BdF - edição 38

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PERNAMBUCO | 7

ENTREVISTA | 11

Ana Cañas:

Ser LGBT não é doença

Pessoas LGBTs opinam sobre liminar que autoriza tratamento psicológico para curar homossexualidade, a chamada “Cura Gay” Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

ano 2

edição 38

distribuição gratuita divulgação do MST

Pernambuco

Cantora se apresentou no circuito cultural do MST no RN e falou sobre arte, cultura popular e conjuntura política

Teatro do Parque sofre com abandono OPINIÃO | 5 Cidade é cultura:

Destruir o patrimônio histórico é destruir a memória recifense

MUND0 | 7 Alemanha:

Por que governos da América Latina são ditaduras e o quarto mandato de Merkel não?

CIDADES| 10

Calendário de lutas feministas:

Mulheres organizadas contra os ataques aos direitos da população


Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

2 | OPINIÃO

Brasil de Fato PE

EDITORIAL

Por que precisamos falar sobre aborto?

DIREITOS REPRODUTIVOS. Dia 28 de setembro é o Dia Latinoamericano e Caribenho de luta pela Descriminalização do Aborto. tema do aborO to é cercado de tabus, pouco se fala publi-

camente do tema, mas a prática é antiga e popular. Quando buscamos estudos, observamos que o tema é debatido pelos gregos na Antiguidade, pelos romanos, e por várias civilizações

fontes onde a vontade e a autonomia das mulheres versam sobre o tema, elas estão sempre subordinas a vontade dos maridos, do estado e das religiões. No Brasil, o tema ainda é pouco debatido publicamente e cheio de tabus, a prática do aborto é

No Brasil o tema ainda é pouco debatido publicamente e cheio de tabus no decorrer da História. Cada civilização encarava de uma forma diferente, foi uma prática aceita em muitas delas para controlar a natalidade e como forma de eugenia, ou seja, controle de quem poderia nascer, controle da raça e classe social. É raro encontrar

considerada crime, com exceção de anencefalia do feto – que é um defeito na formação do tubo neural de um bebê durante o desenvolvimento. Um bebê que nasce com anencefalia pode ser natimorto ou sobreviver apenas algumas horas ou dias após o nascimento -

risco de vida para a mulher, e em casos de estupro. O que está em jogo é a vida das mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA/2016) 3,7 milhões de mulheres entre 15 e 49 anos realizam aborto, ou seja, 7,2% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil. A sociedade precisa compreender que o aborto é uma questão de saúde pública, que esse fenômeno é uma questão de cuidados em saúde e direitos humanos, e não como um ato de infração moral de mulheres levianas. A maioria das mulheres que abortaram e buscaram o serviço público de saúde são jovens, pobres e católicas e já possuem filhos. Na contramão da lei vigente que permite o aborto nos casos citados acima, avançam na Câmara dos Deputados projetos de lei que visam reduzir ainda mais os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Os que mais se destacam

Expediente Brasil de Fato PE O jornal Brasil de Fato circula em todo o país, com edições regionais em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco. O Brasil de Fato PE circula quinzenalmente às sextas feiras. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais.

REDE SOCIAL: facebook.com/brasildefatopernambuco Correio: brasildefatopernambuco@brasildefato.com.br

Edição: Monyse Ravenna (DRT/CE 1032) | Redação: Catarina de Angola, Daniel Lamir, Marcos Barbosa e Vinícius Sobreira Colaboração: André Barreto, Daniel Lamir, Filipe Spencer, Francisco Marcelo, Halina Cavalcanti, Stella Nascimento, Roberto Efrem Filho Revisão: Mariana Reis|Distribuição e Administração:Iyalê Tahyrine| Diagramação: Diva Braga Conselho editorial: Alexandre Henrique Bezerra Pires, Ana Gusmão, André Barreto, Aristóteles Cardona Jr., Bruna Leite, Bruno Ribeiro, Camila Castro, Carlos Veras, Catarina de Angola, Doriel Saturnino de Barros, Eduardo Mara, Elisa Maria Lucena, Geraldo Soares, Glaucus José Bastos Lima, Henrique Gomes, Itamar Lages, Jaime Amorim, José Fernando de Melo, Laila Costa, Lívia Milena, Luiz Antonio da Silva Filho,Luiz Antonio Lourenzon, Marcela Vieira Freire, Marcelo Barros, Marcos Aurélio Monteiro, Margareth Albuquerque, Maria das Graças de Oliveira, Marluce Melo, Moisés Borges, Patrícia Horta Alves, Paulette Cavalcante, Paulo de Souza Bezerra, Paulo Mansan, Pedro Rafael Lapa, Roberto Efrem Filho, Rosa Sampaio, Sérgio Goiana, Suzineide Rodrigues, Valmir Assis| Tiragem: 20 mil Exemplares

são o chamado Estatuto do Nascituro que, se aprovado, transformaria o aborto em crime hediondo, mesmo nos casos de gravidez resultante de estupro e a PEC 181/2015, que, alteran-

senvolvidos onde o aborto não é legalizado. Segundo a mesma pesquisa morrem 50 mil mulheres por ano no mundo por não terem acesso ao aborto legal e gratuito.

A sociedade precisa compreender que o aborto é uma questão de saúde pública do a Constituição Federal, visa restringir a interrupção da gravidez em qualquer caso, mesmo naqueles autorizados pelo Código Penal. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Guttmacher e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2014, mostra que as taxas de aborto caíram significativamente nos países desenvolvidos onde o aborto é legalizado, e se mantêm praticamente inalteradas nos países subde-

Dia 28 de setembro é o dia Latinoamericano e Caribenho de luta pela Descriminalização, com uma série de debates durante 24 horas nas redes sociais com diversas militantes feministas tratando sobre o tema do aborto e dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. As mulheres exigem educação sexual para decidir, contraceptivos legais para não abortar, aborto legal, seguro e gratuito para não morrer.

Charge


Brasil de Fato PE

GERAL l 3

Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

mandou

Frase da Seman a

BEM Divulgação

Há algo de cômico e contraditório: um presidente é acusado de corrupção e pratica abertamente corrupção comprando deputados. E nada acontece.

Oposição à Redução da Maioridade

O

ator Wagner Moura gravou, esta semana, um vídeo convocando todas e todos para pressionarem os senadores contra a redução da maioridade penal. O projeto, que estava previsto para ser votado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado nesta quarta-feira (27.09), foi adiado por 30 dias. A Campanha Amanhecer Contra a Redução criou um site para pressionar os parlamentares, acesse: www.reducaonaoesolucao.com.br

Leonardo Boff, teólogo, escritor e expoente da Teologia da libertação no Brasil

Que perdas a cidade do Recife tem com o Teatro do Parque

mandou

MAL

S

ão imensuráveis as perdas. A população perde, os artistas e as manifestações culturais, sejam no teatro, cinema, música perdem esse espaço de representação da cultura popular, da cultura local e nacional, já que tínhamos também artistas de fora se apresentando. É lamentável um espaço daquele de valor histórico fechado. E a cidade perde também na área social, na economia, no turismo, no funcionamento da cidade que tinha esse atrativo.

Beto Barata/PR

Ernandes Tavares, jornalista e produtor cultural

Dinho Ouro Preto na Cidade do Rock

N Caixa Econômica Federal Banco Número: 104 Agência: 0923 Operação: 013 Conta Poupança: 17341-0 CNPJ: 41.228.651/0001-10

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o palco do Rock in Rio, Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, afirmou que Dilma, Maluf, Collor e Cabral sequestraram a democracia no Brasil dedicando a eles a música “Que País é esse?”, do grupo Legião Urbana. Ele parece não notar a diferença entre o governo progressista de Dilma e os demais e também a ocorrência do Golpe no Brasil.


4 | GERAL Mundo

Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

Comunicação Popular em Debate

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Luta das Mulheres

dia 28 de setembro é o dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe. No Brasil o Legislativo quer, neste mês, avançar com projetos de lei que versam sobre a proibição do aborto até mesmo nos casos já permitidos. No Recife, movimentos feministas foram às ruas na tarde deste dia para dizer que não aceitam retrocessos e que têm o direito de decidir sobre seus corpos. Os movimentos carregavam cartazes que diziam que nenhuma mulher deve ser presa, ficar doente ou morrer por abortar. O ato aconteceu na Praça Maciel Pinheiro, na área central da cidade. Em diversas cidades do Brasil também aconteceram mobilizações no dia de ontem.

