Page 1

Ana Teresa Jardim

No fio da noite


A bola, um mosaico de cacos de espelhos, girava lentamente no teto. A luz da rua refulgiu na superfície facetada, ferindo-me de leve os olhos. Naquele momento ouvi o grito furar as paredes frágeis do sobrado, atravessar as portas fechadas e espalhar-se pelos corredores. A princípio era um grito fino. Então a dor sufocou a pureza do tom. O grito se tornou grave, quase mudo. Em seguida, retomou sua expressão de horror. Era contínuo, demorado, rouco, e diferia de forma assustadora dos gritos e gemidos ouvidos naquela casa. Um silêncio atento o envolvia, como um mar de veludo. Levantei a cabeça do travesseiro, apoiando-me nos cotovelos. Tinha ido ao quarto para fumar e ficar sozinha durante alguns minutos. Sentei-me na cama, sem querer me alarmar, achando que o grito tinha uma explicação. Ia passar desaper-


10

a na teresa jard i m

cebido, nunca mais alguém se lembraria. Fiquei olhando para o poste de luz, indolente e desperta diante da janela larga. Então ouvi ruídos misturados. Primeiro, as portas dos quartos se abrindo; alguém descendo as escadas. A seguir, os clamores estridentes das mulheres. Apaguei a cigarrilha fumada pela metade, levantei-me e adentrei o corredor escuro. A porta do quarto de Irena, ao fundo, estava entreaberta. De onde eu estava, podia vê-la deitada de bruços sobre a cama. A silhueta de uma faca enorme encravada em suas costas imóveis se destacava contra a parede. Fui caminhando lentamente até ela. Sonya, Iracema, Olenka, Soledad, Perla e Muriel estavam em pé, chorando, falando ao mesmo tempo. Sonya amparava Dona Berta. Quando me viram, as meninas intensificaram seus lamentos. Dona Berta jogou os braços para o alto, deixando cair o xale que cobria a camisola. — Nena! — e repetia: — Nena! — Como se não soubesse mais o que dizer. Não é que não fosse incomum que prostitutas fossem assassinadas. Mas não assim, numa segunda-feira. Não Irena, que era tão jovem que não tinha dinheiro nenhum, nem bem nenhum que lhe pudessem roubar. Quem teria entrado ali para fazer tal coisa, e por quê? Era preciso chamar a polícia. Desci as escadas. Um único cliente, naquele dia normalmente parado, de segunda-feira, num horário de movimento ainda escasso — 11:30 da noite — ressonava numa poltrona no salão, tendo certamente tomado uns copos a mais. Consultei os números rabiscados na parede, ao lado do telefone: hospitais, bombeiros, o necrotério. — Boa noite. Posso falar com o delegado? É um assassinato. Corrêa Vasquez, 25. É, no Mangue.


no fi o da no i te

11


12

a na teresa jard i m

Vi logo que aquilo ia demorar. Resolvi eu mesma procurar um policial na rua. Vesti, por cima do corpete de renda preta e as meias finas, a única coisa que achei à mão: um impermeável pendurado, ao lado de um chapéu de feltro, no cabide do vestíbulo. Pertencia ao cliente que dormia sentado, e tão cedo não ia acordar. Andei até a esquina, de chinelos, por entre as fracas luzes e a neblina da noite úmida. Ouvi o ruído de um motor de carro mas não pude distinguir se vinha de perto ou de longe. A névoa afetava a percepção de proximidade e distância. Finalmente, reconheci o vulto de um policial fazendo a ronda. — Como? Assassinato? No vinte e cinco? — É lá mesmo onde o senhor está pensando. Vamos, lhe dou um café quente. Um conhaque. — Gripado? Eu também. Há de ser a umidade destas ruas. Não, eu não tenho tuberculose. Graças a Deus. Ora, tossir todo mundo tosse, é bom pra quando falta assunto, não é mesmo? Grandes pigarros. Mas então, o senhor venha fazer o seu trabalho. Existe uma moça morta, a alguns quarteirões daqui. E uma faca comprida enterrada tão fundo em suas costas que nenhuma de nós conseguirá tirá-la. O policial foi andando devagar. Ah, da Argentina, de onde eu vinha, era tudo um pouco diferente: um policial era uma criatura prestativa, expedita, audaz. Este guarda parecia estar sonhando acordado. Aliás, todos pareciam ultimamente andar sonhando naquela cidade... O sobrado tinha um ar silencioso, visto assim de longe. Os moradores das outras casas da rua boêmia se haviam recolhido mais cedo. Só uma mulher com ar cansado, ainda maquiada, regava uma fileira de vasos de gerânio numa janela térrea. O guarda escalou lentamente os íngremes degraus de madeira


