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junho de 2012

especial privataria tucana

Movimentos sociais cobram investigação

Sindicalistas exigem a CPI

“ Arquivo BDF

PRIVATARIA MST, MAB e CPT defendem retomada de patrimônio dado a capital privado

Me arrisco a dizer que essa investigação é importante como o é a investigação dos crimes cometidos pela ditadura. Por quê? Porque as novas gerações precisam e têm direito a formar consciência sobre um modelo desastroso que foi adotado para que, nunca mais, outra aventura como essa se repita.

José Cruz/ABr

Eduardo Sales de Lima da Redação A DENÚNCIA de crimes de corrupção ocorridos em meio a “era das privatizações” comandada por Fernando Henrique Cardoso, que envolve figuras do alto escalão do PSDB, levou os principais movimentos sociais do país a se mobilizarem contra o que denominam de “transferência de patrimônio” para o capital privado. As organizações populares, além de reivindicarem a implementação de um processo investigatório dos fatos por meio de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), defendem a retomada dessas empresas, antes públicas, por parte do Estado. Porém, a luta não se trava somente contra os políticos corruptos de um partido conservador. Assim que o livro-reportagem A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., foi lançado, apesar de a repercussão ter sido grande na internet e suas redes sociais, houve uma tentativa por parte dos principais meios de comunicação de abafar suas denúncias. Segundo João Paulo Rodrigues, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), grande parte da população não sabe do esquema comandado pelos tucanos para desviar os recursos das privatizações para pessoas próximas a José Serra (candidato a prefeitura de São Paulo) porque os canais de televisão, assim como os jornais impressos da mídia burguesa, boicotaram o livro e esconderam as denúncias”, pontua. Nessa mesma linha, Gilberto Cervinski, integrante da coordenação nacional do Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB), acrescenta que além dos políticos corruptos e da mídia, amplos setores empresariais estão envolvidos nos crimes denunciados pelo livro e mais que interessados em encobrir todo o processo de ilegalidades. “Essas denúncias revelam que havia um esquema de corrupção por trás do processo de dilapidação do patrimônio nacional para entregar empresas estatais para as mãos das empresas transnacionais”, salienta João Paulo Rodrigues. Foram mais de 150 empresas públicas privatizadas nos governos de Fernando Henrique, as melhores do setor de side-

Artur Henrique, presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT)

“ Ato público realizado no Rio de Janeiro pede a anulação da privatização da Vale do Rio Doce

rurgia, energia, comunicação e mineração. De acordo com Gilberto Cervinski, se analisarmos o período de privatizações a fundo, ficará constatado que não houve somente uma “onda de privatização”, e sim uma transferência do patrimônio estatal para as empresas privadas. “Foi pior ainda do que se imagina”, pontua.

“Esse pessoal da direita, do poder, do dinheiro, foi pego de surpresa, e agora eles estão atrapalhados” Investigar

O livro-reportagem motivou o deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoBSP) a apresentar o pedido de criação de CPI para que as denúncias sejam apuradas. Para o dirigente do MAB, tão importante quanto a manifestação dos movimentos sociais organizados e dos trabalhadores como um todo, é necessário pressionar o Congresso Nacional pela implementação dessa investigação. “Além de recuperar esse processo histórico por meio de nossas manifestações, temos que desenvolver as lutas em todos os campos, inclusive no âmbito institucional”, enfatiza. Assim também enxerga o MST. “A instalação da CPI é fundamental para pôr luz sobre a discussão das privatizações e, a partir da indignação da sociedade, pressionar para que todos os envolvidos sejam punidos e presos para impedir no-