ESPAÇO SINDICAL

SINTEPE em ato pela defesa da Educação Divulgação

E

ntre os dias 28 de setembro e 03 de outubro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) junto com o Brasil de Fato e o Centro Popular de Mídias (CPMídias) está realizando o Encontro de Comunicação Popular do Nordeste e o Curso Popular de Rádio no Centro de Formação Paulo Freire em Caruaru. O Encontro se realizou nos dias 28 e 29 e teve como objetivo promover a formação política e o debate sobre a comunicação popular diante da complexa realidade política brasileira. A partir do dia 30 acontecerá o Curso Popular de Rádio contando com uma programação voltada para a formação técnica para pessoas que atuam na comunicação dos movimentos populares.

Direitos de Fato

etembro, o mês em S que se comemora o aniversário de Pau-

lo Freire, se tornou importante momento político de consolidação das lutas pela educação no país. Em Pernambuco não poderia ser diferente. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (SINTEPE) realizou na última sexta-feira (22.09) um dia de atividades voltadas para a defesa da educação. O evento aconteceu na Universidade Federal de Pernambuco, com atividades de dança, música, piquenique e um ato político e pedagógico em defesa da educação pública, gratuita, laica e emancipadora.

Eleições de CIPA da Iquine Divulgação

Brasil de Fato PE

N

a última sexta feira (22.09) o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas do Estado de Pernambuco, o Sindiquímica-PE, acompanhou a eleição da Comissão Interna de Prevenção e Acidentes, a CIPA, da empresa de tintas Iquine. A CIPA é responsável por garantir a segurança dos trabalhadores exigindo com que a empresa esteja ciente de possíveis perigos ao trabalhador. Em tempos de tomada de direitos trabalhistas, o Sindicato sinaliza o processo de eleição da CIPA como uma ferramenta importante na consolidação da luta dos trabalhadores frente ao retrocesso do governo.

Mulheres lésbicas têm dificuldade no acesso à saúde mbora a Constituição Federal do Brasil garanta a todos os brasileiE ros o direito à saúde, sem discriminação de qualquer natureza, é certo que a população LGBT enfrenta dificuldades no acesso ao sistema de saúde e acaba por não ter suas necessidades contempladas seja nas políticas sociais, seja no tratamento fornecido pelos profissionais de saúde. Uma situação ainda mais específica enfrentam as mulheres lésbicas que, diante das reações discriminatórias dos profissionais e da falta de uma abordagem específica no exame e no tratamento de saúde, acabam por realizar com menor frequência exames essenciais para a prevenção do câncer uterino e de mama. O atual desmonte do SUS, promovido pelo governo ilegítimo, agrava a situação já que afasta cada vez mais o dever constitucional do Estado de garantir o acesso universal e igualitário de todas e todos os brasileiros aos serviços de saúde. A defesa da democracia e da Constituição Federal passa necessariamente pela defesa do direito social de acesso à saúde através de um sistema inclusivo e colorido. É pela vida das mulheres. *Clarissa Nunes é advogada em Recife

Para entrar em contato e tirar dúvidas mande um email para contato.pe@brasildefato.com.br ou um whattsapp para 8199060173


Brasil de Fato PE

Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

Artigo

Acesso à cultura é direito básico Aristóteles Cardona Júnior*

brar a busca por livros e leitura quando não se ofereceu educação numa perspectiva histórica? Como querer que brasileiros e brasileiras comprem livros se até hoje ainda temos dos livros mais caros do mundo? Ou até, como querer que o povo brasileiro frequente teatros e cinema quando são poucos os espaços com preço justo e adequado à maioria da população? s elites que sempre detive- Estas questões me soam muito ram o poder no Brasil pos- parecidas àquelas as quais nos suem uma dívida histórica com o referimos quando falamos soseu povo. Um destes elementos é bre a qualidade da alimentação o direito à cultura. A bem da ver- no Brasil. Me deparo cotidianadade, como sempre foi restrito ao mente nos meus atendimentos povo o acesso a outros direitos médicos com situações que rebásicos como saúde, educação, tratam maus hábitos alimentares. Mas não é simples lidar com isto quando bebidas industrializadas e açucaradas são mais baMas eu me ratas que sucos saudápergunto: como veis. cobrar a busca por livros Querer que o brasileiro e a brasileira leiam mais e leitura quando não se é fundamental. Para tal, ofereceu educação numa não podemos perder de vista que uma de nossas perspectiva histórica? tarefas é batalhar pelo acesso à cultura como habitação, a cultura e o conhe- direito básico da população. Licimento parecem algumas ve- teratura, cinema, teatro, músizes como um desejo de “luxo” ou ca, entre tantas outras formas e algo distante da realidade con- manifestações de cultura devem creta. Mas não é assim. Ou não sim estar presentes no dia-a-dia deveria ser. de nosso povo. E é tarefa do estaSempre que me deparo com pen- do brasileiro apoiar e contribuir samentos sobre o acesso à cul- com este acesso. As leis de intura em nosso país, lembro das centivo à cultura são fundamenmanchetes de reportagens que tais, cabendo-nos sempre zevez por outra vêm com um papo lar e fiscalizar pelo seu uso corde que brasileiro “não gosta de reto. Mas culpar os indivíduos ler” ou que “não sei quantos por simplesmente pela falta de hácentos da população brasileira bito na leitura, por exemplo, não nunca compraram um livro”. E resolve e até confunde a comisso sempre me deixou incomo- preensão de que a cultura é sim dado porque, de uma maneira direito nosso. em geral, são manchetes que parecem apontar o dedo como se * é Médico de Família no Sertão houvesse uma culpa individuali- pernambucano, professor da Univasf e militante da Frente Brasil zada pela falta de acesso. Mas eu me pergunto: como co- Popular de Pernambuco.

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OPINIÃO I 5

Artigo Destruir o patrimônio histórico é destruir a memória recifense Sidney EloisaMamede* Moraes*

por fatores ambientais. O clima úmido e a proximidade do mar contribuem na aceleração desses desgastes. É imprescindível, portanto, uma manutenção permanente de tais construções, seja preventiva ou corretiva. Toda manutenção, por sua vez, tem um custo. Seja no emprego de materiais, seja na contratação de mão-de-obra qualificada. E, quando se dá em prédios hisdestruição do patrimônio tóricos, este custo é mais elevado, histórico construído não de- sendo, muitas vezes, inviável para veria interessar a nenhum reci- os proprietários. A consequência fense. Em cada bairro, podemos é a transformação de prédios de nos depaalta riqueza arrar com um quitetônica em pedaço de ruínas. nossa hisEntão, como tória e nos- Nossas pontes e despertar o insa cultuteresse do prora, conta- demais monumentos prietário em da através guardam um valor manter este dos diverimóvel? sos imóveis incalculável Todo processo espalhadeve começar dos. Revisia partir de um tamos, assim, os modos de vida e planejamento urbano, onde a vaos costumes de diversas épocas. lorização dos sítios históricos seA riqueza é tanta, que deveria ser jam prioridade. Em vez de bairros obrigação de todo recifense pre- abandonados, como acontece no servar e conservar nossos imó- Recife, precisamos que eles sejam veis. Nossas pontes e demais mo- dotados de transporte e segurannumentos guardam um valor in- ça públicos, com infraestrutura calculável. urbana de energia, água e esgoto O Recife é um dos pioneiros em ideais. Valorizando os bairros, valegislação urbana. Graças à vi- lorizaremos, consequentemente, são de engenheiros e arquitetos o imóvel. de vanguarda, como Edgar D´A- O permanente abandono das morim e José Luiz da Mota Mene- áreas históricas recifenses transzes, contamos com leis que pre- forma a memória de um povo servam nosso patrimônio. em sobrados descaracterizados, Na década de 1970, tínhamos dis- abandonados, transformados em positivos legais que protegiam os ferro-velho, cobertos de rachaduedifícios históricos. Infelizmen- ras, podendo desabar a qualquer te, retrocedemos e diversos avan- momento. ços foram suprimidos, em nome A mudança é possível. É preciso de uma maior ocupação dos ter- haver interesse e persistência do renos. poder público, em parceria com Devemos levar em conta que os a conscientização da sociedade. materiais utilizados nas construções possuem uma vida útil e *Eloísa Moraes é engenheira civil e direpodem, com o passar do tempo, tora da mulher do Sindicato dos Engeapresentar patologias próprias nheiros no Estado de Pernamdo desgaste natural pelo uso e buco, Senge-PE.