no fi o da no i te

que levavam ao segundo andar. Sentadas ao redor da cama, Dona Berta e as meninas choravam e rezavam com estrepitosa comoção. O corpo de Irena estava virado de lado e arrumado, um lenço de seda cobrindo a faca. O quarto havia se transformado numa bizarra mistura de altares improvisados com imagens religiosas de procedência variadas. Ícones russos ao lado de santos católicos poloneses, portugueses e espanhóis, candelabros judaicos, uma Iemanjá metade sereia metade mulher com manto de cetim azul. As luzes apagadas e as velas ardendo. Dona Berta, quando me viu, emocionou-se novamente. — Nena! — recomeçou. Providenciaram um banquinho para o policial. Ele sentou-se, mas ficou pouco tempo. Primeiro, tomou nota da ocorrência num bloquinho amarfanhado que tirou do bolso. Fez as perguntas de praxe. Não aceitou o café. Finalmente, destacou uma tira de papel e entregou-a a Dona Berta, que a guardou sob a imagem de Nossa Senhora da Conceição. — Aí está o número da ocorrência. De posse dele, a senhora pode acompanhar o andamento do caso na delegacia. Dona Berta perguntou-lhe quem iria tirar a faca das costas de Irena para que a pudessem virar de costas. O guarda disse-lhe que ela mesma, já que não havia contingente policial suficiente naquela noite para que fossem enviados homens especializados. Ele próprio não saberia fazê-lo. — Pois saiba que é um absurdo, a falta de consideração com que são tratadas as prostitutas. E fique o senhor sabendo também que, apesar de sermos estrangeiras, temos os nossos direitos. Nossa pensão de mulheres, no Mangue, abrigava prostitutas mais humildes, e não as famosas “francesas”, que cobravam mais caro, tinham clientes mais ricos e viviam em relativo luxo. Essas francesas, muitas vezes, nem de fato o eram, mas fingiam

13


14

a na teresa jard i m


no fi o da no i te

serem amostras das notáveis cortesãs que tanto incendiavam a imaginação dos cavalheiros locais. O fato foi que acabamos ficando com a sinistra incumbência. Mirtes lembrou-se de que conhecia um dentista, antigo cliente, que poderia ser encontrado no Café Trianon àquela hora. Dona Berta catou na gaveta do criado-mudo de Irena alguns trocados para que Mirtes pudesse pagar um táxi e ir buscá-lo. Dona Berta tinha um plano. Havia pensado nisso enquanto eu fora buscar o guarda. As outras todas já sabiam, a essa altura, e estavam de acordo. — Não, Nena, não tire a capa — disse ela. Você vai sair e investigar a morte de Irena. A polícia é cúmplice de todos os marginais desta cidade. Temos que nos proteger a nós mesmas. O assassino não pode continuar solto. É preciso fazer justiça. A nossa vida era mesmo uma difícil vida fácil. Geralmente, éramos enganadas, muito cedo, por algum noivo ou parente inescrupuloso e traficadas para lugares distantes. E na nova terra, tínhamos que lutar sozinhas pelos nossos parcos direitos, sem proteção das autoridades. Muitas vezes éramos oprimidas por cáftens cruéis, e vítimas constantes de toda sorte de infelicidades que acometem a quem vagueia pelo submundo. Deixamos o cadáver só e descemos até a cozinha. Passamos pelo salão sem fazer barulho para que nosso hóspede, entregue a Morfeu, dos seus braços não se apartasse. O dono da capa de chuva dormia com um sorriso beatífico nos lábios, e de vez em quando murmurava palavras doces, como se tomado de um encantamento inquebrantável e dulcíssimo. Acomodamo-nos na cozinha do sobrado. Tito, filho da finada Elzinha, também ela assassinada muitos anos antes em condições dramáticas, morava conosco. Tinha treze anos, e além de incumbir-se de pequenas tarefas relacionadas com o funcionamento

