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Carta ao pai

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de Franz Kafka

a n a l i s a d a

p o r

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Paulo Marchon


P r e f á c i o

A Carta ao Pai de Franz Kafka tem sido lida e relida por todos os apreciadores, biógrafos e estudiosos da obra extraordinária do genial autor tcheco, um dos mais marcantes expoentes da revolucionária modernidade da literatura do século XX. Paulo Marchon certamente faz parte desses admiradores e terá sido esse entusiasmo que o levou a debruçar-se tão minuciosamente sobre um dos livros mais pessoais de Kafka, examinado por tantos críticos e pesquisadores. Como Proust e Joyce, Kafka soube criar um universo singular e transformou, por isso, seu nome em um adjetivo qualificador de uma situação absurda e incompreensível — a palavra “kafkiano” — que evoca, como mostra Houaiss em seu dicionário, uma atmosfera de absurdo e de pesadelo. Ora, como sabemos, poucas coisas serão mais atraentes para um psicanalista do que encontrar a interpretação de um sonho. Contemporâneo de Freud e, como ele, um súdito do Império Austro-Húngaro, Kafka, com sua obra enigmática e sua personalidade singular, terá exercido no analista brasileiro um fascínio de tal monta que, sem que pudesse evitá-lo, terá sido impelido a embrenhar-se na individualidade e nos conflitos do criador de um mundo tão original — e, ao mesmo tempo, tão semelhante, em seu irracionalismo, àquele de nosso inconsciente. E o inconsciente é o objeto do trabalho do psicanalista. Paulo Marchon é um de nossos psicanalistas mais experientes. Médico e psiquiatra, formado em psicanálise pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (Rio II) em 1969, radicado atualmente em Fortaleza, exerce há mais de quarenta anos uma intensa prática clínica. A complementá-la, com o mesmo vigor tem se dedicado à atividade didática no ensino e na difusão da psicanálise e na colaboração pioneira para o estabelecimento do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Fortaleza. Todos esses conhecimentos adquiridos em tantos anos de trabalho e estudo foram sendo, ao longo dos anos,

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compartilhados em artigos, publicados em revistas especializadas no Brasil e no exterior, em relatórios a Congressos Psicanalíticos, palestras etc. Em 2009, seu livro Flutuando atentamente com Freud e Bion foi publicado pela Editora Imago. Além da psicanálise, Marchon possui também outra paixão, que o leva à leitura cotidiana e renovada de clássicos como Sófocles, Racine, Cervantes e Ibsen, e de modernos, como poetas e ficcionistas contemporâneos (não será por acaso que é casado com uma professora de literatura). E esse amor pela literatura terá contribuído também para que, após “flutuar” com Bion e Freud, Marchon tenha sido levado pelas ondas de Kafka. Nelas, pôde reunir suas duas inclinações, tendo como tema a carta que Franz dirigiu ao seu pai e, portanto, à relação Pai-Filho entre o Sr. Hermann e seu filho Franz. E, sob uma perspectiva psicanalítica, pôde conduzir-nos por suas ideias a respeito dos conflitos e fantasias do homem Franz Kafka expressos na fala da Carta. Já no início, Marchon nos avisa que seguirá a Carta ao Pai como uma livre associação de ideias e que o texto de Franz é fruto dos “diversos dramas da extraordinária vida de Franz Kafka: a tuberculose e os três noivados desfeitos, o último dos quais terá sido o estopim que desencadeou esta carta”. Ao contrário do Sr. Hermann, Marchon não coloca no criado-mudo o livro que Franz lhe oferece. Nem criado, nem mudo, nem objeto inanimado e indiferente, e, pelo contrário, levado pelo impulso de conhecimento, Marchon procura dialogar com Franz, compreender suas razões, suas motivações e fantasias inconscientes. Busca também, nas biografias mais autorizadas, os fatos que podem ser associados ou confrontados com as confidências do autor da Carta. Procura encontrar o homem chamado Franz no escritor Kafka. E tudo se passa como se procurasse conhecê-lo, vencendo as barreiras do tempo e da transitoriedade. Para dialogar e, como é comum entre amigos, às vezes discutir com ele. Sem vestir as roupagens do analista onisciente e incapaz de duvidar das próprias interpretações — as quais, como na fábula, sempre revelam um “rei” nu.