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6 | BRASIL

Brasil de Fato PE

Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

Moradores da Rocinha (RJ) convivem com o medo e a suspensão de serviços públicos

SEGURANÇA. Atendimento da UPA está interrompido e mais de 3.300 alunos estão sem aula Agencia Barsil

Moradores da Rocinha são revistados por militares do Exército / Foto: Vladimir Platonow Jaqueline Deister, do Rio de Janeiro

O

clima de tensão na comunidade da Rocinha permanece desde a última sexta-feira (22.09) quando ocorreu a intervenção das Forças Armadas no local. Apesar dos confrontos entre as facções rivais terem sido controlados, a rotina dos moradores continua prejudicada. Os atendimentos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro es-

tão suspensos por tempo indeterminado e mais de 3.300 estudantes estão sem aula. Antônio Xaolin é morador da comunidade e coordenador da Câmara Comunitária da Rocinha. Segundo ele, a população que vive na favela está apreensiva com medo de novas operações policiais. Além disso, por conta da ocupação militar, a circulação dos moradores na região está restrita. “Foi subtraído o ônibus; barreiras impedem os car-

ros de passar e os pedestres são revistados. Não sei se está ocorrendo violação de lares, os moradores não comentaram comigo. Foi alterada a rotina e nós queremos que ela seja normalizada. Mesmo com a intervenção, as pessoas precisam voltar a sua normalidade,” afirmou Xaolin. A situação da Rocinha demonstra a falência de um modelo de segurança pública adotado pelo estado do Rio de Janeiro. O projeto de Uni-

dade de Polícia Pacificadora (UPP) completa dez anos e passa pelo seu pior momento. Segundo um levantamento realizado pela Anistia Internacional, entre os dez bairros com mais tiroteio no

resultado. A gente tem que pensar em desmilitarizar, isso seria uma forma de tentar um novo modelo. A primeira coisa é construir o policial como trabalhador e não como agente de guerra, por-

A gente tem que pensar em desmilitarizar, isso seria uma forma de tentar um novo modelo Rio, oito são ocupados pelas UPPs. Para o delegado da Polícia Civil, Orlando Zaccone, a saída para a crise da segurança pública deve passar pelo debate sobre a legalização das drogas e também sobre a desmilitarização da Polícia. “Quando a gente fala de ocupação e intervenção militar de áreas pobres, no caso das favelas do Rio de Janeiro, nós estamos falando de um remédio que já foi experimentado e que não deu

que se a gente equiparar policiais a soldados, fazemos com que o policial não seja um prestador de segurança, mas sim um agente de combate,” destacou o delegado. Enquanto a solução por parte das instituições não vem, a comunidade da Rocinha se organiza para estabelecer um diálogo com as autoridades que comandam a ocupação na tentativa de buscar saídas para que os serviços públicos e a rotina dos moradores sejam normalizados.

Professores de Educação Física sofrem coação do CREF Professores de Educação Física da rede estadual de ensino de Pernambuco sofrem coação do Conselho Regional de Educação Física (CREF). Fiscais do CREF, utilizando narrativas intimidadoras, estão visitando escolas estaduais e exigindo ter informações funcionais dos professores. Os trabalhadores em educação denunciam a ingerência do sistema CREF/CONFEF, no qual sem se importar com os professores ou estudantes exigem que as aulas de educação física deixem ser ministradas. O exercício da docência, em qualquer campo profissional, já possui normatização e fiscalização por meio dos Conselhos Estaduais, Distrital e Nacional de Educação, cabendo ao CREF/CONFEF a fiscalização do exercício profissional restrita ao campo não escolar. Esse é o entendimento em relação a outras áreas profissionais, tais como o direito, onde o professor desse campo não precisa de OAB

para ensinar. O SINTEPE luta por uma educação emancipatória e de qualidade social, por isso, uma das pautas da Campanha Salarial Educacional de 2017 da categoria foi a exigência da licenciatura para os professores aprovados no último concurso público da Secretaria de Educação do Estado. Ressaltamos que não há obrigatoriedade para os professores de educação física (efetivos e/ou contratados por tempo determinado) o registro no conselho, para exercer a docência. Aos professores escolares e universitários deve ser exigida somente a comprovação de titulação e/ou habilitação para o exercício do magistério, não cabendo exigir inscrição em órgão de controle do exercício profissional de profissão regulamentada. Os conselhos de regulação profissional não têm poder de polícia ou resoluções com força de lei. Desta forma,

não cabe qualquer interferência nas atividades escolares e acadêmicas, que são reguladas por sistemas de ensino próprios, como nos casos dos estaduais e municipais. Tamanha é a ingerência do sistema CREF/CONFEF que há casos de intromissão em assuntos de natureza pedagógica, com sugestão sobre quais níveis de ensino deveriam ser ofertados as aulas de educação física nas escolas da região e que tipo de profissional deveria ministrá-las. Não cabe aos órgãos de controle do exercício de profissões estabelecer normas sobre currículo, inclusive carga horária, ou conteúdos, intensidade ou abrangência de qualquer componente curricular. Os professores que sofrerem intimidação pelo conselho entrem em contato com o SINTEPE.


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MUNDO l 7

Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

Por que governos da América Latina são ditaduras e o quarto mandato de Merkel não?

ALEMANHA. Para Paola Estrada, as concepções de que governos latino-americanos são ditaduras é fruto dos interesses financeiros Wikimedia Commons

Merkel seguirá para seu quarto mandato e se tornará uma das mais longevas presidentes alemãs José Eduardo Bernardes, de São Paulo

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o contrário do tratamento dado para alguns governos latino-americanos, o quarto mandato da chanceler, Angela Merkel, não levantou questionamentos de críticos e veículos da imprensa acerca da existência de uma “ditadura” na Alemanha. Para Wilbert Villca, sociólogo boliviano e doutorando da Universidade de Sorbonne Paris 3, o que garante a permanência de Merkel na presidência alemã sem qualquer

pecha ditatorial é o bom momento econômico do país. “A chanceler alemã com certeza está sendo vista, avaliada, porque é uma pessoa que favorece aos interesses do capital financeiro e industrial. Então, quando a economia está em uma bonança econômica, mesmo que seja uma ditadura, as pessoas têm uma tendência a acreditar na continuidade desse governo”, disse. Prestes a realizar um plebiscito para saber se a população deseja sua reeleição, o governo do boliviano Evo Molares se vê na mesma situação do

latino-americanos são ditaduras é fruto dos interesses financeiros propagados por grupos midiáticos. “Na grande mídia oligopolizada a nível internacional, ela vê que ela tem posição política e tem lado nas várias disputas políticas, tanto internamente nos países, tanto internacionalmente, nos diversos conflitos geopolíticos. A gente vê de um lado a grande mídia acusando os governos de Maduro e Chávez, por exemplo, de governos autoritários. Alguns chegam até a dizer o absurdo de que é uma ditadura, e ao mesmo tempo celebrar a vitória de Merkel na Alemanha, que está há

avanços populares do governo de Evo Morales. “Paralelamente, há direitos econômicos, como na questão da Bolívia. Por exemplo, ninguém vai dizer que, nesse momento, a Bolívia tem o maior crescimento do PIB que os outros países latino-americanos. Não, ninguém vai parabenizar Evo Morales. Qualquer um que questionar Evo Morales dirá: manutenção é caminho para a ditadura”, disse. Integrante do partido alemão União Democrata Cristã (CDU), Merkel recebeu pouco mais de 33% dos votos nas eleições realizadas no domingo (24.09). Mesmo dispondo de pres-

A chanceler alemã com certeza está sendo vista, avaliada, porque é uma pessoa que favorece aos interesses do capital financeiro e industrial ex-presidente Hugo Chávez, quando o consideraram um ditador por encabeçar uma campanha por sua reeleição. Para Paola Estrada, da Articulação dos Movimentos Sociais da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), as concepções de que governos

mais de 16 anos consecutivos no poder”, criticou. Segundo Villca, governos que avançam em direitos sociais pagam pelo enfrentamento da luta de classes. O sociólogo lembra que, no caso boliviano, não há menções na grande mídia aos

tígio global, Angela Merkel e seu partido perderam votos para a legenda de extrema direita, a Alternativa para a Alemanha (AFD) e terão que buscar alianças no parlamento alemão, o Bundestag, para formar uma maioria que a garanta na presidência.

