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@ 2017 by Raony Phillips COPIDESQUE Mariana Moura REVISÃO Mariana Rimoli BR75 / Silvia Rebello CAPA & PROJETO GRÁFICO Angelo Allevato Bottino Fernanda Mello DESENHOS DE ABERTURA DE CAPÍTULOS Raony Phillips IMAGENS DE CAPA E DE ORELHA Felipe Kimio FOTO DO AUTOR Leo Aversa FOTO DA PÁGINA 123 ASDF_Media/Shutterstock REVISÃO DE E-BOOK Juliana Pitanga GERAÇÃO DE E-BOOK Intrínseca E-ISBN 978-85-510-0239-1 Edição digital: 2017 1ª edição Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA INTRÍNSECA LTDA. Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar 22451-041 · Gávea Rio de Janeiro · RJ

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Tel./Fax: (21) 3206-7400 www.intrinseca.com.br

Para mim mesma. APRESENTAÇÃO CAPÍTULO 1

That Duny girl on that Chocotone Show (Minha primeira vez na TV) CAPÍTULO 2 Signs from the universe (Enxergando sinais nas coisas) CAPÍTULO 3 Broke with rich friends (A fodida do grupo) CAPÍTULO 4 Unauthorized Black Mirror episode (Nudes acidentais com fraturas expostas) CAPÍTULO 5 ESTANTE - NACIONAIS - ACHERON


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Ratchet Mary Poppins (A adestradora de criança) CAPÍTULO 6 The day I almost died (Quase morri) CAPÍTULO 7 The fake girlfriend (Princesa assumida) CAPÍTULO 8

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The happy part (A parte feliz) CAPÍTULO 9 How Duny got her groove back (Como Duny, depois de tudo o que passou, samba na cara da população com seu talento, carisma e beleza de rosto) SOBRE OAUTOR

Meu nome é Duny Eveley.

Já sofri muito na

vida, assim como qualquer outra pessoa, mas eu sinto que sofri um pouco mais. Você sabe como é horrível quando as pessoas escrevem seu nome errado? Teve um dia que até fiquei deprimida, mas logo fiquei com raiva de mim mesma por ter

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ficado deprimida. Brigamos. Eu comigo mesma. Depois resolvi que deveria fazer coisa melhor da minha vida: ficar deitada. Se alguém me perguntasse, eu diria que tava esperando um milagre. Só que eu odeio atrasos e o milagre já tava muito atrasado. Como eu já sou adulta há algum tempo, vai ficando um pouco preocupante esperar por esse milagre que não acontece.

Eu tô na casa dos 20 anos, e só entrei nessa casa porque a porta tava aberta. Eu tô na casa dos 20 só que um pouco mais à frente de alguém que tenha 23. E, não, eu não tenho 24, pois já tive. Não gosto de falar minha idade, mas tem outras coisas sobre mim que eu adoro contar, como o fato evidente de eu ser maravilhosa e bonita de rosto. Meu corpo? É a coisa mais linda que você vai ver nesse mundo, mesmo que eu ache que a coisa mais linda é minha afilhada Shaft. (Observação: Eu não acho Shaft bonita e só botei isso aqui porque minha família pediu (ela é filha do meu irmão (acaba sendo o xodó da família pois nunca tivemos cachorro (Shaft é uma criança feia (Só é branca, e a tendência é a sociedade achar qualquer pessoa branca e loira bonita (Mas o fato é que eu sou bonita independentemente de

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qualquer coisa (Mesmo que eu seja branca))))))) Saí de casa assim que fui abandonada no altar. Sim, encontrei o amor da minha vida e, depois de términos e reconciliações, meu noivo (Cooper, o nome do desgraçado) brigou comigo um dia antes do casamento e, ADIVINHEM SÓ: o puto nem apareceu na cerimônia! Fiquei lá abandonada, e olha que eu só tinha 18 anos! Depois de contemplar meu sofrimento (afinal, toda estrela precisa de uma queda antes da ascensão1), acabei me mudando pra Sun Town. Fui morar na Pensão da Tia Ruiva. Uma casa enorme, que fede a cachorro e lá nem tem cachorro. Devia ser o cheiro da minha afilhada Shaft, ainda que ela não fosse nascida na época que eu cheguei lá. A tal da Tia Ruiva, dona da pensão, nunca deu as caras. Nem minha amiga Honey, que administra a pensão e mora lá também, sabe quem é ela ou onde está. Além da Honey, moram na pensão a Alex, que é uma operária de fazenda, e o namorado dela, o Todd, que é trombadinha. E também tem a Julie, que chegou aqui bem nova e já foi atriz e faz bicos como personal stylist (invejo, inclusive). Tem ainda várias pessoas que nos visitam diariamente, como minha amiga de adolescência Kendra Foster, minha amiga Priscilão, a famosa coreógrafa Embucete (que tem mais de 15 irmãs idênticas a ela) e um bando de gente escrota que só aparece pra encher o saco. Eu tenho um sonho: uma criança escrota fala que é o Chuck e tenta roubar minha bolsa. Mas também tenho um outro sonho: ficar famosa, riquíssima, ser bastante bajulada e frequentar restaurantes caros só pra tirar foto da comida, porque eu nem gosto de comida muito chique. O foco da minha vida é o de dengue, inclusive eu tenho que desvirar umas garrafas com água... Mas meu foco principal mesmo é ir atrás do meu sonho de ser famosa! Eu sou formada

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em marketing, mas não trabalho no ramo. Aliás, eu nem ao menos sei o que que eu tava pensando quando fiz marketing! Quero ser cantora, atriz, modelo... Qualquer coisa que me faça ganhar dinheiro apenas por rir e estar com maquiagem na cara. Tenho potencial e sei que vou conseguir. Quando isso acontecer, gostaria de transformar todas as minhas inimigas de infância em pedicures. Imagina que ótimo seria ver as pessoas que pisaram em mim fazendo minhas unhas dos pés? Só que, ao mesmo tempo, penso que elas não merecem emprego nenhum, menos ainda minha atenção... Aí eu penso que talvez essa senhora falando lá fora enquanto escrevo esteja atrapalhando um pouco meu foco, por isso encerro aqui este parágrafo, ou estrofe, sei lá… talvez eu não seja boa com essas coisas de português. Mas, pronto, me apresentei: eu sou a Duny e este é o meu livro. Eu que escrevi. 1Gente, “ascensão” quer dizer “volta por cima”. Tive que procurar o significado no Google...

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Já está um pouco claro que eu vou ficar rica e famosa mundialmente antes dos 30, né? Tô empenhada mesmo. Sempre falo sério e não brinco em serviço... Até porque, quando brinquei, uma pessoa terminou atingida na pelve e ela se chamava Shirley. Aparentemente ter formação em uma área e querer trabalhar em outra é a coisa mais sem sentido do mundo. Mas sei que não tô sozinha porque vejo que esse é o problema de qualquer jovem da minha idade. (Se você fizer piadinha com o fato de eu não ser mais tão jovem assim, vai acordar sem sinais de vida.) O máximo que eu consegui com meu currículo foi trabalhar divulgando a Pensão da Tia Ruiva para os moradores de Sun Town, o que não deu muito certo. A Honey, quando me dispensou dessa função, disse que eu não fazia nada e que eu tava divulgando mais a mim mesma do que a pensão.

Bom, pelo menos foi um ótimo marketing pra minha página no Facebook, que já tem 380 curtidas! Mas eu odeio o número 380, acho muito pouco. Inclusive, acho um absurdo! Talvez eu goste de 380 quando for multiplicado por nove, o que dá 2.500, sendo que eu não parei pra fazer a conta, então talvez não esteja certa! Ah, e nem tente começar a contar nos dedos. O importante não é a quantidade de curtidas, é a quantidade de dinheiro que eu quero receber, e nesse momento eu não tô recebendo nada além de vídeos de 2008 enviados pela minha avó no grupo virtual da família. Parece que tem algum problema viral que atinge pessoas com certa idade, ou muita idade, que faz elas mandarem vídeos hiper sem graça ou que todo mundo já viu

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mais de mil vezes. Em dois anos eu prevejo minha avó descobrindo a Inês Brasil. Oportunidade é uma palavra maravilhosa e é tudo que eu pretendo ter. Também gostaria de ter um relógio Rolex, mas só pra causar, porque eu demoro mais de dez segundos pra fazer a relação dos ponteiros com hora e minuto. Sabe-se lá por que um relógio custa tanto dinheiro! E por que diabo eu tenho tanta vontade de ter um se eu nem gosto de hora?! Hora, tempo, minuto, esse cacete me irrita porque o tempo está passando e desse jeito vou precisar botar botox. Graças a Deus uso franjinha, porque senão... Na verdade eu nem lembro por que eu tô falando isso. Não tem nada a ver com o que eu vou contar pra você.

*** Não demorou muito tempo pra que eu começasse a ter oportunidades de aparecer. Eu amo aparecer e já fiz coisas absurdas só pra ser o centro das atenções. Mas pela primeira vez tinha surgido algo que valia a pena: ser assistente de palco da Chocotone. O Chocotone Show é um dos programas mais assistidos da TV, e olha que a Chocotone vai fazer 44 anos... Mas você não diz que ela tem a idade que tem. Eu mesma acho que ela deve ter 43 ou 44 mesmo. Um dia recebi uma carta que dizia “conta de luz”. Fiquei chocada, mas deixei passar, pois já tinha recebido coisa parecida outras vezes. Logo embaixo, tinha uma carta do meu amigo Figueiros. Na época da escola, ele era apaixonado por mim, mas eu nunca quis nada. Figueiros comia aquele biscoito Fofura e

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ficava mexendo no meu cabelo com a mão cheia de gordura… Imundo! Espero que ele engasgue com aquela porra! Se é que ele ainda come aquilo... Figueiros virou produtor do programa da Chocotone e mandou aquela carta pra me chamar pra uma entrevista de emprego. Eu jamais ia imaginar que ia precisar de entrevista, pois o trabalho era só vestir um biquíni e sorrir, e já faço isso sem ser paga. Aceitei, porque eu queria oportunidades e com certeza ia me dar bem. Afinal, sou formada, mesmo que não em assistência de palco. Eu tenho muitos conhecimentos acadêmicos que podem ser um diferencial… Meu cu! Na verdade, não meu cu mesmo, mas a expressão, porque eu tava totalmente enganada. Foram mais de quatro horas sentada esperando a entrevista. Eram só 94 garotas querendo as quatro vagas disponíveis pra não fazer nada de mais… Quem vai querer passar por isso só pra ganhar dinheiro sendo bonita? Eu, obviamente, e outras 94 pessoas, pelo visto. Por fim me chamaram e, por incrível que pareça, mesmo formada, foi a primeira entrevista de emprego da minha vida. Duny, você finalmente vai sair da vida de bicos e ter carteira assinada, trabalhando com o que gosta. (Eu acho o programa da Chocotone muito ruim, odeio, mas vou continuar botando na minha cabeça que é bom, que eu gosto e que é um sonho). Ao entrar na sala da entrevista, me deparei com uma cena horrível: Figueiros tava com a mesma cara de antes, e adivinhem só? Nada, era só isso mesmo. Eu me vesti para uma entrevista, mas não de emprego. Eu tava vestida pra dar uma entrevista pra TV! Se eu fosse outra pessoa, ia me pedir meu número, mas eu não ia me dar porque sou difícil. —Sente-se, por favor — disse Figueiros, que

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surpreendentemente não estava comendo Fofura. Mas era o Figueiros, então, como eu já conhecia ele, fiquei bem à vontade. —Bom dia, quer dizer, boa noite! Demorou pra cacete essa merda aqui. —Olá, Duny! Como percebestes, tivestes muitas garotas aqui hoje-vos. Por que essa porra desse marsupial tá falando em vós comigo? Será que ele tá querendo me testar achando que eu sou burra? Realmente não sei, mas se tem uma coisa que sei é que sou foda e vou falar em vós também. —Percebiste, como-vos vais-vos? Ainda comestes muito Fofura-vos? —Por que falastes dessa forma-vos? — respondeu Figueiros. Na verdade nunca entendi por que a gente tem que conjugar na pessoa vós na época da escola. Nem sei por que criaram essa merda! Se eu tivesse que acusar alguém, ia dizer que tenho certeza de que foi meu irmão Ricky. Ele fica o dia inteiro fazendo absolutamente nada e brisando. E, por mais que eu também quisesse ficar sem fazer nada, ele é exatamente o tipo de pessoa que ia criar a conjugação dos verbos em vós. —Querido, eu tava falando normal. Inclusive, eu falo português fluente com algumas atualizações e fiz dois meses de Fisk. Figueiros me lançou um olhar crítico antes de dizer: “Que ótimo.” Sabe quando você chega a um lugar e passa a contestar sua existência e a se perguntar o que você tá fazendo lá? Eu não sei, porque isso nunca aconteceu comigo, mas realmente penso que eu deveria ser a apresentadora e não a assistente. —No que você tá pensando? — perguntou Figueiros.

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—Pensando em como vai ser legal você me transformar em uma assistente de palco do Chocotone Show — respondi rapidamente. Passei muitos minutos descarregando toda a minha carga intelectual, até porque eu não sabia se as candidatas que apareceram antes de mim-vos, éreis melhores que vós. Desculpa, força do hábito-vos. Eu, falando por mim, Duny, acho que não ia fazer diferença se eu era formada em marketing, tinha dois meses de Fisk e um certificado de canto. Eu falei muita coisa e Figueiros não parava de olhar pro meu peito. O que é bonito é pra se olhar, mas eu não tava tão contente com aquilo. No final das contas, eu era igual a todo mundo e ia levar o cargo quem tivesse o seio maior... Meu peito é enorme e já me salvou em muitas situações. Uma vez minha avó engasgou com caroço de melancia, e eu fiquei com medo de ela tossir em mim. “Ah, mas, Duny, você deixou sua avó lá morrendo engasgada?” Mas é óbvio! Eu morro de nojo de tosse. Então saí correndo e quando botei o pé na rua desmaiei. Não sei dizer exatamente como meu seio me salvou nessa situação e nem sei por que me lembrei disso agora, mas vamos pular pra parte em que fui aprovada na entrevista e pela primeira vez ia aparecer na TV. Fui aprovada na entrevista e pela primeira vez eu vou aparecer na TV! As assistentes de palco do programa estão lá pra dançar, levar o microfone pra alguém da plateia falar e fazer caretas pra câmera. Achei ótimo. Não tinha muito trabalho e não envolvia sair no sol quente. Porém, o salário era só 980 reais por hora, sendo que eram só 30 minutos. Pelo menos eram quatro programas por mês, e isso dava um total de 1.900 reais.

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Eu sempre ouvi que era bom ter um emprego pra conseguir algum tipo de sustento, mas, sério: o que eu vou fazer só com isso de dinheiro? Eu quero uma jaqueta de cheetah que custa 1.400 reais! Não vai sobrar nada e eu ainda tenho que comer durante 30 dias. “Ah, Duny! Do que você precisa mais no momento? A jaqueta de cheetah ou satisfazer a necessidade básica de comer?” Odeio quando me dão poucas opções... Bom, pelo menos eu ia ficar muito famosa e talvez em dois meses estivesse apresentando meu próprio programa. Meu cu de novo. Na verdade agora foi meu cu mesmo, porque a parte de baixo do biquíni que eu usava como figurino de assistente tava entrando lá nos meus fundos. Como eu ia dançar sem que aquele fio dental entrasse pelos portões do meu rabo? Assim que eu segui corredor adiante, Wanda, a moça do café (o nome dela não é Wanda, mas imagina uma mulher com cara de Wanda... então, ela tem essa cara) chegou gritando: —Um momentinho, querida. Como eu sou uma pessoa estressada 24 horas por dia, já virei perguntando: —Que que foi, Wanda? —Aqui não pode andar sem calcinha. Não é possível que ela não esteja vendo que eu tô usando o fio dental. —MAS EU TÔ ANDANDO DE CALCINHA, SIM! TÁ CEGA? —Cega, não, mas tô com catarata e “astigmatite” — ela respondeu em tom de deboche. —Pelo amor de Deus, né, Wanda? Uma hora dessa? Som do corredor: —Atenção, a gravação vai começar em cinco minutos! Meu Jesus, é agora que eu morro nessa merda. Ó, Jesus, eu tô

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brincando, hein?! Não cheguei aqui pra morrer agora. Respirei fundo, senti um cheiro estranho, respirei fundo de novo, abri a garrafa de café da Wanda, virei tudinho, limpei a boca igual lutadora de boxe e antes de seguir em frente disse pra mim mesma: —É sua vez de brilhar. —Sua vez, não. É a vez da Chocotone — disse Wanda. —Vai tomar no cu, Wanda! Ela me olhou com desgosto e retrucou: —Wanda, não. É Vanda, com V! Sabe-se lá como ela descobriu que eu falava o nome dela com W, já que o som é o mesmo... Mas tudo bem. Quando botei os saltos no palco, tava um frio danado. O fio dental, que já tava lá no fundo dos meus fins, entrou ainda mais e já tava quase nos inícios. Me posicionei do lado das outras três assistentes. Acredita que nenhuma delas disse oi pra mim? Com toda a certeza eu era a mais bonita, mas elas não deveriam me punir por isso. É apenas a genética, que inclusive não beneficiou outros membros da minha família, como meus irmãos e a Shaft. Antes das gravações começarem, nós tínhamos que fazer o aquecimento. Eles botaram a gente em uma cabine que era quente igual ao inferno. Acho que era pra gente ficar aquecida por conta do ar-condicionado. Eu tenho claudiafobia, claustef... aquela fobia de lugares fechados. Mas, como eu já tava doidona de café, deixei meus medos e inseguranças na bolsa, lá no camarim. Todo o programa seria assim: cinco minutos assando. O que não me disseram é que quando a Chocotone entrava nós saíamos da cabine, que eles chamavam de “forninho” no roteiro. Era o

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seguinte: as assistentes de palco da Chocotone se chamavam Chocotitas, e o babaca que inventou isso dava a entender que nós estávamos no ponto e saindo do forno. A plateia entrou, a Chocotone entrou, a minha calcinha entrou mais ainda e já tava tudo pronto pra começar. Nunca tinha visto a Chocotone pessoalmente antes. Ela tinha 1,85 metro de altura e um quadril hiperlargo. Muito mais do que o meu. Fiquei sabendo que quando ela era pobre a família usava o quadril dela de mesa pra ceia de Natal. Pode ser que isso não seja verdade e que eu tenha pensado nisso agora, mas super daria pra jantar na Chocotone. Eu só ouvia a plateia gritar e uns sons aleatórios no microfone. Eu ainda tava no caralho da cabine e as outras três assistentes conversavam normalmente como se não estivesse um forno ali dentro... Mas tecnicamente era um forno. O ponto eletrônico falou: —Dez segundos, meninas. E logo em seguida entramos. Tava tocando “Do It to Get It”. Sabe aquela música assim: “If you’re willin’ to do it, to do it, to get it, get it”? Não sei quem canta, mas tivemos que sair do forno dançando ao som disso. Eu tava feliz porque eu tava na TV, mas não tava feliz de sentir a calcinha fazendo escavação arqueológica na minha Dandarinha. Para a minha surpresa, Chocotone começou a apresentar as novas assistentes de palco. Éramos meras figurantes, mas ia ter como dar um tchauzinho pra câmera.

***

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Bom dia, eu sou Chocotone e este programa é meu. É claro, pois o nome é Chocotone Show. A plateia riu. (Eu continuei séria, achei muito sem graça.) Hoje as coisas estão diferentes aqui... Meu cabelo novo! A plateia riu novamente. (Gente, não é possível que eles achem isso engraçado.) Bom, além do meu cabelo, infelizmente nossas antigas Chocotitas acabaram morrendo num acidente gravíssimo. A plateia riu. (GENTE???) Não, gente, não riam! É sério, elas morreram. Mas é a vida, né? Vida, não... morte! Plateia não ri. NÃO, GENTE! AGORA É PRA RIR! Plateia ri. O importante é que EU tô viva. Muitos aplausos. Mas, Chocotone, então não teremos mais Chocotitas? TEREMOS, porque acabam de sair do forno as novas... CHO-CO-TI-TAS!

***

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Olá, voltei! E olhem só pra mim, maravilhosa. Finalmente o mundo ia saber quem era Duny... Se a Chocotone tivesse dito meu nome certo... Com vocês, Sabrina, Samara, Samantha e... TANY! Eu dei um tchauzinho pra câmera e o país todo viu meu nome errado naquela merda. O pior é que eu fiquei sabendo que na televisão apareceu escrito “Tânia”. Repensei se realmente estava feliz de estar lá... Nunca fui tão humilhada antes nessa vida. O programa continuou. Os convidados do dia eram uma família bem esquisita que foi resolver os problemas deles no palco. Durante os trinta minutos de programa, fiquei em pé, parada, de salto e com uma bifurcação no meio da minha bunda. As Chocotitas não faziam absolutamente nada além de ficarem paradas com a mão na cintura. Não seria mais fácil eles pegarem manequins em vez de mulheres seminuas? Enfim. No caso do primeiro programa do ano, um cara bebia a água do banho da esposa e ela quis pedir o divórcio assim que descobriu. Detalhe: eles têm dois filhos e as crianças bebiam a água do próprio banho. Foi tudo tão nojento, e olha que eu já tava arrependida de estar ali. Mas o pior ainda tava pra acontecer! Faltando cinco minutos pra acabar o programa, nós, Chocotitas, tivemos que fazer agachamento com a bunda virada pra câmera. SÉRIO. Eu até procurei na Wikipédia pra ver se foi a Chocotone que inventou a apelação sexual. As meninas começaram a agachar, uma de cada vez, e eu seria a última. Só que eu tava extremamente preocupada com minha situação traseira. Então comecei a puxar a calcinha de uma forma que ninguém percebesse. Parecia o resgate do soldado Ryan. Depois que Samantha levantou, era minha vez. Eu tava tão nervosa que quando fui me abaixar meu

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pé virou na hora e eu caí sentada. A epidemia de risadas foi certa. As crianças da plateia, a produção, as outras Chocotitas, todos riram de mim. Até a Chocotone fez questão de anunciar o ocorrido em alto e bom som: —Aiiiaaannnnn, a Tânia caiu! Como eu disse que adoro aparecer, aproveitei que a câmera tava me filmando e comecei a mandar beijinho, dançar, jogar o cabelo. Eu precisava dar a volta por cima naqueles 15 segundos de oportunidade. As crianças da plateia começaram a gritar: “Tânia! Tânia! Tânia”, como se eu fosse a Lady Gaga ou Jesus. Nunca tinha me sentido tão prestigiada antes. (Mentira, tinha, sim.) Você deve estar se perguntando por que a plateia do Chocotone Show é composta por crianças. Então... Apesar dos assuntos inusitados e do apelo sexual, o programa é infantil. É... eu sei. Mas, ó, eu era só uma mera funcionária! Não tinha nada a ver com isso. Quando a gravação acabou, eu ainda ouvia as risadas, mas aquele momento foi meu. Transformei um micão no close mais digno do ano. Até procurei a Chocotone pra me apresentar formalmente, mas ela já tinha ido embora. Nessa noite eu cheguei na pensão e fui procurar meu nome no Google. Nada... Não tinha ninguém falando de mim ou do meu tombo. Achei estranho, já que o programa tem bastante audiência, mas aí descobri que eu tava nos trending topics (assuntos mais comentados do Twitter, caso os Neandertais não saibam). Sim, eu era o quarto assunto mais popular do dia, mas se referiam a mim como “Tânia”. Na minha única oportunidade de ficar famosa, eu sou reconhecida pelo nome errado... aff. A Honey até sugeriu que eu trocasse meu nome artístico pra Tânia,

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mas eu acho esse nome horrível. Além do mais, toda mulher que eu conheci com esse nome era escrota.2 Estávamos no segundo dia no Chocotone Show e eu descobri que a convidada ia ser uma cantora muito famosa. Será que tinha chegado o dia em que eu ia conhecer a Beyoncé? Por mais que eu achasse que ia ser a Adriana e a Rapaziada (que é o Black Eyed Peas brasileiro), eu ia tentar deixar a ansiedade no nécessaire. Lá estava eu lindíssima me maquiando, porque a maquiadora do programa tinha faltado, e fui chamada pelo Figueiros num cantinho. Já peguei o spray de pimenta porque eu tinha certeza de que ele ia dar em cima de mim. Deu porra nenhuma! Ele veio me falar que a Chocotone tava revoltada comigo porque ofusquei ela com meu tombo, carisma e beleza. Ele inclusive disse que a partir daquele dia eu ficaria posicionada atrás das outras Chocotitas. AQUELA FILHA DA PUTA TAVA QUERENDO ME SABOTAR. Éramos só quatro assistentes de palco e eu ainda ia ficar atrás das outras? Sem aparecer? A Chocotone tava brincando com o perigo. Mas, apesar de tudo, ainda era meu emprego. Eu tava aflita, porque apesar da Chocotone ser uma ridícula, ela ainda era minha chefe e tudo o que eu queria era fama. Dinheiro, eu arranjava com meu pai. Não podia ser demitida.

Tive que botar o biquíni cavado novamente e fazer um rápido teste de câmera. Sabe o que eu descobri? O animador da plateia se chamava Tito e ficava com um revólver apontado pra plateia durante a gravação, pra se certificar de que todos iam rir das piadas sem graça da Chocotone. Naquele momento eu senti que corria risco de vida. Fiquei tanto tempo pensando que poderia morrer naquele estúdio que se passaram TRÊS HORAS. A última vez que fiquei tanto tempo sem fazer nada e sem ver a hora passar foi ontem.

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Alguns minutos antes da gravação eu tava frenética tentando descobrir qual cantora pop seria a convidada do programa. Avistei duas meninas da produção e fui sondar. —Oi, lindas — falei. —Lindas? Eu sou horrível — respondeu Luana. —E eu, então, nem se fala. Sou repugnante — comentou Sindhje. —Nossa, que autoestima baixa! Não que vocês estejam mentindo... —Querida, é impossível ter autoestima alta aqui depois de tudo o que a Chocotone faz com a gente — disse Sindhje. —Tânia, se tem uma coisa que você precisa aprender é que a Chocotone é superior a qualquer ser humano com vida. E, se você tem algum vestígio de amor próprio, ela vai tirar ele de você e vai transformar em amor por ela — comentou Luana. —Não tem ninguém melhor que Deus e Chocotone — disse Sindhje, falando sério. Você imagina minha cara, né? Como aquelas duas garotas se deixaram destruir por uma mulher cujo ego é tão grande que com certeza virou um pedaço do corpo dela?! (Eu arrisco o quadril.) Mas, ok, Tânia... digo, Duny... Continuemos nossa missão. —Vem cá... Vocês sabem quem é a cantora que foi convidada pro programa hoje? —Sim... o nome dela é Nobodi Atall — respondeu Luana. —Nobodi Atall? —Exatamente. Nunca ouvi falar dela — comentou Luana. —Como assim?! Ela é extremamente famosa — disse Sindhje. —Ah, é? Então canta uma música dela aí — propus. A Chocotita Sabrina pensou por uns minutos, mas não se lembrou de nenhuma música famosa dessa tal de Nobodi Atall.