vos processos de privatização e para retomar as empresas estatais privatizadas, como a Vale do Rio Doce”, explica João Paulo Rodrigues. Fato é que mesmo com todas tentativas de encobrir a “privataria”, a elite política conservadora ficou “sem norte”, como diz o bispo emérito de Goiás e presidente de honra da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno. “Esse pessoal da direita, do poder, do dinheiro, foi pego de surpresa, e agora eles estão atrapalhados”, ironiza o bispo. Estão “atrapalhados” e permanecem hipócritas. O integrante da coordenação nacional do MST destaca que os setores conservadores usam o tema da corrupção de forma superficial para fins eleitorais, mas que, quando estão no governo, se beneficiam do capital privado corruptor. “Os movimentos sociais defendem uma maior participação da sociedade na gestão do Estado para orientar, acompanhar e fiscalizar esses processos, dando maior transparência e fechando as brechas para a corrupção”, pontua. Nesse sentido, segundo ele, combater a corrupção é mais do que uma questão moral. É também defender a organização e a participação do povo brasileiro na gestão do Estado, subordinando os interesses privados às necessidades do conjunto da sociedade. Para além de ampliar a luta contra a privatização, Gilberto Cervinski, do MAB, defende que investigar a “privataria” é também elevar o nível de consciência da população. Porém, assegura que “a resposta mais importante para esses crimes será retomar esse patrimônio [privatizado] ao povo brasileiro”.

As denúncias que foram feitas no livro é importante que sejam apuradas. O erro de qualquer governo acaba prejudicando principalmente os trabalhadores ou a maioria da população brasileira. É importante que se apure, doa a quem doer, pois com certeza ira doer nos que estavam governando.

José Cruz/ABr

João Carlos Gonçalves (Juruna), Secretário-Geral da Força Sindical e 2º VicePresidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes.

O processo de privatização levado a cabo pelos tucanos durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, orientados pelo neoliberalismo, foi um crime de lesa-pátria perpetrado contra a nação e o povo brasileiro. A CPI da Privataria Tucana é uma demanda republicana, justa e necessária.

CTB

OPINIÃO

O pecado capital tucano A imprensa brasileira, unha e carne com a privataria e os tucanos, ficou de bico calado diante do livro A Privataria Tucana Paulo Henrique Amorim A PRIVATARIA Tucana é a maior roubalheira de uma privataria latino-americana. Quem foram os privatadores? O do México, Carlos Salinas de Gortari, vendeu o México ao Slim, fugiu para a Irlanda e hoje vive numa caverna na Cidade do México, de localização desconhecida. O do Peru, Alberto Fujimori está preso, atrás das grades. O da Bolivia, Losada, saiu do Palácio debaixo de pedradas, pegou um avião e vive em Miami. O da Argentina, Carlos Menem, protege-se com um mandato de Senador para não ir em cana. Aqui no Brasil, Fernando Henrique Cardoso é o Sacerdote Máximo dos tucanos e do PiG, o Partido da Imprensa Golpista: a Globo, a Folha e o Estadão.

(A Veja não conta. É um detrito de maré baixa em vias de remoção.) Este livro do Amaury Ribeiro Junior põe a Privataria a nu. O clã José Serra: a filha, o genro, o sócio, o cunhado, o tesoureiro de campanha, um Mr. Big, e um tal de Dr. Escuta, que ele pagou quando era governador (?) do estado de São Paulo – a turma está toda lá. Com a boca na botija. E o presidente da farra era o Fernando Henrique Cardoso. A roubalheira comia solta e ele, o presidente, coitado, sem saber de nada. Falando francês. O PiG se calou diante do livro aqui resumido. O livro tem documentos, documentos públicos. Não há como desmenti-los. São vários batons na cueca: cuecas de vários tamanhos e batom de muitas cores. Os tucanos deixam de ser santinhos. Não são mais virgens de colégio de freira. E não podem mais acusar ninguém de corrupto. Olha o teu rabo! É por isso que a imprensa brasileira, unha e carne com a privataria e os tucanos, ficou de bico calado diante do livro. Porque perdeu os dois únicos argumentos que tinha.

Primeiro, que os tucanos fizeram uma bendita privatizacão, “modernizaram” o Brasil. Na verdade, venderam a Vale do Rio Doce por meia dúzia de bananas e quase vendem o Banco do Brasil, a Caixa e a Petrobras. (Eles são gulosos...)

O presidente da farra era o Fernando Henrique Cardoso. A roubalheira comia solta e ele, o presidente, coitado, sem saber de nada

Wagner Gomes, presidente nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

O livro traz um conjunto de denúncias que põe a nu o processo de privatização em todo o governo PSDB. Só processo de privatização já mereceria uma ampla investigação para mostrar à sociedade para onde foi o recurso e patrimônio público. O livro mostrou que além do processo de privatização foi todo usado para corrupção. As denúncias devem ser apuradas com rigor e os responsáveis serem punidos. O povo brasileiro tem o direito de saber e o Congresso Nacional o dever de apurar as denúncias e o que foi feito com o patrimônio público.