Sem os

Bancos públicos

os juros e a inflação vão subir e devorar seu dinheiro DIGA NÃO À PRIVATIZAÇÃO


8 | PERNAMBUCO

Brasil de Fato PE

Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

“Homossexualidade não é doença. A discriminação é que nos adoece”, dizem LGBTs RETROCESSO. liminar autoriza que psicólogos ofereçam terapia de “reversão sexual” Vinícius Sobreira

Em diversas cidades brasileiras, LGBTs realizaram manifestações públicas contra a proposta de “Cura gay” Vinícius Sobreira

o último dia 18 de N setembro o juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, do Distrito Federal, concedeu liminar autorizando que psicólogos possam oferecer terapia de “reversão sexual”, processo que ficou popularmente conhecido como “cura gay”. Desde 1999 o tratamento é proibido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), já que não considera que “comportamentos e práticas homoeróticas” possam ser classificadas como patologia (doença, anomalia), desvio ou distúrbio. Desde 1990 a Organização Mundial de Saúde (OMS) também não consi-

dera a homossexualidade como doença.

O enfermeiro Mário Carneiro, morador do Recife, diz se sentir ofendido com a decisão do juiz federal. “Sou gay, me interesso afetivamente e sexualmente por pessoas do mesmo gênero que eu. E não sou doente”, afirma. Para ele, é uma notícia que não esperava ver no seu país no século 21. “É um retrocesso. Recomento que ninguém procure esse tipo de tratamento, pois ele não vai dar em nada e pode ser muito danoso para a pessoa”, alerta. Já a estudante Maiara fundo político, para forNogueira, lésbica, acre- talecer os deputados da dita que a liminar tem bancada cristã-funda-

Alguém já pensou num heterossexual indo ao psicólogo por estar ‘se sentindo hétero’, pedindo ajuda profissional para mudar sua orientação sexual? Não. mentalista. “É mais uma medida para a ‘bancada evangélica’ poder di-

zer por aí que está governando a nação ‘conforme a vontade de Deus’ e assim conseguirem mais votos”, afirma. Para Mário, a liminar também é fruto de pouca reflexão sobre o tema. Carneiro analisa que nossa sociedade impõe uma norma-padrão de comportamento heterossexual, a chamada heteronormatividade, em que os casais são compostos por pessoas de gêneros opostos e sexos opostos. E qualquer comportamento de gênero ou sexualidade diferente desse padrão, é considerado “anormal”. E por isso os tratamentos de “reversão sexual” nunca são voltados para as pessoas heterossexuais mudarem sua orientação, porque elas já são consideradas “normais”. “Alguém já pensou num heterossexual indo ao psicólogo por estar ‘se sentindo hétero’, pedindo ajuda profissional para mudar sua orientação sexual? Não. Porque isso é uma hipótese absurda. Na nossa sociedade, ser hétero é a única opção ‘normal’, que não precisaria mudar”, reclama o enfermeiro. Ele aponta ainda que a heterossexualidade, assim como a bissexualidade, a homossexualidade ou transexualidade, são todas normais e naturais. Portanto, conclui Carneiro, a liminar concedida pelo juiz federal é uma decisão que está direcionada exclusivamente à população de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBTs), já


Brasil de Fato PE que são esses que serão submetidos às supostas terapias. O enfermeiro considera que a decisão judicial é uma tentativa de classificar como “doença” as expressões de gênero e a diversidade sexual. Maiara acredita que mesmo a própria população cristã sabe que a proposta de “reversão sexual” é algo que não deveria existir. “Mesmo quem tem vida religiosa, seja católico ou evangélico, se for um pouco mais esclarecido, vai entender que essa situação é absurda, porque eles já entendem que a orientação sexual não é uma questão de escolha”, avalia Nogueira. Ela recorda que já lhe disseram que sua vida sexual já foi classificada por outros como “luxúria” e “vício”.

Recife, 29 de setembro a 05 de outubro de 2017

AJUDA PROFISSIONAL

Tanto Mário como Maiara consideram que sim, boa parte da população LGBT precisa de apoio psicológico. Mas não para uma su-

Vinícius Sobreira

posta “reversão sexual” e, sim, para que essas pessoas consigam superar as dificuldades de viver numa sociedade que com frequência as maltrata, oprime e violenta. “Antes de nascermos, quando nossos pais descobrem qual é o nosso sexo biológico, eles já criam expectativas de que seremos heterossexuais. Quando crescemos, se não nos encaixamos nessa expectativa, nesse padrão de sexualidade, acabamos entrando ‘em crise’. Acho que a maioria das pessoas LGBTs passam por esse momento da vida em que questionam a própria sexualidade”, diz o profissional de saúde. Maiara Nogueira completa que essas pessoas precisam de tratamento para se aceitarem como

Colocar uma pessoa nesse tipo de tratamento é uma agressão psicológica, uma violência “Eu me senti ofendida. Mas isso de dizer que é doença é ainda pior. Eu acho que o que nos adoece mesmo é ficarmos ouvirmos esse tipo de comentário das pessoas”, acredita .

PERNAMBUCO l 9

Mães pela diversidade convocam famílias à apoiarem seus filhos

tarem. “O problema não está em mim ou na minha sexualidade. O prosão. “Essa pessoa pre- blema é essa sociedade cisa ser acompanhada, que não me aceita e me ter apoio, para conhe- adoece”, diz. cer sua própria natureza, para superar esses FAMÍLIA comentários de que ela é doente, um ‘ET’ que não Perguntados sobre as faz parte da humanidade”, diz. Carneiro apon- famílias que acreditam ta ainda que “a nossa so- que o correto é colocar os ciedade é cruel com pes- filhos nesse tipo de trasoas homossexuais” e tamento, Mário ressalque, por isso, a psicolo- ta que se a família quer o gia tem muito a contri- bem da pessoa, não deve buir para que as pessoas submetê-la a essa suposcom orientação sexual ta terapia de reversão seou de gênero diferen- xual. “Colocar uma peste do padrão possam se soa nesse tipo de tratacompreender e se acei- mento é uma agressão

psicológica, uma violência. Ser homossexual é normal e não há tratamento para isso”, diz o enfermeiro. Para ele, se a família tem dificuldade de conviver com a sexualidade do outro, a família é quem deve procurar para si o acompanhamento psicológico, não por estarem doentes, mas para aceitarem as diferenças, entenderem o seu parente LGBT e passarem a conviver bem no seio da família. Tanto Maiara como Mário classificaram um possível tratamento como “maldade” e “agressão”. “Ao tentar

anular sua sexualidade como se fosse um padre, um monge, eunuco ou algo assim, a maior probabilidade é que ela não consiga se encontrar. Isso afeta a saúde física e mental da pessoa. É perigoso”, considera Maiara. Mário Carneiro afirma que esse tipo de tratamento está fadado ao fracasso. “Não há sequer evidências científicas de que isso poderia funcionar. Por isso a Organização Mundial da Saúde condena. Esse tipo de tratamento, ele é que desencadeia problemas psiquiátricos. E aí sim a pessoa fica doente”, conclui o enfermeiro.


CIDADES I 10

Brasil de Fato PE

Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

Marcha Mundial das Mulheres reforça calendário de lutas pelos direitos das mulheres FEMINISMO. Agenda de ação política foi tirada do III Encontro Estadual da MMM-PE realizada no começo de setembro MMM

O encontro reuniu mulheres de todos o estado de Pernambuco Catarina de Angola

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ulheres organizadas e em luta contra os ataques aos direitos que a população vem sofrendo com força após o golpe contra a democracia. Assim tem se articulado a Marcha Mundial de Mulheres em Pernambuco (MMM-PE), debatendo a posição da mulher na sociedade, trabalho e violência, a partir do que está colocado na conjuntura, de aumento da pobreza e violência com as medidas que retiram direitos da classe trabalhadora. No começo de setembro, a MMM-PE esteve reunida no seu III Encontro Estadual, realizado em Caruaru, que teve como centralidade do debate a unidade na luta e auto-organização das mulheres. O encontro articulou mais de 150 mu-

lheres de todo o estado. “Para nós da Marcha Mundial das Mulheres Pernambuco realizar o encontro estadual nesse momento significa um grande ato de resistência e unidade feminista popular em tempos de golpe, tanto que esse foi o nosso lema”, explica Elisa Maria, do Núcleo Soledad Barret, de Recife. Durante o encontro, a MMM em Pernambuco consolidou uma agenda de lutas para este semestre, com a perspectiva de criar estratégias de organização e resistências das mulheres. “Com a crise do sistema capitalista e com o golpe patriarcal que foi dado no Brasil, representado pelo governo ilegítimo de Michel Temer, temos um maior processo de vulnerabilidade das mulheres, a pobreza e a violência e nós não queremos assistir pas-

sivas a todo esse processo”,

Núcleo Sertão da Marcha

No começo de setembro, a MMM-PE esteve reunida no seu III Encontro Estadual, realizado em Caruaru afirmou Elisa. Ainda em setembro várias atividades fortaleceram um calendário feminista em prol das lutas das mulheres, como por exemplo com a Jornada contra a Reforma da Previdência e o Dia de Luta contra a Criminalização do Aborto. Outras atividades já estão planejadas e em fase de articulação e mobilização. Em Petrolina, por exemplo, a o

estará junto a movimentos populares em conjunto com a Frente Brasil Popular em um ato pela defesa do Rio São Francisco e contra a privatização da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf). “Seguindo a agenda estadual, aqui em Caruaru, devemos em novembro fazer uma atividade na UFPE/CAA, problematizando sobre cotas raciais,