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Era realmente uma nobody. Que merda! Eu jurava que ia ver algum famoso de graça naquele dia. Novamente saímos do forno, com a música de sempre ao fundo, só que dessa vez eu não ficava ao lado das outras assistentes, eu ficava atrás delas. As gravações seguiram normalmente, e eu tava a cada dia mais ofuscada. Ninguém mais se lembrava da Tânia Tombo porque ela quase não aparecia mais no programa. Depois de algumas semanas, isso passou a me causar dor de cabeça. Mas eu também bati com a cabeça na hora de sair do táxi ontem. Na minha terceira semana lá, eu já tava infeliz, recebendo pouco e sendo maltratada por aquela mesa de Santa Ceia. Já era hora de dar a volta por cima! Hora, não, segundo, pois faltavam só cinco minutos pro programa acabar. Como aquele estresse tava me deixando doente, resolvi tirar vantagem de todo o sofrimento. Assim que Chocotone terminou de falar do anunciante, eu não pensei duas vezes... três vezes... talvez quatro... Enfim, EU PENSEI PRA CACETE ANTES DE DECIDIR QUE IA FINGIR UM DESMAIO AO VIVO. Dito e feito! Bum no chão. Foi um desespero. Os cinegrafistas logo viraram as câmeras pra mim porque as pessoas adoram um sensacionalismo. Eu mesma já passei uma hora vendo um reality show em que a Kim Kardashian procurava a empregada que tinha sumido no closet dela. Várias pessoas correram pra me socorrer. A Chocotone, pra variar, tentou continuar a apresentação do programa, mas as crianças voltaram a gritar: “Tânia! Tânia! Tânia!” Eu nunca vi uma apresentadora de TV tão enfurecida como ela naquele dia. Enquanto todos estavam à minha volta e me filmando, eu só tinha uma única missão: corrigir meu nome e sair do anonimato.

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Quando abri os olhos, sorrindo e muito bela (afinal, eu não tinha desmaiado de verdade), A CHOCOTONE TAMBÉM FINGIU UM DESMAIO. Um cara da produção me largou no chão imediatamente. Fiquei jogada lá no fundo enquanto todos ajudavam a Chocotone em seu falso desmaio. Acho um absurdo uma pessoa ser capaz de fingir um desmaio em rede nacional... Que mulher baixa! Olhem só do que ela é capaz! Levantei muito plena e fui direto pro camarim. Acabei machucando o braço e não recebi nenhum tipo de assistência médica. A única pessoa que foi lá me ver foi a Wanda, do café. Pedi que pegasse qualquer coisa pra jogar no meu machucado, e ela levou ao pé da letra. Aquela escrota jogou café no meu braço! Tudo porque falei o nome dela com W de novo. Voltei pra pensão e acabei recebendo um dia de folga do trabalho. Mas pra conseguir mais um dia fui tentar um atestadinho básico. Fiquei horas na fila de espera de um hospital público. Mesmo que nós, Chocotitas, tivéssemos plano de saúde da empresa, eles me deram um cartãozinho com o nome de Tânia, que não batia com o nome na minha identidade. Entrei no consultório e o médico, David, foi me examinar. Falei das dores de cabeça causadas pelo sofrimento de ser assistente, e ele botou a mão na minha testa. Perguntei se eu tava com febre, mas ele na verdade tava dando em cima de mim. Dei três tapas na cara dele e continuamos a consulta. Ele disse que minha cabeça tava quente e que podia ser estria. Entrei em pânico! Afinal, esse diagnóstico exige um acompanhamento psicológico. Dito e feito, olhei no espelho e descobri uma estria na minha nádega esquerda. David me deu atestado de dois dias, mas eu chorei tanto que ganhei mais um. Assim que voltei ao trabalho, o Figueiros me chamou na sala

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dele. Ele disse que infelizmente eu não poderia continuar sendo uma Chocotita, uma vez que eles até toleram celulite, mas não estria. Eu achei um absurdo! Onde já se viu ser discriminada por causa de uma única estria? E, mesmo que fossem dez, isso não é motivo pra alguém perder o emprego. Foi aí que o Figueiros me surpreendeu e disse que eu não tava sendo demitida e que poderia continuar, mas deixaria de ser uma Chocotita e viraria uma Capivarita: uma assistente que fica vestida de capivara em roupa de líder de torcida. Ele ainda me disse que a ideia foi da própria Chocotone, que disse: “Transforme a Tânia em Capivarita. Acho que ela precisa de um papel que seja a cara dela.” Eu nunca fui tão afrontada na minha vida. Mas aquela Chocotone não perdia por esperar. Acabou que não perdeu mesmo porque eu não consegui fazer absolutamente nada contra ela. A Chocotone disse que, se eu não aceitasse ser Capivarita, não poderia ser Chocotita, então fiquei sem função e, logo, sem emprego. Não pude nem me despedir dos meus fãs. Acho que a única pessoa da produção que gostava de mim era o Figueiros mesmo. No último dia lá, a Wanda, do café, ainda aprontou comigo. Ela jogou fora minhas roupas que estavam no camarim, e eu tive que ir embora com aquele biquíni hipercavado no meu Colorado. Mas não desci do salto... por mais que eles machucassem meu pé. Parei no ponto de ônibus, morrendo de frio, humilhada, desempregada e ainda anônima. Não foi dessa vez que a Duny decolou, mas eu nunca ia esquecer o que a Tânia tinha feito por mim. Mesmo que ela não tivesse feito porra nenhuma. Ela pelo menos tentou. Olha! Acho que é um conhecido piscando o farol pra mim.

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Pelo menos eu não vou voltar pra pensão andando ou de ônibus. O vidro do carro abaixa, e um cara pergunta: —E aí, lindinha?! Tá fazendo programa aqui na área? —Não, querido, saí hoje. Infelizmente meus dias no programa terminaram... Pelo menos por enquanto. —E quando pretende voltar? —Quando surgir a oportunidade em um canal bom. —Hmmm, e se eu disser que eu tenho um canal doidinho pelos seus serviços? —Que canal? —O canal da minha uretra — respondeu o cara, com um sorriso imenso. Essa foi a última frase que aquele homem falou em vida. Não sei se ele sobreviveu depois das porradas que dei nele, mas pouco me preocupei. Afinal, eu tinha falhado na minha primeira tentativa de ser famosa e tive certeza de que tava sendo punida. Principalmente se começasse a chover naquele mom... Puta que pariu. Começou a chover. Só podia ser um sinal... Um sinal de que eu tava fodida. Mas mesmo na chuva, com os pés firmes, eu tava pronta para o próximo round. Eu só teria que voltar andando naquela merda. 2Se seu nome for Tânia, é brincadeira. Se não for, é isso mesmo.

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Não sou o tipo de pessoa que reza. Não sou religiosa nem nada. Sou o tipo de pessoa que olha a ausência de beleza da minha afilhada Shaft e diz “Jesuuus!”, só por força de expressão. Não acho que tenho uma crença, mas vou até conferir na minha bolsa depois, pra ter certeza. Acredito na beleza das coisas, na minha, inclusive. Até porque espelho e convicção raramente mentem. Acredito também no poder da atração, pois sou muito atraente e já ouvi isso de muitas pessoas. E, não, nenhuma dessas pessoas foi paga pra me dizer isso. Faz dois meses que eu tentei ficar famosa... Confesso que ainda tô um pouco traumatizada. Depois de Tânia, acabei no fundo do poço. Só espero que não pensem que meu nome daqui pra frente vai ser Samara. É, pode ser que eu tenha acordado bem-humorada hoje, mas a questão é: ainda quero ser famosa em nível global. Quero andar na rua com a mão na cara enquanto as pessoas gritam meu nome e me pedem autógrafo. Sinto que nasci pra isso porque minha mãe sempre diz que eu nasci de bunda pra lua. Inclusive, gostaria de me desculpar com a lua. Querida, não fui eu que escolhi, apenas nasci nessa posição. No seu lugar eu estaria bravíssima, pois não sou obrigada a olhar a bunda de ninguém. A Julie, que mora aqui na pensão, acredita na teoria de que nós somos nosso próprio universo e que tudo sempre conspira a nosso favor. Eu acho que, se isso é verdade, o universo tem é inveja de mim e se sente ofuscado pelo meu talento, porque ele não tá conspirando a meu favor.

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A Julie, inclusive, deveria ser internada numa clínica de reabilitação porque tenho certeza de que ela tá envolvida com substâncias. Ontem mesmo ela me disse que dias melhores virão, que o universo vai plantar sinais no meu caminho e que vou notá-los antes que as coisas aconteçam. Mas que coisas? Será que aquela feiticeira mal-intencionada tá me fazendo de palhaça? Não sei, mas, como não acredito em bruxaria, deixei isso pra lá. Eu deixei isso pra lá, mas fui lá buscar de volta porque isso me dá um pouco de esperança.

*** Naquele dia eu ia fazer o cabelo, pois em breve ia reencontrar um pessoal que estudou comigo no ensino médio. Conto nos dedos de quantos deles eu gosto: até agora foi zero dedo. Eles provavelmente vão querer que eu fale sobre o dia em que fui abandonada no altar, como se essa tivesse sido a única coisa que aconteceu na minha vida nos últimos anos. Quando eu tava saindo da pensão, uma joaninha voou na minha cara. Até hoje me pergunto por que esses insetos e animais em geral existem. Mas, ei! E se isso for um sinal? O que quer dizer quando uma joaninha pousa em você? Entrei no Google e procurei: “Joaninha bateu no meio da minha cara, o que isso quer dizer?” Eu nunca vi tantas explicações pra uma única coisa. Tinha explicação pra quando a joaninha pousa na mão, pousa no dedo, mas não tinha nada de joaninha na cara. Aí achei uma que dizia que a quantidade de pintinhas que a joaninha tem representa o montante de dinheiro que eu receberia em breve. Puta que pariu! Eu só vi que era uma joaninha, não parei pra

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analisar pintinhas. Eu tinha cabelo marcado pras 14h30 e já eram 13h57! Será que ia me atrasar se fosse procurar aquele inseto nojento? Eu não enxergo absolutamente nada com os olhos que Deus me deu. Já com a lente que eu me dei, enxergo um pouco melhor. Eu ia procurar aquela joaninha e dar o fora dali. — Cadê essa puta? Imagine um sol escaldante. Imagine uma mulher loira. Agora imagine um bebê de tubo de ensaio. Viu? Você imaginou tudo o que eu mandei. Talvez não o bebê de tubo de ensaio porque nem eu sei o que é isso. Mas já tenho um domínio sobre você. Adoro me sentir poderosa! Minutos se passaram desde que comecei a procurar a joaninha maldita. Algo na minha mente dizia: “Duny, a joaninha tava apenas voando e por acaso ela bateu no seu lindo rosto.” Mas algo dizia: “Uma joaninha pode indicar o caminho para sua fama e fortuna.” O QUE QUE ACONTECEU COMIGO? Eu tava achando que uma coisa aleatória tinha um significado profundo. A Julie tinha plantado uma semente na minha cabeça e eu tava acreditando nessas coisas loucas. Comecei a xingar o universo de todos os nomes possíveis. Achei injusto eu não encontrar aquele insetinho minúsculo que me agrediu. Durante os xingamentos só vi uma mulher gritando: “Filha, sai de perto dela, vem pra cá!” Não só eu, mas as pessoas tavam achando que eu tava maluca. Levantei a cabeça pros céus e disse: “Universo, se você é de verdade, me dê um sinal.” Abaixei a cabeça e lá estava o sinal... fechado, inclusive. Atravessei. Cheguei no salão e todas as mulheres tavam conversando sobre horóscopo. Eu tenho 26 anos na cara e sou bem grandinha pra esse tipo de coisa. As pessoas ficam loucas querendo fazer

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meu mapa astral, mas a única coisa que eu quero elas me façam é o favor de parar. Acredita que elas preveem com quem vão se dar bem ou não? Meu mapa astral deve ser do buraco quente porque nenhuma delas se dá bem comigo. Mas não é problema meu, afinal, sou maravilhosa. Já elas, nem tanto. Comecei a fazer a hidratação e quando olhei pro vidro do salão tinha uma sujeira. Que porcas! Nem o vidro limpam direito. Mas logo do lado da sujeira tinha uma joaninha! “Ah, Duny, não acredito!” Sim! Eu devo ter ficado uns dez minutos observando aquela joaninha perambulando pelo vidro, sem voar, quietinha na dela. Eu tava doida pra levantar daquela cadeira e contar as pintinhas dela, mas a mulher que tava fazendo meu cabelo não parava de conversar. Peguei o braço dela, comecei a apertar com minha unha e falei: —Termina essa porra agora! Ela me olhou com um olhão arregalado, bem assustada, e logo em seguida continuou o trabalho. Então, ela me levantou da cadeira puxando pelo cabelo e disse: —A próxima vez que tu enfiar a unha em mim, tu vai sair daqui careca, sua folgada. Rimos. Era só brincadeira. A Claudinha e eu já nos conhecemos há muitos anos. Duvido que alguém falaria assim comigo de verdade porque eu tô sempre preparada pro meu primeiro homicídio. Reboquei ela de porrada e voltamos ao procedimento. Aquela lerda demorou além do esperado pra terminar meu cabelo, mas pra minha felicidade a joaninha ainda tava no vidro. Levantei depressa, peguei a bolsa e fui me aproximando lentamente dela. Como eu morro de medo de animais, fui ao

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Google de novo pra saber qual seria a melhor abordagem: “Como se aproximar de uma joaninha sem pegar doença.” O celular escorregou da minha mão e caiu com a tela virada pro chão. Tremi, fiquei nervosa e aflita porque era um iPhone. Tudo bem que era só um 5C, mas ainda era um iPhone, e sem película. Quando virei o telefone pra ver se tinha rachado, tava aberta aquela página sobre o que significa quando a joaninha pousa em você. Hmmm... Isso é armação do universo! Fui ler de novo e descobri que as pintinhas informam a quantidade de dinheiro, mas, dependendo da mão em que a joaninha pousa, eu posso ganhar ou perder essa quantia. Se for na mão direita quer dizer que eu vou ganhar. Mas aquela vaca tinha pousado no lado direito da minha cara... Será que isso ainda significava que eu ia ganhar? Não sei, só sei que eu tinha que pegar aquele bicho com a mão direita pra ganhar. Fui tentar, mas assim que encostei ela voou na minha cara de novo. Foda-se aquela merda... Eu só queria saber quantas pintinhas ela tinha. Peguei o celular, abri a câmera e tirei uma foto da joaninha na minha cara. Quando dei zoom, descobri que ela só tinha seis pintinhas. O que eu vou fazer só com seis reais? Foi aí que ela voou pra minha mão esquerda. NÃO! Isso não pode estar acontecendo! Assim eu vou perder seis reais! Ah, mas não vou, não! Dei um tapão e matei a joaninha. Eu, hein?! Fica subindo em mim e ainda quer me tirar dinheiro? Sai fora! QUE ARREPENDIMENTO! Eu sou durona, mas quase morri de remorso. Deitei na cama e fiquei pensando que talvez ela tivesse uma família. Eu sou mesmo um monstro. Pelo menos um monstro bonito de rosto. Sempre fico muito pensativa antes de dormir e sempre acabo ficando chateada por alguma coisa que eu

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mesma inventei. Liguei a TV e algo muito estranho aconteceu. Um cara de terno disse: —Você é alta? Loira? Fracassada? Hmm, bem que eu suspeitava... Mas não se preocupe! A vida é uma caixinha de surpresas e logo, logo você se surpreenderá! Aí ele piscou pra câmera e eu passei a acreditar que, talvez, nós sejamos realmente nosso próprio universo que conspira a nosso próprio favor. —Meu Deus! Eu tô recebendo sinais! Acho que a Julie tava certa. Até rezei de madrugada. Tomara que funcione e que eu seja perdoada pelos anos em que eu ria das outras crianças rezando na catequese. Um dia se passou desde que comecei a receber sinais. Eu tava enxergando coisas em tudo que era canto. Era como se o universo estivesse me dando spoilers. Eu vi sinais na rua, nos carros, nos outdoors... no pescoço da Alex. Mas, no caso dela, era só uma verruga. A verruga me lembrou muito a Fernanda Benigna, que estudou comigo... Por onde será que anda a Fernanda? Um beijo pra Fernanda. Comprei um biscoito da sorte e quando peguei o papelzinho tava escrito: “O rio corre e nunca sai do lugar.” O que isso queria dizer? Será que eu sou o rio que não sai do lugar? Ou será que tenho sorte por não ser o rio? Sei lá. Só sei que na saída do restaurante chinês vi um folheto de uma cigana que prevê o futuro dos outros. Adivinhem só o nome dela? Tânia. Se isso não é destino, com certeza é feitiçaria. Tá amarrado no nome de Cidinha, Ellen e Sirlene da Rua de Baixo. Fiquei encucada com todas essas coincidências e mensagens subliminares. Fui comentar com a Julie, que perguntou:

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—Posso ler sua mão? —Sai fora! Eu, hein?! Que ler minha mão o quê? Tá maluca? — exclamei. — Pode ler minha mão, sim. Eu tava nervosa porque esse negócio de ler mão e adivinhar coisas é muito estranho. A Julie pegou minha mão. —Hmmm... Ai, meu Deus, o que queria dizer esse “Hmmm”? —O que que foi, Julie? —Nada, é o cheirinho do almoço, que já tá quase pronto. Ufa, ainda bem! Mandei a Julie ler logo minha mão e lembrei que foi com aquela mão que eu matei a joaninha. Tadinha. Espero que a família tenha encontrado o corpo dela. —Quatro, sete, um, sete, oito, dois, três... — enumerou Julie. —O que isso quer dizer? — perguntei. —Não sei, você que anotou esse número na sua mão. Era o número da cigana Tânia! Acho que só ela poderia dizer o que significado de todos aqueles sinais que tavam aparecendo no meu caminho. Por conta deles, inclusive, perdi horas na porra do trânsito pra visitar a cigana. —Buzina aí, moço! Ô lugarzinho pra ter tanto sinal, viu?! Entrei no estabelecimento da cigana Tânia e já senti o cheiro de incenso. Ainda bem, porque eu tenho quase certeza de que esqueci de passar desodorante. Logo que ela me viu, apontou na minha direção e ficou uns dez segundos com o dedo levantado. Pensei: “Pronto, é agora que ela vai revelar tudo.” Aí ela disse: —Querida, a porta! Fecha porque o ar tá ligado. Fechei a porta, dei boa-tarde e ela me chamou pra ir atrás dela.

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Já imaginei a gente indo pra uma sala com mesa redonda e uma bola de cristal. E não é que foi isso mesmo? Tirando a bola de cristal porque, segundo Tânia, a dela tinha dado defeito. A cigana Tânia olhou nos meus olhos profundamente. Então se aproximou e perguntou: —É lente? Eu disse que sim, que tenho miopia e astigmatismo, mas é bem pouquinho. Em seguida, ela pegou várias cartas. Distribuiu seis pra ela e seis pra mim. Aí me perguntou: —Já jogou Uno? Sério mesmo que eu vim pra cá jogar Uno? A cigana Tânia começou a desabafar comigo o quanto a vida era difícil e que ela foi uma criança muito sozinha. Mas eu não tava lá pra ser amiga, afinal ela nem parecia ter tanto dinheiro assim. Levantei, peguei a bolsa e, na hora que eu tava saindo, ela levantou o dedo de novo, apontando pra mim. Até olhei pra ver se eu tinha deixado a porta aberta, mas aí ela falou: —O país inteiro te verá... Ah, meu Deus! O que será que isso queria dizer? —Quando o país inteiro me verá? — perguntei. Ela disse que não tava conseguindo ver porque tinha esquecido os óculos na sala. Por mais que tenha sido uma informação breve, pra mim foi suficiente. O país inteiro ia me ver! É, Duny, seu momento vai chegar! Olá, Duny, eu sou seu subconsciente. Não crie expectativas antes da ho... EU VOU FICAR FAMOSA PRA CARALHO! Saí toda boba e sambando de lá. Até dei um real pra um morador de rua. Aquela calçada parecia uma passarela. Eu tava bela! Até meu salto prender na porra do paralelepípedo. E depois ainda dizem que o universo

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tava conspirando a meu favor... Tirei o pé do salto e tentei desprender o sapato. Acreditem, ninguém me ajudou! Nem o morador de rua! Até que eu ouvi alguém dizer: —Duny? Me virei e vi a Isabelle, que era minha vizinha em 2003. Ela era uma das minhas únicas coleguinhas que me davam de aniversário um presente bom, que não fosse roupa. A Isabelle me ajudou a tirar o salto do paralelepípedo e perguntou o que eu tava fazendo da vida. Julgando pela roupa, ela provavelmente tava muito bem empregada, bem-sucedida e satisfeita com todas as suas conquistas. Totalmente o oposto da minha situação. Falei que eu era investidora da Fofilda Technologies e tinha acabado de voltar da Europa. Isabelle vibrou com meu sucesso e disse que sempre achou que eu fosse virar cantora, já que eu cantava em todas as apresentações da escola. Acontece que só quem ia me ver cantar era minha mãe, minha avó, a Isabelle e a mãe dela. Trágico, né? Eu disse pra Isabelle que ainda seria uma cantora muito famosa. FOI O DESTINO! A Isabelle disse que tava trabalhando na produção do American Idol, um reality show que tenta descobrir o novo ídolo nacional. Eu fiz a Cláudia Cruz e meu olho quase saltou pra fora. Engraçado como tudo tinha conspirado pra aquele momento acontecer! Isabelle me convidou pra fazer as audições e eu não pensei duas vezes: Sim! O país inteiro me verá... ...pagando um micão. Depois de dez horas esperando, sendo provocada pelas outras participantes, completamente desnorteada, chegou minha hora de cantar. Cantei “Oops!... I Did It Again”, da Britney Spears, e, assim que terminei, um dos jurados, Simon Cowell, falou pra eu

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me matar caso não tivesse mais nada pra fazer. Saí de lá e mandei não só ele mas também todos os outros jurados tomarem em seus respectivos cus e ainda mandei a participante que tava me provocando se foder. Não acredito que vi sinal até na virilha pra passar por esse vexame. Detalhe: o país inteiro viu! Nisso a cigana Tânia acertou, mas me enganei pensando que seria algo bom. E mais uma vez eu tava no ponto de ônibus. Juro pra você que se chovesse mais uma vez eu ia... NÃO ACREDITO QUE COMEÇOU A CHOVER DE NOVO! Será que todo fracasso meu acaba em chuva? Bom, pelo menos eu ainda tinha os seis reais pra pegar um táxi. Se o universo tava pensando que eu ia desistir do meu plano de ser famosa, ele tava muito enganado. Não desisto tão fácil... Por mais que o táxi estivesse demorando.

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Sou uma fodida. Não, sério, sou mesmo. Cheguei num momento da minha vida em que me vi completamente desmotivada. Do que adianta querer coisas e não conseguir nada? Só tive um emprego com carteira assinada, e a única forma de ter as roupas de marca que eu gosto seria roubando. Não tenho problema nenhum em furtar coisas. Agora, se furtarem as MINHAS coisas, é morte certa. Não que eu tenha roubado alguma coisa antes... só seu coração, coisa linda! E, não, não tô dando em cima de você. Tô tentando ser fofinha, já que no momento só consigo ser fodida mesmo. DHU3HR8I4JTMKT,5LOYOPK56T4MG VKL, B.BÇ,DKFJi843 5t8 ‘~´a3rf Desculpa, foi Shaft, minha afilhada, que sentou aqui e começou a bater no teclado. Ela tem só 3 anos e já é insuportável. Imagina quando crescer...

Dali a dois dias eu teria um reencontro do pessoal que estudou comigo no ensino médio. Lembra que falei que não gosto de ninguém? Pois é, não gosto. “Ah, Duny, mas por que você tem que ir, então?” Não sei. Tenho todos eles no Facebook, e são muito bem-sucedidos. Eu mesma não curto nenhuma foto deles. Quero que pensem que tô muito ocupada fazendo outras coisas. Talvez eu quisesse ir pra ter pessoas com poder e influência como amigos próximos. Sei lá! Eu quase não tenho mais contato com as pessoas da escola e da faculdade. Sinto que nunca desenvolvi um laço afetivo com ninguém... De duas, uma: ou eu sou uma pessoa horrível ou é realmente o universo me deixando longe do que não presta. Ou talvez eu seja uma pessoa horrível E

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o universo me deixa longe do que não presta. Só sei que tava sentindo uma energia nova, talvez uma vibração... Acho que é meu celular, só um minutinho... —Hmmm... Aham... Que que tem? Ah, mentira!... Nãããão, pode trazer! Adorei! Tá... Tá... Tá... Tá... Tá bom, tchau. Era a Honey. Ela achou uma roupa perfeita pra o reencontro no sábado. Eu queria um look que as pessoas vissem e pensassem: —Vou respeitar ela. Eu esperava que eles não tivessem assistido ao American Idol, porque ninguém me respeitava mais desde aquele show de horrores. Até o moço da padaria tava me desrespeitando por conta daquela pseudoapresentação. —Quatro pães, por favor — pedi. —Não, vão ser três — retrucou ele. Todos os dias sou lembrada de que sou um fracasso. Bom, pelo menos sou bonita. Mas sabe que eu não me arrependo de nada? Vamos pensar pelo lado positivo: eu desafinei, mas continuo querendo ser cantora. Se até a Katy Perry desafina, por que eu não poderia? Errar é humano, mesmo que eu seja uma evolução de sereia. As pessoas na internet te crucificam caso você faça ou fale algo que a maioria ache ridículo. Eles falaram mal de mim como se cantassem melhor ou tivessem a mesma coragem que eu tive de ir atrás do meu sonho. Tem uma escrota chamada Brittany McCoy que escreveu uma postagem no Boomfeed listando mais de 25 erros que cometi na apresentação do American Idol... Acredita que o último item dizia que meu maior erro foi ter nascido? Será que quem diz essas coisas acha que merece ter nascido? As pessoas só dizem essas coisas na internet porque é só

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isso que elas podem fazer. Se falassem pessoalmente metade do que falaram de mim na rede, eu ia distribuir tapa como se fosse uma filantropa fazendo doação. Às vezes eu até repenso o que gostaria de fazer da minha vida caso virar artista não dê certo. Eu poderia apresentar um programa na TV ou até mesmo atuar numa série. Eu ia amar ser uma angel da Victoria’s Secret, por exemplo, mas elas ainda não estão aceitando diabas. Além disso, acho que já passei da idade de ser modelo. Sei que sou bonita, e olha que eu já vi uma modelo horrível que só era bonita por dentro! Não acredito que beleza seja o único critério deles. Eu sou fã de meter o malho na vida dos outros. Será que já posso ganhar um programa na RedeTV?! Deus me livre! Talvez, se eu tivesse aceitado ser uma Capivarita no Chocotone Show, teria conquistado um público e a essa hora estaria num jatinho atendendo ligações da Adidas, provavelmente recusando alguma proposta ridícula que eles me fizessem. E ainda há quem diga que dinheiro não traz felicidade! Eu realmente acho que não traz, mas só se forem 10, 20 reais. Como não ficar feliz com 4, 5, 100 mil reais? Meu amor, entenda. Quem diz que ter riqueza não é nada nunca vestiu algo da Prada. E, quando eu receber uma quantia alta, sabe aquele cartão da Leader? Ele vai desaparecer. E, não, ainda não vesti nada da Prada, por mais que o diabo vista e eu seja um capeta em forma de boneca. Esse papo de querer ter coisas que eu não tenho me deixa um pouco deprimida. Mais deprimente ainda é saber que meu sonho é, na verdade, a realidade da maioria dos meus colegas do ensino médio. Ainda não virei atriz, mas meu plano para o reencontro era interpretar a versão feminina do Mark Zuckerberg e dizer que

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não podia ficar muito tempo pra não perder meu voo pra Paris. Na adolescência, eu achava que Paris era um país da Europa governado pela Paris Hilton. Sim, um dia eu quis ser a Paris Hilton. Mas hoje em dia ninguém liga pra ela. Não nasci pra ser relevante apenas por um tempo. Mas ainda bem que eu parei de desejar ser outras pessoas. Esse negócio de ser outra pessoa já deu pra mim... e pra Tânia também.

