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Edição Especial ano 1

edição 7

distribuição gratuita

Júlia Dolce

Ceará | Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

NA CONTRAMÃO DA VONTADE POPULAR, BOLSONARO PRETENDE PRIVATIZAR ESTATAIS


2 | ESPECIAL

Com a privatização da Chesf, energia pode ficar mais cara

Maria Hsu/Chesf

Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

A Companhia tem como principal atividade a geração, a transmissão e a comercialização de energia elétrica

Francisco Barbosa

A

conta de energia pode ficar mais cara, isso porque Jair Bolsonaro (PSL) incluiu na sua lista de privatizações a Eletrobrás, estatal líder em geração e transmissão de energia elétrica no país e a maior companhia do setor na América Latina. A iniciativa pode influenciar na conta de luz, pois, atualmente, a energia gerada é de R$ 60 por megawatt/hora devido a lei 12.783, de 2013, de autoria da ex-presidenta, Dilma Rousseff (PT), que estabelece a renovação automática das concessões de hidrelétricas antigas, cujo investimento já havia sido pago durante as últimas décadas, de forma a assegurar a continuidade, a eficiência da prestação e a tarifa mais baixa. Com a privatização esse sistema vai acabar, e com isso, deverá passar a oferecer a energia ao preço de mercado que hoje é de R$ 250 por megawatt/hora.

A privatização da Eletrobrás também significa a privatização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) que este ano completou 71 anos. A Chesf tem como principal atividade a geração, a transmissão e a comercialização de energia elétrica. Para Luciana de Paula da Fonseca Crisóstomo, diretora de relações intersindicais do Sindicato dos Eletricitários do Estado do Ceará (Sindeletro) e trabalhadora da Chesf desde 2012, a privatização da Eletrobrás/Chesf trará consequências para a população, não só no que diz respeito à conta de energia, para ela, as perdas são ainda maiores. “Hoje nós já vivemos um apagão, praticamente, porque hoje a diretoria da empresa, tanto da Chesf como da Eletrobrás, barraram quase que 100% do dinheiro que nós tínhamos pra investimento em cultura, em educação, em saúde”. Luciana explica que não estão mais sendo realizados patro-

cínios para eventos culturais, por exemplo, e que, de acordo com ela “isso é uma das facetas que estamos perdendo ao ter a Chesf privatizada”. Mas, não só os pequenos consumidores e população em geral devem se preocupar com a privatização, segundo

este ano foram lançadas cinco frentes parlamentares contra a privatização do setor elétrico ela, quem é empresário também deve ter essa preocupação, pois a Chesf é uma das empresas que tem o valor da energia vendida para grandes consumidores mais barato do país. “O que nós vemos no mundo inteiro é que, quan-

do a energia vira uma comoditie, um bem de mercado, ela pode sofrer variações extremas”. Como exemplo ela cita a Companhia Energética do Ceará (Coelce), que foi vendida para a Enel. “A Coelce, assim como as demais distribuidoras do país tiveram um incremento substancial das tarifas para o consumidor final.” A profissional de serviços gerais, Tamyris Mirian Costa da Silva está sentindo a diferença em sua conta com a privatização da Coelce. “Temos uma meta mensal de consumo pra ‘bater’, quando não alcançamos essa meta a nossa conta vem zerada, e a soma dos valores vem no próximo papel e isso mexe com o meu orçamento. Já teve vezes que tive que pagar R$150”. Outra reclamação sua é sobre os cortes feitos por falta de pagamento. “Com a Coelce o aviso de corte vinha depois de três papeis de conta sem pagar, agora se você tiver com dois papeis sem pagar já vem um aviso de corte”.

