brasileiros e brasileiras afetados em nome dos lucros destas mesmas empresas? Já que o Estado é covarde de mais para punir os verdadeiros responsáveis pela contaminação do Velho Chico, resta à sociedade civil se organizar para impedir o avanço destrutivo destas empresas. Defender a nossas riquezas naturais e a soberania do nosso povo, ainda mais agora que temos um governo submisso aos interesses de nações estrangeiras.

junto com as águas renova as energias. O rio carrega vida em suas águas, a fauna, a flora. Ele também leva vida ás pessoas que moram nas suas margens, que dependem dele. Em Sobradinho, as pessoas atingidas com a construção da barragem foram colocadas em locais distantes do rio e isso afetou a forma de vida e a identidade dessas pessoas, que ainda estão ligadas a ele.”

Damião Rodrigues,

Agente Comunitário de Saúde de Poço Redondo (SE) Rio São Francisco é como se fosse um parente próxi“O mo, alguém da família. O amor que eu tenho pelo rio é mesmo que tenho por meu pai e minha mãe, porque precisa

ser cuidado todos os dias. É inexplicável o que eu sinto. Cada vez que vejo o rio morrendo, é como se a gente fosse morrendo junto com ele. Eu costumo ir muito ao rio para ouvir o barulho das águas, do vento, das árvores e a gente cria esse sentimento enorme por ele. O rio é fundamental para minha existência, porque sinto que eu preciso dele e ele de mim para seguir resistindo a todas essas ameaças.”

Emanuella Rosa,

advogada de Petrolina (PE) ra mim, o São Francisco é vida, alimento e resistência; “P é a tradução da luta de homens e mulheres do campo. Mas também é a satisfação e alegria de assistir o sol ir embora através de suas águas e contemplar sua grandeza.”

Patrick Witte,

estudante de Petrolina (PE) rio significa pra mim fonte de vida como um todo, des“O de o básico e mais fundamental que é a disponibilidade de água para beber, tomar banho, o alimento fornecido por

ele e a retenção de calor que é fundamental na nossa região tão quente. O rio nessas cidades foi o que possibilitou o crescimento econômico, tornando Petrolina e Juazeiro o polo da fruticultura brasi- leira, assim como também uma cidade de turismo e rota rodoviária de caminhões e ônibus. O rio São Francisco é de extrema importância para sobrevivência do nosso povo.”


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Quanto vale o São Francisco? | 3

Artigo

Mineração em Minas Gerais ameaça o São Francisco Maria Júlia Gomes Andrade*

A

mineração em Minas Gerais (MG) gera muitos perigos para o São Francisco. Os rejeitos do rompimento da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho foram para o Rio Paraopeba, importante afluente do São Francisco, gerando contaminação. Destruíram casas, plantações e inviabilizou o abastecimento de populações. Organizações que tem feito a medição da qualidade da água do Paraopeba afirmam que, no trecho que a lama de rejeitos da Vale, passou o rio está morto. A população afirma o mesmo: não tem mais peixe, não

Não é a primeira vez que a Vale contamina um importante rio do Brasil tem mais sapos, não tem mais cor nem cheiro de água. A situação do Paraopeba é fundamental para entendermos o impacto que se dará no São Francisco. Não é a primeira vez que a Vale contamina um importante rio do Brasil. O rompimento em Mariana, em 2015, foi de

responsabilidade da Samarco, Vale e BHP Billiton. Muitos pesquisadores afirmam que é irreversível o dano causado e que o Rio Doce nunca mais vai voltar a ser o que era. A situação dos pescadores e pescadoras certamente nunca voltou a ser a mesma. Em barragens de rejeitos, como as que se romperam, além do minério de ferro, têm-se uma concentração residual de metais pesados, que ao serem expostos nos cursos d’água se tornam perigosos para a fauna, flora e para a saúde humana. Em 2018, foi divulgada uma pesquisa na qual foi constatada que moradores de Barra Longa (MG) estavam contaminados com metais pesados, de-

senvolvendo por causa disso inúmeros problemas de saúde. Neste momento estamos vivendo o risco de novos rompimentos de barragens de rejeitos em MG. São muitas as barragens agora em risco de alerta máximo, com algumas em nível 3, o que significa na classificação da Agência Nacional de Mineração (ANM) a possibilidade de rompimento iminente. Destaco três situações: a mina Mar Azul, o Complexo Vargem Grande e o Complexo Fábrica, todas na região metropolitana de Belo Horizonte. O medo passou a dominar a vida das pessoas de todos os locais que podem ser atingidos. O que tem em comum estes três complexos? Todos

pertencem à mineradora Vale e todos estão inseridos na Bacia do Rio das Velhas, outro importante afluente do São Francisco em MG. Em caso de rompimentos, muitos municípios mineiros sofreriam a destruição e o São Francisco receberia, novamente, um alto volume de rejeitos tóxicos. Se o povo não se organizar em toda a Bacia do São Francisco para dar um basta nestes crimes que se repetem, poderemos ter em breve um colapso ainda maior e um comprometimento irreversível das águas do Velho Chico. É antropóloga e compõe a Coordenação Nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração

