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TÍTULO TEXTO: Em direção a uma ciberdemocracia planetária AUTOR: André Lemos / Pierre Lévy LIVRO: O Futuro da Internet COORD. Ou ORG.: Valdir José de Castro EDITORA: Paulus EDIÇÃO P.: 239 ANO: 2010 ESTADO: SP PÁGINA 9 “O propósito deste livro é analisar as transformações contemporâneas da esfera pública como resultado da expansão do ciberespaço e considerar as novas possibilidades de desenvolvimento que essa mudança abre para a democracia. 10 Na maior parte dos países industrializados, quase 80% da população está conectada à internet de casa, e o mesmo se aplica para as classes médias urbanas da maior parte dos países em desenvolvimento. Os países onde as taxas de aumento das conexões são as mais elevadas são o Brasil, a Rússia, India e China. (...) Entre as pessoas conectadas, quase 50% tem ou terão, em breve acesso a internet em alta velocidade, e os próximos anos verão essa proporção aumentar mais ainda. 12;13 Certamente, todas as regiões do mundo não participam da computação social com tanta intensidade. Um estudo europeu de 2008 indica que os asiáticos estão em primeiro lugar com mais de 50% dos internautas implicados em pelo menos uma das atividades de computação social. Os Estados Unidos seguem com 30% de utilizadores, enquanto os europeus contam com apenas 20%. Mas é evidentemente a tendência geral que importa apreender. 14 No que diz respeito aos efeitos da democracia, essa transformação da esfera pública me parece afetar positivamente os quatro domínios estreitamente interdependentes, que são as capacidades de aquisição de informação, de expressão, de associação e de deliberação dos cidadãos. (...) Aumenta as possibilidades da inteligência coletiva, e por sua vez, a potência do “povo”. Outro efeito notável é a pressão que ela exerce sobre as administrações estatais e sobre os governos para mais transparência, abertura e dialogo. 21 A cibercultura evoca sempre um pensamento sobre o futuro. Sonhos e pesadelos estão sempre associados ao desenvolvimento tecnológico, e não poderia ser diferente com as novas tecnologias digitais. Volta ao velho sonho de um mundo da comunicação livre, sem entraves, democrático e global. 22 Os impactos da cibercultura se fazem presentes em todos os países do globo, e só um pensamento global pode dar conta dos desafios da emergente sociedade da comunicação e da informação planetária. 23 A sociedade da informação é uma realidade mundial. A Internet já é uma realidade mundial, interligando todos os países do planeta, os telefones estão em franca expansão, os serviços de governo eletrônico são implementados ao redor do mundo, comunidades e redes sociais nascem com as ferramentas sociais da Web; formas de ativismo político e protestos emergem utilizando as tecnologias e redes informacionais como suporte. 24 Iniciativas em governo eletrônico também crescem no país. Todas as iniciativas federais estão interligadas no portal do Redegoverno, portal com milhares de informações em nível federal, estadual e municipal. Algumas experiências brasileiras são consideradas mundialmente de ponta como a declaração do Imposto de Renda e o voto eletrônico. Outras estão sendo implementadas com relativo sucesso, como a emissão de certidões de pagamentos de impostos, a divulgação de editaisde compras


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governamentais, a matricula escolar no ensino básico, o acompanhamento de processos judiciais, o acesso a indicadores econômicos sociais, entre outros. Em primeiro lugar o que parece estar em jogo no que concerne a dimensão política da sociedade informacional é uma nova relação entre a tecnologia e os processos comunicacionais sociais. (...) Sem dúvida, a esfera da coversação mundial se ampliou, como pode ser comprovado com a expansão de sistemas e ferramentas de comunicação como blogs, wikis, podcasting, softwares sociais (como o Orkut, de longe o mais popular do Brasil) ou novos sistemas “móbile social networking”, permitindo a troca de informações entre pessoas e comunidades em mobilidade, via dispositivos portáteis de acesso sem fio as redes. O ciberespaço é um ambiente complexo, e a cultura política cresce nesse caldo efervescente, gerando novos processos e produtos. A nova potência da emissão, da conexão e da reconfiguração, os três princípios maiores da cibercultura , estão fazendo com que possamos pensar de maneira mais colaborativa, plural e aberta. Sempre que podemos emitir livremente e nos conectar com outros, cria-se uma potência política, social e cultural: a potência da reconfiguração e da tranformação. O impacto é gigantesco e já esta entre nós: novas formas de moderação da palavra, distribuição de conteúdo livre e em rede, emergência de um “jornalismo cidadão”, disseminação de arquivos em redes cada vez mais capilares em pares.