Parlamentares contra a privatização No dia 19 de setembro, foi realizada na Câmara dos Deputados uma audiência pública sobre a privatização da Eletrobrás. A ação foi realizada pela Comissão de Legislação Participativa. De acordo com alguns dos participantes, o repasse do controle da estatal tornará mais difícil a gestão do uso das águas no país, isso porque, de acordo com eles, os novos controladores não teriam o mesmo compromisso que o Poder Público no que diz respeito à segurança hídrica e às tarifas. Além dessa ação, este ano foram lançadas cinco frentes parlamentares contra a privatização do setor elétrico. São elas: Frente Parlamentar em Defesa da Eletrobrás e do Setor Elétrico; em Defesa da Eletrosul; em Defesa do Setor Elétrico Brasileiro; Frente Parlamentar Mista em Defesa da Eletronorte e; a Frente Parlamentar em Defesa da Chesf, essa com a participação de 213 deputados e coordenada por Danilo Cabral (PSB-PE).


ESPECIAL | 3

Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

Privatização do Serpro e da Dataprev coloca em risco dados sigilosos dos brasileiros Camila Garcia

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abe quando você faz uma compra e a vendedora pergunta se quer colocar o CPF na nota? Ou quando quer abrir uma pequena empresa e precisa emitir um CNPJ? Quando compra um carro e, no documento, ele possui um número de Renavam? Quando aqueles que pagam imposto de renda enviam suas declarações para a receita federal por meio de um sistema baixado na internet? Ou ainda quando se pretende viajar para fora do país e precisa tirar um passaporte? Essas situações, presentes no cotidiano de todas as pessoas, têm em comum a tecnologia e o trabalho dos que fazem o Serviço Federal de Processamento de Dados, o Serpro. Uma empresa pública, que desenvolve tecnologia e sistemas de informação para todos os órgãos públicos e até para empresas privadas, como é o caso do recente contrato fechado com a Uber. Em agosto, a estatal foi considerada a melhor empresa no setor de indústria digital e recebeu o Prêmio Melhores e Maiores 2019, concedido pela Revista Exame. Segundo informações em seu site, o Serpro encerrou o ano de 2018 com lucro líquido de R$ 459,70 milhões, um aumento de 273,41% em comparação a 2017. Essa gigante da tecnologia da informação está entre as empresas ameaçadas pelo governo do presidente Jair

Markus Spiske

Venda das empresas públicas compromete soberania nacional e pode prejudicar a vida de todos os brasileiros Bolsonaro (PSL) que, em meados de agosto, anunciou um plano de privatização para 17 estatais. Embora não haja informações claras sobre como será esse processo, o governo federal possui até uma Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados que funciona dentro do Ministério da Economia, de Paulo Guedes, para acompanhar as privatizações. Promessa de campanha, a venda das estatais é justificada por Bolsonaro pela necessidade de reduzir os gastos públicos. Entretanto, trabalhadores do Serpro questionam a iniciativa, por se tratar de uma estatal lucrativa, temem por seus trabalhos e pelos dados dos brasileiros. Fábio Fernandes, empregado público que atua na área de segurança da informação,

Isso, nas mãos de empresas privadas, pode favorecer ações de sonegação, fraudes e vendas de informações afirmou que “o clima entre os empregados é de apreensão e preocupação. Além do risco de perda de empregos e das condições de trabalho, há, ainda, o risco de termos os nossos dados, de todos os brasileiros, sob gestão privada, na lógica do lucro”. Para Fábio Rosa, emprega-

do público do Serpro e diretor de comunicação do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados do Estado do Ceará (Sindpd), a privatização trará riscos incalculáveis para a soberania nacional. “Os mais importantes, sigilosos, privados e estratégicos dados da população brasileira e do Estado estão ar-

mazenados nas bases de dados do Serpro e da Dataprev. Tem declarações de renda, quais são dívidas e bens, o fluxo financeiro dentro do Estado brasileiro, regras e critérios das fiscalizações. Isso, nas mãos de empresas privadas, pode favorecer ações sonegação, fraudes e vendas de informações”, argumentou Rosa.