Artigo

Quanto vale o São Francisco? Moisés Borges*

N

o dia 25 de janeiro o mundo presenciou mais um crime cometido pela mineradora VALE em Minas Gerais. Privatizada em 1997, a empresa é reincidente em assassinatos, matou 19 pessoas com a sua comparsa BHP Billiton em Mariana e na região de Brumadinho já há confirmação de 218 vítimas fatais, podendo ampliar esse número e chegar a um total de mais de 300 pessoas. O maior massacre social causado por uma empresa em nosso país. Os danos ambientais também são preo-

São mais de 500 municípios que dependem de suas águas cupantes, foram aproximadamente 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos que contaminaram a Bacia do Rio São Francisco, atingindo primeiramente o Rio Paraopeba e chegará no Rio São Francisco através da Hidrelétrica de Três Marias. Já são 90 quilômetros de rio morto, intoxicado por metais pesados presente na lama. E aí está o grande risco para nós nordestinos.

É bem provável que o rejeito, ou seja, a parte densa da lama seja contida nas hidrelétricas de Retiro Baixo e Três Marias, no entanto as barragens em algum momento terão que liberar a água que está contaminada com os metais pesados para também não romperem. Segundo o informativo de 30 de janeiro do Instituto Mineiro de Gestão das Águas, foram encontrados no Rio Paraopeba

índices acima do normal de níquel, chumbo, mercúrio, cádmio, zinco, entre outros metais pesados bem como baixo oxigênio na água, grande turbidez entre outros índices fora do padrão. Ainda não é possível dimensionar qual o nível de contaminação que o Velho Chico sofrerá, mas será inevitável. São mais de 500 municípios que dependem de suas águas, são pessoas, comunidades, todo um rio, está em risco em uma região semiárida que depende dessa grande riqueza. É importante que os estados do Nordeste banhados pelo Rio monitorem o avanço dessa

contaminação, na perspectiva de antever os problemas construindo, se necessário, alternativas que minimizem mais esse crime causado pela ganância da VALE, que coloca o lucro de seus acionistas acima da vida. É inadmissível que mais esse crime permaneça impune, os diretores, responsáveis por essa empresa devem ser presos e responder criminalmente pelos seus atos. Seguiremos em luta, defendendo o Velho Chico e os direitos das populações atingidas. *É militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)


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Quanto vale o São Francisco?

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Rejeitos de Brumadinho chegam ao São Francisco e autoridades ainda não têm plano Barragem de Sobradinho

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mais em questão se os rejeitos chegarão ou não às cidades que margeiam o Velho Francisco, mas quando eles chegarão. Ela avisa, no entanto, que a contaminação não deve ser com a mesma força que ocorreu no Paraopeba. “O volume de rejeitos não terá a mesma concentração, porque a massa de água do São Francisco é muito maior. Mas isso não significa que estamos livres da contaminação. Ela chegará à nossa água, nosso alimento e

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m 25 de janeiro, quando a barragem de Córrego do Feijão rompeu e devastou Brumadinho, poucos perceberam que o crime e a lama poderiam afetar a região Nordeste do país. Mas não tardou até que os rejeitos de minério matassem o rio Paraopeba, afluente do São Francisco em Minas Gerais, comprometendo a vida vegetal e animal na zona de mata atlântica, e seguissem em direção ao Velho Chico. No dia 22 de março, a Fundação SOS Mata Atlântica divulgou relatório informando que entre os dias 8 e 14 de março o alto São Francisco já apresentava grande concentração de ferro, cobre, cromo e manganês, tornando a água imprópria para o uso da população. Segundo os pesquisadores, em alguns trechos no início do rio a água está visivelmente turva. A camada espessa da lama tóxica foi contida ainda na barragem de Retiro Baixo e parte dos minérios estão