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Enquanto vai alinhando suas ideias, em paralelo com as de Franz em sua carta, Marchon vai trazendo as informações e os dados biográficos que também nos incitam a pensar e estimulam nosso interesse


sobre o livro — e, é claro, sobre seu tema: o genial autor de A metamorfose, de O castelo e de tantos outros romances, contos e novelas inesquecíveis. Como “Um artista da fome”, escrito com a dor do próprio sofrimento, internado em um sanatório, “faminto, morrendo de fome e sede” e, ao final, em lágrimas, em um dos momentos mais comoventes narrados no livro de Marchon. Desse modo, o texto do livro vai fluindo, sempre motivador, seguindo o curso de três vertentes principais que correm paralelas e se intercomunicam incessantemente. A primeira, a própria Carta ao Pai de Kafka. A segunda, trilhando principalmente a carta dirigida por Marchon a Franz. E a terceira, centrada no enfoque psicanalítico, no qual Marchon reúne os dados biográficos do escritor ao conteúdo da Carta e aos conteúdos de outras obras suas, determinando o surgimento de novos significados, vindos do inconsciente. Tais significados, Marchon procura encontrá-los, dedicando-se à tarefa de modo inteiro, sem limitações, com franqueza e, por que não dizê-lo, com paixão. Poderemos concordar ou não com as perspectivas do psicanalista. Mesmo assim, apesar de qualquer discordância, esta leitura certamente aumentará nosso conhecimento sobre Kafka, aquele que Milena descreve como “um homem recluso, um homem sábio com medo da vida”. Ao lado disso, os conhecimentos e hipóteses trazidos por Marchon serão capazes de incentivar nossos pensamentos sobre tantas questões psicanalíticas abordadas na obra. E farão crescer ainda nossa capacidade de reflexão a respeito do ser humano e de sua alma — desnudada por Kafka, estudada por Freud e aqui observada pelas lentes de um psicanalista que soube lê-los atentamente.

Rio de Janeiro, 12 de maio de 2012 Roberto Bittencourt Martins, psicanalista, escritor e psiquiatra, ex-

presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (Rio II), publicou diversos artigos nas melhores revistas de psicanálise e literatura

do Brasil e do estrangeiro. Escreveu o romance Ibiamoré: o trem fantasma e

os livros de contos O vento nas vidraças e Ardente amor e outras histórias.

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Mas esta dedicatória [“A meu pai”] do livro “Um médico rural” eu a fiz ironicamente. Acabei de terminar ontem uma carta de cem páginas dirigida a meu pai (...) na qual, de alto a baixo, me confronto com ele.” (Kafka, em Lemaire, p.215)

Quando Kafka entregou um exemplar do livro “Um médico rural”, dedicado ao pai, este disse: “Coloque em cima do criado-mudo” (Pawel, p.387).

Devemos chamar a atenção para o fato de que estamos apenas apontando fantasias de Kafka, a maior parte delas, a nosso ver, inconscientes. Frisamos que não correspondem a atos, ou possíveis e prováveis ações. Quando aqui nos referimos aos atos, eles foram contados pelo próprio Kafka ou extraídos de biografias altamente credenciadas. Seguimos sua Carta ao Pai como se fosse uma associação livre de ideias. Algumas repetições nossas são necessárias, e outras, por certo, desnecessárias. Os dados biográficos de Kafka são baseados nos autores Ernst Pawel, Gérard-Georges Lemaire, Louis Begley e, fundamentalmente, Max Brod, a fonte extraordinária para todos que desejam conhecer Franz Kafka. Paulo Marchon

(...) eu penso que é legítimo basear interpretações psicanalíticas em uma história do caso de um paciente (...) a quem eu nunca vi, mas que escreveu sua própria história e a trouxe impressa diante do público. Sigmund Freud (Caso Schreber, p. 9) 10


