Page 1

Uma palhaça entre mundos miúdos Genifer Gerhardt Dimpério Irá sozinha a Sarule, com seu figurino, sua máscara e seu tambor; não para conquistá-los, mas para ser tomado, converter-se na imagem, em sua memória, do homem que se fez ator, para buscar-se a si mesmo, ao se confrontar com os demais (Barba: 1991, 108). Este relato trata de trocas em povoados. De experiências sentidas durante um andar. De outubro a dezembro de 2009 realizei trocas em regiões de até dez mil habitantes nos estados da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estabelecendo um roteiro de Salvador, BA, até Santa Cruz do Sul, RS. Viajei sozinha de ônibus, mochila nas costas, carrinho na mão, em locais escolhidos no caminho, dormindo em casas de pessoas desconhecidas. Minha moeda de troca: dois espetáculos, um solo de rua como palhaça e com bonecos intitulado Re-bolando com a Gringa Errante e um teatro Lambe-lambe que chamo de Mundo Miúdo ‒ teatro de animação.

Trajetória Quando era pequena e diziam que eu deveria ter cuidado com desconhecidos, ficava amedrontada. Lembro que as primeiras vezes que saí sozinha andando pelas calçadas de minha cidade natal, Santa Cruz do Sul – uma pequena cidade com uma enorme igreja em estilo neogótico –, eu costumava fazer caretas. Sim, as mais horrendas caretas de que era capaz. Atravessando os sinais vermelhos, lembro do chão com seus buracos, e os olhos de desconhecidos que gelavam minha alma. Pensava: “se eu fizer uma cara bem feia não irão gostar de mim, e assim estarei salva”. Língua para fora, sobrancelhas afastadas, boca torta: era capaz de tudo com minha pequenina face, em meus primeiros caminhos solitários.


Quando cresci mais um pouco, criada por minha mãe e suas costuras doces a enfeitar casas alheias, me mudei com ela, o irmão mais miúdo e um padrasto. Fui morar na capital gaúcha, em um Alegre Porto no sul. E lá, em praça pública, já com meus quinze anos, vi um desconhecido que se tornou especial para mim. Não descobri, na época, seu nome. Nem o modo como sobrevivia, sua família, comida preferida, nem seus sonhos, aspirações. O homem – que dez anos depois fui descobrir ser chamado Tcheli – estava atrás de uma caixa torpe de papelão, escondido, a mexer bonecos pequeninos. Carregava consigo um walkman colado com fita adesiva, acoplado a duas caixinhas de som. Ele trazia um chapéu, e a nave espacial que animava era uma tampa de panela enfeitada com miçangas. Não havia falas: música e seres, só. E risadas, das mais belas, preenchendo rostos da multidão que se aglomerava à sua frente: crianças, adultos, idosos. Ali, sentada procurando o manipulador, lembro de ter pensado: “queria que minha amiga lá de Santa Cruz visse isso!” Ela havia ficado na minha cidade, e eu agora estava lá a dividir emoções com quem nunca vi. Quando completei meus dezoito anos mudei-me com minha família para outra capital, a baiana. Dizia: “vou, mas volto logo”. Voltaram, e eu fiquei. Um dia, esperando para ver um espetáculo, sentada em um banco velho e verde, olhei para o lado e me surpreendi com um palhaço. Não, ele não tentava fazer graça. Nem sequer me viu, escondido em seu silêncio. Tinha malas, vermelha uma delas. E após uma respiração profunda que acompanhei à distância, cabisbaixo, foi aos poucos erguendo o olhar. Viu-me. E eu o vi e toda a tristeza que também um palhaço pode ter. E toda sinceridade com o presente. Aquele homem, pouco depois, se apresentava, sozinho como o outro, em praça pública. E erguia sorrisos de todas as idades, a brindar o encontro. Aquele homem reconheci como eterno mestre e monsieur: o Alexandre Casali, palhaço Biancorino. Entrei na faculdade de teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fiz trabalhos, artigos, dei aulas, atuei dentro de salas de espetáculos de todos os tamanhos. E dentre mestres prático-teóricos conheci o Eugenio Barba e o grupo Odin Teatret da Dinamarca. Exerciam e ainda exercem atividades ligadas à Antropologia Teatral. Um dia deparei-me com as “trocas” do grupo. Descobri que em 1974 (...) o Odin Teatret deixou seu laboratório de Holstebro e mudou-se para Carpignano, uma aldeia de 2 mil habitantes em Salento. O encontro e o confronto com este ambiente geográfico-cultural teve um notável impacto sobre o grupo, enfrentando numerosas circunstâncias imprevisíveis (Barba: 1991, 103).