‘cotas para quem é de cotas’. E ainda em novembro, vamos lançar uma campanha pelo fim da violência contra a mulher e contra a pobreza, em referência ao dia 25 de novembro, que é dia de luta pelo fim da violência contra a mulher. A ideia é que possamos levar a campanha e esse debate aos bairros e espaços em que estamos inseridas e dialogar com outras mulheres. Um mês de várias ações articuladas estadualmente”, explicou Ranuzia Netta, do Núcleo Agreste. Para Bernadete Esperança, da coordenação nacional da MMM, esse é um processo importante para que as mulheres possam definir suas próprias demandas. “Ter espaços auto-organizados que possibilitem tanto as mulheres entenderem e reconhecerem a lógica que nos coloca no lugar de subordinação e inferioridade”, diz Bernadete. Para ela, é necessário construir um projeto feito pelas próprias mãos das mulheres, que rompa com a lógica de subordinação. “Um projeto que mostre e amplie essa possibilidade que se tem de construir um projeto que seja pelas mãos do povo, feminista, antirracista é extremamente importante, mas sabemos que isso não fazemos sozinhas, sabemos que temos uma tarefa e protagonismo nessa construção, por isso se coloca a necessidade de alianças com os movimentos populares, e de forma especial temos apostado essa aliança com os movimentos que compõem a Frente Brasil Popular”, pontuou Bernadete.


Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

ENTREVISTA l 11 ENTREVISTA l 11

Ana Cañas: “A censura faz parte da manipulação da elite, porque a arte faz pensar” MÚSICA. A cantora se apresentou no circuito cultural do MST no RN e falou sobre arte, cultura popular e conjuntura política. Levante Popular da Juventude RN

Marcos Barbosa

O Brasil de Fato Pernambuco entrevistou a cantora e compositora Ana Cañas, antes da cantora realizar sua apresentação na noite cultural da I Feira de Produtos da Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Rio Grande do Norte, no mês de setembro. Seu álbum de estreia, “Amor e Caos”, foi lançado em 2007, recebendo elogios da crítica especializada, que considerou Ana uma das principais revelações musicais daquele ano. Desde então, a cantora já lançou mais três discos e realizou parcerias com nomes consagrados da Música Popular Brasileira, como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes e Nando Reis. Seu trabalho já lhe rendeu indicações a prêmios de música e foi trilha sonora de novelas e filmes nacionais. Em 2017, a cantora se apresentou no Palco Sunset do

Ana Cañas se apresentou no circuito cultural da Reforma Agrária no RN

te desse cenário de perda de direitos, golpe e censura que marcam o atual ce-

Então, eu não consigo ver cultura desvinculada da melhora das condições de vida humana festival de música Rock In Rio, no RJ. Seu show ganhou repercussão na imprensa e nas redes sociais pelo tom de protesto e politizado. Na conversa com o Brasil de Fato PE, Ana falou sobre sua aproximação com o MST e sobre os desafios que estão colocados para a democracia e para a produção artística dian-

nário político nacional. Brasil de Fato - Qual a importância do MST do Rio Grande do Norte estar realizando sua I Feira de Alimentos da Reforma Agrária, que entrelaça o debate da reforma agrária com o da cultura popular? Ana Cañas – Apesar

da feira estar ampliando esse entrelaçamento entre a cultura e os produtos da Reforma Agrária, eu sempre vejo como uma coisa interligada. Eu acredito que a Reforma Agrária seja o caminho mais rápido para a distribuição de renda no Brasil e para a criação de um mercado interno e o desenvolvimento de uma indústria, por exemplo. Então, eu não consigo ver cultura desvinculada da melhora das condições de vida humana. E acho maravilhoso o movimento estar sempre na frente. Não só nas escolas, na parte política e educacional, mas na parte da produção agrícola, da agricultura familiar sustentável e saudável. Agora eles estão, também, pensando e fomentando a cultura. As

cabeças pensantes do movimento estão sempre envolvidas com as questões substanciais da alma humana: alimentação, educação e cultura. Isso é a base da formação humana mesmo, acho fundamental e maravilhoso. Sempre tenho visitado o movimento, conhecido as escolas e a forma como eles se organizam. A própria forma como eles organizam as ocupações, envolvendo, por exemplo, homens e mulheres como lideranças, é muito à frente. Eu decidi abraçar e fazer parte disso, fazer shows, porque eu acredito nisso como um futuro. Bdf – Qual o desafio de ser artista nessa conjuntura política atual de perdas de direitos, enfraquecimento da democracia e casos de censura a artistas? AC – Estamos vivendo tempos tenebrosos. O caminho é resistir. Toda forma de censura atrasa a evolução como um todo. Isso que é uma coisa que a gente tá vendo que aconteceu em 1968, por exemplo, quando você teve um grau de censura muito forte com o AI 5. E [agora] a gente ficou à beira de um estado de exceção, teve o golpe da presidenta Dilma... Então, eu acho que a censura representa mais um passo nos objetivos de quem está fomentando o golpe e os retrocessos políticos e sociais do Brasil. A censura faz parte da manipulação da elite privilegiada, porque a arte faz pensar, a arte faz a gente ser o que a gente é, faz a gente expandir os nossos horizontes, pensar além e con-

testar o sistema. A censura é uma forma de evitar que as pessoas acordem, despertem. E não é só censura cultural, eu fiquei sabendo de um projeto de censura para pessoas que falarem sobre política nas redes sociais, por exemplo. Isso é uma censura absurda, a gente não poder se manifestar politicamente. Onde é que a gente vai parar? Bdf – Que artistas te inspiram nesse processo de produção artística e de resistência? AC – A arte é muito ampla. Tenho escutado muito Belchior, por exemplo. Recentemente, fiz um show em homenagem a ele, em São Paulo. A arte serve para isso, para enlouquecer a gente, para abrir os nossos horizontes, para

Estamos vivendo tempos tenebrosos nos fazer sonhar. Tem muita gente bacana fazendo a gente pensar. O próprio Criolo, o Emicida, a Karina Buhr, tem muita gente massa, fazendo um som massa e importante. Tem, também, a Nação Zumbi, que resiste e luta há muito tempo. Eu acho que é isso, a gente tem artistas maravilhosos. O Brasil é muito rico nos seus movimentos todos. Como diz o Jorge Mautner, “a amálgama brasileira é a única do mundo”. Isso está em tudo, está na arte, está em todos os lugares.