Marcelo Backes, no prefácio de sua tradução da Carta ao pai, afirma: “Canetti diria que por causa de Kafka — e depois de Kafka — qualquer bravata, aberta ou disfarçada, se tornou ridícula. E quem é capaz de bravatear, de mostrar jactância depois de ler a “Carta ao pai?”(p.7)

Einstein devolveu um livro de Kafka, que Thomas Mann lhe havia emprestado, dizendo:“Não pude lê-lo por sua perversidade. A mente humana não é tão complicada assim”. Cabe saber se a pergunta de Einstein foi antes ou depois de Auschwitz?

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Fran z e os t r ê s noivad os Para chegar à Carta ao pai, talvez fosse importante conhecer, entre os diversos dramas da extraordinária vida de Franz Kafka, pelo menos quatro deles, intensamente sofridos: a tuberculose e os três noivados desfeitos, dois deles com a mesma moça, Felice Bauer, e o outro, o terceiro e último noivado, com Julie Wohryzek, que teria sido o estopim que desencadeou essa Carta. Mas vamos começar um pouco antes: Elli, a irmã de Franz, havia se casado com Karl, um rapaz de muita conversa, porém acompanhado de um dote de três mil florins, uma considerável soma para a época. O pai de Kafka, Hermann Kafka, viu ali a possibilidade de sair da condição de comerciante e partir para o clube seleto dos industriais. Falou com Franz, seu filho mais velho, sobre a instalação de uma fábrica de asbesto, dotada de um motor que acionaria 14 máquinas e 25 operários, em sua maioria, mulheres. Tudo feito, provavelmente conversado e tratado, Franz, que já trabalhava até as duas da tarde na empresa de seguros, viu-se em apuros ao defrontar-se com a dura realidade: deveria presidir a fábrica de asbesto, uma vez que a função de seu cunhado, Karl, era de viajar e vender o produto. Além do mais, ao final, Karl foi convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Por essa época, Franz escreveu no seu Diário: “Meu pai me fez críticas ao meio-dia porque não me preocupo com a usina. Expliquei-lhe que entrei na sociedade porque achei que teria benefícios, mas que não posso colaborar tanto porque tenho meu emprego de escritório [onde trabalho até duas da tarde]. Meu pai continuou discutindo comigo, eu fiquei de pé, perto da janela e me calei.” O motivo fundamental é que Kafka queria o tempo livre para escrever suas histórias, suas maravilhosas histórias (Lemaire, p.147).

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O tempo passou, e o clima emocional com o pai se deteriorou: “O tormento que a usina me causa é insuportável. Por que me deixei levar quando me impuseram a obrigação de ali passar todas as tardes?” Em março de 1912, a aflição se tornou avassaladora: “Anteontem suportei críticas a propósito da usina. Depois disto fiquei uma hora no sofá


