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A publicação digital da pecuária de corte Planejamento para 2017

Especial

GESTÃO Atendendo um mercado mais exigente

PESSOAS

Capacitação e treinamento a partir do pecuarista

Gerenciamento de nutrição animal

Reprodução eficiente

SUPLEMENTAÇÃO Dieta pensada para o ano todo

CONJUNTURA

Mais lucro a partir de maior controle dos processos

PASTAGENS

Onde tudo começa a melhorar


Editora Taxi Blue Produções Culturais Ltda

Rua Prof. José Horácio M. Teixeira, 1129 – Conj. 133 – bloco 1 - CEP: 05630-130 – Morumbi – São Paulo – SP

#1

Fundadora e CEO: Marisa Rodrigues Portal Boi a Pasto www.boiapasto.com.br

R E V I S TA D I G I TA L B O I A PA S TO

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Ivaris Nascimento Jr.

Revista Digital Boi a Pasto A Revista Digital Boi a Pasto é uma publicação comemorativa dos 10 anos do portal Boi a Pasto, produzida e editada pela Taxi Blue Produções Culturais Ltda. CNPJ: 10.859.500/0001-37 Redação, Administrativo e Comercial em Rua Prof. José Horácio M.Teixeira, 1129 – Conj. 133 – bloco 1 – Cep.05630-130 – Morumbi – São Paulo – SP Telefone: (11) 3743-2276 Celular: (11) 96173-7355 Email para correspondências com os leitores/internautas: boiapasto@boiapasto.com.br Email para contatos publicitários: publicidade@boiapasto.com.br www: boiapasto.com.br

Marisa Rodrigues Ivaris Nascimento Jr.

Editor-Assistente:

Marcello Santos José Luiz da Silva Marcello Santos

Conselho Editorial:

Ivaris Nascimento Jr.

José Luiz da Silva, Marisa Rodrigues, Ivaris do Nascimento Jr., Marcello Santos

Editoração:

Apoio e Agradecimento:

José Luiz da Silva

Reportagem:

Marcello Santos

Heráclito Prudente Correa

COLABORADORES Alexandre R. de Araújo Antônio Ferreira Rosa Centro de Inteligência da Carne Bovina (CICarne) Eliana Cezar Fernando Costa Gisele Rosso Ivo Bianchin

Kadijah Suleiman Luciana Juhas Michael Robin Honer Roberto Torres Jr. Rodiney de Arruda Mauro Sergio Raposo


Sumário

13 GERÊNCIA TOTAL

06

De ponta a ponta para qualidade e lucro

17

EDITORIAL A importância da melhor gestão

1

08

Gestão não é uma menina

Dentro e fora das porteiras

Gente como a gente

22

DEFINIÇÃO

CONJUNTURA

PESSOAS

MODELOS PRODUTIVOS A roupa para o modelo certo

26 30

PASTAGENS Debelando a Degradação

SUPLEMENTAÇÃO Dez mitos no uso do sal mineral para bovinos

28

SUPLEMENTAÇÃO Sal mineral deve ser dado para os bovinos o ano todo

33

SANIDADE ANIMAL A boa vida que todos precisam


41

MELHORAMENTO GENÉTICO Acelerando produção e lucro

36 43

39

SANIDADE ANIMAL

47

BEM-ESTAR ANIMAL

67 61

Bem-estar animal e Sistemas de Produção de gado de corte

Usinando Reprodutores de Valor

Gestão ambiental e pecuária sustentável

Entenda o que é bem-estar animal

Verminose bovina

MELHORAMENTO GENÉTICO

AMBIENTE

BEM-ESTAR

AMBIENTE Conservação do solo e da água para pastagens tropicais

71

AMBIENTE Pegada Hídrica, um Novo Desafio

75

AMBIENTE

77

COMERCIALIZAÇÃO É hora de fazer dinheiro

Solo é alvo em propriedade pecuária

79

COMERCIALIZAÇÃO Carne Sustentável do Pantanal


Editorial

A importância

da melhor

gestão Embora o adágio do homem do campo diga que “tudo vai bem da porteira para dentro”, há quem discorde. Há muitos anos, um saudoso amigo, diretor de uma revista dedicada à pecuária, costumava dizer que o produtor pecuarista se preocupava muito com o mercado, com a comercialização, com a cotação de insumos, mas... esquecia-se sempre de se preocupar “com a própria casa”. E, segundo ele, para a boa rentabilidade e produtividade na pecuária, “tudo começa na arrumação do quintal”.

O

amigo Oswaldo Nakamura referia-se à pouca preocupação que o produtor pecuarista tinha com a gestão de sua propriedade, com a manejo nutricional de seu rebanho, com a questão sanitária e com o emprego de novas tecnologias. Resistia até mesmo ao emprego de suplementos minerais, proteicos e energéticos, alegando que o sal branco bastava.

Claro que muito disso mudou. Hoje o pecuarista sabe que sem o planejamento, sem a gestão eficiente e sem o emprego de novas tecnologias, não haverá espaço para ele “da porteira para fora”. Então, aprendeu que, para obter boa produtividade e rentabilidade, tudo começa com a gestão eficiente de sua propriedade. Hoje o PIB do agronegócio representa cerca de 23% do PIB nacional. E é justamente o agronegócio que tem sido a “tábua de salvação” da combalida economia brasileira, já há alguns anos. E espera-se, para 2017, um crescimento ainda maior dessa representatividade. Sinal que o produtor rural está sabendo fazer a lição de casa. A gestão eficiente é a base fundamental de qualquer empreendimento. Numa propriedade rural, especialmente as voltadas para a cadeia produtiva da carne e do leite, isso significa investir em mão de obra especializada, em genética especializada, em insumos, em sistemas de manejo, em pastagens de qualidade, em tecnologias que permitam a produção integrada e voltada para a sustentabilidade, hoje uma exigência do mercado. Ou seja, um trabalho árduo, complexo, que exige conhecimento de todas as variáveis da cadeia. Nesta edição de lançamento da Revista Digital Boi a Pasto, buscamos justamente mostrar essas variáveis e transmitir conhecimento, experiências e informações importantes para o pecuarista, registrando o que têm dado certo. Esperamos, assim, que, nossa pecuária possa avançar mais rapidamente no aumento da produtividade e rentabilidade. Afinal, com as novas tecnologias disponíveis no mercado e com a gestão competente do processo produtivo, só terá uma propriedade improdutiva quem assim o desejar. Diretora-executiva: Marisa Rodrigues Boa leitura.

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Revista Digital Boi a Pasto


Conjuntura

DENTRO E FORA DAS PORTEIRAS Por Ivaris Júnior

A gestão de fazendas de gado de corte é o grande desafio da cadeia produtiva brasileira

tirando a capacidade de investimento dos pecuaristas e empobrecendo seu empresariado. Também as adversidades do ambiente tropical foram limitantes, assim como a forte pressão exercida pela agricultura por cada vez mais terras para a produção de rentáveis commodities. O arado sempre no calcanhar do boi empurrando-o cada vez

N

as últimas seis décadas, vários foram os fatores que impulsionaram a bovinocultura de corte. Figuram entre eles a adaptabilidade do zebu, o surgimento da braquiária, a introdução da inseminação artificial, o desenvolvimento dos programas de melhoramento genético e difusão de inúmeras tecnologias na sanidade, reprodução, manejo e nutrição animal. Assim, o rebanho brasileiro saltou de 168 milhões de cabeças em 1996 para 192 milhões em 2016, segundo projeções do Anualpec 2016, publicação da IEG|FNP Agribusiness Intelligence Informa. Tudo isso porque a atividade foi ganhando força econômica no PIB nacional.

mais para fora do sistema. Em um artigo publicado no portal BeefPoint, a pesquisadora Mariana de Aragão Pereira, da Embrapa Gado de Corte (Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte - CNPGC, em Campo Grande, MS) explica que, partindo deste contexto, “foi-se o tempo em que bastava deixar o boi no pasto por 4 ou 5 anos para se ter resultados satisfatórios e uma renda suficiente para manter uma família. Atualmente, a demanda do mercado consumidor por carne de qualidade, a preços competitivos e com impacto ambiental reduzido tem pressionado a cadeia produtiva da carne bovina a se organizar melhor.

E na última década ganhamos status de principal exportador mundial de carne bovina, em volume. Em 2015 foram quase 5,3 milhões de toneladas. Mas nem tudo são flores. O desenvolvimento da pirâmide produtiva não se deu de modo homogêneo por vários motivos. À parte os socioculturais, a remuneração foi um grande entrave re-

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Revista Digital Boi a Pasto

Além disso, tem havido maior fiscalização por parte dos órgãos ambientais, aumento da competição por terra para outros fins agrícolas e imposição de barreiras sanitárias e não sanitárias às carnes brasileiras”.


D entro

Em resposta a tantos desafios, o pecuarista brasileiro busca inovar e melhorar a produtividade de seus sistemas de produção, em ritmos variados, dependendo da sua capacidade de investimento e do seu ambiente.

e

F ora

das

P orteiras

teligência, intuição, capacidade adaptativa, noções de matemática, percepção espacial (ex. estimação visual da disponibilidade de forragem), relações interpessoais, senso crítico, capacidade analítica entre outros. Alguns produtores têm mais habilidade gerencial do que

O rebanho bovino cresceu em número de cabeças ao passo que a área de pastagem diminuiu de 177 para 168 milhões de hectares, em 20 anos. Isso significa que a lotação média passou de 0,86 para 0,99 cabeças/ha. Apesar do grande salto tecnológico observado no setor produtivo como um todo, esse desempenho excepcional da pecuária não tem sido uniforme, visto que vários pecuaristas ainda hoje enfrentam dificuldades no manejo das pastagens, na nutrição animal, no controle de endo e ectoparasitas, no melhoramento genético do rebanho ou na comercialização do gado.

outros. No caso daqueles que têm pouca habilidade, a busca por capacitação é uma saída. Para aqueles que não têm o perfil (ou gosto) para administrar o próprio negócio, algumas alternativas são a capacitação de alguém da família ou de um funcionário com perfil para o trabalho gerencial ou ainda a contratação dos serviços de consultoria especializada em gestão. PRÁTICAS DE ROTINA EM GESTÃO Para se estabelecer práticas adequadas de gestão é necessário, antes de tudo, conhecer a propriedade rural a fundo, isto é, mapear o patrimônio global da fazenda (benfeitorias,

Segundo Pereira, “o que chama a atenção é que existem diversas soluções tecnológicas já disponíveis para atender essas e outras demandas da cadeia produtiva. Muitas vezes elas não são colocadas em prática porque a gestão da propriedade não dá o suporte necessário à tomada de decisão.

máquinas, equipamentos, área total e sua ocupação, todas as categorias animais, investimentos financeiros etc.). Os dados gerados no dia-a-dia, como por exemplo, as compras de insumos ou as ocorrências zootécnicas, também devem ser coletados e armazenados. A partir desse mapeamento, indicadores de desempenho podem ser definidos, acompanhados, analisa-

Muitas fazendas pecam por não terem o nível de controle adequado dos seus recursos, por não apresentarem um planejamento de longo prazo ou conduzirem análises essenciais para o direcionamento do negócio pecuário. O resultado é a desinformação, e com ela, o desempenho insatisfatório”. Então a pesquisadora avalia que “para superar essa dificuldade é preciso que o pecuarista passe a ver a fazenda como uma empresa e a entenda melhor do ponto de vista administrativo. Dessa forma, será possível determinar com maior eficiência quais das tecnologias disponíveis se aplicam à sua propriedade e garantem melhor retorno ao investimento. Na prática, algumas condições devem ser observadas:

dos e redimensionados, se for o caso. Esse processo constitui a essência da gestão, pois o processamento dos dados gera informações relevantes à tomada de

“Sem gestão, não há solução.”

H  ABILIDADE GERENCIAL É a aptidão, natural ou adquirida, do pecuarista para gerenciar o empreendimento rural. A habilidade gerencial envolve fatores como in-

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D entro

e

F ora

das

P orteiras

decisão, permitindo a otimização no uso dos recursos. Por meio da análise continuada e comparativa das informações, a habilidade gerencial do pecuarista tende a aumentar, pois ele/ela aprende com experiências passadas e aprimora seu entendimento global das inter-relações dos sistemas biológicos, climáticos, mercadológicos etc. F ERRAMENTAS DE GESTÃO Existem diversas ferramentas, tanto tradicionais (ex. papel, caneta e calculadora) quanto modernas (software ou serviço remoto online), de suporte à gestão de propriedades rurais. Em geral, elas se dividem em duas categorias: ferramentas de controle e ferramentas de planejamento e simulação. Além de relatar todos os recursos disponíveis, as ferramentas de controle permitem o acompanhamento dos índices zootécnicos, da performance financeira, do desempenho da mão-de-obra ou do maquinário entre outros indicadores. Já as ferramentas de planejamento e simulação, fazem uso de cenários para indicar ao pecuarista qual o caminho mais interessante a seguir no futuro. Desse modo, é possível se determinar, por exemplo, se o ideal para uma fazenda específica é fazer pecuária de ciclo completo ou apenas engorda. Pode-se também planejar os investimentos ao longo do ano identificando os momentos em que o fluxo de caixa estará negativo e que um financiamento pode ser necessário. P  LANO TECNOLÓGICO Outro fator essencial para a gestão da propriedade rural é a definição do plano tecnológico. Partindo dos objetivos pessoais e empresariais do pecuarista, e ainda considerando os recursos disponíveis, define-se em termos gerais o nível tecnológico em que se pretende operar: baixo, médio ou alto”.

sa-se a se decidir pelas tecnologias individuais a serem adotadas. Nessa escolha, diversos aspectos devem ser levados em conta: compatibilidade com o sistema de produção e o nível tecnológico almejado, custo de implantação/aquisição (e manutenção, se for o caso), necessidades de capacitação para uso da tecnologia, melhoria nos processos produtivos (ex. tempo de execução da tarefa, logística, redução de desperdício etc.) e o resultado econômico esperado. Outros fatores que têm ganhado cada vez mais destaque na adoção de novas tecnologias e devem ser observados pelos pecuaristas são o impacto ambiental potencial e o efeito nas condições de trabalho dos empregados (aspecto social). “Todo pecuarista, a seu modo, faz gestão. Porém, quando se tem um entendimento, pelo menos básico, dos quatro fatores acima mencionados é possível organizar melhor o processo gerencial na propriedade rural. Como o próprio nome diz, gerenciamento é um processo contínuo e como tal deve estar sempre evoluindo para atender as necessidades específicas de cada pecuarista individualmente” reforça Pereira. Atualmente, existem soluções gerenciais para atender

O nível tecnológico baixo normalmente é o de menor risco por requerer baixo investimento. Porém, do ponto de vista econômico, a renda pode ficar prejudicada dado o baixo desfrute. No outro extremo, está o nível tecnológico alto, onde o giro de capital e a rentabilidade normalmente são maiores, assim como o risco. O nível tecnológico médio apresenta-se intermediário nessas duas dimensões. Estabelecido o nível tecnológico, pas-

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as demandas, das mais básicas às mais avançadas, em gestão de propriedades rurais. Atenta a essa necessidade, a Embrapa Gado de Corte tem disponibilizado diversas ferramentas de gestão para a bovinocultura de corte, incluindo publicações e software nessa área. Na página da Embrapa Gado de Corte (www.cnpgc.embrapa.br), é possível acessar, imprimir ou fazer download de todos esses trabalhos gratuitamente.


D efinição Por Ivaris Júnior

Gestão não é uma menina Mas uma senhora bonita, bem vivida, conhecedora de inúmeras ciências e técnicas, além de muito exigente.

É senso comum que melhorar aquilo que está em níveis muito insatisfatórios é sempre uma missão muito mais simples do que dar excelência àquilo que já é bom. Para todos os setores produtivos, isto é uma verdade. Mas o contexto para melhorar se complica sobremaneira quando a atividade envolvida está cercada de limitações como remuneração apertada, falta de acessibilidade à tecnologia, desequilíbrios entre os elas da cadeia produtiva e baixa capacidade de investimento. E este é o caso da bovinocultura de corte no Brasil, apesar de verificarmos já algumas quebras de paradigmas.

ara este cenário, nos últimos 20 anos se fala muito em gestão. Na pecuária é até uma novidade, mas

P

car solução para problemas que não existiam antes,

no setor industrial é praticamente algo que nasceu

os negócios da época, o que deu início à ciência da

com a Revolução Industrial (final do século XVIII).

Administração, pois é necessário o conhecimento e

Sem pesquisas mais profundas, gestão significa

aplicação de modelos e técnicas administrativas. A

gerenciamento, administração, onde existe uma

gestão é um ramo das ciências humanas porque tra-

instituição, uma empresa ou uma entidade social

ta com grupo de pessoas, procurando manter a si-

de pessoas a ser gerida ou administrada. O objeti-

nergia entre elas, a estrutura da empresa e os recur-

vo é de crescimento, estabelecido pela empresa em

sos existentes. Tudo tem a pretensão de minimizar

questão, valendo-se do esforço humano organi-

os revezes até com um bom grau de previsibilidade.

usando vários métodos de ciências, para administrar

zado, em grupo, com um objetivo especifico e comum. As instituições podem ser privadas, socieda-

A gestão administrativa, além da técnica de admi-

des de economia mista, com ou sem fins lucrativos.

nistrar, ainda se utiliza de outros ramos como o direito, a contabilidade, economia, psicologia, mate-

Historicamente a gestão surgiu quando após a re-

mática e estatística, a sociologia, a informática entre

volução industrial, os profissionais decidiram bus-

outras ciências, disciplinas, técnicas e ferramentas. A

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G estão

gestão de pessoas é uma parte essencial da gestão administrativa ou de empresas. As funções do gestor são em princípio fixar as metas a serem alcançadas, por meio do planejamento, analisar e conhecer os problemas apresentados, solucioná-los, organizar recursos financeiros, tecnológicos, ser um comunicador, um líder ao dirigir e motivar as pessoas, e tomar decisões precisas, além de avaliar e controlar o conjunto todo. Existe também a gestão de projetos ou gerenciamento de projetos, que consiste em um grupo de medidas ou iniciativas temporárias que vão contribuir para o desenvolvimento de um produto ou serviço. A gestão de projetos aplica técnicas e metodologias para alcançar um conjunto de alvos estabelecidos por uma equipe. É possível identificar cinco fases da gestão de projetos: início, planejamento, execução, monitoramento e controle e conclusão. É importante compreender que a implantação de um modelo de gestão para uma fazenda, por exemplo, pode requerer a gestão de um projeto.

não é uma menina

paradigma possui seus princípios que induzem à solução, portanto, administrar implica análise e decisão. No cenário externo, são seis fatores que devem ser analisados pelo gestor – cinco indiretos e um direto. Os cinco fatores externos indiretos são: a política, economia, sociedade, tecnologia e o meio ambiente. O fator externo de influência direta são os concorrentes. A análise consiste em obtenção de dados e processamentos de informações, justamente para que se obtenha a melhor decisão”. Nesta medida, ele esclarece que “o ce-

Gestão surgiu quando os profissionais decidiram buscar solução para problemas que não existiam antes

nário interno da organização é onde impera a atividade de gerenciamento. A análise, predominantemente dedutiva desse (cenário interno), embora também implique obtenção de dados e processamento de informações, se dá de maneira menos difusa, isto é, segue um fluxo previamente planejado, a fim de que o procedimento de decisão das soluções seja sistemático, metódico e holístico. Os fatores internos são: Produtos, Capital, Colaboradores, Processos, Estrutura e Clientes.

E já que falamos de atividade rural, no âmbito do meio ambiente, a gestão ambiental é uma área relacionada com a sustentabilidade e planejamento ambiental, aborda a vertente econômica, social e ambiental das atividades empresariais. É uma área profissional cuja visibilidade tem aumentado bastante, fruto da crescente conscientização ambiental por parte das empresas. Mas assim como a ambiental, nas várias frentes de tarefas de uma propriedade produtora de carne, deverá haver um modelo de gestão específico. Tratando mais tecnicamente, segundo Cleiton Santiago, administrador de empresas pela Universidade de Brasília (UNB) e articulista requisitado, “por uma perspectiva mais reativa, administração são as respostas para questões que surgem tanto no cenário interno das organizações, quanto no externo. Cada

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Santiago entende que “a criação das soluções que respondem às questões cujo tratamento é dado pela administração, a priori, e pela gestão e gerenciamento, a posteriori, é resultado da elaboração de 9 perguntas auto reflexivas. É nesse trabalho de construção dos argumentos que a união da gestão e do gerenciamento se manifesta sublime no ato de administrar. A Primeira pergunta é: Onde e Por Que estamos? (Diagnóstico). Por conseguinte: Aonde e Pra que vamos? (Diretriz). Em segundo lugar: O Que Ser (Visão) – O Que Ter (Valores) – O Que Fazer (Missão)? Em terceiro Lugar: Como? (Algoritmo), Quem? (Equipe), Quando? (Cronograma) e Quanto? (Orçamento)”.


G e r ê n c i a To t a l

De ponta a ponta para qualidade e lucro Por Ivaris Júnior

Alto desfrute e produto diferenciado tornam a pecuária competitiva. A fórmula está em um modelo de gestão eficiente

E

m meados da segunda década do século XXI, ainda muito se fala em profissionalização da bovinocultura de corte brasileira; unanimemente, pela simples questão de sobrevivência frente à acirrada competição com outras culturas e os rigores da preservação ambiental. Aliás, a tônica vem desde os anos 80 do século passado. Em nossos dias, a mesma necessidade agora vem acompanhada de conceitos como sustentabilidade e, condição básica, modelo de gestão eficiente – um novo vocábulo para bom gerenciamento. Em resumo, a administração eficiente dará conta de planejar suas ações, surpreender-se o mínimo possível com os revezes e dispor da força e tempo necessários para atacar os eventuais problemas, sejam estruturais ou conjunturais, como os mercadológicos. Neste momento há inúmeros gestores dentro da pecuária bovina, em maior ou menor escala de produção e comprometimento social, registrando conquistas. Mas há aqueles que se sobressaem e merecem páginas a mais.

Crédito: Revista Nelore - Confinamento com capacidade para 10 mil cabeças, todo arborizado, com dieta produzida em casa e estratégico para várias etapas da criação.

A Agropecuária Baumgart, Fazendas Reunidas Baumgart, com quatro propriedades em Goiás, na região do município de Rio Verde, é um destes casos de sucesso. São 25 mil hectares, sendo 8 mil de pastagens, 7,5 mil de agricultura e o restante de reserva e mineração de calcário. A produtividade de suas lavouras de milho safrinha (120 sacas por hectare), soja (60 sacas por hectare) e eventualmente de sorgo é compatível às mais altas do Estado. Da mesma forma, sua produção de carne boviCrédito: Revista Nelore - Um dos produtos da Fazendas na registra taxa de desfrute de Reunidas Baumgart é o tourinho Nelore PO criado, em boa parte, no semi-conficamento. 38% e está habilitada para ex-

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G erência T otal

voltam para a “escolinha”, como nova oportunidade de aprimoramento. O objetivo claro nunca é o de punição, mas o encontrar a eficiência em todos os setores e funções.

