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Rafael Fioravanti de Almeida

P U N K

A QUESTÃO POLÍTICO-IDEOLÓGICA


PUNK:

A QUESTÃO POLÍTICO-IDEOLÓGICA


PUNK: A QUESTÃO

POLÍTICO-IDEOLÓGICA RAFAEL FIORAVANTI DE ALMEIDA


Título original: Punk: A Questão Político-Ideológica Este livro foi impresso em formato 14 x 21 cm, em outubro de 2015. Revisão: Rafael Fonseca dos Santos Gráfica Dalmar, Piracicaba - SP. As entrevistas contidas neste livro, todas feitas pelo autor Rafael Fioravanti, foram editadas para maior compreensão. A foto da capa foi tirada pelo autor num show da banda Cólera, em novembro de 2012, no Engenho Central da cidade de Piracicaba-SP.


Apresentação Precisamos dizer – nesse caso, deixar escrito e para sempre registrado – que existe muita falta de informação no rock and roll do país. O rock, ao contrário do que muitos pensam, não carece de bandas (basta você procurar conhecer o underground), não carece de qualidade musical, não carece de bons músicos e, tanto em termos musicais quanto em termos de produção, não deve nada à música gringa; absolutamente nada! Tudo bem, precisamos ter em mente que faltam mais oportunidades àqueles que estão começando (até porque é a falta de oportunidades que reduz drasticamente o estímulo dos iniciantes), mas isso é outra conversa. A falta de oportunidade nada mais é do que um fruto da falta de conhecimento. Aquele velho (e ludibriado) dito popular que diz que “música é coisa de vagabundo” e que “não dá dinheiro” é a prova disso. O que eu quero dizer é que, infelizmente, essa falta de erudição perpetua dentro da música brasileira, se estendendo aos músicos, aos fãs que compram os produtos, e àqueles com quem os músicos se relacionam e trabalham num conceito profissional. Dito isso, não é difícil imaginar o porquê de tantos equívocos dentro da música. Isso é falta de erudição. O dito popular que mencionei no parágrafo acima (e que me recuso a repetir, dado seu extremo mal gosto) é apenas a ponta do iceberg. Devemos também ter em mente que muitos conceitos errôneos já se fazem endêmicos ao povo, já são enraizados à crendice popular e apenas continum sendo alimentados. Não me desvirtuarei abrindo o leque e despejando aqui um monte de exemplos. O único exemplo que citarei, e que tem relação com o conteúdo do livro que vocês têm em mãos, é o clássico exemplo de briga entre punks e skinheads. No punk rock (gênero deveras incompreendido e que nada mais é do que uma vertente do rock and roll), todos conhecem essa briga. Isso é famoso entre os fãs do punk rock. É mais ou menos um Boca Juniors e River Plate na Argentina, ou um Fla-Flu no Rio de Janeiro. As brigas entre punks e skinheads são frequentes, geralmente acontecem nas madrugadas das grandes metrópoles mundo afora, e, no passar dos anos, vêm fazendo cada vez 7


mais vítimas. Se ocorre uma briga hoje, amanhã estaremos enterrando alguém. As brigas são violentas, são conhecidas (muitas vezes o pessoal entra no movimento só para brigar) e também irracionais. E o porquê, o motivo, a razão dessa irracionabilidade é algo que eu trato neste livro. Muitos brigam, muitos optam pela violência, muitos vomitam palavras de preconceito e intolerância uns aos outros, mas poucos – pouquíssimos – tiveram o interesse de pegar um livro e depreender a origem de ambos os movimentos, depreender suas raízes. Houve uma desvirtuação da história do movimento e uma das grandes culpadas disso é a grande mídia (são os canais televisivos, são aqueles que insistem em fazer o velho jornalismo marrom). Eu fico temeroso em dizer isso, até pelo fato de eu ser um jornalista, mas tenho o espírito calmo e a cabeça bastante tranquila em saber que estou dizendo a coisa certa. E mais, em saber que, ao escrever este livro, estou fazendo a coisa certa, disseminando erudição e informações genuínas àqueles que se interessam pelo mundo dos skinheads e punks. Na música “Tom & Jerry”, a banda Replicantes, camaradas velhos no cenário punk rock do Brasil, imortalizou um verso que eu considero não apenas um dos mais inteligentes e simpáticos do punk rock nacional, mas também um grande exemplo que deve ser seguido por aqueles que convivem no underground brasileiro: “Seja punk, mas não seja burro.” É isso que eles dizem, e é nisso em que acredito. Bom, para quem ainda não entendeu, este livro está aqui para fazer justiça à história do movimento.

Rafael Fioravanti de Almeida Outubro de 2015

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Preâmbulo Mais algumas palavras. Se, em 1977, os quatro garotos ingleses e delinquentes dos Sex Pistols bradaram em alto e bom tom a famosa máxima “Deus Salve a Rainha”, hoje, em pleno século XXI, ano de 2015, sinto-me no mais reconfortante deleite em gritar “Deus salve o rock and roll”. E qual a diferença? É simples: não há diferença. Assim como o rock and roll, a música punk, sua filha bastarda e ilegítima, conquistou seu espaço no passar dos anos, no passar das décadas, das gerações. E assim como o rock, o punk também deu à luz. A razão da existência da música punk, se você não sabe, saberá nas páginas que se seguem. A razão de sua existência foi uma mera necessidade, foi o desabafo de uma geração que, àquela altura, pasmem, se enxergava sem voz, e pior, sem futuro. Mas não ouse, porém, querer datar o nascimento desse filho ilegítimo do rock. O seu nascimento ocorreu no século XX, é claro, no borbulhar de alguma cidade, agora o ano e o local exato isso ninguém saberá nunca. Uns falam que a música punk surgiu nos Estados Unidos, na Grande Maçã do começo da década de 70; outros dizem que foi no interior dos Estados Unidos; outros preferem a versão de que o nascimento do punk se deu nos cantos cinéreos da cidade de Londres; e outros ainda não economizam ousadia em dizer que o punk nasceu em Lima, capital do Peru. Percebe-se que a coisa toda fica interessante até mesmo aí... No começo do mês passado, 10 de agosto, num artigo on-line publicado por Nash Jenkins na Time, cientistas sul-africanos disseram que uma das mais importantes descobertas dos últimos tempos, ao menos em questões culturais, foram vestígios de cannabis achados no túmulo do famoso escritor William Shakespeare. A tecnologia forense não mente, amigos. De duas, uma: ou os cachimbos encontrados no túmulo do famoso escritor inglês não pertencem a ele – o que, convenhamos, é uma hipótese difícil de ser considerada – ou algumas de suas maiores obras (Hamlet, por exemplo, ou Titus Andronicus) foram escritas sob influência da droga responsável por conflagrar o caloroso debate da descriminalização e legalização das drogas. E 9


é nessa conjectura que eu acredito. Mas também nada disso importa. O que passou, passou; e a história hoje está aí, à nossa disposição. O que eu quero reforçar aqui é que todo assunto tem os seus mistérios. E com o punk não é diferente. Se o punk nasceu em Lima, em Londres ou em Nova Iorque, nunca saberemos. A única certeza que temos, e que podemos encher a boca para afirmar de cátedra na mais genuína convicção, é que o filho ilegítimo do rock incendiou o mundo nas décadas de 70 e 80, e que esse fogo-fátuo continua vivo até os dias de hoje.

Rafael Fioravanti de Almeida Setembro de 2015

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“Oh, put away your good words and your bad words. Spit out your words like stones! Come here! Come here! Come eat my pleasant fruits.” – Anne Sexton, “From the Garden”.

“Eu amo o rock and roll em sua forma mais básica, crua e paleoliticamente rudimentar. Isso mesmo! Eu amo o punk rock e não tenho que me desculpar a ninguém. (...) E mais, eu não dou a mínima se alguém consegue tocar o seu instrumento ou não, desde que a pessoa tenha alguma coisa a dizer e o faça de uma maneira excitante. Porque, para mim, música é qualquer tipo de som feito por um ser-humano e que tem o poder de comover o outro.” – “Free Jazz / Punk rock”, artigo escrito por Lester Bangs, e publicado no final de 1979, na extinta Musician Magazine.


Dedico este livro a todos os poucos que me ajudaram. Dedico-o tambĂŠm aos punks e skinheads mundo afora. Mehr licht.


CAPÍTULO I Nos Estados Unidos, os anos 50 foram uma década de efervescência cultural intensa. A sociedade estadunidense ainda mostrava-se conservadora, e todo esse conservadorismo só viria a diminuir na metade dos anos 60, quando eles estariam mais abertos às mudanças e transformações culturais. A sociedade estadunidense dos anos 50, mais do que qualquer outra, soube aceitar e reconhecer de modo consciente as várias mudanças que vieram para o bem. Na época, a NBC, CBS e ABC (surgidas respectivamente em 1926, 1927 e 1943, com o intuito de massificar o entretenimento) eram os três únicos canais televisivos existentes e a programação era deveras sofrível, com muitos programas de culinária, lutas, desenhos animados, shows de humor, e, principalmente, muita ênfase em programações locais. Com uma programação limitada e ainda amadora, o jeito encontrado na época para amealhar público era apostar em apresentadores. O frontman necessitava de ser desenvolto, prolixo, capaz de angariar a atenção do público do começo ao fim. E na sociedade estadunidense dos anos 50, ninguém cumpriu esse papel tão bem quanto Ed Sullivan. Para ser mais específico, o The Ed Sullivan Show só despontou em 1948, com iniciativa do produtor executivo Marlo Lewis, indo ao ar em 20 de junho desse mesmo ano. Após 24 temporadas e 1,068 episódios, o The Ed Sullivan Show se tornou um dos programas mais respeitados de toda a história da televisão estadunidense. Enquanto a televisão muito evoluía, a música pegou carona nessa onda e passou a evoluir tão rapidamente quanto os aparelhos televisivos. Que fique bem claro, desse momento em diante: os estadunidenses muito devem aos negros. Muito mesmo! O blues estadunidense, tal como hoje o conhecemos, através da voz marcante de Janis Joplin, através da guitarra de Stevie Ray Vaughan ou através dos arranjos cheios de experimentações da banda Canned Heat, é uma evolução daquilo que conhecemos como work songs. 13


Os work songs eram cânticos religiosos que falavam da rotina dos escravos negros e que eles cantarolavam a cappella, enquanto trabalhavam para ricos senhores brancos nas lavouras e plantações das zonas rurais do sul dos Estados Unidos. Eram cânticos religiosos carregados de langor e tristeza, comum no final do século XIX e começo do século XX. Esses work songs deram origem ao blues, que, grossamente falando, nada mais é do que uma versão musicalizada desses cânticos. Grandes exemplos disso são as canções de músicos como Big Mama Thornton, Bessie Smith, Leadbelly, Johnny Ace, Elizabeth Cotten (que só ficou mundialmente conhecida na velhice, por volta dos seus 60 anos de idade, já que antes disso ela só tocava violão na igreja), e muitos outros. Já a respeito do blues tal como hoje o conhecemos, a questão é simples: da segunda metade dos anos 60 em diante, o blues passou por uma transformação que não se remete necessariamente ao som, mas às letras, já que não convém ao blues atual (embora ele ainda traga a melancolia como principal temática), falar sobre trabalho escravo, abusivo e não assalariado. Temos de ter em mente que os tempos mudaram e que o cenário histórico atualmente é outro. A tristeza tomou novas proporções dentro de um contexto atual, visto que, nos dias de hoje, trabalho escravo e não assalariado é crime, segundo o artigo 149 do Código Penal. Com essa adequação, o blues atual passou a ter foco, por exemplo, no fim de uma relação amorosa, na perda de um ente próximo, em tragédias decorrentes de ações da natureza (como enchentes, terremotos e tornados). Temas ainda tristes, claro, só que mais “leves” se comparados aos temas daquela época. Alan Lomax foi um grande estudioso de música. Ele chegou a ser músico, tendo sido, segundo muitos, um talentoso violonista. Porém, como músico, ele não teve reconhecimento algum. Tampouco teve o privilégio de desfrutar de seu trabalho. Mas isso não o abalou. Lomax obteve sucesso e reconhecimento de outra forma: através de suas documentações históricas. Seus registros em vídeo são hoje fontes importantíssimas para que possamos nos interar do lado artístico e cultural das pessoas daquela época (pessoas que, embora se mostrassem detentoras de um grande talento, eram simplesmente deixadas de lado pela sociedade estadunidense da época por 14