CTB

Segundo, eles eram os santinhos do pau oco. Acusavam todo mundo de ladrões e eles, puros, limpos, idealistas – eles não roubavam. Os dois argumentos foram para o saco. A privataria é a mega-roubalheira. E a privatização foi isso: uma privataria. Paulo Henrique Amorim é jornalista e blogueiro. Escreve para diversos jornais e revistas do país, apresenta o programa Domingo Espetacular da Rede Record e mantém o blog Conversa Afiada, com notícias e opiniões pessoais sobre o Brasil, o mundo e a política.

Edson Carneiro, (Indio), dirigente da Intersindical

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Aldo Gama, Cristiano Navarro, Renato Godoy de Toledo • Subeditor: Eduardo Sales de Lima • Repórteres: Aline Scarso, Michelle Amaral, Patricia Benvenuti • Correspondentes nacionais: Joana Tavares (Belo Horizonte – MG), Pedro Carrano (Curitiba – PR) • Correspondentes internacionais: Achille Lollo (Roma – Itália), Baby Siqueira Abrão (Oriente Médio), Claudia Jardim (Caracas – Venezuela), Marcio Zonta (Peru) • Fotógrafos: Carlos Ruggi (Curitiba – PR), Douglas Mansur (São Paulo – SP), Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper (Rio de Janeiro – RJ), João Zinclar (Campinas – SP), Joka Madruga (Curitiba – PR), Leonardo Melgarejo (Porto Alegre – RS), Maurício Scerni (Rio de Janeiro – RJ) • Ilustradores: Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Jade Percassi • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: Folha Gráfica • Conselho Editorial: Angélica Fernandes, Alipio Freire, Altamiro Borges, Aurelio Fernandes, Bernadete Monteiro, Beto Almeida, Camila Dinat, Cleyton W. Borges, Dora Martins, Frederico Santana Rick, Igor Fuser, José Antônio Moroni, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Marcelo Goulart, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Milton Pinheiro, Neuri Rosseto, Paulo Roberto Fier, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Rosane Bertotti, Sávio Bones, Sergio Luiz Monteiro, Ulisses Kaniak, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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Lavanderia tucana de dinheiro público Luciana Whitaker/Folha Imagem

PRIVATIZAÇÕES Além de entregar o patrimônio público, venda de estatais na era FHC foi marcada por esquema milionário de corrupção, sob comando de Serra da Redação O LIVRO A Privataria Tucana do jornalista Amaury Ribeiro Jr. revela uma rede de corrupção criada durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) que, comandada por José Serra, desviava verbas do processo de privatizações de empresas estatais. Para além da consequência nefasta para a economia brasileira, que sofreu um processo de desmonte, o livro aponta que o governo brasileiro pagou para que as empresas fossem desestatizadas. “A temporada de bondades com o dinheiro público ultrapassou os preços baixos, as prestações em 12 anos e as moedas podres. Nos anos que antecederam a venda das estatais, suas tarifas sofreram uma sequência de reajustes”, afirma o livro. No caso da energia elétrica, esse aumento foi de 500%. A Privataria cita um levantamento feito pelo jornalista econômico Aloysio Biondi. Segundo os dados que foram publicados em O Brasil Privatizado, o governo FHC afirmou ter arrecadado R$ 85,2 bilhões com as privatizações, quando na verdade pagou 87,6 bilhões de dólares para “se livrar” das empresas. Ou seja, um gasto de R$ 2,4 bilhões para perder empresas importantes como a Vale, a Embraer e a Usiminas. Não bastasse isso, o processo ficou marcado pelo maior esquema de lavagem de dinheiro da história do país. As operações eram baseadas na criação de empresas de fachada em paraísos fiscais, no envio de remessas de dinheiro ao exterior e na lavagem de dinheiro. As operações movimentaram milhões de dólares entre 1993 e 2003. Assim, empresas ligadas aos tucanos desviavam verbas para esses paraísos fiscais e depois resgatavam o dinheiro para usar no Brasil. O livro aponta que em uma dessas operações de resgate de dinheiro, José Serra teria comprado a casa em que vive até hoje, em um bairro luxuoso da cidade de São Paulo. Amaury relata que para chegar às fraudes financeiras cometidas pelos tu-