Ameaça antiga Quando Fernando Henrique Cardoso (1995-2003/ PSDB) foi presidente, a estatal esteve entre as elencadas para venda à iniciativa privada, mas o processo encontrou muitas resistências e não avançou. Ivandro Claudino, analista de sistemas no Serpro, compara os tempos de FHC com as gestões dos presidentes Lula (PT) e Dilma (PT) e afirma a importância do investimento público no desenvolvimento de tecnologia. “Antes era muito sucateada, quando os governos do PT assumiram, eles reconstruíram a empresa, a reestruturaram ao ponto dela se tornar a potência que é hoje”, comentou. Dataprev Junto com o Serpro, a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social, Dataprev também está entre as listadas para privatização por Bolsonaro. Já no governo Temer (MDB), a empresa teve alguns escritórios fechados no Brasil, que passaram a funcionar na mesma estrutura do Serpro, como é o caso do Ceará. Ela é responsável pelos dados de pagamentos de benefícios, de empréstimos consignados, pelo histórico de locais por onde os trabalhadores passaram, entre outros dados. Sua privatização é contestada por especialistas em segurança da informação pelos mesmos argumentos relacionados aos dados do Serpro.


4 | ESPECIAL

Divulgação Petrobras

Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

Sindicatos denunciam que o Governo Federal pretende retirar totalmente a Petrobras do Nordeste Segundo o Ineep, o preço do combustível irá aumentar com a saída da Petrobras da região Celso Aquino

A

Petrobras, maior conglomerado de exploração e beneficiamento de petróleo do Brasil e um dos maiores do mundo, está passando por um acelerado processo de privatização. Em reunião no dia 25 de setembro, o Conselho Administrativo definiu que a empresa irá focar suas operações nas atividades de refino e comercialização de derivados na região Sudeste. A denúncia dos sindicatos é que o governo pretende retirar totalmente a Petrobras do Nordeste. Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás Natural e Combustíveis (Ineep) o investimento no setor petrolífero no Nordeste caiu de R$ 63,4 bilhões entre 2011 e 2014 para apenas 13,7% desse montante entre 2014 e 2017, o que significa um investimento de R$ 8,7 bilhões. Ainda segundo o Ineep o preço do combustível irá au-

mentar com a saída da Petrobras da região. O fenômeno que pode acontecer é derivado do acesso da companhia estatal brasileira ao óleo cru a preços menores que o mercado internacional, no caso das privatizações se confirmarem a empresa compradora terá de traçar seus preços no padrão internacional de precificação do petróleo, podendo inclusive comprar petróleo fora do país, podendo deixar o preço do combustível na região mais caro e os estados e municípios sem royalties. Já no Ceará, a Petrobras tem bases em 8 municípios, sendo nove plataformas de exploração marítima e 395 poços em atividade, refinaria de lubrificantes e asfalto, atividades de transporte e armazenagem da Transpetro, uma usina termoelétrica e uma usina de biodiesel já desativada. Em royalties o Ceará recebeu em 2018 R$ 121 milhões, representando uma alta de

a luta pela soberania é intrínseca à luta pela educação

responsável por aproximadamente 8% do ICMS do estado e uma importante fatia do IPTU e ISS de Fortaleza. Outra decisão relevante que o Conselho Administrativo definiu na mesma reunião é a saída integral da Petrobras nos ramos da distribuição e do transporte de gás, da cadeia dos fertilizantes e da distribuição de biodiesel e GLP, que é o gás de cozinha. Isso impacta a forma como se estrutura a empresa, que deixa de controlar todo o processo de produção. Exemplo disso é a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás responsável pela comercialização de combustível, que mesmo apresentando um lucro líquido de R$3,2 bilhões em 2018 foi privatizada este ano.

quer mais produzir no estado, ela fecha e acabou”. Ele alerta que, se privatizados, os empreendimentos no Ceará têm a tendência de serem fechados e que prejudicará em muito a arrecadação do estado. Só a Refinaria de Lubrificantes Nordeste (Lubnor) é

