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A fumaça rodopiava ar acima, espiralando-se, como caracóis fantasmagóricos a refletir todas as cores ao redor. Ora vermelha, ora azul, ora ambas as cores, ora cinzenta e natural. As espirais surgiam densas, fortes e ousadas, e conforme subiam perdiam sua graça e seu contorno, aquilo que lhe dava a vida, tornando-se nada mais do que ar, invisível. A tosse veio sem ser convidada, forte e seca. Uma, duas, três, quatro vezes tossiu. Tragou novamente. A brasa insistia em pulsar, e um nova linha de fumaça ganhava vida para morrer logo em seguida. Um carioca qualquer cantava sobre problemas de amor não correspondido, e a tosse voltou com mais força enquanto ele pensava em como aquela música era ruim. "O outro canta e compõe melhor. Gosto daquela música sobre o cachorro que se perde." A brasa tornou a pulsar, a fumaça tornou a se espiralar e sumir, o pulmão tornou a protestar. O álcool serviu para limpar a garganta. Algumas pessoas dançavam, outras conversavam, outras se beijavam. A brasa, a fumaça, a tosse. - Acho melhor você parar. - A mulher estava ao lado dele. Já tinha reparado nela desde o momento em que chegou; cabelos castanhos escuros, longos e ondulados, realmente longos, soltos em ondas revoltas sobre as costas. O sorriso era tímido, mas ele não acreditava que aqueles lábios levemente curvados quisessem dizer algo sobre ela. Os olhos a denunciavam. Eles sempre denunciam. Cor de mel mesmo sob a pouca luz, eles também sorriam, mas com malícia. Uma atrevida e deliciosa malícia. Um paulistano cantava sobre as cores do concreto. Ele sorriu, tudo começava a melhorar. - Mas eu acabei de começar. Não posso desistir até ter terminado pelo menos este. - Levou novamente o copo à boca. - Você acabou de começar? - Ela riu. Era uma risada sem pudores, alta e sincera. Ele deliciou-se ouvindo ela rir. - Não entendo o motivo de alguém começar agora. - Agora quando? Depois dos 30? - Dessa vez ele riu, lembrando-se de todas as novidades da juventude e em como ele conseguiu deixar de aproveitar todas elas. - Sim, depois dos 30. Você não parece ser alguém inconsequente... O que tá te fazendo aguentar essa tosse? - Nunca se é velho para experimentar. - Mentira. - Ela bebeu um gole da sua bebida. Pouco líquido e muito gelo. - Sim, é mentira. Eu tô tentando trocar um vício por outro. - O paulistano cantava sobre um cão vira-lata. "Preciso perguntar qual banda é essa." - Não é melhor abandonar um vício em vez de arranjar outro? - Cão faminto faz a boa, quando é dia de lixeiro acorda latindo feliz, feliz o pulgueiro. - Talvez. Sim. Depende da pessoa, depende do vício. Alguns são difíceis de abandonar. - E em que você era viciado? - Ainda sou. - Tudo bem. Em que você ainda é viciado. - Um trompete soava freneticamente alto, acompanhado de uma bateria e um baixo. Ela percebeu a música ao mesmo tempo que ele, e em um reflexo fechou os olhos e dançou com a cabeça. Os cabelos dançaram junto, e os lábios voltaram a formar um sorriso. Ele não resistiu e voltou a dar vida à brasa. Seus olhos arderam por causa da fumaça,


mas ele não parou de olhar para ela. - Você gosta dessa música? - Bastante. Você gosta? - As brasas pulsaram, mas ele não tossiu. - Sim, mas prefiro a fase mais depressiva dele. - Ela soltou um gemido e olhou para o copo. Parecia envergonhada, e todo o seu rosto agora era tímido. Ela bebeu outro gole. Menos gelo, mais líquido. - Você tem bom gosto, mas não é esse o nosso assunto. - Ah, não? E qual é o nosso assunto? - Seus vícios. Não mude de assunto. Ele riu, terminou sua bebida, pediu outra ao homem do outro lado do balcão, se levantou, incentivou seu novo vício com fogo e uma tragada, e se sentou ao lado dela. - Meu vício. Eu sou viciado em mudar o assunto das conversas. - Desta vez ela riu mais alto do que da primeira vez, e mais a vontade também. - Como você é dissimulado! - Assim você me ofende. - O garçom trouxe a bebida dele. A brasa sorriu, os lábios pulsaram. Os dois riram e beberam e conversaram, mas não sobre vícios. Um homem cantava em outra língua sobre como ele era fiel até outra mulher surgir. O novo vício era consumido, um a um, e as horas passavam vagarosas, mas mais rápidas do que ele desejaria. A tosse já não vinha mais, apesar das brasas estarem ali, vermelhas e constantes. O mesmo homem cantava agora como ele não queria ter feito uma certa mulher chorar. Ele já tinha bebido o suficiente para perder a razão, mas ela ainda estava no segundo copo. Pouco álcool e muito gelo. Ele contou sobre seu trabalho e intercalou uma história engraçada com o modo como havia adotado sua cachorra. Ela contou como havia se libertado da grande metrópole, indo viver numa vila sem sinal do mundo moderno e que estava na cidade apenas para um concerto. As músicas começavam e terminavam sem que eles percebessem, e os dois descobriram gostos em comum. Ele já sentia a língua dormente e o cheiro já tinha impregnado suas roupas muito antes da noite chegar à metade e das músicas desvanecerem para os dois, sendo apenas uma melodia distante. Foi ela quem, quase no fim da madrugada, voltou ao início da noite. - Você é tão bom nisso que eu quase acredito em você. - Acredita em que? - Que seu vício é mudar o assunto - Ela sorriu, o sorriso tímido de olhar malicioso que a apresentou. O mel dos olhos estava mergulhado em embriagues. Ele riu uma risada cansada. - Não vamos terminar a noite falando de vícios. - Que assunto você sugere?


- Nenhum. Vamos dividir um táxi? - Ela pareceu surpresa com o convite mas, depois de um longo gole em sua bebida, apoiou o rosto numa das mãos e olhou para ele, enquanto os dedos brincavam na borda do copo. Uma mulher cantava com voz doce sobre pessoas falsas e de coração duro. Ela aceitou o convite com um sorriso, e ele não se importou se era tímido ou malicioso. Pagou o que era devido, tomou-lhe a mão e saiu em busca de um carro que os levassem dali. Esqueceu o maço de Marlboro em cima do balcão, ao lado do último copo meio cheio de gelo e álcool.


Uma noite