pensando no salto pela janela”. Franz resolveu contar tal ideia ao grande amigo, Max Brod, que, aterrorizado, escreveu à sua mãe. Essa respondeu muito sensibilizada, temerosa do que poderia acontecer com o filho e concluiu: “Falarei hoje mesmo com Franz, sem mencionar sua carta [conforme você pediu], e lhe direi que a partir de agora ele não precisa mais ir à fábrica” (Brod, p. 94). Inicialmente, tudo seria escondido do pai, o que deve ter provocado em Franz as referências na Carta ao pai de que a mãe fazia coisas para ele sem que o genitor soubesse. Em seu Diário, em 20/08/1912, ele escreveu que encontrou Felice, sua futura noiva, na casa de seu grande amigo Max Brod. Começou com Felice uma correspondência intensa, dedicou-lhe seu conto O Veredicto, considerado seu primeiro grande feito literário. Poucos meses depois, em novembro, escreveu para a moça: “Minha cara, não me deves escrever, eu também não escreverei mais. Eu a faria infeliz se escrevesse e, quanto a mim, nenhuma ajuda pode me ser dada” (Lemaire, p. 153). Max Brod diz que, não obstante essa carta, a correspondência entre Praga, a cidade de Kafka, e Berlim, que era a cidade de Felice, continuou intensa (Max Brod, p. 140). Em setembro de 1913, ele escreveu para Max Brod que a ideia de uma lua de mel o apavorava (Max Brod, p.144). Em 2 de junho de 1914, depois de uma crise no namoro, oficializou o noivado, que não duraria muito tempo. No reatamento do casal, Felice e Franz chegaram a se encontrar com a mãe de Kafka no local de férias conhecido da família, Franzenbad. Juntos, eles escreveram cartas à mãe de Felice e ao amigo Max Brod. A data de 9 de julho de 1917 selou o segundo noivado com Felice. Logo no final de julho, ocorreu o rompimento do segundo noivado com Felice, também em Berlim. Estranhamente, realizaram uma reunião para tal ruptura. Franz escreveu e contou para Max Brod algo assim: "A corte de justiça [assim ele denominou as pessoas que vieram ouvilos para desfazer o noivado com Felice] estava instalada no Hotel Askanischen Hof (...). Presentes na conversa decisiva estavam não apenas Felice, mas também sua amiga Grete Bloch e Erna, irmã da noiva. Então a cena com os pais: solitárias lágrimas de parte de minha

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mãe. Eu contei a história toda. O pai a compreendeu corretamente em todos os aspectos. Ele veio de Malmö por minha causa. Viajou a noite toda. Estava sentado em manga de camisa. Eles admitem que eu tenho razão, que não há nada, ou ao menos não muito que possa ser dito contra mim. Diabólica em toda a inocência (Brod, p. 145-6)."

Lemaire, um dos seus biógrafos, acrescentou ainda, como participante da cerimônia, o amigo de Kafka, Dr. Ernest Weiss, médico e romancista. Grete Bloch, amiga de Felice, foi também, nesse entretempo, alguém que despertou o interesse amoroso de Kafka. Pelo menos depois, muito depois, ela alardeou o romance e disse que teria tido um filho dele, tendo o menino falecido aos sete anos. Kafka não teria sabido dessa história, e Max Brod viajou o mundo para confirmá-la ou infirmá-la, mas não encontrou quaisquer dados objetivos. Lemaire nos conta: “Quando mais tarde Felice lhe escreve, ele responde friamente que a detesta, e deixa claro que é a última carta que lhe enviará” (p. 166). Mas não seria a última, nem a penúltima. Aliás, recomeçou com um telegrama de reatamento em 27 de outubro de 1914 e depois cartas e mais cartas. Justificou seu procedimento revelando algo extremamente verdadeiro ao dizer que tinha, dentro de si, dois inimigos a se combaterem sem cessar: “O primeiro é dependente do segundo; nunca, nunca por motivos interiores, seria possível abatê -lo...” (p.168). Explicou a Felice que ele foi muito amparado emocionalmente pela irmã dela, Erna, no período entre o fim do noivado e sua tentativa de retorno. Só em 1915, quase um ano depois da ruptura do noivado com Felice, ele interrompeu os encontros com a irmã de sua ex-noiva. Ao final, Erna se casou e saiu da vida de Franz. Poucos meses após, a tuberculose foi diagnosticada, depois de uma hemoptise. Ele revelou a Felice seu sentimento de que não poderiam continuar “vivos os dois, eu e ela”. No caso, “ela” era a tuberculose. Franz desfez o noivado. Felice foi à sua procura, mas em vão. Acabou-se, finalmente, o noivado.

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Por um tempo, viveu em casa de sua irmã Ottla: “Levo com Ottla uma boa vidinha conjugal”. Quando se encerrava o ano de 1918, a guerra findando, ele conheceu Julie. Depois de intensa correspon-


dência e evolução afetiva, por fim, aos 36 anos, foi comunicar ao pai o desejo de se casar com Julie, ao que esse respondeu: "Ela provavelmente colocou uma daquelas blusas bonitas, de um jeito que só as judias de Praga sabem como, e é claro, você instantaneamente decidiu casar com ela. E com toda a pressa possível, em uma semana, amanhã, hoje. Eu simplesmente não consigo entendê-lo, você é um homem feito, você vive na cidade, e ainda assim não consegue fazer melhor do que casar com a primeira garota que aparece. Você realmente não consegue ver as alternativas? Se você está assustado, eu irei com você."