Educação e Petrobras Durante o governo da Presidenta Dilma Rousseff (PT) foi sancionada uma lei que destina 75% dos royalties gerados pela exploração do petróleo para educação e 25% para a saúde. A lei ainda diz que 50% dos recursos do Fundo Social do pré-sal devem ser

95,6% em relação a 2017. Segundo o presidente do Sindicato dos Petroleiros Ceará/Piauí Jorge Oliveira, “não existe nenhuma cláusula, nem nada acordado que, se vendidas, essas empresas vão continuar aqui, que vão continuar investindo no Ceará. Se a empresa decidir que não

destinados para os dois setores. Os royalties são compensações financeiras pagas pelas empresas exploradoras de petróleo ao Governo Federal por eventuais danos ambientais que possam acontecer na extração do minério. Para a vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), a estudante de história Elida Elena, “os royalties do petróleo são fundamentais para garantir o investimento na educação. Com o Plano Nacional de Educação nós garantimos 10% do PIB para a educação, que era uma bandeira histórica do movimento estudantil, e os royalties eram parte fundamental nisso.” Ainda segundo Elida, “a luta pela soberania é intrínseca à luta pela educação, seja pelo papel que a educação cumpre no desenvolvimento do país ou pelo papel que a Petrobras tem no financiamento da educação. A Petrobras também produz ciência e tecnologia nacional e de ponta para desenvolver nosso país. Então devemos ir às ruas defender o patrimônio do povo brasileiro”.


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ESPECIAL

Aumentos dos combustíveis impacta no prato do brasileiro

Entenda como a privatização das refinarias impacta em toda a cadeia produtiva dos alimentos

“O

lha, tudo aumentou nos últimos anos, na feira e no mercado. Toda a despesa subiu, mesmo eu tendo tirado ou diminuído algumas coisas das compras”, afirma Magnólia Maria Santos Lima, 56 anos, moradora de Osasco (SP), município da grande São Paulo. Magnólia é cozinheira na Barra Funda, bairro da capital paulista, e responsável pela compra dos alimentos que se tornam o almoço diário de aproximadamente 15 pessoas. “Há dois ou três anos, a gente pagava R$ 1,90 no quilo do tomate, agora você não encontra por menos de R$ 8,00. A batata eu pagava 59 centavos, no máximo R$ 1. Hoje eu paguei R$ 9,75 por um quilo e meio”, relata. E a percepção dos aumentos no bolso da população, que gasta cerca de 25% da sua renda em alimentação, também podem ser verificados no balanço do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2018, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano, houve um aumento de 4,04% no preço dos alimentos, com alguns produtos encabeçando a lista: tomate (71,76%), frutas (14,1%) e leite (8,43%). Neste ano de 2019, nos cinco primeiros meses, o aumento acumulado no preço dos alimentos e bebidas até o mês de agosto chegou a 3,43%, se comparado ao mesmo período do ano anterior, também de acordo com dados do IPCA.

RJ

EDIÇÃO ESPECIAL

ESPECIAL | 5

SETEMBRO / OUTUBRO DE 2019 Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

Carlde Souza / AFP

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Para a produção de alimentos VOCÊ SABIA convencionais, outro derivado do do petróleo que interfere no custo de produção é o fertilizante, que também subiu de preço nos últimos anos. Um dos motivos é a baixa participação da Petrobras no setor. Atualmente, apesar de ser o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, o Brasil importa cerca de 75% dos insumos nitrogenados. Além disso, em junho, a Petrobras anunciou que retomará o processo de venda da sua participação nas fábricas de fertilizantes Araucária Nitrogenados (Ansa) e Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN III).