O tucano José Serra bate o martelo no leilão da leilão Light em 1995

canos rastreou documentos em cartórios de títulos e juntas comerciais. Sob o comando de Serra Segundo o livro, o principal articulador da rede foi o ex-ministro José Serra (PSDB), que chefiou o Plano Nacional de Desestatização. Ainda são protagonistas dessas operações bilionárias a filha e o genro de Serra, Verônica e Alexandre Bourgeois, além de Gregório Marin Preciado, casado com uma prima do tucano. A filha de Serra era sócia de Verônica Dantas, filha do banqueiro Daniel Dantas, indiciado pela Operação Satiagraha da Polícia Federal em 2008. Ambas possuíam três empresas chamadas Decidir, que foram utilizadas para trazer 5 milhões de dólares do Citibank ao Brasil pelo trajeto Miami-Caribe-São Paulo. Isso seria uma forma de propina por favorecimento nas privatizações, já que o Citibank comprou parte da Telebrás associado a Daniel Dantas. O livro também relata que o marido de Verônica Serra usou uma empresa do Caribe para injetar R$ 7 milhões em outra empresa no Brasil. As duas se chamam IConexa. Há um indício de que as transferências foram feitas por meio da compra de ações da empresa brasileira pela sua homônima caribenha: a ata de uma assembleia de acionistas da IConexa de São Paulo, assinada duas vezes pelo marido de Verônica, sendo uma como pessoa física e outra como representante da IConexa do Caribe.

Isso leva a crer que o marido de Verônica e a IConexa do Caribe eram os únicos acionistas da IConexa de São Paulo. O capital da empresa na data da assembleia era de 5,4 milhões de reais. Não há como saber qual era a porcentagem de cada sócio. Em sendo a IConexa do Caribe amplamente majoritária, é possível que tenha comprado a maior parte do capital da IConexa de São Paulo como meio de remeter o dinheiro para o Brasil. Mais tarde, o capital da IConexa de São Paulo foi aumentado para R$ 7 milhões, totalizando a soma que, segundo o livro, foi trazida do Caribe pelo marido de Verônica.

Ainda são protagonistas dessas operações bilionárias a filha e o genro de Serra, Verônica e Alexandre Bourgeois, além de Gregório Marin Preciado, casado com uma prima do tucano Ricardo Sérgio e os Jereissati Outro importante operador do esquema de desvios é Ricardo Sérgio de Oliveira (“o chefe da lavanderia do tucanato”, segundo Amaury), ex-diretor do Banco do Brasil nos anos FHC. Oliveira recebeu 410 mil dólares da empresa Infinity Trading, controlada pelo Grupo Jereissati (pertencente à famí-

tarde. Não é demais reparar que, na América Latina, estamos atrasados nestas providências. No México, o ex-presidente Carlos Salinas de Gortari — espécie de santo padroeiro da privataria latina — crivado de denúncias de corrupção, saltou em seu jatinho e fugiu para Nova York. Na Bolívia, após privatizar até a água, que entregou à francesa SuezLyonnaise des Eaux e à norte-americana Betchel, o “modernizador neoliberal” Gonzalo Sánchez de Lozada foi ejetado do seu trono aos gritos de “assassino” e voou para Miami. Tripulando uma razia privatizante que liquidou até mesmo estatais que davam lucro e um processo de concentração de renda que desempregou 30% da população ativa, Carlos Menen virou sinônimo de azar. Na Argentina, as pessoas dizem “Mendéz” para não pronunciar seu nome receando uma catástrofe. No Peru, após aprovar sua segunda reeleição, Alberto Fujimori evadiu-se do país sob acusação de surrupiar 15 milhões de dólares do erário e de autorizar a execução de dissidentes. Condenado a 25 anos de prisão, Fuji-