O grupo propôs o enfrentamento como forma de descobrir, na experiência, o sentido de suas atividades. Permaneceu durante dois meses neste povoado ao sul da Itália, realizando suas atividades e percebendo a reação dos habitantes, meros desconhecidos, frente àquele trabalho. E descobriu nas “trocas” possibilidade de diálogo sem renúncias, baseados na cultura popular: “que não divide, mas reúne”:

A diferença é nosso ponto de encontro. Imagine duas tribos nas duas margens de um rio. Cada tribo por viver por si mesma, falar da outra, falar mal ou elogiá-la. Porém, cada vez que cruza o rio e vai à outra margem, o faz para trocar algo. Não cruza a água para ensinar, falar, se divertir, mas para dar e receber: um punhado de sal por um pedaço de tecido, um arco por algumas pérolas. Trocamos nosso patrimônio cultural (Barba: 1991, 106). A ideia da troca como possibilidade de enfrentamento me atiçou. Mas como trocar sem um grupo, sendo uma só? E como trocar sem uma estrutura, sem apoio financeiro? No mesmo livro, Eugenio Barba descreve em breves e curtas linhas a “troca” realizada por uma das atrizes do grupo, Iben Nagel, que, sozinha, passou duas semanas conhecendo e trocando com habitantes em um outro povoado: Ollolai, na Sardenha. Chegando, encontrará uma realidade que não lhe espera e não lhe faz sentir-se necessária. Aqui, não é a ação do ator que é necessária, mas a ação do homem. É o momento da solidão – não pode conquistar, perturbar: é estrangeira e se sentirá estrangeira. Deve novamente encontrar o motivo de sua presença nos olhos, nos gestos, nas reações dos demais. Como fazer chegar sua necessidade à necessidade dos demais se não são as do planeta Teatro? No fundo, você sabe: só destruindo-se, queimando-se, quebrando-se com uma violência que aqui cada homem padece (Barba: 1991, 108). No texto há estas palavras e outras poucas relacionadas à viagem solitária da atriz, que compõem uma página do livro onde ainda se encontram duas fotos da mesma. O “como” tornou-se tarefa imaginativa, e resolvi investigar possibilidades.

De início, propus-me a criar um espetáculo solo de rua visando trocas, por entender, também, que a rua é o local mais propício para o encontro com públicos mais diversificados em culturas, idades e crenças.