*** Acordei no sábado, dia da confraternização. Óbvio. Acho que acordar é muito comum entre pessoas vivas. Sempre que tem um grande evento, eu me sinto muito poderosa umas horas antes. Danço na frente do espelho, treino respostas rápidas, invento novos bordões e foras. Também escovo os dentes umas sete vezes. A festinha daquele dia era organizada pela Fernanda Benigna (lembra que eu falei dela? A que parece uma verruga?) e pelo Jake Smith. A Fernanda Benigna deu uma grande volta por cima. Ela provavelmente entrou pro Guinness Book como a primeira verruga a abrir uma empresa. Já o Jake Smith sempre teve dinheiro. Ele recebia ajuda financeira dos pais pra conseguir tudo que queria, mas claramente não tinha talento algum. Na época da escola ele tinha uma banda chamada Pink Bananas, que era uma alusão ao fato de ele e os outros integrantes terem a cabeça do pênis cor-de-rosa. Eu não preciso nem dizer que as músicas eram horríveis, né? Eles fizeram um pouco de sucesso, mas só pela aparência. Acho que o Smith sabia disso porque ele até

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compôs uma canção chamada “Privilégio branco” em que dizia: “Se tiver ruim, eu não me preocupo tanto. Sucesso é certo, apenas porque sou branco.” Ele tinha um crush por mim no ensino médio mas eu só tinha olhos pro Cooper, o que me abandonou no altar. Ele acabou noivando com a Jayde Confederado, uma ridícula insuportável que naquela época fazia apresentações de dança nas aberturas das olimpíadas estudantis anuais. A Jayde e eu éramos consideradas as garotas mais bonitas da escola. Havia uma rivalidade implícita entre a gente. Todo trabalho em grupo era como se fosse uma copa do mundo só que com quatro times. A final era sempre meu grupo contra o grupo da Jayde. Havia uma guerra secreta entre a gente pra ver qual trabalho impressionava mais os professores. Bons tempos em que Power Point tinha alguma relevância na minha vida. Eu soube por fofoca que ela era apaixonada pelo Smith, mas ele só tinha olhos pra mim. Eu estalava os dedos dizendo “Smith”, e ele já vinha correndo. Uma pena eu não ser interesseira naquela época. Mas passado, né, fofa? Agora eu realmente preciso me sair bem, já que sou a única que tá na merda. O vestido que a Honey trouxe pra mim era do tipo que servia pra ir pra uma after party do Emmy. Era um vestido preto brilhante que deixou meu corpo maravilhoso! Ainda bem, porque quero que aquelas pessoas me olhem e pensem: “Nossa, a Duny é a única de nós que ainda pode ser modelo.” A Alex foi passar o fim de semana com a família, e a Honey não queria ficar sozinha na pensão, então decidi levar ela comigo. Não entendi exatamente o que eu tava pensando quando pedi um Uber Black. Era um carro maravilhoso, mas ninguém me viu chegando na porra do portão. Gastei dinheiro à toa, mas tudo

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bem. Cheguei quase duas horas depois do início da festa. Qual o problema? Eu queria que eles sentissem minha falta e cogitassem que talvez eu não tivesse ido porque tava extremamente atarefada. Oi... Aqui é a Honey! Peguei o computador da Duny enquanto ela saiu pra ir ao banheiro. Isso tudo é desculpa dela. Ela que demorou pra tomar banho e fazer a maquiagem, porque a Duny sem maquiagem... Às vezes me pergunto por que eu gosto da Honey, já que na maioria das vezes eu fico com vontade de arrebentar a cara dela. Logo na entrada, tinha uma menina checando os nomes na lista. Passei direto desfilando, mas ela perguntou: —Nome, senhora? —Nome eu não tenho, mas toma 10 reais aqui. Entrei com a Honey e a menina ia poder tomar um açaí depois. O quintal da casa do Smith era enorme e tava lotado. Fiquei com medo de ter problema de memória, porque não me lembrei da metade dos rostos que eu vi. Deborinha e Suelen Beirut tavam lá. Eram duas insuportáveis que cochichavam entre si antes de falarem qualquer coisa. Fui lá falar com elas. —Oi, fofas, quanto tempo! Deborinha e Suelen me olharam, cochicharam uma com a outra e saíram de perto de mim. Infelizmente pra elas, nem a meteorologia conseguiu me prever. Foi instantâneo, todos me viram lá e começaram a me cumprimentar. Nunca na vida falei tanto “claro”, que era minha resposta quando me perguntavam se eu me lembrava deles. Lembro porra nenhuma. Só me lembro mesmo das minhas amigas da época, Adriele e Kendra Foster, mas elas não foram. Logo que me viu, Smith veio falar comigo parecendo

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desesperado. Senti que os olhos dele ainda brilhavam quando me viam. —Smith, quanto tempo! —Pois é. Nossa, você tá maravilhosa — elogiou ele, que depois olhou pra Honey. — E você, quem é? —Essa é minha am... assistente! — falei. —Assistente? — retrucou Honey, surpresa. Virei pra ela e usei uma tática que minha mãe usava comigo na infância. —Ó, em casa a gente conversa. —Eu sou a Honey, assistente dela! — disse Honey, entrando no jogo. — É um prazer. —O prazer é todo meu — respondeu Smith. — Nossa, Duny, você continua a mesma. Acho que é a única aqui que ainda pode ser modelo. Além da Jayde, claro. Jayde! Imagine a Jayde andando, em câmera lenta, vindo em nossa direção, com vento no cabelo e um olhar de Adriana Lima, só que mil vezes pior. Eu geralmente tento reparar no rosto antes pra botar algum defeito mas... espera... A JAYDE TÁ COM UM VESTIDO IDÊNTICO AO MEU. Acho que pra qualquer pessoa vaidosa é como se fosse um desafio do Jogos Mortais. O desgosto na minha cara tava mais evidente que os mamilos da Jayde sem sutiã naquele vestido. Ela me olhou com um sorriso ensaiado. Tive certeza de que ela tinha feito preenchimento labial e clareamento naqueles dentes, e olha que ela ainda tava longe! Na verdade, ela tava andando em câmera lenta mesmo. Até o Smith virou pra gente e disse que ela ia demorar uns segundos pra chegar. Quando ela chegou, a primeira coisa que fez foi botar a mão da aliança no ombro do Smith, de forma que ficasse bem visível. Por que essas mulheres acham que o marido é o último biscoito do

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pacote? Nunca me senti atraída pelo Smith e seria muito mais fácil roubar ele da Jayde do que o contrário. A Jayde é que nem eu: venenosa. Mas acho que aquela cobra ficou mais peçonhenta com o tempo. Ela me cumprimentou sem encostar. Assim que viu a Honey do meu lado perguntou: —É sua filha? A Honey tem 28 anos e é, sim, muito linda. Ela é a cara da Adriana Lima real, mas convenhamos que, se a Honey fosse minha filha, ela teria só 10 anos. E mesmo que minha filha tivesse 28 anos eu ainda estaria muito melhor que ela... —Não, essa é a Honey, minha assistente. Pode trazer dois drinks pra gente, senhora? Eu também sou venenosa. —Não, essa é a Jayde! — disse Smith. — Lembra dela? Ela é minha esposa. Não é a garçonete. A Jayde fechou a cara pra mim. —Eu sei que não é garçonete! Eu pedi pra você mesmo, Jayde. Mas tudo bem! Hoje é dia de folga, não é mesmo? O Smith nunca percebe nossa troca de farpas. Todos da festa fingiram não ver esse momento e voltaram a falar. Parece até o ensino médio novamente... Mal posso esperar pra descobrir quem será a rainha do baile. Assessor de imprensa da Moschino, produtor-executivo da RBE Group, gerente de vendas da Apple, autor de best-sellers, acionista na Ultra Unity... São as profissões de algumas das pessoas presentes. O que eu vou dizer de mim? Que sou desocupada na empresa Vida? Pós-graduada na empresa Sono? Cansada na empresa Chega, Não Aguento Mais? Chateada na empresa Dia a Dia? O Pietro Sinclair já veio me dizer que eu lembro muito a Tânia

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do Chocotone Show. A esposa da Angela contou que acreditava ter me visto na televisão. Novamente me peguei pensando no que eu tava fazendo ali. Talvez a única coisa interessante depois de horas naquela festa fossem os salgadinhos. Limpei a gordura da minha mão toda no sofá de Jayde. A Honey tava superenturmada. Ela como administradora na pensão é uma das pessoas mais competentes que eu já conheci. Ela deveria ganhar quatro vezes mais do que ganha. E eu deveria ganhar qualquer coisa, já que no momento não ganho nada. Eu deveria estar orgulhosa por ser formada. Tenho dois irmãos mais velhos e eu fui a única que se formou. Do que adianta bater no peito e dizer “Eu pelo menos sou formada” quando isso não é nada de mais? Talvez pra algumas formações específicas. Acontece que eu não sou boa em exatas. Muito menos em humanas. Talvez seja um pouco em humanas... Mesmo que eu odeie humanos. O que será que a Jayde faz? —Oi, Jayde. A Jayde tava mexendo no celular e nem olhou pra mim. —Oi, Smith — respondeu Jayde. —Dá pra olhar pra minha cara? Não é o Smith. —Ah, oi, Duny! Esqueço que você tem uma voz grave. Confesso que a Jayde merece créditos por seu veneno ativado 24 horas. Mas o meu é muito melhor e mais eficiente. Além do mais, esse livro é meu! Não quero que você goste da Jayde! —O que você faz da vida? — perguntei. —Eu? Não... Minha avó. —Sim, Jayde, você. O que você faz? —Bom, sou um pouco ocupada. Sou noiva do Smith e me

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contento sendo dona de casa, por mais que tenhamos duas empregadas. De vez em quando eu viajo com ele e acho que meu único trabalho é ficar de olho nas coisas dele porque tenho medo de ele me trair — contou, rindo. Essa foi a forma mais legal de alguém dizer que não faz absolutamente nada. Não sei se a Jayde gosta do Smith de verdade ou se ela se aproveita dele justamente pra não fazer nada. Acho que se eu fosse noiva ou casada não estaria preocupada com que meu marido faz por aí. Na verdade, eu daria graças a Deus por ele ficar longe. Tenho um sério problema com pessoas e, quando elas passam mais de cinco minutos perto de mim, já me sinto sufocada. Mesmo que a pessoa seja baixinha. —E você? O que você faz? — perguntou Jayde. — Tenho certeza de que me lembro de você anunciando que seria famosa um dia. —É... Eu sou formada. —Em quê? —Não importa. O que importa é que eu sou formada. —Ótimo! E você trabalha com o quê? —Com qualquer coisa que não envolva monitorar o marido. —Ouvi dizer que o Cooper largou você no altar. —É... Mas já faz alguns anos. Eu já superei. —Ainda bem, porque ele também. Logo que eu soube que ele tava solteiro, apresentei uma amiga pra ele. —Ah, é? —Aham. Eu nunca achei que vocês combinassem mesmo. Não sou santinha. Eu jogo veneno, shade, insultos, sempre que me dá na telha, mas a Jayde tocou num assunto que ainda é muito difícil pra mim. Não sou o tipo de mulher que talvez esteja com medo de não se casar ou ter filhos. Morro de medo de

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grávidas e bebês. Um dia vi uma grávida na rua e nunca corri tanto na minha vida. Minha irmã, Alanis, já fingiu estar grávida pra enganar o marido rico. Ela ficou com uma barriga falsa por anos e ele nunca notou nada de errado porque vive ocupado. No final, ela ainda cogitou dizer que a barriga tava assim porque ela comeu Cheetos. Sem contar que um marido pode acabar exigindo muito do meu tempo, e eu não tenho tempo pra ninguém além de mim mesma. Quando eu tava prestes a dar uma resposta bem dada pra Jayde, a Gilda, esposa da Angela, se lembrou de onde me conhecia. Adivinhe só? SIM, DO AMERICAN IDOL. Ela disse que nunca riu tanto vendo TV na vida. Tentei desconversar de inúmeras formas possíveis, mas eu tava prestes a ser desmoralizada no meio dos moralizados. A Jayde queria saber que programa era esse, e eu interrompia a Gilda toda a vez que ela ia dizer. Até que a cobrinha começou a procurar no celular e bum: a Jayde achou meu vídeo no American Idol. O problema é que aquela marsupial não ia só assistir. Ela ia assistir, rir e mostrar pra todo mundo rir também. Levantei correndo e fui até a Honey dizer que era pra gente ir embora. Ela pediu pra ficar mais um pouco pois ela não tinha boas conversas havia anos. Me senti ofendida porque ontem mesmo eu tava conversando com a Honey. Falsa do cacete. Quando eu falei pro Pietro que eu tava indo embora, várias pessoas ouviram e vieram se despedir de mim com abraços e beijos. EU ODEIO ABRAÇOS.

A vontade era de dar na cara de todo mundo. E eu super

precisava ir embora. A Jayde tava prestes a começar uma versão do “Eu vou expor ela” antes da Kim Kardashian patentear o ato. Então, ou eu dava o fora dali naquele momento, ou mais uma vez ia sair derrotada e na chuva. Ouvi um

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barulho de microfone. FO-DEU. —Gente... Vocês não vão acreditar, mas nós temos uma amiga MUITO FAMOSA — anunciou Jayde. Todos da festa ficaram curiosos. Tinha até gente achando que ia ter performance de Pepê e Neném. Contei a situação pra Honey e começamos a sair de ré. Era muita gente aglomerada, inclusive acho que patolei o Pietro Sinclair sem querer. Quando eu tava quase saindo, a Jayde anunciou em alto e bom som que eu era um fenômeno nacional com minha performance de “Oops!.. I Did It Again” no American Idol. Ninguém entendeu porra nenhuma, até a Jayde ligar o celular na TV gigante da casa e dar play no meu teste pro programa. Eu não desejo isso pra ninguém. Todas as pessoas riram da futura Princesa Diana. A Jayde nunca tinha me olhado com tanta satisfação e ainda disse: —É nossa Adele. Eu só não respondi porque teria que quebrar uma taça e enfiar no pescoço dela. Às vezes acho que ainda vou cometer um homicídio, mas não foi naquele dia. Podem surgir oportunidades melhores... Mas tenho uma dúvida: nesse caso, se eu matasse a Jayde, eu poderia alegar legítima defesa? Peguei minhas coisas e dei o fora. Eu podia ter saído de lá num carro de funerária, mas só tentei pedir um Uber. Até botei o destino como Nárnia pra nunca mais ter que voltar pra Terra. O 3G de Sun Town é péssimo e os preços estavam mais altos que os normais. Então, eu e Honey fomos embora a pé. A menina da lista de nomes perguntou novamente: —Qual é seu nome, senhora? Ué, precisa dar o nome pra sair também? Que merda é essa? —Pra quê? — perguntei. Ela disse que gostaria de marcar um jantar comigo. SER CANTADA

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NUMA HORA DESSAS?

Pelo amor de Deus, né? Quando estávamos chegando na metade da rua, o Smith veio correndo atrás de mim. CHUPA, JAYDE! Bom, ela realmente faz isso... Mas vamos cortar essa parte. O Smith perguntou por que eu tava indo embora e eu disse que tinha um voo pra Paris. Ele ficou impressionado e disse que tava trabalhando como empresário e produtor de alguns youtubers. Olha pra minha cara de quem quer ser youtuber... Me poupe, né? Eu disse que não tava interessada, mas ele insistiu. Até me segurou pelo braço! Será que isso já rende uma denúncia? O Smith explicou que o vídeo do American Idol já tinha quase um milhão de visualizações e que eu tinha bastante potencial pra começar um canal, já que ainda tava em alta. Me diz como eu vou explicar esse meu histórico pra Victoria’s Secret no futuro? Como vou explicar quando eu for Miss Universo? Eu queria apagar minha aparição no American Idol porque pretendo ser respeitada um dia, então a última coisa que eu desejava é me tornar youtuber. —Eu posso investir 60 mil pra produzir seu canal. Quando o Smith disse isso, até sentamos na calçada pra conversar sobre o quanto ser youtuber pode ser bom. A Honey sempre me incentivou a começar um canal da pensão, mas eu acho que nossa vida deveria virar uma série, então vamos guardar isso pros futuros Emmys e Globos de Ouro. Apesar da vergonha que eu passei na frente dos meus amigos superpoderosos, pela primeira vez uma oportunidade real bateu na minha porta. Inclusive, bateu muito tarde, até liguei pra polícia. O Smith viu em mim um potencial que eu já via em mim fazia muito tempo. Mas youtuber? Sério? Como eu não tinha pensado nisso antes? Sempre me disseram que eu penso alto,

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afinal, sou uma mulher de 1,78 metro de altura. Mas se nem a Jennifer Lawrence começou no topo, por que eu começaria, apesar de ser muito mais talentosa que ela? Nesse dia não choveu e uma coisa boa aconteceu. Até esqueci que eu e a Honey voltamos andando pra casa. Depois de patas de camelo, sinais, verrugas, o sucesso finalmente tava próximo! Então, pelo menos você já sabe por onde começar caso queira me seguir como exemplo. O que eu não recomendo, porque, se você conseguir chegar aonde eu vou e fizer melhor do que eu, infelizmente vou ter que mandar derrubar seu avião.

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É

horrível pensar que a gente malha, faz dieta, tenta emagrecer ou engordar, cuida da pele, do cabelo, pra um dia ficar flácida, com rugas e cabelo branco. Eu mesma já decidi que vou me congelar com 32 anos pra preservar o meu corpo até que a tecnologia e a ciência avancem e nós possamos manter pra sempre a aparência de uma boneca do The Sims. Você se imagina com certa idade? Digo, muita idade? Tipo 35 anos? Péssimo pra você, porque isso nunca passou pela minha mente. Existem muitas preocupações no mundo, como aquecimento global, fome, depressão, se a série vai ser renovada ou cancelada, mas, pra mim, nada disso importa. Só me preocupo com meu corpo e como ele vai estar quando eu estiver sob os holofotes. Não quero que pense que sou egocêntrica ou que não me importo com o que tá ao meu redor, mas, se eu deixar de me preocupar comigo, vou viver deprimida e pessimista. Estou solteira há algum tempo, mas teve uma época em que eu me namorei. Você já experimentou se beijar no espelho? Se estiver sujo o gosto vai ser péssimo. Mas se o espelho estiver limpinho beijar seu próprio reflexo pode ser bem legal. Minha avó Evelyn sempre me dizia: —Se você não amar a si mesma, ninguém vai te amar, porque você é a maior escrota. Desde então eu levo essa frase como lema da minha vida e acho que todos deveriam valorizar essa ideia. Eu não sei se namoraria outra mulher porque sou a única mulher que acho atraente. Um dia tava andando na rua e eu mesma olhei pra

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minha bunda. Me dei um tapa no braço e disse que é feio fazer isso. Eu falo muito sobre ser bela, mas beleza é uma coisa muito relativa. Até porque já acordei feia... e fui correndo fazer a maquiagem. A maquiagem esconde muita coisa e quase sempre dá uma ajuda tremenda. Outro dia fui testar uma maquiagem na Shaft, minha afilhada, e que melhora! Ela ficou parecendo o Benjamin Button. Infelizmente maquiagem não serve pro corpo todo. Um dia fui passar base na bunda pra esconder as estrias e, quando tirei o vestido, vi que ele tava todo manchado! As meninas até pensaram que eu tinha cagado na roupa! Já passou da hora de criarem algo pra tirar esse encosto do corpo! Hana Macarantava Suya!3 Não acho que falta de sexo esteja diretamente relacionada a atração física, até porque eu sinto atração por vários atores de Hollywood e não faço sexo há algum tempo. Não tô desesperada para ter relações com ninguém, até porque consigo me satisfazer com outras coisas, como pêssego em calda. Você deve estar se perguntando por que tô falando sobre isso, mas é que minha vida fica mais interessante quando termino fodida de alguma forma. E o que tô prestes a contar vai ser um episódio não autorizado de Black Mirror. Tudo começou aos 16 anos, quando eu já tinha o corpo maravilhoso que tenho hoje. Naquela época, entendi que ser chamada pra tomar um Guaravita por algum garoto da minha idade não queria dizer realmente tomar um Guaravita. Eram tantos elogios que qualquer imperfeição acabava passando despercebida. As pessoas sempre têm um papel fundamental na nossa autoestima e na maioria das vezes são responsáveis por

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nossa insegurança a respeito da aparência. Eu tava plena até minha amiga Esther comentar que meu seio direito parecia maior que o outro. Pra alguém que tava muito bem consigo mesma, achei que isso era uma completa bobagem, afinal, quem liga se um seio é maior que o ou... PUTA QUE PARIU, UM DOS MEUS SEIOS É MAIOR QUE O OUTRO! Lá se foram minha autoestima e vontade de viver. Passei dias, semanas e meses reparando que meus seios pareciam o pokémon Weezing. É claro que há bastante exagero da minha parte, já que é uma diferença muito pequena. Mas só de saber que eles não são iguais dá uma dor lá na minha Elba Ramalho. Sempre tem aquelas coisinhas que a gente gostaria de mudar no corpo. Quer outro exemplo? Odeio o tamanho dos meus lábios, queria que eles fossem mais carnudos. Em relação ao peso, agora estou bem, mas teve uma época em que eu tava muito magra e isso me incomodava bastante. Mas, graças a Deus, tava perto do Natal, então ganhei uns quilinhos a mais. Depois pra perder de novo foi um custo... 9,90 reais, pra ser mais exata. A grande verdade é que estar bonita pode se tornar algo cansativo na vida das pessoas. Por exemplo, a Alex aqui da pensão já desistiu há muito tempo. Eu não posso desistir. Não cheguei tão longe pra parar aqui. E assim voltamos para a parte em que eu não quero posar nua um dia e as pessoas repararem que um seio meu é maior que o outro, então infelizmente vou ter que recorrer a algo que eu jurei que nunca faria: cirurgia plástica. Tenho uma grande amiga, a Lilililiane. A mãe dela ficou nervosa na hora de registrar o nome e acabou repetindo a primeira sílaba quatro vezes. Ela é cirurgiã plástica e sempre me disse que não havia necessidade alguma de corrigir essa falha,

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pois é imperceptível. Mentira, porque eu noto, e não é à toa que a Lilililiane usa óculos. O Smith virou meu agente e nós íamos começar um programa no YouTube em breve. Eu com certeza ia viralizar e me tornar uma das maiores youtubers do país, mas precisava estar linda. É horrível pensar que talvez eu não pudesse usar decote por causa da minha insegurança. A Lilililiane insistiu e bateu na tecla da falta de necessidade, eu ouvi e bati nas costas da Lilililiane pra ela aprender que quem tem que saber sou eu, mesmo que a cirurgiã plástica fosse ela. Mas já fazia uns cinco anos desde que eu tinha falado com a Lilililiane, e eu sentia que meus seios estavam mesmo desproporcionais, muito mais do que antes! Cheguei a me consultar com outros cirurgiões plásticos, mas eles disseram a mesma coisa que ela. Que merda! Não adiantou nada o suborno! Desde que virou meu agente, assessor, ou sei lá o quê, o Smith não parava de me mandar mensagem. Ele estava extremamente empolgado por trabalharmos juntos. Já a Jayde, nem tanto. Parece que o tempo não passou e que eu ainda era a crush dele. Não é possível que aquelas mensagens em excesso fossem apenas profissionais. Mas nunca ia me envolver romanticamente com o Smith, até porque ele nem era meu tipo. Muitas pessoas me perguntavam quando eu ia arrumar um namoradinho. Muitas pessoas, inclusive, não estão mais entre nós depois de perguntar isso. Por que toda pessoa, depois de ouvir que é bonita, tem que lidar com esse tipo de pergunta? Por que ninguém pergunta sobre sua saúde, mas todo mundo quer saber como tá sua vida amorosa? Pariu, hein? Século 21 nessa merda já... Porraaaa... E lá vinha o Smith mandando mensagem de novo. Eu fazia questão de visualizar e não responder, pois tinha medo de

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responder e ser grossa e já conseguia esse feito apenas mandando um emoji errado. Mais cedo ele mandou quatro áudios de vinte segundos cada. Escorreguei o dedo dando play em todos pra fingir que ouvi e respondi: “Com certeza.” Aí ele me mandou um emoji de joinha. Viu? Se você não estiver a fim de ouvir, essa é a melhor coisa a fazer. Voltando pros meus seios, meu mamilo acendeu e finalmente apareceu quem eu queria que aparecesse. Lilililiane disse que ia voltar pro país no início do mês seguinte e tava disposta a me ajudar, mas logo depois disse que não esqueceu que o que eu tinha não era um problema e ressaltou o quanto eu dou importância pra coisas idiotas. Desliguei na cara dela e resolvi procurar uma cirurgiã que não fosse ridícula. Aí encontrei a Holly, irmã da Julie daqui da pensão. Ela faz coisas magníficas com o rosto das celebridades. Inclusive tem a teoria de que Michael Jackson não morreu e ele, na verdade, é a cantora Cícera. Dizem que foi a Holly que fez a plástica de transformação. Bom, eu esperava não sair com a cara do Michael Jackson nem que meus seios ficassem parecendo a Cícera, mas, pelo que a Julie me mostrou, a Holly é bastante eficiente e sabe o que faz. A Holly me disse de cara que esse tipo de procedimento é desnecessário, já que é comum humanos terem partes desproporcionais no corpo, mas que ela toparia me ajudar se isso afetasse muito minha autoestima. A Holly marcou uma consulta para dali a três semanas, mas pediu que eu enviasse fotos dos meus seios pra ela ver. Ia ser a primeira vez que eu mandaria nudes pra alguém. Não que eu nunca tenha tirado fotos pelada, mas tirei só pra ficar me admirando. Eu tava com medo de a Holly ser assaltada na rua e os assaltantes vazarem minhas fotos. Será que as pessoas que

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enviam fotos íntimas pras outras não se preocupam com isso? Já pensou se um dia eu viro professora e os alunos trazem as fotos à tona? Sei que nunca vou ser professora, mas até isso passa pela minha cabeça... Comecei a tirar as fotos e eu não sabia se ficava parada ou se fazia pose, afinal a Holly só queria ver meus seios. Mas eles não pareciam desproporcionais de muito perto. Resolvi tirar na frente do espelho e, de forma natural, comecei a fazer poses diversas. Umas fotos ficaram tão boas que até guardei. Uma pena eu não poder postar. Não por vergonha, mas é que algum filho da puta ia denunciar a porra da foto no Instagram. Além disso, tenho medo de virar anúncio de site pornô sem saber. Já pensou? Eu fazendo sucesso internacional como mulher de banner pornô escrito: “Tens o suficiente pra esmagar minha rata?” Deus me livre! Tem como silenciar as mensagens do Smith? A praga não parava de falar e eu tava ocupada tirando foto pra Holly. Acho que vou trocar a calcinha. Eu tava parecendo a mãe de alguém com a que eu tava. “Ah, Duny, mas a Holly quer ver só os seios.” Ah, Duny, nada! Se eu repararia na calcinha da cliente, por que a Holly não repararia? Aaah, chega, fiquei com preguiça. Três cliques viraram 67 fotos. Odeio sair esquisita em qualquer foto que eu tiro. A câmera do celular também pode mexer com a autoestima. Um dia acordei de bem com a vida (porque eu e a vida tínhamos brigado) e me sentindo maravilhosa. Quando abri a câmera frontal, tudo mudou. Se a câmera frontal fosse alguém, ela com certeza diria: “Tsc, tsc, feia pra caralho.” Como eu sou afrontosa, tiro várias fotos até alguma sair bonita. Aí no final eu tenho cem fotos e não vou postar nenhuma porque eu preferiria a morte.