Crédito: Revista Nelore - Um dos caminhos para a produção de carne de qualidade é o cruzamento industrial.

portação, inclusive, para compor a Cota Hilton. Além dos números de produção, a empresa integrante do Grupo Baumgart dispõe do melhor nível de mecanização, de programa de recuperação ambiental e de práticas responsavelmente sociais, não só com seus mais de 147 colaboradores (125 na agropecuária e 22 na mineração), mas com a comunidade que pertence. Com história iniciada em 1975, superadas fases de implantação do projeto e de épocas em que a margem de lucro na arroba do boi gordo quase sucumbiu em R$ 0,14, as fazendas são hoje motivo de muita satisfação para seus diretores e funcionários, além de exemplos de um Brasil que dá certo. À frente do agronegócio do Grupo está o zootecnista Nelson George Wentzel, pós graduado em agribusiness e diretor administrativo com 15 anos de casa. Para ele, as pessoas representam a maior riqueza das Reunidas. O executivo lidera uma equipe multidisciplinar, com profissionais capacitados em todos os afazeres das fazendas. Para ter uma ideia, todo vaqueiro é um inseminador e praticante do manejo racional. Dessa forma ele padroniza a formação e oferece oportunidades iguais. Divididos em grupos por atividade, todos os funcionários seguem um código de conduta e trabalham sob um sistema contínuo de avaliação, onde os dois piores desempenhos de cada grupo

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Para Wentzel, uma boa gestão está baseada em conhecimento prévio, mas acima de tudo na capacidade de aprender com o trabalho. “Ele é dinâmico, gera novas informações o tempo todo, muitas vezes exigindo a adoção de novos conceitos e procedimentos. Então, é preciso possuir formas de controle e acesso a essas informações e estar aberto ao aprendizado o tempo todo”, explica o diretor. Nas fazendas moram cerca de 40 famílias, justamente aquelas cujos profissionais precisam estar mais próximos de certas tarefas. Os demais dispõem de transporte coletivo diário fazendo a ponte com Rio Verde.

Pecuária verticalizada A Agropecuária Baumgart realiza pecuária de ciclo completo, da cria à engorda, e só trabalha com animais de sua criação. Wentzel adota como religião a crença de que rebanho bom tem genética, nutrição e sanidade impecáveis. São cerca de 20 mil cabeças, sendo 8 mil matrizes. Dessas, 2 mil são de Nelore e o restante produto de cruzamento industrial. Neste volume há cerca de 400 cabeças de Nelore PO e outras mestiças trabalhando para a produção de fechados zebu e composto Red Norte. Dessa seleção saem tourinhos para repasse e comercialização.

Crédito: Revista Nelore - O cruzamento industrial da Fazendas Reunidas Baumgart não abre mão de uma boa base Nelore.

O modelo de bovinocultura conta com um estratégico confinamento com capacidade estática para 10 mil reses, abastecido por ingredientes básicos de produção própria. Todo o


De

rebanho comercial é rastreado pelo Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Bovinos e Bubalinos (Sisbov). Já o PO, pelo controle do Serviço de Registro Genealógico (SRG) da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Um dos números que impressionam é o índice de prenhez de 87,5% - de saída ele significa que por este critério a reposição é pequena. Todo um trabalho com as fêmeas, desde a desmama até a reconcepção é o responsável pelo bom resultado. Desde os dois meses de vida os bezerros contam com creep feeding à base de sal mineral proteinado de alto consumo, formulado também para o período de águas. Wentzel investe fortemente nessa fase de desenvolvimento (condição corporal), pois é a de maior retorno econômico e que colocará animais pesados no confinamento e na reprodução. As fêmeas Nelore seguem nessa batida até acusarem a segunda gestação, quando o índice é de 70%.

frigorífica e precocidade; até a reconcepção. Somente as multíparas são deslocadas para o cruzamento industrial. O aperto seletivo em outros critérios é grande, de modo que o rebanho de fêmeas produzindo Nelore é praticamente renovado a cada três ou quatro anos. Machos e fêmeas candidatos a touros e matrizes, antes do trabalho, passam por prova de ganho de peso oficializada pela ABCZ. Quem tem desempenho acima da média e boa avaliação morfológica fica no rebanho de reprodução.

A Baumgart dispõe do melhor nível de mecanização, de recuperação ambiental e de práticas responsavelmente sociais.

A primeira inseminação acontece entre 20 e 24 meses de idade, em média, exatamente quando os machos de sua geração e mesma raça entram para terminação confinada. Elas cumprem três protocolos de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e depois repasse – por isso, o número reduzido de reprodutores para este fim. Quem fica vazia não tem outra chance. As novilhas Nelore não são desafiadas para gestarem entre 12 e 15 meses para não comprometer os custos de criação e a reconcepção. As que mostram bom desempenho e funcionalidade, nas várias etapas de descartes, são inseminadas com material de touros avaliados e positivos para habilidade materna, peso na desmama e ao sobreano, além de conformação

ponta a ponta para qualidade e lucro

Na produção de cruzados, porém, é comum encontrar matrizes Nelore com mais de 14 anos parindo toda temporada. A bezerrada ½ sangue Angus e Hereford tem estada mais curta nas fazendas. Muitas vezes sua recria é acelerada por um período de permanência no confinamento, de modo que as fêmeas escolhidas para a reprodução cheguem à primeira inseminação já aos 10 meses de vida, idade em que os machos de mesma geração entram para engorda em produção de superprecoce.

As cruzadas ½ sangue que seguem para a formação do composto Red Norte, a cabeceira da geração, é inseminada com Senepol. As excluídas com Brangus ou Braford. Depois, na F3 vem o Santa Gertrudes, em cruzamento terminal. Está pronto o composto. As fêmeas ½ sangue Angus com mais de dois partos recebem Brangus, também para geração terminal. O mesmo acontece com as ½ sangue Senepol que, fora do programa Red Norte, recebem Braford.

Diferencial no gancho Neste modelo, a Agropecuária Baumgart obtém de seus bovinos abatidos bonificações dos programas de qualidade do Marfrig e do Nelore Natural.

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De

A carne produzida é apta à exportação, inclusive composição da Cota Hilton. Em média, anualmente são 7,5 mil cabeças abatidas. Fêmeas cruzadas com idade de 14 meses seguem com peso de 16 ou 17 arrobas, assim como as Nelore entre 20 e 24 meses. Na mesma idade das cruzadas, os garrotes superprecoces vão para o gancho com peso superior a 18 arrobas, o mesmo da geração de Nelore do ano anterior. Wentzel explica que a diferença não está no peso de abate, mas no ciclo. Os cruzados morrem no mesmo ano da desmama, enquanto os Nelore no ano seguinte. Porém, sem a raça zebuína não há esses números para os mestiços, já que são frutos da heterose. Outro segredo já citado é o peso da desmama que é proporcional ao peso de abate.

ponta a ponta para qualidade e lucro

Crédito: Revista Nelore - Nelson George Wentzel, diretor administrativo da Agropecuária Baumgart.

Crédito: Revista Nelore - Tanto a agricultura quanto à pecuária da Baumgart são totalmente mecanizadas, com toda a infraestrutura para o bom funcionamento; dos operadores aos mecânicos, e também na fabricação de suplementação para os animais.

Com todos na régua, a bezerrada Nelore pesa em média 260kg, enquanto que a cruzada 300kg. Além da habilidade maternal preconizada na seleção das fêmeas, suplementação e dieta para preparo do confinamento revelam o segredo do bom desempenho.

contam como Integração Lavoura Pecuária (ILP) com rodízio de três a quatro anos, dependendo da produtividade.

Para a recria, o segredo está no pastejo rotacionado. Nessa batida as Fazendas Reunidas Baumgart são motivo de satisfação para todos que estão à

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A desmama ocorre em ciclo que reunirá bezerros com idade variando de 8 a 5 meses. Os mais erados, nascidos no início da estação, oferecem respostas mais rápidas. Os mais jovens precisam de alguma ajuda e chegam um pouco mais tarde. De qualquer forma, todos chegam nas mesmas condições para o abate.

sua volta.

O confinamento e a recria se valem de subprodutos agrícolas das fazendas, além de feno de boa qualidade. Pastagens de Tanzânia, MG5, braquiarão, braquiarinha e convert garantem volumoso o ano todo, com suporte de silagem de milho. Elas

sas com grandes compromissos sociais e ambien-

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Além de prêmios sucessivos, como o recebido na última Nelore Fest, por ter oferecido ao abate o terceiro Melhor Lote de Animais da raça Nelore no Brasil, o dia a dia administrado com capacidade própria de se autofinanciar, de cobrir suas despetais e ainda reservar lucros para o Grupo, tornam a trajetória prova inquestionável de que pecuária com trabalho e tecnologia faz frente a qualquer outra cultura do campo.


Pessoas

Por Ivaris Júnior

A convivência entre os seres humanos continua sendo um grande foco de desencontros seja nas relações pessoais ou familiares seja no âmbito profissional. O que se sabe, porém, é que ela também é sempre quem escreve as histórias de sucesso.

A

fazenda, por menor que seja, ainda que empregue poucos profissionais, requer uma gestão eficiente de

dos recursos humanos, enfatizando algumas das peculiaridades das relações travadas na vida rural.

pessoas a exemplo de qualquer indústria ou empresa prestadora de serviços. Sua administração é exigente

Boi a Pasto – Que características básicas marcam a

para todas as partes, devendo a figura do líder desen-

gestão de pessoas no agronegócio brasileiro?

volver uma série de características, algumas potencial-

Eduardo Ferraz – Eu sou engenheiro agrônomo. Tra-

mente inatas. O engenheiro agrônomo formado pela

balhei entre 1986 e 1990 em uma multinacional e, desde

Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eduardo Ferraz,

aquela época, percebo que há muito improviso no agro-

trabalha há mais de vinte anos como consultor em Ges-

negócio com relação à gestão de pessoas. Seus líderes ar-

tão de Pessoas, sendo um dos profissionais mais capa-

gumentam que, como estão no interior, não dá praticar a

citados do Brasil na área de desenvolvimento humano.

excelência. Ouço isso há 30 anos. Mas o que ocorre é que se

Com mais de 30 mil horas de bagagem, ele atua em con-

contrata quem está na mão, batendo na porta. Então, uma

sultorias, treinamentos, palestras e é escritor de várias

parte disso é verdade, mas a outra é devido à falta de infor-

obras de renome sobre o tema. Nesta exclusiva à Revista

mação. Só que a base para se obter o máximo de resultado

Nelore, ele destaca os desafios do bom gerenciamento

só pode ser obtida por meio da boa gestão de pessoas.

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P essoas

BAP - E como se inicia um processo? EF - C omeça-se com o alto escalão, o nível gerencial. É preciso conhecer as pessoas e avaliar se elas têm perfil para as funções que exercem. Como exemplo eu cito a promoção de um excelente engenheiro agrônomo de campo a gerente da fazenda, simplesmente por ele ser muito bom técnico. Acontece que se ele não tiver perfil para liderança, você simplesmente perde o melhor técnico e arruma um gerente medíocre. Isso vale para qualquer tipo de gestor ou atividade. BAP - Mas uma coisa é a carência de qualificação e a outra é o despreparo de quem contrata? EF - Isso. O argumento é que o indivíduo está há anos na fazenda, é trabalhador e honesto, então, vamos testá-lo. Eu cansei de ver isso acontecer em grandes empresas agrícolas que tinham condições financeiras para contratar um PhD, mas preferiram solução caseira. Então, ainda vejo no mercado agropecuário muita intuição e pouca técnica. Na prática é preciso analisar três coisas: primeira é se a pessoa tem perfil para a função (personalidade adequada). A segunda é seu histórico de vida, que eu chamo de rastro profissional e que nada tem a ver com perfil. São as atitudes da pessoa: ética, integridade, dedicação e comprometimento. O histórico dela sempre mostra isso. As atitudes podem ser descobertas durante uma simples entrevista, desde que seguindo um bom roteiro. A terceira ponta desse triângulo são os resultados. Quando você tem a pessoa no perfil correto, tem uma cultura que privilegie boas atitudes e você mede os resultados, pelo menos anualmente, em qualquer área, a visão de todo sobre a pessoa aparece. É possível juntar esses três estágios numa fórmula de gestão de pessoas. É o que chamamos “meritocracia na empresa”. É uma coisa relativamente simples de entender, claro, mas muito mais difícil de fazer. E minha sugestão é que isso comece com o alto escalão. BAP - Mas como avaliar isso se eu sou o dono? EF - Há dois jeitos de fazer. Um é por leitura e estudo. Há bibliografia para isso. A outra forma é contratando uma consultoria que, basicamente, vai usar outra metodologia para, no final, dizer algo muito parecido com o que eu digo. Um bom consultor avaliará qual o perfil da pessoa, seu histórico e os seus resultados.

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BAP - É difícil porque para se autoanalisar a pessoa precisa ter determinadas características humanas e culturais, ou apenas formação intelectual é suficiente? EF - IO filtro intelectual às vezes atrapalha. Muitas vezes é mais difícil explicar para um diretor de multinacional (que segue um roteiro rígido enviado pela matriz), que ele tem de usar um programa de avaliação baseado em três pilares simples e diretos, do que a um agricultor que possui 20 mil hectares e que ganha 20 vezes mais que o executivo. Em alguns casos essa pessoa sequer tem nível médio, mas é inteligentíssima e tem menos preconceitos quanto a novos aprendizados. BAP - Mas um quadro envolvendo muitas pessoas que não têm formação adequada não atrapalha o processo? EF - O  que estou dizendo é que é mais fácil explicar isso para um sujeito inteligente, mesmo que com pouca formação, do que para uma pessoa com dois PhDs, mas inflexível. Ele terá mais dificuldade por ter mais preconceito. Ele lê um livro e faz um test drive com os funcionários, começando por ele mesmo. Se isso funcionar vai procurar se aprofundar e até buscar uma consultoria especializada ou um novo funcionário com boa experiência em recursos humanos. Óbvio que quanto maior a empresa, mais complexo fica, mas nunca impossível de fazer. BAP - Boa gestão de pessoas também é um problema que pode ser trabalhado institucionalmente pelo poder público? EF - Há 30 anos eu já dizia que para se melhorar a educação na base era preciso começar já, pois os resultados só aparecem em 20 anos. Para isso é preciso inverter a pirâmide: em vez de colocar 70% do dinheiro da educação no ensino superior, como é feito hoje, deveria ser colocado 70% na educação básica para crianças e adolescentes aprenderem a ler, escrever e fazer contas. Hoje, 45% dos adolescentes com 15 anos de idade não conseguem interpretar corretamente um texto de cinco linhas. Como podemos falar em formação superior, cursos técnicos e treinamento especializado de mão de obra se a metade dos adolescentes não consegue interpretar um texto? Contudo entendo que não devemos esperar de governos coisas que nós podemos ir fazendo. Se você tem uma em-


G ente

presa com 100 funcionários, pode, facilmente, com um custo relativamente baixo, investir em educação básica, até contratar uma professora para dar aula de redação e português. Se o seu funcionário está com dificuldade para entender as instruções de uma máquina, limitando seu desempenho, você precisa ensiná-lo. Na base da gestão de pessoas – e não é diferente no agronegócio – o governo precisa fazer a parte dele, mas enquanto não o faz, faça a sua dobrada. É a minha sugestão. BAP - Não são todas as pessoas que têm a capacidade de se questionar e promover constantes mudanças de rumos. EF - M  etade das pessoas bem-sucedidas que conheço – e para mim fica fácil dizer isso, porque tenho muitos clientes no agronegócio – já nasceu com talentos especiais como perfil empreendedor, determinação acima da média, inteligência e jogo de cintura, tudo isso acontecendo no lugar e hora certos. Os fora de série são “safos”, flexíveis, põe a mão na massa, e se destacam desde a infância, mesmo nascendo em famílias muito humildes. A outra metade, mais limitada, aprendeu na base da técnica, do estudo e do esforço dobrado. Os dois são bons, mas com diferentes qualidades e estilos. BAP - Como você define “safo”? EF - É aquele que tem jogo de cintura e flexibilidade mental. Cito com exemplos às vezes que estive em uma palestra

como a gente

sobre gestão de pessoas, no meio de 500 agricultores. Sempre preferi nivelar por cima e não por baixo. Tenho a noção que metade não entenderá tudo o que estou falando, mas não me lembro de nenhuma situação em que pelo menos cinco ou seis ouvintes não me chamaram para bater um papo e aprofundar o assunto tratado. Como esta entrevista. Ela vai atingir muita gente – e quanto mais, melhor –, mas provavelmente 200 ou 300 formadores de opinião é que farão este material cumprir seus objetivos. BAP - Onde encontrar ferramentas para apoiar uma boa gestão de pessoas? EF - A ferramenta mais simples de todas é o exemplo pessoal “o cachorro tem a cara do dono”. Se o líder é meritocrático, justo e flexível mentalmente, quem ele irá atrair? Gente justa, flexível e meritocrática. A gestão não começa pelo segundo escalão, mas pelos cabeças. Se você observar os empresários bem sucedidos, o modelo de negócio deles é baseado neles mesmos. Se você perguntar qual o modelo de gestão utilizado, provavelmente dirão que nenhum, pois não está esquematizado. BAP - Mas isso não quer dizer que não o tenha? EF - Eles têm um modelo pessoal de gestão que dificilmente é replicável. Quando adoecem, se aposentam ou morrem muitas vezes negócio afunda. Já ouviu dizer em terceira geração bem sucedida de empresário agrícola? É raro.

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G estão de P essoas

os resultados aparecerem. Por isso falei que o triângulo é extremamente simples e funcional.

Em vez de 70% do dinheiro no ensino superior, deveria ser colocado 70% na educação básica. BAP - Mas de uma forma técnica, como se constroem essas ferramentas de gestão? EF - Como eu disse no início, tem de avaliar o perfil, que é composto por quatro grandes fatores: dominância alta, média e baixa, sendo que a baixa não gosta de mandar em ninguém e a alta é do tipo dominante; influência alta, média e baixa, onde a alta quer dizer grande extroversão nos relacionamentos e a baixa, reservado, tímido; estabilidade alta, média e baixa, sendo que a alta significa tranquilo, pacato e paciente; e baixa impaciente, impulsivo, acelerado; e a quarta característica, conformidade. Alta quer dizer detalhista, regrado, rígido, organizado; baixa, flexível, criativo, odeia normas e regras. Esses são os quatro fatores estruturais, que começaram a ser estudados em 1928 e está validado estatisticamente há anos, com mais de 500 milhões pessoas preenchendo o chamado perfil DISC. Quando comecei, há 30 anos, já era algo difundido por todo o mundo, ou seja, não se trata de teoria recente. Há perfil mais adequado para venda, para compra, gerência, técnico, contabilidade, engenharia etc. Quando você sabe analisar o perfil, o mundo muda, pois você começa a enxergar tudo diferente. Depois, é preciso avaliar as atitudes. Se o cara tem perfil para ser líder, mas é mau caráter, preguiçoso, enrolado; pode esquecer. Ele tem perfil, mas não tem atitude. Às vezes acontece o contrário, o cara é honesto, trabalhador, bonzinho, só que não tem perfil para comando. Ou seja, não é possível colocá-lo em um posto de comando. Agora, quando se tem um perfil e atitude adequados, é questão de tempo para

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BAP - Como se escolhe quem se deve capacitar? É com base no lugar onde se tem mais prejuízo, onde está mais ineficiente? EF - Esse negócio não funciona de baixo para cima, mas de cima para baixo. É preciso começar pelas cabeças, pelo proprietário agropecuário. Vamos falar de uma propriedade pequena, de 400 hectares, que possui um capataz. Provavelmente ele terá um agrônomo ou um técnico agrícola e um comprador. Então, são esses quatro que ele tem de ajustar primeiro. Quem não tem perfil para a função ou apresenta más atitudes deve ser trocado. O ruim se troca; o bom se treina para que fique ótimo. BAP - Como o gestor consegue definir o quanto é necessário investir na qualificação de seus funcionários, priorizando necessidades da fazenda? EF - O melhor investimento que o empresário agrícola pode fazer é colocar a pessoa certa no lugar certo. Por isso, se ele tem 200 funcionários não adianta começar com o tratorista. Quem é o chefe dos tratoristas? Se ele tem 50 deles e o chefe não tem perfil nem atitude, será um desastre. Treina-se sempre quem apresentar maior potencial, nunca o pior, sempre o melhor, o que pode gerar melhores resultados mais imediatos e ainda ensinar os demais. BAP - Qualificar o bom funcionário é tão importante quanto fixá-lo na empresa rural? EF - A alta performance é alcançada por pessoas que trabalham há anos. Ninguém consegue oferecer alto desempenho com 50% de rotatividade, como é o caso de uma empresa que tem 100 peões e 50 são safristas. Vai treiná-los? Há negócios que têm essa característica, o de algodão, por exemplo. Vai ser preciso contratar temporários, porque esse contingente não será fixado. Então, você tem de investir nos que lá permanecem. Esses vão contratar e cuidar dos safristas para que eles rendam o máximo. BAP - A fixação ultrapassa a questão salarial e chega à geração de perspectivas, projetos e motivações? EF - O ser humano se motiva com base em cinco moedas de


G ente

troca, que valem para mim, para você e para qualquer um: dinheiro, segurança, aprendizado, reconhecimento e autorrealização. A gente trabalha por grana, por estabilidade, aprendizado, reconhecimento e realização. Cada pessoa tem uma fórmula mental diferente. Se o cara gosta mais de dinheiro que das outras quatro, não adianta oferecer treinamento. O contrário é verdadeiro se estivermos falando de grana para quem tem como projeto a autorrealização. Ou seja, você fixa a pessoa de acordo com essas moedas de troca, que serão individualizadas. O gestor deve conhecer a fórmula de cada um. BAP - Qual o retorno quando se consegue qualificar e fixar a mão de obra na propriedade rural? EF - Vamos supor que haja dez funcionários – a média do médio agricultor – todos no lugar certo e motivados. Não há como não subir a produtividade se o teu comprador é motivado e está na função correta, se o operador de máquinas adora o que faz e mora feliz no lugar há 40 anos. Ou seja, se você tem dez pessoas certas no lugar certo, terá lucro. Caso contrário, prejuízo. BAP - Vamos supor que eu tenha 5% do meu faturamento para destinar a essas ações de gestão de pessoas. Quanto conseguirei de retorno? EF - O bom senso indica que se você consegue uma equipe de baixíssima rotatividade, abaixo de 10%, com alto nível de engajamento, pessoas produtivas e motivadas, você terá alta produtividade e alta performance. Pode demorar uma safra ou duas, mas na terceira estará acima da média do mercado.

como a gente

atendimento ao público diretamente. Nos serviços, a gestão de pessoas equivale a respirar. Por exemplo, você compra uma franquia em um shopping sem entender nada daquele negócio e coloca um parente inexperiente para dirigir. A empresa quebra em três meses e não porque o parente é burro, mas porque não sabe como gerir. No agro, se você recebe a indicação de um tratorista bom, ele é contratado na hora. É uma coisa mais informal, mais lúdica. Se você quiser profissionalizar com um pouco mais de detalhes e método, os resultados são tão bons ou melhores que os do setor de serviços, só vão demorar mais: uma safra ou duas. O ciclo de um fast food é de um dia, muito rápido. No campo não. São ciclos diferentes. BAP - Os setores de serviços e industrial têm aparatos mais dirigidos para qualificar do chão da fábrica aos líderes. Isso está caminhando para o agronegócio? EF - S im, porque o setor rural, como qualquer outro, precisa de mão de obra qualificada para gerar lucro. Por isso, as grandes empresas do agronegócio já estão se cuidando. No Brasil, começou-se a falar de gestão de pessoas na década de 80; no agro isso era considerado modismo, hoje não mais. O que quero dizer é que há uma defasagem de tempo, porque se começou um pouco depois e também por apresentarem ciclos diferentes. As ferramentas são parecidas. Usa-se a mesma tecnologia, só que adaptável a cada setor. É difícil pegar um profissional especializado em consultoria para a indústria mecânica pesada e levá-lo para uma fazenda de algodão. Vai demorar um

BAP - Como é possível comparar o que existe hoje em gestão de pessoas no agronegócio com o que há em outros setores, como a indústria, por exemplo?

tempo para entender o negócio. Aliás, nunca pague al-

Eduardo Ferraz – O de serviços está em primeiro lugar, a indústria em segundo e o agronegócio, em termos de aplicação, em terceiro. Mas a diferença vem caindo e algumas propriedades agrícolas estão pé de igualdade com as melhores empresas de serviços.