Por ver na rua desconhecidos em potencial. E por ser um local extremamente democrático e livre para o exercício e troca de ideias. Re-bolando com a Gringa Errante é um espetáculo que dialoga com experiências de rua, com saberes no ramo do Teatro de Animação e com conhecimentos acadêmicos prático-teóricos. O espetáculo solo traz a palhaça Palitolina, eu, interagindo e se atrapalhando no encontro com personagens e bonecos inusitados. Com poucas palavras e composta de números próprios, a montagem privilegia o riso em uma esfera poética e contagiante. Resultou no meu trabalho de conclusão do curso de Licenciatura em Teatro (TCC) na UFBA em 2008.2, sob orientação de outra mestre, a professora doutora Sonia Lucia Rangel, intitulado Re-bolando com a Gringa Errante: em busca de uma Pedagogia da Troca com palhaça e bonecos. A pesquisa tratou da criação do espetáculo e de uma experiência realizada no povoado de Bravo, município de Serra Preta, interior da Bahia, onde, através desta peça, realizei trocas culturais e me aproximei de crianças, adultos e idosos do povoado. Esta aproximação permitiu-me conhecer parte da cultura da região, divulgá-la e dialogar esta experiência com minha prática diária, pedagógica e cênica, além de estimular minha vontade de estender e prosseguir com a pesquisa por outras regiões do país. O Mundo Miúdo - teatro de animação foi outra concretização de sonhos que há muito me perseguiam: pequenos bonecos com simples histórias a encantar o presente. Ele faz parte de uma forma teatral conhecida como Teatro Lambe-lambe. O Teatro Lambe-lambe é uma das várias manifestações que constituem o Teatro de Animação Contemporâneo. (...) Esta nova forma de teatro utiliza uma pequena caixa cênica, portátil, dentro da qual é encenado um espetáculo de curta duração (na maioria das vezes dois minutos), com a utilização de bonecos ou outros objetos que são animados (Arruda: 2007, 131).

Esta nova linguagem foi inicialmente criada a partir da observação dos antigos fotógrafos de rua, os chamados Lambe-lambes. Consiste em uma caixa. Pequena. Dois orifícios na parte da frente, trilha sonora. E lá dentro pequenos seres mostram ao espectador o seu mundo, miniaturas do que aqui fora é supérfluo, ou miúdo demais para ser visto a olho nu.


De lá – da caixa misteriosa – pode surgir de tudo: é um mundo à parte, poético e único que apresenta o pequeno como princípio, e a possibilidade enquanto fim. Um novo mundo onde a recepção é tão diversa quanto a criação, novos olhares sobre o cotidiano. Pequenos espaços intimistas que trazem em si histórias breves e delicadas; grandezas de intimidades capazes de aproximar pelo encantamento. Sempre olho no olho, sei de cada um que assiste e compartilha comigo este olhar. Nossa relação – o público e eu – é particular e onírica. Recebo sempre sorrisos ao final dos espetáculos miúdos. E, vez ou outra, brilhos nos olhos que conversam comigo em palavras mudas. Tinha comigo, agora, dois espetáculos. E junto deles a minha vontade antiga de apresentar em cidades pequenas e de me enfrentar e ao meu trabalho como forma de aprimoramento e pesquisa. Além disso, carregava em meu peito a saudade de minha mãe, que há dois anos morava longe, no sul, junto ao resto da família. Assim, com meus vinte e cinco anos resolvi unir trabalho e diversão e ir ao encontro de minha mãe, no Rio Grande do Sul, via trocas. Em 2009 resolvi partir.


A partida, as chegadas Foi em um dia de domingo que decidi a saída. Era um desses domingos que se está em casa fazendo contas e a colocar a cabeça nas mãos, droga de vida. Tive a noção de que trabalhava para pagar despesas, nada mais. A comida. O transporte. A luz, o telefone. E pensei comigo: “a vida não pode ser só isso!” E acrescentei: “minha vida não pode ser só isso”. Aí, em silêncio peguei o calendário. Números miúdos em folha de agenda, sucessão de ciclos de lua, circulei um dos dias: aqui. Marquei a saída que sempre empurrava para “um dia faço isso”. Marquei o recomeço. Risquei o calendário cego. Nos meses seguintes, sem alarde apresentei-me na praça de Salvador todos os finais de semana. Era temporada teatral, a minha, e profissional ‒ até então eu havia apresentado Re-bolando com a Gringa Errante uma única vez durante o TCC. Mochilão nas costas com o material cênico, peso, ônibus cheio, um não saber fazer e um insistir quase doentio. Porque doía não saber fazer. E dentre públicos pequeninos, sorrisos leves, crianças destruindo o cenário e bêbados, havia um grupo de senhoras e senhores a me acompanhar à distância, dos bancos da praça. Estavam sempre lá. Aplaudiam de longe e hora ou outra vinha algum ajudar com pequenas moedas no chapéu. Mal sabiam o quanto ajudavam, a me olhar junto às estátuas mudas. E a sorrir, compartilhando meu progresso. Em todas as apresentações eu lembrava de ensinamentos de mestres palhaços que tive. De “engolir e seguir em frente”, como diz Alexandre Casali. E das palavras do palhaço argentino Chacovachi ‒ que conheci em uma oficina que fiz, como bolsista, no Anjos do Picadeiro 6, em Salvador. Com ele aprendi que “não importa se você é bom ou não, importa é fazer. Se é bom ou ruim é o tempo quem vai dizer”. Após todas as apresentações eu voltava sozinha para casa pensando no que foi, como foi, como fazer diferente. Assim os dias se passaram. Enquanto isso, em casa, eu também me preparava, costurava a mão saquinhos de diferentes tamanhos e tecidos: este é para as meias, aqui vai a mini-farmácia. A diferença de textura dos panos ajudaria na hora da procura na mochila, mão lá dentro sem olhos e puxar o saco certo.