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Pois bem, selecionei as fotos e encaminhei pra Holly. Até olhei as fotos de novo porque, se aparecesse alguma coisa como um pelinho escapando na virilha, eu ia ficar extremamente envergonhada. Bom, a Holly não tem cara de quem dá zoom na virilha da cliente. Mas eu faria isso. E ninguém é igual. O jeito era esperar pelo melhor. Botei o sutiã, vesti a roupa e o dia seguiu normalmente. Ansiedade é uma coisa horrível. Se ansiedade fosse uma parente minha, com certeza ia ser minha tia Tereza. A tia Tereza é aquele tipo de pessoa que gosta de encostar, sabe? Abraça, fica muito perto, puxa conversa na porta do banheiro enquanto eu tomo banho. A vontade é de queimar tia Tereza todinha, mas não posso fazer isso. Minha ansiedade é idêntica a ela e, por mais que eu não suporte, naquele dia não conseguia me livrar dela. O motivo? Já fazia duas horas que eu tinha mandado a porra das fotos e a Holly não respondia. Parecia até que eu tinha acabado de enviar um currículo. Eu tava muito mais ansiosa pra saber o que a Holly tinha achado das fotos em si do que dos meus seios desproporcionais. Tem uma em que eu fiquei muito gata. A Ingrid, recepcionista da pensão, passou por mim e disse que também adorava tirar fotos pelada. Corri atrás dela e falei pra ela não comentar isso com ninguém. Não quero que as pessoas achem que eu sou assanhada. Mas, pelo amor de Deus, DUAS HORAS PRA RESPONDER 33 FOTOS NUA? Tem alguma coisa errada. AI, MEU DEUS, ela respondeu.

Se tem uma coisa que eu odeio é gente que se faz de sonsa. Enviei as 33 fotos pra Holly e ela tava fingindo que nã... CALMA. Gente, as fotos realmente não foram. Ué, mas eu encaminhei essa merd...

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Nesse momento, estou digitando isso com uma das mãos, pois a outra tá segurando um cu, que felizmente é o meu. Quando abri o chat com o Smith, vi que todas as 33 fotos foram enviadas pra ele, porque aquele insuportável ficava mandando mensagens sem parar e provavelmente foi a última pessoa a falar comigo na hora que eu tava encaminhando as fotos pra Holly. O SMITH TEM FOTOS MINHAS DE PEITO DE FORA. A última vez que eu me senti envergonhada assim foi quando soltei um pum pela vagina fazendo abdominal na academia. Na época eu descobri que o nome disso é queef. Cheguei a sugerir esse nome pra minha amiga que tinha adotado uma gatinha nova. Comecei a escrever um textão me desculpando pro Smith, mas, calma aí, ele me mandou uma foto. O wi-fi da pensão é ruim

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e o 3G de Sun Town também. A foto não carregou direito, mas aquilo tava parecendo um réptil. Será que ele queria dizer que eu tava parecendo uma cobra? Realmente, nas fotos 17 e 21, eu saí meio torta, mas é porque eu tenho escoliose. Como se já não fosse o bastante, quando a foto carregou, não era um réptil. Era uma ave. Era a foto do pinto do Smith. Ele achou que eu estava iniciando assanhamento com ele. Eu queria me jogar de algum lugar, mas pular do segundo andar da pensão só ia deixar meus seios ainda mais desproporcionais. Expliquei pro Smith que foi um acidente e ele respondeu: “Hehehe, sei”, junto com um emoji de diabinho. Mandei um áudio de dois segundos pra ele dizendo: —Vai tomar no cu, Smith. O Smith não ia fazer nada com as fotos, eu esperava, mas que vergonha!

Respirei fundo umas dez vezes, porque tava com sinusite, e

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encaminhei as fotos pra Holly. Ela disse que o procedimento ia custar 12 mil reais. Desisti e achei que meus seios eram lindos. Nem o Smith notou a desproporção, então achei melhor parar com essa merda. O Smith me ligou pra saber o que tinha acontecido e eu expliquei. No fundo ele queria mesmo trocar nudes, mas ele entendeu todo o incidente e disse que ia apagar as fotos. Bom, poderia ter sido pior, mas quer um conselho de amiga? Não encaminhe fotos pra pessoa errada. Nem acidentalmente por acidente. Com esse assunto encerrado, eu estava cada vez mais entusiasmada com minha futura carreira de youtuber. Procurei dicas e apareceram vários conselhos vindos dos próprios youtubers. Uma das primeiras dicas era que eu tinha que inovar, embora eles mesmos não fizessem isso. Pelo menos, de oito youtubers que eu assisti, nove faziam as mesmas coisas nos vídeos e copiavam uns aos outros. É uma onda que nunca acaba, como se eu estivesse vendo biscoito em um canal e bolacha no outro. E eu ia ter pouquíssimo tempo pra planejar meu canal, já que eu acordo meio-dia, tenho uma hora de almoço, vou pra academia, lancho, boto minhas séries em dia, janto e vou dormir de novo. Eu teria que abrir mão de uma das dez horas que eu durmo. Ia acabar tendo que ir numa psicóloga. Mas basta de preocupação. Fui almoçar com a Alex e a Honey. Elas estavam numa fissura com galeto que eu nunca vi antes. Fiquei tão irritada com elas falando de galeto o dia inteiro que a vontade era de esfregar a comida na cara delas quando fomos servidas. Sabe quando você tá num lugar e tem a impressão de que

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alguém tá te chamando? Então, vai ao médico porque pode ser algo sério. Só sei que comecei a ouvir alguém falando: “Duny isso. Duny aquilo. Duny não sei o quê.” Comecei a olhar em volta pra ver se tinha alguém falando de mim. Não encontrei ninguém! Será que eu precisava ir ao médico? Ouvi novamente e mais uma vez eu tava certa: eram Deborinha e Suelen Beirut. Aquelas que cochicham, lembra? Elas tavam falando de alguma coisa envolvendo meu nome. Não me incomodo que as pessoas falem de mim, mas, nesse caso, eram duas pessoas que não me suportam. Coisa boa não era. Mandei Alex e Honey falarem baixo pra gente prestar atenção no que as duas malditas conversavam. —Que vergonha! Mas não tô surpresa. Ela parece ser exatamente o tipo de pessoa que comete essas barbaridades — cochichou Suelen. —Mulher promíscua e interesseira. Mas fazer o quê, né? É a Duny, então uma hora ou outra isso ia acabar acontecendo — sussurrou Deborinha. Suelen e Deborinha riram. —Se um dia ela lançar um livro tenho certeza de que o título será Como roubar o marido das outras — murmurou Suelen. Hã? Roubar o marido das outras? Eu não consegui nem que meu noivo se casasse comigo! Como é que eu ia roubar o marido de alguém? De quem será que elas tavam falando? Não demorou muito tempo pra que eu concluísse meu raciocínio. Eu mesma, Sherlock Holmes. Como sou um doce, levantei arrastando a cadeira e fui até elas, como num programa de barraco na TV. —Que merda é essa? Eu roubei o marido de quem? Armei um escândalo e todo mundo começou a olhar. Eu não teria feito isso se estivesse errada, mas elas tavam contando uma

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grande mentira envolvendo meu nome. Aquelas debochadas me olharam e começaram a cochichar uma com a outra. AAAAAAH, meu pavio tava tão curto, que eu acho que, na verdade, era minha calcinha que eu sentia me beliscar. Puxei a linha que me machucava e depois peguei Suelen Beirut pelo cabelo. “Ah, Duny, mas por que você não agarrou Deborinha também?” Não seja por isso. Peguei Deborinha também. Todos do restaurante estavam olhando. Até mandei a Alex filmar pra eu poder assistir depois. —O que vocês estão falando de mim? Eu roubei o marido de quem? —Eu vou ligar pro meu marido vir te bater — ameaçou Suelen. —Liga, então! — retruquei. — Liga! Liga que eu vou bater em você e nele. ANDA, fala. Marido de quem que eu tô roubando? —Da Jayde! — respondeu Deborinha. —O quê? Da Jayde? O Smith? Soltei elas duas e não entendi porra nenhuma. Aquelas fofoqueiras tavam maldando o fato de o Smith ter virado meu produtor? Invejosas. Elas seriam o tipo de youtuber que faz vídeos sem graça desperdiçando coisas. —É, o Smith — confirmou Suelen. — Todo mundo sabe! Todo mundo viu, querida. —Viu o quê? Suelen tirou o celular da bolsa. —A foto nua que você mandou pra ele. E tenho certeza de que você sabe que ele é um homem casado. Todos no restaurante ficam chocados. —É pra continuar filmando? Peguei o celular da mão da Suelen e me deparei com todas as minhas 33 fotos postadas no Facebook. Sim, eu queria matar o Smith, mas quem postou as fotos na verdade foi a Jayde! Cinco

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minutos antes. E não foram só as fotos. Ela também escreveu um textão. Jayde Confederado Há 6 min Mores, já vigiaram o marido de vocês hoje? Pois eu fui olhar no celular do meu e acabei encontrando um show de horrores. A Duny Eveley, que sempre teve inveja do meu casamento, mandou mais de 33 FOTOS fazendo topless pro MEU MARIDO, o Jake Smith. Fiquei em choque por vários minutos e quase pari nosso bebê. Não, não estou grávida, mas se estivesse o feto estaria em risco. Confio no meu marido e sei que ele não fez nada de errado. Mas claramente nós não podemos confiar em pessoas promíscuas e invejosas que nos cercam todos os dias. Então, Duny, da próxima vez que você for tentar enviar essas fotos ridículas pra um homem casado, pense duas vezes, pois ele pode ter uma esposa que está de olho 24 horas por dia. Aqui estão pra vocês, amigos do Face, as 33 fotos dessa búfala. 323 27 comentários 94 compartilhamentos

A Honey e a Alex não entenderam nada, não porque eu não mandaria foto pra um homem casado, mas ninguém em sã consciência ia mandar nudes pro Smith. Tentei ligar pra ele, e nada de ele atender. Saí do restaurante com um quente e dois fervendo. Esquecemos até de pagar. Assim que percebemos, corremos muito. A Alex perguntou se eu ia denunciar a Jayde, mas ainda tô pensando. Lembra que eu disse estar esperando uma boa oportunidade pra cometer meu primeiro homicídio? Bom, talvez hoje seja uma boa oportunidade. Pegamos um táxi pra ir pra casa da Jayde. Eu não sabia exatamente onde era a casa dela, então pedi pro motorista botar “Vagabunda” no GPS. Só que o táxi acabou deixando a gente lá em casa. Aí eu pedi pra ele botar “Desgraçada” e, pronto, chegamos na casa da Jayde. Toquei o interfone e a Célia, empregada da Jayde, atendeu. Eu disse que era o correio e a empregada perguntou o que eu tava entregando. Disse que era o atestado de óbito da Jayde. Ela disse:

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—Ah, sim, só um minutinho. Ela abriu o portão e eu já mandei a Alex e a Honey segurarem a moça. Ela começou a gritar. Eu precisava fazer alguma coisa pra Célia ficar quietinha, então demos um brinquedo pra ela brincar. Entramos na casa e demos de cara com a Jayde numa camisola maravilhosa, que com certeza eu ia levar na bolsa, segurando uma taça de champanhe e olhando as curtidas, comentários e compartilhamentos da postagem, que não paravam de aumentar. Entramos de fininho e assustei ela, dizendo: —Olá, queridinha. Eu espero que alguém tenha filmado, porque parece até season finale de novela. Quando a Jayde me viu, fechou o notebook, pegou e saiu correndo pela casa. Tentei acertar minha Grendha Ivete Sangalo nela, mas sou muito ruim de mira. Saí correndo atrás dela. Ouvi a Jayde gritando pra Célia chamar a polícia. Subi a escada atrás dela e uma música de suspense começou a tocar. Mas era só a televisão de um dos quartos que tava ligada. Eu tirei meus saltos e andei de leve pra gansa não ouvir meus passos. Achei a Jayde tremendo escondida debaixo da cama. Pela primeira vez estamos vendo pela perspectiva do assassino e acho que pela primeira vez estamos torcendo pelo assassino. Prazer, assassino. Não. Por mais que vocês quisessem ver, o único sangue dessa história foi o da minha menstruação, que veio forte assim que abaixei pra puxar a Jayde pelo cabelo. Só não a matei porque essa história de homicídio é brincadeira. Eu jamais mataria alguém de verdade. Eu sei, eu sei... Mas, por favor, não se decepcione comigo. Pelo menos fiz a Jayde apagar a postagem e ainda fiz uma live segurando ela pelo cabelo.

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Bom, comigo ela não mexe mais. A única parte decepcionante disso é que no mesmo dia o Smith me ligou. E adivinha só? Exatamente. Ele não vai me ajudar com minha carreira de youtuber. Nunca vi alguém preferir a esposa a uma futura estrela mundial... Gente, é possível que alguém tenha jogado uma praga contra mim? Ou será que joguei pedra na cruz? Ou será que aquela pedra que joguei na vizinha pegou na cruz e jogaram de volta com uma praga? Não sei. Queria muito entender por que eu só me fodo nesse cacete. Mas tudo bem! Respira! Olha pro seu rosto, pelo menos você é bonita... Tudo bem, eu sou bonita. Vou ser otimista até me foder novamente. Só espero que isso não aconteça logo. Ó, EU TÔ FALANDO SÉRIO! Espera pelo menos uns três dias. 3 Espécie de feitiço evangélico.

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Não gosto de criança. Já ouvi muitas perguntas a respeito de crianças saindo da minha vagina algum dia, e só de pensar nisso já fico apavorada. “Ah, Duny, mas tem cesárea.” Meu amor, eu não faço abdominal há anos pra ser partida ao meio, não. Meu problema com criança é tão sério que na infância eu não gostava de mim mesma. Já falei que minha irmã Alanis é casada com um cara riquíssimo, né? Em 2007 ela engravidou, e foi um grande choque pra todos nós. Principalmente pra Alanis, que botou o dedo na tomada sem querer. Minha família ficou muito feliz, mas eu tava apavorada por ela, já que crescemos juntas e eu nunca tinha visto ela com uma barriga tão grande. Nossa barriga cheia só ficava cheia depois de fazermos a festa num rodízio. Acontece que Alanis enganou todo o país, pois até pouco tempo atrás, quase dez anos depois, ela ainda tava grávida do mesmo bebê. O marido dela é tão ocupado que nem percebeu o tempo passar. Ainda conversei com ela porque poderia ser só uma grande prisão de ventre, e foi aí que ela me contou toda a verdade. Minha irmã felizmente desistiu dessa ideia louca e descobriu que não precisava segurar o marido com uma criança falsa, pois ele ainda tava muito apaixonado por ela, embora não a visse pelada fazia uma década. Se um dia eu casar, é muito capaz de eu fingir uma gravidez e depois comprar um bebê, como a Beyoncé fez. Espero que Jay-Z não derrube meu avião depois dessa revelação bombástica. Crianças gritam, choram, cagam e mijam, e eu sei muito bem

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porque eu fazia isso tudo e minha mãe era praticamente minha adestradora. Depois ainda tem que gastar dinheiro pagando creche e babá. Sinceramente? Quero, não. Pra mim já basta cuidar da minha afilhada Shaft de vez em quando, ou visitar minha afilhada Shenanigan. Apesar de parecer um ser insensível que não se importa com ninguém, eu realmente digo que sou assim mesmo. Mas, às vezes, meu amor pelas pessoas que eu conheço faz com que me preocupe com elas. Um dia a Julie saiu e demorou milênios pra voltar, e o celular só dava caixa postal. Até em delegacia eu fui. Acho que peguei essa paranoia emprestada com minha avó. Depois descobri que a Julie tava dormindo em casa esse tempo todo. Fiquei puta porque eu fiquei esperando ela trazer minha acetona e nada. Também acho que, na hipótese de eu virar mãe, eu vou deixar meus filhos irem morar sozinhos quando eles estiverem grandinhos. Além do meu amor por eles, vou precisar de gente pra lavar a louça, tirar o pó dos móveis, e eu não faço esse tipo de atividade. Sou espírita. Voltei a procurar empregos normais de humanos sem glamour, já que nos últimos meses só tive sucesso fazendo nada. Realmente, não é tão fácil como os famosos da internet dão a entender. Não desisti do meu plano, mas infelizmente preciso ganhar dinheiro. Pode ser até uma merrequinha! Só preciso comprar o iPhone novo que lançou. Como esperar alguém responder seu currículo demora, vou continuar trabalhando numas músicas que eu tô escrevendo. Ouço todas as cantoras pop da atualidade, mas tenho muita dificuldade em cantar as letras em inglês. Já invoquei quatro espíritos cantando alto e de fone. Será que eu sou fluente em alguma língua e não sei? Talvez alemão. Uma vez tentei falar em

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inglês com uma alemã, e ela me indicou pra um grupo de alcoólicos anônimos. Eu tô escrevendo minhas músicas em português mesmo, pois é muito mais fácil e eu já ouvi dizer que sou uma ótima rapper. Ontem encontrei esse rap que fiz na escola: Rap da Kelly Não sei aonde foi. Não me pergunte o CEP. Avisa para a Kelly que eu escrevi um rap. Aham, era só isso. O pior é que eu me lembro de cantar pros meus colegas de classe e todos amarem. Eu só não lembro quem é Kelly... As meninas da pensão me sugeriram enviar as demos dos meus raps pra alguma gravadora. Mas duvido que eu consiga alguma coisa porque entrar nesse ramo é muito difícil. Eu ainda tenho a vantagem de ser linda e loira, mas nunca se sabe o que esses executivos querem de verdade. Até no coral da igreja eu já cantei, mas acabei expulsa porque a mulher, que era minha ex-sogra, disse que eu parecia uma gralha com rinite. Fui alvo de piadas por causa da minha voz durante muitos anos. O lado bom é que todos os que me zoavam naquela época hoje têm astigmatismo, ganham menos de 1.500 reais por mês e esqueceram a beleza no útero de suas respectivas mães.

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O verão ainda tá um pouco longe, mas sempre faz muito calor em Sun Town, obviamente. E se tem uma coisa que odeio é andar no sol. Eu saio toda produzida pra ser confundida com uma modelo, mas sempre me cutucam pra saber quanto tá o quibe. Eu até poderia passar o dia inteiro falando de tudo o que eu odeio sobre andar na rua, mas é que acabei de ser reconhecida e a mulher não perguntou se eu vendia salgado. —Calma, aí! Você é a Tany? — perguntou a mulher. —É, Tany. Várias vezes passei por pessoas na rua que me cumprimentaram, perguntaram de mim ou da minha família, e eu sempre respondi sorridente. Mas era tudo fingimento porque eu nunca fazia ideia de quem era aquela pessoa com quem eu tava falando. Mas essa mulher... Ela me pareceu familiar. E se tá me chamando de Tany muito provavelmente me conhece da época em que eu fui a Chocotita Tânia. —Quem é você, mesmo? — TANY, como assiaaaam? Não tá me reconhecendo? Se ela soubesse quantas pessoas eu já vi na vida... —Não precisa nem me conhecer pessoalmente pra saber quem eu sou. —Fala logo quem é você, caralho. —Que linguagem pesada. Tá repreendido em nome de Che-Ssus. Eu sou a Nobodi Atall, a cantora. Se ela é nobody at all, como esperava que eu fosse reconhecer? Mesmo depois de ganhar vários prêmios e discos de ouro, ninguém conhece ela. Tanto que a rua tava movimentada e ninguém deu a mínima pra ela. Eu só fui a exceção porque faz muito tempo que eu não dou a mínima pra ninguém. A Nobodi perguntou por que eu tinha saído do programa da

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Chocotone e disse que eu era a favorita dela. Ainda falou que quis que eu aparecesse como dançarina num clipe que ela gravou, mas na época não me encontrou em lugar nenhum. Me reapresentei como Duny Eveley e expliquei que os produtores achavam que meu nome fosse Tânia. Mas ela continuou me chamando de Tany. Agora, vem cá, aproveitando que temos um pouco de intimidade e eu já te contei vários momentos da minha vida, quando você olha pra minha cara, você visualiza instinto materno ou vocação pra cuidar de criança?

Pois é, eu também não. Mas a Nobodi Atall logo me disse o quanto tava precisando de alguém pra tomar conta da filha dela de quatro anos, a pequena No One. Eu disse pra Nobodi que, da última vez que eu cuidei de criança, acordei de um cochilo e a criança tava me fazendo de refém com uma faca Tramontina. A Nobodi insistiu que a No One é quietinha e que geralmente é um amorzinho. Não é possível que ela conheça a filha tão bem assim, já que ela disse estar há quatro meses sem ver a criança, mesmo elas morando na mesma casa. Hmmm, pensando bem, se for pra ser assim, eu até posso considerar ter filhos um dia. Falei pra

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Nobodi que eu ia pensar na proposta e ia ligar pra ela depois. Ia porra nenhuma! É ruim, hein?! Não consigo nem deixar meu quarto arrumado, como é que eu vou cuidar de filho dos outros? Cheguei em casa me sentindo a bucetuda porque tinha falado com uma famosa, mas ninguém da pensão conhecia a Nobodi Atall. Aí eu cantei: “If you’re willin’ to do it, to do it, to get it, get it”, e todos logo reconheceram. Se ela tivesse me oferecido qualquer outro trabalho, eu teria aceitado, mas babá, não. Não nasci pra isso. Acho que até quem é babá não nasceu pra isso. Elas com certeza iriam preferir ser cantoras de pop. Por pura curiosidade, pois sou dessas, olhei o Instagram da Nobodi Atall. A criatura tem quatro fotos com a Sia SÓ ESSA SEMANA! Ela também tem uma foto com a Iggy Azalea, com a Rihanna e até com a dançarina Nicole Scherzinger. Quem diria que a Nobodi era alguém, no final das contas? ATÉ FOTO COM A ADRIANA E A RAPAZIADA ELA TEM! Achei que era melhor aceitar o emprego de babá. Não pensem que eu sou interesseira ou algo do tipo! Apenas sou um ser humano livre que procura ver pequenos gestos como grandes oportunidades. Liguei pra Nobodi e ela não demorou a atender. Ela ficou muito contente por eu ter aceitado ser babá da No One. Vou ganhar 3 MIL REAIS PRA CUIDAR DE CRIANÇA! Por que ninguém nunca me falou que meu futuro tava nas crianças? Ou pelo menos em crianças ricas, porque a única coisa que encontrei na minha afilhada Shaft foi uma perna de bebê cheia de reloginho. Antes de contar sobre meu primeiro dia como babá, tenho que dizer que eu queria muito morar na casa da Nobodi Atall. A porta da casa vai até o segundo andar. O hall de entrada tem duas escadas curvas e a mulher tem coragem de ter sofá branco mesmo com uma criança em casa.