A reação horrível do pai não impediu que Franz continuasse a relação com a moça, mas parece tê-la abalado muito. Lemaire escreveu a respeito: "A cerimônia do casamento está prevista para o domingo; na sextafeira eles ficam sabendo que a moradia [que pretendiam alugar] não está mais disponível. Tudo desmorona. Por outro lado, seu pai não está satisfeito com essa perspectiva. Kafka precisa renunciar mais uma vez ao casamento. De qualquer modo, ele precisará voltar a Schlesen em companhia de Max Brod, pois a doença, a tuberculose pulmonar, voltou. Lá ele escreveu a violenta Carta ao pai, que termina com uma melancólica meditação sobre o casamento e as qualidades necessárias para alcançá-lo (p. 178)."

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Max B r od e a histór i a da Carta ao pai

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O próprio Max Brod (p. 15-6) nos diz que a infância de Kafka foi marcada “pela impressionante importância da imagem de seu pai – exagerada em sua grandeza”. Um dos últimos escritos de Kafka lida com essa questão. “Em novembro de 1919, quando estávamos vivendo juntos em Schelesen, perto de Liborn – este é o motivo porque eu posso reconstruir a atmosfera daqueles dias exatamente – ele escreveu uma pormenorizada Carta ao pai. Trata-se de um trabalho que dificilmente se poderá chamar de uma carta, pois é um pequeno livro, que ainda não pode ser publicado”. À época, seu grande amigo pensava assim, mas há muito anos a Carta é amplamente publicada e difundida. Ao mesmo tempo, é certamente um dos mais marcantes e, apesar de sua simplicidade de estilo, um dos mais complexos documentos que lidam com uma luta pela Vida. Max Brod afirma: “Em algumas passagens, é fácil, naturalmente, encontrar alguma correspondência com as teses da psicanálise, mas elas estão mais confinadas à superfície dos fatos e não conseguem atingir suas mais profundas implicações”. Max Brod continua: “Posso testemunhar que a Carta era para ser entregue ao seu pai através de sua mãe, e Kafka estava, por algum tempo, persuadido de que, por esta Carta e através dela, ele estava fazendo algo para resolver sua relação com o pai, que estava angustiantemente estagnada e dolorosamente traumatizante. Na realidade, o oposto é que teria provavelmente acontecido. O objetivo almejado com a Carta ao pai nunca iria ser atingido. E a mãe de Franz não a entregou ao pai, mas devolveu-a, provavelmente com umas poucas palavras de conforto. Depois nós nunca mais falamos sobre isto de novo”. O que sabemos é que Franz não fez testamento, mas deixou no apartamento dos pais uma carta para Max Brod ordenando-lhe que queimasse, sem ler, todos – todos – os seus manuscritos, cartas, tanto as que enviara como as que recebera, diários, tudo, mesmo o que pudesse estar sob o domínio de outras pessoas. Quanto ao que estivesse em mãos de outros, “pede-os em meu nome. As cartas que não quiserem entregar a ti, ao menos que prometam lealmente queimá-las, eles mesmos”.