Dois meses, três, quatro, cinco. Aos poucos, de moedinhas passei a receber notas, e as dores pelos erros foram amenizando ‒ não doía sempre, só às vezes. E chegada a hora da partida já considerava o espetáculo bom, ainda que eternamente inacabado. No estado de palhaça não há como fechar gestos e reações e atitudes ‒ aprendi com o tempo. E que bom, que bom! Na saída para a longa viagem abracei as pessoas queridas. Malas, Mundo Miúdo, mochila, guardachuva. Pegou tudo? Acho que sim. Pegou a coragem? Acho que sim. Segui para a rodoviária em ritmo leve. Não havia pressa. Agora seria assim, sem pressa, a apreciar o acaso, os encontros, o novo. Minha estratégia de ação nos povoados era simples. Ia de ônibus até uma cidade maior escolhida pela região. Lá, na rodoviária, com o mapa na mão indicando as localidades possíveis, escolhia o próximo povoado. Ora porque me indicavam, ora porque eu achava o nome bonito ou interessante. Ou até na sorte, apontando o mapa de olhos fechados. Aí procurava saber como chegar ‒ o maior de todos os desafios. Chegando ao local, percorria as ruas ‒ ou a rua ‒ olhando as pessoas e conversando, e aos poucos íamos nos conhecendo, aceitando ou não o novo. No caso de haver aceitação me convidavam para ficar, e eu dormia com eles e elas em casas das mais variadas cores, e cheiros, e tamanhos, e culturas, e moradores. E apresentava nas praças, nos clubes, igrejas, escolas, e nas casas. Quando sentia que bastava, seguia.


Em alguns locais fiquei dois dias, em outros cinco, em um fiquei doze dias na mesma casa. Sentia quando minha presença era bem-vinda e quando não. E partia imediatamente ao ver rejeição, porque o Brasil é grande, e não é preciso forçar o querer. E entre as alegrias de me conhecer, e as desconfianças, houve os que agradeciam em rezas coletivas a minha presença e os que me mandavam embora ao me conhecer, braços cruzados sinalizando a distância. Entretanto, havia um momento sempre mágico nos pequeninos/grandes lugares. Um momento único, que se repetiu em todas as regiões que estive: estando palhaça, após as apresentações de Re-bolando com a Gringa Errante, as portas sempre se abriam. Sempre havia locais para ficar, para dormir, conversas já sem medo à beira de fornos de barro. Talvez porque ali, frente à apresentação, entendiam o meu caminhar como troca ‒ a balança equilibrava-se em cada um de seus lados. Ou talvez por ser o palhaço verdadeiramente tão humano a ponto de aproximar, ainda que sem palavras, e combater os medos presentes no encontro com o novo. Lembro-me que Gardi Huter citou, certa vez, em uma mesa-redonda que fez em 2007 no mesmo encontro Anjos do Picadeiro 6, que a arte, em seus primórdios, surgiu para exorcizar os medos: desenhos em cavernas com representações daquilo que os assustava e guerreiros, mostrando que é possível combater esses medos. O palhaço, para Gardi, é uma forma evoluída de manifestar os medos. Ele se coloca nessa posição representando todo sofrimento do mundo: é o tolo, o incapaz, o débil, o contrário de tudo que a realidade atual preza. E mostra-se como um consolo ao público, que pensa: “ufa! Alguém é mais estúpido do que eu”. Nos povoados, senti o espetáculo de palhaça como ponto fundamental de aproximação. Nos lugares onde não foi possível apresentar dificilmente houve troca, ou conversas tranquilas sobre realidades distintas. A desconfiança pairava como vela acesa em noite de rezas. Mas após o espetáculo havia entrega, respeito e cuidado mútuo. E assim as trocas transcorriam de forma espontânea, inundando meus dias de surpresas multicolores.