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Fui apresentada à pequena No One e ela foi um doce de criancinha. Até tacar um baldinho de praia na minha nuca. Eu relevei porque... né? Crianças. Essas coisas acontecem. Quando levei uma bolada nas costas, percebi que a pequena equina tinha más intenções. Aquela filhote de nobody tava querendo ver qual era a minha. Peguei logo ela pelo braço e falei: —Ó, para com essa merda agora que eu não sou sua mãe, porra. Ela pareceu confusa. Achei que ela não tinha entendido meu recado, mas ela provavelmente tava tentando lembrar quem era a mãe dela. Na hora do almoço, a No One fez birra pra comer. Dizia que não gostava de cenoura, que preferia biscoito. Falei que ela só ia papar o caralho do biscoito depois que papasse a porra da cenoura com arroz. Corajosa, a menina jogou o prato de comida no chão e olhou pra mim de braços cruzados. AAAAAH, MAS COMIGO NÃO, QUERIDA. Levantei, apontei pra sujeira no chão e falei: —Pode catar. Ela continuou do mesmo jeito. Eu falei que, se ela não levantasse já pra catar, eu ia botar o funk “Deu onda” pra ela ouvir. Ela levantou rapidinho, catou tudinho e disse que nunca mais ia fazer aquilo. Acho que tô começando a me acostumar com minha nova coleguinha. Ser criança tem um lado bom, mas em geral deve ser muito chato. Eu tenho mais memórias minhas de castigo do que brincando com amiguinhos. Uma vez fiquei de castigo um mês porque acertei minha amiga Adriele com meu patins. Não adiantou explicar que tinha um marimbondo na cabeça dela e eu só tava tentando ajudar. Mas, me conhecendo bem, eu só queria acertar a Adriele mesmo.

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Quando perguntei pra No One se ela tinha amiguinhas, ela me olhou inexpressiva e apontou pra mim, dizendo: —Só você. Quase me segurei pra não ter um ataque de fofura. Mas a No One claramente tinha algum problema porque logo depois deu o maior tapão bem no meio da minha cara. Eu já desejei ser um bebê várias vezes pra poder distribuir tapas em quem estivesse me segurando. Deve ser uma sensação ótima. Mas a No One já tinha 4 anos e sabia muito bem que não podia fazer isso. Enquanto ela corria de mim, eu tirei meu Louboutin salto 14 e joguei na direção dela. Errei, mas ela se fodeu porque tropeçou no sapato e caiu de cara. Quando ouvi o choro, comecei a disfarçar e disse: —Isso, No One, agora joga pra tia pegar. Ela parou de chorar do nada e fez exatamente o que eu tinha pedido. Memória curta, né? Essas crianças... Assim que ela jogou o salto, falei: —Isso é bola por acaso? Não quero mais você brincando com meu sapato. É, fui bem bipolar, sim! Botei a No One pra fazer o dever de casa. Como às vezes sou fofoqueira, perguntei quem era o pai dela. Ela fez um biquinho, dando a entender que não sabia. Aí perguntei quem era a mãe dela, e ela apontou pra mim, como fez mais cedo. Mandei parar de gracinha porque eu não tava dando tanta confiança pra ela. Abusada, hein?! Mas fiquei preocupada. A No One nem ao menos sabia quem era a mãe dela, pois devia ter ficado a vida toda sendo cuidada por babás e empregadas. A garotinha também estudava em casa, ou seja, não tinha contato com nenhuma outra criança. Sei que

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não tinha nada a ver com isso, mas resolvi que ia levar a menina à pracinha. Ela precisava saber o que é cair de cara e ficar ralada. E é bom que, quanto mais a criança brinca, mais cedo a criança dorme. Botei No One na bolsa e partiu praça. Estamos vivendo na geração tablet e smartphone. Criança agora não sabe o que é pique-pega, não sabe o que é levar uma bolada jogando queimado ou o que é ser café com leite. Mas pode apostar que elas sabem quem são as insuportáveis Peppa Pig e Galinha Pintadinha. Soltei No One na praça e ela nem sabia como funcionava uma gangorra. Aí sentei no brinquedo com ela, e a menina aparentemente adorou. Mas logo eu já tava cansada de ficar naquele desce e sobe, já estava ali há muito tempo! Uns 2 minutos! Eu não vim aqui pra brincar com ela. Olhei pro lado e vi um grupo de crianças nos outros brinquedos. Eu tava torcendo pra No One se enturmar, mas as crianças tavam pouco se lixando pra pobrezinha. Fui lá e falei: —Vocês podem brincar com ela? Uma das garotinhas virou pra mim e gritou que não. Mandei aquela abusada falar baixo comigo e ofereci pagar uma quantia pra eles brincarem com a No One: 10 reais pra cada um. As crianças aceitaram e eu paguei todo mundo. Menos a garotinha que se negou. Ela ficou chateada, mas isso vai servir pra ela aprender que deveria ter mais consideração com os outros. Deixei No One lá brincando e fiquei sentada no banquinho mexendo no celular. Sabe quando você entra num emprego e começa a planejar tudo o que quer comprar? Então, com esse salário maravilhoso eu nem sabia por onde começar. Mas se tem uma coisa que preciso fazer é viajar pro exterior. Mas aí eu precisaria trabalhar mais quatro meses e já acho isso muito. Acho

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que o máximo que uma pessoa deveria trabalhar é por dois dias e acabou. Pelo menos vocês já sabem qual será uma das minhas propostas quando eu me lançar a presidente. Depois de responder todas as minhas mensagens e não curtir a foto de nenhum amigo, olhei no horizonte e vi no one brincando. Mas no one mesmo! Ninguém! A porra da garota tinha sumido e as outras crianças também. Dizem que o cu fecha quando a gente fica apavorada, então naquele momento eu era um eunuco de rego. Como deixei isso acontecer? Eu não fiquei nem duas horas no telefone. Não é possível que tenha sido tempo suficiente pra alguém raptar a menina sem eu ver. Comecei a gritar “No One” na praça e um cara veio na minha direção. Ele chegou perto de mim e perguntou: —É Alicia Keys, né? Odeio gente que não é útil em um momento de desespero. Eu já tava tremendo, suada e apavorada por dentro. Mas não deixei isso transparecer, por mais que a pizza debaixo do meu braço já tivesse no processo de delivery. Rodei a praça todinha e parei por um minuto pra convencer a mim mesma de que, sim, aquilo tava acontecendo.

Tanto o Google como o Yahoo! Respostas foram bastante inúteis. Liguei pra minha amiga Priscilão pra saber o que eu deveria fazer. Ela me aconselhou a procurar uma criança parecida pra levar pra casa. Se alguém perguntasse, era só dizer

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que não percebi que a menina era diferente por causa do meu glaucoma. Até considerei mesmo, porque vi uma garotinha muito parecida com a No One. Só que tava acompanhada dos pais... Essa não ia ter como! “Duny, você está nervosa! Respire, pare, reflita e pense. No One sumiu, mas No One vai aparecer, fica calma!” Fiquei calma e voltei a procurar. Comecei a falar com outras pessoas que estavam nos arredores da praça e ninguém tinha visto nenhuma criança que batesse com a descrição da No One. Desamparada e prestes a desistir, lembrei que nós somos nosso próprio universo e que tudo conspira a nosso favor. Falei: —Alguém me ajuda, pelo amor de Deus. E algo do além aconteceu: olhei pro banquinho em que eu tava sentada enquanto olhava o celular e a No One tava embaixo dele escondida. Se um dia eu voltar pra igreja, esse com certeza é um testemunho que eu vou dar. A animalzinha tava lá aquele tempo todo e quase me fez ir a óbito. Fui até lá e tirei ela de baixo do banquinho puxando pelo pé. Falei pra ela não fazer mais isso, e ela disse: —Ué, você não queria que eu aprendesse a brincar de pique-esconde? Eu disse pra ela que antes de brincar de qualquer pique as pessoas precisam saber que uma brincadeira tá acontecendo. Ela se desculpou e disse que ainda era nova naquele ramo. É, No One... Eu também sou nova nesse ramo e no meu primeiro dia quase bati as botas. Se pelo menos fossem Louis Vuitton. Pensando melhor, teria sido muito melhor que ela tivesse ficado em casa brincando com o tablet. Ia me poupar de um sofrimento desnecessário. Quando cheguei na casa da Nobodi, ela tava toda sorridente.

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Eu tava com a No One no colo e ela me perguntou: —Ué, eu não sabia que você tinha filho. Como assim? —Querida, essa aqui é sua filha. —Aaaah, filhaaa! Vem com a mamãe! A Nobodi pegou a No One no colo, rodopiou, depois mandou a garota vazar. Eu já tava doida pra ir embora e não aguentava mais ficar naquela casa maravilhosa. A Nobodi ficou uns 5 minutos falando o quanto eu fui uma ótima babá e que tava muito feliz de ter me contratado. Ainda bem que ela não sabia o que tinha acontecido. Assim que peguei minhas coisas pra ir embora, ouvi a Nobodi falando ao telefone de uma festa que ia ter na casa dela naquele dia. Como não sou boba nem nada, puxei uma empregada pra saber mais informações sobre a tal festa. A moça disse que a Nobodi sempre dá festas e que muitas pessoas ricas e de influência comparecem. FINALMENTE ESSE EMPREGO TROUXE UMA COISA BOA. Já imaginei as selfies que eu ia tirar com Rihanna, Pitbull e Jennifer Lopez. Como sou de casa, fui me despedir da Nobodi e aproveitei pra me convidar pra festa. —Nobodi... Tô indo embora! Tá na correria aí, né, linda? Vai sair? —Não, meu amor! Hoje vou dar uma festinha! —Festinha? —É, festinha. —Iiih, festinha em dia de semana. Eu tô convidada? —Eu te convidei? —Não! —Então, não! A Nobodi virou as costas e atendeu uma ligação. Confesso que

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sou cara de pau, mas nada a ver não ser convidada. Ela parecia ter tanta admiração por mim. E depois do susto que levei o mínimo que eu merecia era um convite. Chega, Duny! Era melhor ir pra casa e descansar. Mas eu podia esquecer a bolsa lá e só lembrar quando chegar em casa, porque aí eu podia voltar pra buscar quando a festa já tivesse começado. Parece um plano, né? E era exatamente o que eu ia fazer. Subi até o quarto da No One pra me “despedir” dela. Na verdade eu tava cagando pra ela e só precisava esquecer minha bolsa em algum lugar. Abracei a menina, larguei minha bolsa sutilmente no chão e saí. Várias pessoas estavam arrumando a festa na hora em que eu saí pela varanda. Hmmm, se eu fosse voltar, precisaria estar bem arrumada. Qualquer coisa eu podia falar que tava indo pra um evento e percebi que tinha esquecido a bolsa. Sei lá, era melhor ir logo pra casa e depois... opa, alguém me cutucou! Quando olhei pra trás, a No One estava atrás de mim com minha bolsa, dizendo: —Aqui, tia, você quase esqueceu sua bolsa aqui em casa. Primeiro, eu não sou tia dela. E PORRA! Por que que aquela menina foi notar que eu esqueci a bolsa lá? Abaixei e falei bem baixinho pra ela, num tom ameaçador: —Da próxima vez que eu esquecer qualquer coisa aqui, não é pra você avisar, escutou? Ela me olhou como se eu fosse maluca. Aí peguei a menina no colo pra deixá-la no quarto, junto com minha bolsa. Botei a garota deitadinha na cama e, pra disfarçar, comecei a cantar aquela música de ninar que diz que a Cuca vem pegar. Enfiei a bolsa embaixo da cama dela e antes de sair do quarto virei pra ela e disse:

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—Ó, se tu encostar na minha bolsa, eu nem vou esperar Cuca, não. Eu mesma venho te pegar, viu? Achei que fosse suficiente. Enquanto eu esperava o Uber, notei vários carros e pessoas importantes chegando. Eu precisava ir pra casa e me produzir. Sucesso, hoje você não me escapa! Cheguei na pensão às pressas. Demorei tanto pra me arrumar que fiquei com medo de chegar lá só no dia seguinte. O planeta até me agradeceu por carta por eu ter tomado um banho rápido e ter garantido água até 2033. Tenho quase certeza de que tinha ganhado uns quilos de tanto bombom diet que eu tinha comido nos últimos dias. O vestido novinho que eu tinha comprado não passou da coxa. Comecei um número de contorcionismo. Quem me olhasse ia achar que eu tava possuída, mas eu tava só tentando entrar na porra do vestido. Sabe quando você tá vestindo uma roupa e ouve um barulho de rasgo? Pois é, foi o que aconteceu. Mas consegui enfiar a roupa. Olhei cada centímetro do vestido e não vi nada rasgado. Se bobear, o barulho tinha saído da minha perereca. Calcei meu salto maravilhoso e, pronto, demorou pra abalar! Até que a demora não foi tão grande. Calculei só duas horas pra ficar pronta. Acho um tempo maravilhoso pros meus parâmetros. E olha que nem botei tanta maquiagem, pois me olhei no espelho e cheguei à conclusão de que não fazia tanta diferença, pois sou lin... AAAH, PERA AÍ! Era melhor retocar o rímel porque eu fiquei a cara de Angela Ro Ro. Pedi um Uber Black de novo porque dessa vez com certeza ia ter gente pra presenciar minha chegada triunfal. O nome do motorista era Otávio e ele tava ouvindo Green Day. Sei que já cometi muitos pecados, mas eu não precisava pagar por eles naquele momento. Bom, pelo menos não era Claudia Leitte. Pedi

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pra ele trocar a música e botar os sucessos da cantora Sade. Fomos eu e Otávio ouvindo Sade até a casa de Nobodi. Ele percebeu que eu era uma personagem de websérie e perguntou se eu era famosa ou algo assim. Comecei a jogar uma porção de caôs. Falei que eu era uma grande cantora e atriz, que tinha virado empresária de uma girlband coreana chamada Beyblade. O cara se mostrou impressionado, mas era tudo falsidade. Ele me olhou pelo retrovisor e perguntou: —Aaah, então a madame vai me dar uma gorjeta, né? Isso é pedir pra perder pontos na avaliação comigo. Madame é o cacete! Não dei essa liberdade pra ele. Quando cheguei no destino, vi que tinha ao menos uns cinco seguranças na porta da mansão. Tudo o que eu tinha era autoconfiança porque nem a calcinha eu tinha levado e a bolsa eu tava indo buscar. Segui em frente e os seguranças me olharam feio. Um deles perguntou: —Cobra ou carneiro? Que porra era aquela? Por acaso era um código secreto pra entrar na festinha? Ele nem me esperou e perguntou de novo, só que dessa vez num tom agressivo: —SENHORA, COBRA OU CARNEIRO? Olhei pra eles e pedi mais respeito, por favor, pois eu não tava lá nem pra cobra e nem pra carneiro, porque sou vegetariana. Eles me deixaram entrar. A primeira coisa que notei de estranho foi que não dava pra ouvir vozes de gente conversando. Achei muito bizarro. E que festa era aquela em que nem música tocava? Já pensou se é só uma social de amigos e com um número limitado de convidados? Iam achar que eu era Kendra Foster. Entrei na casa e percebi que a festa não era lá dentro. Mas a

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mansão tava cheia de seguranças. Todos eles olhavam reto e pro nada. Comecei a achar que eu ia ser assassinada naquela merda. Subi a escada e fui até o quarto da No One. Pra minha surpresa, a menina não tava lá. Olhei debaixo da cama, peguei a bolsa e fui descobrir onde tava rolando a tal festinha. Cheguei perto de um dos seguranças e perguntei: —Escuta aqui, onde que tá tendo o evento? O segurança me olhou e adivinhem só o que ele perguntou? —Senhora, cobra ou carneiro? Fiquei puta. Que porcaria é essa de cobra e carneiro, gente?! Pelo amor de Deus! Ele repetiu: —Senhora, por favor, cobra ou carneiro? Vamos lá! Já falei que morro de medo de joaninhas, insetos e animais em geral, portanto também morro de medo de animais de fazenda. E isso inclui carneiro. Eu disse pra ele: —Olha, eu gosto de cachorro. Ele pegou um radinho do bolso e disse: —33, 33, nós temos um problema. Sabe quando você se sente num filme de terror e é aquela cena em que a merda dá merda? Então, deu merda. Saí andando rápido falando que eu tava com vesícula e entrei no banheiro mais próximo. Quando entrei, vi que tinha velas por toda parte. Tava tudo vermelho. Foi aí que eu desconfiei: Nobodi Atall fez pacto. E, pra piorar mais ainda as coisas, tinha um carneiro no banheiro e cobras na pia. Juro pra você que quando comecei esse livro a ideia era escrever algo pra descontrair, dar uma risada. Mas acontece que eu fiz xixi na cadeira só de me lembrar disso. Saí voada pelo corredor. Quando cheguei na cozinha, olhei pela janela e vi o evento acontecendo no quintal. Como não

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enxergo de longe, peguei o celular e dei zoom pra saber que porra era aquela. Aproveitei pra filmar também, né?! Qualquer coisa eu mando pro Papel Pop. Gente, tava todo mundo lá: Kim Kardashian, Pitbull, Jennifer Lopez, Beyoncé, cantora Cícera e a Avril Lavigne falsa (a substituta). Todos eles e mais alguns faziam uma grande roda em volta de uma fogueira. Torci pra que a No One não fosse o sacrifício deles, porque eu mal sabia, mas tinha acabado de entrar de penetra numa festa Illuminati. Filmei tudo! Filmei porque não sou boba nem nada. É ruim de eu voltar lá, hein? E com certeza, depois daquela parada macabra, eu só precisava cair fora. Foi aí que aquele segurança voltou com uma bandeja cheia de salgadinho. Perguntei se ele era segurança mesmo e ele revelou ser o garçom. —Olha, pra sua sorte, eles já tinham recheio de cachorro lá — disse ele. Corri. Mas corri foi muito! Ah, corri! Quando eu tava chegando do lado de fora, os seguranças apontaram pra mim e começaram a vir na minha direção. Fugi na direção oposta e comecei a procurar a minha acetona na bolsa. Qualquer coisa, eu jogava no rosto deles. Entrei num mato pra me esconder, mas aí lembrei que tinha cobra solta e voltei a correr. Desisti! Não deu mais, já que eu tava cansada e de salto. Aceitei que aquele era meu fim. Quando me alcançaram, os seguranças disseram: —Eles serviram o cachorro pra senhora? Todas as partes do meu corpo começaram a suar. Até o períneo. Parte de mim tava aliviada porque eu não ia ser sacrificada, mas outra parte lembrou que um cachorro já tinha ido pro saco. Saí de lá deprimida. Não só por causa do cachorro,

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mas também porque nunca na vida eu ia voltar pra cuidar da filha daquela escrota. Se é que ela ainda tinha filha. Mandei o vídeo pra todo mundo! Papel Pop, TMZ, G1... Ainda disse que eu era sobrevivente daquele massacre animal. O Papel Pop me respondeu dizendo que o vídeo era fake e que eu tinha filmado um churrasco na minha laje. Quem ele pensa que é? Até parece que eu ia me prestar a um papel que não fosse pop. Saí de lá mais revoltada ainda, porque quase morri à toa e voltei pra pensão mais anônima do que a youtuber Marília Souza, já ouviu falar? Nem eu, acabei de inventar. Gente, será que todas as minhas oportunidades de ficar famosa vão ser sempre enfiadas no meu... Não tem criança lendo isso aqui, não, né? Ó, sou espírita, hein?! Ô-laiá, lalaô. No dia seguinte acordei traumatizada. Não por causa do evento macabro, mas porque tinha uma espinha interna no meu nariz, o que deve ser a coisa mais escrota que inventaram desde partidos políticos conservadores. Meu celular tinha dezenove chamadas perdidas da Nobodi. Se ela tava pensando que eu ia voltar depois do que aconteceu, ela tava muito enganada. Dinheiro nenhum ia me convencer. A não ser que fosse alguma quantia acima de 5 mil reais. Do contrário, nada feito. Ainda mais porque sou uma mulher séria e de igreja. Tá... não é pra tanto, mas achei muito bizarro. Bizarro demais pra quem só tá acostumada com a Alex aqui da pensão. Ó, a Nobodi já tava me ligando de novo. Tudo bem, atendi. —O que é? —Escuta aqui, tu não vai vir cuidar da minha filha hoje, não? —Não. —Quê? —Querida, eu não tenho nada contra seus pactos, mas quero

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ficar bem longe desse tipo de atividade. —Que pacto? —Eu tô sabendo da sua festinha Illuminati de ontem, tá? E tô muito feliz de saber que a No One ainda tá viva. —Como você sabe disso? —Eu vi com meus próprios olhos. Nobodi desligou na minha cara. Mais intrigante do que ter brincado com o perigo ao desligar na minha cara é que ela desapareceu do mapa. A mulher se mudou e ninguém sabe pra onde foi. Gente, é sério! A cantora Nobodi Atall nunca mais foi vista at all. Ela foi de nobody pra ninguém, literalmente. O mais engraçado é que não tenho como comprovar que meu vídeo do ritual era real, então talvez eu nunca saiba o que de fato aconteceu com ela. Faz quase um ano que o Instagram dela não é atualizado. Sabe-se lá o que aconteceu, mas graças a Deus ela tá bem longe de mim. Obrigada, senhor! Estou restaurada. A única parte ruim disso é que eu não tirei foto com nenhum dos famosos que estavam na festa. Isso quer dizer que nem como amiga de famoso eu consegui ter sucesso. Desistir não é uma opção pra mim. Em hipótese alguma. Mas eu já tô cansada de todas essas tentativas frustradas. E se meu destino for ser uma recepcionista que recepciona muito bem? Ou uma atendente que xinga o cliente e que vai ser sempre demitida? Ou quem sabe meu destino é vender minha arte na praia? O problema é que eu não tenho arte nenhuma pra vender e tô totalmente sem paciência pra pensar em criar alguma coisa. Duny, para! Tá ficando boba? Nem parece a Duny que eu criei. Tá, tudo bem... Vou ser um ídolo mundial um dia. Só preciso ser

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paciente. A partir de hoje vou parar de ser trouxa e não vou correr mais atrás do sucesso! Se o sucesso me quiser, ele que corra atrás de mim. Não tenho dúvidas de que ele vai se arrepender do tempo em que ficou de fogo no rabo. E, como sou muito difícil, vou fingir que não quero ele no início, mas depois vou ceder porque não tenho tempo pra perder.

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Só o que me faltava era morrer. Tenho uma relação muito estranha com a morte. Na primeira vez que alguém próximo de mim morreu eu tinha 5 anos. Foi minha prima Fabiane. Eu tava tão acostumada a ver mortes em filmes ou jogos de videogame, que caí na gargalhada quando soube que a Fabiane tinha morrido. Demorou um tempo pra eu entender como a morte funcionava. Pra eu entender que minha prima não ia mais voltar, que ela tinha morrido MESMO! Mas, conforme fui me tornando a grande mulher que já sou há algum tempo, percebi que a morte era algo que podia levar diversas pessoas, até meu avô, por exemplo. Levou, inclusive. Só que tem uma coisa que a morte tá proibida de fazer: me levar. Se eu morrer, vou processar o responsável. Tenho muita coisa pra realizar ainda nessa vida, e ia ser muito injusto se a morte viesse me levar. Ela deveria reconhecer todas as vezes que eu desvirei o chinelo pra dar mais um tempo de vida pra minha mãe. Já corri risco de morrer diversas vezes. Uma dessas ocasiões você já sabe qual foi: quase fui sacrificada e morta na festa da cantora maldita. Mas já fui assaltada também. Dois garotinhos tentaram roubar meu celular e me cortaram com uma navalha. Também já fui mordida na perna por um cachorro e já mordi uma cebola. Se morte tem gosto, pode ter certeza de que é de cebola. Aqui na pensão, há mais ou menos um ano tinha um casal: Adelaide e Ernesto. Eles tavam escavando um túnel no porão e eu acabei descobrindo. Minha vontade era descer o cacete neles, mas acabei sendo atingida e jogada num cativeiro. O túnel

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desabou com eles dentro e os corpos só foram descobertos quando nossa amiga Embucete foi construir a piscina da casa dela. Tá vendo o que acontece com quem mexe comigo? Nada mais merecido. Eles se foderam. Mas só de pensar que algo poderia ter acontecido comigo já fico nervosa. Por enquanto, desisti de tentar ficar famosa e tô tentando focar em coisas que vão trazer frutos, como pôr minhas séries em dia, arrumar confusão por causa de bobagem, manter meu corpo numa forma que me agrade e ficar deitada. De todas essas, a que eu mais faço é ficar deitada. A Honey falou que eu vou acabar entrando em depressão, mas eu vou é depredar a cara dela se vier me dar diagnóstico. Essa porra é médica por acaso? As pessoas que me conhecem devem achar que eu não quero fazer absolutamente nada da vida. Mas não é que eu não queira fazer nada. Só não quero fazer nada nesse momento, durante muito tempo. Já não vejo mais sinais nas coisas. Se eu queria ver? Queria ver! Mas nada que envolva entidades sobrenaturais, pelo amor de Jesus. Tô começando a achar que é meu fim. Eu tô chegando nos 27 anos, e foi com essa idade que a maioria dos artistas marcantes morreram. Amy Winehouse, Janis Joplin, Lindsay Lohan, Sandy & Junior... Tô começando a achar que eu deveria voltar com meu plano de dominação mundial. Só sei que quando eu for riquíssima e ficar cansada dessa gente vou forjar minha morte, assim como o Michael Jackson tá fazendo. Obs.: Eu tô disposta a provar que a cantora Cícera é ele disfarçado.