BAP - Que mensagem você deixa para aos nossos lei-

guém para entender o seu negócio, contrate quem já o conheça bem.

tores? EF - O empresário agropecuário tem de inserir a cultura do mérito em primeiro lugar. Quando ele entende que isso funciona, as coisas andam muito mais rápido. A gestão de pessoas tem a ver com meritocracia. Uma coisa não

BAP - A distância é muito grande? EF - As empresas de prestação de serviços dependem muito de suas pessoas. Se os funcionários tiverem alta rotatividade, elas quebram. No agronegócio, você não lida com

anda sem a outra. Para isso, tem informação, treinamentos e livros. Trata-se de uma coisa que muita gente já fez. Se o empresário quiser crescer, seja pequeno, médio ou grande, tem de motivar pelo mérito.

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Modelos Produtivos

A roupa para o

modelo

certo

Contextualização dos sistemas produtivos pecuários: cada modelo de produção da bovinocultura de corte determina as necessidades que um modelo de gestão deve atender para ser eficiente.

Por C  entro de Inteligência da Carne Bovina (CICarne)

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E

ntende-se por sistema de produção de gado de corte o conjunto de tecnologias e práticas de manejo, bem como o tipo de animal, o propósito da criação, a raça ou grupamento genético e a ecorregião onde a atividade é desenvolvida.

Crédito: Ivaris Júnior - Propriedades são especializadas na produção de bezerros, prod comercializados no desmame (sete a nove meses) e são chamadas de fazendas de cria.

Devem-se considerar, ainda, ao se definir um sistema de produção, os aspectos sociais, econômicos e culturais, uma vez que esses têm influência decisiva, principalmente, nas modificações que poderão ser impostas por forças externas e, especialmente, na forma como tais mudanças deverão ocorrer para que o processo seja eficaz, e as transformações alcancem os benefícios esperados. Permeando todas essas considerações,


dutos

A

roupa para o modelo certo

devem estar a definição do mercado e a demanda a ser atendida, ou seja, quais são e como devem ser atendidos os clientes ou consumidores. No Brasil existe uma diversidade de sistemas de produção de pecuária de corte. De fato, as fazendas pecuárias estão dispersas em um continuum que se inicia com a produção de bovinos para subsistência fazendo uso de práticas muito simples, passando por todos os níveis de incorporação de tecnologia até culminar em sistemas produtivos altamente modernos e tecnificados. A pecuária de corte é uma atividade que está dividida em criação de gado comercial e elite, sendo que a primeira tem como principal objetivo a produção de carne bovina de qualidade para a alimentação humana, além de fornecer matéria prima para a indústria farmacêutica, de cosmético, de calçado, de roupas, entre outras. Já a criação de gado elite, tem como foco central à produção de matrizes e reprodutores para a criação de gado comercial e elite. A produção da pecuária de corte é caracterizada pelas fases de cria, recria e engorda, as quais são desenvolvidas como atividades isoladas ou combinadas de forma a se complementarem, a saber: • Cria: compreende o período de cobertura até a desmama; compõe-se do rebanho de fêmeas em reprodução, podendo estar incluída a recria de fêmeas para reposição, para crescimento do rebanho e para venda. Todos os machos são vendidos imediatamente após a desmama, em geral com seis a nove meses de idade. Além dos machos desmamados, são comercializados bezerras desmamadas, novilhas, vacas e touros. Em geral, as bezerras desmamadas e as novilhas jovens (um a dois anos) são vendidas para reprodução, enquanto as novilhas de dois a três anos, as vacas e os touros descartados se destinam ao abate. Cria e recria Difere da anterior pelo fato de os machos serem retidos até 15 a 18 meses de idade, quando então são comercializados. Estes são comumente denominados garrotes.

Crédito: Ivaris Júnior - O período final do bovino é a engorda. Ela pode acontecer no pasto, em regime semini-confinado ou confinado.

Cria, recria e engorda Considerada como atividade de ciclo completo, assemelha-se às anteriores, porém os machos são vendidos como bois gordos para abate, com idade de 15 a 42 meses, dependendo do sistema de produção em uso. Recria e engorda Essa atividade tem início com o bezerro desmamado e termina com o boi gordo. Entretanto, em função da oferta de garrotes de melhor qualidade, também pode começar com esse tipo de animal, o que, associado a uma boa alimentação, reduz o período de recria/engorda. O mesmo ocorre com bezerros desmamados de alta qualidade. Embora essa atividade tenha predominância de machos, verifica-se também a utilização de fêmeas. Engorda (terminação) Nas décadas passadas foi exercida pelos chamados “invernistas”. Estes se localizavam em regiões de boas pastagens e aproveitavam a grande oferta de boi magro (24 a 36 meses de idade) da época. Atualmente, encontra-se bastante restrita como atividade isolada, sendo desenvolvida por um número reduzido de pecuaristas que também fazem a terminação de fêmeas. Essa mudança de cenário deve-se à expansão das áreas de pastagens cultivadas em regiões onde tradicionalmente não existiam e, por consequência, à redução da oferta de boi magro. A dimensão continental do País, a variedade de ecossistemas e a diversidade socioeconômica das regiões e do universo de produtores fazem com que a pecuária de corte brasileira apresente uma

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M odelos P rodutivos

Basicamente, as fontes desses elementos são fosfato monocálcico/bicálcico/monoamônico, sulfato ou óxido de zinco, sulfato de cobre, carbonato/cloreto/sulfato ou nitrato de cobalto, iodato de potássio, flor de enxofre e selenito de sódio.

Crédito: Ivaris Júnior - No regime semi-confinado, no pasto o gado recebe suplementação.

gama considerável de sistemas de produção de carne bovina. Tipificar e descrever toda essa variabilidade, além de extremamente trabalhoso, não faz sentido no contexto deste trabalho, tendo em vista que a transmissibilidade da encefalopatia espongiforme bovina se dá, eminentemente, por meio da alimentação. Por isso, optou-se por classificar e agrupar os sistemas de produção segundo os “regimes alimentares” dos rebanhos predominantes no País, conforme proposto por Cezar et al., (2005). Segundo os mesmos autores, os sistemas podem ser classificados em: a) Sistema extensivo – regime exclusivo de pastagem;

Esse grupo representa em torno de 80% dos sistemas produtivos de carne bovina brasileira, desenvolvendo atividades de cria a engorda, e apresenta uma alta variação de desempenho. Tal variação é decorrente da interação entre vários fatores, como solo, clima, genótipo e manejo animal, sanidade animal, qualidade e intensidade de utilização das pastagens, além da gestão. Os sistemas extensivos são praticados em todo o País, sendo predominantes mesmo nos Estados e regiões em que se desenvolvem os sistemas semi-intensivos e intensivos. Entretanto, podem-se apontar algumas regiões em que os sistemas extensivos são absolutos (figura 02): Cerrados de Roraima (1) e do Amapá (2), nos campos inundáveis da ilha de Marajó (3), do Baixo Amazonas (8) e do Maranhão (4), na Caatinga do Semi-Árido (5), no Pantanal (6) e no sul da Campanha Gaúcha (7). Figura 1: Regiões com predominância de pastagens nativas

b) S  istema semi-intensivo – pastagem mais suplementação em pasto; e c) Sistema intensivo – pastagem mais suplementação e confinamento. Essa abordagem permite, de forma abrangente, diferenciar os sistemas de produção em uso no País, descrevendo os principais componentes de cada grupo.

Os sistemas extensivos, neste caso, são caracterizados pela utilização de pastagens nativas e cultivadas como únicas fontes de alimentos energéticos e proteicos. Entretanto, essas pastagens são normalmente deficientes em fósforo, zinco, sódio, cobre, cobalto e iodo, incluindo-se também enxofre e selênio, todos fornecidos por suplementos minerais.

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Fonte: Cezar et al., 2005


A

Sistemas Semi-Intensivos Também apresentam como base alimentar as pastagens (nativas e cultivadas) e os suplementos minerais, acrescidos de suplementos protéicos/ energéticos. O objetivo é alcançar uma pecuária de ciclo mais curto, suplementando os animais em suas diversas fases de crescimento (aleitamento, recria e engorda), dependendo das metas de produção de cada sistema. Existe uma diversidade de ingredientes para compor os concentrados, conforme as características regionais. As fontes energéticas mais utilizadas são milho, sorgo, aveia e milheto, e as protéicas são farelos de soja, farelos de algodão, farelos de caroço de algodão, farelos de glúten de milho, grão de soja e ureia, além de diversos subprodutos da agroindústria (fa-

roupa para o modelo certo

relo de arroz, farelo de trigo, polpa cítrica, polpa de tomate, casquinha de soja). Estima-se que 80% dos sistemas semi-intensivos praticados no País estão concentrados no Centro-Sul e em pequenos núcleos das regiões Norte e Nordeste.

Sistemas Intensivos Basicamente, esses sistemas se diferenciam dos semi-intensivos por inserirem a prática de confinamento na terminação de machos. Do mesmo modo que o anterior, são desenvolvidas as atividades de cria, recria e engorda, de recria e engorda ou mesmo de engorda, como uma atividade isolada. Esses sistemas estão quase sempre associados com o uso mais intensivo de pastagens cultivadas. No confinamento, a preocupação é reduzir custos com alimentação, procurando-se usar dietas com relação ao volumoso: concentrado próxima de 60:40. Entre os alimentos volumosos, predomina o uso de silagem de milho e de sorgo, a cana fresca picada e, em menor proporção, as silagens de gramíneas.

Crédito: Ivaris Júnior - O regime de pasto predomina no País principalmente para cria e recria, em função das nossas grandes extensões de terra destinadas à pecuária.

Dependendo da localização, utiliza o bagaço de cana hidrolisado proveniente das indústrias de açúcar e de álcool. As regiões que utilizam estes sistemas são: Centro-Oeste (MS, MT e GO), Sudeste (SP e MG), Nordeste (BA), Sul (RS, PR e SC), Norte (TO) e Sudeste (RJ e ES).

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Pastagens

DEBELANDO A

Degradação Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (iLPF) traz vantagens na hora de recuperar pastagens. Por Kadijah Suleiman

A

recuperação de pastagens degradadas alcança resultados melhores por meio do uso de sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) do que de sistemas monoespecíficos. Por se tratar de um sistema mais complexo, que inclui os componentes florestal e agrícola, o iLPF também necessita de mais cuidados, como a melhor gestão da propriedade.


D ebelando

O pesquisador da Embrapa Gado de Corte (Campo Grande, MS), Roberto Giolo, destaca que esse sistema torna o uso da terra mais eficiente e, em um mesmo lugar da propriedade, é possível a diversificação de produtos. “Considerando a integração da lavoura, da pecuária e da floresta, vale ressaltar que nunca haverá os três componentes ao mesmo tempo na área. Teremos em rotação, mas sempre dois deles estarão presentes”, explica. Para a recuperação de pastagens, normalmente inicia-se com a lavoura, visando à recuperação do solo e, concomitantemente, faz-se o plantio de árvores mantendo, assim, os componentes florestal e agrícola. Após a colheita resultante da lavoura, é a vez do pasto, enquanto as árvores são mantidas. “Com a venda do produto da lavoura, o produtor pode pagar parte - ou totalmente - do investimento do pasto que vem a seguir. Esse pagamento pode ocorrer em um período de seis meses. Se fosse somente a pastagem recuperada diretamente, o período para o retorno do investimento na recuperação seria bem maior”, diz o pesquisador.

Para colocar o sistema em prática é preciso fazer um levantamento prévio da área que deve ser recuperada e planejar o que será produzido nela, ou seja, fazer um estudo de mercado. Apesar de os custos iniciais serem maiores, no contexto da renovação de pastagens, a possibilidade de recuperação desse investimento é bem mais vantajosa quando comparada a sistemas monoespecíficos.

Componente florestal

A escolha da espécie de árvore deve considerar o tempo de crescimento da planta. Giolo explica que as espécies de eucalipto são as mais favoráveis para iLPF por terem uma taxa de crescimento mais rápida que outras. Depois do período de lavoura, que leva uns seis meses, o pasto deve ficar cerca de outros seis meses sem ser utilizado enquanto as árvores

D egradação

(eucaliptos, neste caso) alcançam um tamanho que suporte os animais no pastejo. As árvores podem ser plantadas no período das chuvas, logo depois da implantação da lavoura - necessitando de menos irrigação - ou no início da seca, antes da lavoura, o que vai exigir a irrigação desde o início. No experimento conduzido na Embrapa Gado de Corte, é feita a introdução de lavoura a cada quatro anos, em esquema de rotação, sendo lavoura por um ano e pasto por três anos. O pesquisador lembra que a presença de árvores propicia ao pasto recuperado uma produção bem maior que a pastagem em monocultivo, mas vale lembrar que quanto mais a árvore cresce, mais o pasto vai sendo sombreado e, obviamente, a sombra diminui a produtividade do vegetal que está abaixo dela. Entretanto, o valor nutritivo da forrageira na sombra é melhor. “O produtor tem que estar consciente que quanto mais sombra, menor a produção do pasto. Para isso existe a estratégia de arranjo das linhas das árvores. Trabalhamos com maior espaçamento, no mínimo 20 metros entre fileiras de árvores, e assim temos um espaço razoável para que o sombreamento não interfira tanto na produção”, explica.

Com a venda do produto da lavoura, o produtor pode pagar parte - ou to­talmente - do investimento do pasto que vem a seguir.

Ele explica, ainda, que quanto mais componentes tiver o sistema, mais complexo ele é, sendo então necessário um profissional da área técnica para acompanhar desde a fase de implantação até o desenvolvimento do mesmo. “Isso é um dos pontos que pode limitar a adoção, mas os benefícios são inúmeros apesar de as características da iLPF exigirem um pouco mais do produtor”, acrescenta.

a

O número razoável de árvores para esse tipo de sistema é de 250 a 350 por hectare. Para tanto, o espaçamento deve ser de 20 a 22 metros, em linhas simples.

A desrama também é usada para a retirada de galhos, o que melhora a iluminação para o pasto, além da qualidade da árvore. Além da desrama pode ser feito o desbaste - corte de árvore - a partir dos quatro anos, porém quanto mais nova a planta, menor o valor de mercado dela. Segundo Giolo, o momento ideal de corte para o eucalipto é em torno de seis a nove anos (dependendo do manejo), quando a planta atinge a maior taxa de crescimento. “Com esse porte, a madeira pode ser destinada para produção de celulose ou postes. Acima dos dez anos, a madeira pode ser vendida para serrarias com valor bem maior. Quanto mais tempo a árvore crescer, maior será o valor da madeira no mercado. Isso mostra a flexibilidade do sistema em relação ao pasto sozinho”, finaliza o pesquisador.

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Suplementação

Sal mineral deve ser dado para os bovinos o ano todo Por E liana Cezar

As necessidades de sal mineral variam de acordo com o estado do animal e o peso.

Crédito: Ivaris Júnior - A suplementação mineral deve ocorrer o ano inteiro, inclusive nas águas.

P

rodutor já sabe, mas é sempre bom relembrar de que a correta mineralização do rebanho garante uma boa produção de carne e leite e evita queda de produtividade. Como os pastos não suprem todas as necessidades minerais dos animais é importante fazer a suplementação de forma correta utilizando uma mistura com todos os macros e micros elementos no concentrado. Os macrominerais mais importantes são: Cálcio (Ca), Fósforo (P), Magnésio (Mg), Enxofre (S), Sódio (Na), Cloro (Cl) e Potássio (K) e os microminerais: Ferro (Fe), Zinco (Zn), Cobre (Cu), Iodo (I), Manganês (Mn), Flúor (F), Molibdênio (Mo), Cobalto (Co), Selênio (Se), Cromo (Cr), Níquel (Ni), Vanádio (V) e Silício (Si). Normalmente esses elementos fazem parte da mistura mineral disponível no comércio, mas é importante comprar o produto de empresas idôneas e, em caso de dúvida, coletar amostra do produto e enviar para análise.


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Crédito: Ivaris Júnior - A suplementação mineral para bovinos é necessária em todos os modelos produtivos.

mineral deve ser dado para os bovinos o ano todo

xo de 0,12% da matéria seca, além de outros. Como todos podem limitar a produção o criador deve se preocupar com vários minerais além de que estejam balanceados, sem grandes excessos que possam predispor a problemas de absorção. “Um mineral em excesso prejudica a absorção de outro”, esclarece o especialista. É também comum se ouvir dizer que é bobagem gastar com sal mineral e que algum amigo parou de mineralizar e não notou diferença nenhuma. Sérgio diz que esse é um mito para o qual basta o tempo derrubar. O uso da técnica de suplementação mineral permite o aproveitamento de todo potencial produtivo da forragem, diz Sérgio e “ter esse conceito correto na ponta da língua ajuda a deixar o sal na ponta da língua dos animais e o azul mais vivo na conta da fazenda”.

As necessidades de sal mineral variam de acordo com o estado do animal e o peso. De forma geral pode-se dizer que o consumo diário deve ser entre 80 a 100 gramas. É bom lembrar que sem uma correta mineralização o animal não desenvolverá todo seu potencial, portanto é recomendável a avaliação de um especialista para indicar a melhor mistura para o rebanho. Há muitos mitos em torno do assunto que vale a pena comentar, como por exemplo, o de que sal mineral é tudo igual. Para o pesquisador da Embrapa Sérgio Raposo o que diferencia um sal mineral de outro é a formulação. “Um produto mal formulado, isto é, com níveis de garantia furados e consumo mal planejado, não será eficaz”. Outra questão, ainda muito mais comprometedora, é que existem inúmeras armadilhas no mercado em termos de matéria-prima, conta o pesquisador. “Ainda que algumas delas possam ser evitadas com uma análise de laboratório, outras podem ter um laudo perfeito, mas o nutriente não ser assimilável”. Outros diferenciais, segundo Sérgio, são: qualidade da mistura, fontes mais nobres de matéria-prima, tipo de apresentação (granulado, floculado), resistência ao empedramento e algo que tem feito muita diferença: apoio técnico da empresa ao produtor. Outra conversa comum é de que o mineral que importa no sal é o fósforo. Segundo o pesquisador, o fósforo não é o único mineral que o produtor deve se preocupar. Levantamentos feitos pela Embrapa Gado de Corte apontam que as forrageiras têm valor baixo de sódio (< 0,1% da matéria seca), predispondo deficiência. O fósforo ficou em quarto lugar na pesquisa, com 72% das amostras abai-

O USO DE MINERAIS NA SECA A lógica é que a exigência dos minerais para manter ou perder peso na seca é tão baixa que o pouco que tem na pastagem já resolve. O conceito importante é o seguinte: Quanto maior a produção, maior a necessidade de nutrientes, inclusive de minerais. Por isso que a época que mais se deve preocupar com a suplementação de minerais é nas águas. Na seca, também devemos, mas usando sal com ureia e proteinado, resolvendo primeiro o fator mais limitante, explica Sérgio Raposo. “O que acontece na seca é que não adianta fornecer apenas os minerais, pois o nutriente mais limitante é a proteína”. DICAS E CUIDADOS COM OS COCHOS Uma dica é usar um bom sal mineral. Caso o criador prefira misturar o sal na própria fazenda, convém consultar um técnico para fazer o balanceamento da mistura que deve ser de acordo com as exigências nutricionais dos animais. Outra dica é com relação aos cochos onde se coloca o sal mineral. O ideal é que eles sejam cobertos, que fiquem bem localizados e que não fiquem ilhados por acúmulo de água. Todavia, o pior cenário não é ter o sal mineral molhado pela chuva, mas a falta de espaço linear mínimo de cocho. O melhor é oferecer no mínimo seis centímetros lineares de cocho para cada unidade animal atendida por esse cocho – ensina Sérgio. Entre ter o sal preservado da chuva e dar acesso ao sal a todos os animais, mesmo que molhado, o produtor deve dar preferência à segunda opção, recomenda o pesquisador. “Ainda assim, ao usar cochos não cobertos, é aconselhável ter um monitoramento e abastecimento mais intensivo, uma vez que a umidade ajuda a empedrar o sal, o que prejudica seu consumo”. Revista Digital Boi a Pasto

29


S uplementação Por Sergio Raposo*

Dez mitos no uso do sal mineral para bovinos Uma técnica usada há décadas na pecuária de corte brasileira é a mineralização do rebanho.

U

ma técnica usada há décadas na pecuária de corte brasileira é a mineralização do rebanho. Apesar disso, parece que algumas informações distorcidas ainda prevalecem no meio. O objetivo da lista abaixo é, ao esclarecê-las, contribuir para o melhor uso da técnica. São dez pontos que elencamos como “mitos”, ou seja, algo “que não tem existência real ou passível de ser provada”, conforme uma das definições do dicionário “Caudas Aulete”. Vamos a eles:

Mito 1

“Sal mineral é tudo igual” Um sal mineral é uma mistura de vários elementos, óxidos e sais à disposição no mercado. Comprá-los e misturá-los é algo dentro das possibilidades de quase qualquer terráqueo. Mas, então, por que isso é mito? O que pode diferenciar um sal mineral de outro? O primeiro ponto seria a formulação do sal (as quantidades de cada matéria prima visando determinadas concentrações finais dos nutrientes no produto). Um produto mal formulado, isto é, com níveis de garantia furados e consumo mal planejado, não será eficaz. Assim, mesmo que o animal o consuma, não será atingido o objetivo de atender suas exigências minerais. Outra questão ainda muito mais comprometedora é que existem inúmeras armadilhas no mercado em termos de matéria-prima. Ainda que algumas delas possam ser evitadas com uma análise de laboratório, outras podem ter um laudo perfeito do laboratório, mas o nutriente não ser assimilável (não ser biodisponível, no jargão técnico). Outros diferencias seriam: qualidade da mistura, fontes mais nobres de matériaprima, tipo de apresentação (granulado, floculado), resistência ao empedramento e algo que tem feito muita diferença: apoio técnico da empresa ao produtor. *Sérgio Raposo: pesquisador da Embrapa Gado de Corte, agrônomo com mestrado (1992) e doutorado (2002) pela Esalq/USP, especialista em nutrição animal, atuação em pesquisa com os seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável. Nas horas vagas, toca violino e, de atividade física, nada! sergio.medeiros@embrapa.br

30

Revista Digital Boi a Pasto


D ez

Mito 2“O animal sabe que mineral precisa”

Esse é um dos mitos mais difusos e duradouros. Já foi amplamente comprovado por pesquisas que o animal voluntariamente não seleciona minerais dos quais esteja deficiente. Exatamente por isso que precisamos colocar todos juntos, de maneira bem formulada para que eles os consumam. Como o sódio é o único mineral que efetivamente o animal mostra desejo em consumir, o cloreto de sódio virou o veículo ideal para ajudar nesta tarefa (Ver Mito 5).

Mito 3

“O mineral que importa no sal, mesmo, é o fósforo” Segundo um extenso levantamento realizado pela Embrapa Gado de Corte, 100% das forrageiras analisadas teriam valores muito baixo de sódio (< 0,1% da matéria seca), que predisporiam deficiência. Nesta mesma pesquisa, o fósforo ficou em quarto lugar, com 72% das amostras abaixo de 0,12% da matéria seca. Zinco, com 96% das amostras menor do que 20 ppm (2º lugar), cobre com 82% menor que 4 ppm (3º lugar) e Cálcio com 38% menor que 0,2% da matéria seca (5º lugar), completam a lista. Não foram avaliados nesta pesquisa Cobalto, Iodo e Selênio, todos com histórico de deficiência e resposta a suplementação no Brasil. Fica claro, então, que o fósforo não é o único mineral que devemos nos preocupar. Como todos podem limitar a produção, devemos nos preocupar com cada um deles, bem como nos preocupar que estejam balanceados, sem grandes excessos que possam predispor a problemas de absorção (um mineral em excesso, prejudicando a absorção de outro).

Mito 4

“Quanto maior a concentração em minerais, melhor é o sal!” Esse é o critério que eu uso na compra” – Ao comparar dois produtos é comum o produtor optar por aquele que tenha valores de níveis de garantia dos nutrientes mais altos. A lógica seria que, se eles têm maiores concentrações, o animal vai ter mais desse mineral a disposição. O que “fura” essa lógica é o consumo! Se o sal tem 90 gramas de fósforo por quilograma do produto isso apenas significa qual a concentração dele e não quanto está à disposição do

mitos no uso do sal mineral para bovinos

animal, o que vai depender da quantia que ele ingere desse sal mineral. Assim, se esse sal tem um consumo de 60 gramas/cabeça.dia, o consumo de fósforo pelo animal é de 5,4 g/cabeça.dia. Um sal com 88 de fósforo por quilograma do produto, mas com consumo de 70 gramas/cabeça.dia, suprirá com 6,16 gramas de fósforo por dia ao animal, quase 1 g a mais do que o de 90. Portanto, lembre-se: o animal não come concentração, ele come o sal!