conta de questões raciais). Muitos registros feitos por Lomax, inclusive, estão hoje perpetuados na Biblioteca do Congresso, em Washington, nos Estados Unidos. Alan Lomax viajava pelos Estados Unidos (principalmente pelas áreas mais pobres de cidades do sul do país, nos estados do Alabama e Mississippi), com sua inseparável equipe de apoio e câmeras nas mãos, documentando os veteranos do blues até então desconhecidos. Entre seus registros mais conhecidos estão os de Lucius Smith; Jack Owens e Bud Spires; Clyde Maxwell; Sam Chatmon; Tommy Jarrell; Belton Sutherland; registros dos grupos de dança de Sea Island, na Geórgia, datados de 1962; e cânticos da St. James Missionary, uma igreja batista de Canton, em 1978, que nada mais são do que os autênticos work songs. A tristeza e as dificuldades sempre estiveram associadas à vida difícil dos negros (e por consequência ao blues), que em plenos anos 50 e 60, ainda eram vítimas de segregações raciais. O preconceito não vinha apenas de grupos extremistas, como a Ku Klux Klan, mas também de grande parcela da sociedade estadunidense, que viam os negros como raças inferiores. O ataque terrorista à Igreja Batista do Alabama, em 15 de setembro de 1963, que matou quatro garotas negras e feriu gravemente outras 22, foi o estopim para que surgissem mais manifestações por direitos iguais nos Estados Unidos. O curioso é que, semanas antes desse atentado, o ativista Martin Luther King Jr havia feito seu célebre discurso (conhecido como “I Have a Dream”) para um desmesurado oceano de pessoas, diante do Lincoln Memorial. Esses ataques racistas, engendrados, na maior parte das vezes, por homens filiados à Ku Klux Klan, pareciam não chegar ao fim. Foi só no ano de 1968, uma semana após o assassinato do ativista Martin Luther King Jr, que o então presidente dos Estados Unidos, Lyndon Baines Johnson, aprovou, em caráter de urgência, o “Fair Housing Act”. Embora o “Fair Housing Act” visasse a proteção das propriedades privadas, e não o racismo propriamente dito, ele funcionou como um pontapé inicial em toda essa questão de igualdade de direitos. Tendo todo esse episódio em mente, não é difícil imaginar o porquê de muitos registros feitos por Alan Lomax mostrarem músicos negros se apre15


sentando em circuitos fechados – como em suas casas nas áreas rurais do país, ao lado de familiares, em rodas de amigos, e, principalmente, nos corais das igrejas batistas do sul dos Estados Unidos. Por sinal, o coral dessas igrejas era um ponto forte que chegou a render muitos bons frutos. Big Mama Thornton, a lenda do blues antigo, e Janis Joplin, a voz símbolo do blues numa era, digamos, mais atual, são duas mulheres de espírito forte e voz impecável que iniciaram suas carreiras em corais de igreja. A cantora Janis Joplin, em termos de essência lírica (mas não instrumental), é a única cantora pós-1955 que podemos citar como blues moderno, mas derivado diretamente da era dos work songs. Fazendo, ainda nos anos 50, uma fusão do blues com a música jazz, obtivemos aquilo que hoje chamamos de rock and roll. Até hoje, as origens do jazz são incertas. Alguns dizem que ele surgiu na África; outros, na Europa. De qualquer forma, é sabido que há uma mistura tanto do sangue africano quanto do europeu nas nuances do jazz, já que a percussão é endêmica à música negra, enquanto que os instrumentos de sopro e corda tiveram origem na Europa. Apesar de todas essas incertezas referentes ao jazz – incertezas que, se colocarmos no papel, veremos que não são poucas! – sabemos que ele se procriou primeiramente nos arredores de Nova Orleans, lá pelo começo do século XX, e só depois na própria Nova Orleans. Falando do jazz, torna-se quase impossível não tecer também comentários à música country. A fusão do country com o jazz, ainda no começo do século XX, deu origem a um subgênero do jazz que viria a ser conhecido como western swing (uma música dançante e com o tempo mais elevado). Tal gênero, ainda em seus primórdios, muito contribuiu para o uso das guitarras elétricas. Bob Wills, um célebre músico da era do western swing, foi um dos primeiros a utilizar guitarra elétrica nas composições de sua banda, lá pelo final da década de 30. Pode-se concluir, então, que, enquanto o jazz e o blues deram origem às mais importantes raízes do rock, a música country contribuía com a popularização da guitarra elétrica. Agora, afirmar que o rock and roll se originou do rockabilly, como muitos costumam fazê-lo, é um conceito errôneo, uma vez que o rockabilly é uma pequena fase do rock and roll dos anos 60, e não uma vertente inde16


pendente que inspirou o nascimento do rock. Isso deve ser deixado claro desde já. Com o nascimento do rock and roll, a partir da fusão essencial do jazz com o blues (e uma pitada da música country), as bandas de rock passaram a se propagar. A guitarra tornou-se o grande símbolo do rock and roll; a bateria mostrou-se indispensável para a marcação do tempo que, ao contrário de tudo que já havia sido lançado antes, era responsável por compassos mais acelerados e dançantes; o baixo, por ser rítmico, surgiu com o objetivo primordial de apaziguar a harmonia e gerar os graves. Dizem as más línguas que pelo simples fato de o rock ter bebido muito na fonte do jazz, e principalmente do blues, o baixo tem a função de fornecer os graves da mesma forma que os homens faziam nos corais da igreja no começo do século XX, em contraste com a voz líder das mulheres. Com as bandas de rock que começavam a aparecer na década de 50, sua popularidade foi se tornando cada vez maior, não só graças ao rádio, mas graças também à televisão. Em 1955, metade dos lares estadunidenses já possuía uma televisão preto-e-branco. O país evoluía e, assim, informação e entretenimento chegavam rápido. Nesse final de década, os maiores nomes do rock and roll nos Estados Unidos eram Bo Diddley, Buddy Holly, Little Richard, Chuck Berry, e claro, Elvis Presley. Por sinal, Elvis era muito influenciado pelo blues dos negros de seu país e não deixava os cânticos religiosos de lado em seu repertório. Mesmo com um repertório nervoso para a época, que foi o que lhe rendeu a alcunha de “o rei do rock”, Elvis chegou a gravar várias canções religiosas, como, por exemplo, “Amazing Grace” (talvez o mais famoso hino protestante dos Estados Unidos, publicado em 1779); “How Great Thou Art”, “Take My Hand, Precious Lord”, “There’ll be Peace in the Valley” (que ele cantou ao vivo em 1957 no programa do Ed Sullivan), “I Believe in the Man in the Sky”, “You Will Never Walk Alone”, “Where Could I Go But to The Lord”, “Who Am I”, e muitas outras. Edward Vincent Sullivan, um ex-lutador de boxe de 1.71 metro de altura e nova-iorquino nascido e criado, começou seu trabalho de jornalista num tabloide de vida curta chamado “New York Evening Graphic”. O tabloide, as17


sim como muitos outros projetos, foi criado por um esportista de espírito ativo e empreendedor chamado Bernarr Macfadden. O sujeito era, de fato, criador de um império midiático que na época consistia em jornais e revistas semanais de interesse geral, como a “Liberty” (que durou 24 anos e cujo slogan era “feito para todos os públicos”); a “True Detective” (especializada em crimes e que encetou suas publicações em 1924, tendo durado 47 anos); a “True Story” (revista de formato narrativo que contava com uma distribuição de 300,000 exemplares em 1923 e, seis anos depois, já alavancava sua distribuição para quase dois milhões de exemplares); entre outras. Na “New York Evening Graphic”, Edward Sullivan (que tornou-se posteriormente Ed Sullivan) trabalhou no caderno de esportes. Algum tempo depois, com a auto-demissão de um jornalista chamado Walter Winchell, Sullivan passou a assumir a posição desse antigo companheiro de trabalho, tornando-se colunista de teatro, com sua coluna “Little Old New York”. Naquele final da década de 50, o apresentador Ed Sullivan, já há uma década no ar, gozava de certa independência para levar ao seu programa quem quer que ele quisesse. Por isso, ele colaborou muito para que o rock and roll se propagasse. Além do mais, o programa possuía credibilidade para criar tendências e uma aparição no The Ed Sullivan Show (não só de artistas de rock, mas também de pequenas peças teatrais, comédias stand-up e dançarinos) era sinônimo de qualidade ímpar e inquestionável. Dos maiores roqueiros daquela década, que citei logo acima, o primeiro a se apresentar no The Ed Sullivan Show foi Bo Diddley. Sua apresentação aconteceu no dia 20 de novembro de 1955, com um Bo Diddley de 26 anos, usando cabelo curto e ralo, metido num terno um pouco grande para o seu tamanho. Ele veio acompanhado de três integrantes de sua banda: um baterista, um baixista e um percussionista tocando maracas. O detalhe é que Ed Sullivan não gostou da apresentação de Bo Diddley e o baniu de futuras aparições em seu programa por um simples motivo: no camarim, Sullivan pedira a Diddley que fizesse uma versão cover de “Sixteen Tons” do cantor Tennessee Ernie Ford. Mas Bo Diddley não obedeceu. Como em março daquele mesmo ano, o guitarrista havia gravado sua primeira música autoral (na Universal Recording Studios, em Chicago), ele simplesmente optou por 18


tocá-la. Sete meses antes, em abril de 1955, quando a música foi lançada, BOOM!, foi um sucesso estrondoso, tendo ficado 18 semanas nas paradas de R&B da época (sendo duas na primeira posição). O segundo a se apresentar no The Ed Sullivan Show foi Elvis Presley, o rei do rock. Em toda sua carreira, Elvis fez três aparições no programa de Ed Sullivan. Todas num espaço de tempo de apenas três meses. A primeira foi no dia nove de setembro de 1956; a segunda ocorreu quarenta e nove dias depois, em 28 de outubro; e a terceira aconteceu em seis de janeiro de 1957. O terceiro a se apresentar no The Ed Sullivan Show foi o guitarrista Buddy Holly. Sua apresentação aconteceu em 26 de janeiro de 1958, com a banda toda metida em uma impecável roupa de garçom: terno preto e gravata borboleta. Foi esta a apresentação mais famosa de todas, mas não a primeira, sendo que ele já havia despontado no programa em primeiro de dezembro de 1957 (quatro dias após o lançamento do álbum de estreia da banda, após sete longos meses enfiados dentro do estúdio). Em ambas apresentações, Buddy Holly subiu ao palco de Ed Sullivan acompanhado pelo baixista Joe Benson Mauldin Junior, pelo baterista Jerry Allison, e pelo também guitarrista Niki Sullivan. Embora Chuck Berry e Little Richard também gozassem de boa fama e sucesso àquela altura, eles nunca tiveram a chance de se apresentar no The Ed Sullivan Show. Porém isso não impediu que ambos fossem homenageados no programa do ex-boxeador nova-iorquino, quando artistas conseguintes compareceram ao programa e prestaram suas homenagens a eles perante todos os Estados Unidos. A televisão não era a única fonte de notícia e entretenimento dos estadunidenses, embora vivenciasse sua grande popularização. Tínhamos também o rádio. Nas ondas sonoras, o maior responsável pela popularização do rock and roll nos Estados Unidos foi Alan Freed. E mais, foi ele quem batizou aquele recém-nascido gênero musical de “rock and roll”. O porquê do nome, sinceramente, ninguém sabe ao certo. Muito conhecido no norte dos Estados Unidos, ali pela região de Cleveland, Estado de Ohio, por seu prestigioso trabalho na rádio, Alan Freed mudou-se de Cleveland para a cidade de Nova Iorque no ano de 1954. Foi em 19