Louis Begley, também biógrafo de Kafka, transcreve parte de outra carta sua: “De todos os meus escritos, os únicos livros que podem ficar são O veredicto, A metamorfose, Na colônia penal, Um médico rural e o conto Um artista da fome. As poucas cópias de A contemplação podem permanecer. Não quero dar a ninguém o trabalho de macerá -las; mas que nada desse volume volte a ser publicado” (Begley, p. 8). Essa segunda carta permitiu a Max tomar posse dos escritos deixados por Franz na casa dos pais. Entre esses escritos estava nada mais, nada menos, do que a famosa Carta ao pai. Há algum tempo, Franz vinha considerando a Carta como tendo também valor literário. Dora Diamant, a última e grande amada de Kafka, com quem ele viveu seus últimos meses de vida, teve grandes objeções para entregar a Max os escritos de Franz que haviam ficado com ela. Por seu grande amor possessivo, sua extraordinária dedicação e devoção alimentadas pelo sofrimento e pelas dificuldades que viveram juntos, Dora não só imaginava que Franz lhe pertencia, mas que um pertencia ao outro. Negava para os editores e para Max Brod possuir escritos dele. Ela amava realmente Kafka. Protestou junto a Max quanto à publicação de suas obras póstumas, o que obrigou o grande amigo a muita diplomacia e tato para desfazer suas objeções. Anos depois da morte de Kafka, ela se casou com Lutz Lask, diretor do jornal do Partido Comunista em Berlim, para o qual ela já havia entrado. Em 1930, ela ainda dizia de seu amor por Kafka: “eu tinha medo de estar dividindo-o com outros”. Em 1933, a Gestapo invadiu seu apartamento e se apossou de cerca de 20 cadernos de anotações de Kafka, bem como, no mínimo, de 36 cartas escritas por ele e endereçadas a ela e, por certo, inúmeros outros trabalhos que, mentindo para Max e para os editores, Dora dizia não possuir. Diante da invasão da Gestapo, passou a pedir desesperadamente o auxílio de Max, que mobilizou o poeta Camil Hoffman, então attaché cultural da Embaixada Tcheca em Berlim, que tentou resgatar os escritos de Kafka pessoalmente. Havia uma montanha de papéis que ainda estão por lá e em outros lugares quase impossíveis de serem identificados e encontrados. A Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, tem um serviço de procura por esses trabalhos de Kafka denominado Kafka’s Project.

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Dora e o marido foram para a Rússia, fugindo do nazismo. Tiveram uma filha. Em 1937, seu marido foi preso em um expurgo stalinista. Sua filha, Marianne, teve uma doença renal que, segundo especialistas da União Soviética, seria curável somente com tratamento fora do país. Pawel (p. 439), um extraordinário biógrafo de Kafka, escreveu: “Se era preciso um milagre para salvar a menina, seria preciso mais do que um milagre, no auge dos expurgos de Stalin, para uma judia nascida na Polônia, esposa de um alemão [considerado] sabotador trotskista já condenado, conseguir permissão para deixar a União Soviética com sua filha de 6 anos”. Em 1938, contudo, Dora e a filha Marianne chegaram à Inglaterra. Em 1952, Dora faleceu. O marido de Dora, Lutz Lask, reapareceu anos depois do final da guerra, mas teve que esperar longos anos para estar com sua filha, pois só em 1973 a Alemanha permitiu que ele passasse alguns dias com Marianne em Londres após 40 anos de separação. Lask faleceu poucos dias depois, ao passo que Marianne veio a falecer em 1982. Foram vidas extraordinárias repletas de sofrimento. A respeito do pai de Kafka, Max Brod diz: “Em toda sua vida Franz se sentiu ofuscado pela figura de seu poderoso e extraordinariamente impositivo pai – alto, de ombros largos – que, ao fim de uma vida cheia de trabalho e sucesso no comércio, mas também cheia de preocupações e doenças, conseguiu deixar uma grande família, filhos e sobrinhos de quem ele tinha um orgulho patriarcal (depois de vender um comércio de atacado na Old Town Square [que ainda existia em 1937] e um bloco de apartamentos no centro de Praga). O modo como esta firma foi fundada por uma família amplamente ramificada e mantida com grande sacrifício e esforço, em bom estilo classe média, exclusivamente pelo cuidadoso, duro trabalho de seu fundador, permaneceu sempre como um exemplo luminescente para a imaginação e o gênio criativo de Franz. Sua admiração pelo pai a esse respeito era sem fim – tinha um toque de heroísmo nela.” (p. 5). Brod considerava um tanto exagerada a admiração de Franz pelo pai.

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Carta ao pai