Mito 5

“Só o sódio basta para acertar o consumo” Esse é um mito que todo nutricionista gostaria de acreditar, pois a única forma de formular o sal é considerar que isso é verdade. Enfim, precisamos de uma referência e a melhor que temos é o teor de sódio. Esta referência até funciona bem, no sentido que ao fazermos a média de muito dados de consumo, há uma convergência para que o valor obtido se aproxime daquele que atende as exigências de sódio. Assim, para estimar a o consumo de um mineral bastar identificar qual o consumo necessário para atender as exigências de sódio. Por exemplo, considerando como 10 g de Sódio a exigência de uma unidade animal (um animal com 450 kg), se o sal fornecido a ele tem 200 g de sódio por quilograma do produto, o consumo esperado deste produto é de 50 gramas/cabeça.dia, O cálculo é uma “regra de três”: Se em 1 kg do produto temos 200 g, quantos quilos do produto preciso para ter esses 10 g ou, simplesmente, 10 g/cab.dia dividido por 200 g Sódio/kg produto = 0,05 kg produto.

Mito 6

“Regulando o consumo pelo teor de sódio, não há necessidade de monitorar o consumo” O problema dos nutricionistas precisarem tanto desta referência é que ele passa, muitas vezes, a ser tido como uma referência absoluta. A realidade nos mostra que o consumo de minerais é muito variável e que essa variabilidade é pouco previsível. O que esta realidade nos impõe é monitorarmos o consumo, de preferência, de piquete a piquete e, na pior das hipóteses ter a média da fazenda no ano. (neste link há um exemplo deste cálculo: http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/12/26/

Revista Digital Boi a Pasto

31


D ez

cinco-dicas-basicas-para-ter-uma-producao-melhorem-2014/)

Mito 7 “As empresas usam palatabilizantes para aumentar consumo” O consumo de minerais interessa, sim, às empresas, pois quanto maior for o consumo, maiores serão suas vendas. Todavia, não há pior propaganda para uma empresa do que ela ter sais minerais com fama de alto consumo, pois isso é um fator altamente desestimulante para os compradores. Aliás, nunca há reclamação por consumo abaixo do valor recomendado, apenas quando ele fica acima. Ocorre que o maior prejuízo ao pecuarista, em geral, ocorre por não aproveitar todo o benefício de “zerar” as deficiências minerais. Dessa forma, é interessante que algum palatabilizante seja utilizado na formulação. Adicionalmente, resultados de pequisa mostram que ele ajuda a uniformizar o consumo, o que é muito desejável. (Mais informações sobre consumo uniforme do lote no texto: http://sites.beefpoint.com.br/ sergioraposo/2013/09/17/mineralizacao-de-animais-empastagem-assunto-encerrado/)

Mito 8

“Mineralizar faz diferença mesmo na seca” As vendas de sal mineral aumentam na época que antecede a estiagem, mostrando claramente que o produtor tem aumentada sua preocupação em vista dos pastos mais pobres da seca. A crença por trás disso seria que, uma vez que a pastagem teria níveis mais baixos de minerais (o que é fato), consequentemente seria necessário dar mais minerais ao animal para compensar. Todavia, o que acontece na seca é que não adianta fornecer apenas os minerais, pois o nutriente mais limitante é a proteína. Há, inclusive, dados de pesquisa mostrando não haver diferença entre fornecer sal mineralizado e apenas sal branco aos animais na época da seca. A lógica é que a exigência dos minerais para manter ou perder peso na seca é tão baixa que o pouco que tem na pastagem já resolve. O conceito importante aqui é o seguinte: Quanto maior a produção, maior a necessidade de nutrientes (inclusive minerais). Por isso que a hora que mais se deve preocupar com a suplementação de minerais é nas águas. Na seca, também devemos, mas usando sal com ureia e proteinado, resolvendo primeiro o fator mais limitante.

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Revista Digital Boi a Pasto

mitos no uso do sal mineral para bovinos

Mito 9 “Se não usar cocho coberto, melhor nem mineralizar” Cochos cobertos, bem assentados, bem localizados, que não fiquem ilhados por acúmulo de água ajudam muito os lotes por eles atendidos a terem bom consumo e devem ser o padrão a ser atingido. Todavia, o pior cenário não é ter o sal mineral molhado pela chuva, mas a falta de espaço linear mínimo de cocho. Recomenda-se oferecer no mínimo 6 cm lineares de cocho para cada unidade animal atendida por esse cocho. Entre ter o sal preservado da chuva e dar acesso ao sal a todos os animais, mesmo que molhado, dê preferência à segunda opção. Ainda assim, ao usar cochos não cobertos, é aconselhável ter um monitoramento (e abastecimento) mais intensivo, uma vez que a umidade ajuda a empedrar o sal, o que prejudica seu consumo.

Mito 10 “Bobagem gastar com sal mineral! Um amigo parou de mineralizar e não notou diferença nenhuma” Esse é um mito para o qual basta o tempo para que seja derrubado. As vezes, nos deparamos com alguém que está fazendo esse “teste” e é possível que, em algum lugar no Brasil, de fertilidade natural muito alta e que o produtor se contente com índices produtivos medíocres que o “teste” funcione por um bom tempo, alongando a “vida útil” do mito. O confronto entre os níveis usualmente encontrados dos minerais nas forragens brasileiras e a exigência cada vez maior, na medida que melhoramos o manejo das pastagens e a genética dos animais, fazem com que possamos esperar que cada vez mais esse tipo de “teste” dure menos. Um bom uso da técnica de suplementação mineral permite o aproveitamento de todo potencial produtivo da forragem. Ajudar esse aliado da produção a nos ajudar é altamente compensador. Ter esses conceitos corretos na ponta da língua ajudam a deixar o sal na ponta da língua dos animais e o azul mais vivo na conta da fazenda.


Sanidade Animal

A boa vida que

todos precisam Por Ivaris Júnior

A saúde animal, em uma visão ampliada, envolve questões relacionadas a enfermidades dos animais, saúde pública, controle dos riscos em toda a cadeia alimentar, assegurando a oferta de alimentos seguros e bem-estar animal.

A

Crédito: Ivaris Júnior - O ato de vacinação é uma prática que, embora simples, requer cuidados e o conhecimento necessário para a correta aplicação e evitar prejuízos aos produtores e danos aos animais.

o longo de toda a experiência humana com criação de animais para exploração econômica, a incidência

um bem público mundial, o serviço veterinário brasi-

de doenças e outros males foi sempre determinante

animal, compartilha com o setor privado as responsa-

na produção e no sucesso da atividade. No Brasil, por

bilidades para aplicação das medidas que objetivam a

estar presente nos trópicos, tem sido um grande desa-

melhoria da saúde animal.

fio controlar doenças e oferecer conforto.

leiro, responsável pela condução da política de saúde

Febre aftosa

Para assegurar a saúde animal é necessária a existên-

Apesar de trabalhar para se tornar um País livre de fe-

cia de serviços veterinários bem estruturados, capa-

bre aftosa sem vacinação, a campanha de vacinação

citados e aptos para detecção e adoção precoce das

contra febre aftosa no Brasil segue o calendário oficial

medidas de controle e erradicação das doenças. Em

estabelecido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária

sintonia com a Organização Mundial de Saúde Animal

e Abastecimento (MAPA) sendo realizada, na maior

– OIE, que reconhece os serviços veterinários como

parte dos estados, nos meses de maio e novembro.


S anidade A nimal

A vacinação sistemática de bovinos e búfalos é obrigatória, exceto em Santa Catarina, estado reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal - OIE. A aquisição e aplicação da vacina contra a febre aftosa é de responsabilidade dos proprietários dos animais.

Raiva Os animais nascidos após a vacinação do rebanho deverão ser vacinados contra raiva quando atingirem a idade recomendada de três meses. Os estados podem legislar complementarmente sobre a necessidade de vacinação compulsória e sistemática em áreas consideradas de risco, baseando-se no modelo citado no item anterior. A vacinação é compulsória quando da ocorrência de focos da doença e deve ser adotada preferencialmente em bovídeos e equídeos com idade igual ou superior a três meses. Em animais com idade inferior, pode ser orientada caso a caso, de acordo com a avaliação técnica de um médico veterinário.

34

Revista Digital Boi a Pasto

O Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros - PNCRH tem como objetivo reduzir a prevalência da doença na população de herbívoros domésticos, com a seguinte estratégia de atuação: controle de transmissores, vacinação dos herbívoros domésticos em situações específicas, vigilância epidemiológica e outros procedimentos de defesa sanitária animal, que visam a proteção da saúde pública e o controle dessa enfermidade em herbívoros, que causa grande prejuízo econômico à pecuária nacional.

Brucelose A vacina é aplicada somente uma vez em bezerras com idade entre três a oito meses. No Brasil, é aplicada a vacina B19, por profissionais autorizados.

Vaca louca O Programa Nacional de Prevenção e Vigilância da Encefalopatia Espongiforme Bovina - PNEEB visa manter o Brasil com o menor risco para a doença, mediante a aplicação de medidas de prevenção da entrada do


A

agente no país, de mitigação de risco na cadeia produtiva de ruminantes e de vigilância para a detecção precoce da doença. Desde 1997, a EEB, a scrapie e outras doenças nervosas de caráter progressivo em ruminantes foram incorporadas ao sistema de vigilância da raiva dos herbívoros domésticos, sendo também de notificação obrigatória a ocorrência ou a suspeição dessas enfermidades.

Para uma boa vacinação O ato de vacinação é uma prática que, embora simples, requer cuidados e o conhecimento necessário para a correta aplicação e evitar prejuízos aos produtores e danos aos animais: 1. R evisar as instalações para o bom andamento e segurança da vacinação; 2. A  dquirir as vacinas de revendedores confiáveis e em quantidade compatível com o número de animais a ser vacinados; 3. M  anter rigoroso controle do acondicionamento das vacinas, mantendo em geladeira na temperatura entre 2 e 8oC ou em caixas térmicas com duas partes de gelo para uma de vacina. É muito importante a conservação adequada, pois tanto o congelamento quanto o calor anulam a eficiência da vacina; 4. Manter a seringa dentro da caixa térmica mesmo nos pequenos intervalos entre as aplicações; 5. E vitar deixar os animais presos por períodos prolongados; 6. D  isponibilizar aos animais fácil acesso a água e alimentos após a vacinação; 7. Evitar estressar e maltratar os animais, o que pode

boa vida que todos precisam

causar prejuízos (abortos, traumatismos, etc.) e prejudicar a resposta imunológica à vacinação; 8. A  dose a ser aplicada em cada animal deve ser aquela indicada no rótulo do frasco de vacina. Uma dosagem menor do que a indicada pelo fabricante não proporcionará proteção desejada; 9. Devem ser utilizadas agulhas de tamanho adequado, limpas e com bom estado de conservação. Agulhas de calibre muito grosso podem provocar refluxo de vacina e reduzir a quantidade aplicada; 10. As vias de aplicação devem ser observadas no rótulo ou na bula das vacinas; 11. Zelar pela limpeza e assepsia dos equipamentos e instrumentais utilizados na vacinação; 12. V  erificar a adequada contenção dos animais, preservando sua integridade e da equipe de vacinação e evitando riscos desnecessários; 13. Não aplicar a vacina em partes impróprias e/ou sujas do corpo do animal; 14. U  tilize uma agulha só para retirar a vacina do frasco, minimizando a contaminação do conteúdo do frasco com a agulha que teve contato com o animal; 15. Trocar a agulha a cada lote de 10 animais vacinados, substituindo por uma limpa e em bom estado, descartando agulhas desgastadas e/ou tortas, lavando e desinfetando agulhas em condições de ser reutilizadas; 16. A resposta imunológica dos animais a aplicações de vacinas não é imediata e seus efeitos somente aparecem depois de alguns dias. Assim, animais vacinados recentemente ainda podem apresentar a doença, pois já poderiam estar infectados quando vacinados; 17. O  s animais sadios e bem nutridos têm melhor resposta imunológica às vacinas do que os doentes ou mal alimentados.

Revista Digital Boi a Pasto

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S anidade A nimal

V E R M I N O S E

B O V I N A

OCORRÊNCIA E

CONTR E STRA

O Por I vo Bianchin e Michael Robin Honer*

s efeitos dos helmintos sobre os bovinos dependem da espécie e do grau de infecção, o qual, por sua vez, depende de diversos fatores, tais como as condições climáticas, solo, vegetação, tipo de exploração, raça e idade do animal, e o tipo de pastagem.


V erminose B ovina : C ontrole E stratégico

O controle estratégico da verminose bovina é, por definição, preventivo e seus efeitos são notados somente a médio e a longo prazos. Para se chegar a um controle eficiente e econômico é necessário estudar a epidemiologia dos helmintos nas diferentes regiões ecológicas e, desta forma, conhecer melhor a dinâmica dos helmintos no animal e na pastagem.

indicam que o melhor esquema de controle deve englobar o período seco do ano. Observa-se que a maior parte das estações meteorológicas (65,1%) mostra uma estação seca nos meses de junho, julho e agosto (JJA).

Brasil Central

A área física incluída na estação seca de JJA abrange os Estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Rondônia, Acre, região centro-sul do Amazonas, Pará, Maranhão, grande parte do Piauí e Bahia, a maior parte do interior de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. A estação seca de JJA inclui grande parte do Brasil Central, onde se encontram 50-60% do rebanho nacional, ou, aproximadamente, 74 milhões de bovinos.

ROLE TÉGICO Os prejuízos causados pelos helmintos dependem, entre outros fatores, da idade dos animais e do custo do número de doses de vermífugo a ser utilizado (Tabela 1). Tabela 1. Categoria animal, prejuízo e número de doses anti-helmínticas nos Cerrados. Categoria animal

Prejuízo

Dosificações

Bezerro antes da desmama

baixo

depende do manejo

Desmama até 2430 meses

alto

maio, julho e setembro

Boi de engorda

baixo

outubro ou novembro

Vacas

baixo

julho ou novembro

Bois de engorda na pastagem e em confinamento – Em pastagens que ficam de reserva ou vedadas por certo período, para terminação do boi, os resultados de pesquisa demonstram vantagem em se dosificar os animais de engorda na entrada do pasto. Da mesma forma, sugere-se também o mesmo tratamento na entrada do confinamento. Vacas no periparto – O pique de parição das vacas, no Brasil Central, ocorre nos meses de agosto e setembro. Neste caso, é recomendável vermifugar todas as vacas uma vez ao ano, em julho ou agosto, para diminuir a infestação de larvas no pasto, e como medida preventiva para os bezerros que nascem neste período. Animais a partir da desmama – Os resultados de pesquisa na região Central do Brasil

O uso estratégico de anti-helmínticos nos meses de maio, julho e setembro, na faixa etária do desmame aos 24-30 meses, poderia ser aplicado em toda esta área, modificando-o se alguma particularidade local assim o exigir. Em resumo, isto proporcionaria uma redução de 2% em mortalidade e um ganho médio de 41 kg de peso vivo por animal, no abate. O desempenho financeiro de dosificar os animais três vezes ao ano (maio, julho e setembro) proporciona, em dois anos, um retorno de 457,46% sobre o custo da aplicação do anti-helmíntico. Por fim, cabe ressaltar que a adoção da dosificação estratégica não enfrenta restrição quanto aos sistemas de produção em uso pelos produtores, uma vez que, em essência, é uma questão gerencial, não exigindo qualquer investimento adicional.

Pantanal

Estudos realizados no Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal (CPAP) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), sobre epidemiologia de helmintos em bovinos de corte na região, evidenciam que existem condições de sobrevivência das larvas infectantes durante o ano todo. Porém, tanto o número como a migração aumentam no período chuvoso. Também o número de helmintos adultos nos animais é maior durante o período chuvoso.

Revista Digital Boi a Pasto

37


V erminose B ovina : C ontrole E stratégico

Esses resultados indicam o tratamento anti-helmíntico como altamente lucrativo no Planalto Catarinense, reduzindo em um ano e meio a idade de abate dos animais, produzindo um incremento na lucratividade de 58%.

Recomendações gerais

O CPAP recomenda a intensificação do tratamento anti-helmíntico durante o período chuvoso. No momento, no chamado pantanal alto, podem ser utilizadas as mesmas épocas de tratamento dos cerrados.

Rio Grande do Sul

O Centro Nacional de Pesquisa de Ovinos (CNPO) da EMBRAPA, no Rio Grande do Sul, preconiza um controle estratégico em bovinos de corte com um total de oito medicações, do desmame até os 24 meses de idade, conforme a Tabela 2. Tabela 2. Número de doses de anti-helmínticos em animais com idade próxima ao abate até os 24 meses de idade. Categoria/ bovino

Março

Junho

Setembro

Novembro

±desmame aos 24 meses de idade

C/A

C/A

A

A

• Onde os tratamentos identificados como A requerem o uso de um produto “avançado” para a remoção de formas hipobióticas de Ostertagia spp. e C produto “convencional”. No caso dos meses de março e junho pode ser utilizado o produto convencional ou avançado. Os resultados obtidos mostram um ganho adicional de 67 kg de peso vivo/animal, em relação a um lote não controlado, diferença que corresponde a um incremento de 70%, além de reduzir 10% da mortalidade.

Santa Catarina

Trabalhos realizados pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão de Tecnologia de Santa Catarina (EPAGRI) demonstraram, em pastagem cultivada, que o melhor controle estratégico é usar 8 medicações/ano, a partir de maio, a cada 45 dias.

38

Revista Digital Boi a Pasto

1. Tratar qualquer categoria animal antes de entrar em pastagens que foram vedadas e/ou recém-formadas. 2. Utilizar sempre a dose recomendada pelo fabricante do produto. 3. Nas criações extensivas de gado de corte utilizar o produto somente em categorias de animais cuja verminose represente alto prejuízo, e nas épocas recomendadas pela pesquisa para o controle estratégico - caso contrário, é dinheiro jogado fora. 4. Deve-se tratar todos os animais da invernada e não somente os magros.

IMPORTANTE: O controle estratégico aqui preconizado para controle da verminose NÃO dispensa a assistência técnica, uma vez que o número de doses de anti-helmínticos a serem utilizadas nos animais muitas vezes deve ser acrescido e/ou modificado, dependendo do manejo, raça, nível nutricional e outros fatores, havendo necessidade de se fazer exames de fezes nos animais. * Ivo Bianchin e Michael Robin Honer são pesquisadores da Embrapa Gado de Corte (CentraNacional de Pesquisa de Gado de Corte – CNPGC, Unidade de Campo Grande, MS)


Bem-Estar

Entenda o que é bem-estar animal

Por Ivaris Júnior

Compreender as necessidades dos animais ajuda a melhorar a vida de milhares deles criados em fazendas bem-estar animal, muitas vezes, não é um con-

O

tar a um animal, mas sim condições para que ele

ceito tão simples de ser compreendido. Ele pode

possa se adaptar, da melhor forma possível, ao am-

ter diferentes significados para diferentes pessoas.

biente. Quanto melhor a condição oferecida, mais

De modo geral, ‘bem-estar’ se refere à qualidade

fácil será sua adaptação.

de vida de um animal – se ele tem boa saúde, se suas condições física e psicológica são adequadas,

Nas fazendas, a ciência do bem-estar animal ga-

e se pode expressar seu comportamento natural.

rante o acesso dos animais a comida e água fresca, manejo adequado, cuidados veterinários, socia-

Com definiu o pesquisador Donald Broom, o bem-

lização e, mais recentemente, ao enriquecimento

-estar é uma qualidade inerente aos animais, e não

ambiental. Está comprovado cientificamente que

algo dado a eles pelo homem. Na prática, isso sig-

animais em bem-estar são muito mais produtivos,

nifica que ninguém é capaz de oferecer bem-es-

portanto, lucrativos. Em tempos onde é preciso


E ntenda

o que é

B em -E star A nimal

Comissão de Bem-estar animal O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é responsável pelo fomento de ações para promoção do bem-estar animal por meio da Secretaria de Mobilidade Social, do Produtor Rural e Cooperativismo (SMC). Para tanto foi formalizada uma comissão para cuidar especialmente das questões relativas a esse tema, que é a

maximizar resultados para melhorar a remuneração, a estratégia pode fazer toda a diferença.

Comissão Técnica Permanente de Bem-Estar Animal – CTBEA (criada pela Portaria nº 185, de 2008).

Eles também sentem O conceito das cinco liberdades é um importante aliado do bem-estar dos animais, pois é essencial para que o sofrimento seja evitado. Mas, além disso, a necessidade de experimentar emoções positivas tem sido cada vez mais reconhecida pela ciência como um fator importante para o bem-estar dos animais.

Esta comissão é multidisciplinar, constituída por servidores do MAPA que atuam em diversas áreas, como inspeção de produtos de origem animal, vigilância agropecuária, relações internacionais, saúde animal, câmaras setoriais, entre outras. O grupo conta com o apoio de diversos parceiros, entidades públicas e privadas, para fomento das ações e práticas de bem-estar animal no Brasil.

Os animais de fazenda são seres sencientes, ou seja, são capazes de sentir emoções como medo e felici-

Dentre as atribuições da CTBEA estão a divulgação

dade, o que significa que suas emoções têm impor-

e a proposição de boas práticas de manejo, o ali-

tância para eles.

nhamento da legislação brasileira com os avanços científicos e os critérios estabelecidos pelos acordos

40

Sua senciência, reconhecida pela União Europeia

internacionais dos quais o Brasil é signatário, bem

desde 2009, também tem grande influência sobre

como preparar e estimular o setor agropecuário bra-

os seres humanos, porque mudam a forma como es-

sileiro para o atendimento às novas exigências da

tes tratam os animais - a compreensão de suas emo-

sociedade brasileira e consumidores dos mercados

ções aumenta a empatia em relação a eles.

importadores.

Revista Digital Boi a Pasto


Melhoramento Genético

ACELERANDO ACELERANDO PRODUÇÃO E LUCRO Potencial de retorno econômico pelo uso de touros melhoradores em monta natural Por A ntônio Ferreira Rosa, Roberto Torres Jr. e Fernando Costa*

C

onsiderando-se um único acasalamento, reprodutor e matriz têm o mesmo valor,

O retorno econômico de um touro pode ser ava-

uma vez que cada um contribui com a metade do

à desmama de bezerros que além de apresentar

seu genoma para a formação de um novo indiví-

parâmetros genéticos acurados dispõe de valor co-

duo. No entanto, ao longo da vida reprodutiva,

mercial bem estabelecido pelo mercado.

liado de maneira simplificada pela análise do peso

enquanto a vaca pode deixar até oito-dez filhos, o touro pode ser pai de dezenas. Além disto, por de-

A partir da avaliação genética da raça Nelore lança-

mandar menor número de animais para reposição,

da pelo Programa Embrapa-Geneplus em novem-

a pressão de seleção de touros é muito maior do

bro de 2015, estimou-se em 4,26 kg a DEP - Diferen-

que a de fêmeas. Por estas razões pode-se demons-

ça Esperada na Progênie para o peso a desmama,

trar que o touro proporciona de 84% a 88% do

envolvendo machos superiores possivelmente

ganho genético de todo o rebanho, para relações

ativos e com produtos desmamados em 2015. Por

touro:vaca de 1:20 e 1:40, respectivamente, e carac-

outro lado, a comercialização de mais de 80 mil ani-

terísticas de 20% de herdabilidade. Desta forma, a

mais realizada de janeiro a dezembro deste mesmo

escolha dos reprodutores é decisiva para o sucesso

ano apontou em R$6,16 o valor médio do kg de be-

do sistema de produção.

zerro desmamado.