Nova Iorque onde ele erigiu ainda mais fama e permaneceu até sua morte, em janeiro de 1965, em decorrência de seu alcoolismo. Agora, abrindo o leque, devemos nos lembrar que o rock não se encontrava unicamente em território estadunidense. Na Inglaterra, o negócio também estava crescendo a todo vapor. No começo dos anos 60, uma grande enxurrada de bandas britânicas surgiu. Foi, para os britânicos, um período não apenas de amadurecimento da música, mas também de redescoberta. Junto a essa transformação cultural, surgiram, na Inglaterra os mods, uma subcultura marcada pelo visual modernista e pelas lambretas (basta assistirmos aos filmes “Tommy” e “Quadrophenia”, da banda The Who, para que vejamos o que é um mod). E pouco tempo depois, numa afronta à busca pela perfeição imposta pelos mods, foi a vez do surgimento da subcultura rocker, que buscava se amotinar energicamente, através de um visual mais, entre aspas, “agressivo” (marcado por topete, calça jeans, jaqueta de couro e tatuagem). Com os rockers, nos anos 60, entrou em voga o rockabilly. No ano de 1960, surgiu em Liverpool, noroeste da Inglaterra, a banda que viria a alterar o conceito de rock estabelecido nos Estados Unidos dos anos 50. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, os quatro garotos de Liverpool, bastante influenciados pelos músicos estadunidenses Buddy Holly e Chuck Berry, sentiram vontade de fazer aquilo que seus ídolos já vinham fazendo... só que eles queriam fazê-lo de maneira mais pesada. O lançamento do primeiro álbum dos Beatles, em 1963, foi o estopim para uma febre que viria a ser conhecida como “A Invasão Britânica”. As jovens da época adoravam o visual impecável dos Beatles e passaram a ser protagonistas de um verdadeiro êxtase, coisa que não se via em lugar algum desde então. Nos palcos, os quatro garotos de Liverpool energizavam as garotas com suas músicas românticas, e elas, em resposta, se descabelavam e gritavam a plenos pulmões; fora dele, eram perseguidos por fãs incontroladas. Foi também sucesso de vendas. Isso foi a Beatlemania. E em resposta à impecabilidade dos Beatles, quase que numa espécie de confronto, surgiu, na nebulosa Londres de 1962, os Rolling Stones. Cinco jovens mal encarados, desleixados, drogados e nada púdicos. Por mais incrível que pareça, o duelo entre Beatles e Rolling Stones não se limitou apenas 20


àquela década. Dura até os dias de hoje, ao menos por parte dos Rolling Stones, que fazem questão de manter a chama de egos crepitando. Veja bem: numa entrevista à revista Esquire, publicada em cinco de agosto de 2015, o guitarrista Keith Richards afirmou que “o álbum ‘Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band’ é uma porcaria”. A entrevista foi feita no Sanford Boardroom, em Washington Duke Inn, Durham, Estado da Carolina do Norte. As críticas ao quarteto de Liverpool foram deveras substanciais. “Os Beatles soavam legal quando eles eram os Beatles, mas as músicas deles não têm raízes. Eu acho que eles só queriam saber de levar a coisa, entende? Se você fosse os Beatles nos anos 60, você também só ia querer saber de levar a coisa. Você esquece o que é que quer fazer.” E o sempiterno guitarrista dos Rolling Stones continua. “Você comentou comigo do ‘Sgt Pepper’. Muitas pessoas acham que se trata de um excelente álbum, eu já o considero um lixo.” Os Rolling Stones talvez tenham sido a única banda criada como forma de resposta à outra que acabou de fato dando certo (foi exatamente o que o empresário londrino Malcolm McLaren, na década seguinte, tentaria fazer em resposta aos Ramones, ao criar os Sex Pistols). Em ataque ao disco dos Beatles, que havia saído um ano antes, os Rolling Stones lançaram seu álbum de estreia em abril de 1964. Com 12 faixas, pouco mais de meia hora de duração e lançado pela Decca Records, o álbum também mostrava muito bem o apreço que a banda inglesa tinha pelo rock and roll estadunidense dos anos 50. Comparando: o primeiro álbum dos Beatles foi batizado de “Please Please Me” (1963) e trazia 14 faixas, sendo que nenhuma ultrapassava os três minutos de duração. O primeiro álbum dos Rolling Stones foi alcunhado com o próprio nome da banda, em 1964, contava com 13 faixas e apenas uma excedia consideravelmente os três minutos de duração. Ambos os álbuns traziam consigo guitarras simples e marcantes, o ritmo acelerado apresentado pelas bandas estadunidenses dos anos 50, e claro, traziam também aquele grito adolescente. A fúria. Assim, a Invasão Britânica cruzou o oceano, rumo aos Estados Unidos. Os Beatles se apresentariam três vezes no The Ed Sullivan Show; os Rolling Stones, seis. 21


É inegável que o ano de 1962 foi o último em que o rock and roll ainda contava com aqueles mesmos ingredientes dos anos 50, de quando fora criado. O rock passou por uma transformação já de 1963 em diante. Aí as bandas não prezavam única e exclusivamente pela fúria da geração, mas de fato em se fazer música. Influenciados pelo rock and roll dos anos 50, muitos artistas e bandas que surgiram de 1963 em diante, surgiram com uma nova proposta de som. Jimi Hendrix, que iniciou sua carreira em setembro de 1963 (aos 20 anos de idade, após ser dispensado do exército por se fraturar durante um salto de paraquedas), foi além daquilo que era conhecido até então. Hendrix revolucionou e deu o pontapé inicial para aquilo que viria a ser conhecido como rock psicodélico, graças às drogas da época que pipocavam na cabeça dos jovens. A psicodelia entrou em cena aí. O rock and roll ficou competitivo, com bandas e artistas querendo superar uns aos outros tanto em termos de arranjo quanto de talento. Era o início daquilo que chamamos de rock progressivo. Em junho de 1967, ocorreu o Festival Pop de Monterey; e em agosto de 1969, por três dias, o mundialmente conhecido Festival de Woodstock. O rock and roll havia amadurecido e músicas mais elaboradas entraram em cena. Para exemplificar bem isso, vejamos: o Pink Floyd lançou seu primeiro álbum em agosto de 1967. O Deep Purple lançou o “Shades of Deep Purple” em 1968. O Led Zeppelin surgiu em 12 de janeiro de 1969, com os grandes solos de guitarra de Jimi Page, com as linhas de baixo precisas de John Paul Jones marcando religiosamente cada compasso, e com John Bonham destruindo o kit de bateria. O Carpenters, duo formado pelos irmãos Richard e Karen Carpenter (vitimada por uma anorexia em fevereiro de 1983), famoso por seu soft-rock bem trabalhado e orquestrado, lançou seu primeiro álbum em nove de outubro de 1969; e no dia seguinte, em 10 de outubro, o mundo conheceu também o primeiro álbum da banda inglesa King Crimson. Viu só, meu amigo? Você consegue perceber o surto descontrolado de rock progressivo naquela época? Isso sem falar em inúmeras outras bandas que surgiram no mesmo período! Ao mesmo tempo em que essa demasiada impecabilidade tomava conta do rock and roll, alguns jovens procuravam ainda se impor na busca de manter a simplicidade da música. Nem todos os jovens tinham paciência 22


para ouvir uma música de 12 minutos, como “Take a Pebble” da banda inglesa Emerson Lake & Palmer, lançada em 1970; nem músicas de 17 minutos de duração, como “Nantucket Sleighride” da banda nova-iorquina Mountain (lançada no álbum ao vivo “Mountain Live: The Road Goes Ever On”, de abril de 1972); tampouco as longas suítes da banda estadunidense Grateful Dead, que não raramente atingiam os 20 minutos de duração, graças aos longos solos do guitarrista e vocalista Jerry Garcia. Muitos jovens não aguentavam ver a música caminhando para esse precipício e estavam de saco cheio de toda essa enrolação. Na cidade de Nova Iorque, no começo dos anos 70, dois amigos chamados John William Cummings e Douglas Glenn Colvin falavam da música com muito mal gosto, desanimados com o rumo que a música tomava. Eles não gostavam daqueles longos solos de guitarra, dos longos solos de bateria, dos teclados, sintetizadores e das músicas extensas que caracterizavam o rock progressivo. Eles gostavam de tocar, de criar músicas, mas sabiam muito bem que eram amadores, e não músicos exímios. Eles jamais tocariam do jeito que aqueles músicos estudiosos e perfeccionistas tocavam. Em janeiro de 1974, após muita conversa e gosto musical em comum, esses dois amigos foram juntos à Manny’s Music, uma loja de instrumentos musicais na cidade de Nova Iorque, e compraram os seus instrumentos musicais. John William Cummings pagou US$ 50 dólares por uma guitarra Mosrite Ventures usada, e Douglas Glenn Colvin pagou uma quantia parecida por um contra-baixo da marca Danelectro. Com os instrumentos em mãos, gosto musical em comum e o objetivo de criar uma banda com a missão de tocar músicas simples e de pouca duração (exatamente igual às músicas de rock and roll dos anos 50), os amigos John William Cummings e Douglas Glenn Colvin adotaram, respectivamente, o nome de Johnny Ramone e Dee Dee Ramone. E juntos, eles formaram a banda Ramones. Os Ramones tiveram como grande inspiração os Stooges, a primeira banda do músico Iggy Pop, responsável por fazer um som diferenciado na época. Conforme o próprio Dee Dee Ramone afirmou no excelente documentário “End Of The Century: The Story of the Ramones”, lançado em 2003: “talvez só três pessoas gostavam dos Stooges em toda a região que moráva23


mos [bairro do Queens, Nova Iorque]. Todo mundo era violentamente contra eles. Então quem gostava dos Stooges acabava se tornando amigo.” Embora os Stooges tenham servido como grande inspiração para os Ramones, a banda liderada pelo vocalista Iggy Pop não pode ser tida como uma banda punk. O álbum de estreia dos Stooges, lançado em cinco de agosto de 1969, foi lançado com oito músicas e todas elas possuíam guitarras cheias de efeitos (como o uso de pedal wah-wah nas faixas “1969” e “Ann”) e solos de guitarra. Além do mais, a terceira faixa do disco, a sombria “We Will Fall”, contava com longos 10 minutos de duração, algo completamente impensável para uma banda punk. Como se não bastasse, os quatro membros da banda eram grandes adeptos do rock experimental e, principalmente, do rock psicodélico. Nas gravações demo, feitas antes do lançamento do primeiro álbum e só divulgadas ao mundo no ano de 2005, todas as faixas trazem experimentações. Como o próprio Iggy Pop chegou a afirmar no encarte do álbum de estreia da banda, “nós ensaiavamos todas as músicas meticulosamente, mas depois de dois minutos de música ensaiada, o céu era o limite, e as músicas atingiam de seis a oito minutos por causa da improvisação. Era assim que eu via a gravação!” Nos primeiros repertórios dos Stooges, não era incomum vermos uma música com cinco minutos apenas de solo de guitarra e improvisação, algo fortemente inspirado pelo rock progressivo que dominava os anos 60. Somado a isso, o vocalista Iggy Pop e o guitarrista Ron Asheton sempre negaram o fato de pertencerem ao movimento punk. O que fez com que os Ramones se inspirassem nos Stooges não foi necessariamente a música, mas as performances da banda ao vivo, que eles adoravam assistir na casa do amigo Richie Stern. Ainda no documentário “End Of The Century: The Story of the Ramones”, o músico Dee Dee Ramone comenta: “Nós tínhamos um amigo, Ritchie Stern, e ele era o líder dos fãs dos Stooges. (…) E nós tínhamos uma fita dos Stooges ao vivo que a gente sempre tocava quando estávamos juntos. Fazia parte da diversão ver os Stooges e se divertir enquanto Richie dançava imitando o Iggy para nós.” Esse amigo, Richie Stern, faleceu em fevereiro de 2015. 24