Pagamentos e aprendizados Como o trabalho do Odin Teatret em 1974, o meu não foi totalmente altruísta. Não era um trabalho gratuito. Sem dúvida, as motivações do Odin Teatret para trabalhar em Carpignano são antes de tudo egoísticas: estamos aqui porque esta tarefa nos estimula, porque aqui temos a possibilidade de enfrentar um trabalho novo, de colocar-nos em situação de desafio (Barba: 1991, 103). Colocar-me nesta posição de desafio tornou-se fundamental para minha visão desse trabalho como catalisador de encontros ‒ interessava-me a aproximação em si e as trocas com as pessoas de cada povoado, mais do que o lucro ou o glamour trazido por espetáculos teatrais em cidades pequenas. Buscava conhecer o cotidiano e os conhecimentos presentes neste vivenciar, diferentes em cada região. Esta era a moeda.

Claro que havia o chapéu, as contribuições em cédulas para o trabalho. Ao contrário do Odin, em minhas trocas não contei com patrocínios, apoios financeiros, e todos os gastos que tive saíram de meu bolso, de um dinheiro que juntei trabalhando com teatro em Salvador e com o chapéu que passava durante as apresentações. O dinheiro, este, foi apenas o suficiente para as passagens de ônibus, lanches e hotéis baratos nas cidades intermediárias, em que eu parava para o envio do material entre um povoado e outro. Não era a troca por dinheiro o foco ‒ eram outros os escambos principais desta jornada. Era o conhecimento, a possibilidade de encontro com o desconhecido, o confronto comigo mesma, com minha profissão em realidades outras que não as teatrais.


Assim, os dias em companhia do tempo ultrapassaram expectativas. Encarei frente a frente sentimentos dos mais variados, chorei de alegria e de tristeza inúmeras vezes. Fiz bolhas de sabão do medo: eram coloridas e depois explodiam no vazio. Fiz das desconfianças força, bordei castelos de amanhecer do apreciar. Um dia de cada vez. Fugi, procurei, recomeços constantes. E aprendi.

Aprendi

com

Dona

Aparecida

do

povoado

de

Campinarana, na Bahia, que as religiões podem ser respeitadas pelo simples fato de carregarem consigo a fé, maior de todas as forças. Vi com o silêncio dos habitantes de Dourados, Minas Gerais, e com o contato com os integrantes do circo Vitória, da Bahia, que não é preciso forçar o querer: que há muito chão e muitas pessoas para trocar, basta “baixar a lona” e seguir, erguendo ali em frente. Aprendi com a Dona Galdina (Diu) o meu papel frente à injustiça presente nas terras, com a Dona Bil vi o sorriso sendo lançado sem cobranças, entendendo, na Comunidade de Poções, MG, que sempre se pode sorrir, não importa a dificuldade. E que sempre se há de chorar, não importa a grandeza. Com Dona Maria rosquinhas, com Ângela mousse de maracujá. Panquecas de batata na Paula e no Alê. Em Belo Horizonte aprendi, com a Cia El Indivíduo, como viver da arte de rua, e bem. Com coragem, criatividade e suor. A Marisa e a Dinha de Holambra, São Paulo, mostraram-me a pureza presente nas pequenas ações de ajuda, e o Seu Betinho, de Mogi das Cruzes, cidade intermediária, além de me ensinar como escolher limões e laranjas em feiras, ensinou-me que a família é mero reconhecimento de quereres, não conta tanto o sangue e a genética. A família ‒ irmãos, tios ‒ pode ser escolhida, basta o reconhecimento da amizade.