*Pesquisadores da Embrapa Gado de Corte


A celerando

produção e lucro

gem genética), ou seja: 4,26 + 1/2(22) = 15,26 kg. Desta forma, o valor de um único produto de um touro superior seria, nestas condições, R$94,00 acima da média dos bezerros comerciais.

Assim, com base na definição de DEP, o retorno econômico de cada filho de um touro superior pode ser estimado em R$26,24, quando comparado aos filhos dos demais touros no âmbito do referido Programa. Outra consulta à mesma avaliação genética acima referida permitiu observar que a média do peso à desmama ajustada para a idade de oito meses nos plantéis de seleção, ao longo do ano de 2015, foi de 217 kg, entre machos e fêmeas. Nos rebanhos comerciais, por outro lado, observou-se, na categoria de 8 a 10 meses de idade, a média de 173 kg, considerando ambos os sexos. Embora esta categoria envolva animais de até 10 meses, a maioria deles apresenta idade próxima de oito meses, semelhante à idade padrão adotada nos rebanhos puros. Admitindo-se esta aproximação, mesmo assim, verifica-se uma “defasagem” da ordem de 44 kg entre os dois rebanhos. Dessa diferença total, parte é ambiental, ou de manejo, e parte é devida à própria “defasagem genética” dos rebanhos comerciais em relação aos plantéis puros. Na falta de uma avaliação mais precisa do

Em rebanhos comerciais, com relação touro:vaca de 1:40, taxa de desmama de 75% e módulo de 200 matrizes, para exemplo de reposição anual de um touro, pode-se verificar que a renda extra devida a este pequeno incremento de peso à desmama produz receita suficiente para a reposição deste touro no valor de até R$10.340,00 – equivalente a 71 arrobas de boi gordo (média da @ em 2015: R$145,42), mesmo após a reserva de fêmeas para a reposição de 20% das matrizes. Somando-se o valor dos bezerros comercializados ao do touruno descartado (média de R$2.595,39 / animal), a receita total seria suficiente para cobrir os custos de reposição com a aquisição de reprodutor ao valor de até R$12.935,39. Para o alcance destes resultados, é necessário que se estabeleça uma estratégia de desembolso de modo que, em um ciclo máximo de cinco anos, se tenha em atividade reprodutiva apenas touros geneticamente superiores. Obviamente, o retorno econômico baseado apenas no peso à desmama está muito longe de representar o real impacto de um touro melhorador no rebanho. Uma avaliação mais precisa deveria incluir os reflexos até o abate (machos e fêmeas descartadas) e sobre o rebanho de cria, considerando-se os ganhos relativos a peso corporal, qualidade das carcaças e das fêmeas de reposição.

quanto desta defasagem é devida aos fatores genética e ambiente, pode-se supor que cada um deles seja responsável por metade dessa diferença. Assim sendo, a “DEP realizada” de um touro superior, quando utilizado em um rebanho comercial, seria igual ao valor da DEP no rebanho de seleção + ½(defasa-

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Revista Digital Boi a Pasto

Considera-se, portanto, que o investimento em touros geneticamente superiores apresenta elevado potencial de retorno econômico, podendo contribuir decisivamente para a melhoria da produtividade e da renda das fazendas de pecuária de corte.


M elhoramento G enético Por Ivaris Júnior

Usinando Reprodutores de Valor

P

roduzir touros melhoradores para rebanhos comerciais não é tarefa das mais

simples, tanto que a pecuária brasileira consegue gerar, anualmente, apenas 10% dos reprodutores que precisa: uma demanda estimada em 500 mil deles, incluindo genética que pode ser utilizada por meio de inseminação artificial. Entregar ao mercado três, quatro, cinco dezenas deles todos os anos requer

Nelore Grendene explica porquê é um dos principais produtores de touros do país, apresentando, desde uma criteriosa seleção animal até responsabilidade com as pessoas e o meio ambiente.

muito trabalho e profissionalismo, valendo-se das várias tecnologias disponíveis, das ferramentas de aferição zootécnica às técnicas de reprodução assistida, sanidade e nutrição. Em um negócio crescente, alguns pouco criatórios já conseguem desovar centenas deles, todos controlados e com acompanhamento de pós-venda, de modo a garantir eficiência e a fidelização dos usuários. Esta é a empreitada do Nelore Grendene, com propriedade no Mato Grosso, responsável por gerar a oferta do “1.000 touros Nelore Grendene”, um dos leilões mais aguardados do ano, no seu gênero, realizado anualmente no segundo semestre. Trata-se de uma oportunidade singular para um mercado ávido.

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M elhoramento G enético

A origem A seleção do Nelore Grendene tem seu pontapé inicial na década de 80, quando Pedro Grendene adquire a Fazenda Guanabara, em Andradina (SP). Na base de fêmeas, produtos VR de Torres Homem Rodrigues da Cunha e José Carlos Prata Cunha. Ela recebeu reprodutores da linhagem Lemgruber e do Instituto de Zootecnia (IZ), produzindo progênies funcionais e produtivas, em ação considerada já de “vanguarda” para a época. Sempre combinando “ciência e talento humano”, em 2002 a grife aderiu ao Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore (PMGRN), atual Nelore Brasil, levado pela renomada Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP) e que pondera quase 30 características produtivas. Segundo relata o diretor de pecuária da Grendene, Ilson Correa, “a iniciativa foi importante para melhorar ainda mais os índices zootécnicos do rebanho e também orientações, no sentido de buscar mais efetivamente as características desejadas”. Soma-se às mensurações como peso na desmama, ao sobreano e perímetro escrotal, ainda avaliação morfológica que identifica características como estrutura corporal, precocidade e musculosidade, nos mesmos períodos.

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Estava pronta e ajustada a usina de touros, agora com a entrada no projeto da Fazenda Ressaca, em Cáceres (MT). O local é estratégico na distribuição de touros no principal celeiro pecuário do País, em termos de escala. “O trabalho está cercado por bons profissionais, da oferta de boas pastagens e nutrição, ao manejo, sanidade e pós venda dos animais; este último item de extrema importância, pois garante o melhor uso dos produtos Grendene e a satisfação dos clientes”, destaca Ilson.

Respondendo à cartilha E quem procura um reprodutor Grendene sabe que seus técnicos trabalham com uma cartilha orientando como escolhê-lo. Segundo Willian Koury Filho, da BrasilcomZ, “são exatamente essas questões que a seleção da marca procura responder em cada um dos seus animais”. Eles pregam que a aquisição de um touro deve ser planejada de modo que se possa obter o máximo de retorno do investimento. Antes de tudo o comprador precisa ter em mente os objetivos da própria seleção, isto é, ter conhecimento das características que precisa melhorar, segundo seus objetivos. A partir daí fica mais fácil identificar quais touros darão a resposta esperada.

Data também dessa época o início de um programa de multiplicação por meio de Fertilização in Vitro (FIV) e Transferência de Embriões (TE). A marca se via com extrema necessidade de acelerar processos e fixar de vez no rebanho grande habilidade materna, fertilidade, precocidade sexual e acabamento de carcaça. De lá para cá são mais de 1,5 mil prenhezes por ano, de 100 doadoras.

Eles devem portar exame andrológico positivo, item visto como obrigatório por parte de quem vende. Depois conhecer todas as Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) disponível, exatamente para identificar quais animais podem levar para o rebanho as características que se busca. Importante observar que o biótipo deles deve mostrar porte mediano, com amplitude toráxica, costelas profundas e volume muscular.

Em 2006 a seleção ganhou mais um reforço, via parceria com a BrasilcomZ, empresa especializada em melhoramento. “Seus indicadores ampliaram o suporte técnico e aceleraram as conquistas do rebanho”, reforça Ilson. No decorrer dos anos, a base de fêmeas do Nelore Grendene ainda recebeu matrizes das Fazendas Barreiro Rico, Colonial e todo o rebanho PO da CFM Agro-Pecuária. A ideia era também conferir expressão racial nos animais.

Para o trabalho de cobertura a campo, é indispensável que os reprodutores apresentem aprumos com posicionamento correto de membros, boa movimentação e ossatura. Também são importantes as características sexuais secundárias, tais como expressão de masculinidade. Deve-se observar se, na cabeça, o chanfro é curto, com goteira pronunciada, olhos e testa enrugados, pescoço forte, cupim desenvolvido em forma de castanha de caju e testículos bem desenvolvidos

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U sinando R eprodutores

de

V alor

já são automaticamente descartados. No sobreano ocorre a avaliação para seleção e segmentação dos produtos potencialmente candidatos a touro de central, repassadores, leilão, venda na fazenda ou corte.

e posicionados. Por fim, deve-se identificar o sistema de produção onde o animal foi criado. “Quanto maior a similaridade entre o ambiente de origem e o de destino, maior será a garantia de boa resposta do trabalho”, alerta Willian.

As etapas de seleção Da desmama ao momento da comercialização, os touros Grendene passam por diversos filtros de qualidade, considerando padrão racial, avaliações genéticas e biótipo funcional. Tudo isso visa garantir equilíbrio no trabalho dos reprodutores no plantel de destino. As etapas de avaliação e seleção em cada safra ocorrem na desmama, ao sobreano (SAM+) e pré-comercialização (sistema Epmuras). O Sistema de Avaliação Morfológica (SMA+) representa um padrão de qualidade na coleta de escores visuais com a finalidade de compor critérios fenotípicos de seleção, principalmente, para que sejam estimadas DEPs morfológicas. É um modelo desenvolvido pela BrasilcomZ e aprovado pela ANCP. No SAM+, além de coletar os escores visuais de Estrutura Corporal (E), Precocidade (P), Musculosidade (M) e Umbigo (U), são identificados e quantificados os defeitos morfológicos individuais e no rebanho. Na desmama, além de pesados, os bovinos são avaliados e ranqueados por índices conforme descrição. Nesta fase, animais menos desenvolvidos ou com defeitos

No relatório final do SAM+, os animais são ranqueados por peso, Índice da Prova de Eficiência Produtiva (IPEP), Mérito Genético Total (MGT) e Ranking Final. De acordo com o ranking eles são classificados por quartil em relação à safra, ou seja, 25% dos animais são considerados Elite, 25% Superiores, 25% Regulares e 25% como Inferiores.

Desempenho Em dez anos, o Nelore Grendene registrou uma série de ganhos, efeito direto do melhoramento genético promovido. Ganhou mais de 50kg na média da desmama. Seus números figuram bem acima da média dos criatórios integrantes do Nelore Brasil e até daqueles certificados G1 e G2, conferidos a rebanhos que atendem a uma série de exigência na coleta de informações e que efetivamente demonstram grande evolução produtiva. O destaque vai do Mérito Genético Total (MGT), peso na desmama (DP 210), ao ano (DP 365) e ao sobreano (DP 450). Dos machos selecionados para touros, a cebeceira, cerca de 350 cabeças, fica para trabalho na estação de monta da Ressaca e somente são comercializados no ano seguinte, quando seguem testados quanto ao seu desempenho sexual. O restante sai da fazenda aos 24 meses. O que foi descartado é engordado a campo com suplementação proteica e abatido com idade entre 22 e 24 meses, com peso variando de 17 a 18 arrobas. O confinamento próprio não serve com ferramenta de engorda, mas de preparação de touros, apenas.

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U sinando R eprodutores

V alor

As fêmeas produzem um bezerro ao ano e registram 85% de índice de prenhezes. Aos 18 meses são inseminadas pela primeira vez. Algumas contam com Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). Como o rebanho está em expansão, o aproveitamento das fêmeas é grande, extrapolando a reposição. A capacidade de criar bem os bezerros é critério de descarte.

e Amazônia. Esta proteção tem como objetivo a manutenção das regiões ribeirinhas. Em Cáceres, por exemplo, mais de 20 mil árvores nativas já foram plantadas em todas as áreas próximas o Rio Paraguai e demais nascentes. Esta é somente uma entre dezenas de ações, inclusive de cunho social, no município.

Valor agregado e sustentabilidade

Fazenda Ressaca

Ilson Correa, colaborador com mais de 30 anos de casa, é categórico ao reforçar que “os resultados do Nelore Grendene não são obtidos apenas pela lida com os números, mas pelas pessoas e preocupação com o ambiente que vivem”. Assim, valorização e bem-estar de equipe, seus animais e meio ambiente são condições “arraigadas” no dia a dia de todos os envolvidos, um time com mais de 150 profissionais, somente em Cáceres. Eles recebem formação e reciclagem em processo contínuo, por meio de cursos relacionados com o setor específico e diversos temas pertinentes, implicando em ganhos de produtividade e crescimento pessoal de cada um. Há várias equipes trabalhando do manejo ao andamento da produção, além do administrativo que cuida da rotina burocrática. Em cada um dos processos o bem-estar animal é ferramenta de produtividade. A prevenção de doenças, o respeito ao calendário sanitário, ações de higiene dentro do mangueiro e a própria infraestrutura antiestresse para o manejo, respeitam todas as condições necessárias para manter a qualidade de vida dos animais, do momento do nascimento à venda. Vale lembrar que a Ressaca possui 15 mil matrizes em reprodução e trabalha anualmente com cerca de 28 mil bovinos (4 mil fêmeas POs). A ideia é chegar a um rebanho com 20 mil matrizes. Outra preocupação relevante, segundo Ilson Correa, é com a questão florestal. As fazendas estão localizadas em meio aos principais biomas brasileiros que precisam ser preservados: Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal

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de

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Todos que visitam a histórica Fazenda Ressaca se impressionam com suas monumentais construções, retratando um momento da colonização do Centro-Oeste brasileiro. A propriedade está localizada ás margens do Rio Paraguai e foi fundada pelo espanhol Francisco Vilanova no fim do século XIX. Mais tarde, em sociedade com a família Torres, deu início a produção da Usina Ressaca.

Por possuir um excelente porto de embarque e desembarque para navios a vapor, sua usina foi responsável por estimular a economia local e fez parte do momento pré-industrial do País, iniciando em 1902 sua primeira produção de açúcar e aguardente. Tempos depois produziu mandioca e ainda fundiu bronze. Atualmente pertencente ao Grupo Grendene, área de 37 mil hectares (17 mil deles para pasto e 300 de lavoura de milho para silagem) que está estrategicamente localizada para a distribuição de seus touros – centro o Brasil. Conta com estrutura excepcional de pastagens (pastejo rotacionado, com Integração Lavoura Pecuária) e demais instalações, reunindo beleza, tradição e o melhor em tecnologia de vanguarda da bovinocultura de corte. sivelmente ativos e com produtos desmamados em 2015. Por outro lado, a comercialização de mais de 80 mil animais realizada de janeiro a dezembro deste mesmo ano apontou em R$6,16 o valor médio do kg de bezerro desmamado.


Bem-Estar Animal

Bem-estar animal e Sistemas de Produção de gado de corte Por Ivaris Júnior

Traduzido de normativas da Organização Mundial de Saúde (OIE)

S

istemas de produção de gado de corte são definidos como todos os sistemas comerciais de

Extensivos São sistemas nos quais o rebanho possui a liberda-

criação de bovinos destinado à produção de car-

de para movimentar-se ao ar livre e possui alguma

ne, no qual são realizadas algumas ou todas as

autonomia sobre a seleção de alimento (através de

seguintes etapas: o cruzamento, criação e termi-

pastagem), consumo de água e acesso ao abrigo.

nação do bovino destinado ao consumo de carne. A OIE entende que os sistemas de produção são classificados em:

Intensivos

Semi-intensivos São sistemas nos quais o rebanho está exposto a qualquer combinação de métodos de pecuária intensiva e extensiva, simultânea ou alternadamente,

São sistemas nos quais o rebanho está em confina-

de acordo com as mudanças das condições climáti-

mento, sendo totalmente dependente do homem

cas ou estado fisiológico do rebanho.

para suas necessidades básicas diárias, tais como

Também define os seguintes critérios mensuráveis

alimentos, abrigo e água.

para o bem-estar de gado de corte a partir de resul-


B em -E star A nimal

tados, especificamente aqueles mensuráveis no animal, que podem ser indicadores úteis de bem-estar animal. A utilização desses indicadores e os limites adequados devem ser adaptados às diferentes situações de manejo do gado de corte. Da mesma foram deve-se ter em conta o sistema de produção.

São eles: 1. Comportamento Certos comportamentos podem indicar problemas de bem-estar animal. Por exemplo: a diminuição da ingestão de alimentos, aumento da frequência respiratória ou respiração ofegante (avaliada pela condição corporal), e a demonstração de comportamento estereotipado, agressivo, depressivo ou outros comportamentos anormais. 2. Taxa de morbidade Taxas de morbidade, incluindo as relacionadas com: doenças, claudicação, complicações pós-procedimento, frequência de lesões, quando encontradas acima dos limites reconhecidos, podem ser indicadores diretos ou indiretos do estado de bem-estar animal de todo o rebanho. Compreender a etiologia da doença ou da síndrome é importante para detectar potenciais problemas de bem-estar animal. Sistemas de pontuação, tais como os graus de claudicação, podem fornecer informações adicionais. O exame post-mortem é útil para estabelecer as causas de morte em bovinos. A patologia clínica e exames post-mortem podem ser utilizados como indicadores de doença, lesões e outros problemas que podem comprometer o bem-estar animal. 3. Taxa de mortalidade As taxas de mortalidade, assim como as taxas de morbidade, podem ser indicadores diretos ou indiretos do estado de bem-estar animal. Dependendo do sistema de produção, as estimativas de taxas de mortalidade podem ser obtidas por meio da análise das causas de morte, bem como o padrão de frequência e a distribuição tempo-espacial da mortalidade. As taxas de mortalidade devem ser registradas regularmente, ou seja, diariamente, mensalmente, anualmente ou quando ocorrerem as principais atividades de manejo dentro do ciclo de produção.

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4. Alterações no peso e condição corporal Nos animais em crescimento, o ganho de peso pode ser um indicador da saúde e bem-estar animal. Má condição corporal e perda de peso significativa podem ser indicadores de que o bem-estar animal está comprometido.

5. Eficiência reprodutiva Eficiência reprodutiva pode ser um indicador do estado de saúde e bem-estar animal. Baixo desempenho reprodutivo pode indicar problemas de bem-estar animal. São exemplos de baixo desempenho reprodutivo: • anestro ou intervalo pós-parto prolongado, • baixas taxas de concepção, • altas taxas de aborto, • altas taxas de distocia.

6. Aspecto físico O aspecto físico pode ser um indicador da saúde e bem-estar animal, bem como das condições de manejo. Os atributos do aspecto físico que podem indicar o bem-estar comprometido incluem: • presença de ectoparasitas, • cor ou textura anormal na pelagem, ou sujeira excessiva com os excrementos, lama ou sujeira, • desidratação, • emagrecimento. 7. Respostas ao manejo O manejo incorreto pode resultar em medo e sofrimento em bovinos. Os indicadores para avaliar as respostas ao manejo podem incluir: • Velocidade de saída da manga do curral ao brete de contenção, • Tipo de comportamento na manga ou brete de contenção, • Percentagem de animais que escorregam ou caem, • Percentagem de animais deslocados com um aguilhão elétrico, • Percentagem de animais em feridos em cercas ou portões, • Percentagem de animais feridos durante o manejo (chifres e pernas quebrados e lacerações), • percentagem de animais vocalizam durante a contenção.


B em -E star

animal e sistemas de produção de gado de corte

8. Complicações devido a procedimentos de rotina de manejo Os procedimentos cirúrgicos e não-cirúrgicos são comumente realizados em gado de corte para melhorar o desempenho, facilitar o manejo, melhorar o bem-estar animal e a segurança humana, no entanto, o bem-estar animal pode ser comprometido se estes procedimentos não forem realizados corretamente. Indicadores de tais problemas podem incluir: • infecção e inchaço após o procedimento, • miíases, • mortalidade.

Recomendações: Cada recomendação apresentada contém uma lista de critérios relevantes e mensuráveis decorrentes. Tais critérios não excluem outras medidas consideradas adequadas.

Biossegurança e Saúde Animal a) Biossegurança e prevenção de doenças Biossegurança significa o conjunto de medidas destinadas a manter os animais em um estado de saúde particular e impedir a entrada ou propagação de agentes infecciosos no rebanho. Planos de biossegurança devem ser elaborados e implementados de acordo com o estado de saúde desejado e o risco de doenças existentes no rebanho. Com relação às doenças constantes na lista da OIE, os planos devem estar em conformidade com as recomendações pertinentes encontradas no Código Terrestre.

Os planos de biossegurança devem ter como finalidade o controle das principais fontes e vias de disseminação de patógenos: I. Bovinos II. Outros animais III. Pessoas IV. Equipamento V. Veículos VI. Ar VII. Abastecimento de água VIII. Alimentação

Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxa de morbidade, taxa de mortalidade, eficiência reprodutiva, alterações no peso e condição corporal. b) Gestão da saúde animal Entende-se por gestão da saúde animal o sistema projetado para otimizar a saúde física, comportamental e o bem-estar do rebanho bovino. Inclui a prevenção, tratamento, controle de doenças e transtornos que afetam o rebanho. Incluem também, quando apropriado, o registo de doenças, lesões, mortalidades e tratamentos médicos veterinários. Deve haver um programa eficaz para a prevenção e tratamento de doenças e transtornos diversos compatíveis com os programas estabelecidos por um veterinário qualificado, conforme seja apropriado. Os responsáveis pelo cuidado com o rebanho devem estar cientes dos sinais de problemas de saúde ou de estresse, tais como redução na ingestão de água e alimentos, alterações no peso e condição corporal, alterações no comportamento ou aspecto físico anormal. O rebanho com maior risco de doença ou estresse exigirá inspeção mais frequente pelos tratadores. Se os tratadores não forem capazes de corrigir as causas da doença ou o estresse, ou se suspeitarem da presença de doença de notificação obrigatória, deverão procurar orientação dos que têm formação e experiência, tais como veterinários ou outros profissionais qualificados.

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B em -E star A nimal

Vacinações e outros tratamentos administrados aos animais devem ser realizados por pessoas qualificadas nos procedimentos e com orientação veterinária ou de outro profissional capacitado. Tratadores de animais devem ter experiência em reconhecer e lidar com o rebanho que não pode se movimentar, bem como no tratamento de doenças e lesões crônicas. Bovinos com paralisia devem ter acesso à água em todos os momentos e a alimentação deve ser fornecida pelo menos uma vez ao dia. Eles não devem ser transportados ou movidos a menos que seja absolutamente necessário para o tratamento ou diagnóstico. Estas movimentações devem ser feitas com cuidado e usando métodos que evitem arrastá-los ou elevá-los excessivamente. Quando é realizado um tratamento e se considere improvável a recuperação do animal com paralisia que se nega a comer e beber, deverá ser feito o sacrifício humanitário. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxa de morbidade, a mortalidade, eficiência reprodutiva, comportamento, aspecto físico, e alterações de peso e condição corporal.