(...) Na atual “requisição digital” do mundo, criam-se possibilidades de ampliação da comunicação e da gestão racional e cientifica do planeta. Buscar o sentido, ou os sentidos da tecnologia é se engajar na via de compreensão desse destino do homem no mundo. Devemos também nos perguntar qual o “sentido” de tudo isso. Aqui, o sentido da tecnologia contemporânea não se refere à sua dimensão material, mas sim ao seu poder de produzir sentido, de fazer sociedade. (...) Não estamos impedidos de pensar longe, de apontar um mundo melhor e de insistir na potência liberadora da cibercultura. O desenvolvimento do ciberespaço já suscitou novas práticas públicas. As comunidades vistuais de base territorial, que são as cidades e regiões digitais, criam uma democracia local em rede, mais participativa. Frequentemente nos é atribuído acreditar no progresso, nos situar abertamente em uma perspectiva de emancipação da humanidade e, por isso, de retomar perigosas ilusões. É forçoso constatar que certas formas sociais, uma vez surgidas, parecem reduzir irreversivelmente formas anteriores a papéis menores. É dessa forma que as sociedades com Estado e escrita suplantaram as sociedades sem Estado e sem escrita. Aquelas que empregam a imprensa suplantaram aquelas que não a empregavam, ou empregavam menos, e poderíamos dizer o mesmo no que concerne às tecnologias digitais. A porcentagem de conectados à internet vai superar 50% na maior parte dos países desenvolvidos. Em 1990, ele era inferior a 1% em todos os países. Dados de 2007 mostram que o numero de conectados está em torno de 20% da população mundial. Lembremos que a Web – um serviço de Internet que nenhum grande ator econômico ou político previu – só se tornou acessível ao público em 1994. As novas tecnologias de informação e comunicação alteram os processos de comunicação, de produção, de criação e de circulação de bens e serviços neste inicio de século XXI, trazendo uma nova configuração social, cultural, comunicacional e, consequentemente, política. Essa nova configuração emerge com três princípios básicos da cibercultura. (...) Essa nova configuração emerge com três princípios básicos da cibercultura, liberação da emissão, conexão generalizada e reconfiguração social, cultural, econômica e política. (...)


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O primeiro principio é o da liberação do pólo da emissão (...), emerge das vozes e discursos anteriormente reprimidos na edição da informação. O segundo principio é o de “tudo na rede”, da conectividade generalizada. (...) Tudo comunica e tudo esta em rede: pessoas, máquinas, objetos e cidades. É a era do que alguns chamaram de “Internet das coisas”, onde objetos os mais diversos passam a se comunicar conectando-se à Internet. Vemos a evolução para um sistema de maior distribuição horizontal de conteúdos abertos, livres e colaborativos. (...) A expansão do ciberespaço esta agora veiculandose aos lugares e à mobilidade urbana, criando processos de circulação e produção livre de informação no espaço urbano. A cibernética designa “a ciência do comando e do controle”, dito de outra forma a ciência do governo. O motor dessa evolução, em direção à liberdade e à interconecxão, é uma aspiração à potência que se transforma cada vez mais conscientemente rumo à potência que se transforma cada vez mais conscientemente rumo à inteligência coletiva. Os destinos da democracia e do ciberespaço estão intimamente ligados porque ambos implicam o que há de mais essencial na humanidade: a aspiração à liberdade e à potência criativa da inteligência coletiva. O crescimento da “esfera pública”, isto é, de um espaço compartilhado de visibilidade e de comunicação coletiva, definiu de um mesmo golpe o seu complemento: a esfera privada, reservada, do individuo e da família. O ciberespaço vincula-se cada vez mais aos espaços concretos das metrópoles contemporâneas (basta ver o uso dos telefones celulares e microcomputadores para localização, troca de informações em mobilidade, realização de tarefas a partir de pontos de acesso nas cidades). A fusão do espaço eletrônico com o espaço físico nos permite obeservar de maneira cada vez mais direta quase tudo que queremos ver, e essa tendência deve ser acelerada no futuro. As novas mídias interativas com funções pós massivas são mais do que informativas, verdadeiras ferramentas de conservação. (...) Novas formas de mobilização com as tecnologias móveis tem tornado ainda mais complexo os processos de inteligência coletiva. A primeira consequência dessa nova situação é que todas as mídias podem ser captadas, lidas, escutadas, ou vistas de qualquer canto do planeta onde uma conexão à Internet é possível, com ou se fio. Mais ainda: as novas mídias atuam a partir dos princípios de liberação da emissão, da conexão permanente de redes de conversação e da reconfiguração da paisagem comunicacional que tem implicações importantes nas dimensões sociais, culturais e politicas. Na realidade, os dois sistemas continuam a existir com mútua influência, apontando para uma “evolução” do sistema midiático em um modelo mais complexo onde coexistem funções massivas e pós massivas. As conexões, as relações de interdependência e a complexidade geral da vida social estão aumentando. Se nossas relações eram limitadas a um pequeno circulo de atores bem conhecidos, não deveríamos dedicar tantos esforços para comunicar. A organização, por menor que seja, utiliza hoje serviços de relação pública, de comunicação social ou de marketing. Funções massivas e pós-massivas reforçarão essa tendência. A expansão da Internet é levada por uma onda de fundo cuja amplitude e força ainda