As performances dos Stooges eram todas cheias de energia, esquisitices e fúria adolescente. Aquilo era feito para chocar toda a sociedade e quem quer estivesse pelo caminho. Nos shows da banda, os Stooges faziam um “pano de fundo sonoro” para que o vocalista Iggy Pop se contorcesse no palco e se auto-mutilasse com cacos de vidro. Iggy Pop era o GG Allin do final da década de 60. Inspirados, então, pela fúria dos Stooges e pelas performances do vocalista Iggy Pop, o estilo de música simples, curto e grosso que os Ramones faziam foi batizado de “punk rock”. Os Ramones foram criados em 1974, pelos amigos Dee Dee e Johnny Ramone. Em 16 de agosto do mesmo ano, eles fizeram seu primeiro show, no extinto bar CBGB, em Nova Iorque, para uma plateia de somente cinco pessoas. Cerca de dois anos depois, em quatro de fevereiro de 1976, eles lançavam o álbum de estreia da banda, pela gravadora Sire Records, fundada em 1966 pelo judeu Seymour Stein. O processo todo foi muito rápido. O álbum de estreia da banda, gravado no oitavo andar do Radio City Music Hall, era formado por 14 faixas: sete lançadas no lado A e mais sete no lado B do vinil. O que eles queriam, em uma sociedade cada vez mais hipnotizada e sedada pelos efeitos do rock progressivo, era mostrar que música, para ser boa, não necessitava de longos solos de guitarra e bateria, não necessitava exceder os dez minutos de duração, e, acima de tudo, não necessitava de ser feita dentro de um conservatório musical. Três meses após o lançamento do primeiro álbum dos Ramones, a banda inglesa Rainbow, liderada pelo vocalista Ronnie James Dio, lançava seu segundo disco, o famoso “Rising”, com “Stargazer”, a progressiva faixa de oito minutos, estourando mundo afora. Das catorze faixas lançadas no primeiro álbum dos Ramones, nenhuma excedia os três minutos de duração e nenhuma possuía solos. Era uma clara tentativa de ressuscitar o rock dos anos 50 que começava a perder espaço frente ao amadurecimento do gênero, apenas isso. Tamanha a explosão e energia, o álbum foi gravado em apenas uma semana (três dias de gravação para o instrumental e mais quatro para a gravação da voz) e teve um custo de apenas US$ 6.400 dólares (um valor absurdamente irrisório para a época, 25


já que bandas como Fleetwood Mac e artistas como Karen Carpenter gastavam meio milhão de dólares em estúdio e cerca de dez dias para gravar uma única música). Além do mais, o primeiro álbum dos Ramones vendeu 6 mil unidades apenas em seu primeiro ano. Após a gravação de seu primeiro álbum, os Ramones foram fazer uma turnê de poucos dias na Inglaterra. O primeiro show dos punks nova-iorquinos na Inglaterra ocorreu no famoso Roundhouse, em Londres, no dia quatro de julho de 1976, dia do feriado da Independência dos Estados Unidos. O local, construído em 1846, foi palco de uma genuína revolução. Entre os ingleses que na época não eram nem um pouco conhecidos e que, após o show dos Ramones, tiveram a ideia de formar sua primeira banda, estavam John Joseph Lydon (que mais tarde adotou o apelido de Johnny Rotten e passou a ser vocalista da banda Sex Pistols), Raymond Burns (que adotou o apelido de Captain Sensible e fundou o The Damned), Chrissie Hynde (que, em março de 1978, criou o Pretenders), John Simon Ritchie (que, depois, adotou o apelido de Sid Vicious e se imortalizou como “o homem símbolo do punk rock”, após sua morte aos 21 anos de idade por uma overdose de heroína), e inúmeros outros. Ainda no documentário, que já mencionei, sobre a banda, Legs McNeil, fundador da Punk Magazine e autor dos livros “Please Kill Me: An Uncensored Story of Punk” (volume 1 e 2), com um cigarro preso nos dedos e soçobrado numa cadeira, afirma energicamente: “Esta música salvou o rock and roll e influenciou milhões de crianças por todo o mundo, e eles nunca foram reconhecidos por isso.” Tardou o reconhecimento, mas não podemos dizer que ele falhou. Logo após o plantio das sementes da discórdia em Londres, os Ramones viajaram de volta para os Estados Unidos. Num pequeno espaço de tempo de 10 meses, a banda lançou mais dois álbuns: o “Leave Home” em janeiro de 1977, e o famoso “Rocket to Russia” em novembro do mesmo ano, tido por muitos aficionados como o melhor álbum da banda. Da mesma forma que o punk estourou pelo mundo, no Brasil não foi diferente. Na São Paulo de 1978, a banda Restos de Nada foi a primeira a surgir, tendo em sua formação o vocalista Ariel, o baixista Clemente Nascimento, o 26


guitarrista Douglas Viscaíno, e o baterista Carlos Charles. A banda chegou ao fim dois anos depois, em 1980, e o que não é muito comum de se acontecer, aconteceu: o primeiro álbum só foi gravado em 1987, sete anos após o fim da banda, sob o pretexto de “eternizar as músicas que eles haviam composto na época”. Os Restos de Nada têm sua importância no cenário nacional sem dúvida alguma, afinal, eles foram os precursores da coisa toda... o triste é que eles não tiveram o devido reconhecimento. As três bandas de punk rock mais conhecidas pelo pessoal e que mais angariaram sucesso aqui no Brasil

CAPÍTULO II foram o Olho Seco, formado em 1980; os Ratos de Porão, formado em novembro de 1981; e os Garotos Podres, formado no ano seguinte, em 1982. E claro, estávamos, sim, no período da Ditadura Militar. Em 26 de fevereiro de 2015, conversei com o pessoal da banda Olho Seco, em um dos estúdios que eles costumam ensaiar, no bairro de Perdizes, próximo à Avenida Pompéia. Na entrevista, eles me falaram um pouco sobre a banda e todo o sucesso alcançado. “Eu fui num ensaio do Cólera, que eles fizeram na Casa Verde, já que eu sempre quis ir no ensaio deles. Eu falava: ‘pô, vocês não têm uma fita cassete, uma demo [para me mostrar]?’ Eles achavam que demo era coisa do demônio, aí eu falei: ‘pega um aparelho gravador, joga do lado e ensaia.’ A aparelhagem não era tão boa, então ficava legal a gravação. Aí no ensaio do Cólera tinha uma banda lá também tocando, ensaiando numa garagem de rua (aquelas garagens que você abre a porta e já é a rua), e essa banda que estava lá ensaiando chamava-se Osso Oco. E eu gostei do baterista porque o cara era direto, ele não ficava enrolando (...) o som saía mais rápido. Aí quando os caras terminaram de ensaiar, ele ficou na bateria e eu falei pra ele: 27


‘pô, meu, eu tenho uma letra aqui, você consegue fazer essa levada aí?’ Aí ele começou a tocar, o Redson e o Val [ambos do Cólera] também chegaram, e ali foi formado o Olho Seco.” Em seu rosto, um discreto sorriso de ledice demonstra claramente a mais aprazível lembrança. A respeito da Ditadura Militar, Fábio Sampaio é bem seco e direto. Toda a banda está sentada à minha frente, um ao lado do outro, em uma sala vazia do estúdio. Os três membros da banda, com exceção do vocalista Fábio Sampaio, bebem cerveja. “Sim, esse período era ainda Ditadura. Nós tivemos alguns problemas, sim. O problema aparecia quando você tinha que levar as letras para serem censuradas. E todas foram censuradas mesmo, não passou nenhuma. Mas, na época, eu estava a fim de gravar um compacto. Eu falei pro Redson: ‘o nome da banda é Olho Seco, eu vou gravar só um compacto e acabar a banda.’ Primeiro, por causa da Ditadura; segundo porque eu achava que não era legal o pessoal de uma banda tocando em outra.” Em quatro de março de 2015, conversei com o baixista do Garotos Podres, o músico Michel Stamatopoulos, conhecido como Sukata, em seu escritório de direito na cidade de São Caetano do Sul. Ali, em seu prédio de advocacia, localizado na Avenida Goiás, ele me falou um pouco sobre os Garotos Podres. A banda, formada em 1982, era composta pelo vocalista José Rodrigues Mao Junior, pelo baixista Michel “Sukata” Stamatopoulos, pelo baterista Luis Português, e pelo guitarrista Mauro. Em 2012, às vésperas do aniversário de 30 anos da banda, o Garotos Podres conheceu o seu fim. O término foi inesperado, até porque a banda ambicionava continuar, mas acabou sendo inevitável. O vocalista José Rodrigues Mao Junior, e toda a internet – explicarei isso adiante! –, diz que o fim da banda se deu por uma “divergência ideológica”; já o baixista Michel “Sukata” Stamatopoulos, em contrapartida, afirma que a razão não foi essa, e sim os problemas de saúde do vocalista. Por ser professor de história da Universidade de São Paulo e grande conhecedor, diga-se de passagem, de assuntos comunistas, tendo publicado em 2007, como sua tese de doutoramento, um livro chamado “A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868 – 1963)”, o vocalista Mao sempre conheceu o pessoal da mídia independente, e por isso, sempre conseguiu publicar 28


na internet a sua versão da história. Em fevereiro de 2015, enquanto eu me preparava para fazer a entrevista com algum membro da banda, optei em conversar com o baixista Michel “Sukata” Stamatopoulos pelo fato de ele, até então, não gozar do mesmo espaço na mídia para contar a sua versão. Após ter feito a entrevista com o baixista e já com o material em mãos, o vocalista José Rodrigues Mao Junior manifestou-se a mim pela rede social Facebook, dizendo que conversaria com o seu advogado no tocante à entrevista que eu havia então feito com Sukata. “Nessa década de 80, nós frequentávamos uma praça bem em frente ao fórum de Santo André, que nós chamávamos de praça dos patos. E ali todo domingo pela manhã havia reunião entre o pessoal punk da região do ABC e as gangues da época”, afirma o músico Michel Stamatopoulos. “E eu fazia parte do pessoal daqui do ABC, pelo fato de eu ser de São Caetano do Sul, e eu também ia lá (apesar de não fazer parte de uma gangue em específico). E foi ali que eu tive contato com o Mao, com o Mauro, com o Português, e com centenas que frequentavam o local. Foi ali que a gente se conheceu e também foi ali onde surgiu o convite para que eu fosse tocar na banda. Até então, os Garotos Podres não tinham uma característica, uma personalidade definida de banda. Tinha o Mauro e o Mao, que eram vizinhos ali de Mauá, que tocavam juntos com outros amigos. Por isso que existia uma indefinição da característica da banda. Não havia uma definição punk, nem uma definição Oi!, então ainda não havia um direcionamento. Esse direcionamento só passou a existir no momento em que se reuniu os quatros integrantes que deram início a um trabalho realmente profissional.” Menciono, então, o período militar. Se o punk estadunidense, representado aqui pelos Ramones, e o punk britânico, representado pelos Sex Pistols, possuía total liberdade de expressão, já que os Estados Unidos e a Inglaterra nunca de fato passaram por um período nitidamente ditatorial, o que um punk brasileiro teria a dizer sobre ter “vivido e respirado o movimento” sob uma ótica dita opressora? Vale lembrar que os Ramones nunca optaram por falar abertamente de política em suas músicas. Por mais punk que fosse a atitude dos quatro jovens de Nova Iorque, eles preferiam falar sobre suas vidas, sobre o uso de drogas, sobre seus romances, sobre o estilo de vida que 29


possuíam. De forma geral, a temática punk nas músicas dos Ramones visa mais um lado comportamental – o que é compreensível, já que os Ramones não se inspiraram em um teor lírico político, e sim na política das atitudes de rebeldia (basta lembrar-se que os quatro garotos nova-iorquinos tiveram os Stooges como influência maior). Os Sex Pistols, ao contrário, não tiveram apenas uma atitude política punk, mas também letras de teor político punk. Aqui, no exemplo dos Sex Pistols, basta pegarmos a letra da música “God Save The Queen”, a mais famosa do grupo, que entenderemos a fúria que existe ali. É uma fúria adolescente contra o establishment britânico, ou seja, contra a monarquia da rainha Elizabeth II. Se pegarmos a letra de “Seventeen”, teremos um grito à desordem, um grito tunante contra a necessidade de trabalho (que deve ser visto como um grito ao pré-estabelecido). Se pegarmos a letra de “Anarchy in the UK”, teremos um grito contra a ordem britânica. Se pegarmos a letra de “EMI”, teremos, obviamente, um grito de vingança contra a gravadora de mesmo nome. Em suma, a questão político-ideológica dos Sex Pistols vem na letra (música) e na atitude; enquanto que, no caso dos Ramones, vem só na atitude, mas não na música (o fato de os Ramones possuírem um uniforme em comum, marcado pelo uso de jaqueta de couro, já explica bem isso). E os Ramones mantiveram quase que religiosamente essa tendência – abrindo algumas raras exceções nos anos 80, por exemplo, quando gravaram uma música criticando a visita do então presidente republicano Ronald Reagan ao cemitério nazista de Bitburg (e isso deve ser visto como um caso isolado na carreira da banda). Mas voltemos ao músico Sukata e à Ditadura Militar no Brasil. Como afirmei previamente, os Garotos Podres surgiram no começo da década de 80, em 1982. Nesta época, vivíamos ainda sob o governo do então presidente João Figueiredo. “Queira ou não queira, a música, de uma forma geral, até pela sua harmonia, consegue levar muito mais fácil a mensagem do interesse de seu interlocutor. Então essa característica acaba dando uma conotação de manuseio, de manobra e de direcionamento de massa. Por isso é uma característica, às vistas do poder dominante, deveras perigosa”, diz o músico com grande desenvoltura, vestindo uma camisa social branca e gravata azul-ma30