DEPOIS DESTA jornada pelos pântanos da política em que todos são vilões e o Brasil é a vítima, acho importante encerrar a narrativa com algumas observações. A primeira delas é que o país e suas instituições não têm o direito de continuar fazendo de conta que não viram a rapinagem organizada que devastou os bens do Estado nos anos 1990 e começo da década seguinte. E que serviu para tornar os ricos mais ricos. Varrer a sujeira para debaixo do tapete, como se fez tantas vezes, não é mais possível. Não há tapete suficiente para acobertar tanto lixo. O Brasil, que escondeu a escravidão e ainda oculta a barbárie de suas ditaduras, não pode negar aos brasileiros a evisceração da privataria. Quem for inocente que seja inocentado, quem for culpado que expie sua culpa. Se isso não acontecer, isto é, se a memória do saque não se tornar um patrimônio dos brasileiros, o país poderá repetir esta história, mais cedo ou mais

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O que é paraíso fiscal O termo paraíso fiscal costuma ser muito recorrente no noticiário de escândalos de corrupção. Esses paraísos são pequenos países, mais frequentemente no Caribe, que possuem uma legislação conivente com a entrada e saída de dinheiro sem quase nenhuma fiscalização. Para “lavar” o dinheiro, mafiosos e corruptos investem o dinheiro nessas ilhas em empresas (chamadas offshore) que podem ter como sede uma simples caixa postal, como retrata o livro A Privataria Tucana. Além da garantia de rentabilidade, aqueles que aplicam o dinheiro nesses países têm garantia de sigilo absoluto e conivência da Justiça local.

mori admitiu, depois, ter concedido propinas — “briberization”, como diria Joseph Stiglitz — o que somou à sua pena mais alguns anos de cadeia. Para quem entende a desigualdade social como um valor em si mesmo e o Estado do Bem-Estar Social como um trambolho no caminho da realização plena do indivíduo, Salinas de Gortari, Sánchez de Losada, Menem, Fujimori e similares fizeram o que tinham que fazer. Foram flagrados — uma lástima do seu ponto de vista — mas não se pode fazer maiores reparos à sua ação política em termos de coerência. Resta saber se quem interpreta o Estado Mínimo como uma perversidade ineficaz — aqui ou em qualquer outro lugar — está disposto a fazer valer sua condição cidadã e exigir da Polícia, do Fisco, do Ministério Público e da Justiça que cumpram a sua parte. Se jogar uma luz sobre este passado ainda imerso nas sombras, este livro, que termina aqui, terá cumprido a sua parte. E tudo o que houve terá valido a pena. (Epílogo do livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr.)

A Petrobras foi uma das poucas empresas estatais que não foi completamente vendida no governo FHC, muito em função da resistência dos petroleiros e de setores da sociedade. No entanto, as tentativas de sufocar a empresa e até de difamar a imagem da companhia perante a sociedade eram evidentes. Diversos acidentes macularam a empresa naquela época. A gestão do PSDB da empresa começou em 1995 com cerca de 60 mil trabalhadores. Em oito anos, nenhum concurso público para contratação foi realizado. Ao final da gestão, a empresa tinha reduzido o seu quadro de funcionários pela metade. Além disto, os funcionários da empresa passaram oito anos sem ter reajuste, nem da inflação. A gestão atual da Petrobras conseguiu aumentar o número de trabalhadores para cerca de 70 mil e repôs as perdas salariais. De acordo com Sérgio Motta, um dos homens fortes do governo FHC, a gestão tucana tinha o objetivo de desmontar a Petrobras “osso por osso”. Os tucanos chegaram a mudar o nome da empresa para “Petrobrax”, para tornar a marca mais “atrativa” para o mercado internacional.