***

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Amo sexta-feira! Mesmo que eu não esteja trabalhando e sexta seja como qualquer outro dia (exceto domingo porque ninguém merece), dá uma grande felicidade saber que a semana acabou. Então, se tem um dia em que fico de bom humor, é na sexta, mas somente durante algumas horas. Numa sexta eu tava tão boazinha que até aceitei ir no mercado pra Honey. Ela sempre pede pra Alex comprar coisas pra cozinha, mas como ela não tava na pensão fui lá. Custa nada, né? E depois ainda vou poder cobrar um favor em troca. Já me arrependi porque o mercado não é longe daqui e não tem necessidade de pagar 7 reais de Uber para ir até a esquina, praticamente. Posso ter nascido pra diversas coisas, mas andar com certeza não foi uma delas. Embaixo de um sol fortíssimo, eu disse pra mim mesma: “Duny, o que você tem que comprar mesmo?” Esqueci. Fiquei parada durante uns cinco minutos pra superar o fato de que eu tava no meio do caminho e teria que voltar pra casa e depois andar tudo de novo. Até uma moça me cutucou pra saber quais eram os sabores do sacolé. Ó, se existir inferno e eu tiver que pagar pelos meus pecados, considerem isso um boleto. Voltei pra pensão e a Honey disse que eu tinha esquecido a lista de compras lá. Como se eu não soubesse, né, linda?! Peguei a lista e voltei pra rua. A pensão não tinha uma bicicleta pra contar história e eu vendi o carro que tinha comprado. Achou estranho eu ter carteira de motorista? Pois é, tirei a carteira de um motorista, mas depois devolvi. Só que o dinheiro ficou comigo. Andei pelas ruas do bairro e notei algumas coisas estranhas. Tudo começou com o vento levantando meu vestido. Achei assédio, mas segui em frente. De repente uma placa de “Pare” quase caiu na minha cabeça. QUASE MORRI! Uns segundos depois

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do susto passei a me perguntar se aquilo era uma mensagem do além. Aí lembrei que sou cética e que aquilo foi apenas coincidência. Me fodi. Era um sinal mesmo. Cheguei no mercado e a porta automática que abre assim que detecta ser humano não queria abrir pra mim. Achei uma falta de respeito. Esperei alguém passar pra porta abrir. Entrei no mercado. Achei muito curioso terem aparecido mais itens na lista porque na última vez que eu tinha visto ela só tinha umas seis coisinhas. De repente se tornaram oito! A Honey tava achando que eu era o quê?! Por um momento até esqueci que eu tinha acordado de bom humor. Eu tava de fone, ouvindo “No Ordinary Love”, da Sade. Tava me sentindo num clipe enquanto botava as coisas no carrinho. Aí ouvi um disparo. Achei que minha performance tinha sido um tiro, mas o tiro foi outra pessoa que deu no mercado. Vi várias pessoas abaixando e ficando quietinhas. Embora eu tenha bastante personalidade, aquela foi a primeira vez na vida que imitei alguém. Fiquei abaixada e aproveitei pra filmar tudo com o celular. “Ah, Duny, e se alguém estiver assaltando e pegar seu celular?” Eu tenho um celular que guardo na calcinha para o caso de emergência. Se pegarem meu celular, vou ficar puta, mas pelo menos tenho uma car... —PASSA O CELULAR. Só pra vocês visualizarem a cena: seis homens com pistolas e máscaras de palhaço. Eu sei que circo não paga bem, mas descontar isso nos fregueses do Ofertinha? O que o Ofertinha fez? Esperei um deles sair de perto e fui me arrastando pra perto dos caixas. Eles fecharam todas as saídas com uma pilha de carrinhos de mercado. Que assaltantes são esses que em vez de pegar o dinheiro e fugir continuam no estabelecimento fazendo todo

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mundo de refém? Puta que pariu... Ô, se pariu. Os assaltantes pediram pras meninas do caixa deitarem no chão. Gente, tudo bem assaltar, mas fazer a gente deitar naquele chão sujo? Pelo amor de Deus. Falando em chão sujo, são poucas as pessoas que conseguem falar “chão sujo” três vezes rápido. Enfim, déficit de atenção, acontece. Do meu lado tinha um casal: Sheila Li e seu marido, Perceves. Sheila Li tava desesperada e tava emitindo sons de ave. Perceves, bem nervoso e tremendo, pedia pra ela ter calma, que já, já aquilo tudo ia acabar. Perceves tava enganado. O palhaço de nariz azul (vou chamar ele de Nariz Azul) chegou perto da gente e perguntou: —Quem tá emitindo som de ave? Eu não pensei duas vezes. Apontei para Sheila Li e falei: —Ó, é ela, é ela! O marido dela já mandou ela parar mais de mil vezes e ela não para. Nariz Azul se agachou perto da Sheila Li e disse: —Fica calma, tá bom? Continua emitindo som de ave aí. —Aham — respondeu Sheila Li, balançando. Nada a ver isso, ele tinha que ameaçar ela, tá me irritando esse som de pintinho nessa porra. Quando Nariz Azul saiu de perto da gente, fui tentar tirar meu celular de emergência da calcinha. Assim que viu, Sheila Li disse: —Que isso? Esqueceu de passar Dermacyd? Mandei a gaivota calar a boca e peguei o celular. Falei pra Sheila Li e Perceves ficarem de olho pra ver se não tava vindo ninguém. Ela ficou mais nervosa ainda e começou a emitir som de ave nervosa. Só olhei pra cara do Perceves e falei: —Se ela não calar a boca, eu pego a arma deles e eu mesma atiro em vocês dois.

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Liguei pra polícia. —Emergênciaaaa, qual é a sua?! —Oi, aqui é a mulher que está sendo feita de refém no mercado Ofertinha. —Como assim?! —Meu nome é Duny, e, olha só, o mercado Ofertinha de Sun Town tá sendo assaltado por vários homens com máscara de palhaço. Eles estão com metralhadora, fuzil e óleo diesel. Um dos reféns é uma galinha. —Senhora, você está num lugar seguro? —Seguro? Você ouviu o que eu acabei de falar? O único seguro hoje aqui é do meu celular, que eles roubaram, inclusive. —Senhora, continua na linha, mas não precisa falar, ok? —Olha aqui, querida, se eu ficar com o telefone no ouvido e eles virem, vou levar um tiro no meio da cara. Qual é seu nome? —Nívea. —Nívea, se eu sobreviver, vou te caçar aí onde tu tá e vou arrebentar a tua cara. —Senhora, fique calma que já enviamos viaturas pro local. Mantenha-se segura, mas não desligue. Ok? —Tá, mas ó, vou botar o celular na calcinha. Qualquer coisa que você ouvir não saiu da minha boca. Botei o celular de volta na calcinha. Comecei a olhar em volta pra ver o que podia usar contra os assaltantes. A única coisa perto da gente eram rolos de papel-alumínio, papel-toalha e copos descartáveis. Palito de dente Gina era a única coisa mortal que tinha por perto. Mas fiquei com medo de ficar nervosa na hora de enfiar a caixa inteira no olho deles. Olhei pra trás e vi que estávamos próximos da seção de talheres. Eu esperava que fosse de inox e da Tramontina, porque aí já daria pra usar um garfo ou

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uma faca. Olhei pra Sheila Li e Perceves e contei meu plano: —Gente, que tal irmos ali pegar talheres pra gente se defender dos assaltantes? Tramontina corta bem à beça! —Melhor não — disse Perceves. —Tá bom — respondi. E ficamos onde estávamos. Como se já não bastasse, ouvi um dos assaltantes explicando pra alguém o que tava acontecendo. Como sou fofoqueira, fui engatinhando até onde dava pra ver a cena de perto sem chamar a atenção. ELES TAVAM TRANSMITINDO O ASSALTO AO VIVO PELO FACEBOOK! Fiquei revoltada porque eu tava quase sem maquiagem. Eles disseram que se não conseguissem dois milhões de espectadores até 13h iam atirar em todo mundo. Detalhe que eram 12h35. Entrei em pânico e perguntei: —Quantas pessoas estão assistindo? —Duzentas e quarenta — respondeu Nariz Verde, que tava transmitindo. FODEU! Abri até um energético porque os próximos minutos iam deixar uma marca na minha vida e ela seria mais evidente do que a que o bojo do sutiã deixa no meu peito. Se eles queriam que mais pessoas assistissem, por que tiraram a porra do celular da gente?! Pelo menos ia dar pra compartilhar no Face. Peguei meu celular da calcinha de novo e vi que a chamada com a menina da emergência tava acabando com a bateria, aquela imbecil. Abri o Facebook e publiquei o que tava acontecendo. Duny Eveley Há 2 min Gente, eu sou uma das pessoas que estão dentro do Ofertinha. Entrem na live deles pra vocês me

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verem. 11 4 compartilhamentos

Só passou um minuto, mas nesse meio-tempo já eram 70 mil pessoas assistindo ao assalto, que até ganhou uma hashtag oficial: #PrayForOfertinha. Uma das meninas do caixa falou que eles não tavam lá só pra assaltar, eles iam matar todo mundo. Gente, eu não podia morrer ali! Ainda pretendia lançar um álbum e minha linha de perfume. Olhei nos trending topics e #PrayForOfertinha já estava em terceiro no ranking mundial. Se eu fosse morrer naquele dia, pelo menos que fosse aparecendo. Tirei uma selfie com Sheila Li e Perceves e fotografei os homens fazendo a gente de refém. Postei tudo no Twitter. Nunca recebi tanto retweet na vida. Graças a Deus, o assalto veio em boa hora. Eu tava ouvindo alguém cochichando algo comigo e mandei Sheila Li parar de gracinha. Mas era a menina da emergência. Botei o celular no ouvido e perguntei que que ela queria. —Sra. Duny. Tá me ouvindo? —Tô! Nívea, pelo amor de Deus, Nívea! Faltam 15 minutos pra gente morrer, Nívea. —Eu estou ciente! Tem algum lugar seguro aonde você possa ir agora? Um banheiro? Um estoque? Gente, qual é o problema da Nívea? Eu consigo engatinhar de um canto pro outro, mas tá fora de cogitação ir até as profundezas do Ofertinha, considerando que tinha seis homens armados por perto. —Nívea? Nívea! Nívea, olha só. A viatura tá onde? —Senhora, tanto a frente como os fundos do Ofertinha estão cercados por uma equipe de operações táticas da polícia. Sabe me

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dizer se tem alguém ferido? —Não, Nívea! Ninguém tá ferido AINDA. Você tá esperando alguém ferir a gente, Nívea?! É isso, Nívea? —Não, senhora. —Então vambora, Nívea. Nívea já tava me irritando. Falei com Perceves de novo pra irmos pra parte de talheres. Se a gente não fizesse nada, eles iam acabar com nossa raça! E olha que Sheila Li é vira-lata. Comecei a assistir à live e já tinha 1,4 milhão de espectadores. É, talvez a gente não morresse. Perceves aceitou ir comigo lá e Sheila Li botou três ovos de tão nervosa que ficou. Fomos andando normalmente. Mas olha a merda: Nariz Lilás viu a gente. Ele apontou aquela pistola pra gente, acho que era uma bazuca, e perguntou: —O que vocês estão fazendo em pé, porra? Me mijei todinha. A sorte é que o celular era à prova d’água, senão a Nívea tinha morrido afogada. Perceves só gaguejava e não falava nada. Eu disse que minha bolsa estourou. Nariz Lilás falou: —A senhora tá grávida? Até forcei a barriga. —Tô! Ele pediu que eu falasse baixo e disse: —Mano… Cê é louca? O que você tá fazendo num assalto, cara? —Por acaso, vocês avisaram que iam assaltar o Ofertinha hoje? —Não… —Então, porra?! Como é que eu ia saber nesse caralho? Nariz Lilás ficou extremamente nervoso. Nunca imaginei que uma gravidez falsa pudesse salvar minha vida. Até eu começar a

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levar choque na xereca por causa do celular molhado. Sambei toda a discografia do Exaltasamba. Nariz Lilás perguntou se eu tava bem e eu falei que era contração. Fingi tão bem que até caí. O palhaço perguntou se Perceves era meu marido, e ele disse que sim. Filho da puta. Se tirassem a gente dali, a ave Sheila Li ia pro saco. Perceves se fodeu porque Nariz Lilás mandou ele deitar no chão, depois me pegou no colo e me levou pro banheiro. Durante o percurso me perguntou qual ia ser o nome do bebê. Assim que eu senti outro choque, a voz da Nívea começou a ficar alta na minha calcinha. Eu respondi —NÍVEA! SHH, CALA A BOCA, NÍVEA! Nariz Lilás disse que Nívea era um nome bonito. Assim que entramos no banheiro, ele falou pra eu abaixar a calça e me disse que nunca tinha feito um parto antes. Me recusei a mostrar minha dandarinha. Ele disse que não ia me fazer nenhum mal, mas que estava muito preocupado. —Querido, se você tá tão preocupado com a Nívea, então manda seus amigos pararem com essa merda de assalto! — exclamei. Ele ficou pensativo. Perguntei o nome dele e ele tirou a máscara. PUTA QUE PARIU! TÔ MORTA! ELE ME DEIXOU VER O ROSTO DELE. CARALHO! FODEU! ISSO SIGNIFICA QUE EU VOU MORRER. Ele se apresentou formalmente como Kris. Pediu desculpas e disse que o assalto não foi sua ideia. Ele inclusive foi contra. Foi contra, mas tava lá juntinho assaltando. Me poupe, né, Kris? Uma hora dessa? Eu disse que precisava ficar sozinha. Ele respondeu que não podia me deixar sozinha e eu falei que precisava falar com a Nívea. Coisa de grávida. Ele aceitou e saiu. —Nívea! Estou num lugar seguro e sozinha. — Ót... se... Pr... Por... Q... Q...

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—É o que, Nívea?! —Você consegue ouvir seu bebê falar?! — perguntou Kris do lado de fora. —CONSIGO! CONSIGO, SIM! Caralho... Nívea... Repete que eu não entendi nada, Nívea! Eu vou morrer, Nívea. A chamada falhou. Fiquei tão desesperada que fui olhar no Twitter. #PrayForOfertinha já tava em primeiro nos trending topics mundiais e tava tendo cobertura ao vivo em todas as TVs do mundo. E o melhor: minha cara tava em todos os lugares por causa das fotos que eu postei. Nunca descartei a possibilidade de que um assalto me levaria à fama, mas sempre achei que eu seria a assaltante. Olha aí o universo me surpreendendo novamente. Quando vi, a Sonia Abrão me mandou uma DM perguntando qual era meu número porque ela queria fazer a cobertura do assalto no programa dela. Cobrei 20 mil reais pra falar com ela durante dois minutos. Ela disse que era muito caro e me mandou tomar no cu. Já eram 4,8 milhões de pessoas assistindo à live e faltavam só cinco minutos pra 13h. Os assaltantes descobriram que eu tirei fotos no mercado e começaram a me procurar. Fiquei sabendo que Sheila Li foi a primeira a me caguetar. Ela disse: —Ela foi pra lá, ó, naquela direção. Ela ainda tava na linha com a emergência. Todos eles vieram armados pro banheiro. Deixei até uma mensagem de despedida bem emocionante no meu Facebook. Duny Eveley Há 1 min · em Supermercado Ofertinha Gente, ó, vou morrer! Fodeu!

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Eu me escondi debaixo da pia e o Kris falou que não ia deixar os caras entrarem no banheiro pra me matar, pois eu tava grávida. Eles começaram a discutir e eu só ouvi os tiros. Caralho, mataram Kris. Porra nenhuma! Os policiais de Sun Town entraram no Ofertinha e saíram ESTANTE - NACIONAIS - ACHERON


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fuzilando tudo o que viam pela frente. Mataram até a Dona Dolores. No total, mataram seis reféns negros e nenhum assaltante, já que as armas que os palhaços usavam eram de plástico, que eles tinham aprendido a fazer no “Art Attack”, da Disney. Saí do banheiro e corri em câmera lenta em direção à luz do dia. Fui a primeira vítima a sair do Ofertinha. Assim que vi vários repórteres, fingi que tava mancando. Fui até eles e expliquei tudo o que tinha acontecido. A entrevista que dei pra CNN viralizou. —Foi horrível! É um susto que vai ficar pra sempre na minha vida. Não há nada mais traumatizante do que fingir que tá grávida de um bebê chamado Nívea. Isso me salvou e eu não poderia estar mais feliz. A polícia anunciou que as armas do assalto eram de plástico e se fodeu na hora de tentar explicar a morte de seis pessoas com tiros reais. Se eu fiquei famosa? Que nada. No final do dia o foco da mídia foi o casal Sheila Li e Perceves, que estavam recém-casados, e também a violência desnecessária da polícia despreparada. O que não é grande novidade, né, mores?! Um policial inclusive me perguntou que horas eram e eu disse que era a hora de parar. Até a Nívea bombou mais que eu. Botei no canal cinco e ela tava lá na Sonia Abrão na matéria “Como atendente manteve

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contato com reféns e os salvou da morte”. Desgraçada! A única coisa que ela fez foi chamar uma viatura! Qualquer um pode fazer isso, gente! A diferença é que um Uber teria chegado bem mais rápido. Mas não fiquei de mãos vazias. Cobrei pra dar várias entrevistas exclusivas e até fiz um ensaio sensual pra uma revista de armas. O melhor de toda a história é que ganhei diversos seguidores e agora, quando posto uma foto de sorvete com filtro, ganho em média 5 mil curtidas. A partir daquele dia comecei a repensar minha vida. Eu jamais teria morrido vítima de armas de plástico, mas ainda assim a polícia podia ter me matado. Mas, graças a Deus, sou loira. De qualquer forma, não posso esperar pelo sucesso. Tenho que correr atrás dele porque nunca se sabe quando você vai correr risco de morte. E nada cai do céu. Da última vez que caiu, todos os dinossauros foram extintos assim como a carreira da Azealia Banks. Já faz muito tempo que tô contando com as pessoas, mas eu deveria tentar trilhar meu caminho por conta própria. (Nossa, reli essa frase e me senti pastora, amém!) Pode ser que o sucesso seja preguiçoso que nem eu, por isso nunca chega. Acho que esse é o momento de sair da minha zona de conforto pra mostrar pro sucesso que eu posso ir até ele sem que ele precise se levantar do sofá. A não ser que ele more em algum bairro tomado pelo tráfico, aí infelizmente vou ter que desistir mesmo. Afinal, não posso morrer. Na verdade, até posso, mas só quando eu tiver muito velha! Lá pelos meus 42, 43 anos. Mas pelo menos cheguei longe. Quem diria?! Um assalto fake com transmissão mundial e mais de 4 milhões de espectadores... Vou ter uma história pra contar pros meus filhos. Eu disse filhos?

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Liga não, tô escrevendo doidona de vinho.

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“Duny,

quando você vai arrumar um namoradinho?”, perguntou uma vez uma tia minha, que inclusive morreu engasgada com biscoito de maisena. Não sei quando vou arrumar um namoradinho. Não tô arrumando nem o cabelo, que nesse momento é uma cadela chamada Domenicca, quem dirá um namorado! Não, não estou à procura de ninguém. Não tenho culpa se a sociedade aprendeu que as pessoas precisam de alguém. Na verdade, até preciso de alguém, mas não pra satisfazer minha vida amorosa, pois já tenho muito amor por mim mesma e até falo que sou linda várias vezes. Alien, pra você ter noção de quão desprezível o ser humano é, existe até uma data chamada “Dia dos Namorados”, em que os casais se presenteiam e marcam jantar. Pelo amor de Deus, cadê o Dia dos Solteiros, pra gente se dar presente e encher o cu de comida? Tá vendo que sociedade esquisita? Por isso eu não existo no mundo real. As pessoas trabalham o mês inteiro pra depois comprar presente pra uma pessoa só porque ela te beija? Não faz mais do que a obrigação. Pariu, hein?! Pra porra... Não acredito que eu tenha uma alma gêmea andando por aí. Se um dia eu a encontrar, ela vai levar uma surra porque com certeza tá me imitando e se tem uma coisa que eu odeio é que me imitem. A última vez que me imitaram, a pessoa foi presa por desacato. Tá achando que a Duny é bagunça? Só nos dias de semana, porque eu organizo tudo quando fico com TOC. Acho que quem me conhece ficaria em choque caso eu entrasse em um

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relacionamento sério. É a mesma coisa que Britney Spears parar de fazer playback… Não cola! Fica até esquisito. Só namorei uma única vez na minha vida inteira. Lembra que cheguei a ficar noiva e depois fui abandonada no altar? Desde então aposentei meu status de relacionamento. Tô esperando o Mark Zuckerberg comprar. Quem sabe assim ele inclua histórias decentes? É claro que eu já tive uns contatinhos aqui, outros ali, mas nada que fluísse. Era mais fácil rolar química no meu cabelo do que com qualquer um dos meus pretendentes. Se eu guardo alguma mágoa? Jamais! Tô bem... Bem fodida, mas bem. Mesmo que fodida. Talvez bem, bem fodida. Mas que fique claro que não é por causa de ninguém a não ser eu mesma. Ultimamente ando ocupada escrevendo novas músicas pro meu futuro álbum, que vai sair um dia, se Deus quiser. Mas como eu ficava rindo na catequese Deus não vai querer! Já até sei. De todas as coisas que eu já tentei fazer, mantendo o foco, só consegui pouquíssimas: dormir, colar na prova de Stephanie e conseguir que um técnico visitasse a pensão pra consertar o sinal da internet. Mas com o álbum tô empenhada de verdade. Dedico até 20 minutos dos meus dias a ele. A Amina, a menina mais nova aqui da pensão, me pediu pra fazer um teste para descobrir as características do meu par perfeito. Sei que sou maravilhosa, mas vira e mexe faço esses testes escrotos. Parece até que não posso morrer sem saber qual personagem de série dos anos 90 eu sou. Fico imaginando o que se passa na cabeça de quem cria esses testes. Pode ter certeza de que é alguém solteiro. Não é possível! É muito tempo livre. Mas você deve estar se perguntando qual personagem eu era. Deu Keila da série Are You Kidney?. Eu sei lá quem é Keila! Fiz o teste

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do par perfeito e, segundo o resultado, eu precisava de alguém “Atencioso, Divertido e Carismático”. Ou seja, pegaram tudo o que acham que uma pessoa quer na outra. Só que se foderam porque eu acho que pessoas com essas características são insuportáveis. Amina começou a sugerir que eu baixasse o aplicativo Tem Alguém Te Querendo pra conhecer prováveis pretendentes românticos. Sou uma mulher muito ocupada que não tem tempo pra esse tipo de atividade. Mas já faz tanto tempo que eu tentei... Será que seria a hora de voltar? Não sei. Só sei que moro num bairro muito escroto e não ficaria surpresa se o primeiro cara que eu encontrasse também fosse escroto. Mas quem sabe um homem escroto seja minha cara-metade, já que todo mundo que eu conheço me acha superescrota?!

*** Minha irmã Alanis me mandou uma mensagem me perguntando se eu não gostaria de passar uns dias num cruzeiro com ela. Mas é óbvio que eu adoraria! Talvez não com ela. Mas acho que, depois de meses vivendo uma vida que não anda nem desfila, seria uma ótima distração pra futura proprietária da indústria do entretenimento. Assim que chegamos no cruzeiro, descobri que tudo o que tinha pra fazer lá eu podia fazer em casa. Tomar banho de piscina, fingir empolgação, me bronzear e ainda descer de vez em quando pra visitar a civilização. Quando aceitei o convite achei que minha irmã finalmente tinha descoberto o que é ter consideração com os familiares, mas a verdade era que Alanis tinha comprado duas entradas pro

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navio pra tentar se reconciliar com o marido dela, mas ele pediu pra ela procurar no Google o significado de “dar um tempo”. Minha irmã disse que deu uma hora pra ele, mas ele deve ter achado pouco e agora não atende mais as ligações dela. Adivinha quem é uma mera substituta do marido das outras? Aceitei porque achei que ia ser um fim de semana de irmãs que se amam, mas eu deveria ter passado um antivírus pra garantir. Aceitar o convite incluía: ouvir minha irmã chorando por causa do marido e dizendo que não precisa dele pra nada. Também tava incluído isso se repetir durante o dia todo. Ou seja, pan-pan-pan, uma ameaça foi detectada. Cheguei a considerar pular do navio, mas deixar minha irmã trancada lá foi a melhor opção que eu tive, já que não tinha faca ou objetos cortantes à minha disposição. O tédio tomou conta de mim porque eu não tava me comportando, então decidi abrir o Tem Alguém Te Querendo pra saber se tinha realmente alguém me querendo. Em cinco minutos com o app aberto eu já devia ter dado X na metade da população. O perfil de um cara dizia: “Eu gosto de mulheres que se dão valor.” O que isso significa? Que valor é esse? É tipo “Liquidação: valor altíssimo hoje”? X nele. Seu valor não é outra pessoa que decide. Não tenho um tipo de homem ideal no quesito físico. Eu gostaria de conhecer um que fosse divertido sem exageros e que me entendesse. Por isso, já tirei gringos de cogitação. Não quero mandar namorado pro caralho e ter que ouvir um “What?”. Conheço algumas amigas dos outros, pois não tenho, que dizem: “Ah, ele me trata tão bem.” Que bom, né? Mas você não acha estranho que as pessoas achem isso uma coisa impressionante? Acho que independentemente de ter relação com a pessoa ou

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não, ela tem que te tratar bem. Vai entender… De qualquer forma eu só tava naquele aplicativo pra me distrair um pouco.

Kal Sada, 28 15 centímetros de distância. Sobre Kal: Enfiaram minha alma gêmea no cu. Não encontro em lugar nenhum.

Achei que tava apaixonada. Nunca vi tanta personalidade em 11 palavras. Quinze centímetros de distância? Meu Deus, aquele homem só podia estar me encoxando. Olhei pra trás e lá estava Kal Sada. Ele me olhou, sorriu, veio até mim e disse: —Gostaria de pedir um pastel de frango com catupiry. Mandei ele se foder porque eu não sou garçonete. Mostrei o perfil dele no Tem Alguém Te Querendo e disse: —É um prazer, Kal Sada. Ele perguntou meu nome e eu disse que era Acosta Mento. Rimos muito e ele perguntou se eu não queria tomar um drinque. Pra ser sincera, não queria beber nada, pois sou evangélica. Mas já que não dá pra ir pela rua vou ficar pela Kal Sada. Sim. Nesse capítulo teremos muitos trocadilhos... Não fazia nem uma hora desde que eu tinha conhecido o Kal e já estamos nos divertindo bastante. Principalmente porque ele

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disse que ia pagar a conta. Se eu adorei? Não vou mentir. Já quero apresentar ele pra minha família. Uma coisa sobre mim: não sou ciumenta. Às vezes só fico com vontade de dar uma matadinha de leve, mas não é nada muito sério. O problema é que tinha um trio de garotas que não parava de olhar pro Kal. Elas eram bem mais bonitas do que eu, e não vou mentir que me senti um pouco ameaçada. Não demorou três minutos pra elas pedirem pra tirar uma foto com ele. Espera... Quem era ele de verdade? Pra que elas iriam querer foto se claramente não tavam dando em cima dele? Procurei Kal Sada no Google. Duny do céu... Você apenas tava saindo com o príncipe de Monte Colinas. Eu não sabia onde ficava esse lugar, mas não tive dúvidas de que ia ser minha próxima viagem internacional. —Então você é um príncipe... —Ah, você sabe... É, sou. —Eu olhei no Google agora. O que um príncipe tá fazendo num aplicativo de relacionamentos? Achei que vocês fossem mais elegantes. —Bom, quando eu baixei, não tinha nenhuma restrição contra príncipes. Então, cá estou. —E o que você tá procurando exatamente? A próxima princesa? Porque, se for, você acabou de encontrar. —O que te faz querer ser uma princesa? —Querer ser? Querido, eu sempre fui uma princesa. Praticamente nasci pra isso. Pode perguntar pra todo mundo. Dona Ana, Gláucia, Ana Rita... —Sério? —Eu tô com cara de que tô brincando? —Bom, então suponho que eu deva deletar esse app. Parece que encontrei a próxima princesa de Monte Colinas.