Dona Maria, de 75 anos, mostrava-me a meninice presente em qualquer idade enquanto, sentada no cordão da calçada, calmamente esperava o filho para consertar seu fusca empacado. “É sempre assim, esse é o meu carro!” ‒ sorridente, não tinha pressa em viver. E em Paranaguá, em dia de chuva em um hostel conheci Seu Bide, pescador antigo de cabelos brancos, apaixonado desde os doze anos de idade pela profissão. Aprendi com ele a delicadeza de se batalhar pelo que se quer, no silêncio e com foco. E que, em tempestades, não resta nada a fazer a não ser segurar-se firme ao leme e esperar. Indo até a tribo indígena de Araçá-i, no Paraná, senti que por respeito também se afasta, e se nega. Que não é preciso estar com para amar. E com a Zila e o Cássio em Barra do Sul, litoral catarinense, aprendi que a vida pode ser simples como as ondas do mar, a ir e vir em marés de aconchego. Participei do Anjos do Picadeiro 8 durante a viagem, e lá encantei-me com mestres em falas, atitudes e silêncios. A grandiosidade do tempo em Avner, senhor-menino. E a sabedoria do circo em uma doutora de nome Erminia que reconheci amiga, assim como tantos por lá. No sul de Santa Catarina aprendi a ter mais cautela, cuidados pequeninos de mundo gigante. Na Capela São Francisco, Rio Grande do Sul, ensinaram-me que o trabalho duro deve sempre ser atrelado ao bem viver, relações puras que não estão atadas unicamente à moeda dinheiro. E aprendi com o tempo que recebemos o que buscamos. Que onde há gente há gente, independente das barreiras ou cercas que enlaçam o viver. E, ainda, que “não há como generalizar comportamentos por regiões porque isso desconsidera o fato de que, bem lá no fundo, independente do tempo/espaço, somos da mesma raça de bichos, nascemos, crescemos, cremos, tentamos, conseguimos algo e morremos, em ciclos humanos intermináveis de esperança, parceria e solidão”. Escrevi isso no meu diário de bordo. Em todos os locais que estive buscava novos amanhãs, e só. Buscava ver as pessoas com olhos, ouvidos e pausas. Buscava o natural, o conhecimento escondido em cotidianos. Mas buscar o que não se sabe nem sempre é tarefa fácil. Amedronta. Buscar o que não se sabe mexe com o que não se sabe, com emoções escondidas. Com sentimentos quietos em suas portas cerradas, lá guardadas no fundo da gente. Se sentia medo? Sempre. Em cada chegada, em cada estar. No entanto fazia parte, também não queria a distância deste sinalizador que freia, mas que, simultaneamente, me fez avançar como forma de transgressão. Sentia medo, muitas vezes, porque me ensinaram a ter medo do desconhecido. Mas tinha consciência de que não há necessidade de temer, que os caminhos podem ser outros.


Se sentia solidão assim, viajando sozinha? Não tinha como. Havia sempre pessoas dispostas a me mostrar algo, crianças com suas brincadeiras e cantigas próprias de roda, idosos com histórias de anos. Não havia como me sentir sozinha afora os momentos habituais e humanos de solidão, quando não importa quão rodeados estamos de pessoas queridas: sentimo-nos sós ainda assim. Sentia saudades de casa, como sempre se sente quando se está longe. Mas eu estava perto de mim, e tornei-me minha própria morada. O meu refúgio. O meu quarto com suas bagunças e tênis jogados pelos cantos, meu baú com lembranças doces a impulsionar.