REAJUSTE DOS COMBUSTÍVEIS »Um dos fatores que puxaram o preço dos alimentos nos últimos anos foi a mudança na política de preços dos derivados de petróleo nas refinarias da Petrobras. A partir de 2016, com a mudança na direção da estatal, os preços dos derivados passaram a ser reajustados de acordo com a cotação internacional do barril do petróleo e da variação do dólar. Como o valor do barril de petróleo disparou desde junho de 2017, os combustíveis passaram a sofrer reajustes diários nas refinarias e, consequentemente, nas bombas dos postos de gasolina. Nos últimos dois anos, o preço da gasolina subiu 35% nas refinarias e 28% nos postos. Já o diesel apresentou alta de 38% nas refinarias e 22% nos postos. Anteriormente, entre 2011 e 2015, a Petrobras manteve uma política de controle dos preços, subsidiando as variações internacionais e reduzindo o impacto para o consumidor. Com a privatização das refinarias, a estimativa é que essa realidade piore. De acordo com o integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Humberto Palmeira, essa é uma escolha política equivocada. “Uma empresa pública e estatal, com os preços regulados pelo governo e não pelo mercado internacional significa a gente ter um custo de produção de alimentos mais barato, tanto na produção como na distribuição. Com o golpe [de 2016], o que se verificou foi exatamente o oposto”, opina. Variação do preço dos combustíveis

Postos: Gasolina R$ 2,80

jul/13

R$ 3,55

jul/17

Diesel

R$ 4,54 R$ 2,30

jun/19

Variação: 62% Inflação no período (IPCA): 41,80%

jul/13

R$ 2,97

jul/17

R$ 3,65

jun/19

Variação: 59% Inflação no período (IPCA): 41,80% Fonte: ANP

www.brasildefato.com.br redacaorj@brasildefato.com.br /brasildefatorj @Brasil_de_Fato (21) 99373 4327 (21) 4062 7105

CONSELHO EDITORIAL Alexania Rossato, Antonio Neiva (in memoriam), Carolina Dias, Igor Barcellos, Joaquín Piñero, Mario Augusto Jakobskind (in memoriam), Rodrigo Marcelino, Vito Giannotti (in Expediente memoriam) | EDIÇÃORavena Mariana Pitasse REVISÃO Vivian Camila Edição: Monyse | Textos: Amanda Sampaio, Virissimo | ADMINISTRAÇÃO Angela Bernardino, Júlia Garcia, Celso Aquino, Francisco Barbosa | Revisão: Júlia Garcia | Procópio e Erivan Silva DISTRIBUIÇÃO Dias Diagramação: Miguel Cela | Tiragem:Carolina 50 mil exemplares REDAÇÃO Guilherme Weimann | ARTE Vitor Teixeira DIAGRAMAÇÃO Juliana Braga. brasildefato.com.br @brasildefatoce (85) 99858-8379


6 | ESPECIAL

Tânia Rêgo/Agencia Brasil

Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

Você sabe o que pode perder com a privatização dos bancos públicos? ARTICULAÇÃO. A Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Bancos Públicos conta com 209 integrantes Francisco Barbosa

O

s bancos públicos como o Banco do Brasil (BB), a Caixa Econômica Federal e o Banco do Nordeste (BNB) se veem ameaçados com os constantes anúncios de privatizações de estatais feitas pelo governo Bolsonaro (PSL). Mesmo que não estejam diretamente dentro da lista de privatizações já foi anunciada a autorização para venda de uma parte das ações do Banco do Brasil. Em maio deste ano, por exemplo, foi lançada a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Bancos Públicos que conta com 209 integrantes, sendo 199 deputados e 10 senadores, de 23 partidos. A iniciativa pretende analisar todos os projetos sobre o tema que estão no Congresso. De acordo com dados divulgados no site da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Eco-