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Ouviu isso? Não, não foi queef. Foram as trombetas da fortuna avisando que Duny Eveley acaba de se tornar a nova mulher mais bem-sucedida do mundo. E olha que nem nos beijamos no primeiro encontro! Eu tava tão animada que nem tive tempo pra isso. No início achei que Kal Sada tava brincando, mas era tudo verdade. Claro que tinha a possibilidade de eu acordar e aquilo tudo ser um sonho, mas o espírito do meu avô baixou e disse que era tudo real. Eu, inclusive, ia rezar naquela noite porque eu não tava preparada pra ver o espírito de ninguém. Acordei Alanis toda empolgada dizendo que a partir daquele momento eu era uma princesa assumida. Alanis cagou total pra notícia. Cagou no banheiro também, porque, com esse cheiro, impossível alguém não ter aberto os portões do rabo. Peguei logo minha bolsa pra mudar de cabine, porque aquela lá era muito básica e escrota. No dia seguinte, encontrei com o Kal Sada e ele disse que passaria um tempo na casa dele de Sun Town pra que nós pudéssemos nos conhecer mais. As meninas da pensão acharam até que eu tinha sido sequestrada porque eu não voltava pra pensão de jeito nenhum. Mas minha empolgação era tão grande que eu até esqueci de avisar. Duny, agora vem cá, você tá mais empolgada com o boy novo ou com o fato de que ele é príncipe e você vai ser princesa? É óbvio que eu tô empolgada com a ideia de ser princesa. A essa altura do campeonato, todo mundo já sabe que eu sou interesseira e ambiciosa. Calma, isso não quer dizer que eu seja uma pessoa ruim. Sou só uma mera pobre, mas rica de espírito. Ao chegar na mansão do Kal, comecei a ter uma crise existencial. Me vi no espelho do retrovisor e percebi quão bonita eu sou. Será que existo mesmo? E, se existo, será que estou

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fazendo a escolha certa em ser atirada assim? Bom, parte de mim não vê nada de errado nisso. Essa mesma parte foi responsável pelas piores escolhas da minha vida. Só tô dando uma chance pra ela porque parece que dessa vez vai dar tudo certo. Ao entrar, o Kal me esperava sentado, de frente pra uma lareira acesa e com um tigre branco do lado dele. Tudo era verdade, exceto pelo tigre, que inventei agora. Sabe quando sua roupa não faz jus ao lugar? Era meu vestido básico de crochê. Pelo menos não era uma calça Korova. Percebi que ele tava na presença de outros cinco homens e todos eles vestiam roupas sérias. Eles claramente queriam ser respeitados. Perguntei se eu não tava atrapalhando nada, só por educação, porque eu sabia que não tava. Kal mandou eu sentar e me apresentou aos advogados dele. Ai, meu Jesus... Não posso ser processada. Eu nem sabia o que ia ser dito ali, mas já queria ir embora. Kal falou pra eu ficar calma e disse que, como eu viraria princesa, havia algumas coisas que precisavam ser resolvidas antes. Devia ser aquele negócio de acordo pré-nupcial. Eu já ia tentar garantir três casas e um tigre branco. Só ando de short e saia curta, decote, salto Louboutin, então eu ia tentar assinar uma cláusula que garantisse uma distância máxima entre mim e vestidos de princesa da Disney. Será que um dia iam fazer um filme sobre mim? Desculpa, eu tava nervosa e mil coisas passavam pela minha cabeça. Achei até que tava com lêndea. Uma das primeiras cláusulas: sigilo total. Não posso falar com a imprensa sobre nossa vida pessoal sem que haja uma autorização prévia da equipe real. Ouviu, né, Sonia Abrão? Uma entrevista minha tava fora de negociação. A segunda cláusula era que eu tinha direito a uma pequena porcentagem dos ganhos

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mensais da família Sada. Achei ótimo! Só esperava que eles não ganhassem só 10 mil por mês, porque se fosse pra ganhar só 300 reais, eu continuaria lá na pensão. Tinha várias outras cláusulas que eu fingi ter lido mas algo me dizia pra não assinar nada. Esse algo também é conhecido como meu lado inseguro. Dei a ele o nome de Marcinha. Marcinha disse pra eu esperar e não assinar nada. Era pra eu pensar um pouco e só depois agir. Falei que precisava ir no banheiro e tentei levar os papéis pra mandar pra uma amiga advogada. Só que eles pediram pra eu deixar os papéis lá. Ainda tentei retrucar dizendo: —Mas lá tem papel higiênico? Pra minha infelicidade eles disseram que sim. Fiquei com medo de arruinar minha vida por causa do meu olho grande. Fui ao banheiro, que parecia uma recepção com vaso, tirei selfies, parei, pensei, retoquei o rímel e saí. Eu disse que não queria assinar nada no momento. Eles se olharam e eu disse que precisava conhecer melhor o príncipe antes de tornar as coisas oficiais. O Kal Sada suou frio, assim como todos os presentes. Menos eu! Eu tava plena. Só um pouco de umidade entre as pernas. Mas o Kal concordou comigo e todos foram embora. Inclusive ele. Fiquei sozinha. Será que alguém ia ver se eu botasse umas coisas na bolsa? Quando você precisa tomar uma decisão importante, os amigos são as melhores pessoas pra opinar sobre o que você deveria fazer. Uma pena eu só ter amiga ridícula. A Honey e a Alex reprovaram total. Elas disseram que eu tava melhor lá na pensão e que eu não precisava virar princesa e me casar com um cara que eu tinha acabado de conhecer. Já a Priscilão disse que eu tava certa e tinha que ir mesmo. Afinal, não é todo o dia que se tem a oportunidade. AAAAAAAHHHH, o que fazer? Entendo os dois

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pontos de vista, mas é difícil decidir qual é o melhor pra mim. Botar decisões nas minhas mãos é a mesma coisa que fazer um humano escolher entre dinheiro ou comida de graça. Marquei mais um encontro com Kal. Tava disposta a conhecer melhor esse príncipe e ver onde eu tava prestes a me meter. Dessa vez botei um vestido preto maravilhoso e um batom vermelho. Andei parte da calçada e fiquei feliz por ninguém me perguntar quanto tava o enroladinho de salsicha. Agora, sim, eu tava vestida como uma versão stripper da Kate Middleton. O Kal Sada me recebeu na calçada (óbvio) e me deu um beijo no pescoço. Já achei uma falta de respeito! A gente nem tinha se beijado ainda. Entramos na mansão que futuramente seria minha e começamos a conversar sobre a vida. Odeio conversar sobre minha vida porque nada de interessante acontece nela. Mentira, até tem algumas coisas, mas a maioria é altamente incontável. O príncipe Kal Sada me apresentou ao amigo dele, Pavimento. Brincadeira, não é o nome dele, mas essa piada não podia ficar na minha bolsa. O nome do amigo era Ariel, igual à sereia. Ficamos nós três jogando conversa fora, felizmente todas recicláveis. Odeio estereótipos e todas as suas vertentes, mas Kal Sada e Pavimento se encostavam demais. Eu sei que certas amizades têm particularidades, mas ficar passando a mão na cabeça do outro, trocando olhares e sorrisinhos, botando a mão na perna, pegando na bunda um do outro, no pinto... Que amizade estranha. Como já falei, eu realmente não sou ciumenta, mas aquilo tava esquisito.

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Sempre que Priscilão vem falar comigo, ela quer pedir alguma coisa, mas, mesmo se eu estiver brigada com uma pessoa, se ela me enviar uma imagem, vou correndo olhar o que é. E tava lá. Pra minha surpresa, eu saí no falecido site Ego: “Príncipe Kal Sada é visto com mulher misteriosa na calçada.” Esqueci de falar do feat. do beijinho no pescoço que ele me deu e QUE TAMBÉM SAIU NA FOTO. Fiquei naquela: “Mostro ou não mostro?” Mostrei. —Olha só, parece que a mídia já desconfia do príncipe e da futura princesa. O Kal Sada e o Pavimento morreram de rir. —Eu já tinha visto — disse Kal. Como assim? Ariel falou que tinha tirado a foto e que nós precisávamos conversar. Tudo começou a girar na minha cabeça. Por que o melhor amigo do Kal ia tirar uma foto nossa na frente da casa? Por que o Kal já tinha visto a foto? E por que precisávamos conversar? Será que eu tinha acabado de descobrir que são os amigos das celebridades que tiram fotos quando elas saem de férias? Mas claro! É impossível alguém querer fotografar a Mariah Carey hoje em dia.

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Foi com uma mão suspeita na perna do Ariel que o Kal me contou que tinha um caso com ele. AHAM, nem desconfiei. Joguei a água potável que eu tava bebendo na cara dele. Não, não sou homofóbica. Joguei porque ele tava me fazendo de palhaça aquele tempo todo. Procurei as câmeras pra ver se eu não tava participando de um teste de fidelidade sem saber. Mas não. A situação era mais complicada do que parecia. O Kal contou que era bissexual, mas que no momento estava namorando o amor da sua vida por baixo dos panos. (E muito provavelmente por baixo do edredom também.) Fazia muito tempo que ele e Ariel se conheciam. Quer dizer, desde o ano passado. A corte de Monte Colinas não permitia casamento homoafetivo, por isso Kal precisava de uma princesa falsa para que o romance continuasse acontecendo sem que ninguém desconfiasse de nada. Quando o rei Kal Sadão, seu pai, morresse, ele poderia refazer a regra e assim ficar com Ariel legalmente pra que eles vivessem felizes para sempre. Por um lado, seria maravilhoso ter um marido que é rico e que vai fazer todas as minhas vontades sem eu nem precisar encostar nele. Mas, ei, não cheguei aonde cheguei pra virar fachada de calçada. O Kal e o Ariel são a coisa mais fofa do mundo juntos, e olha que sempre achei que esse posto fosse meu. Fiquei numa dúvida cruel. Não podia abrir mão da minha felicidade pra dar felicidade pros outros. Mesmo que isso me desse um valor mensal de 20 mil colininhas, que é tipo um euro da vida. Se eu não aceitar, Kal provavelmente vai procurar outra mulher que o faça. E olha que tem muitas que aceitariam. Priscilão é uma delas. No fundo, no fundo, bem no fundo, diretamente aqui do poço, ainda quero ser muito famosa. Mas queria construir uma carreira autêntica e ter todos os méritos das minhas conquistas, seja lá

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quais forem. Eu teria que abrir mão de ser pop star. Teria que abrir mão da minha vida amorosa, mesmo que esteja cheia de teias e tarântulas. E abrir mão da coisa que é mais importante pra mim: meus decotes e roupas curtas. Tem minhas amigas também, além do meu quarto na pensão, mas elas ainda poderiam morar comigo se eu mexesse um pauzinho... espero que não o do príncipe. Ultimamente só abro a mão pra pegar dinheiro. Parece que vou demorar um tempo pra decidir meu rumo. Decidi meu rumo. E pra descobrir qual será ele, ligue pra esse mesmo programa, nesse mesmo horário, nesse mesmo canal, só que amanhã. Já chega por hoje, né? Não? Então pronto! Decidi que vou aceitar ser princesa. Não me julga, tá? Minha mente já tá fazendo isso o suficiente, mas serão só cinco anos da minha vida. Quase nada! Se for parar pra pensar, eu tava parada no mesmo lugar fazia quase uma década. Então não ia ser nada mortífero. Eu ainda teria 32 anos quando o casamento acabasse. Não viu a Susan Boyle? Aos 90 anos ela participou de um reality show musical e conquistou o mundo. Hoje tá riquíssima em Paris. E eu sou muito mais talentosa que ela. Portanto, não importa minha idade, vou chegar aonde quero, mais cedo ou mais tarde. Mas espero que cedo, porque cansei de ser empregada enquanto sonho em ter uma. Não foi muito difícil me despedir das meninas. Eu disse: “Tchau, gente”, e elas disseram: “Tchau.” Talvez me quisessem bem longe daqui muito antes. Minha promoção de vendedora de biscuit pra princesa de Monte Colinas caiu superbem. O motorista que veio me buscar não era de Uber. Era um motorista da corte! Sr. Frankfute. Parece nome de neonazista. Uma benção é o motorista real não trocar uma palavra com você. Nem mesmo se você puxar assunto. Fui simpática dando

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tchauzinho quando vi o carro, e ele simplesmente me olhou e seguiu em frente. Me deixou lá. Quando finalmente voltou, ele se desculpou dizendo que não tinha me visto. AAAAH, DUVIDO. Um mulherão desses, como não me viu? Achei esfarrapada essa desculpa. Só vou conhecer o castelo real no exterior quando todos os papéis estiverem assinados. Por enquanto eu ia conhecer a família do Kal Sada: o rei Kal Sadão, viúvo, e a rainha, uma velha que é mãe do rei. Ela se chama Asphalta e não é piada minha. Tô pensando aqui... Será que vou ter que falar em vós com esse povo? Será que eles vão me ver e achar que eu sou burra? Porque sou uma pessoa normal, né? Ó, não ri. Eu digo “normal” no quesito suburbana. O irmão do Kal Sada, Meil Feeyo, ia estar lá. Ele também era príncipe, mas já era casado. Se o Kal era bonito, o Meil Feeyo devia ser o irmão feio. Eu esperava que não. Ia precisar de alguém pra me envolver romanticamente pelos próximos cinco anos. O Ariel, mais conhecido como Pavimento, foi quem escolheu meu look. Um vestido vermelho longo e sem nenhuma abertura ou decote. Puta que pariu! Fiquei parecendo uma bonequinha vodu. A roupa é tão apertada que quando eu andava parecia que tava cagada. Eu não conseguia dar um passo direito. Dava pra sentir uma coxa roçando na outra. A sorte é que eu não bebo água direito, porque eu não sabia como ia fazer xixi. A última vez que tinha ido numa festa com milhares de seguranças, saí de lá fugida e cheia de medo. Eu esperava que isso não se repetisse. Vi um homem velho, devia ser o rei. Fui me apresentar. —Oi, mor, tudo bem, fofo? Sou a Duny! A princesa. Ele me olhou com um sorriso. Já gostou de mim.

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—O senhor tá rindo, né? Palhaço! Olha, eu e seu filho nascemos um pro outro. Mesmo que em anos diferentes, já que ele é um ano mais velho. —Querida, é uma honra ser confundido com o rei, mas eu sou só o mordomo. Minha cara foi na calçada. É óbvio! Nessa circunstância, pra onde mais ela iria? —Sai da frente, então, que eu sou sua chefe. Ao entrar na mansão de Kal, vi várias pessoas idosas. Até voltei pra perguntar pro mordomo se eu tava num asilo. Fui apresentada a toda a família. O rei Kal Sadão é um sugar daddy maravilhoso. Eu pegaria. Por que não foi ele o cara que eu encontrei no aplicativo?, porque nesse calçadão eu andaria sem reclamar. Mas calma, Duny. Nos próximos anos ainda daria pra rolar algum caso polêmico. O Meil Feeyo era feio, como eu esperava. O filhinho dele era horroroso. Mas fiquei curiosa pra descobrir o nome da criança. Tenho duas apostas: ou é Poste ou é Semá Foro. Que os pais sejam castigados severamente por isso. Durante o jantar, fui perguntada sobre o que fazia da vida e quais eram meus conhecimentos acadêmicos. Não há dúvidas de que quando virar princesa vou ter que participar de eventos beneficentes e começar a cantar do nada a cada 15 minutos. Em que minha formação em marketing seria útil nessa vida de realeza? A única coisa que eu podia fazer era ajudar a promover meu romance falso com o Kal Sada na mídia. Eu não ia poder dar entrevistas, mas já tinha em mente algumas coisas como: férias de casal no Caribe, flagra de casal póscompras caríssimas na Victoria’s Secret, Kal Sada presenteia princesa Duny com iate caríssimo... Aaaai, como é bom sonhar. —E então? No que você trabalha atualmente?

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—Na minha autoestima, vossa majestade-vos. Todos na mesa me olharam surpresos. Ué, vou mentir? Pra família de mozão? Jamais! —E tá adiantando? —Bitch, please! Olha pra mim... O Kal Sadão chegou a engasgar. A rainha Asphalta tava notavelmente apavorada. Ela devia estar pensando com que tipo de mulher o neto dela se envolveu. Não tenho culpa se ela tava acostumada a viver como um monumento da Antiguidade. Meu celular vibrou.

Pra evitar morte alheia por causas naturais, decidi calar a boca um segundinho. Gente, imagina ter que passar cinco anos medindo as palavras? Eu tenho dificuldade em medir qualquer coisa, quem dirá palavras. Não dá. Sabe aquele momento do filme que tem uma música com piano tocando e a protagonista tá olhando tudo em sua volta, nenhum som ambiente, só o piano? Olhei pra cara de todos aqueles idosos e nada mais fez sentido. Nem as marcas de expressão da Asphalta. Eu não queria estar ali. Meu lugar não era ali. Sei que sempre quis ser princesa, mas o universo entendeu errado. Eu queria ser princesa do pop, porra. Levantei da mesa,

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pedi um minutinho e dei a entender que ia ao banheiro. Porra nenhuma! Corri. Mas corri pra não voltar nunca mais. Até rasguei o vestido pra ir mais rápido. Quando eu tava saindo pelo portão principal, Ariel surgiu na minha frente. Ele viu o vestido rasgado e ficou horrorizado. Essa foi uma das únicas vezes na minha vida que eu pedi desculpa. Pavimento sabia que eu não iria assinar o acordo. Deu pra ver a cara de triste dele, mas acho que, como alguém que também queria ser feliz, ele ia me entender.

Àquela altura eu já tava na pensão. Alex e Honey me disseram que já sabiam que eu ia voltar. Essas meninas são minha família e sempre vão estar aqui, não importa pra onde eu vá, ou por quanto tempo eu fique fora. Elas bem que me avisaram que casar com um príncipe não era a solução pra eu ficar mais próxima do meu sonho. Regra nº 1 pra felicidade: ela precisa ser de verdade. Sinceramente? Posso ter tentado milhares de vezes, mas, agora, estou muito mais tranquila. Seja lá o que fosse acontecer, eu tava disposta a enfrentar com garra, seios e barulho de queef. Eu podia estar sem dinheiro, fodida e desmotivada, mas logo viria um novo dia e eu estaria pronta, graças a Deus, Jesus e à Sade.

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Esse eu não quero escrever. Tô cansada.

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Olá, já se passou um ano desde a última vez que escrevi aqui. Quando eu era pequena nunca pensei que fosse chegar tão longe. Andei o quê? Uns nove passos? Não sei exatamente, mas já tava exausta. Não via a hora de parar. Pra mim, foi impressionante chegar à conclusão de que trilhar aquele caminho era como pegar uma Kombi lerda para lugar nenhum. Nunca fiz tanto nada disfarçado de alguma coisa, mas tudo bem. A vida sempre segue. Só não me segue no Twitter! E, vida, se você tiver vendo isso e olhar meu Twitter, desculpe por todas as vezes que eu falei mal de você lá. É porque você tem agido como uma vagabunda. Mas, sim, sempre vou preferir você à morte. Contei que arranjei um emprego? Fui contratada pra trabalhar como assistente administrativa de uma escrota chamada Greer Richards. Ela administrava uma empresa de seguros. Descobri que a Kim Kardashian tinha um seguro pra cada nádega. Eu inclusive sabia o endereço e o número de telefone dela. Talvez conseguisse um dinheirinho a mais no final do mês vendendo essas informações na internet. Sempre acabei trabalhando em lugares em que as chefes são insuportáveis. Por que eu sempre ficava com sono no trabalho? Será que é porque eu ficava vendo as redes sociais escondida? Eu passava a maior parte do dia nervosa, tentando minimizar tudo quando alguém passava. Principalmente quando era a Greer. Eu só tava lá pelo dinheiro. Aquele emprego não me acrescentava nada, e a única coisa boa que ele me trouxe foi a evolução do realismo na minha atuação. Lá eu fazia uma personagem que

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tava muito feliz com o trabalho que tinha e que amava não só a chefe, mas todos os colegas. Pessoal do Emmy, se vocês tiverem lendo isso, já posso mandar meu material. Sempre que tinha um intervalo eu trabalhava nas minhas músicas. Tava tentando dedicar mais do meu tempo a isso. Mas era quase impossível naquele emprego difícil. Por que a gente não fazia tudo de casa? Das oito horas que eu ficava lá, trabalhava só umas três. Durante as outras eu tirava cochilos, ficava no Facebook, passava um bom tempo me olhando no espelho e ria forçado das histórias sem graça que os colegas contavam nas rodinhas. Eu chegava já querendo ir embora. Seria meu sonho? Uma das únicas pessoas que eu gostava lá era o Mitchell. Eu e o Mitchell estávamos sempre conversando, e o melhor era que ele não contava absolutamente nada sobre o dia a dia dele. Odeio fingir que estou entretida ouvindo as coisas que as pessoas me contam. Graças a Deus e a Jesus, ele é assim! Eu tinha 0% de interesse em saber o que Mitchell ou qualquer outra pessoa tava fazendo da vida. Ele até disse que sou a melhor colega de trabalho que já teve... Óbvio! Ele morria de rir das letras das minhas músicas e me lembrava muito as meninas da pensão. Era só eu falar “labirintite” e elas já começavam a rir como se eu tivesse dito alguma coisa engraçada. Diziam que a Greer tinha um crush nele. Ele era até bonitinho, mas não sei se eu pegaria... Ainda mais estando na mira da chefe. Na hora do almoço saímos eu e o Mitchell lindíssimos (na verdade só eu, mas se o Mitchell estiver lendo esse livro, Mitchell, cê tava ó... um bombom). Fazia um século e três dias que eu não via sinais nas coisas. O universo tinha parado de me dar dicas do que ia acontecer. Isso acabou quando olhei uma propaganda em

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um prédio que dizia: “Você está onde você quer?” Era como se a mensagem fosse pra mim. Lembra da Marcinha? Então, ela. Mas o que Marcinha tá querendo dizer com isso? Dava pra ver que eu não tava onde queria estar. Atravessamos a rua e lá estava eu, na frente da sala da cigana Tânia. Gente, já tinha passado tanto tempo... Não é possível que eu ia continuar sendo levada pra lá. Fiquei na dúvida se eu entrava ou não, mas o Mitchell disse que tava morrendo de fome. Caguei pro Mitchell e entrei. Na hora que botei os pés lá dentro, uma jovem morena e bem-vestida saiu xingando Tânia de tudo quanto é nome. Pedi até o número dela pra gente virar amiga caso as que eu tenho morram. Cigana Tânia, mesmo depois de tanto tempo me reconheceu e apontou pra porta, igual da última vez. Ela se fodeu porque eu não ia cair nessa de novo. A primeira coisa que fiz foi fechar a porta depois de entrar. —Fofa, desiste, que eu não sou otária que nem naquela época. Ela continuou apontando pra porta e disse: —Querida, vaza. Já acabou o horário de atendimento. Eu pedi por favor e disse que precisava de uma consulta dela. Fiz uma voz bem comovente. Ela me olhou nos olhos, comovida e disse: —Já acabou o horário de atendimento. Saí de lá com um quente e dois fervendo: era café, esqueci de tirar da bolsa. Quando eu estava voltando pra calçada, a cigana Tânia me gritou e disse: —Não se esqueça, o país inteiro te verá. Eu tava bem, tranquila aqui na minha, e já havia superado todas as minhas falsas esperanças de ser alguém algum dia, mas, meu Deus... Tudo tava acontecendo de novo. Mas será o Benedito? Ou será a Marcinha influenciando nesse plano astral?

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Eu não sabia. Fui atrás do Mitchell e me sentei à mesa com ele. Tavam passando as últimas notícias na TV. Vamos ver se você se lembra desses nomes que saíram no noticiário: A empreendedora Fernanda Benigna e o empresário Jake Smith, juntamente com sua esposa, Jayde Confederado, foram presos num grande esquema de corrupção que envolve mais de 15 pessoas. A quadrilha deve pegar cinco anos de prisão, mas, conhecendo a justiça do nosso país, eles devem ficar apenas dois dias na cadeia. O dinheiro foi lavado num tanque.

Só podia ser a era de Saturno. Praticamente todas as pessoas ricas que estudaram comigo foram presas. Eu sabia que tava muito bom pra ser verdade. Só não fui presa porque eu era a única arrasada do grupo e já venho sendo castigada desde que eu me chamava Ariane Ventura. Sim, fiz regressão. A Honey me ligou. Ela queria falar sobre o Best Show Ever, um programa de talentos que tinha aberto as inscrições. Na verdade aquele era o último dia pra se inscrever. Tudo tava claramente acontecendo de novo. Você deve estar pensando: “Ah, mas que falta de criatividade da autora!” Mor, se você aguenta ouvir “Sorry”, do Justin Bieber, vai aguentar essa grande repetição que ocorreu na minha vida. Falei com Mitchell e ele super topou me ajudar. Mas olha a merda: o vídeo de inscrição só podia ser mandado até as oito e eu saio do trabalho apenas às nove. Como eu ia gravar aquele caralho? Eu ia ter que conseguir um atestado pra voltar pra casa. Meu único problema de saúde até então continuava sendo minha estria. De resto eu tava perfeita como sempre, desde que nasci. Mitchell sugeriu que eu me jogasse na frente de um carro pra

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conseguir uma indenização do DPVAT. E eu lá queria essa merda? Eu queria era voltar pra pensão logo. E se eu não tivesse em boas condições físicas, não ia poder enviar inscrição nenhuma. WHAT DO I DO? (Quer dizer “fodeu” em inglês.) Desmaiei. Não, não foi fingimento, eu desmaiei de verdade. Acordei horas depois num hospital. Assim que abri os olhos, uma enfermeira veio falar comigo. —Querida, que bom que você acordou. Não tá na hora de você ir pra casa e ceder essa cama pra alguém que tem algo mais grave? Fiquei desesperada perguntando o que eu tinha. E torci pra que não fosse nada que começasse com C. Ela me disse que minha pressão caiu por conta da sinusite. Respirei aliviada, só com uma pequena congestão nasal. Agradeci a todo mundo! Amy Winehouse, Michael Jackson, KLB. Muito obrigada a esses finados artistas que me deram mais uma chance pra mostrar que eu era capaz de virar alguém e, por fim, deixar de ser apenas uma personagem de websérie. Um médico me passou um antibiótico e disse que era pra eu cuidar da saúde. Querido, eu não era babá. Inclusive já fui, mas não tinha mais interesse na carreira. Finalmente ganhei o tão querido atestado. Mas assim que saí do hospital notei algo que fechou meu cu num nível celular: já tava de noite. Catei logo meu celular na bolsa e vi que eram 18h15. PUTA QUE PARIU! Entrei no primeiro carro que passou. Só que desci porque o homem tinha cara de sequestrador. Meia hora depois cheguei na pensão correndo, e nada do Mitchell responder minhas mensagens. Como eu ia gravar aquele vídeo sozinha? E como gravar um vídeo decente em um tempo curto, sem que vazasse na internet e eu virasse a nova Giovana do forninho?