Serviço

Desde a edição 444, o jornal Brasil de Fato passou a ter quatro páginas a mais. Ou seja, agora são 16 páginas de informação e formação. Com isso, podemos levar para você mais reportagens, jornalismo inteligente e comprometido com as lutas da classe trabalhadora. Assim, acreditamos contribuir ainda mais para elevar o nível de consciência do povo, para que lute por mudanças e por uma sociedade justa. Quem ganha com isso é você, leitor. Assinatura anual: R$

Rede de espionagem O livro afirma ainda que José Serra, desde o seu período à frente do Ministério da Saúde, utilizou o serviços de arapongas, pagos com dinheiro público, para criar dossiês contra adversários políticos. O grupo de Serra faria grande uso da tática da contra-inteligência, isto é, manobras diversionistas, antecipação e esvaziamento de possíveis denúncias e vitimização perante a opinião pública. O livro também destaca como adversários políticos do mesmo partido praticaram guerras de espionagem e contra-espionagem entre si nos bastidores, tanto no PSDB (no caso, entre José Serra e Aécio Neves) como no PT (entre Fernando Pimentel e Rui Falcão). José Serra teria comandado uma central para tentar dizimar a pré-candidatura de seu correligionário, Aécio Neves, à presidência da República em 2010. Naquele ano, Serra foi candidato e perdeu o pleito para Dilma Rousseff.

“Petrobrax”

O Brasil é a vítima Amaury Ribeiro Jr.

lia do ex-senador tucano Tasso Jereissati). Os 410 mil seriam propina em troca de favorecimento na compra da Telemar, empresa de telefonia privatizada em 1998. Enquanto era diretor do Banco do Brasil com influência na gestão dos fundos de pensão de estatais, as empresas de Ricardo Sérgio apresentaram aumento de faturamento, principalmente em função de negócios com os próprios fundos de pensão. Para a Previ, caixa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, as empresas dele venderam um prédio por R$ 62 milhões. Da Petros, fundo dos funcionários da Petrobras, compraram dois prédios por R$ 11 milhões. O dinheiro da compra do prédio da Petros veio de uma empresa de fachada caribenha. Em outro caso de dinheiro ilícito ligado às privatizações, Privataria Tucana aponta que dois ministros de FHC disseram ter ouvido do líder do consórcio comprador da Vale que Ricardo Sérgio exigiu dele uma comissão.

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A ofensiva neoliberal e o desmonte do Estado brasileiro PRIVATARIA Para o jurista Fábio Konder Comparato, a submissão do país ao estrangeiro é um crime de consequências incalculáveis. É indispensável que todos estes homens sejam processados perante um tribunal popular e condenados à indignidade nacional Renato Godoy de Toledo de São Paulo (SP) A PARTIR DA DÉCADA de 1990, o Brasil iniciou o processo de diminuição do papel do Estado na economia. O plano de privatizações foi a principal marca do período, inspirado fortemente nas ações da dupla Ronald Reagan (presidente dos EUA entre 1984 e 1988) e Margareth Tatcher (primeira-ministra da Inglaterra entre 1979 e 1990). Com o predomínio de governos conservadores na América Latina, alinhados às políticas do Fundo Monetário Interna-

cional (FMI), Fernando Collor iniciou o processo de desestatização. Porém, o auge da política privatista se deu sob o comando de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Os anos de governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) foram marcados por vendas de empresas estatais a preços abaixo do mercado. Logo no início do governo, FHC nomeou o seu ministro, José Serra (PSDB), para a função de chefe do Programa Nacional de Desestatização, que comandou a venda de empresas estatais ao capital privado estrangeiro. Ao todo, dez empresas brasileiras foram vendidas. Somadas as empresas privatizadas em parceria com governos estaduais pró-FHC, foram mais de 25 desestatizações. A Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo, foi vendida em 1997 por 3,3 bilhões de dólares, em um leilão marcado por obscuridades e questionamentos na Justiça. Os compradores ainda contaram com empréstimos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os movimentos sociais denunciam que a venda da mineradora foi feita por um valor muito abaixo do que o mercado estima. Atualmente, calcula-se que o valor da empresa seja de quase 200 bilhões de dólares. O governo FHC também sinalizou que pretendia privatizar a Petrobras. O então ministro das Comunicações e homem forte do governo, Sérgio Motta,

Políticos também exigem apuração

afirmou que a gestão tucana planejava desmontar a petroleira “osso por osso”. O nome da empresa chegou a ser mudado para “Petrobrax”, para tornar a marca mais atrativa para uma possível venda. Após as críticas dos petroleiros e da sociedade, o governo voltou atrás.