nômica Federal (Fenae), 46% das operações de crédito, o que corresponde a cerca de R$ 1,4 trilhão são dos bancos públicos; na habitação essas instituições são responsáveis por 80% do crédito imobiliário, representando R$ 597 bilhões em financiamentos imobiliários. No crédito rural, os bancos públicos investiram R$ 180 bilhões (72%). A Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ANABB) também está se organizando e já iniciou sua luta contra as privatizações com o lançamento da campanha “Não mexe no meu BB”, que faz um alerta sobre a intenção de desmontar o BB a partir da venda de subsidiárias e ativos estratégicos que hoje contribuem em áreas como seguros, previdência, cartões de crédito entre outras áreas de atuação do banco. Um dos motivos da iniciativa, de acordo com

a própria ANABB, é mostrar para a sociedade a necessidade de manter o modelo de empresa pública construído em torno do BB. Em abril deste ano, as nove seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Nordeste escreveram uma carta aberta manifestando a pre-

Essa lógica empobrece a região Nordeste ocupação com a possibilidade de privatização do Banco do Nordeste (BNB). Na carta, a OAB afirma que “o Banco do Nordeste é uma ferramenta importante no desenvolvimento da região Nordeste, especialmente no Semiárido”. No texto também é apresentado o balanço financeiro de 2018, di-

vulgado pelo BNB, onde mostra que “o lucro líquido da instituição cresceu 6,4% e chegou a R$ 725,5 milhões. Os dados anunciados mostram que, no estado do Ceará, os valores totais contratados chegaram a R$ 8 bilhões”. Para Carlos Eduardo, presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará, as privatizações representam a retirada de diretos e de investimentos para o Nordeste. Ele cita como exemplo o fato das pessoas conseguirem créditos em bancos públicos, mas para investir seu dinheiro as pessoas estão recorrendo aos bancos privados. De acordo com o sindicalista, esse tipo de lógica é que leva o dinheiro e os recursos de desenvolvimento saírem e descapitalizarem a região Nordeste. “Essa lógica empobrece a região Nordeste, e desfazer essas políticas significa desfazer a condição de lutas contra

a desigualdade que acontece na garantia de segurança alimentar, produção de alimentos, financiamento da agricultura familiar seja no défcit habitacional, principalmente para as pessoas mais pobres, na perspectiva de políticas públicas”, afirma. Em 2018, Maria Damiana da Costa Moizéis, tecnóloga em saneamento ambiental, realizou o sonho da casa própria. Ela conseguiu o financiamento com o programa “Minha Casa Minha Vida”, pelo Banco do Brasil. Ela acredita que as privatizações dos bancos públicos irão trazer consequências para as pessoas que dependem do programa de habitação. “As privatizações dos bancos públicos é algo que não pode acontecer. As pessoas, principalmente os pobres, vão perder muito com isso. Muita gente vai perder a chance de conseguir a casa própria”.


ESPECIAL | 7 Arquivo Sintect

Fortaleza, 11 a 24 de outubro de 2019

Desde 1663 os Correios garantem o direito de serviço postal ao povo brasileiro; conheça histórias de quem usa o serviço no cotidiano Amanda Sampaio

O

prazer de enviar e receber cartas pelos correios parece um pouco perdido no meio do mundo digital, não é mesmo? Mas, apesar do avanço no uso das redes sociais e dos e-mails, a troca de correspondência não morreu no Brasil. Aquela sensação boa, misto de curiosidade e ansiedade, pela espera do amigo carteiro ainda vive em muita gente – que recebe muito mais do que boletos. O professor Edmar Cialdine, 39, morador da cidade do Crato/CE, desde que se entendeu como leitor sempre usou este serviço: seja assinando revistas, comprando livros ou trocando cartas, prática que mantém, inclusive nos dias atuais. “As pessoas se entregam mais por meio das cartas. Não raro me vejo emocionado, quase às lágrimas, quando leio uma carta. Isso é algo que nem e-mail, nem redes sociais ou ligações telefônicas me fizeram sentir”, conta Edmar que troca cartas com pessoas dentro e fora do Brasil. Os Correios têm sua origem no Brasil no ano de 1663 e, desde então, garante o direito