rinho. Ao redor, em seu escritório de advocacia no centro de São Caetano do Sul, há duas bandeiras: uma do Brasil, e outra do Estado de São Paulo. “Esse é o principal motivo de a maior parte dos perseguidos dentro da esfera cultural da época serem músicos; basta olharmos Geraldo Vandré, Gilberto Gil, e outros cabeças de chave da música popular brasileira. Então, a música tem essa característica do flautista de Hamelin. Por isso que [ter uma banda no período da Ditadura Militar brasileira] era uma coisa entre o céu e o inferno.” Para Michel “Sukata” Stamatopoulos, pertencer ao movimento punk não apenas em uma banda, mas principalmente em uma gangue, era algo bacana, pelo fato de o cidadão estar participando de um contexto político na época. Como ele próprio frisa, “o movimento punk possuía uma forma política por sua negação à cultura do pré-estabelecido”, agora se atente bem a esta parte, “e pela sua negação à cultura da disciplina militar, e não à cultura dominante militar, até porque essa tal cultura dominante militar não existia”. Em relação às gangues punks da época das quais participou, o músico vai além. “Se analisarmos o contexto do próprio movimento punk dentro de uma gangue punk na época, como as roupas, o corte de cabelo, as posições e hierarquias dentro das gangues punks, não se levantava uma questão de disciplina. Fosse dentro de um quartel ou dentro de uma gangue punk, onde todos pensam que existe uma questão anarquista (da negação do poder, da negação do Estado, da total liberdade) dentro da razoabilidade da relação social entre o convívio, a hierarquia e disciplina sempre foram obedecidas. Eu digo disciplina no sentido de que um horário marcado pela gangue punk era rigoroso, não se podia furar; a caguetagem jamais poderia existir e isso também é intrínseco dentro dos quartéis; o uso de coturnos pela resistência, durabilidade e pelo feitio de um soldado (soldado, aqui, não necessariamente em defesa de uma sociedade ou de uma pátria, mas em defesa de seus interesses).” Para Michel Stamatopoulos, que participou de gangues punks, o fato de o Brasil estar vivendo em uma Ditadura Militar não era algo necessariamente ruim, já que dentro das gangues punks a questão da disciplina (e não de dominantes e dominados) também existia. Deixando, agora, Michel “Sukata” Stamatopoulos de lado e, por um 31


breve momento, voltando aos integrantes da banda Olho Seco, a fúria adolescente existia e era deveras forte em relação à figura da autoridade. A fúria adolescente, aquela mesma fúria que o vocalista Iggy Pop levava para os shows de sua banda, os Stooges, e a mesma fúria também com a qual os Ramones compunham as suas músicas, influenciando uma geração de jovens ao redor do mundo, era algo de positivo para o movimento punk e era também o grande responsável pela identificação dos jovens com o tipo de música. Assim, eles falam um pouco de seus primeiros contatos com o punk e as bandas que os influenciaram. Fábio Braga, baixista do Olho Seco, comenta monótono: “para mim, foi quando eu tinha uns quinze, dezesseis anos, e um amigo da rua em que morava me deu uma fita cassete (isso lá por 95 ou 96, eu acho) com Olho Seco e Cólera em um lado e Replicantes, Garotos Podres e Inocentes no outro. Era uma coletânea. Naquela época eles faziam bastantes coletâneas. Esse foi o meu primeiro contato com o punk rock do Brasil.” Agora, Fábio Braga passa a palavra para o guitarrista Ricardo Quattrucci: “putz, tirando os Ramones, que todo mundo falava que era punk e eu, na época, ainda tentando entender o porquê de a banda ser punk e ninguém ter moicano (eu não entendia direito o porquê de todos serem uns cabeludos), meu primeiro álbum de impacto foi quando os Misfits lançaram o álbum “Famous Monsters”. Foi aí que eu fui pesquisar e vi que tinha o horror punk, o punk tradicional, o punk Oi!, etc. Quando passei a conhecer mais a fundo, fui atrás de Black Flag e várias outras bandas. Mas a minha principal porta de entrada mesmo foi Black Flag e Misfits. Os Ramones eu sempre conheci, mas ainda não entendia direito o porquê do punk ali.” E logo que o guitarrista Ricardo Quattrucci pausa para tomar uns goles de cerveja, o baterista Felipe Khaos começa a falar (marcado por uma visível timidez e atimia): “Para mim, foram os Ramones, isso é de lei! E no Brasil, minha influência foram os Ratos de Porão.” Por mais que hoje tenhamos a liberdade de nos expressarmos livremente, sem a necessidade de passar por um crivo de censura, é visível, apenas pelo olhar deles, que os tempos mudaram. Nada mais é como antigamente. As coisas, hoje, estão mais difíceis, mas, para o vocalista Fábio Sampaio, isso não significa que o punk esteja em declínio. Ele é contundente quanto a isso. 32


“O punk não está em declínio, eu pelo menos acho que não. Sempre que a gente vai tocar tem alguma banda nova tocando junto. Só que hoje em dia, não está nada fácil. É difícil. Tem mais bandas por aí, e quando os mais novos vão tocar, não ganham nada (nem uma ajuda de custo). Aí tem banda que vai desistindo, porque, querendo ou não, tem que pagar os ensaios, comprar baquetas, as cordas da guitarra e do baixo estouram e precisam ser trocadas. Nisso daí tudo vai dinheiro. Não é fácil.” Outro importante fator que colabora para a perda de espaço do punk é a má compreensão de seu universo. Citemos um exemplo: a linha entre punks e skinheads é, será e sempre foi muito tênue. Até hoje, há quem pense que todo skinhead é racista. Coisa que, perante uma análise mais profunda das raízes do gênero, não encontra fundamento. Veremos isso mais adiante, mas não nos dispersemos. Voltemos a Michel “Sukata” Stamatopoulos. Após seu discurso prolixo acerca de sua visão política dentro de uma gangue punk, onde, em meados dos anos 80, ele participou, pergunto o que ele acha da linha tênue entre o movimento punk e o movimento skinhead. “Eu particularmente acho essa junção, essa aproximação muito legal e muito bacana. Voltei da Europa agora no final do ano, nós

CAPÍTULO III fomos fazer aquilo que seria, entre aspas, a nossa última turnê na Europa, e lá isso ainda é bem vivo. Falando de um contexto de grupo, e não de um contexto individual, o punk, hoje, se mantém estático às suas raízes e origens. O punk ainda é contra o pré-estabelecimento, contra o Estado e seu poder... poder, este, que ainda gera toda essa discussão de classes. Este daí é o punk. Ele vive ainda de uma forma, entre aspas, “anárquica” e na base do pão, terra e auto-gestão. E por outro lado, nós temos o movimento skinhead, que 33


tem como base uma característica mais disciplinadora, mais familiar, mais tradicional aos interesses da família e da propriedade. E isso que é o legal! Toda essa multidisciplinariedade transforma o que seria o underground, o, novamente entre aspas, “reverso da cultura de massa”, numa coisa bacana, que é a aceitação, o conhecimento da liberdade de expressão e da amplitude de conhecimento. E é essa mesma amplitude de conhecimento que te gera a liberdade de expressão, a liberdade de aceitação. Então o convívio entre punks e skinheads é muito legal para quem tem esse conceito – que seria o conceito libertário. Um punk pode até discutir com um skinhead e vice-versa, isso também acontece lá na Europa, mas o bonito é que se trata de uma discussão de duas pessoas que tentam se compreender e se unir. Assim, eles já se fazem unidos pela própria discussão. A discussão une. É errado dois conceitos que não discutem, mas que só se divergem. E geralmente o erro está naquele que evita a discussão, já que a ideia de uma pessoa que não discute se baseia na imposição.” Vamos, agora, deixar as coisas claras e elucidar de uma vez por todas o que realmente acontece entre o movimento punk e o tal movimento skinhead. Já disse que o punk rock surgiu na primeira metade dos anos 70, mais precisamente em 1974, com os Ramones. Quem levou o punk para a Inglaterra também foram eles, em quatro de julho de 1976, no feriado da Independência dos Estados Unidos. Apesar de os Ramones terem sido os pioneiros do movimento punk rock, quem o popularizou para todo o mundo foram os Sex Pistols. Isso é inegável. E por mais que ambas as bandas sejam tão diferentes em temáticas, em estilo de composição e em arranjos, a mais importante diferença entre elas é a seguinte: os Sex Pistols sempre foram esquerdistas; já os Ramones foram apolíticos na maior parte de sua carreira. E antes que alguém erga a mão em protesto, querendo afirmar o que eu já sei, me adianto: isso que afirmei a respeito dos Ramones é feito com base em uma análise coletiva, e não individual. Atente-se a isso, repetirei: coletiva, e não individual. Isso significa que eu estou analisando a banda, e não os integrantes. Os Ramones são uma banda que raramente compunham música com temática política, gritando elogios ou críticas ao Estado. A banda costumava compor músicas falando de filmes de terror, de romances, de viagens, 34


carros, qualquer outro tema, com exceção de política. Vez ou outra, saía uma crítica a algum elemento do Estado, e se fizermos uma análise, todas as pouquíssimas vezes que isso ocorreu, foi feito num ponto de vista claramente mais à esquerda do que para a direita. Simples. Volto a mencionar o caso da visita do então presidente Ronald Reagan ao cemitério de Bitburg (o cemitério tem o nome de Cemitério Militar de Kolmeshöhe), onde estão enterrados 49 membros ilustres da cúpula nazista do führer Adolf Hitler. Na música “Bonzo Goes to Bitburg” (do nono álbum da banda, “Animal Boy”, de maio de 1986), os Ramones criticam o ocorrido, comparando o então presidente Ronald Reagan a um chimpanzé. No caso, “Bonzo” é uma alusão ao primata da comédia heteróclita que o ex-presidente estrelou em 1951, quando ainda desfrutava de sua carreira cinematográfica. Isso é humor negro. O estranho seria se os Ramones, ao contrário, tivessem tecido elogios à visita de Reagan, apoiando (aí sim, seria algo a ser grifado). A faixa “Eat That Rat”, do mesmo álbum, também merece atenção especial. Já os ingleses do Sex Pistols quase sempre escreviam letras político-sociais e sempre foram abertamente voltados a uma posição mais esquerdista, tecendo críticas à conservadora sociedade inglesa. Vale, inclusive, lembrarse de um episódio: em 1977, durante a gravação da música “God Save The Queen” (do primeiro álbum da banda, o famoso “Nevermind The Bollocks”), as críticas à rainha Elizabeth II eram tantas que os funcionários da gravadora fizeram greve contra o lançamento do álbum. Tendo esse ponto esclarecido, não é de se surpreender que muitos admiradores da música punk não compartilhassem desse ponto de vista político. Por isso, quando houve o nascimento de uma vertente de direita no movimento punk, em resposta à tendência apolítica/esquerda de sempre, não acabou sendo causa de surpresa alguma. E com duas vertentes completamente distintas em jogo, faz-se mais do que necessário responder uma pergunta: qual das duas vertentes mais ganhou força? Bom, o surgimento de uma vertente direitista na música punk, o Oi!, em meados dos anos 70, fez com que muitos punks deixassem de lado o movimento e passassem a abraçar a cultura skinhead. Não foram poucos os punks que abnegaram o moicano e adotaram – a curto ou longo prazo – o 35


