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Ano 3 • número 125 • De 21 a 27 de julho de 2005 – 9

SEGUNDO CADERNO HAITI

Soldados massacram famílias Em Porto Príncipe, operação de capacetes azuis fracassa e, pelo menos, 23 pessoas são assassinadas

N

a madrugada de 6 de julho, cerca de 350 soldados da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) tomaram de assalto Cité Soleil, bairro da capital haitiana Porto Príncipe. O objetivo da operação era assassinar Emmanuel Wilmer, líder do grupo Lavalas, que apóia Jean-Bertrand Aristide, presidente deposto em fevereiro de 2004 e exilado na África do Sul. Segundo reportou a agência estadunidense Associated Press, o porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU), Eloufi Boulbers, declarou que, além de Wilder, foram mortos bandidos armados que resistiram à ação dos soldados. Em nota oficial, a entidade Médicos Sem Fronteiras afirmou que a operação deixou 23 vítimas, mas que o número pode atingir 80. De acordo com jornalistas do Projeto de Informação do Haiti (HIP), pessoas foram mortas em suas casas, nas ruas e em seus locais de trabalho, mesmo estando desarmadas. Na operação, que contou com tanques e helicópteros, houve 26 feridos, principalmente mulheres e crianças. Tragédias como a do desempregado Fredi Romelus: soldados da Minustah assassinaram sua esposa e dois filhos. “Eles cercaram nossa casa. Eu corri, pensando que minha esposa e as crianças estavam atrás de mim. Mas não tinham con-

humanos. Até meados de junho, a atuação da Minustah era considerada apática por pesquisadores haitianos e estrangeiros, como apontaram relatórios do Centro de Estudos de Direitos Humanos da Escola de Direito da Universidade de Miami, Estados Unidos, e da entidade Anistia Internacional.

Fotos: Projeto de Informação do Haiti

João Alexandre Peschanski da Redação

MALOGRO LATENTE

Vítimas da ação dos soldados da Organização das Nações Unidas (ONU) em Cité Soleil, bairro de Porto Príncipe

seguido sair e os militares atiraram na casa”, contou Romelus, em entrevista a um repórter do HIP. Foram mortos Sonia Romelus, de 22 anos, e seus filhos Nelson e Stanley, de 1 e 4 anos.

SOB ATAQUE Em entrevista ao Brasil de Fato, em final de junho, Marc-Arthur

Fils-Aimé, do Instituto Cultural Karl Lévêque (ICKL), entidade de auxílio a trabalhadores haitianos, disse que os bairros populares de Porto Príncipe, como Cité Soleie e Bel Air, estão sob ataque constante da Minustah. “A Minustah está fracassando em sua missão, que era trazer a paz para o Haiti. Só há mais mortes e violência”, explicou. Em

MILITARIZAÇÃO

maio, com outras organizações, o ICKL assinou um documento exigindo a retirada das tropas. Os funcionários da Minustah estão no Haiti desde junho de 2004. Atualmente, são 8.837, de acordo com dados oficiais. Entre seus objetivos declarados estão: garantir um ambiente social estável, proteger civis e promover os direitos

SUL-SUL

Encontro andino reafirma integração Raimundo Lopez De Lima (Peru)

Para Washington, a Tríplice Fronteira é posição estratégica na doutrina de guerra

dalos de corrupção e contrabando, mas nesse caso teve participação direta dos Estados Unidos. Nos Arquivos do Terror – documentos do período da ditadura do paraguaio Alfredo Stroessner (1954-1989) –, sugere-se que as armas do Irangate passaram pela Tríplice Fronteira nos anos 80. Tratava-se de um esquema de venda de armamentos arquitetado pela CIA, que os trazia do Irã para abastecer os contra nicaragüenses, um grupo paramilitar mercenário dos Estados Unidos que combatia o governo sandinista.

IMPERIALISMO Para Washington, a Tríplice Fronteira é uma posição estratégica na doutrina de guerra de baixa intensidade e de guerra preventiva, como todo lugar fronteiriço. Além disso, o aqüífero Guarani, a maior reserva de água doce do mundo, está no extenso subsolo desta região. As tropas estadunidenses poderão receber armas e equipamentos. Terão também total facilidade para se locomover até o aeroporto de Mariscal Estigarribia, a cerca de 250 quilômetros da fronteira com a Bolívia. As pistas foram construídas pelos próprios Estados Unidos há tempos e têm dimensão de 3,8 mil metros. Ali, podem

aterrizar aviões B-52 e Galaxy, entre outros, para o desembarque de material bélico pesado. Para muitos analistas, está claro que poderão ser instaladas uma ou duas bases, sobretudo porque na doutrina de guerra de baixa intensidade essas posições permitem mobilizar rapidamente forças militares para “controlar situações que saiam da normalidade”. A cooperação do exército paraguaio com forças estrangeiras já gerou polêmica no país. Em 1997, o advogado Martín Almada, que descobriu os Arquivos do Terror de Stroessner, denunciou com provas que o exército paraguaio enviou para a secretária da Conferência dos Exércitos Americanos (CEA), em Quito (Equador), uma lista descrevendo o estado da “subversão” no país durante o primeiro semestre de 1997. Da relação constavam nomes de “subversivos”: os movimentos sociais, sindicais, estudantis, camponeses, indígenas e de direitos humanos, considerados “as novas insurgências”. Em depoimento à Justiça paraguaia, o militar que assinou o documento enviado à CEA afirmou que o procedimento de enviar lista de “subversivos” era comum a todos os exércitos da região (La Jornada, www.jornada.unam.mx)