15


16

a na teresa jard i m

do bordel, dirigia uma carrocinha puxada a bicicleta que vendia quitutes dia e noite. Eram os então famosos Quitutes Paraíso. Só que nessa noite fria de agosto, ele havia esquecido o boné de feltro em casa, e tinha voltado rapidamente para buscá-lo. Quando estava a ponto de subir, viu um homem sair de um dos quartos e descer desabaladamente as escadas, ofegante e apressado. Reconheceu-o de pronto, mas teve o cuidado de esconder-se num vão debaixo da escada, na sombra. Foi dali que avistou perfeitamente Filhinho, o filho adotivo de Jorge Maneta, famoso gângster do Rio de Janeiro naqueles idos anos da década de 20. Filhinho ia com pressa. Mas Tito não ouvira o grito de Irena, que ressoara exatamente alguns segundos antes dele chegar. Só foi entender o que havia ocorrido quando subiu e juntou-se às mulheres que acorriam ao quarto da vítima. Soledad fez um café forte. — Chá para nós — pedimos Muriel, a inglesa, e eu. Sentadas ao redor da mesa, conversamos sobre o que fazer. Tito fez umas torradas e preparou uma grande frigideira de ovos com toucinho. Dali a pouco chegava o Dr. Soares, o cliente dentista de Mirtes. Consternado, sentou-se e comeu antes de subir para retirar a faca das costas da morta. O dentista achou uma temeridade a ideia de Dona Berta e das meninas, de investigarmos o crime por conta própria. — Crime não é coisa de mulher. Vocês vão é se meter numa bruta enrascada. Mas nossa comoção era, também, uma espécie de insurreição tardia. Havíamos finalmente nos cansado de nos sentir desprotegidas. Eu havia sido escolhida por ser considerada a mais corajosa e mesmo um pouco fria. Realmente, nunca me haviam visto envolvida em complicações emocionais. Era jovem, inteligente e um pouco destacada de tudo. Dona Berta dizia que as


no fi o da no i te

mulheres graciosamente pequenas como eu tinham uma têmpera de aço, ela própria uma baixa que havia arredondado as suas formas até que restasse pouco da disposição férrea que me atribuía. — Nena é sagaz, vai descobrir a verdade. Vá, filha, não há tempo para se arrumar. Ponha-se a caminho enquanto os fatos ainda estão frescos, e a noite jovem mal esconde os assassinos. — Mas eu não posso ir de chinelos. Calcei uns sapatos de salto e foi assim que ganhei as ruas, ao som de exortações e lamentações, as mulheres levando-me até a porta dos fundos, Dona Berta trazendo nas mãos um ícone russo, as outras desfiando terços, recomendando e acenando. Lá fui eu, pelas ruelas desertas e úmidas. Não podia ir direto atrás do Filhinho e interpelá-lo, ou mesmo dar queixas dele sem prova nenhuma. Precisava descobrir porque ele havia feito aquilo — e só então dar parte à polícia. Minha ideia inicial era tentar obter alguma informação com os malandros que jogavam pôquer na Praça Tiradentes. Mas para isso, dissera Dona Berta, era preciso levar comigo um passe, ou jamais me receberiam. E era isso que eu ia buscar, no cemitério das prostitutas, cáftens e marginais.

17

No fio da noite  

Uma mulher é assassinada num prostíbulo do Mangue na década de 1920. Na tentativa de desvendar o mistério, Nena, uma prostituta argentina, s...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you