Aspectos Ambientais Ambiente térmico Embora o rebanho possa se adaptar a uma ampla gama de temperatura ambiental, particularmente se raças adequadas são utilizadas para as condições previstas, flutuações bruscas de temperatura podem causar estresse por calor ou frio. I. Estresse por calor O risco de estresse térmico para o rebanho é influenciado pelos fatores ambientais, incluindo: temperatura do ar, umidade relativa e velocidade do vento. Também é influenciado pelos fatores inerentes do animal, incluindo raça, idade, condição corporal, taxa metabólica, cor e densidade da pelagem. Tratadores de animais devem estar cientes do risco que o estresse por calor representa para os animais. Caso possa haver condições que induzam o estresse por calor, as atividades diárias de rotina que reque-

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rem a movimentação do rebanho devem cessar. Se o risco de estresse por calor atinge níveis muito elevados, os tratadores de animais devem instituir um plano emergência que poderia incluir a redução da densidade populacional, o fornecimento de sombra, livre acesso à água potável, e arrefecimento pelo uso de aspersão de água que penetre no pelo. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: comportamento, incluindo respiração ofegante e frequência respiratória, a taxa de morbidade, mortalidade. II. Estresse por frio Proteção contra condições climáticas extremas devem ser fornecidas quando estas condições são susceptíveis de criar um risco grave para o bem-estar dos animais especialmente em recém-nascidos e bovinos jovens, e outros que estejam fisiologicamente comprometidos. A proteção fornecida deverá ser proporcionada por estruturas de abrigo naturais ou construídas pelo homem. Tratadores de animais também devem assegurar que o rebanho tenha acesso a alimentação e água adequada durante o estresse causado pelo frio. Durante condições extremas de clima frio, tratadores de animais devem instituir um plano emergência para garantir ao rebanho abrigo, alimentação adequada e água. Os critérios mensuráveis baseados em resul-


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tados são: taxas de mortalidade, aspecto físico, comportamento, incluindo posturas anormais, tremores e amontoamento. luminação Para bovinos confinados, que não têm acesso à luz natural, deve ser fornecida iluminação suplementar seguindo a periodicidade natural suficiente para a sua saúde e bem-estar, a fim de facilitar os padrões de comportamento natural e permitir a inspeção adequada do rebanho. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: comportamento, morbidade, aspecto físico. Qualidade do ar A boa qualidade do ar é um fator importante para a saúde e o bem-estar do rebanho. Ela é afetada pelos constituintes atmosféricos, tais como: gases poeiras e microrganismos. É fortemente influenciada pelo manejo, particularmente em sistemas intensivos. A composição do ar é influenciada pela densidade da população, o tamanho do rebanho, qualidade do piso, cama, gestão de resíduos, projeto de construção e sistema de ventilação. A ventilação adequada é importante para efetiva dissipação do calor em bovinos e para prevenir o acúmulo de NH3 e gases efluentes na unidade de confinamento. Má qualidade do ar e ventilação são fatores de risco para doenças respiratórias e desconforto. O nível de amônia em recintos fechados não deve ex-

animal e sistemas de produção de gado de corte

ceder 25 ppm. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxa de morbilidade, comportamento, taxa de mortalidade, alterações no peso e condição corporal. Ruídos Bovinos são adaptáveis a diferentes níveis e tipos de ruído, no entanto, a exposição do rebanho a ruídos repentinos ou altos (estampidos, por exemplo) deve ser minimizada sempre que possível para evitar o estresse e reações de medo. Ventiladores, máquinas de alimentação ou outros equipamentos no interior ou exterior devem ser construídos, instalados, operados e mantidos de forma a causar o mínimo possível de ruído. O critério mensurável baseado em resultado é: comportamento. Nutrição As exigências nutricionais de gado de corte estão bem definidas. Conteúdo energético, proteína, minerais e vitaminas contidos na dieta são os principais fatores que determinam o crescimento, eficiência alimentar, eficiência reprodutiva e composição corporal. O rebanho deve ter acesso a quantidade e qualidade apropriada de alimentação balanceada, adaptada qualitativa e quantitativamente, e que atenda às suas necessidades fisiológicas. Onde o rebanho for mantido em condições extensivas, a exposição de curto prazo a extremos climáticos pode impedir o acesso à alimentação que atenda às suas necessidades fisiológicas diárias. Em tais circunstâncias, se o bem-estar está em risco de ser comprometido, o tratador de animais deve assegurar que o período de restrição alimentar não seja prolongado e que as estratégias de mitigação sejam implementadas. Tratadores de animais devem ter um conhecimento adequado da condição corporal apropriada para seu rebanho e não devem permitir que a condição corporal ultrapasse a faixa aceitável. Se a alimentação suplementar não estiver disponível, devem ser tomadas

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S anidade A nimal

medidas para evitar o jejum, incluindo o abate, venda, transferência do gado, ou o sacrifício. Alimentos e ingredientes para alimentação animal devem possuir qualidade satisfatória para atender suas necessidades nutricionais. Quando for apropriado, ingredientes alimentares e alimentos para animais devem ser testados para a presença de substâncias que teriam impacto adverso sobre a saúde animal. O rebanho em sistemas de produção intensivo normalmente consome dietas que contêm uma elevada proporção de grãos (milho, sorgo, cevada, subprodutos de grão) e uma menor proporção de volumoso (feno, palha, silagem, cascas, etc.). As dietas com volumoso insuficiente podem contribuir para o comportamento oral anormal em bovinos de terminação, tais como o excessivo movimento da língua. Na medida em que a quantidade de grãos na dieta aumenta, eleva-se também o risco relativo de problemas digestivos no gado. Tratadores de animais devem compreender o impacto do tamanho, da idade do gado, dos fatores climáticos, da composição da dieta e das mudanças dietéticas súbitas em relação a problemas digestivos, bem como suas conseqüências negativas (acidose, timpanismo, abscesso hepático, laminite). Quando for apropriado, os produtores de gado de corte devem consultar um nutricionista especializado para assessoramento sobre formulação de rações e programas de alimentação. Os produtores de gado de corte devem familiarizar-se com as deficiências potenciais ou excessos de micronutrientes para sistemas de produção intensiva e extensiva em suas respectivas áreas geográficas e, quando necessário, usar suplementos formulados adequadamente. Todo o rebanho precisa de fornecimento adequado e acesso à água palatável, que atenda às suas necessidades fisiológicas e que seja livre de contaminantes nocivos para sua saúde. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: as taxas de mortalidade, morbidade, comportamento, alterações no peso e condição corporal, eficiência reprodutiva.

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Piso, camas, superfícies de descanso e áreas ao ar livre Em todos os sistemas de produção de bovinos é necessário um lugar bem drenado e confortável para o descanso dos animais. Todos os bovinos em um grupo devem ter espaço suficiente para se deitarem e descansarem ao mesmo tempo. A gestão do piso do curral em sistemas intensivos de produção pode ter impacto significativo no bem-estar do animal. Áreas que não são adequadas para o descanso, tais como, as que apresentam água em excesso e acúmulo de fezes, não devem compreender toda a área útil disponível para o rebanho e também não devem ser de profundidade que possa comprometer o bem-estar animal. Os currais devem possuir declividade para permitir que a água escoe longe dos comedouros e não se acumule excessivamente. Currais devem ser limpos sempre que as condições o justifiquem e, no mínimo, uma vez após cada ciclo de produção. Se o bovino é mantido em um chão de ripas, a largura das ripas e os espaços entre elas devem ser adequados ao tamanho do casco para prevenir lesões. Sempre que possível, o bovino no piso ripado deve ter acesso a uma área com cama. Deve ser realizada a manutenção na cama de palha ou de outros sistemas de descanso para fornecer ao bovino lugar seco e confortável para deitar.


B em -E star

Superfícies de concreto devem ser sulcadas ou texturizadas de forma adequada para fornecer equilíbrio adequado para o animal. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: as taxas de morbidade (por exemplo, claudicação, úlceras de pressão), de comportamento, alterações no peso e condição corporal e aspecto físico. Ambiente social O manejo de bovinos deve considerar o ambiente social, no que se refere ao bem-estar animal, especialmente em sistemas intensivos.

animal e sistemas de produção de gado de corte

atenção a assédio e comportamento de sexualidade exacerbada. O tratador de animais deve compreender os riscos de aumento de disputas entre os animais, em particular depois de misturar grupos. O bovino que manifesta de comportamento de intimidação ou excessivo comportamento de monta deve ser separado do grupo. Bovinos com e sem chifres não devem ser misturados devido ao risco de acontecerem lesões. Cercas adequadas devem ser providenciadas para minimizar quaisquer problemas de bem-estar animal que pos-

Os aspectos que resultam em problemas incluem: sexualidade exacerbada, comportamento de intimidação, mistura de novilhas e novilhos, alimentação de animais de diferentes tamanhos e idades nos mesmos currais, alta densidade dada população, espaço insuficiente nos comedouros, o acesso insuficiente à água e mistura de touros. O manejo de bovinos em todos os sistemas deve le-

sam ser causados pela mistura inadequada de grupos

var em conta as interações sociais dentro dos grupos.

Densidade populacional

de bovinos. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: comportamento, aspecto físico, alterações no peso e condição corporal, taxas de morbidade e mortalidade.

Densidades populacionais elevadas podem aumenO tratador dos animais deve compreender a hierar-

tar a ocorrência de lesões e causar efeito adverso so-

quia de dominação que se desenvolvem dentro de

bre a taxa de crescimento, eficiência alimentar e no

diferentes grupos e se concentrar em animais de alto

comportamento. Alterações no comportamento po-

risco, tais como os muito jovens, muito velhos, pe-

dem estar relacionadas com a locomoção, repouso,

quenos ou grandes em relação ao grupo, prestando

alimentação e ingestão de água.

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S anidade A nimal

A densidade populacional deve ser gerida de tal forma que a aglomeração não afete negativamente o comportamento normal do rebanho. Isto inclui a capacidade de se deitar livremente, sem o risco de lesões, mover-se livremente ao redor do curral e ter acesso à alimentação e água.

b) Manejo reprodutivo A distócia pode ser um risco de bem-estar para o gado de corte. Novilhas não devem ser emprenhadas antes que estejam suficientemente maduras fisicamente de forma a garantir a saúde e o bem-estar das parturientes e do bezerro ao nascer.

A densidade populacional também deve ser gerida de tal forma que o ganho de peso e a duração do tempo de descanso, não sejam afetados negativamente pela aglomeração. Se o comportamento anormal é observado, devem ser tomadas medidas corretivas, tais como, a redução de densidade populacional.

O reprodutor exerce um efeito altamente transmissível em relação tamanho final do bezerro e, como tal, pode ter um impacto significativo sobre a facilidade de parto. A escolha de touros deve, por conseguinte, levar em conta a maturidade e o tamanho da fêmea. Novilhas e vacas não devem receber embriões, serem inseminadas ou cruzadas de tal maneira que os resultados da progênie aumentem o risco de bem-estar da parturiente e do bezerro.

Em sistemas extensivos a densidade populacional deve ser ajustada de acordo com a disponibilidade de alimentação. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: comportamento, taxa de morbidade, mortalidade, alterações no peso, condição corporal e aspecto físico. i) Proteção contra predadores O rebanho deve ser protegido tanto quanto possível dos predadores. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxa de mortalidade, morbidade (taxa de lesões), o comportamento, aspecto físico.

Manejo a) Seleção genética Além da produtividade, aspectos de bem-estar animal e saúde devem ser levados em conta ao escolher uma raça ou subespécies para um local ou sistema de produção específico. Exemplos destes aspectos incluem a manutenção da exigência nutricional, resistência a ectoparasitas e tolerância ao calor. Animais pertencentes a uma raça podem ser geneticamente selecionados para obtenção de progenie que apresente características benéficas para a saúde animal e o bem-estar, tais como, instinto maternal, facilidade de parto, peso ao nascer, capacidade de amamentar, conformação corporal e temperamento. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxa de morbidade, a mortalidade, comportamento, aspecto físico, eficiência reprodutiva.

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Vacas e novilhas devem ser acompanhadas durante a prenhez, de modo a não se tornarem nem muito gordas nem muito magras. O ganho de peso excessivo aumenta o risco de distócia, e tanto o ganho quanto a perda de peso aumentam o risco de doenças metabólicas ao final da prenhez ou após o parto. Sempre que possível, vacas e novilhas devem ser monitoradas quando estão próximas do parto. Vacas que forem observadas como tendo dificuldade no parto devem ser assistidas por um tratador competente o mais rápido possível assim que os sinais forem detectados. Os critérios mensuráveis baseados


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em resultados são: taxa de morbidade (taxa de distócia), taxa de mortalidade (vaca e bezerro), eficiência reprodutiva. c) Colostro Imunidade conferida pelo colostro geralmente depende de o quanto antes o bezerro o recebe, bem como da qualidade e do volume ingeridos. Os tratadores de animais devem, sempre que possível, garantir que os bezerros recebam colostro suficiente dentro de 24 horas após o nascimento. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxa de mortalidade, morbidade, alterações no peso. d) Desmama Para fins deste capítulo, o desmame significa a fase da vida do bezerro na qual há mudança da fase de dieta láctea para dieta fibrosa. No sistema de produção de gado de corte o desmame é um período estressante na vida do animal. Bezerros devem ser desmamados apenas quando seu trato digestório apresenta desenvolvimento suficiente para manter seu crescimento e bem-estar.

animal e sistemas de produção de gado de corte

de eficiência produtiva, saúde, bem-estar animal e segurança ao homem. Esses procedimentos devem ser realizados de modo a causar o mínimo de dor e estresse ao animal. Tais procedimentos devem ser praticados o mais cedo possível ou fazer uso de anestesia ou analgesia sob a recomendação ou supervisão do médico veterinário. Opções que podem melhorar o bem-estar do animal no futuro em relação aos procedimentos são: suspensão do procedimento e revisão da necessidade de tais atos por meio de novas estratégias de manejo; melhoramento genético que resulte em animais que dispensem esses procedimentos; substituição dos procedimentos atuais por uma alterativa não cirúrgica que aumente o bem-estar.

Existem várias estratégias de desmames utilizadas no sistema de produção de gado de corte. São elas: separação brusca da mãe, separação por meio de cerca e uso de aparelho no focinho para desencorajar a sucção do leite. Cuidados especiais devem ser adotados se a separação brusca da mãe for seguida por situações adicionais de estresse como o transporte, pois os bezerros estão mais suscetíveis a doenças nessa fase. Se necessário, os criadores devem buscar aconselhamento técnico sobre a época mais apropriada e o método de desmama para seu tipo de rebanho e sistema de produção. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxas de morbidade e mortalidade, comportamento, aspecto físico, alterações no peso e condição corporal. e) Práticas de manejo dolorosas Práticas de manejo que têm potencial de causar dor são rotineiramente praticadas no bovino por razões

São exemplos de práticas dolorosas: castração, descorna, esterilização (ovariectomia), corte de cauda e identificação. I. Castração A castração em gado de corte é realizada em vários sistemas de produção para reduzir agressão entre animais, aumentar a segurança do homem, evitar o risco de prenhez não planejada no rebanho e aumentar a eficiência produtiva. Quando for necessário realizar castração, os produtores devem procurar

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assessoramento veterinário para escolher o melhor método e a época mais adequada considerando o sistema de produção e a raça do animal. Os métodos de castração utilizados em gado de corte incluem remoção cirúrgica dos testículos, métodos que produzem isquemia e destruição do cordão espermático. Quando for possível, os bezerros devem ser castrados antes dos três meses de idade, ou na primeira oportunidade que surgir após essa idade usando métodos que causem a menor dor ou sofrimento ao animal. Produtores devem procurar aconselhamento veterinário sobre uso da analgesia ou anestesia em bovinos de corte, sobretudo para animais mais velhos. Os operadores da castração devem ser treinados no procedimento utilizado. Além disso, devem ser capazes de reconhecer sinais de complicações. II. Descorna (e eliminação do botão germinal) Gado de corte geralmente é descornado com o objetivo de reduzir acidentes que causam uns aos outros, lesões no couro, aumentar a segurança do homem,

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diminuir danos às instalações e para facilitar o manejo e o transporte. Quando for conveniente e apropriado ao sistema de produção, a seleção de bovino mocho é preferível. Quando a descorna for necessária, os produtores devem buscar assessoramento veterinário para utilizar o método mais adequado e saber qual é o melhor método e momento para seu tipo de animal e sistema de produção. Quando conveniente, a descorna deve ser realizada na fase inicial do desenvolvimento dos chifres (botão germinativo) ou na primeira oportunidade de manejo após essa fase. A intervenção desta forma implica em menor trauma aos tecidos porque o desenvolvimento dos chifres está em sua fase inicial e ainda não estão com sua base inserida no crânio. Métodos de descorna na fase inicial incluem remoção do botão germinal com uma faca, cauterização térmica do botão ou aplicação de cauterização química. Métodos de descorna após a fase inicial, em idade mais avançada, implica na remoção dos chifres com uso de serra para cortar a inserção do chifre na base do crânio. Os produtores devem procurar assessora-


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mento veterinário sobre a disponibilidade e conveniência de aplicar analgesia ou anestesia para a descorna dos animais, principalmente nos mais velhos, quando o chifre está mais desenvolvido. Os operadores encarregados da descorna devem receber formação, demonstrar sua competência no procedimento utilizado e ser capazes de reconhecer sinais de complicações. III. Esterilização (ovariectomia) A esterilização de novilhas é utilizada para evitar gestações não desejadas em condições de pastejo extensivo. O veterinário ou operador bem treinado deve realizar a esterilização cirúrgica. Os produtores devem buscar assessoramento veterinário sobre aplicação de analgesia ou anestesia para a esterilização de novilhas. O uso de analgésicos ou anestésicos deve ser encorajado. IV. Caudectomia A caudectomia no gado de corte é realizada para prevenir necrose da ponta de cauda nas operações de confinamento. Estudos realizados mostram que maior espaço por animal com uso de cama adequada são eficazes para prevenir a necrose. Portanto, a caudectomia desses animais não é recomendada.

animal e sistemas de produção de gado de corte

f) Manejo e inspeção Bovinos de corte devem ser inspecionados em intervalos apropriados, de acordo com o sistema de produção e os riscos para a saúde animal e bem-estar. Em sistemas intensivos, os animais devem ser inspecionados pelo menos uma vez ao dia. A inspeção com maior frequência pode ser benéfica às seguintes categorias: bezerros recém-nascidos, vacas em terço final de gestação, bezerros recém-desmamados, e animais submetidos a estresse ambiental ou procedimentos dolorosos e no pós-cirúrgico. Os tratadores devem ser capazes de reconhecer sinais clínicos de saúde, doença e bem-estar. Além disso, devem ser em número suficiente ao tamanho do rebanho que cuidam para garantir a saúde e o bem-estar animal. Os bovinos que estiverem doentes ou machucados deverão receber tratamento apropriado na primeira oportunidade por tratadores capacitados. Se forem incapazes de proporcionar o tratamento adequado, deverá ser procurado auxílio veterinário. Caso o animal tenha mal prognóstico com pouca

V. Identificação Do ponto de vista do bem-estar animal, marcação com brinco ou cortes na orelha, tatuagem, marcação com nitrogênio ou microchips são os métodos recomendados para marcação de gado de corte. Entretanto, em algumas situações, a marcação com ferro quente pode ser o único método de identificação prático de ser utilizado. Este método, se não puder ser evitado, deve ser realizado por operador experiente, de forma rápida e com utilização de equipamento apropriado. Os sistemas de identificação devem estar de acordo com as normas internacionais. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: taxas de complicações pós-procedimento, taxa de morbidade, comportamento, aspecto físico, alterações de peso e condição corporal.

chance de recuperação, o sacrifício humanitário deverá ser realizado o mais breve possível. Quando o gado de corte de criação extensiva é arrebanhado para as instalações, ele deve ser conduzido tranquilidade e com calma respeitando o passo do animal mais lento. Condições climáticas devem ser levadas em consideração e os animais não devem se arreba-

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nhados em situações climáticas extremas de frio ou calor. Não se deve levar os animais aos limites de sofrimento. Em situações na qual o agrupamento e manejo de animais leve a situações estressantes, devem ser evitados procedimentos múltiplos, de maneira que os procedimentos necessários sejam executados em uma sequência única. Quando o manejo não implica em situações de estresse, os procedimentos devem ser realizados por etapas para evitar o acúmulo de estresse advindos da aplicação de múltiplos procedimentos.

a comprometer o bem-estar de seus animais. Estes planos devem conter dispositivos de alarme que informem as falhas para detectar disfunções, geradores elétricos de segurança, acesso a serviços de manutenção, capacidade de armazenamento de água nas instalações, recursos de entrega de água em domicílio, armazenamento adequado de alimentos na propriedade ou substituição alternativa de alimentos. Planos de emergência devem ser implementados para minimizar e mitigar os efeitos de desastres naturais ou condições climáticas extremas, tais como, calor excessivo, seca, vendavais, incêndios e enchentes.

Cães bem treinados podem ajudar no agrupamento dos bovinos. O rebanho se adapta bem a diferentes entornos visuais. Entretanto, a exposição a movimentos súbitos, persistentes ou contrastes visuais deve ser minimizada, na medida do possível, para evitar estresse e reação de medo. A eletroimobilização não deve ser utilizada. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: resposta ao manejo, taxas de morbidade e mortalidade, comportamento, eficiência reprodutiva, alterações no peso e condição corporal. g) Formação/treinamento de pessoal Todos os responsáveis pelo rebanho devem ter a capacitação necessária de acordo com suas responsabilidades. Também devem possuir conhecimentos sobre criação de bovinos, comportamento animal, biossegurança, sinais clínicos de doenças. Devem ainda estar familiarizados com os indicadores de ausência de bem-estar dos animais, tais como estresse, dor, desconforto e sobre a forma de como aliviá-los. A capacitação pode ser adquirida por meio de educação formal ou experiência prática. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: resposta ao manejo, taxas de morbidade e mortalidade, comportamento, eficiência reprodutiva, alterações de peso e condição corporal. h) Planos de emergência Os produtores de bovinos de corte devem ter planos de emergência para cobrir eventuais falhas no abastecimento de energia, água e alimento que venham

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O sacrifício humanitário de animais doentes ou feridos deve fazer parte do plano de emergência. Em períodos de seca, as decisões quanto ao manejo do rebanho devem ser tomadas o mais cedo possível, contemplando inclusive a possibilidade da redução do número de animais. Os planos de emergência também devem abranger a gestão das instalações em caso de foco de doenças, consistente com programas sanitários nacionais e com as recomendações dos serviços veterinários, conforme o caso.


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i) Localização, construção e equipamento Propriedades com bovinos de corte devem possuir localização geográfica apropriada que beneficie a saúde, bem-estar e produtividade dos animais. Todas as instalações devem ser construídas, mantidas e operadas para minimizar os riscos ao bem-estar dos animais. Equipamentos para manejo e contenção de bovinos de corte só devem ser usados de modo que minimizem os riscos de lesões, dor ou sofrimento. Os animais mantidos em sistemas intensivos ou extensivos de produção devem ter espaço suficiente para satisfazer suas necessidades de conforto e socialização. Os animais que são mantidos amarrados devem mantidos de tal forma que consigam deitar-se e, se amarrado ao ar livre, ser capaz de virar-se e andar. Em sistemas de produção intensivos, os comedouros devem ser amplos o suficiente para que os animais tenham acesso adequado aos alimentos. Também devem ser limpos e livres de alimentos estragados, aze-

animal e sistemas de produção de gado de corte

dos, não-palatáveis ou mofados. Os animais devem ter acesso livre à água a qualquer momento. O piso das instalações onde os animais são alojados, deve ser drenado adequadamente. Estábulos, mangas e bretes de contenção devem proporcionar tração para impedir que o gado se lesione. Currais, bretes e mangas devem ser livres de bordas cortantes ou protrusões, para evitar que os animais se lesionem. Corredores e pontes devem ser projetados e operados de modo a não impedir o movimento dos animais. Superfícies escorregadias devem ser evitadas. Concreto sulcado, treliça de arame sem pontas, piso de borracha ou areia fofa podem ser utilizadas para evitar escorregões e quedas. O manejo tranquilo é fundamental para minimizar os escorregões. Quando pontes são operadas o barulho deverá ser minimizado, pois podem causar estresse aos animais. O equipamento de contenção hidráulico, pneumático ou manual deve ser ajustado ao tamanho dos animais a serem arrebanhados. Os equipamentos hidráulicos e pneumáticos devem ter dispositivos que limitam a pressão a ser exercida para prevenir lesões. A manutenção e limpeza periódica dos componentes são necessários para assegurar o bom funcionamento dos sistemas e a segurança para o animal. Aparelhagens mecânicas ou manuais nas instalações devem oferecer segurança para os animais. Quando houver instalações para banhos de imersão contra ectoparasitas, elas deverão ser desenhadas e operadas dede modo a minimizar o risco de lotação elevada, prevenindo lesões e afogamentos. O carregamento de bovinos nas propriedades deve ser conduzido de acordo com o já disposto. Os critérios mensuráveis baseados em resultados são: resposta ao manejo, taxas de morbidade de mortalidade, comportamento, alterações no peso e condição corporal, aspecto físico e claudicação.