CULTURA | 12

Crônica: O verde dos olhos de meu pai

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eus pais guardam dezenas de álbuns de retratos numa mochila coloridíssima que Seu Roberto trouxe de uma viagem de trabalho a Isla de Margarita, do caribe venezuelano, em 1991 ou 1992. Eu os procuro – falo dos álbuns, não de meus pais – assim que o Recife me desconcerta ou se torna úmido demais para eu suportar isto aqui, esta insistência, esta nódoa. Porra, esta manhã. Já meus pais, eu os procuro às quartas-feiras, para o almoço, ou nas palavras amiúde. “Nódoa”, por exemplo, minha mãe dizia quando tomávamos água de coco e ela, irremediável, preocupava-se com as ameaçadoras manchas nas roupinhas novas com que meu irmão e eu éramos levados a passear no calçadão de Boa Viagem. Nódoa é doce como a tarde da carne do coco, mas mancha

como esta cidade, talvez como uma mensagem não respondida, “então, separei os teus discos, fiquei só com o da Gal de 1971, sei lá, porque ‘sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo’ e eu julguei que o drama todo me caberia melhor, tu vens buscar?” – CRI, CRI, CRI, tão cafona é a ansiedade da espera. Eu gosto especialmente de uma sequência de fotografias. As da praia, de uma tarde de sábado de 1988, acho, porque o Rafa com a pazinha vermelha à mão não passa dos dois anos e eu sou um pirraia de uns quatro anos brincando com um sapinho verde-encardido de borracha. Nessa tarde habitam minhas primeiras memórias. Ou o que fabulei delas, em meio às reuniões familiares em que a mochila caribenha era aberta e o passado retecido à mesa de centro da sala de estar. Painho levou uma queda tentando se pendurar numa folha de coqueiro-anão. Mainha usava óculos escuros e vaticinou “Roberto”, como ainda hoje o faz, num insofismável tom de “vai dar merda, tô avisando”. Apesar do susto, Painho não se machucou e nós rimos até o sol baixar contra os prédios da avenida e amarelar as

lentes da máquina fotográfica. Eu apareço sorrindo em duas imagens. Numa delas, estou deitado no chão, com os olhos fechados por conta da areia que eu mesmo sacudia. Os dedos do pé direito de Painho aparecem no canto da foto e denunciam quem flagrava a graça. Na outra imagem, eu fito – nos meus, o verde dos olhos verdes de meu pai – a câmera. Pareço em movimento, rodando de braços quase abertos em torno do eixo que era o fotógrafo. Iran também revelou essa fotografia. Era 2009, nós namorávamos havia menos de um ano e ele precisou viajar a trabalho para Salvador. Seriam dois meses longe do Recife. Dinheiro contado de estudante de mestrado, pude visitá-lo apenas duas vezes. Na primeira, encontrei aquela tarde familiar de 1988 no espelho da cama do quarto de hotel em que ele se hospedava. Engraçado, talvez Iran nem saiba. Ali, surpreendido ao meu retrato preferido de menino, eu confiei a ele cada uma das minhas tardes de sábado.

Roberto Efrem Filho – ou Beto, como gosta – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavras

AGENDA CULTURAL Cinema Cinema em Olinda

N

a noite de hoje (29.09), o Cineclube Bamako irá exibir

“A Viagem da Hiena”, no Beco do Bajado, Centro Histórico de Olinda. A obra é um filme senegalês de 1973. A película será tema de debate e os participantes poderão estar, ainda, conferindo feira de arte. A sessão terá início às 19h e é gratuita. Se possível, é indicado levar banco ou canga para melhor acomodação.

Brasil de Fato PE

Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

Carnaval Prévia de Carnaval na Boa Vista

Música Festival de Compositoras

partir das 18h desses sáá em clima carnavalesco, a J Toca Cultural realiza a fes- Abado e domingo, aconteta “Búzios”, que vai trazer o gli- ce o Sonora Recife - Festival Intter e o ritmo da melhor época do ano. A folia é gratuita, mas é necessário confirmar presença no evento do Facebook. O evento acontece neste sábado (30.09), a partir das 23h. A Toca Cultural fica na Rua da Santa Cruz, próximo ao Mercado da Boa Vista.

ternacional de Compositoras. O evento surgiu para dar visibilidade à mulher compositora no meio musical. A programação deste ano conta com rodas de diálogo e apresentações ao vivo. As atividades acontecem na Torre Malakoff, com entrada gratuita.

Lutador do Povo

Mario Benedetti

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ario Benedetti foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio. Nascido em Paso de los Toros em 14 de setembro de 1920, era filho de Brenno Benedetti e Matilde Farugia, de origem italiana. Ainda criança, mudou-se com a família para Montevidéu, onde chegou a frequentar algumas escolas. Devido a problemas financeiros, teve que prosseguir seus estudos de maneira autodidata, sem concluí-los formalmente. Em 1945, passa a fazer parte da equipe de redação do semanário Marcha, onde trabalha como diretor literário. No ano seguinte, casa-se com Luz López Alegre. Ficou famoso em 1956, ao publicar “Poemas de Oficina”, uma de suas obras mais conhecidas. Participou ativamente da vida política uruguaia, como membro do Movimento 26 de Março. Foi nomeado diretor do Departamento de Literatura Hispano-Americana na Universidade da República, de Montevidéu. Depois do golpe de Estado de 27 de junho de 1973, renuncia ao cargo e parte para um exílio de dez anos, vivendo em vários países. Voltou ao Uruguai em 1983, quando foi nomeado membro do conselho editorial da revista Brecha. Morreu em Montevidéu, aos 88 anos. Ao longo de sua vida, foi integrante da Geração de 45 e escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.


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Variedades CULTURA l| 13 13

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Símbolo da cena cultural recifense, Teatro do Parque sofre com abandono PROMESSAS... Há sete anos sem espetáculos, prédio pode retomar atividades em 2019 se reformas prometidas forem, de fato, realizadas PH Reinaux

A militante também falou dos retrocessos nos direitos dos camponeses, impostos pelo governo golpista de Michel Temer

Artistas pernambucanos em defesa do teatro

Com obras abandonadas e em estado de sucateamento, Teatro do Parque faz falta no cenário cultural pernambucano

Marcos Barbosa

A

pesar do seu legado de expressão da vida cultural da cidade do Recife, o Teatro do Parque chegou ao seu centenário de cortinas e portas fechadas. Um dos únicos teatros-jardim ainda existentes no Brasil está desativado há sete anos e segue em reforma com obras paradas. Referência na cidade, seu palco recebeu importantes espetáculos, com participação não só de artistas da terra, mas de todo o Brasil. O equipamento cultural movimentou a Rua do Hospício durante décadas, graças à sua programação recheada por peças e cinema com ingressos a preços acessíveis. Fundado em 24 de agosto de 1915 pelo comendador Bento Luís de Aguiar, o teatro fazia parte de um projeto inacabado de criação de um Parque de Diversões à moda portuguesa no Centro do Recife. No entanto, o prédio foi fe-

chado em 2010 e segue sem previsão de retorno. Neste ano, após audiência pública puxada pelo vereador do Recife Ivan Moraes (Psol), foi criada uma comissão mista responsável por realizar o acompanhamento e fiscalização das reformas necessárias para reabertura do teatro. O grupo é formado por representantes da sociedade civil, Prefeitura do Recife, Câmara Legislativa e Conselho Estadual de Cultura. De acordo com Ivan Moraes, que integra a comissão, no ano de 2014 foi realizado um contrato de reforma do teatro, por meio de licitação da Prefeitura do Recife. Contudo, alguns meses após realizados os primeiros reparos, a Prefeitura, alegando cenário de crise, deixou de pagar a empresa licitada, que parou as atividades e desfez o contrato. Na opinião do vereador, a atual gestão do Reci-

A Prefeitura publicou, há cerca de um mês, um novo edital de licitação para realização de reforma do equipamento físico, que faz parte da primeira fase das obras de reforma do teatro. O edital ainda está com o prazo em aberto e as obras estão previstas em R$5 milhões. A nova meta é que a reestruturação do Parque seja concluída até julho de 2019. A comissão criada ficará responsável por realizar visitas ao teatro e analisar os documentos.

fe não tem a política de cultura como uma prioridade. “Os equipamentos culturais,

Desde que fechou suas portas, o Teatro do Parque tem sido pauta de reivindicação dos artistas do estado, que perdeu esse importante espaço de produção e divulgação da cultu-

as portas fechadas do Teatro do Parque geram um impacto social, que atinge não apenas aqueles que trabalham com arte e cultura, mas a população em geral como os museus e teatros, não recebem investimentos da Prefeitura ou estão com graves problemas de orçamento. Então, a gente acredita que havia sim plenas condições da gente já ter o teatro de volta caso sua reforma fosse priorizada”, defende.

ra popular. Todos os anos, nas datas próximas ao aniversário do teatro, são realizadas mobilizações com o intuito de sensibilizar a opinião pública e relembrar à população os impactos que o fechamento trouxe para o

comércio local a vida cultural recifense. Utilizando da arte como forma de protesto, já foi, inclusive, encenado o velório do Parque, de maneira a denunciar seu sucateamento. Neste ano, devido ao grande engajamento de artistas em todo o Brasil, houve uma Virada Cultural, com mais de 12 horas de apresentações culturais em frente ao prédio do teatro, contemplando as diversas formas de linguagem e expressão. Na opinião de Oséas Borba Neto, ator e produtor cultural, a sensação que se tem é que, após o trancamento do prédio, toda a cena cultural do Recife ficou órfã. “O Teatro do Parque é um equipamento cultural de extrema importância, porque congrega todas as artes. Ele tinha orquestra, shows de dança, teatro, cinema... e, por ser no coração do Recife, ele também era um dos equipamentos mais democráticos da cidade, pessoas de todas as classes sociais iam conferir seus espetáculos e festivais”, completa. Em concordância com Oséas, a produtora cultural e professora de teatro Michelli Amorim afirma que “as portas fechadas do Teatro do Parque geram um impacto social, que atinge não apenas aqueles que trabalham com arte e cultura, mas a população em geral”. Nesse sentido, a Guerrilha Cultural e o grupo João Teimoso, coletivos formados por artistas, entregaram um pedido de tombamento do Teatro do Parque na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Logo em seguida, a Prefeitura do Recife também fez essa mesma solicitação.