uso de coturnos Doc Martens, camiseta polo Fred Perry, suspensórios e a cabeça raspada. Basta olharmos bandas como Blind Pigs e para os próprios Garotos Podres que notaremos esse detalhe. Em relação ao gênero Oi! (que nada mais é do que o punk de direita, e não necessariamente de extrema-direita), várias bandas surgiram abraçando as mais diversas causas: o nacionalismo; a honra à cultura branca e ódio aos negros; o separatismo; o antissemitismo; a homofobia; o ódio aos nordestinos; a luta ideológica contra o comunismo (com uma vertente ainda mais específica chamada de RAC, sigla de “Rock Against Communism”, ou, como alguns preferem dizer aqui no Brasil, “Rock Anti-Comunista”); e muitas outras causas de luta. Explicado então a linha tênue entre o movimento skinhead e o punk, vamos para o segundo ponto da discussão. Quando citamos o nome skinhead, automaticamente nos lembramos daqueles sujeitos radicais que a mídia tanto nos mostra: extremistas matando nordestinos a paulada, queimando índios e mendigos em praças públicas ou atacando homossexuais. Tudo isso ocorre graças a um psitacismo transmitido há décadas pela mídia. Agora, de duas uma: ou a mídia tem preguiça de pesquisar um pouco e mostrar a verdade dos fatos, ou ela não tem interesse que o público saiba a verdade dos fatos. Sinta-se à vontade para escolher. Particularmente, eu acredito na segunda opção. Se pararmos para uma pesquisa aprofundada, veremos que a Jamaica foi de domínio britânico por 200 anos. E se continuarmos a pesquisa, não demoraremos para descobrir, graças à enciclopédia católica, que no ano de 1660, a população jamaicana era de 4,500 brancos e 1,500 negros. Assustadoramente, esse número se alterou em pouco tempo. Em apenas dez anos, o número de negros superou o de brancos. Além disso, a escravidão na Jamaica – e estamos, de novo, falando do domínio britânico – só foi abolida no ano de 1838. Na década de 50, a economia britânica passava por momentos bem difíceis, o que fez com que o governo encorajasse a migração no intuito de gerar mais empregos. Sabemos também que a relação entre britânicos e jamaicanos era muito 36


próxima naquela época, visto que a Jamaica pertencera ao domínio britânico, e se tal relação era fortalecida em bons ou ruins laços, isso não importa. O que importa é que a cultura skinhead no começo de tudo, e agora já me refiro aos anos 60, século XX, era fortemente marcada pela presença de negros. E, sim, isso significa que, a princípio, os primeiros skinheads foram negros. Skinheads brancos e negros conviviam lado a lado (fator muito atribuído ao fato de ambos trabalharem nas fábricas inglesas, lado a lado). Justamente pelo movimento skinhead possuir raízes operárias, torna-se compreensível de entender o porquê de seu visual e característica. Em relação ao visual, o coturno, a calça jeans e o cabelo curto (ou raspado, não há regra) são acessórios típicos de um trabalhador de fábrica; enquanto que a paixão pela cerveja, pelo futebol e pelo ska (música jamaicana) tornam-se características. O futebol, nos dias de hoje, é assistido no mundo inteiro e tornou-se uma febre em diversos países (na Inglaterra, principalmente). Contudo, vale ressaltar que o futebol também já foi visto como um “esporte de classe baixa”, para pessoas menos favorecidas economicamente. Assim, era comum os primeiros skinheads, negros e brancos, saírem juntos da fábrica e se reunirem na casa de alguém para tomar cerveja, ouvir música (lembre-se do “Toots and the Maytals”) e assistir partidas de futebol. Cultura, essa, aliás, do machismo, associada aos skinheads até os dias de hoje. Levando esse simples resgate histórico em consideração, temos novamente de reconhecer a importância dos negros nessa história. É por tal razão que se torna inaceitável, contraditório e oligofrênico um skinhead se dizer racista. Sabendo da existência, agora, de grupos skinheads com ambas as ideologias, seja de esquerda ou de direita, é preciso também se atentar ao surgimento de novos grupos skinheads no passar dos anos. Um dos mais conhecidos grupos de skinheads tradicionais – ou seja, skinheads autênticos, que promove uma união entre negros e brancos – é a SHARP (Skinheads Against Racial Prejudice), grupo que busca resgatar a verdadeira história skinhead. Foi um grupo criado em 1987, na cidade de Nova Iorque. Foi o britânico Roddy Moreno, guitarrista da banda Oi! galesa The Oppressed, um dos responsáveis (senão o responsável) pela popularização da SHARP. Além disso, foi ele 37


quem pensou na escolha do elmo para ser o símbolo da SHARP, já que o elmo é uma referência à gravadora Trojan Records, conhecida por lançar artistas e grupos negros. Na contramão disso tudo, temos também o grupo de Skinheads White Power, que visam a supremacia da raça branca. Trata-se de um grupo espalhado por todo o mundo, que conta com sedes numa grande gama de países. Na Inglaterra, por exemplo, uma das bandas que mais levava as ideias nacionalistas para frente (além de ideias supremacistas), era a Skrewdriver, liderada pelo frontman Ian Stuart Donaldson. A Skrewdriver, diga-se de passagem, começou como banda punk, e só posteriormente, lá pelos idos dos anos oitenta, tornou-se uma banda skinhead, fortemente marcada por claras tendências racistas. Eles não só estavam a encomiar Adolf Hitler e a raça ariana, como também exerciam muita influência dentro do movimento RAC. Em 1987, eles lançaram seu quarto álbum, o famoso “White Rider” (com todas as letras compostas pelo vocalista Ian Stuart Donaldson), e podemos dizer que este disco se divide majoritariamente em três grandes pilares: o supremacismo branco (que dá nome ao álbum), a xenofobia, e óbvio, o anti-comunismo. Na Itália, uma das mais lembradas bandas de extrema-direita foi a “A.D.L. 122”. O nome da banda, por si só, já é controverso. Significa “Anti Decreto Legge 122”, ou “contrários ao decreto 122”. Na Itália, o decreto 122 proclama “misure urgenti in materiale di discriminazione razziale, nazionale, etnica e religiosa” (traduzindo, “medidas urgentes em matéria de discriminação racial, nacional, étnica e religiosa”). O álbum mais famoso da A.D.L. 122 talvez tenha sido o “L’Angelo Della Morte” (segundo álbum do grupo, lançado no ano de 1995 e composto por doze músicas). Se pegarmos, por exemplo, a letra da quinta faixa do álbum, “Non Morirà Mai” (Não Morrerá Nunca), lemos os seguintes versos nacionalistas: “No, non morirà mai la nostra rabbia / No, non morirà mai il nostro orgoglio / No, non morirà mai la tradizione / No, non morirà mai la nostra gente. / Controllo della stampa e delle opinioni / Tra lobbies di potere e congreghe di massoni / Ma il diritto alla casa e il diritto al lavoro, sono solo un sogno per il popolo italiano.” No Brasil, a história não foi nem um pouco diferente. Por todo o país, surgiram bandas de skinheads de direta e extrema-direita, como Tumulto 38


64, Tropel, Treta HC, Comando Blindado, Brigada NS, Zurzir, etc. Ao mesmo tempo, bandas mais sensatas também pipocaram país afora, como Juventude Maldita, Bota Gasta, Bandeira de Combate (formada por skinheads da Bahia), e várias outras. Por mais que a ideologia direitista fosse a que mais se sobressaísse, ambas tiveram a sua voz. Ao lado da ideologia de direita, surgiu em São Paulo a banda Brigada NS. Famosos pela música “Migração”, que protesta contra a migração de nordestinos para o Estado de São Paulo, a Brigada NS é notável também por ojerizar judeus, negros, nordestinos e por cultuar a imagem do líder nazista Adolf Hitler. Por sinal, vale deixar claro que as bandas que cultuam a imagem do antigo líder nazista são chamadas de “bandas 88” (pelo fato do H ser a oitava letra do alfabeto, faz referência ao lema “Heil Hitler”). A música “Migração”, lançada em 2001, no álbum “O Retorno da Velha Ordem”, cita os seguintes versos: “Dia após dia, migram do nordeste centenas de imundos que são uma grande peste / Nossa histórica cultura está sendo esquecida / Nosso povo se mistura com essa espécie apodrecida / Não, migração. / São Paulo está ficando pequeno demais! / Amo São Paulo, quero viver em paz! / Migração diária, polui o nosso Estado / Tenho de lutar, não vou ficar parado.” Pouco se sabe sobre os integrantes da banda Brigada NS. Também não sei se eles já foram ou não punidos pelo teor arcaico e discurso de ódio em suas músicas. Prossigamos. A banda Comando Blindado também traz em seu repertório letras de cunho racistas. Do álbum “Luta Nacional”, destaco a letra das músicas “Mais Um Skinhead” e “Volta CCC”. A primeira, de clara tendência nacionalista, é um grito de união aos jovens brasileiros que compartilham da mesma visão da banda (um grito de união para que tais jovens se unam dentro do movimento). A segunda, faz referência ao Comando de Caça aos Comunistas (órgão paramilitar de extrema-direita, atuante principalmente durante a década de 60). A música enaltece o CCC (que na época, era formado majoritariamente por estudantes universitários das universidades Mackenzie e do Largo São Francisco), trazendo o comunismo a um patamar de perigo à sociedade. Como já dito anteriormente, muitos punks, por não se identificarem 39


com visões de esquerda ou de centro, deixaram de lado o movimento punk e se aderiam ao movimento skinhead, que já possuía em si visões mais direitistas, como conservadorismo, nacionalismo e o lema de “Deus, Pátria e Família” a guiá-los. Vale ressaltar também que toda a cena nacional muito se diferenciou da cena internacional, principalmente no tocante à cena inglesa. Na Inglaterra, até hoje, há uma clara visão de ideologia de grupo e muitos punks e skinheads não só compartilham de uma mesma ideologia como também andam juntos, lado a lado, sem problema algum. Aqui no Brasil, a cena é deveras confusa. Nunca houve uma aproximação entre punks e skinheads, e, um dos principais motivos disso, é a visão político-ideológica. Podemos dizer que em relação ao primeiro, o segundo álbum do Comando Blindado, intitulado de “Marchando Rumo à Vitória”, possui letras bem mais fortes. Neste segundo disco, o destaque vai para as músicas “Imprensa Sionista”, “Judeu Bom é Judeu Morto”, “Maldita Raça” (três faixas antissemitas), e “Cada Vez Te Odeio Mais” e “Pra Você Tanto Faz” (ambas de caráter anti-comunista). Atenção à letra de “Cada Vez Te Odeio Mais”, através dos versos: “Cresce a violência e meu ódio aumenta mais / E o podre comunismo se alastra como doença ruim / Juventude perdida por sua falta de ideologia / Futuros mortos-vivos, criando todas as mentes podres e doentias. (...) / Cada vez eu fico com mais raiva / Eu sei que isso me faz mal / Mas não vou cruzar meus braços nem ficar calado / Raça vermelha irracional / Cada vez te odeio mais.” Outra banda brasileira foi a Zurzir, surgida no sul do país, em meados dos anos 90. A Zurzir é conhecida por cultuar a imagem do führer e também por ojerizar migrantes (nordestinos, mais especificamente). Conhecidos pela faixa “Grandeza Racial”, suas músicas são melodias bem trabalhadas, com grande uso de violões e guitarras (além de possuírem boa qualidade de gravação se comparado com outras bandas nacionais do gênero). A Zurzir possui dois álbuns: o primeiro, “Battle Voice”, foi lançado em 1999; o segundo, lançado em 2013, foi alcunhado de “Triunfo da Vontade”. Além das gravações de teor racista, foi anunciado em 2006 que o músico Alexandre Fraga Carneiro e outros integrantes da banda Zurzir foram condenados pela 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande 40


do Sul por crime de apologia ao nazismo e ódio a minorias, especificadas na lei 9.459/97. A 11ª Vara Criminal de Porto Alegre afirmou que a pena de dois anos e 11 meses em regime aberto foi substituída por multa e duas restritivas de direito. Além das músicas de teor racista, eles agrediram um grupo de pessoas com taco de beisebol pelas ruas de Porto Alegre. Por outro lado, surgiram também bandas skinheads que gritam por justiça e somam voz ao grito de igualdade que ainda soa tímido no movimento skinhead. São a esses skinheads que nos referimos quando usamos a expressão “espírito de 69” (aludindo ao começo do movimento, quando ainda existia uma verdadeira união entre negros e brancos). A Bota Gasta, a exemplo disso, é uma banda paulista que se encontra na ativa desde 2002. Conhecidos pela música “Somos Uma Mistura de Raças”, lançada em 2007 no álbum “Guerra Civil”, a letra é um grito contra o preconceito racial e profere os seguintes versos: “Tanta ignorância sem razão / Querem te mostrar algo que não se deve existir / Bando de idiotas, doentes mentais / Fora do Brasil, racismo nunca mais. / Somos uma Mistura de Raças, temos orgulho de ser brasileiros / Lutando pela nossa bandeira e pela nossa nação.” Embora o movimento skinhead e o movimento punk tenham um grau de parentesco, o movimento skinhead, ainda erroneamente, é visto, graças à insistência da mídia, como um movimento de racistas, enquanto que o movimento punk (ainda que mais tolerado socialmente), é tachado pela mídia apenas como uma fúria adolescente, tal como ele era ainda em seus primeiros dias, e não como uma forma genuína de protesto que acabou dando certo e obteve credibilidade com o passar dos anos. Sobre o movimento nos dias de hoje... “Olha, a sociedade mudou muito”, responde o baixista Michel “Sukata” Stamatopoulos. “E nós ainda temos um problema terrível, em especial na América Latina, pois somos considerados países dentro de um conceito colonial. Então nós temos uma situação implicada em nossas vidas de sermos sempre considerados colônia. Isso daí, a cada dia que passa, a esquerda do país (e da América Latina de forma geral), acentua cada vez mais, personalizando esse contexto colonial. Eu acho isso um absurdo e o punk não foge 41