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j) Sacrifício humanitário Para animais doentes ou feridos, deve ser feito um diagnóstico rápido para determinar se o animal deve ser sacrificado de forma humanitária ou receber um tratamento adicional. A decisão sobre o procedimento de sacrifício humanitário deve ser tomada por profissional capacitado. As razões para o sacrifício humanitário podem ser: I. Emaciação severa, animal com debilidade e incapaz de se deslocar ou com risco de não se levantar; II. Bovino incapaz de se deslocar, que não pode se levantar, que se recusa beber ou comer e que não tenha respondido ao tratamento administrado; III. Deterioração rápida da condição de saúde para qual terapias não foram bem-sucedidas; IV. Dor severa ou debilitante; V. Fratura exposta; VI. Lesão na medula espinhal; VII. Doenças do sistema nervoso central; VIII. Infecções articulares múltiplas com perda de peso crônica.

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animal e sistemas de produção de gado de corte

Tradução Livre do Capítulo versão inglês, disponível em: <http://www.oie.int/index.php?id=169&L=0&htmfile=chapitre_aw_beef_catthe.htm> Tradutoras: Liz Gonçalves Rodrigues¹; Sonia Luisa Lages1 e Helia Lemos da Silva 2 1. M édica Veterinária, Fiscal Federal Agropecuário, integrante da CTBEA/MAPA representantes SFA/AL 2. M édica Veterinária, Fiscal Federal Agropecuário, DSA/ MAPA, colaboradora OIE Regional das Américas. Comissão de Bem-estar animal O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é responsável pelo fomento de ações para promoção do bem-estar animal por meio da Secretaria de Mobilidade Social, do Produtor Rural e Cooperativismo (SMC). Para tanto foi formalizada uma comissão para cuidar especialmente das questões relativas a esse tema, que é a Comissão Técnica Permanente de Bem-Estar Animal – CTBEA (criada pela Portaria nº 185, de 2008). Esta comissão é multidisciplinar, constituída por servidores do MAPA que atuam em diversas áreas, como inspeção de produtos de origem animal, vigilância agropecuária, relações internacionais, saúde animal, câmaras setoriais, entre outras. O grupo conta com o apoio de diversos parceiros, entidades públicas e privadas, para fomento das ações e práticas de bem-estar animal no Brasil. Dentre as atribuições da CTBEA estão a divulgação e a proposição de boas práticas de manejo, o alinhamento da legislação brasileira com os avanços científicos e os critérios estabelecidos pelos acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, bem como preparar e estimular o setor agropecuário brasileiro para o atendimento às novas exigências da sociedade brasileira e consumidores dos mercados importadores.


Ambiente Por Ivaris Júnior

Gestão ambiental e pecuária sustentável Não adianta propôr tecnologias vistas como sustentáveis que, na verdade, dependem de recursos não renováveis.

A

ntes de falar em gestão ambiental, um gerenciamento que permita extrair da natureza seus

com argumentos, resistir ao inimigo, contornar as

recursos dando-lhe as devidas condições de repo-

conservar, ser capaz de se manter estável por longo

sição e tempo para que ela se mantenha uma alia-

do tempo, enfim, pelejar. Então quando se pensa

da, é preciso entender a definição da palavra “sus-

em uma atividade realmente sustentável, com cres-

tentável”. Óbvio que primeiro o homem falou em

cimento econômico satisfatório e mínimo impacto

ecologia, em preservação do meio ambiente para

ambiental e social, sua complexidade aumenta em

depois entender que a natureza e seus recursos são

muito.

dificuldades, sobreviver, animar, impedir a ruína,

fundamentais para que as atividades perdurem ao longo de sucessivas gerações.

Segundo o engenheiro agrônomo Alexandre Carvalho, “não adianta propor tecnologias ditas sus-

Após pesquisas simples em fontes confiáveis em

tentáveis que, na verdade, dependem de recursos

dicionários e até na internet conclui-se que susten-

não renováveis”. Nesse contexto, por exemplo na

tar significa impedir que caia, alimentar, defender

bovinocultura, vale a pena ressaltar a insustentabi-


A mbiente

lidade quando a exploração ocorre pelo uso intensivo de pastagens que dependem de fertilizantes nitrogenados derivados do petróleo. Segundo o técnico, profissional da Visão Consultoria, a “verdadeira sustentabilidade deve estar apoiada em quatro aspectos que, em hipótese alguma podem ser omitidos: econômico, social, ambiental e tecnológico.

O consultor entende que para não mascarar os resultados econômicos é preciso definitivamente, adotar uma metodologia específica de avaliação econômica e financeira. No momento de se efetuar essa análise do Agronegócio não se deve misturar os dois negócios completamente distintos: negócio imobiliário e negócios produtivos (agricultura, bovinocultura de corte, bovinocultura de leite, máquinas e implementos etc.). Segundo o agrônomo “ao se fazer essa separação é possível verificar o desempenho do empresário rural como investidor e como produtor. Mediante essa separação, ficam evidenciadas várias dúvidas, como por exemplo:

ASPECTO ECONÔMICO Passando rapidamente, para Carvalho “não adianta sonhar com preços da arroba sempre remunerador e lucrativo. É preciso encarar a realidade de que a produção do boi gordo é só um entre dezenas de fatores que constroem o mercado da carne bovina e focar a redução dos custos de produção. Ao invés de adotar uma tecnologia de produtos é fundamental focar na tecnologia de processos” (procedimentos que irão reduzir a utilização de insumos e aumentar a lucratividade).

• As vantagens ou desvantagens da terceirização de máquinas e implementos; • Se é melhor alugar os pastos para terceiros ou para o rebanho próprio; • Se é melhor intensificar ou agregar valor ao rebanho e a ambiência das pastagens; etc. A primeira consideração a se fazer é que, realmente, adotar um sistema pecuário extensivo (máximo 1 UA/ ha), principalmente em terras caras e nobres, gerarão uma menor lucratividade para o negócio produtivo, pois o aluguel de pasto nessas regiões tem preços elevados. Por outro lado, adotar um sistema intensivo com suportes mais elevados (acima de 2 UA/ha) implica em aumentar a produtividade, o que não quer dizer que a lucratividade será aumentada na mesma proporção pois, certamente, os custos totais irão aumentar expressivamente com as adubações pesadas e com mais animais pagando um aluguel de pasto caro. Isso, porém, é bom para o negócio imobiliário que irá aumentar a sua receita mensal. Carvalho reforça que “fazendo-se a análise do negócio produtivo separado do imobiliário, o pecuarista verá que sistemas intermediários (1,4 a 2 UA/ha) são mais rentáveis do que sistemas extensivos (extrativistas) e mais do que o intensivo (tecnologia de produtos).

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G estão

É importante deixar claro que nesses sistemas intermediários, a critério do técnico, poderão ser utilizados o calcário e fontes de fósforo parcialmente solúveis, em momentos oportunos.

ambiental e pecuária sustentável

com um equívoco, pois esse acréscimo se dá às custas de menores rentabilidades e lucratividades, devido os maiores custos de produção”.

Mas sempre lembrando que a prioridade é fechar os espaços vazios entre as touceiras de capim e aprofundar as raízes das forrageiras, aproveitando-se melhor o perfil do solo e nutrientes já existentes na propriedade, porém subutilizados”. Outro ponto importante é que nesse sistema intermediário (caminho entre o convencional e o orgânico), no momento oportuno, a propriedade poderá ser convertida por uma certificadora como “sistema orgânico”. Esse mercado de orgânicos ainda é insipiente, porém é crescente, principalmente na Europa.

ASPECTO SOCIAL Qualquer atividade que não tenha uma preocupação com os aspectos sociais está fadada ao fracasso. No caso específico da bovinocultura de corte, apesar da mão de obra estar entre os três maiores custos de produção, disputando com aluguel de pasto e suplementação mineral, ela não pode ser encarada como o vilão dessa história. Os salários devem ser dignos e a equipe de campo precisa participar da lucratividade da empresa rural.

Os preços da arroba de animais orgânicos são mais atrativos. Já no sistema intensivo das pastagens, esse mercado orgânico (tendência inevitável do mercado no futuro) jamais poderá ser explorado, já que em sistemas orgânicos, não se admite suporte acima de 2 UA/ha, adubos nitrogenados, herbicidas, hormônios, vermífugos injetáveis e outros insumos agressivos ao meio ambiente a ao consumidor da carne bovina. O consultor alerta que “toda que vez que se intensifica um sistema com argumento de que haverá aumento da receita mensal para o produtor, nos deparamos

Carvalho entende que os pecuaristas deveriam apoiar e pressionar o aumento do salário mínimo, pois o preço da arroba do boi gordo está diretamente relacionado ao valor do salário mínimo já que, cerca de 88% de nossa produção é destinada ao mercado interno. Portanto, essa atitude por parte dos pecuaristas resultará em impactos positivos na lucratividade e rentabilidade da pecuária, mesmo que isso possa aumentar os custos totais da arroba. A pecuária é uma atividade cujo aumento no custo da mão-de-obra é altamente recompensado pelo benefício do aumento da receita, provocada pelo aumento no consumo de carne. É preciso melhorar a qualidade de vida no campo, investir na educação ambiental e formação das crianças no meio rural. Capacitar a mão de obra, reduzir a

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A mbiente

rotatividade de vaqueiros na propriedade e conter o fluxo migratório para as cidades. Apesar da bovinocultura de corte não empregar tanta mão de obra, a quantidade de propriedades, reunidas no Brasil que

resgate da ambiência (arborização) e pela disponibilidade de alimento alternativo (folhas de arbustos recém-rebrotados) para a estiagem. Os lucros compensarão essa maior mão-de-obra.

adotam essa modalidade do agronegócio, geram tanto emprego quanto as atividades industriais nos centros urbanos. Nesse contexto, o consultor da Visão afirma que é preciso adotar técnicas que necessitem de trabalhos braçais e que irão gerar empregos no campo como as roçadas de pasto.

ASPECTO AMBIENTAL Segundo nosso articulista, “são adianta pensar no social se o ambiental não estiver bem incorporado no conceito teórico e principalmente, na prática. Quando se fala em ecologia, muitos técnicos e pecuaristas pensam que isso é coisa de poeta ou de ‘ecochatos’. Na verdade, ecologia tem tudo a ver com economia. São intrínsecos. Segundo o Economista PhD Charles Mueller, da Escola Neoclássica (economia da sobrevivência), tudo que é ecológico, também é econômico. E tudo que é econômico, é ecológico. São intrínsecos”. A questão é que essas roçadas devem ser realizadas no início da seca para garantir a brotação tenra e induzir o ramoneio do rebanho durante o período de escassez de forragem, minimizando a utilização de sais proteinados, reduzindo custo de produção da arroba. A utilização abusiva de herbicidas ou arranquio com o enxadão da vegetação reincidente, com o tempo, irá alijar essa importante mão de obra no campo.

Portanto, quando o pecuarista adota um procedimento que tem âmbito ecológico, pode estar certo de que ele está no caminho lucrativo e sustentável. É por isso que as tecnologias de processos são tão respeitadas, pois além de minimizar a entrada de insumos na atividade (redução de custos), também existe uma preocupação ecológica e social. Alguns técnicos afirmam que o uso intensivo das pastagens é ecológico, pois impedem o desmatamento das florestas, já que ocorrerá maior exploração das pastagens em regiões nobres.

É preciso aumentar a mão-de-obra no campo adotando-se as podas laterais (foice na vertical) da vegetação espontânea com porte arbóreo e o raleamento (foice na horizontal) da vegetação de porte arbustivo. Esse aumento da mão-de-obra é compensado pelo

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Mas para Carvalho, “essa afirmação é totalmente equivocada, pois o desmatamento da Amazônia e do cerrado, infelizmente, irão continuar de uma forma desordenada, seja nas centenas de assentamentos


G estão

ambiental e pecuária sustentável

já realizados e naqueles em andamento, seja pelos

do caminhamento do sol é Leste-Oeste. Essas faixas

pecuaristas que já pagaram pela terra e vão querer

arbóreas nas regiões de mata garantirão pastagens

explorá-la ao máximo permitido pela lei. Esse desma-

mais verdes e nutritivas durante o período de estia-

tamento desenfreado nas terras distantes e baratas

gem. Nessa técnica, dispensa-se o enleiramento e a

irá ocorrer independentemente do pacote tecnológi-

gradagem, os quais geram um grande impacto am-

co adotado nas regiões de terras mais nobres e caras”.

biental que é a diluição da fertilidade nos primeiros 10 cm superficiais, onde se encontram-se mais de 80% das raízes das forrageiras.

Ele entende que “na verdade é preciso conscientizar os pecuaristas de que é mais econômico produzir em

Caso contrário, alerta o agrônomo, com a eliminação

harmonia com o meio ambiente e que é possível for-

da vegetação espontânea (plantas nativas remanes-

mar o cerrado (em um prazo de 90 dias) sem desma-

centes e reincidentes), a reposição de nutrientes ex-

tá-lo. Já no cerradão é econômico e ecológico, formá-

portados, via venda de animais, terá que ser imediata

-lo apenas raleando algumas árvores com o trator de

e mais intensa pois, não contará com a presença das

esteira, gradeando no máximo a 10 cm de profundi-

árvores nativas, as quais têm facilidade de extrair nu-

dade para não diluir a fertilidade no local.

trientes contidos na terra.

A brotação que irá aparecer após o desmatamento

Nutrientes estes que não aparecem disponíveis na

será importantíssima para garantir o ramoneio (hábi-

análise laboratorial de solo.

to de pastar ramos) do rebanho durante o período de estiagem.

Essas árvores, mediante a reciclagem de nutrientes (folhas mortas caídas no chão), além de adiarem a uti-

No caso da mata, é possível formá-la deixando-se fai-

lização de insumos (fertilizantes), também poderão

xas Norte -Sul que irão quebrar os ventos predomi-

promover conforto térmico para os animais, contro-

nantes do Leste. Além do mais, essas faixas irão som-

le de cigarrinhas, contenção dos ventos e garantir a

brear parcialmente as pastagens, já que o sentido

qualidade da forragem para o período mais crítico do

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G estão

ambiental e pecuária sustentável

ano, já que, segundo Gardner A. L., 1986, o processo de lignificação (endurecimento) dos capins diminui com a menor insolação e a menor temperatura ambiente nos locais parcialmente sombreados. A temperatura é outro fator limitante, mais do que a idade fisiológica da planta. Em resumo: um pasto arborizado que foi vedado por 120 dias, ficará mais tenro do que um pasto sem árvores vedado por apenas 60 dias.

ASPECTO TECNOLÓGICO Quando se fala em aspecto tecnológico, a primeira

Há fotos e depoimentos de pecuaristas que confir-

conclusão óbvia é que se deve adotar técnicas so-

mam essa afirmação. Já o sistema intensivo (adu-

fisticadas. Esse é o primeiro equívoco, pois como já

bações pesadas) é insustentável, pois sugere que

dizia o falecido jornalista econômico Joelmir Beting,

todas as árvores sejam retiradas das pastagens e

“Modernizar não é sofisticar. Modernizar é simpli-

utilizam áreas de lazer, concentrando os dejetos bovinos ao redor dos saleiros fixos. É por essas propostas irresponsáveis que as bacias que captam as águas das chuvas estão totalmente

ficar”. Diante dessa constatação lógica e racional, o agrônomo afirma que se “torna imperativo adotar tecnologias simplificadas que visem lucratividade em detrimento da produtividade.

desprovidas de árvores e é por isso que o ciclo da água não está se completando e todos nós esta-

A bovinocultura nacional, para que ela se possa sus-

mos penalizados economicamente pela falta de

tentar no tempo e no espaço, não precisa de prote-

chuvas. Nesse contexto, acredita Carvalho, “é im-

cionismos e nem de tecnologias sofisticadas. Precisa

portante frisar que o sistema intensivo das pas-

sim, de uma tecnologia que seja realmente susten-

tagens é completamente antiecológico, não por contaminar o lençol freático com as pesadas adubações nitrogenadas. Realmente, os solos profundos presentes no Brasil

tável e que não seja refém de insumos derivados de petróleo, como os adubos nitrogenados. Isso com certeza seria insustentável. É preciso uma tecnologia que harmonize: solo, planta e animal”.

central (pastagens tropicais) não têm problemas com contaminação dos lençóis com nitrato, porém,

Dentro desse contexto, o sistema intermediário (tec-

por volta de 80% do nitrogênio amoniacal aplica-

nologia de processos) é uma versão mais racional

do nas adubações pesadas, volatiliza e aumenta o

pois é o caminho do meio: nem intensivo (acima de

rombo na camada de ozônio, sem falar que esse

2 UA/ha) e nem extensivo (até 1 UA/ha). As propos-

insumo representa por volta de 70% do custo total

tas intermediárias (1,4 a 2 UA/ha) tem uma grande

da adubação e está, a cada dia, mais caro”. Esses adubos nitrogenados comumente utilizados são provenientes do petróleo, que é uma fonte não renovável, tornando, portanto, insustentável

diferença: lotação equilibrada dinamicamente ao longo do ano. Note-se que o foco da tecnologia de processos não é produtividade (altas lotações), mas sim lucratividade (baixos custos).

qualquer proposta que dependa desse insumo (tecnologia de produtos).

A tecnologia de processos gera saldo energético positivo no sistema.

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Revista Digital Boi a Pasto


A mbiente Por Alexandre Romeiro de Araújo*

Conservação do solo e da água para pastagens tropicais

Apesar do destaque atual, a conservação do solo e da água são temas bastante antigos com relatos históricos, inclusive bíblicos.

N

o Brasil, o assunto também já esteve em pauta há tem-

pos. Um desses registros data da década de 30, especificamente o ano de 1938. Na ocasião, o engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, escrevera para o Suplemento Agrícola do jornal O Estado de São Paulo o texto denominado “Alerta contra a erosão”, onde procurou mostrar a importância do terraceamento em áreas agrícolas e os desastrosos efeitos da erosão nas propriedades químicas, físicas e biológicas do solo. Mais recentemente, pesquisadores da Embrapa Trigo e colaboradores, realizaram um estudo mostrando que os níveis de nutrientes nos solos de várzea, próximas a áreas de lavouras, eram muito superiores aos encontrados nas lavouras sem terraceamento. Ao passo que, os níveis destes mesmos nutrientes na lavoura e na várzea, em áreas de cultivo terraceadas, encontravam-se bem semelhantes. Ou seja, por meio deste estudo foi demonstrado que somente a cobertura morta da palhada,

*Pesquisador de Solos e Nutrição de Plantas da Embrapa Gado de Corte

Revista Digital Boi a Pasto

67


A mbiente

em áreas de Plantio Direto, em muitas ocasiões

a forrageira perde uma de suas principais funções

não é suficiente para minimizar os efeitos adver-

no que diz respeito à conservação do solo, que é a

sos da erosão.

de minimizar o impacto da gota de chuva diretamente no solo, evitando a desagregação das partí-

Em condições tropicais, como é o caso da maior

culas. Esta é a primeira, e talvez a mais importante,

parte do Brasil, a erosão hídrica assume papel de

etapa para instalação do processo erosivo no solo

destaque, sendo esta a principal causa de erosão

em áreas de pastagens tropicais.

do solo. Este tipo de erosão possui três fases distintas: a desagregação das partículas de solo, o

Uma das alternativas para minimizar o problema

transporte e a deposição destes sedimentos nos

seria o uso de uma ferramenta lançada recente-

cursos d’água.

mente pela Embrapa Gado de Corte: a régua de manejo de pastagens.

As pastagens são um dos principais tipos de vegetação que possuem capacidade

Essa tecnologia tem por objetivo prin-

de manter a cobertura do solo de

cipal determinar a altura de entrada e

maneira efetiva e uniforme. Esta afirmação torna-se bastante interessante do ponto de vista de sustentabilidade ambiental, visto que o Brasil possui mais de 100 milhões de hectares ocupados com pastagens. No entanto, observam-se em grande parte dos casos, áreas com pastagens em algum estágio de degradação, tanto do pasto quan-

Em condições tropicais, a erosão hídrica é a principal causa de degradação do solo.

to do solo. Por quê?

saída dos animais do piquete, em função da disponibilidade forrageira. No entanto, caso as alturas preconizadas sejam observadas pelos pecuaristas, especialmente a altura de saída dos animais, esta ferramenta será de grande utilidade também para a conservação do solo e da água. Manejando a pastagem corretamente, evitando o manejo popularmente

conhecido como “rapadão”, a maior massa de forA resposta para esta questão envolve diversas áre-

ragem certamente irá contribuir para minimizar o

as das ciências agrárias, mas os principais motivos

impacto da chuva diretamente no solo e facilitar a

são: espécie forrageira inadequada ao local; má

infiltração de água no perfil.

formação inicial (por diversos motivos); manejo e

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práticas culturais inadequadas; ocorrência de pra-

Outra prática bastante utilizada e que tem sido

gas e doenças; manejo animal impróprio (especial-

subestimada ultimamente é a construção de ter-

mente excesso de lotação e sistemas inadequados

raços. O terraceamento em propriedades rurais

de pastejo) e ausência ou aplicação incorreta de

tem basicamente duas funções: diminuir o com-

práticas de conservação do solo, em função do

primento dos lançantes e promover a infiltração

tipo de solo da propriedade ou da gleba.

de água no solo.

Em áreas de pastagens com lotação excessiva,

Um dos grandes erros cometidos em conservação

com pouca massa de forragem e solo descoberto,

do solo e da água é o de achar que somente o uso

Revista Digital Boi a Pasto


C onservação

do solo e da água para pastagens tropicais

de terraços é suficiente para resolver o problema de erosão na propriedade rural. Para o efetivo controle da erosão do solo em pastagens tropicais, o uso do sistema de terraceamento deve, obrigatoriamente, ser associado a outras práticas de conservação, sendo as principais o manejo do pastejo e o controle da taxa de lotação animal. O dimensionamento e alocação dos terraços são baseados em vários parâmetros como o tipo de solo, relevo, declividade, cultura a ser implantada, potencial erosivo da chuva na região, etc. Todos os métodos de dimensionamento do sistema de terraceamento na propriedade rural levam em conta, além das características mencionadas, também o potencial de infiltração de água no solo entre um terraço e outro. Propriedades rurais com excesso de lotação animal (taxa de lotação superior à capacidade suporte) e manejo inadequado do pastejo (pouca disponibilidade de massa forrageira e solo descoberto), certamente irão sobrecarregar o sistema de terraços, tornando esta técnica com maior probabilidade de insucesso. Os cuidados e as observações descritos acima, para propriedades que têm a pecuária como atividade principal, são também válidos para produtores que fazem uso de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) ou Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Ressalta-se que o dimensionamento/alocação dos terraços quando em sistemas integrados de produção deve ser realizado com base na componente lavoura, reconhecidamente de maior potencial erosivo. Quando da presença do componente arbóreo em sistemas de produção inte-

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C onservação

grados, este pode, dependendo da disposição dos renques de árvores, contribuir também para minimizar os efeitos da erosão eólica, comum em algumas regiões do Brasil. É importante frisar que a conservação do solo e da água seja vista de forma sistêmica, abrangendo toda

buindo, desta forma, para a recarga

O dimensionamento dos terraços em sistemas integrados deve acontecer com base lavoura.

bacia ou sub bacia.

70

do solo e da água para pastagens tropicais

de aquíferos e minimizando o assoreamento em córregos, rios e lagos. A sociedade não agrícola deve estar ciente que, o produtor rural que trabalha de maneira correta a adubação e o manejo das pastagens, bem como utiliza práticas de conservação do solo e da água, certamente

Para se obter sucesso nesta difícil empreitada faz-

estará contribuindo para que as

-se necessário o uso integrado de um conjunto de

águas das chuvas infiltrem com maior facilidade

práticas que reduzam o impacto da gota de chu-

no perfil do solo, abastecendo o lençol freático,

va no solo, diminuam o escorrimento superficial

produzindo com sustentabilidade e minimizando,

e aumentem a infiltração de água no solo, contri-

de certa forma, os custos com tratamento de água.