Os anos de governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) foram marcados por vendas de empresas estatais a preços abaixo do mercado

Sou totalmente a favor de uma CPI que investigue, escarafunche, destrinche todo o vergonhoso processo das privatizações em nosso país. Hoje, temos aí mais uma CPI, a do Cachoeira. É mais uma CPI para divertir (desviar do que interessa) o Congresso, a mídia e a opinião pública. Afinal, nada mais corrupto Wilson Dias/Abr que as privatizações que desmantelaram parte importante do Estado Brasileiro. Mas, sinceramente, quem quer a CPI da Privataria? Ou vocês acham que exista uma diferença essencial entre privatizar a Vale e entregar, através de leilões, reservas fantásticas do petróleo brasileiro?

Roberto Requião, senador do Paraná (PMDB).

Para o jurista e professor da Universidade de São Paulo, Fábio Konder Comparato, os tucanos deveriam responder judicialmente pelas privatizações que realizaram. “A grande responsabilidade do governo FHC não é ter levado a uma piora da situação econômica e social do país. Outros governos, no passado, também fizeram isso. O que é imperdoável é a entrega do país ao estrangeiro, de pés e mãos atados. Esta é uma ação infinitamente mais danosa do que todas as corrupções. A alienação, a submissão do país ao estrangeiro é um crime de consequências incalculáveis. É indispensável que todos estes homens sejam processados perante um tribunal popular e condenados à indignidade nacional”, disse o jurista em entrevista ao jornalista Nilton Viana, na época do governo FHC.

Leonel Brizola classificou o processo das privatizações como o maior crime de lesa pátria da história brasileira. Agora, a gente pode concluir que além de um crime de lesa pátria, que alienou o patrimônio público, esse também foi o maior Fabio Rodrigues Pozzebom/Abr crime de corrupção. O livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr. vem amplamente documentado. À Camara dos Deputados, cabe apurar as denúncias. Assinei o pedido de CPI e convoco todos os deputados a apoiar, para ir a fundo nas investigações e desvendar o processo de privatização da era tucana.

Brizola Neto, atual ministro do Trabalho (PDT), em discurso no plenário da Câmara dos Deputados quando era deputado federal, em dezembro de 2011.

“O caminho foi investigar o percurso do dinheiro” Maringoni

ENTREVISTA O jornalista e escritor Amaury Ribeiro Jr., autor do livro A Privataria Tucana, afirma que resolveu investigar para comprovar as denúncias de que havia corrupção em todo o processo de privatizações de FHC

A privatização no setor estratégico, a privataria que foi feita Beto Oliveira/Agência Câmara no sistema Telebrás foi um crime contra o interesse público e nacional. Na era Fernando Henrique Cardoso entregaram setores importantíssimos, como a Vale do Rio Doce, para a iniciativa privada; isso representou um retrocesso para nosso país.

E como se deu esse processo de investigação? Foi basicamente levantamento de documentos em cartórios, juntas comerciais e em paraísos fiscais. O caminho foi investigar o percurso do dinheiro. Investigar como as pessoas e empresas envolvidas se enriqueceram dentro do processo das privatizações. O que esse livro representa? Quando lancei o livro achava que não representava muita coisa. Só depois é que fui ver a força. Virou uma bandeira

Ivan Valente, deputado federal (PSOL).

A privataria tucana, símbolo das privatizações no Brasil na época do governo neoliberal do PSDB, causou um grande prejuízo à nação e levou o país a essa esteira de corrupção e de desmando e fragilidade dos poderes da República. Temos sentimento de que fomos enganados no passado. Nossa resposta a isso, a essa José Cruz/Abr trama, tem que ser dada tratando esse assunto no Congresso Nacional, em uma profunda investigação para identificar os culpados e, sobretudo, recuperação do dinheiro público desviado em razão da venda das nossas riquezas naturais e bem e serviços.

APÓS A PUBLICAÇÃO, Amaury Ribeiro Jr. percorreu todo o país ao ser convidado a participar de debates, fóruns e palestras para compartilhar todo o processo que resultou no livro A Privataria Tucana. Em entrevista ao Brasil de Fato, o autor fala sobre o significado do livro, como se deram as investigações, e a repercussão que teve.

“Tem setores da imprensa que se beneficiaram desse processo e que até hoje sonham com o retorno desse modelo neoliberal dos tucanos”

Rui Falcão, deputado estadual e presidente nacional do PT.