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não conseguimos medir: a liberação da palavra. A quantidade de informação disponível hoje na grande rede mundial de computadores nos coloca em uma esfera comunicacional impar e rica, onde, pela primeira vez, podemos ter acesso a obras (sob os mais diversos formatos) mediadas pelos instrumentos da indústria massiva (editoras, gravadoras, jornais, revistas, televisão, rádio), mas também, e é aqui que podemos ver a riqueza da cibercultura, produtos livres, criados por qualquer pessoa, sob qualquer modulação. 97 Na perspectiva da ciberdemocracia, o principal efeito da internet é o de contribuir para enfraquecer as ditaduras que são sempre de essência mafiosa, quer elas se apresentem sopb a luz do nacionalismo, xenofobia, militarismo integrismo ou outro. Um país cuja populaçãoestaria conectada em mais de 25% dos lares não poderia mais aceitar a servidão que lhe seria imposta por um governo autoritário e começaria a conquitar o pluralismo, a democracia representativa e o sufrágio universal que fazem parte atualmente do direito dos povos na consciência coletiva. 99 O crescimento do ciberespaço coloca os regimes ditatoriais em dificieis posições. De um lado, eles são obrigados a fazer a promoção do comércio e da liberdade de expressão, sob pena de serem acusados de produzir deliberadamente a pobreza. Mas de outro eles pretendem resisitir com todas as forças à liberdade da palavra e ao acesso e à produção de informação que surgem naturalmente deste novo médium. 100 Em números absolutos, o número de internautas chineses superou o de internautas japoneses, e calcula-se que mais da metade dos sítios que eles visitam são estrangeiros. As ditaduras cairão no ritmo da expansão da cibercultura. Em 2008, a China, já tem mais internautas que os EUA. 101, 102 O desenvolvimento de comunidades e redes sociais online é provavelmente um dos maiores acontecimentos dos últimos anos, sendo uma nova maneira de “fazer sociedade”. (...) Comunidade denota assim relacionamentos com grau elevado de intimidade pessoal, coerção social e continuidade no tempo. (...) Podemos dizer que com as comunidades virtuais e as atuais redes sociais do ciberespaço e seus membros compartilham um espaço telemático e simbólico (mensagens instantâneas, blogs, softwares sociais, microblogs, websites) mantendo certa permanência e fazendo com que os participantes sintam-se parte de um agrupamento de tipo comuntário. 107 Hoje é difícil encontrar um internauta que não participe dessas agragações sociais online. No Brasil, é raro um internauta ativo não ter uma página no Orkut, por exemplo. As ferramentas são acessíveis, fáceis de usar e gratuitas. Todos os novos sistemas, como Blogger, Google Maps, GloogleEarth, Orkut, Facebook, Myspace, etc, oferecem esses espaços para criação de páginas, blogs e comunidades sem nenhum custo ao usuário. (...) Cada vez mais os jovens usam estes sistemas e SMS por celulares em detrimento de e-mails ou antigas salas de chats. 113 Podemos dizer que, em um futuro não tão longínquo, as comunidades que terão definido melhor nossa identidade serão as nações de signo, as nações virtuais, as famílias de espírito, isto é, as comunidades de eleição que adotaremos, talvez depois de ter experimentado várias a fim de escolher aquela que melhor nos convém. 121 As cidades se desenvolvem como “sociedades em rede” (física, simbólica, cultural, política, imaginária, econômica). A particularidade contemporânea é a hegemonia de um conjunto de redes, as redes telemáticas, que passam a integrar e mesmo a comandar (cibernética), as diversas redes que constituem o espaço urbanoe as diversas formas de vinculo social que daí emergem. 125 O termo cidade digital (ou cibercidade) abrange quatro tipos de experiências que 93