de serviço postal ao povo brasileiro. A empresa estatal está presente em 100% do território nacional e é autossustentável, ou seja, o Tesouro Nacional não precisa colocar recursos para que a instituição funcione. No ano de 2018, os Correios tiveram 161 milhões de reais em lucro. Os Correios geram mais de 100 mil empregos diretos e garantem, com o menor custo e maior segurança, a entrega de itens essenciais como livros didáticos para escolas e vacinas e remédios para os postos de saúde de todos os munícipios do país. No Ceará são 198 agências em funcionamento. Privatizações pelo mundo A partir de outras experiências de privatização dos serviços de correio ao redor do mundo, por exemplo em países como Portugal e Alemanha, é possível prever que, caso a empresa brasileira seja privatizada, haverá demissão de trabalhadores – mesmo os que entraram através de concurso público não têm garantia –, aumento no custo dos serviços, e fechamento das agências que não dão lu-

cro, deixando assim milhões de brasileiros e brasileiras sem acesso ao serviço postal e também serviços bancários. Relações Para o carteiro Robério Gomes, 41, trabalhador dos Correios desde 2002, a empresa estatal é parte fundamental do dia a dia do povo, além do serviço prestado, os trabalhadores desenvolvem também uma relação afetiva nas regiões em que atuam. “Tem pessoas que a gente conhece que é como se fosse da família, pessoas que vimos crescer, estamos todos os dias na casa das pessoas”, conta o carteiro. Robério lembra ainda que manter o serviço postal e o correio aéreo nacional é tarefa do Estado brasileiro previsto na Constituição Federal, no artigo 21. Um outro segmento que pode ser afetado de forma negativa com a privatização dos correios são as microempresas que comercializam pela internet e enviam seus produtos para os consumidores. “Muitos microempreendedores dependem dos Correios hoje. Temos umas das taxas mais baixas do mercado. Quem vende pela internet vai sofrer se o preço for

elevado e o consumidor final também”, alerta Robério. Mobilização O Sindicato dos Trabalhadores em Correios, Telégrafos e Similares do estado do Ceará (Sintect CE) tem se mobilizado para alertar a população e cobrar os parlamentares do Ceará através de audiências públicas e tribunas livres que vêm ocorrendo em todo o estado desde junho. Maria de Lourdes Paz Félix, 63, é trabalhadora dos Correios desde 1977 e atualmente ocupa a função de coordenadora geral do Sintect CE, e faz o alerta para os desmontes que os Correios vêm sofrendo como uma tentativa de justificar a proposta da privatização. “Já foram fechadas 161 agências em todo o Brasil, entre essas, 8 no Ceará. Isso vem acontecendo desde o governo Temer e agora se intensificou”, afirma a coordenadora. Em contraponto, está se formando uma Frente Parlamentar pela Soberania Nacional que se posiciona contra as privatizações e em defesa do patrimônio nacional. “A nossa soma é que vai dar nossa vitória”, afirma Maria de Lourdes.

Correios

100% do território nacional

Foram os responsáveis por arrecadar e entregar donativos em desastres como de Mariana e Brumadinho 30 milhões de objetos para entregar por dia. 98% entregues no prazo

Responsáveis há 11 anos pela coleta e distribuição do Enem em todo o Brasil e pela logística reversa para correção das avaliações Correspondência social: carta no valor de 1 centavo para pessoas cadastradas no Bolsa Família


Privatizar faz mal ao Cearรก e ao Brasil

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Brasil de Fato Ceará – Edição Especial: Privatizações  

Nesta edição especial, o jornal Brasil de Fato Ceará traz como principal tema as privatizações anunciadas pelo atual governo e suas consequê...

Brasil de Fato Ceará – Edição Especial: Privatizações  

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