disso, pois ele é feito de pessoas como mim e você. A gente acaba sendo produto e característica do meio em que vivemos. Então, por mais que você questione e por mais que você esteja com um moicano na cabeça e calças rasgadas, dentro de um contexto libertador do pré-estabelecido pelo Estado, você acabará caindo nas garras do Estado em algum momento da sua vida (nem que seja tendo que abrir uma cerveja para comemorar com os amigos o tombamento de um carro da polícia militar). De um jeito ou de outro, você é articulado para pensar sobre isso e agir dessa maneira. Então se eu começasse no movimento punk naquela época com a cabeça que eu tenho hoje (eu entrei nos Garotos Podres com 16 anos de idade, hoje tenho 48), eu poderia compreender que o punk não morreu, porque, como diz o ditado, “enquanto tiver uma pessoa com o pé descalço no chão sujo, o punk estará ali.” E o punk nunca há de morrer, porque a sociedade vive dentro desse ciclo. A diferença é que o punk hoje não se adequou à realidade dos fatos. Se o punk tivesse evoluído de alguma maneira, hoje nós poderíamos encontrar grandes fazendas no interior do país sendo administradas de forma anárquica pelos punks; mas você não vê absolutamente nada”, diz ele, demonstrando até mesmo um pouco de irritabilidade pela coisa. “E quando eu digo anarquia não me refiro ao conceito de sair por aí chutando lata de lixo, quebrando vidro de bancos e destruindo viaturas de polícia.” Em relação ao fim da banda em 2012, o ex-vocalista grassou por toda a mídia on (obviamente a mídia off não cobriu tal notícia) que o fim havia se dado por “um conflito ideológico”. Por isso, aproveitei para perguntar a Sukata se a dissidência foi de fato uma discrepância ideológica, como todos costumavam sempre afirmar assertivamente. “Olha, não foi ideológico”, ele me respondeu inopinadamente. “Só de vermos a deterioração que aconteceu na banda, a ponto de eu e Mao ficarmos sozinhos como membros iniciais, já percebemos que há uma coisa errada aí. O que Mao não imaginava era que eu fincasse o pé e falasse que ele estava errado. A questão não é de ser ou não um conflito ideológico, mas de não ter subserviência aos interesses políticos particulares de uma pessoa.” No caso, o vocalista José Rodrigues Mao Junior tornou-se 42


CAPÍTULO IV um defensor ferrenho do PT, o Partido dos Trabalhadores, fato que fez a convivência entre os integrantes, principalmente entre eles dois, tornar-se insuportável. “O pessoal fica tentando filosofar em cima de uma coisa que o próprio Mao fica embutindo neles. E esse mesmo pessoal acaba não questionando a circunstância desse líder, pelo fato de o Mao se passar bem por um cara de esquerda, por um líder jovem. Eu acho errado, mas até aí, se a pessoa aceita isso, o problema é dela, não meu. Eu não aceito, eu questiono. Eu quero saber o fundamento, o porquê de estarmos lutando e para quem estamos lutando. Então não houve uma divergência ideológica, porque sempre houve uma aceitação. (...) As imposições políticas e os direcionamentos do Mao [eram uma coisa] que ninguém aguentava. Esse negócio de transformar a banda num agente cultural da esquerda festiva atual é errado, a banda não foi criada para isso, a banda não pode ser assim. Para quem, essencialmente, veio do punk e para quem, essencialmente, veio da periferia e do contexto operário, não tem que segurar a bandeira de filho da p*** nenhum, porque todos eles vão nos trair cedo ou tarde, e a gente está vendo isso agora.” O trecho “todos eles vão nos trair” é uma referência que o baixista fez a uma música do Garotos Podres, no caso, “Anarkia Oi!” (nessa grafia mesmo). “Nós só não estamos vendo essa traição mais diretamente, porque estamos aqui conversando e com saúde. Se Deus me livre, você tiver um derrame e precisar de um hospital, você vai ver que foi traído. Então, dentro desse conceito, não é admitido os Garotos Podres se tornarem uma banda comunista.” E o músico vai além. “Acontece que 33 anos tocando juntos não é pouca coisa. Antes de qualquer coisa, de movimento, de público, de comunista ou de sei lá mais o quê, deve existir o vínculo de amizade. Tem que existir a hombridade, deve existir a vergonha na cara, tem que ser homem. Não é pegar a bola igual uma criança mijada e sair do campo, não é assim que funciona. Já estamos com 50 anos.” 43


“Um dia você vai descobrir que todos te odeiam e te querem morto (...) eles não querem que você viva, destrua o sistema antes que ele o destrua, não acredite em falsos líderes, pois todos eles vão nos trair.” Para o baixista Michel “Sukata” Stamatopoulos, uma banda, lá pelos anos 80, cantou versos como esses, apoiar um governo “traidor” soa deveras contraditório. Usando então o governo (ou o “estamento burocrático”, como diria o grande sociólogo e historiador Raymundo Faoro) como gancho, a conversa vai em direção à decadência social e à pobreza existente em nosso país. Esse cenário de lúgubre pobreza, no qual ainda estamos mergulhados, é de fato um ambiente propício para o surgimento de bandas punks? Afinal, tenhamos em mente que o movimento punk sempre esteve associado a essas precariedades. Quem me mostrou seu ponto de vista em relação a essa pergunta que Michel “Sukata” Stamatopoulos levantou, foi Juninho Sangiorgio, baixista de uma das bandas punks mais bem-sucedidas do país: Ratos de Porão. Para essa entrevista, Juninho me convidou para ir até a sua casa, numa viela sem saída do bairro Ipiranga. Recém-chegado de um mercado, onde comprara apenas comida vegana (lentilha, arroz integral, e naturebas desse tipo), o músico me esperava em frente à sua casa, parado bem no meio da rua. Seu cachorro procurava um lugar para as suas necessidades, andando pela calçada de um lado para o outro. “Que pontualidade, hein?”, disse ele. “Espere só o cachorro terminar o serviço.” Por sorte, o vira-lata não nos atrasou. Optamos em fazer a entrevista no quarto de Juninho, ao lado de uma prateleira repleta de discos de vinil dos mais variados gêneros. Aos domingos, Juninho conduz um programa de jazz na rádio online alternativa Antena Zero (fundada em 2012 e que conta com uma média diária de seis mil ouvintes da faixa etária dos 25 aos 50 anos de idade), chamado “Sunday ‘Round Midnight”, onde só toca os grandes clássicos do jazz. E quando ele me recebeu em sua casa para essa entrevista – na mais colossal boa vontade –, usava uma camiseta verde da banda straight-edge chilena Intenta Detenerme. Isso me fez ter certeza do espírito eclético do músico. Sempre pacato demais e falando com certa segurança de causa, Juninho desenvolveu muito bem suas linhas de raciocínio. 44


“Sim, eu acho o Brasil um local propício para o nascimento de bandas punks, porque as primeiras bandas que começaram a levantar essa bandeira do punk, tipo os estadunidenses do Dead Kennedys ou os ingleses do Discharge, sempre foram de países ricos. E por que é que existem os países de primeiro mundo? Porque têm os de terceiro mundo que os caras estão explorando! Então é assim que as coisas funcionam, cara, só existe a Suécia lá, bilionária, porque existe também algum país de terceiro mundo que está se fod***. Você não pode falar que a Suécia é neutra, não existe essa neutralidade. Você pode ter certeza que todos os escritórios e fábricas responsáveis pelas coisas que os caras produzem estão em algum país de terceiro mundo, explorando. Isso é o capitalismo mesmo. Então o Brasil veio depois, um pouquinho depois dessa explosão mundial do punk, só que falando das coisas de terceiro mundo, coisas que só aconteciam aqui. Não se falava das coisas de fora. Falava sobre o desemprego, sobre o FMI, preconceito racial e social, coisas de sofrimento principal do terceiro mundo e que ainda se mantém atuais. Tão atual que se você pegar a letra das músicas daquela época, você vai ver que continua tudo a mesma coisa porque o capitalismo é o mesmo, senão pior.” Se os países de primeiro mundo têm assuntos de sobra para falar em suas músicas, logo os de terceiro têm uma lista infinda para abordar. Nunca se falou sobre corrupção, preconceitos das mais variadas estirpes e pobreza com tanto conhecimento de causa. Podemos citar o exemplo da banda russa Pussy Riot, formada na capital Moscou, em agosto de 2011. A banda não só grita contra o sistema patriarcal russo através das letras de suas músicas, como também protesta em lugares públicos. Há alguns meses, por volta de julho, foi feito um experimento em vídeo de dois homens andando de mãos dadas pelas ruas de Moscou, fingindo-se de gays. A sociedade russa é muito fechada em relação a namoros de casais do mesmo sexo e isso se torna visível neste vídeo em particular. Segundo uma matéria publicada em 15 de julho, no site da BBC Brasil, Nikita Rozhdesev, uma das idealizadoras do experimento, argumenta: “fiquei chocada com as reações. Foram loucas. A cada cinco minutos, nós recebíamos uma reação ruim vinda de alguém na rua”. A grande maioria da Rússia não aceita 45


relações homossexuais e, como mostrado no vídeo, além de xingamentos e olhares raivosos, há um momento em que um homem enfurecido parte para cima do suposto “casal” a fim de agredi-los por estarem andando de mãos dadas em público. Ao mesmo tempo em que a banda Pussy Riot protesta contra esse tipo de atitude patriarcal e machista, há quem defenda a tese de que os protestos do grupo são demasiados pesados. Em agosto de 2012, as russas gravaram um videoclipe dentro de uma igreja, em protesto ao presidente russo Vladimir Putin. Além dos xingamentos, o videoclipe intitulado de “Oração Punk” foi visto como uma blasfêmia à religião. Isso foi suficiente para levar três delas à prisão. Para Juninho Sangiorgio, baixista dos Ratos de Porão, “todas as pessoas que se envolvem com o punk, querendo ou não, vão ter uma relação com política.” Para ele, é controverso existir um punk não politizado. Pergunto-lhe se o punk é feito para criticar, e ele dispara certeiro. “Ah, sim, o punk é uma crítica social e você pode abordar centenas de assuntos que vivemos na sociedade. Claro, por mais que a banda não tenha necessariamente uma bandeira política, ela pode carregar uma bandeira, digamos, para o underground. Sick of it All, vamos supor, que é uma banda hardcore que toca pelo mundo inteiro. Pô, os caras não levantam bandeira de anarquista, não falam que são punks, mas deixam claro que são do underground. Isso significa que eles querem manter uma relação com uma comunidade que existe no mundo inteiro, que gosta de coisas alternativas, que gosta de sons não convencionais, que gosta de ir ao show para agitar e que gosta de cantar com eles. Então há por aí várias vertentes de punk, do mais politizado ao menos politizado.” Os Ratos de Porão são um belo exemplo de punk politizado. Por mais que a banda tenha passado por uma grande mudança no som (vale mencionar que eles começaram como punks, e hoje, carregam categoricamente a bandeira do gênero crossover), o primeiro álbum da banda ainda é motivo de orgulho entre os punks do Brasil. Saído pela gravadora Punk Rock Discos no ano de 1984, um ano antes do fim da Ditadura Militar – último ano de governo do presidente João Figueiredo –, o álbum de estreia da banda, ba46