Cabrobró

da

Vinícius Sobreira

se sedimentando no fundo do rio antes mesmo da barragem de Três Marias, ambas em Minas Gerais. No entanto, os minérios finos conseguem passar pelas represas, que seguem funcionando apesar da água escura. “A lama grossa, que chamam de ‘pluma’, ficou contida em Retiro Baixo. Mas, a lama fina está passando pelas turbinas e a bacia do São Francisco já está sendo contaminada”, atesta Carine Guedes, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Minas Gerais, que mora próxima ao São Francisco. “Mesmo que fechassem as represas e os rejeitos fossem contidos, em algum momento as comportas teriam que ser abertas”, avisa. Carine diz que não está

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RISCO. Poderes municipais, estadual e federal ainda não sabem o que fazer para proteger o Velho Chico e as comunidades

pode afetar nossa saúde”, lamenta. A vereadora Cristina Costa (PT), de Petrolina, integra uma comissão de parlamentares que têm se voltado para o tema. Ela e o vereador Ronaldo Souza (PTB) visitaram Brumadinho e cidades da região no curso do Paraopeba e alto São Francisco, estudando os impactos sociais, ambientais e econômicos causados pelos rejeitos, além de buscar informações com autoridades mineiras e com a própria Vale. Após a incursão, Costa trouxe para o estado amostras de água para serem estudadas na Universidade do Vale do São Francisco (Univasf) e na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), numa tentativa de pensar maneiras de reduzir o impacto dos minérios. “Nossa preocupação não é Petrolina ser reconhecida como atingida, mas unir forças

para impedir a contaminação no nosso trecho. O São Francisco é a sobrevivência dos pescadores”, diz Cristina. O deputado estadual Lucas Ramos (PSB/PE), natural de Petrolina, coordena a Frente Parlamentar em Defesa do Rio São Francisco e conta que o grupo de deputados tem buscado informações sobre os possíveis impactos ao longo do rio: “As famílias de agricultores, que geram a maior parte dos alimentos consumidos por nós, dependem das boas condições do São Francisco”. O deputado lembra, ainda, que o turismo ecológico é forte na região. O parlamentar também alerta que a contaminação tende a afetar a principal atividade econômica da região: a fruticultura. “Além da água que consumimos em casa, tem a questão da irrigação agrícola, com 200 mil postos de trabalho que dependem diretamente do São Francisco”, diz Lucas Ramos. Cristina Costa também teme possíveis impactos para os trabalhadores da fruticultura: “A poluição pode afetar a qualidade das frutas. Tomara que não usem mais agrotóxicos na tentativa de conter os metais nas frutas. Isso com-

200 mil postos de trabalho dependem do São Francisco promete a qualidade do alimento e a saúde dos trabalhadores do ramo. Já temos um índice alto de câncer na região”. No último dia 28 de março a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) divulgou nota técnica confirmando a chegada dos rejeitos de minérios ao alto São Francisco. A Fundaj vem monitorando o curso da lama através de imagens capturadas por satélites. Os pesquisadores usaram um algoritmo para calcular a diferença de energia eletromagnética refletida pelo rio a cada período de tempo, permitindo detectar a contaminação que não está visível aos olhos humanos. Pelos cálculos da Fundaj, os rejeitos chegaram ao São Francisco no dia 12 de março. A falta de informações tem sido uma violação extra por parte do poder público e da Vale contra as pessoas que já foram atingidas ou


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Quanto vale o São Francisco? |5 Vinícius Sobreira

Sidney Mamede*

estão no caminho dos rejeitos de minérios. “Não existe qualquer nota da Vale sobre a chegada dos minérios ao São Francisco. A empresa mantém essas informações”, se queixa Carine Guedes. Segundo a militante do MAB, a população mineira tem buscado informações principalmente através do Ministério Público e do movimento. “Boa parte do PIB (Produto Interno Bruto) de Minas Gerais vem da mineração. Então existe uma articulação da Vale por dentro dos municípios e do próprio estado”, lamenta Guedes, que aponta concentração de informação nas mãos da empresa e a dificuldade criada para os atingidos terem acesso a dados importantes. Lucas Ramos (PSB) também se queixa quanto aos posicionamentos oficiais. “As pessoas estão inseguras, com pouca informação e há um sentimento de completo abandono por parte do poder público”, diz o deputado, que lembra, ainda, que o Ministério do Desenvolvimento e Interior che-