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A mbiente

Pegada Hídrica, um Novo Desafio A estiagem que afetou o Estado de São Paulo trouxe reflexos negativos tanto no meio urbano como no rural.

Por Gisele Rosso

P

ara Albano Henrique de Araújo, coordenador de Estratégia de Água Doce da The Nature Conservancy (TNC), organização de conservação ambiental presente em mais de 35 países, parte do problema está associado a uma gestão ineficiente do recurso água, que poderia ser otimizada com a aplicação do conceito da pegada hídrica.

Pegada hídrica é a quantidade de água, dire-

valor da pegada pode colaborar para evitar o

ta e indiretamente, usada na produção de um

desperdício e melhorar a gestão da água.

produto. A água está presente na calça jeans,

O Brasil tem cerca de 12% da água doce do pla-

no combustível, na carne, no leite, no papel. O

neta. No entanto sua distribuição é desigual e

quanto desse recurso é preciso até o produto

as principais reservas não estão localizadas

chegar ao consumidor é um cálculo comple-

onde se concentra grande parte da população.

xo, e o resultado, geralmente, alto. Conhecer o

Um exemplo é que 68% da disponibilidade de

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A mbiente

çados em Economia Aplicada (Cepea), um superávit de US$ 83 bilhões. As exportações de carne bovina em 2013 significaram US$ 6,6 bilhões de receita, alta de 13,9% em relação a 2012, de acordo com informações da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Para manter-se competitivo economicamente e ao mesmo tempo fazer com que a produção agropecuária seja socialmente justa e ambientalmente correta, é preciso que o produtor adote em suas rotinas produtivas conhecimenágua superficial está na Região Hidrográfica Amazônica, onde a concentração populacional é menor. “A falta de água traz uma conscientização imediata sobre a importância de usar de forma sustentável os recursos hídricos”, afirma Albano de Araújo. Para ele, a preocupação com a água é inversamente proporcional à sua disponibilidade. Com os problemas de escassez vividos na atualidade, o assunto entra na pauta do governo e da sociedade. A falta de água não afeta apenas o meio urbano. Agricultores e pecuaristas sofrem com a escassez, já que dependem de água para produção de alimentos. No entanto, o manejo desse recurso ainda não faz parte da rotina desses produtores e o uso intenso, sem gestão adequada, coloca em risco sua disponibilidade em quantidade e qualidade e o futuro dos sistemas de produção.

Pegada hídrica na pecuária O agronegócio, apenas em 2013, gerou, segundo levantamento do Centro de Estudos Avan-

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Revista Digital Boi a Pasto

tos, práticas e tecnologias que visem uma propriedade mais sustentável. O manejo hídrico é um dos gargalos. Segundo o pesquisador Julio Palhares, da Embrapa Pecuária Sudeste, as propriedades rurais ainda não têm controle significativo da água captada e consumida. “Houve evolução nos sistemas de produção e em suas práticas reprodutivas, nutricionais e sanitárias. Agora, o momento é de um novo salto - internalizar o manejo hídrico, ambiental e de resíduos. Educação e uma cultura hídrica são indispensáveis para que a água não seja uma ameaça ao desempenho e à sanidade das criações”, explica Palhares.

A falta de água traz uma conscientização ime­diata sobre a importância de usar de forma sus­tentável os recursos hídricos.


P egada

hídrica , um novo desafio

Para fazer o manejo hídrico da propriedade,

A pegada hídrica auxilia no entendimento de

é necessário conhecer os fluxos de água e o

como o produto se relaciona com a água. O

quanto é consumido.

pesquisador ressalta que o mais importante não é o valor final, mas as informações gera-

Mas como chegar a esses números? Embrapa,

das pelo cálculo que possibilitam uma melhor

instituições de pesquisa e iniciativa privada

gestão dos recursos hídricos nas propriedades

estão, neste momento, calculando a pegada

e nas cadeias de produção.

hídrica da carne e do leite. No caso da carne, por exemplo, o cálculo para conhecer a pegada

O cálculo da pegada que envolve a Embrapa e

hídrica leva em consideração toda a água usa-

parceiros tem como base os sistemas de produ-

da no processo, desde a quantidade consumida

ção de carne em confinamento e de leite a pas-

na produção do alimento dado ao animal até a

to. O diferencial da pesquisa diante de cálculos

utilizada no abate.

já feitos é trabalhar com as realidades produtivas brasileiras. O resultado será a validação de

Informações do cálculo são mais importantes

práticas e tecnologias para reduzir o valor da

que resultado

pegada hídrica e, assim, melhorar a eficiência do uso da água.

De acordo com Julio Palhares, conhecer o sistema de produção é fundamental. O valor depen-

A média global para a produção de um quilo

de do local do sistema, do tipo de animal, da

de carne bovina é de 15,5 mil litros de água. De

composição e origem dos alimentos fornecidos

acordo com Araújo, esse valor foi influenciado

e das formas de uso da água – para consumo

pela criação intensiva de gado nos países euro-

animal, irrigação, resfriamento e lavagem.

peus, com alimentação à base de ração.

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P egada

hídrica , um novo desafio

No Brasil, a produção a

Para medir o consumo

pasto é predominante. O

na propriedade e co-

especialista da TNC acre-

nhecer o custo da água,

dita que o resultado da

de forma simples e ba-

pegada hídrica no Brasil

rata, o pesquisador Ju-

deve ser inferior à média

lio Palhares recomenda

global, levando em conta

a instalação de hidrô-

os métodos produtivos e

metros. Ele alerta, en-

as condições climáticas.

tretanto, que “os equipamentos devem ser escolhidos de acordo

Bom exemplo

com as características

O produtor de leite orgâ-

estruturais e hídricas

nico Ricardo José Schiavi-

de cada propriedade, o

nato, da Fazenda Nata da Serra, em Serra Negra (SP),

que requer consulta a

utiliza controle da água

um profissional habili-

para diminuir o consumo

tado”.

em sua propriedade. Uma das práticas é a irrigação noturna. Outra foi a instalação do evaporímetro de Piche, que mede a evaporação da água, o que garante maior informação para a gestão. A reutilização da água da lavagem do laticínio e do local de ordenha na fertirrigação para adubação das pastagens também ajudou a

O impacto de práticas hídricas adequadas ultrapassa o ambiente da proprie­ dade, afetando positivam.

garantir a economia e melhor aproveitamento dos recursos. Schiavinato conta que, com o monitoramento

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O manejo hídrico em propriedades agropecuárias, como o caso de Schiavinato, ainda é isolado. De acordo com Palhares, é necessário ampliar o conhecimento sobre o assunto e fortalecer políticas públicas que estimulem o uso eficiente da água pelas criações pecuárias. O impacto de práticas hídricas adequadas ultrapassa o ambiente

da propriedade, afetando positivamente toda a cadeia de produção e até o consumidor final. Trata-se de produzir igual ou maior quantidade

constante, é possível economizar água e tam-

de carne ou leite, por exemplo, com menos li-

bém dinheiro. O consumo é um indicador im-

tros de água. O resultado é a redução do valor

portante para a tomada de decisão na hora da

da pegada hídrica, essencial para uma produ-

gestão de modo a melhorar a eficiência da pro-

ção animal mais sustentável e economicamen-

dução na fazenda.

te viável.

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A mbiente Por Rodiney de Arruda Mauro

Solo é alvo em propriedade pecuária PASTO ADEQUADO AO TIPO DE SOLO DA PROPRIEDADE EVITA EXISTÊNCIA DE SOLOS EXPOSTOS ÀS INTEMPÉRIES

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S olo

Um empreendimento pecuário deve, primeiramente, garantir sua sustentabilidade econômica com um bom planejamento das atividades ao longo do ano. O recurso humano para executar esse planejamento deve ser buscado e treinado visando ao aprimoramento de capacidades e competências para bem exercer as atividades da propriedade. As práticas ambientais nunca devem ser negligenciadas, pois o retorno financeiro é certo. O produtor consciente das responsabilidades que sua atividade requer, assim como a boa administração financeira e de recursos humanos, deve possuir um bom planejamento do uso dos recursos naturais evitando prejuízos e favorecendo os lucros. Quando a terra ainda é virgem, caso raro no Brasil atual, a preparação da mesma para integrar o sistema produtivo é em muito facilitado, pois podemos planejar as construções longe das Áreas de Preservação Permanente (APPs), formar pastagens mantendo as distâncias regulamentadas das fontes de água, escolher o melhor pasto adequado ao tipo de solo da propriedade evitando a existência de solos expostos às intempéries, construir curvas de nível para evitar a perda da camada mais fértil do solo por erosão laminar, etc.

O CAR é um instrumento que veio auxiliar os donos de terras a melhor planejar o seu espaço rural, ao mesmo tempo serve como um inventário do que existe de áreas ainda conservadas e ajuda ainda a identificar onde estão as áreas degradadas para que se promova uma planejada recuperação das mesmas, e o tempo está acabando. O proprietário poderia se perguntar “porque devo fazer essa tal de Gestão Ambiental em minhas terras?” Fazendo essa gestão, esse planejamento, o produtor estará assegurando uma garantia jurídica para suas ações produtivas e de conservação. Poderá ser um sério candidato a melhorar sua produtividade, seja qual for a cultura ou criação adotada. Poderá também obter financiamentos de entidades oficiais para que tenha um capital financeiro sólido que lhe assegure uma safra com bons dividendos.

O CAR é um instrumento que veio auxiliar os do­nos de terras a melhor planejar o seu espaço rural.

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é alvo em propriedade pecuária

Brevemente teremos uma nova lei que favorecerá primeiramente o ambiente rural e com ótimas consequências para os habitantes das cidades que é a Lei 312/15, que ainda está tramitando na Câmara dos Deputados, e trata da Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais.

Atualmente, o Brasil possui cerca de 5 milhões de propriedades. Como se adequar ambientalmente quando as mesmas já foram formadas há mais tempo, quando as leis que regiam o espaço rural eram outras?

A eficácia da conservação dos recursos naturais propicia ao empresário rural várias possibilidades de agregação de valor aos seus produtos, assim como receber por exercitar essa conservação. Um bom exemplo é o uso da água.

Os dirigentes do nosso país após consultas às diversas classes que fazem do ambiente rural o seu ganha-pão, chegaram à carta magna de como bem administrar ambientalmente as propriedades brasileiras. Esta é o Código Florestal Brasileiro reformado e publicado em 25 de maio de 2012 (Lei nº 12.651/2012). Juntamente ao novo Código Florestal veio o Cadastro Ambiental Rural (CAR), um registro eletrônico obrigatório que visa regularizar ambientalmente as propriedades rurais brasileiras.

Se o produtor tem uma boa gestão ambiental do espaço rural que lhe cabe, poderá ter ganhos monetários com os dividendos oriundos de fundos que premiarão aqueles que promovem a recuperação ambiental em suas propriedades. O aumento da vazão de cursos de água em propriedade está perfeitamente alinhado ao Código Florestal Brasileiro na proteção de nascentes, recuperação da Reserva Legal e conservação da vegetação ciliar, de matas, etc.

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Comercialização

É hora de fazer dinheiro Por Ivaris Júnior

Em 28 anos de carreira, soube de uma história que pode nos ajudar a pensar um pouco sobre visão de negócio. Muitos saberão do que e de quem se trata, outros apenas dirão: - Matuta!

N

ão sei. Mas acho que muito vai para o encontro da modernidade. Um dos maiores pecuaristas deste país, inclusive com propriedades no exterior, recebeu uma ligação importante. Alguém queria fazer uma compra “escandalosa” de fêmeas. O vendedor perguntou o tamanho do escândalo, do qual ele seria referenciado. Mediante resposta objetiva, disse apenas: - Vou fazer um grande esforço, embora ache que não esteja pronto para atendê-lo. De qualquer forma, venha no sábado! Sua propriedade já era bem moderna para época. A sede era esplendorosa (um luxo típico de fazendeiro e não de industrial que tem fazenda – como ele mesmo explicava), imponente – à altura da marca de gado que criara em décadas de trabalho árduo. Na frente um conjunto de piquetes onde a casa estava no alto e desciam para uma lombada onde centenas de metros subiam novamente. Em resumo, a vista da sede era muito ampla: uma alameda separa o conjunto de piquetes ao meio. Nas bordas, árvores nativas, cerca elétrica e tinta para deixar tudo harmonioso ao melhor gosto. Nosso anfitrião, então, ordenou a distribuição do gado. Vale destacar que em qualquer outra oportunidade que se chegasse a esta fazenda, este corredor até a sede estava vazio. Nada de animais. Oco! Mas naquele dia haviam inúmeras fêmeas de várias faixas etárias – todas consideradas de cabeceira do plantel – logo nos primeiros piquetes de quem entrava na fazenda (na alameda). Porém, seguiam-se centenas de metros até chegar na sede, onde haviam dezenas delas. Ao chegar o cliente, um café, uma água. Logo mais disse: - O senhor pode ficar à vontade e escolher as que melhor se adequam ao seu criatório. Acompanhado


C omercialização

de um funcionário da propriedade, o visitante seguiu e por horas avaliou todo o rebanho. Mas ao voltar, com várias escolhas realizadas e já ciente dos preços, não aguentou e perguntou ao anfitrião: Mas e aquelas que vi lá na entrada da fazenda? Nosso personagem levantou, pegou um café e respondeu que “aquelas não estão à venda já que eram sua reserva”. O cliente não desanimou e pediu para colocar preço. Foram mais horas de recusa, almoço e sobremesa, até que surgiu o lance de cinco vezes mais o valor médio pago por cada categoria animal das já escolhidas. “Então vou abrir uma exceção. O senhor pode ir lá escolher”. Este é um dos tantos folclores da pecuária nacional. Sabe-se que o vendedor em questão jamais mostrou sua reserva de plantel.

A HISTÓRIA É A MESMA Em qualquer setor da economia, colocar bem os produtos é quase tudo para explicar o sucesso. Tal verdade muda. Hoje, além de um produto que corresponda às expectativas para o que se destina, é preciso gestão em vários itens: produção (qualidade, custo e tecnificação), marca, marketing e atendimento. Não basta produzir; é preciso fazê-lo com qualidade e eficiência, o que depende de pessoas capacitadas e tecnologia, além de matéria prima e gerenciamento.

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Revista Digital Boi a Pasto

é hora de fazer dinheiro

A marca deve ser fortalecida por todo o processo anterior e traduzir muito bem o produto. Já o marketing deve encontrar seus clientes e ser capaz de se comunicar com eficiência, principalmente no atendimento e no pós-venda. Não adianta o produto ser adquirido, mas em posse do consumidor ser utilizado adequadamente e não render o máximo de satisfação. E esse pensamento finalmente chega na bovinocultura de corte. Muitos já pensam no tipo de carne que a dona de casa quer levar para casa ou na genética que seu vizinho precisa levar para ser mais um parceiro de negócio. Todos querem que seus clientes se mantenham satisfeitos e retornem aos negócios o quanto antes, assim, checar e oferecer suporte técnico, como dicas de preparos das dezenas de cortes bovinos ou manuais de melhor aproveitamento das virtudes de um touro, passam a ser ferramentas indispensáveis. São tantas as exigências atuais para se manter competitivo que a cada profissionais e prestadores de serviços especializados em diversas áreas são indispensáveis. E da mesma forma, a cada temporada a associação por meio de alianças mercadológicas se mostre como alternativa ímpar, onde elos da cadeia produtiva se apresentam com suas competências e excelências para obter melhor remuneração. Trata-se de grupos de eficiência que se unem em organização próprio e, com isso, podem oferecer as melhores respostas.


Por Luciana Juhas

Carne Sustentável do Pantanal O

O produto é oriundo de gado criado solto na região pantaneira, cuja alimentação está baseada em pastagens livres de agrotóxicos e adubos químicos no solo, ureia ou antibióticos utilizados na engorda de animais, sistema comprovado pela Embrapa: alimento mais saudável nas mesas e a certeza da preservação de um ecossistema importante para o equilíbrio do planeta.

s apreciadores da alimentação saudável, vão poder se servir à vontade com a certeza de que estarão consumindo uma carne sustentável, produzida com responsabilidade ambiental e saborosa, que estará agora mais acessível aos consumidores. O produto chega aos principais pontos do varejo brasileiro neste mês e é resultado de uma parceria entre a Korin Agropecuária*, a ABPO e o WWF-Brasil, ONG ambientalista que há mais de 10 anos vem estimulando o desenvolvimento de uma pecuária sustentável na região do Pantanal. Pioneira na produção brasileira em escala de frangos e ovos livres de antibióticos e outros químicos, além de uma vasta lista de alimentos orgânicos e sustentáveis, a Korin é o elo mais recente dessa parceria, diz Reginaldo Morikawa, diretor superintendente da empresa. A Korin será responsável pela comercialização da carne sustentável, oriunda de gado criado solto na região do Pantanal, cuja alimentação está baseada em pastagens livres de agrotóxicos e adubos químicos no solo, ureia ou antibióticos utilizados na engorda de animais, e que prejudicam, e muito, a saúde humana e o meio ambiente. Ou seja, a carne é proveniente de áreas sob manejo sustentável, com boas práticas e atendimento a critérios ambientais e sociais claros. Está na linha dos produtos sustentáveis da empresa e, futuramente, a empresa planeja lançar também a carne orgânica até pela demanda própria dos consumidores que já apreciam os produtos saudáveis da Korin Agropecuária. “A Korin fecha um ciclo, que começou com a ABPO, que reúne os produtores, e o WWF-Brasil, que tem o objeti-

Revista Digital Boi a Pasto

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C omercialização

vo de desenvolver um trabalho de preservação do Pantanal e da manutenção deste ecossistema e do homem pantaneiro trabalhando na única atividade rentável no local. O projeto das duas instituições agora tem sentido completo de existir, pois a Korin está se incumbindo de vender este produto diferenciado, uma vez que só assim todo o trabalho de produzir com qualidade e com maior custo se torna viável”, explica Morikawa. A parceria entre o WWF e a ABPO começou em 2003, quando a ONG iniciou um trabalho de apoio à produção da pecuária orgânica do Pantanal, uma ação pioneira para uma ONG ambientalista. “O Pantanal é a maior área continental úmida do planeta e este bioma, também conhecido como “Reino das Águas”, é importante para o suprimento de água e para o equilíbrio climático do planeta. É nesta região que a pecuária bovina vem se desenvolvendo como atividade econômica tradicional há mais de 250 anos, alicerçada na cultura do ‘Homem Pantaneiro’, onde a criação de gado sempre se baseou na dinâmica natural da região, respeitando e convivendo em harmonia com o ‘ciclo das águas’, com a fauna e a flora, onde os animais são livres para se alimentar em extensas áreas de pastagens nativas. A ‘Carne Sustentável do Pantanal’ é proveniente de sistemas sustentáveis”, ressalta Julio Cesar Sampaio, coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF-Brasil.

Avaliada pela Embrapa “A promoção deste produto vai ajudar a obter resul-

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Revista Digital Boi a Pasto

tados de conservação no Pantanal pelo aumento das áreas de produção sob manejo sustentável, com boas práticas e atendimento a critérios claros ambientais e sociais. Outra parceria importante é com a Embrapa Pantanal, que apoiará a ABPO e a Korin na avaliação das fazendas utilizando sua ferramenta chamada ‘Fazenda Pantaneira Sustentável – FPS’, que comprovará para os consumidores a sustentabilidade dos sistemas produtivos que aplicam o Protocolo Interno ABPO/Korin”, acrescenta Nilson de Barros, vice-presidente da ABPO e também produtor pantaneiro. Desde a formação da parceria entre a ABPO e o WWF-Brasil, a área sob manejo com boas práticas aumentou de 3 mil hectares para mais de 170 mil, afirmam os executivos, se estendendo ainda para Bolívia e Paraguai, países que também abrigam uma parte do pantanal sul-americano. São 140 mil hectares de área certificada para produção de carne orgânica no Pantanal em parceria com a ABPO. “A parceria entre ABPO, Korin e WWF-Brasil agrega muito à nossa estratégia de promoção e estímulo a cadeias produtivas sustentáveis, e na tentativa de ganho de escala e de resultados de conservação no Pantanal. Com este novo produto aliado ao potencial de mercado que acreditamos ser muito bom para


C arne S ustentável

produtos sustentáveis, acreditamos que poderemos ter um aumento maior de áreas sob manejo sustentável na produção de carne bovina no Pantanal”, enfatiza o especialista em pecuária sustentável do WWF-Brasil, Ivens Domingos.

Produto nas gôndolas e novos a caminho A “Carne Sustentável do Pantanal” inicialmente será comercializada em pontos de venda estratégicos do varejo brasileiro. “Pontos que sirvam de vitrine para as outras redes e lojas. Queremos buscar crescimento de maneira sustentável, de acordo com a capacidade produtiva dos nossos parceiros”, diz Morikawa. Conforme Barros, o produto será destinado inicialmente apenas para o mercado interno, com expectativa de aumento de volumes dentro de um ano. “Ainda não existem discussões sobre a abertura de mercado de exportação”, afirma o Vice-Presidente da ABPO. O executivo da Korin tem certeza que o produto tem tudo para ser um novo case em vendas. Do lado do consumidor, atende a uma lacuna no mercado daqueles que estão mais conscientes e preocupados com a qualidade dos alimentos e a preservação ambiental. “ Não há no mercado opções saudáveis de carne vermelha como o nosso lançamento”, afirma Morikawa, observando que a Korin sempre teve interesse em oferecer aos clientes da sua marca uma carne de gado criado sem aditivos químicos e antibióticos, que resultasse em um produto macio e saudável e que ainda não prejudicasse a natureza. “A carne bovina é um complemento da linha, uma vez que já trabalhamos com a proteína do frango e dos ovos”, afirma. Do lado do varejo, tem o interesse crescente dos supermercadistas de ampliar a oferta de produtos sustentáveis. “Os supermercadistas têm demonstrado grande preocupação em oferecer opções mais saudáveis a seus clientes e estaremos atendendo a este requisito mais amplamente agora com o lançamento deste novo produto”, diz o Diretor Superintende da Korin, que já planeja colocar no mercado, além da carne in natura, uma linha de processados utilizando a carne bovina sustentável como matéria-prima, como hambúrguer, almôndega, mortadela, quibe, entre outros destaques.

do

P antanal

A forma de cultivo orgânico que veio do Japão Formas de cultivo que visam respeitar as leis da natureza surgiram nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Em 1930, o filósofo e espiritualista japonês Mokiti Okada elaborou trabalhos nas áreas de agricultura, artes, medicina, religião e educação. Deixou muitos legados e idealizou o movimento da agricultura natural no Oriente e no mundo. A Korin produz alimentos nos moldes da Agricultura Natural de Mokiti Okada, sem agrotóxicos, aonde resgatar a pureza do solo e dos alimentos, preservar a diversidade e o equilíbrio biológico e contribuir para a elevação da qualidade da vida humana, são preceitos fundamentais. Mokiti Okada alertou para a necessidade de uma avaliação cuidadosa sobre os “bons resultados” obtidos pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, que têm caráter passageiro e acarretam graves consequências ao meio ambiente.

Em 1930 ele já alertava a população sobre a impregnação de resíduos químicos nos alimentos, a alteração do verdadeiro sabor dos mesmos, o comprometimento da saúde do lavrador, que manipula tais produtos, e do consumidor, além da contaminação de mananciais, leitos de rios, lençóis freáticos, enfim da ampla degradação ambiental que afeta toda a cadeia alimentar. A Agricultura Natural busca o equilíbrio das propriedades do solo, da planta, do animal e do meio ambiente. Além da Linha de Frangos Livres de Antibióticos e Orgânicos, a Korin tem em torno de 120 produtos naturais e orgânicos entre frutas, hortaliças e legumes. Acesse: www.korin.com.br.

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Revista boi a pasto edição 1  

A Revista Digital Boi a Pasto é um veículo de divulgação e orientação técnica para o segmento da pecuária de corte e de leite, destinado a t...

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