tizado de “Crucificados pelo Sistema”, conta com 16 músicas em 19 minutos de duração. Das 16 faixas, apenas uma avança para os dois minutos, já que todas as outras variam entre 15 segundos e um minuto e meio. Nem preciso entrar no mérito de dizer que o álbum foi visto na época como uma grande porrada na orelha. Uma porrada da mais politizada ordem. Entre os sons desse disco que mais marcaram a geração de punks da época está “Obrigado a Obedecer”, numa clara referência ao período militar. A letra da música é tão breve quanto o som: “servir a sua pátria, te obrigam a obedecer, te obrigam a matar, te obrigam a sofrer”. Em 1984, ano em que os Ratos de Porão lançavam este seu primeiro disco, 61,2% da população em atividade naquele ano recebia até dois salários mínimos. Segundo o cientista social Hélio Jaguaribe, no artigo “A Situação Social do Brasil nos Anos 80” (de autoria do sociólogo Salvatore Santagada), “esse contingente de pessoas e 35,4% das famílias com domicílio permanente foram apontados como pertencentes à parcela da população inserida na linha de pobreza.” Talvez grande parte desse mal-estar econômico nos anos 80 fora ocasionado pelo Milagre Econômico, que acontecera entre os anos de 1968 e 1973. Ainda segundo o artigo: “com a política econômica recessiva de 1981 a 1983, o setor dinâmico da economia (a indústria de transformação) diminuiu seu ritmo de crescimento; o País começou a empobrecer como um todo, e os vários grupos sociais que compõem a sociedade tiveram uma queda significativa na sua renda. Os anos 80 trouxeram consigo mudanças significativas de ordem econômica, política, social e também demográfica.” Toda essa decadência social na qual o país estava afundado serviu de inspiração para os Ratos de Porão escreverem músicas como “Pobreza”, “Corrupção”, “Periferia”, e várias outras. Tudo era um reflexo do que a sociedade passava naquela época e o punk agia como uma espécie de porta-voz para todos esses jovens angustiados. Como diria o célebre escritor italiano Cesare Pavese: “antes de eu começar a escrever uma poesia de fato, eu te digo que ela me custa meses de vida e dores.” Conforme afirmado previamente, o punk foi criado por jovens para, primeiro, fazer o rock and roll voltar às suas modestas raízes, sem todo aquele excesso de perfeccionismo e enfeites, endêmico ao rock progressivo; e se47


gundo, porque esses mesmos jovens sabiam que jamais conseguiriam atingir o alto nível de prolixidade que o rock da segunda metade dos anos 60 exigia. Por isso que quando o punk surgiu e se propagou, muitos jovens sentiram como se aquele novo (e incompreendido) tipo de som dissesse a eles: “sejam todos muito bem-vindos”. Aí a união entre punks cresceu em todo o mundo. Com muita calma e comedimento, Fabio Sampaio, vocalista da banda Olho Seco, fala para mim: “O pessoal punk aqui no Brasil é mais americanizado. Lá nos Estados Unidos é assim, os caras sobem no palco, pulam e tal. O público europeu já é mais frio. Eles ficam mais quietões, assistindo ao show de braços cruzados. Você até pensa que não está agradando, mas tem lugares lá na Europa em que os caras cantam nossas músicas em português. Você até pensa: ‘caramba!’” “Isso é assim lá na Alemanha também, não é, Fabião?”, fala o baixista com um sorriso. O vocalista concorda. “Pois é, os alemães vão aos nossos shows e cantam em português. Eles são loucos pelo Olho Seco.” E a banda toda é unânime em dizer que o punk está vivo não só no interior, mas em todas as esquinas do Brasil. Pergunto a eles qual foi o show que a banda mais se orgulha de ter feito, e a resposta não está nos Estados do sul e nem do sudeste (locais frequentemente associados a uma forte cena punk). O show mais memorável do Olho Seco foi em Recife. “O show que eu mais achei memorável foi o de Recife, hein?” diz o vocalista Fabio, virando-se para os outros três integrantes à espera de comentários em apoio. E eles vieram. O baixista lança um: “Ah, foi massa, viu?” e abre espaço para o guitarrista Ricardo Quattrucci entrar com suas impressões a respeito do show. “Tinha ali umas 15 mil pessoas, e tinha também muita energia. Era um ginásio gigante. Foi irado, porque eu lembro que peguei minha câmera pessoal e a coloquei em cima do amplificador, virada para o público. Ela pegava o palco de ponta a ponta, e deu para ver bem aquela galera toda.” O baixista bebe uns goles de sua Heineken e dispara: “Antes da gente tocar, o pessoal já estava gritando o nome da banda. Daí quando começamos a tocar, eu olhei para baixo e vi umas três rodas punks abertas no meio da multidão. Rodas gigantes. Depois eu li resenhas [sobre o show] e falaram que o Olho Seco foi uma das bandas que mais agitaram o 48


evento. Tanto que, depois de nós, entrou uma banda gringa para tocar e o público ficou mais naquela de assistir à banda do que participar do show.” E claro, aproveitando a deixa, nem pense que se trata apenas de um público punk. Muitos skinheads também frequentam os shows. Diante do músico Juninho Sangiorgio, baixista do Ratos de Porão, perguntei a ele se aparecem muitos skinheads nos shows da banda. A clara impressão que ele me passou em sua resposta foi de que o movimento punk/ skinhead brasileiro foi construído sobre um terreno vacilante e não muito firme, repleto de incompreensões a ponto de muitos membros do movimento não tolerarem aqueles que estão na mesma causa, e principalmente no mesmo grupo. “Olha, [skinheads nos shows dos Ratos de Porão] rola pouco, cara. Não rola muito. Eu vejo em outros países, por experiência, que tem muito punk e skin que andam juntos. Nós fizemos uns shows no Chile há pouco tempo e havia muitos skinheads – todos anti-nazi. Olha, vou te falar com sinceridade, eu nunca fui muito próximo do movimento skinhead, porque desde a época em que entrei no punk, os caras já falavam que skinhead era inimigo. Só depois que eu fui entender esse lance do skin inglês e parei pra pensar: ‘pô, mas as coisas não são bem assim.’ Tem skin comunista, skin anarquista, skin antinazismo, o que é bem diferente daqueles skinheads racistas. É outra parada. Então isso é muito confuso. Eu assisti um documentário francês sobre skinheads na França e a confusão é tão grande que até os caras mesmo se confundem. Rola muita treta, umas brigas cabulosas, tudo é muito tenso. Tem um momento no documentário que uns caras falam: ‘a gente era skinhead SHARP (os skinheads anti-racistas) e quando nos encontrávamos com os nazistas na rua, a gente socava os caras e roubava a roupa deles. Então chegou uma hora em que a gente olhava pros caras na rua e nós mesmo não sabíamos o que o cara era, porque ele estava com uma jaqueta roubada, a calça que era dele, o cadarço era de outra pessoa, uma confusão.’ E o que chegou aqui pro Brasil foi tão confuso quanto isso. Um tempo atrás, meu amigo estava andando na rua com a camiseta do Cólera e, do nada, surgiu uns skinheads e socaram ele. Pô, que tipo de skinhead é esse?”, o baixista demonstra um pouco de indignação com esse fato, gesticulando enquanto 49


fala. O vira-lata deambulando ao nosso redor. “Agora nos shows dos Ratos de Porão, eu vejo muitos skinheads de visual clássico, de boa, que estão lá só para curtir o show. São esses que acabam aparecendo.” No dia seis de agosto de 2011, punks e skinheads neonazistas protagonizaram uma briga de bar em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, que acabou com oito pessoas feridas. A confusão se deu no Terraço Garibaldi, situado na Avenida Venâncio Aires, bairro Cidade Baixa, por volta das 19 horas. Um dos feridos, esfaqueado na barriga, era negro e não possuía qualquer relação com a briga. No sábado, três de setembro de 2011, um show da banda inglesa Cock Sparrer, no bar Carioca Club, em Pinheiros, zona oeste da cidade de São Paulo, foi palco para mais uma briga entre punks e skinheads. Cerca de 200 pessoas se envolveram na confusão. Punks e skinheads se enfrentaram com facas e garrafas. O punk Johni Raoni Falcão Galanciak, de 25 anos, foi morto com uma facada. Ele chegou a ser transportado até o Hospital das Clínicas, no bairro paulistano de Cerqueira César, mas não resistiu. Em 2012, Tamires Fernanda Sozinho, então com 28 anos, chefe de um grupo de skinheads que agia na região metropolitana de Porto Alegre, também foi presa. Ela foi encontrada escondida em Caxias do Sul, na casa de parentes. Além de agredir seus rivais com um estilete, Fernanda também possuía várias tentativas de homicídio em sua ficha criminal. “Eu não tenho nada a falar pra vocês”, disse à equipe de jornalistas no momento de sua prisão. Em abril de 2013, Antônio Donato Baudson Peret, então com 25 anos, foi preso na cidade de Americana, interior do Estado de São Paulo. Antônio ficou conhecido nacionalmente por postar uma foto na rede social Facebook em que aparecia enforcando um morador de rua e cometendo crime de apologia ao nazismo. Em Minas Gerais, seu Estado natal, Antônio Peret é acusado de mais seis ocorrências, todas tendo negros, moradores de rua e homossexuais como vítimas. Na matéria, publicada pela plataforma on-line Terra, há ainda no título uma alusão ao movimento skinhead. Em nove de março de 2015, foi noticiado que a Polícia Militar havia prendido um truculento skinhead na pequena cidade de Mogi Mirim, inte50


rior do Estado de São Paulo. Juliano Aparecido de Freitas (condenado, em 2011, a 24 anos e seis meses de prisão), acompanhado de mais três skinheads, obrigaram dois jovens punks a saltarem de um trem em movimento na estação de Brás Cubas, em dezembro de 2003. Na época, tal fatalidade foi um grande destaque nos noticiários. As vítimas usavam camisetas de bandas punks – como Ramones – e possuíam moicano como corte de cabelo. Um morreu, o outro teve o braço amputado. Em sete de agosto do mesmo ano, foi divulgado que Guilherme Lozano de Oliveira, 22 anos, havia sido detido por ter assassinado e esquartejado a sangue frio sua tia paterna, a professora Kely Cristina de Oliveira, de 44 anos. O responsável por entregar Guilherme à polícia foi o próprio pai, irmão da vítima. A notícia conta também que Guilherme é um skinhead responsável pela morte de um amigo punk em 2011. A justiça autorizou que ele aguardasse um recurso em liberdade. Esses episódios citados acima são apenas alguns exemplos de brutalidades ocorridas entre punks e skinheads, dois movimentos que, embora possuam familiaridade, são cada vez mais mantidos longe um do outro (talvez por falta de conhecimento ou ignorância de seus membros). Em todas essas notícias publicadas na mídia no passar dos anos, não houve interesse por parte dela em esclarecer a verdadeira história por trás de ambos os movimentos – o que seria salutar para que tentássemos resolver problemas de racismo e preconceito. Einstein costumava dizer que “os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criamos.” É nisso em que se resume toda e qualquer generalização que os cidadãos fazem ao afirmar de cátedra que todo skinhead é racista ou todo punk violento. Novamente frisando, isso tudo por culpa da grande mídia. Assim, toda generalização popular nada mais é senão compreensível, fruto desse desserviço, e nesse defeito, para piorar, reside a perpetuidade.

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ANEXOS:


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O jornalista musical Rafael Fioravanti ao lado dos integrantes da banda punk Olho Seco


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O jornalista musical Rafael Fioravanti ao lado de Michel “Sukata� Stamatopoulos, da banda Garotos Podres


Aqui, ao lado de Juninho Sangiorgio, baixista da banda Ratos de PorĂŁo 57


Punk: A Questão Político-Ideológica Punk: A Questão Político-Ideológica é um livro que procura contar minuciosamente a história de um dos mais incompreendidos gêneros musicais: o punk rock. Contando o nascimento do rock and roll, a partir do estilo de vida dos negros estadunidenses, para só depois, então, contar o nascimento do punk, o jornalista musical Rafael Fioravanti de Almeida não economiza palavras para relatar as posições ideológicas de algumas bandas participantes do gênero. E muito menos para explicar o porquê de punks e skinheds possuírem o mesmo sangue. Um livro atraente e controverso do começo ao fim.

LIVRO É CULTURA

Punk: a questão político ideológica  

"Punk: A Questão Político-Ideológica" é um livro que procura contar minuciosamente a história de um dos mais incompreendidos gêneros musicai...

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