Luiz Felipe Albuquerque de São Paulo (SP)

Brasil de Fato – Por que você resolveu escrever o livro? Amaury Ribeiro Jr. – Quando começou a surgir na imprensa na década de 2000, tinha-se a suspeita de que havia propina nos processos de privatização e que foram bancados pela corrupção. Sempre apontou isso. Era uma coisa que era errada desde o início e resolvi investigar para comprovar as primeiras denúncias de que existia propina, corrupção dentro de todo esse processo.

As privatizações da era Fernando Henrique Cardoso significaram as dilapidações do patrimônio público, transferindo para as mãos Marcello Casal Jr/Abr do capital privado empresas estatais estratégicas. Por pouco não entregaram o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras. Esse programa neoliberal levou o estado brasileiro a perder o papel de indutor do desenvolvimento, recuperado por Lula e agora por Dilma Rousseff.

Protógenes Queiroz, deputado federal (PCdoB).

das pessoas que sofreram com todo esse processo de privatização. Muita gente enlouqueceu, ficou doida. Muitas pessoas – funcionários dessas empresas estatais – que eram obrigadas a entrar nesses planos de demissão voluntária. Em cada história, em cada estado que viajei de norte a sul, via uma história de tragédia e o tanto que essas privatizações fizeram mal para a elas. Tenho visto que o livro tem se tornado um consolo, uma bandeira para essas pessoas. Como você vê o significado político do conteúdo do livro? Politicamente demonstra que o modelo deles, o neoliberal, que ocorreu em toda a América Latina é errado. É um modelo que nasceu falido e que só serviu para enriquecer gente. Vejam só: eles queriam privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobrás. Hoje esses dois bancos fazem um papel importante, demonstram a importância de se ter um banco estatal forte, baixando as taxas de juros. E como foi esse processo de divulgação do livro? Conheci muito mais o livro depois da publicação, porque em cada estado víamos uma situação, uma história de sofrimento dessas pessoas vítimas da privatização. O que me chamou atenção foi

ouvir histórias de quem sofreu com isso. Quando se fala sobre um assunto desses parece que é questão só de macroeconomia, mas não é. Não é só uma política de governo, afetou a vida das pessoas, é uma coisa muito mais ampla que tem a ver com o dia a dia das pessoas. E o que se espera com o livro? Esperamos que os mesmo erros não se repitam. Que sirva de lição para que o país caminhe para frente e não se inspire nesse modelo. Tem setores da imprensa que se beneficiaram desse processo e que até hoje sonham com o retorno desse modelo neoliberal dos tucanos. Mas acho que o livro serviu para enterrar de vez esse projeto e mostrar o que era a verdadeira política econômica do PSDB. Fale um pouco sobre o próximo livro que está escrevendo, A Privataria Tucana II. Ainda estamos olhando os documentos, temos que analisá-los para concluir, mas chegaremos lá. Estamos trabalhando outros meios também, como que a imprensa e outros setores também se beneficiaram disso. Por que a imprensa toda apoia esse modelo? Porque se beneficiou. Mas estamos na busca de documentos, porque precisa estar muito embasado para escrever um livro desses.

O processo de privatização na era FHC só não foi mais profundo em razão da resistência das forças progressistas. Mas a hegemonia UJC-Curitiba neoliberal dos anos de 1990 não nos permitiu impedir a vergonhosa privatização da Vale, comprada a preço de banana. Estamos de acordo com uma CPI sobre este escândalo, mas não podemos abandonar a luta contra a privatização, que agora se dá de forma mais sutil e mitigada. E a CPI é uma luta num espaço majoritariamente burguês; precisamos trazer de volta esta luta para as ruas!

Ivan Pinheiro, secretário-geral do PCB.

É fundamental investigarmos com profundidade as falcatruas que foram praticadas no PSTU processo de privatização na era Fernando Henrique Cardoso. Também é importante continuarmos a luta contra a privatização do patrimônio público do nosso país que lamentavelmente segue acontecendo nesse governo, como no caso dos aeroportos.

Zé Maria, dirigente do PSTU.

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Especial Privataria Tucana  

E a CPI da privataria tucana?

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E a CPI da privataria tucana?

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