A Comunidade Andina de Nações (CAN) deu novos passos rumo à integração dos seus paísesmembros no seu XVI Conselho Presidencial, celebrado em Lima, Peru, no dia 18. Uma das novidades do encontro foi que pela primeira vez participaram, como associados, as nações do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). Fundada em 1969 por Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, a CAN definiu na ocasião seu próximo presidente. Será o Chefe de Estado venezuelano, Hugo Chávez, que em seu primeiro discurso na liderança do grupo fez um chamado à integração energética. “Petroandina será uma realidade, garantirá a energia de qualidade ao mais baixo custo possível para o desenvolvimento integral de seus povos”, disse Chávez, em referência à proposta de criação de uma empresa pública regional a partir da associação de estatais do petróleo da região. Bolívia, Equador e Venezuela concentram as principais jazidas de gás e petróleo da América Latina. Estiveram também no encontro os presidentes Álvaro Uribe (Colômbia), Alfredo Palacio (Equador), Alejandro Toledo (Peru) e

o chanceler boliviano, Armando Loaiza. Todos subscreveram, ao final da reunião, a “Ata de Lima”, que coloca a questão energética como um dos pontos centrais do encontro. Os presidentes também vão criar um fundo de coesão social de US$ 10 milhões. Chávez também evocou a figura do libertador Simon Bolívar para afirmar que não há integração real sem a participação dos setores populares. O líder venezuelano enfatizou que as negociações não podem ficar apenas em cima de temas comerciais. “Não há integração verdadeira, a integração de que necessitamos para nossa independência que ainda está pendente, sem os povos, que são os únicos que salvam a nossas nações”, afirmou Chávez. O presidente venezuelano disse, ainda, que o capitalismo e o neoliberalismo não são caminhos para os povos da região encontrarem seu bemestar. E afirmou que está otimista, pois há cinco anos, quando ocupou pela primeira vez a presidência da CAN, o grupo estava apático. Antes do encontro presidencial, em Lima, organizações sociais peruanas realizaram um massivo protesto em repúdio às negociações do Tratado de Livre Comércio (TLC) Andino com os Estados Unidos. (Prensa Latina, www.prensa-latina.com)

France Presse

A questionada presença dos militares dos Estados Unidos no Paraguai, iniciada há uma semana, estão levantando inquietações na América do Sul. Dia 26 de maio, o Congresso paraguaio aprovou a realização de 13 missões militares conjuntas até dezembro de 2006 e deu imunidade para as tropas estadunidenses. Durante esse período, os militares terão tratamento igual ao destinado aos diplomatas. Assim, poderão usar armas, equipamentos bélicos e realizar qualquer tipo de transgressão e “ação cívica” – termo que se interpreta como contra-insurgência, basicamente. Foi anunciado também que a Agência Federal de Investigação (FBI, sigla em inglês) abrirá um escritório na capital Assunção em 2006. Argentina, Brasil, e Bolívia já expressaram sua preocupação ante uma possível abertura de uma base militar estadunidense, iniciativa que Assunção e Washington estão negando publicamente. “O Paraguai não assinou acordo algum com os Estados Unidos para estabelecer uma base militar estadunidense no território da República”, registrou uma nota divulgada pelo Ministério da Defesa paraguaio. De qualquer forma, a decisão do Congresso já é vista como uma vitória da Casa Branca que conseguiu finalmente colocar suas forças na Tríplice Fronteira (formada pelas divisas de Argentina, Brasil e Paraguai). Depois do ataque de 11 de setembro, a Agência Central de Inteligência (CIA, sigla em inglês) tentou levantar suspeitas de que a região abriga células terroristas. Também espalhou que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) teriam feito seqüestros no Paraguai. Tudo apesar de as agências de inteligência dos três países negarem veementemente qualquer relação da Tríplice Fronteira com o terrorismo. A região já foi pivô de escân-

CMI

EUA avança sobre Tríplice Fronteira Stella Caloni de Buenos Aires (Argentina)

Em visita à França, nos dias 13 e 14, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou sobre o Haiti. Disse que a estabilização do país não depende de força militar, mas de desenvolvimento. “Não haverá presidente eleito no Haiti que consiga consolidar o processo democrático se junto com a eleição não for ajuda financeira internacional para que a gente possa garantir àquele povo o direito de se desenvolver”, declarou. Os governos de países como Canadá, Estados Unidos e França prometeram dinheiro para contribuir na reconstrução do Haiti, mas a ajuda nunca foi enviada. Lula não falou do massacre. Após a ação do dia 6, segundo o portal de notícias Centro de Mídia Independente, ativistas em diversas cidades estadunidenses estão fazendo piquetes em frente a consulados brasileiros. O comandante das tropas da Minustah, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, é brasileiro. No dia 21, estão sendo organizados protestos simultâneos em diversos países em repúdio ao massacre.

Os presidentes do Equador, Alfredo Palacio (à esq.), e da Venezuela, Hugo Chávez

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