Unir forças para impedir a contaminação gou a negar que o São Francisco estivesse contaminado. O discurso foi repetido pela Agência Nacional de Águas (ANA) e Ibama. A vereadora Cristina Costa (PT), que foi até a Vale buscar informações, sentiu as dificuldades na pele: “A usina de Três Marias pertence a Cemig (empresa estatal de energia de Minas Gerais) e eles não estão permitindo o acesso a informação. A relação se dá apenas entre a Vale e o Governo de Minas. Os municípios estão sendo deixados de fora e a população está tentando se mobilizar para receber indenização”. Costa se disse chocada com o domínio que a Vale exerce sobre o poder público em Minas Gerais. “Quem administra Minas Gerais é a Vale. Eles estão preocupados de verdade em pro-

teger a Vale. Mas nós não. Aqui temos que proteger o São Francisco”, resume. O rio São Francisco passa por cinco estados brasileiros e banha mais de 500 municípios. Em Pernambuco, municípios do sertão como Petrolina, Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista, Cabrobó, Belém do São Francisco, Floresta, Petrolândia e Jatobá estão no curso do rio e podem ser afetados em maior ou menor medida pela contaminação por rejeitos de minérios de Brumadinho. Uma das formas de trocar informações, reunir os órgãos e levar o tema para a imprensa e para a população é a realização de debates abertos. Com esse objetivo, estão sendo agendadas para o mês de maio audiências públicas para apresentar informações e pensar um plano de ações que reduzam os impactos de uma contaminação do Velho Chico. Os debates estão sendo promovi-

dos pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) em parceria com as câmaras de vereadores de várias cidades. O Brasil de Fato fez contato com a Prefeitura de Petrolina, mas, até o fechamento desta edição, o executivo municipal não deu respostas. Porém, através das redes sociais, em resposta a questionamentos de cidadãos sobre a ausência de informações sobre o tema, o perfil oficial do prefeito Miguel Coelho (PSB) afirmou que a prefeitura tem intensificado a medição da qualidade da água e de a entender que sim, a cidade será afetada: “Todos os municípios no curso do São Francisco e dos demais rios por onde a lama passou são vítimas do grave crime de Brumadinho”. Buscado pelo Brasil de Fato, o Governo de Pernambuco seguiu a linha de não tomar a responsabilidade para si. Através da Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC), o Governo do Estado afirmou que “a gestão das águas do rio São

Francisco é feita pela ANA. O Governo do Estado participa de reuniões periódicas com a Agência”, resumiu. Contatada pelo Brasil de Fato, a ANA respondeu que não tem dados para confirmar que o São Francisco esteja contaminado. A agência solicitou à Vale que sejam instalados novos pontos de monitoramento da água, mas o foco prioritário tem sido o rio Paraopeba, cujos dados têm sido divulgados pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), pertencente ao Governo de Minas Gerais. A vereadora Cristina Costa (PT) considera que os estados do Nordeste precisam se organizar e pressionar o Governo Federal e o Governo de Minas Gerais para que seja adotada uma legislação mais rígida para barragens de mineração. O deputado Lucas Ramos (PSB) concorda: “Pernambuco não possui nenhuma barragem de minério e isso não deveria ser uma preocupação do nosso estado. É inadmissível esperar novos acidentes para fazer mudanças”.


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Qual o impacto da contaminação do São Francisco? Para os pescadores

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Para o abastecimento

Antônio Silva

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ara quem trabalha com a pesca artesanal, são diversos impactos de diferentes dimensões, desde a contaminação e extinção de algumas espécies de pescado até o adoecimento físico e mental dos pescadores e pescadoras, como explica Elionice Sacramento, do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais. “A contaminação impacta as espécies de pescado e impacta os pescadores e as pescadoras na saúde física, porque são corpos que estão em imersos nessas águas contaminadas e que tem o rio como um ambiente de trabalho. Há também o adoecimento mental porque aqueles trabalhadores vêem o seu território de vida, identidade e sustento impactado”, afirma. Um outro problema elencado é a falta de comunicação do Estado sobre os níveis e locais de contaminação, o que gera desinformação sobre as áreas ainda disponíveis para a pesca: “A nossa missão, que é colocar na mesa de todo brasileiro alimentos de qualidade fica comprometida quando a gente não tem o apoio do Estado no sentido de tentar políticas públicas com seriedade, porque existe um conflito em relação a divulgação ou não, a confirmação ou não dessas notícias [sobre a contaminação]. O Estado fica tentando dissimular o problema porque não quer tratar e ás vezes a gente fica na situação de ter que compactuar com esse silenciamento” ressalta.