14 | VARIEDADES

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Apresentacao

Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

PALAVRAS CRUZADAS DIRETAS

www.coquetel.com.br

© Revistas COQUETEL

Diz-se do livro que Tubo O outro Autor da Parâmetros que Delado 2015 a 2017, grupo mulheres exigiu agricultoras do Polo da do autor uma graduado dos tela "O de permitem um descobrir pesquisa profunda antigos Lavrador (Quím.) uma doença no Borborema participou do Projeto Melhoramento das Cozinhas para o LPs de Café" de estágio inicial Formiga, em inglês Rocha Condição beneficiamento de produtos da Agricultura Familiar. do governo com baixos índices de aprovação

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Bafafa: Tá na tv, deu o que falar!

Rio que encontros municipais Gás foram realizados diagnósticos, Durante esses anos, cruza a essencial Alemanha à vida e Descuidaterritoriais, onde as mulheres puderam resgatar receitas que foram (símbolo) Enjoo do aprendidas com suas mães ou avós. As mulheres tiveram a oportunidade de lembrar o sabor da infância, resgatando com ele os momentos em que saboreavam as histórias de família e como aprenderam aquela (?) déco: Amarrar Coeso teve seu receita. Nêutron auge nos A Cidade anos 30

(símbolo)

Eterna

Insuficiência Renal Aguda (sigla)

Tubo

Ultimate Fighting Championship (sigla)

Bolo de macaxeira, pé-de-moleque assado na palha de bananeira, Arma usada na colorau, beiju assado debaixo da farinha, farofa d’água e bolo de Marinha Montaria Ausentabrasileira jerimum são só algumas das muitas receitas do Cavase apresentadas, que carregam até a décaleiro da da de 1870 lembranças e um grande conhecimento associado aos seus processos de Triste Figura (Lit.) Vitor e (?), produção. dupla sertaneja

O Diabo "Abaixo o Esta cartilha (?)!", pretende socializar osTodo,momentos de troca e de Santa Louro do brado em Catarina bando de inglês de revoluaprendizagem entre as mulheres. (sigla) Lampião cionários Lago, em francês Prefixo que indica "um milhão"

"(?) à Alegria", trecho da Nona de Beethoven Sim, em espanhol "(?) do Rio", canção de Caetano Defeito que contribui para a aura de poder dos monarcas

Um dos diálogos de Platão

Felipe Marcelino, do Brasil de Fato MG

"Abelha", em "apicultura"

Poesia informal japonesa de uma estrofe Pablo Casals, violoncelista

2/sí. 3/all — ant — lac. 6/bureta. 7/ciclope.

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Solução B I M O I M P A R R C A B A C D C O R R E M E G S I M P R E

P O P O N E R U D T R I R A N O A MA R R O I S C C I A N H A E NI N P O TE

OB B U L A R R N A E N T E N AT A U F C S A I T E C A L L O E O C L O PE A D I C A I O P C N C I A

BANCO

Agora você também fica atualizado do que é assunto no mundo das novelas

Gigante enganado por Ulisses (Mit.)

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O mais novo fenômeno da música pop brasileira, a drag queen Pabllo Vittar, sucesso no Carnaval 2017 com o hit “Todo dia”, rompeu as barreiras das baladas LGBTs (onde fazia sucesso desde 2015) tomando conta das noites, das rádios, das redes e dos programas de TV. Seu hit “K. O.” ultrapassa mais de 120 milhões de visualizações no YouTube e “Sua Cara”, em parceria com Anitta e Major Lazer, bateu vários recordes nessa plataforma de vídeos. Na última semana, ela finalizou o clipe da música “Vai passar mal”, que promete ser outro grande sucesso. Phabullo Rodrigues da Silva, hoje conhecida como a Pabllo, nasceu em São Luís/MA e, por dificuldades econômicas de sua família, ainda adolescente, se muda para o interior de São Paulo e depois para a cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Sobre o gênero por qual gosta de ser chamada, Pabllo diz que quando não está vestida de drag se identifica como “ele”, pois não é transgênero, mas gay. “Sou um menino drag. Não sou trans!”, diz. Mas quando está montada, quer sim ser chamada pelo gênero feminino: a Pabllo. Pabllo diz ter sido vítima de preconceito por ser gay afeminado. Desde a infância, por diversas vezes, sofreu bullying pela sua forma de falar, de vestir e de agir. Nas suas entrevistas (muito frequentes devido ao seu sucesso e à curiosidade das pessoas) faz questão de dizer e alertar que as “bis”, gays afeminadas, como ela, são os principais alvos das manifestações agressivas de homofobia. E é por isso que, hoje, se considera uma ativista contra qualquer discriminação. Embora suas músicas não tragam explicitamente situações de preconceito ou denúncias de LGBTfobia, só a sua presença – a de uma drag queen empoderada, sensual, exuberante, linda -, o seu sucesso e reconhecimento pelo público já representam um avanço e tanto para nossa sociedade. A novidade da última semana na sua carreira foi anunciada pela autora Glória Perez, no twitter: “Pablo Vittar tbm vai estar em #aForçaDoQuerer”. Do sucesso nas rádios e baladas, a cantora drag estará agora na novela das 21h. É aguardar pra ver!


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VARIEDADES l15 15

Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

Conserva de batatinha

Ingredientes 1 Quilo de batatinha inglesa miúda 1 Copo (200ml) de azeite ou óleo ¼ do molho de coentro ¼ do molho de salsa 2 Dentes de alho ½ de copo (200ml) de vinagre Sal a gosto

Oi Amiga da Saúde, minha menstruação é irregular. Isso pode ser indício de algum problema de saúde? Jéssica Leandra, 19 anos, estudante

MODO DE PREPARO:

Q

uerida Jéssica, caso sua menstruação esteja mesmo irregular, pode ser devido a algum desarranjo que precisa ser investigado. Mas precisa ver se realmente está irregular, pois a maioria de nós se confunde quando a menstruação não chega sempre no mesmo dia do mês, mesmo isso sendo natural. Você deve contar o intervalo entre o primeiro dia de uma menstruação e o primeiro dia da próxima, esse é o ciclo menstrual, que pode ser de 25, 30, 35 dias, etc (varia muito em cada mulher). Se ele for sempre igual ou com pequenas variações, está regular. Irregular seria um ciclo com grandes variações, quando você nunca sabe o dia em que a menstruação chegará. É comum ela ser desregulada nos primeiros anos da adolescência ou próximo da menopausa.

Cozinhe a batatinha descascada ou não. Reserve num recipiente. No liquidificador, bata todos os ingredientes e misture com a batatinha. Esperar curar para ficar mais saborosa.

Receita de:� Joanceli Maria Gonçalves Esperança

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Cartilha cartilha editada pela AS-PTA - Receitas da Vovó, do grupo de mulheres agricultoras do Polo da Borborema

Mande sua dúvida: amigadasaude@brasildefato.com.br Sofia Barboa | Aqui você podeperguntar o que quiser para nossa Amiga da Saúde Coren MG 159621-ENF

ESPORTES | 15

“Meninas jogando é que não falta, o que falta é incentivo”, diz ex-capitã da seleção FUTEBOL FEMININO. Para Marisa Nogueira, o futebol feminino não é tratado como o masculino por falta de respeito Dvulgação

o esporte não é tratado como a modalidade masculina por falta de respeito. “Na nossa época era pior do que agora, mas ainda precisamos de recurso para alavancar o futebol

Ao falar do futebol feminino, a ex-atleta admite melhoras no cenário nacional, mas acredita que ainda há muito o que avançar Mariana Pitasse, do Brasil de Fato RJ

H

á 35 anos trabalhando com futebol feminino, Marisa Nogueira tem vasta trajetória na história do esporte. A ex-atleta, que hoje atua como treinadora, foi capitã da primeira Seleção Brasileira formada pela Confe-

deração Brasileira de Futebol (CBF) para disputar o primeiro Campeonato Mundial da FIFA, o Mundial Experimental, realizado em Guangdong, na China, em 1988. Ao falar do futebol feminino, Marisa Nogueira admite melhoras no cenário nacional, mas acredita que ainda há muito o que avançar. Para ela,

Na nossa época era pior do que agora, mas ainda precisamos de recurso para alavancar o futebol feminino feminino. Meninas jogando é que não falta. O que falta é incentivo”, afirma.