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—Duny, respira! — disse Marcinha, só que com minha voz. Ingrid, a recepcionista da pensão, se propôs a gravar o vídeo. A instrução (odeio essa palavra) era a seguinte: Grave um vídeo de dois minutos falando sobre você e cantando um trecho de uma música de sua preferência. Lembre-se de que você precisa ter mais de 18 anos. Se eu botasse que tinha 27 anos, eles iam achar muito esquisito. Quando você olha pra esse rostinho, não diz que essa loira maravilhosa aqui tem mais do que 15 anos. E não foi a Marcinha que disse isso... É claro. Tomei banho, sequei o cabelo e fiz a maquiagem. Quando vi já era meianoite e não dava mais tempo de me inscrever. NÃO TAVA ACREDITANDO QUE DEPOIS DE TODO AQUELE SACRIFÍCIO (SHAFT, QUE DEUS A TENHA! BRINCADEIRA , ELA AINDA É VIVA) EU NÃO IA CONSEGUIR ME INSCREVER PRO CARALHO DO PROGRAMA .

Botei a cantora Dido pra tocar e chorei por alguns minutos. Por que essas coisas só aconteciam comigo? Tudo bem que tem pessoas que passam fome e que estão morrendo, mas eu não tenho absolutamente nada a ver com os problemas do mundo. Não fui eu quem causou isso. Será que algum dia alguma coisa ia dar certo? Digo, na minha vida? Aquela imbecil da cigana Tânia disse que o país inteiro me veria. Mas como, fodida do caralho?! Como iam me ver se eu tava sempre sendo sabotada pelo universo?

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O Mitchell visualizou meu áudio e não ouviu. Tomara que faleça. Fui desligar o notebook e quando atualizei o site do Best Show Ever tinha a seguinte mensagem: “Para você que não conseguiu realizar a inscrição, aqui vai uma boa notícia: ano que vem você terá outra oportunidade.” Joguei o notebook pela janela. Tenho certeza de que pegou em alguém. Qualquer coisa eu ia falar que foi um cavalo de Troia. Deitei na cama de barriga definida pra cima e comecei a pensar na vida. Em como a vida me faz engolir coisas absurdas, como o pelo de sobrancelha da cozinheira do restaurante self-service onde eu geralmente almoço. Agora me diz a verdade: eu merecia ou não ter minha autobiografia publicada? Não? Então vai tomar no cu.

*** De manhã, assim que acordei recebi uma ligação. Era a Miley Cyrus! Sim, a própria. Ela é uma das juradas do Best Show Ever e

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disse que me encontrou, pois a Nobodi Atall falou de mim pra ela. —Miley! Eu não tô acreditando nisso, Miley. —Pois acredite! Vai ser o seguinte, nós duas vamos trapacear pra você vencer. —Mas, Miley, eu nem consegui me inscrever no programa! —Mas não precisa se for amiga da jurada, querida. —Ah, então abalou! Já tô dentro! —Ok, me manda todas as suas informações por e-mail pra eu agilizar aqui. —Tá bom! Assim que desliguei, comecei a pirar. Aquilo realmente tava acontecendo? Fui pegar meu notebook lá fora, mas lembrei que a Miley não me tinha me passado o e-mail dela. Peguei o celular pra ligar pra ela, mas era número restrito. O QUE QUE EU IA FAZER? Aquilo só podia ser um pesadelo. E era, tanto que acordei pra ir pro trabalho. Duny, você achou mesmo que algo desse tipo ia acontecer? Logo com você, a pessoa mais fodida desde a queda do muro de Dona Estela, minha vizinha? Pff. Assim que cheguei na empresa, Mitchell veio todo animado me perguntar que música cantei na minha inscrição. —“Mudo”, da Britney Spears. Ele não entendeu a ironia, então eu expliquei que não tinha conseguido. Pra melhorar ainda mais a situação, a Taytay, que trabalha no mesmo setor que a gente, tinha conseguido. Minha vontade era de pular da janela, mas o prédio só tinha dois andares. O máximo que eu ia conseguir era uma concussão em uma das panturrilhas. Burra, por que você não aceitou virar princesa? Será que ainda

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dava tempo? Peguei o celular e liguei pro Kal Sada. Já faz tanto tempo, será que ele lembra de mim? —Alô, Kal? —Oi! Tudo bom? —Tudo, meu amor. Pensei que você não fosse reconhecer minha voz, já faz tanto tempo! —Calma aí, é o Carlos que estudou comigo? —Carlos? —Não, Carlos, não. É o James Johnson, meu primo? —Kal, é a Duny. Aquela do ano passado, que não aceitou ser sua namorada fake. —Duny? Hmmm, aaah, Duny! O que houve? Tá rouca ou algo assim? —Não, tô normal, minha voz de sempre. —Pareceu mais grossa! Olha... Se eu te visse pessoalmente mais uma vez, só que de olhos fechados, eu com certeza teria tido uma ereção. —Ai, que engraçadinho, você! —É a lua em gêmeos... Mas e aí, por que você tá me ligando? —Bom... Eu andei pensando e acho que fui muito egoísta de não aceitar sua proposta ano passado. Vocês dois devem ser o casal mais fofo que eu já vi em toda a minha vida e eu queria voltar atrás pra que vocês sejam felizes. —UAU! —É, eu sei. Anotei num papelzinho porque de improviso eu não ia conseguir falar isso tudo. —Achei ótimo que você quer voltar atrás. —AAAAH, eu também. Odeio meu emprego e prefiro mil vezes ser uma princesa. —Duny, eu adoraria que você se tornasse uma princesa um

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dia, mas não estou mais com o Ariel. —Não? Oh, meu Deus! Mas eu pensei que vocês fossem casar e ter filhos... —É, eu também pensava. Mas acontece que o Ariel era exatamente como você. Só queria a vida boa que nossa relação ia proporcionar. Em mim? Ele não tinha nenhum interesse. Eu só era as viagens de jatinho, as refeições e os vinhos caríssimos, o status de príncipe. Imagina como seria ótimo você dizer pros seus amigos que faz parte da realeza? É... Tudo o que tava em volta de mim era muito mais atrativo pra ele. —Realmente, com uma casa dessas... Já pensou em tentar morar numa casa menor e ter uma decoração mais simples? E um carro popular, nada de motorista particular? —Olha, você me deu uma ótima ideia. —Tá vendo? Eu sou a princesa que você procura. —Não, não é. Você é a princesa que o mundo precisa. E, Duny, por mais que eu ainda possa te dar uma chance, acho que você precisa dar uma chance pra você mesma. —Você tá insinuando que eu devo me masturbar? —Isso é indispensável... Mas se olhe no espelho e tente ver o que você tem aí dentro. Quando encontrar, isso vai levar você longe.

*** Será que ele tava querendo dizer que eu deveria vender meu rim? Fiquei na frente do espelho com a boca aberta por 15 minutos tentando achar o que eu tinha dentro de mim. Achei que tava com faringite, inclusive. Mas por que será que eu não via o

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que o Kal tava falando? Eu já sabia que era talentosa, bonita, carismática, que tinha um corpo em forma... Mas sou de humanas. Se Kal tava querendo insinuar que eu não sabia o nome de todos os órgãos que tinha, ele tava certo. Fui na Kátia fazer um raio X e também não deu nada. Fiz todos os exames e nenhum mostrou o que eu tinha dentro de mim. O Kal só podia estar falando de venda de órgãos. Vi que um rim custa não sei quantos mil. Com isso já dava pra produzir uma música maravilhosa e o clipe também. Mas e se eu flopar igual as divas do pop, que não emplacavam com os singles? Bom, vou deixar meu corpo quietinho aqui. Talvez essa não seja a solução que eu estou procurando. UNIVERSO! EU PRECISO DE UM SINAL! ME DÁ UM SINAL, SEJA ELE QUAL FOR! MEU CELULAR TÁ SEM SERVIÇO E EU NÃO CONSIGO ACESSAR MEU 4G! CADÊ A PORRA DO SINAL? Na hora do almoço, passei por um cantor de rua. Ele tava com um violão, cantando, e as pessoas passavam e cagavam pra ele. Uma senhora até fez cocô de verdade. Eu me vi nele naquele momento. Era eu todinha. Ele era loiro, tinha franjinha, bunda grande. Gente, calma aí, que merda é essa? Fui até ele e uma menina passou perguntando se éramos irmãos. Falei que não, pois eu era muito bonita. O cantor fake Duny morreu de rir e continuou cantando. Ele até tinha uma voz bonita, mas se eu desse uns trocados ele podia acabar indo mais longe do que eu. Não queria correr o risco de ser tombada nos charts por alguém que é minha versão masculina. Segui meu caminho. Olhei pra trás, bati a mão no bolso da calça e lembrei que tinha dez reais. Poxa, não custava nada ajudar o cara. Duvido que ele tivesse cantando na rua porque queria. Fui lá, mas dei só cinco reais porque fiquei com vontade de comer churros. Botei o dinheiro no chapeuzinho dele e

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perguntei quanto que ele ganhava na rua. Ele disse que, por dia, uma média de 200 reais durante oito horas. Hmmm, talvez eu até considere virar artista de rua. Mas eu teria que abrir mão do ar-condicionado, e essa é a coisa mais difícil de fazer desde a fórmula de Bhaskara no 7º ano. Peguei meus cinco reais de volta e fui embora. O que que foi? Eu recebia menos do que ele! Comi e voltei pro trabalho. No meio do caminho senti um cheiro de biscoito Fofura. Quando olhei no horizonte, lá estava ele: o Figueiros. Assim que me viu, ele veio correndo atrás de mim. Saí correndo porque fiquei com um pressentimento de que ele tava querendo roubar minha bolsa. Assim que ele disse oi, eu virei, segurando minha bolsa com força e retribuí o cumprimento. —E aí? Quanto tempo! A última vez que te vi seu nome era Tânia. —Que legal! A última vez que eu te vi seu nome seguia sem alterações. —E continua o mesmo — retrucou ele. — E aí? O que você tá fazendo da vida? Espera, deixa eu adivinhar. Trabalhando em um emprego que você não suporta só pra sobreviver mesmo? Por que será que o Figueiros chegou a essa conclusão? Será que tava tão estampado na minha cara assim? —O que te faz pensar isso? —Acho que o rímel. Te deixou um pouco diferente. —Puta que pariu, o rímel! Eu tenho esquecido de passar. A maquiagem é um detalhe muito importante na minha vida. Se eu esqueço, as pessoas já vêm me perguntar se eu tô com Chikungunya. —O que você tá fazendo? — perguntou Figueiros. —Indo pro trabalho.

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—Não, eu digo da vida... —Bem, fazendo um grande resumo da minha vida ultimamente, indo pro trabalho... E você? —Tô aproveitando meu último dia de folga. Tô trabalhando como produtor executivo do Best Show Ever! As inscrições acabaram ontem e vamos começar a analisar os candidatos pessoa por pessoa. —Meu Deus, que maravilhoso! Acredita que perdi a inscrição ontem? Passei mal e quando cheguei em casa já era tarde demais. —Sério? —Sério! Eu daria tudo pra ter uma segunda chance. —Daria tudo? —No sentindo figurado, sim. —Mas não se preocupe, você pode conseguir uma segunda chance. —Não fala isso pra mim que eu já tô passando mal. Como? —Fazendo a inscrição pro ano que vem. Começou a chover. O Figueiros começou a falar um monte de coisa, mas meus ouvidos só ouviam a chuva. Será que tava sendo punida porque tinha me afastado da igreja? Bem que minha madrinha falou. Eu tava sendo castigada de uma forma severa, e olha que eu nem tava ouvindo “Bon Appétit”, da Katy Perry. Passei dez minutos parada. Fiquei tão paralisada que as pessoas começaram a botar dinheiro perto de mim achando que eu era uma estátua viva. Continuei ali mais dez minutos pra conseguir uns trinta reais e voltei desolada para o trabalho. Assim que cheguei lá todos me olharam. Como sempre. Mas naquela hora eu tava chamando muito mais a atenção, toda molhada, com maquiagem escorrendo na cara. Um autêntico remake de Carrie, A Estranha. Minha chefe me viu e veio me dar

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esporro. —Vinte minutos atrasada? E molhada desse jeito? Pelo menos coloca um sutiã da próxima vez! Seus mamilos estão acesos — disse ela. Ah, então devia ser por isso que todos tavam me olhando. Sentei na minha cadeira, atendi as ligações, preenchi as planilhas, marquei reuniões na agenda, ou seja, fiz meu trabalho. Agora imagina isso todos os dias, pelos próximos dias, que virariam semanas, meses e até mesmo anos. Uma pessoa com todo o potencial de brilhar se tornando a mais nova vítima do anonimato (feat. capitalismo). Lá estava eu, sem nenhuma esperança, molhada, sem sutiã, doida pra chorar no colo de alguém. E o mais interessante é que ninguém se importava porque ninguém veio perguntar o que aconteceu. Só a Dona Ilma, do café. Ela me viu, botou a mão no meu ombro e perguntou: —Você tá com Chikungunya? Peguei o café e derramei no chão olhando pra cara dela. A mulher ficou apavorada, pois deve ter sido o maior insulto que ela já recebeu na vida. Será que Dona Ilma foi uma Duny? Será que ela também queria ser a Sade naquela época? Ou o Frank Sinatra? A Whitney Houston, talvez? Será que todas as pessoas do escritório sonharam estar naquele escritório? Eu, não. E é por isso que decidi ir embora. Peguei minhas coisas, botei na bolsa e levantei com a maior atitude, coisa que eu não tinha há séculos. Minha chefe Greer viu aquilo e veio atrás de mim. Ela me segurou pelo braço e eu respirei bem fundo pra não arrebentar ela. —Ei, ei, ei, aonde pensa que vai? Dei um tapão no rosto dela. Por acaso ela tava achando que eu

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era um cachorro pra me pegar pelo braço no meio da minha fuga? Nada disso. Só que aí vem a parte interessante: ela ficou me olhando chocada, com a mão na cara, e me deu outro tapa de volta. Aaaah, mas aquilo não ia ficar barato. Não ia mesmo. Eu ia meter um processo nela por maus-tratos no trabalho, e ia sair bem caro.

*** Dois meses depois desse incidente, tava eu com minha advogada e amiga, Kendra Foster, processando aquela animal silvestre. No contrato de trabalho, tinha uma cláusula que permitia que a Greer agredisse os funcionários caso ficasse com raiva deles. Porém, a juíza Marete Campos, que eu já desacatei uma vez, disse que era um absurdo e que a Greer teria que me pagar 40 mil reais. SIM, GENTE, 40 MIL. Achei pouco! Kendra Foster ia ficar com 20%. Não tinha problema, eu ia tentar prender ela em algum lugar pra eu poder ficar com o dinheiro todo. Mas quem diria, hein? Minha conta bancária nunca teve tanto dinheiro. O Mitchell me disse que os funcionários tavam fazendo de tudo pra apanhar da Greer e processá-la. Se foderam. Mas eu até entendo... Quem não ia querer ganhar 40 mil reais assim? É, talvez não assim... As pessoas vivem dizendo que violência nunca leva a lugar nenhum. Não acreditem. O fato de eu ter mais dinheiro não quer dizer que necessariamente minha vida mudou. Eu ainda precisava ser famosa um dia e em breve poderia ser tarde demais, considerando todos os investimentos que fiz no corpo durante todos aqueles anos. Mentira, é tudo natural, mas eu cuidava

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muito bem da minha aparência pra não ser vista por ninguém. Ainda tinha uma coisa que eu precisava fazer antes de sentar na bolsa de valores. Então deixei meu dinheiro do processo lá e usei um que eu tinha guardado pra poder ir lá no Best Show Ever. Sei que não tinha como fazer a inscrição. Mas eu podia subornar um participante pra me ceder a vaga. Chegando lá, embaixo do sol quente, vi uma porção de gente aglomerada. Me infiltrei no meio da multidão. Essa gente nem se arrumou pra participar do programa. Vi umas vinte pessoas de chinelo. Será que tavam achando que era uma rave? Achei uma menina perfeita, com a maior cara de cansada e que com certeza ia topar trocar a vaga dela comigo por dinheiro. —Oi, querida, você é participante do programa? Ela pareceu confusa e me olhou como se eu fosse uma doida. Mas, realmente, aquela multidão não era pro programa! Era pra pegar doce, pois era dia de Cosme e Damião. Peguei o doce e chamei um Uber pra me levar aonde eu precisava estar. Mais de dez mil pessoas. Tudo o que eu precisava era achar meu alvo. Passou pela minha cabeça que eu não aceitaria caso alguém me oferecesse dinheiro em troca de uma vaga. Talvez não os 1.300 reais que eu ia oferecer. Será que alguém sabia de alguém que desistiu ou perdeu o voo? Analisei melhor a multidão, e adivinhem só quem estava lá? O Fake Duny. Ele ia participar do programa. Será que ele aceitaria tirar seis dias de folga com o dinheiro que eu tinha pra dar? —Oi... Lembra de mim? —Não. —Eu te vi cantando lá perto do meu trabalho. Você me disse que ganha 200 reais por dia. —Aaah, você é aquela mulher que botou o dinheiro e depois

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pegou de volta? —Isso. E eu sei que aquilo foi um horror, mas é que era final de mês e cada tostão é uma fortuna! —É, eu sei como é. Qual é seu nome? —Duny. E você, clone? —Você acha mesmo que eu pareço com você? —Bom, temos muitas características físicas em comum. —É... Eu percebi. Mas de qualquer forma obrigado. Você é muito bonita! —Você tá chegando em mim? —Não, só tô sendo gentil. —Ah, hoje em dia é difícil de distinguir. —É. Mas e se eu chegasse? Você ficaria? Foi um daqueles momentos em que você tem que aquietar a periquita e manter o foco. Por mais que meu clone fosse um dos homens mais bonitos que eu tinha visto ultimamente, eu tava lá pra comprar a vaga dele. E já pareço interesseira mesmo de boca fechada, então não queria passar uma má impressão. —Hmmm, talvez um dia, quem sabe? Mas vem cá. Eu não consegui fazer a inscrição pro programa. —Não? Que pena! E você canta bem? —Todo mundo diz que sim. Espero que não tenham falado isso só pra chegar em mim. —Olha, vou te contar que eu tô muito nervoso! Tô quase desistindo. Odeio fazer as coisas com minha mente aos gritos. —Quase desistindo? Se alguém oferecesse 1.300 reais, você aceitaria desistir? —Mas é claro! Mas quem é o louco que daria 1.300 reais pra alguém desistir? Eu não me prestaria a esse papel. —Mas eu, sim. Por favor, eu te dou essa grana se você trocar

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sua vaga comigo. Sem que eu precise tirar o canivete da bolsa. —É sério? —Muito sério! —Bom... É um valor bom. É tentador. Posso pensar? Falei que sim. Mas era só não demorar muito porque depois que as gravações começassem ia ser impossível. Ele ia cantar uma música original chamada “This Good”. É uma música boa e fácil de decorar. Mas, sabe, fiquei com pena. Ele claramente precisava de dinheiro tanto quanto precisava de uma carreira. Seria muito injusto dar aquilo que ele mais precisa no momento e atrasar a vida dele de certa forma. Gente, quem diria que eu teria empatia? Logo agora? Será que é Jesus botando luz na minha cabeça? Ou será Jesus Luz botando cabeça onde não tem? As horas se passaram e, enquanto Fake Duny ainda decidia se me daria a vaga dele por dinheiro, eu tava pensando se faria isso mesmo. Ainda me lembro da cigana Tânia dizendo: “O país inteiro te verá.” Como? Quando? Naquele dia? Será que ela tinha tomado vinho? O nome do Fake Duny era Angel Rodriguez. Angel, em inglês, quer dizer “anjo”. O universo botou um anjo no meu caminho pra eliminar toda a satanice da minha cabeça. E juro que esse livro não é a Bíblia 2, mas acabei de chegar à conclusão de que trapacear só ia me levar aonde eu sempre estive: ao mesmo lugar. Angel disse que aceitava o dinheiro, mas falei pra ele ir se apresentar. Meu dia de brilhar ia chegar, mas não era aquele. A Honey me ligou pra saber se eu tinha conseguido. Respondi que não, mas que eu tava feliz. Talvez com 15% de infelicidade, mas eu tava feliz de ver que talvez o Angel, uma pessoa que faz a carreira dele de forma honesta, fosse conseguir o que mais queria

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de forma justa. E, sim, acredito no universo e sei que minha hora vai chegar quando for o momento. Sentei na plateia pra assistir a apresentação dele. Dois dos jurados eram o Simon, que me mandou embora no American Idol, e a Chocotone que tentou me transformar em Capivarita e só continua relevante porque a TV aberta insiste em investir em gente sem graça que fez sucesso mil anos atrás. Percebi que eu já teria dois “não” caso estivesse participando. Acho que pior que criar expectativa é ver suas expectativas descerem até alcançarem o inferno e o diabo rebater pra bem longe. A Miley Cyrus e o Rick Martin eram os outros dois jurados, mas será que iam gostar de mim? Ou será que fariam igual àquele crush da escola, que não gostava tanto de mim como eu gostava dele? Eu não sabia, mas esperava que o Angel conseguisse. Durante a gravação, fui credenciada como amiga do Angel e aproveitei pra aparecer um pouco. —E, Duny, como grande amiga do Angel, você acha que ele tem potencial pra ganhar o “sim” de pelo menos três jurados? —Olha, talvez não da Chocotone, porque é uma escrota e imbecil. E do Simon, que é um babaca que gosta de humilhar as pessoas. Sabe-se lá por que vocês dão espaço pra essa gente, mas se eles interpretarem pessoas sensatas aqui hoje não tenho dúvidas de que meu melhor amigo, Angel, vai passar. HFU47T8IJ4MKLGRPGP5PT04THLNM 4 8 15 16 23 42 54T PKJHM, LK3 RT KGO

Caralho! É só eu levantar um minutinho que a Shaft já vem aqui bater no teclado. Dei a entrevista e voltei pra plateia. Não vou mentir e dizer que eu ainda queria me apresentar, mesmo sabendo que ia ser rejeitada. Mas meu sonho é estar num palco com todos

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chamando meu nome. Sei que posso conseguir isso virando stripper, mas ok. A apresentação do Angel ia começar. Assim que ele entrou, todo mundo vibrou por conta do look de garotão hippie que saiu direto do Tumblr. Uma senhora que tava do meu lado me cutucou e disse: —Eu disse que ela ia conseguir! Olhei pra ela com uma cara esquisita porque eu não tinha entendido nada. —Ela quem? Ou a senhora se esqueceu de tomar remédio? Calma, eu conhecia aquela velha. Era a cigana Tânia! Olhei pra cara dela e pedi pra ela me olhar bem. —Ô, cigana Tânia, não foi você que disse pra mim que o país inteiro ia me ver? —Meu Deus, é você! Pera aí, não é você ali no palco? —Não, aquilo é um homem. É loiro, de franjinha e bundão, mas não sou eu. —Meu Deus... Acho que confundi as pessoas. Mas, de qualquer forma, aquele cara ali vai ser uma das maiores estrelas que esse país verá! Não é que a cigana Tânia era vidente mesmo? A apresentação de “This Good” foi uma das melhores da edição e recebeu quatro votos, de todos os jurados! A plateia tinha acabado de conhecer a música, mas ela era tão chiclete que no segundo verso todos já estavam cantando junto. Confesso que até eu cantei junto. Fiquei feliz por alguém, de verdade, pela primeira vez na vida. Nem sinto mais vontade de voltar pra igreja, já que escolhi a decisão do destino em vez de trapaceá-la subornando as pessoas. Só sei que 1.300 reais nunca iam comprar o que o Angel conquistou naquele dia. E o que ele conseguiu é o que eu quero.

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Na saída, abracei ele e confesso que rolou um clima, mas não peguei. Me fiz de difícil, mas o cara acabou me dando o número dele e disse que poderíamos comer um Big Mac qualquer dia. Ele sorriu e foi embora. Sentei na grama na saída do estúdio e fiquei observando o céu. Horrível. É muito triste saber que todas as estrelas brilhando lá em cima já morreram há milhares de anos. A cigana Tânia se aproximou, me cutucou e disse: —Ei... Posso ler sua mão? —Pode. — 3689-59... A cigana Tânia começou a anotar o número que tava na minha mão. —Ei, o que está fazendo? —Esse não é o número do Angel? —É, mas ele passou pra mim! —Aaah, mas prometo não dizer pra ele que eu peguei com você. —Apaga agora, sua puta. —Por favor, eu queria tanto que ele cantasse no casamento da minha filha! —Tá, tá. Tudo bem. Anota, salva, enfia no cu, faz o que você quiser, mas sai de perto de mim. —Duny! —Quê? Cigana Tânia começou a apontar pra uma direção. Será que ela tava achando que eu ia cair sempre nessa? —Tânia, pelo amor de Deus. Não tem como eu ter deixado porta nenhuma aberta. A gente tá na rua. —Não... Acontece que o país inteiro te verá mesmo. Eu não me confundi!

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—Você me confundiu com um homem nas suas visões! —Nããão! Eu não tenho dúvidas! É você. —Mas por que você tá apontando pra lá? —É porque eles já vão fechar o portão. A gente tem que sair daqui. Eu não queria criar expectativas mais uma vez. E, por mais que parte de mim acredite na força maior do universo, outra parte quer dar um tempo. Talvez dez minutos... Talvez cinco. Talvez eu já tenha roído todas as minhas unhas de acrigel. Não sei quando, não sei onde, mas eu nasci pra brilhar e quando a hora chegar vou estar lá. Mas que não seja agora porque eu preciso muito fazer xixi.

Raony Phillips, que você viu na foto anterior, é o criador da personagem Duny, estrela da websérie Girls in the House e autora deste livro. Raony tem 24 anos, estudou marketing e, desde cedo, escreve e ilustra quadrinhos autorais. Comanda o canal RaoTV, no YouTube, lançado em 2014 com uma programação 100% original de ficção, humor e música que ESTANTE - NACIONAIS - ACHERON


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soma hoje mais de 100 milhões de visualizações. Raony roteiriza, produz, filma, edita e sonoriza todas as séries do canal, além de dublar a maioria dos personagens. Lançou recentemente a personagem Duny como cantora, com música e videoclipe disponíveis nas principais plataformas digitais, e se prepara, ele próprio, para lançar seu primeiro álbum de estúdio. Na voz de Duny, Raony é, desde 2016, comentarista da rede TNT para eventos como Oscar, Grammy e Globo de Ouro, com entradas ao vivo no Facebook do canal. Em 2016, foi um dos palestrantes do RioMarket, espaço de negócios do Festival do Rio de cinema. Meu livro. Eu que escrevi é seu primeiro livro publicado.

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Duny girls in the house

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