Para a agricultura

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Agência Brasil

FUNDAJ

S

e a contaminação das águas do Velho Chico com o esgoto vindo das cidades já preocupa, a chegada dos resíduos tóxicos pode impedir a população de consumir a água, como explica João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco: “Existem tecnologias nas estações de tratamento que deixam a água contaminada com o esgoto potável, mas água com rejeitos não, porque os metais pesados não são retirados com a tecnologia atual das estações de tratamento”. Um dos maiores problemas relacionados ao consumo da água com metais pesados como chumbo, zinco, ferro, mercúrio e outras substâncias é o comprometimento da saúde da população. “Eles são muito prejudiciais para a vida das pessoas. Esses metais podem ocasionar problemas neurológicos, por isso o cuidado com esse tema”, explica. Hoje, a lama tóxica está no curso do Rio Paraopeba e nas barragens que vão em direção ao São Francisco, assim, frequentemente as chuvas nessa região podem misturar novamente o resíduo tóxico com a água. Uma solução apontada por João é a retirada mecânica dos resíduos, mas isso pode gerar outros problemas: “O que a gente não pode é transferir problemas. O rejeito tem que ser tirado, mas vamos botar aonde? dependendo de onde esse rejeito for colocado, ele vai contaminar outro afluente do rio” questiona.

N

a produção de alimentos, o principal problema é a contaminação. Levando em consideração que os alimentos agroecológicos e vindos da agricultura familiar são uma opção saudável e segura, a contaminação desses alimentos com metais pesados pode causar o mesmo impacto do que o consumo direto da água. Um outro problema na produção dos alimentos com a água são os possíveis problemas de saúde aos produtores, que terão contato diário com água contaminada e também aos alimentos, que podem reduzir em quantidade e qualidade, já que a água utilizada na irrigação estará imprópria. Além disso, Cícero Félix, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), reforça o impacto na vida da população que consome os alimentos e das comunidades que os produzem: “Em cadeia, toda a população está sendo atingida. São impactos ambientais, econômicos e sociais, porque a capacidade de produção e a qualidade desses alimentos fica comprometida. Os impactos ainda são imensuráveis. A vida das pessoas é afetada nessa instabilidade de não saber que tipo de água estão usando para diversas finalidades. São águas que vem para promover a vida ou para provocar a morte de plantas, peixes e até pessoas?”


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Como podemos cuidar do Rio São Francisco?

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”Elionice Sacramento, integrante do Conselho Pastoral dos Pescadores

Aristides Santos, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG)

rimeiro, é importante se pensar que o rio São Francisco é um patrimônio de todo o povo. Cuidar do rio também é responsabilidade de todos nós. Por outro lado, a gente precisa que o governo brasileiro seja mais responsável com a saúde do ambiente e das pessoas. Porque, na proporção que o governo licencia empreendimentos de grande porte, sem respeitar o ambiente, o curso do rio e a vida, a gente vai continuar tendo diversos problemas. Então, a gente precisa ter uma sociedade mais consciente da importância da natureza e que a gestão pública cumpra seu papel.

fundamental cuidar do Rio São Francisco, o Rio da integração nacional. Temas como saneamento, controle de poluição e obras hídricas; proteção e uso de recursos naturais; economias sustentáveis; gestão e educação ambiental e planejamento e monitoramento são importantes. O mais importante, é cuidar do meio ambiente e dos povos que vivem em torno do rio São Francisco. Cuidar das comunidades tradicionais, remanescentes quilombolas e dos agricultores familiares, os setores que mais precisam de um São Francisco vivo e pulsante.”

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Dom Gabriele Marchesi, Bispo de Floresta (PE)

Alexandre Pires, coordenador da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)

questão não é simples. O que aconteceu lá em Brumadinho, nos está dizendo que não temos um cuidado muito grande com o rio. Então, eu penso primeiro, olhar de novo para o rio como uma fonte de vida. Nós, como diocese, fizemos uma assembléia das pastorais sociais e um ponto que foi destacado foi justamente o cuidado com o rio São Francisco. Tem gente dizendo que as consequências de Brumadinho estão chegando, tem gente dizendo que não. Não sei se vamos conseguir defender totalmente o São Francisco. Temos que convocar o nosso povo, os nossos representantes e os gestores dos municípios, para olharem diferente para o rio.”

caso do rompimento de barragens em Brumadino (MG) mostra o risco que nossas águas correm com a busca por lucros de empresas da mineração. Para nós da ASA, há uma urgente e iminente necessidade de se investir em processos descentralizados de recuperação das microbacias hidrográficas, processos que estejam sob a gestão de agricultores/as familiares, investir em sistemas simplificados, descentralizados e comunitários de abastecimento de água, cobrar do agronegócio e das mineradoras pelo uso da água e a degradação causada de suas práticas, e construir e fazer cumprir a legislação que proteja o São Francisco.”


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Confira a edição especial do Brasil de Fato Pernambuco sobre o Rio São Francisco

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