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relacionam cidades e novas tecnologias de comunicação. Em primeiro lugar, e parece ter sido essa a origem do termo, entende-se por cidade digital projetos governamentais, privados e/ou da sociedade civil, que visam criar uma representação na web de um determinado lugar. 131 A finalidade de todas essas comunidades é, essencialmente, criar sociabilidade, redes de conversação e de ajuda mútua a fim de revitalizar tanto as vizinhanças locais quanto os processos democráticos. 134 No Brasil, o Ministério das Comunicações elaborou um plano nacional de cidades digitais para levar banda larga a todo o país, esses projetos estão em andamento em todo o país. 141, 142 A transformação dos governos locais e nacionais em direção a uma maior transparência, eficiência e proximidade do cidadão está apenas começando. Ela prosseguirá rapidamente nos próximos anos, incentivada pelo movimento da sociedade por uma oferta comercial de conselhos e de soluções de e-gov cada vez mais agressivas, e sem dúvida, graças ao desenvolvimento de comunidades governamentais e intergovernamentais. 152 O governo brasileiro pretende, entre outras coisas, diminuir a exclusão digital existente no páis. A grande questão consiste em lidar com a exclusão digital em um país como o Brasil, que conta com altos indices de analfabetismo e uma enorme desigualdade economica e social em suas regiões. 158 Nessa globalização da visibilidade, devemos chamar a atenção também para novos sistemas que podem ser usados para monitoramento, controle e vigilância dos individuos e, consequentemente, da opinião pública mundial. Qualquer movimento de pessoas, coisas ou informações deixam marcas e podem ser monitorados eletronicamente para fins mercadológicos, politicos ou policiais. 166 No que concerne ao consumo, podemos agora, e poderemos de forma cada vez melhor no futuro, conhecer não somente as condições biológicas, ecológicas, políticas e sociais sobre quais foram produzidos os bens propostos ao nosso consumo, mas ainda avaliar o impacto que nossas escolhas terão sobre o conjunto do circuito ecológico, econômico, político e social. 175 O futuro governo mundial poderá se constituir como uma federação de agrupamentos continentais a partir de um resforço progressivo dos poderes da ONU, ou a partir de uma combinação dos dois processos ao mesmo tempo. 177 A utopia da ciberdemocracia não ignora relações de força e faz como se todos os seres humanos fossem animados pelas melhores intenções. Essa é precisamente a tela de fundo sobre a qual se desenrola a reflexão filosófica ou política. 180 O Estado não poderá tornar-se mundial ou universal antes que todos os riscos de ditaduras, de genocídios culturais ou totalitarismos tenham sdo relegados à memória da humanidade, como etapas superadas da evolução histórica, ao mesmo titulo que a tortura legal, a escravidão, a censura ou ainda as inegalidades de direitos. 187 O Estado universal se articularia em quatro níveis: mundial, continental, nacional e regional. Seria possível que níveis regionais ou mesmo nacionais, se identifiquem progressivamente à zona de influencia de grandes metrópoles que vão, provavelmente, tornar-se os elementos de base da nova malha política mundial. 192 O futuro Estado transparente encorajará, por disposições fiscais, ajudas, comandos ou participações públicas, a criação de ágoras virtuais locais, nacionais, continentais e mundiais próprias a estimular um debate democrático aberto e fino de todos os cidadãos interessados em todas as escalas de gorvernança, compreendida aí a escala


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mundial. Espalharia no espírito do público, e particularmente nos jovens, uma melhor compreensão das interdependências que tecem o sistema complexo que a sociedade humana forma com a natureza, contribuindo para formar gerações mais conscientes e responsáveis em relação a saúde humada e à preservação de um ambiente próprio a vida. Deve-se prever, talvez em um futuro menos longínquo do que imaginamos, que as nações poderão ser desaclopadas dos territórios físicos. (...) Elas serão muito mais ligadas às línguas, religiões, disciplinas, densidade de cooperação econômica ou intelectual, ao trabalho, idéias, paixões, musicas, ou seja, as culturas, a tudo que é de ordem semântica e relacional, do que ao acaso dos lugares de nascimento. O Estado univeral do futuro garantirá direitos a linhagens culturais diferentes. A verdadeira força de uma linhagem não se encontra de forma nenhuma, em uma conjunção com o poder de Estado, mas em uma potencia criadora que so pode vir do interior O futuro Estado mundial expressará bem um povo, mas, em vez de um povo diferente de outro povo, tratar-se-a do povo de diferenças, o conjunto da humanidade se constituindo em um único povo, povo de todas as músicas e de todos os temperos, povo multicolorido da rede das metrópoles planetárias e do ciberespaço, cuja cultura entrecruza as comunidades virtuais e as tradições. A primeira dessas abordagens consisitiria em fazer da cidade real uma representação, um símbolo, uma encarnação visível do reino invisível. Do ponto de vista de um pensamento social, isso significa que cada um de nós representa uma idéia original da sociedade que ele mesmo constitui, pelo exemplo que ele dá, pelas mensagens que ele propaga cada vez que age. Dessa maneira, as inteligências diferentes compreendem-se no sentido cognitivo e topológico, elas se refletem mutuamente e multiplicam-se umas nas outras. Trata-se de para o sucesso da ciberdemocracia do futuro, jogar deliberadamente o jogo da inteligência coletiva.


O futuro da internet