Uma amiga mais tarde citou ser esta viagem o meu tesouro, ninguém o tira de mim. E jamais conseguirei expressar em palavras as mudanças que senti e sinto em meu corpo, meus valores mexidos vindos deste caminhar. Os momentos, os belos e os tristes, estão tatuados em mim como estas flores coloridas. Os aprendizados, as imagens, o florescer dos sorrisos. (Sinto já saudade das estradas, das preocupações simples, aonde vou dormir amanhã?). Aprendi, miúda, a não sair com desconhecidos ‒ era perigoso. E carreguei medo comigo por todo esse tempo, fazendo caretas por dentro e por fora. No entanto, o que conhecemos, afinal? Somos desconhecidos para nós mesmos, não importa o que dizem ou dizemos que somos: sempre podemos ser algo diferente. Descobri nesta jornada que desconhecidos são horizontes em potencial, que carregam consigo conhecimentos dos mais variados tipos, das mais variadas cores, dos estilos mais diversos. E resta, frente a eles, apenas trocar e aprender ‒ como se faz com os mestres de livros de faculdade. A linha tênue que nos separa é apenas um risco, na imensidão de encruzilhadas que enlaçam o viver.

__________________________________________________


Referências ARRUDA, Kátia de. “O menor espetáculo do mundo”. In: Teatro de Bonecos: Distintos Olhares sobre Teoria e Prática. Organização: Valmor Níni Beltrame. Jaraguá do Sul: Design Editora / UDESC, 2007. BARBA, Eugenio. Além das Ilhas Flutuantes. Tradução: Luis Otávio Burnier. Campinas, SP: Editora Hucitec, 1991. CHACOVACHI. Manual e Guia do Palhaço de Rua. Salvador: Teatro Sesc/Senac Pelourinho, dez 2007. 03 cassete sonoro, ¾ pps, estéreo. (135 min). [Gravação sonora da oficina dada por Chacovachi no Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 6, autorizada pelo mesmo]. DIMPÉRIO, Genifer Gerhardt. Anotações da mesa redonda: Criação - modos de pensar e fazer, com Biribinha, Gardi Huter e Leo Bassi. Mediação: Hugo Passolo. Salvador: Teatro Sesc/Senac Pelourinho, 14.12.2007. [Não-publicado. Mesa integrante do Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 6].


Créditos das fotos 1. Malas - esperando o ônibus - Foto: Genifer Gerhardt - Pericó/SC 2. Apresentação na rua - Foto: Ana (12 anos) - povoado de Campinarana/BA 3. Mundo Miúdo - uma outra história - Foto: Vera Milliotti 4. Mundo Miúdo - apresentação em uma escola - Foto: Kauany (10 anos) - Barra do Sul/SC 5. Mundo Miúdo - "N'eu e N'ele" - Foto: Expinho 5. Colhendo ameixas - Foto: Marina (11 anos) - Capela São Francisco/RS 7. Corrida antes da apresentação - Foto: Djalma - Comunidade de Poções/MG 8.Tomando café e ouvindo histórias da Dona Bil - Foto: Genifer Gerhardt - Comunidade de Poções/MG 9. Apresentação em uma escola - Foto: Caio (15 anos) - Barra do Sul/SC 10. Personagem do Mundo Miúdo na casa da Dona Galdina - Foto: Djalma - Comunidade de Poções de Baixo/MG 11.Seu Betinho e Dona Maria (uma carona no fusca que perdeu o vidro) - Foto: Genifer Gerhardt - Mogi das Cruzes/SP 12. Indo - Foto: Angela - São Paulo/SP

Uma palhaça entre mundos miúdos.  

Texto que conta a experiência da Genifer caminhando por esse Brasil com seu palhaço e seus bonecos.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you