Antes de se tornar treinadora, Marisa foi zagueira da seleção. Nesse período, participou de três mundiais - 1988 e 1991 na China e 1995 na Suécia -, além de uma edição dos Jogos Olímpicos, em 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos, e dois Sul-Americanos, em 1991 e 1995 no Brasil. Mais tarde, como treinadora Marisa atuou no Vasco, na Portuguesa e no Barcelona Esporte Clube do Rio de Janeiro. Hoje, trabalhando com time feminino amador, Marisa reclama a falta de reconhecimento, após tantos anos de dedicação ao esporte. “Falta reconhecimento com as ex -atletas, somos capacitadas mas não nos procuram para nada. Por que só tem duas mulheres na comissão técnica da seleção feminina, se é um

time de mulheres. Que limitação é essa? Isso é um absurdo”, questiona. Em parceria com antigas colegas da seleção, Marisa criou a associação Bola de Ouro. A maioria delas, que já disputou mundiais e Olimpíadas, está desempregada porque os poucos times femininos que existem escolhem homens para serem treinadores e formar a comissão técnica. “Temos um time master e estamos querendo competir nas Olimpíadas. O grupo foi criado para a gente ter novas expectativas e ninguém ficar parado. A ideia é nos movimentar. Não vou desistir, sempre estou brigando por nossa categoria”, conclui a capitã, que aposentou as chuteiras, mas não perde o espírito de liderança.


16 | ESPORTES

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Recife, 29 de semtembro a 05 de outubro de 2017

GOL

NA GERAL Lucas Figueiredo

Willams Aguiar

Templários

DE PLACA

Náutico acha dinheiro em Caruaru Leo lemos

Começa Pernambucano Sub-15 e 17

CBF demite Emily

Em Arcoverde, Templários jogam a vida

esse fim de semana Confederação Brasileis 15h deste sábado N tem início o Pernam- Ara de Futebol demitiu À(30.09) o Arcoverde bucano para duas catego- Emily Lima, a primeira mu- Templários entra em camrias de base: Sub-15 e Sub17. As mesmas 24 equipes (mas com atletas diferentes) disputam ambas as competições. Os times estão divididos em quatro grupos de três times de base de clubes profissionais, e mais três grupos com 4 times de clubes amadores. Os grupos e o calendário são os mesmos tanto no Sub-15 como no Sub-17. A rodada de abertura tem Sport x Vera Cruz, no Grito da República, em Rio Doce; Íbis x Náutico, no Olindão; e Porto x Santa Cruz, em Caruaru.

lher a comandar a Seleção Feminina. Ela teve 56,4% de aproveitamento (7 vitórias, 1 empate e 5 derrotas), sendo os resultados negativos contra as melhores do mundo: Alemanha, EUA, Austrália e Japão. Os números poderiam ser melhores. Mas este ano pós-Olímpico é utilizado para fazer testes no elenco, com tempo de sobra para a Copa do Mundo 2019 e Olimpíadas 2020. Emily foi a treinadora com menos tempo para trabalhar: apenas 10 meses. E pior: Vadão é quem volta ao cargo.

ADEUS, ARENA Filipe Spenser

filipespenser@gmail.com

po contra Roma Gladiadores-CE pela Liga Nacional de Futebol Americano (a 2ª divisão do esporte no país). O jogo vale muito para os Templários: em 3º lugar, com uma derrota e uma vitória, a equipe precisa vencer para seguir sonhando em passar ao mata -mata (play-offs). A partida acontece no Estádio Áureo Bradley. Os ingressos custam R$ 5 antecipado e R$ 10 na hora. A equipe sertaneja ainda enfrenta o Olinda Sharks na última rodada, no próximo final de semana, em Olinda.

oi por acaso. O Timbu F seguiria na Arena, mas o Governo priorizou os

eventos religiosos. O Náutico tentou Arruda e Ilha, sem sucesso. Foi parar em Caruaru. No Lacerdão, o público de 13.409 torcedores foi o 2º maior do time na Série B. E apesar da derrota, o clube comemorou. Além do abraço da torcida do Agreste, o jogo gerou uma renda líquida de quase R$ 220 mil, o que não é muito, mas é maior que a renda de todos os outros 12 jogos somados (!!!). A renda do jogo foi usada para quitar direitos de imagens do elenco que estavam em atraso. O custo operacional do Lacerdão é bem inferior ao da Arena.

GOL

contra

Trump não sabe jogar

s esportistas norte-americaO nos estão “em guerra” contra o presidente do país, Donald

Trump. Desde 2016 jogadores negros de futebol americano têm se ajoelhado durante o hino nacional, em protesto contra as frequentes ações policiais com mortes de inocentes em bairros negros. Na última sexta-feira (22.09), Donald Trump sugeriu que os presidentes dos clubes demitissem esses atletas. A declaração não foi aceita pelos jogadores e, no domingo (24.09), em resposta a Trump, a grande maioria dos times do campeonato ouviram o hino de braços dados, muitos de joelhos, e houve equipe que nem entrou em campo.

VOCÊ PODE AJUDAR Stella Nascimento ssnascimento_24@hotmail.com

INTERFERÊNCIAS MISTERIOSAS Daniel Lamir

daniel.lamir@brasildefato.com.br

dificílimo jogo contra o Internacional tiessa semana vou mudar o foco, porque equências de apagões de vitória não são noviO nha a sua importância mais relacionaN quanto mais falo sobre o futebol, mais ele Sdade na temporada. Mas parece que a inhaca da a fatores externos ao resultado da partida. desanda. O empate com o Ceará dentro de casa, do momento virou uma bola de neve, que vem De certa forma, a derrota não era um resultado inesperado, embora a imprevisibilidade do futebol sempre permita a esperança. Aliás, são por essas e outras que o futebol é tão apaixonante. Entretanto, a partida permitiu uma grande vitória: a aproximação com a torcida. Mais de 10 mil torcedores, um público recorde para jogos do clube no ano, afora os clássicos. Além da torcida, a ida a Caruaru permitiu que o Náutico lucrasse com o jogo e não tivesse prejuízo, como às vezes ocorre na Arena. Com a receita obtida, foi possível, inclusive, quitar salários atrasados. A prevalecer esse cenário, não há como ter dúvidas: Adeus, Arena! Ah, e não foi bom enquanto durou.

por mais que tenha se apresentado um bom futebol, não ajudou na tabela, que é onde mais estamos precisando. Mas o foco hoje é em como você torcedor pode ajudar o nosso Santa Cruz. A história do bolo-de-rolo deu o que falar, mas a diretoria patrimonial disse que aquela era uma das primeiras ações que seriam feitas para arrecadar dinheiro para a construção do CT Ninho das Cobras. Além do bolo, a diretoria agora lançará uma cerveja artesanal tricolor, além de miniaturas do Expresso Coral. A miniatura do ônibus custará R$ 150 e a cerveja artesanal ainda não teve o valor divulgado. Você pode ajudar de alguma forma. Afinal de contas, de uma cervejinha, até os adversários gostam.

correndo desde Porto Alegre, com a ridícula goleada na Arena do Grêmio. De lá para cá, quando não há sonolência, há ansiedade. É preciso mudar, equilibrar. Aparentemente, Luxemburgo mudou um pouco a postura. Está mais contido nas palavras que usa para avaliar o elenco. Mas ele também precisa conversar com os atletas. Por exemplo, Patrick e Diego Souza precisam segurar um pouco mais as palavras com a arbitragem. Enfim, a temporada no Brasileirão encurtou. É preciso abrir o olho e minimizar as interferências que só atrapalham o Sport, sejam elas interferências dentro do time, sejam interferências com a arbitragem – que o diga um dos assistentes no último jogo da Ilha