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Proibida é dedicado à minha agente, Sara Camilli, que teve a visão antes de ela ganhar foco! Muito obrigada por seu amor e pelo apoio. Você é a melhor!


Agradecimentos

Gostaria de agradecer às seguintes pessoas que me ajudaram a transformar Proibida em uma realidade: Minha família de St. Martin, Matthew Shear, John Murphy, minha editora Monique Patterson, uma das melhores no ramo, e Emily Drum (seu braço direito!), Anne Marie Tallberg e Christina Ripo. Denise Milloy e Bill Boyd, obrigada pela maravilhosa fotografia! Billy do Plush Chicago, obrigada por me deixar usar sua boate tão legal para a sessão de fotos. Saunté Lowe, obrigada pela ponte com as celebridades. Amy Olsen, obrigada por sua amizade! E aos seguintes modelos (sem nomes completos por razões óbvias) que deram tempero à trama: Kevin M., Paul M., Lou M., Andrew M.S., Jack M., Michael N., Michael F., A. Mense, J. Sasson, C.E.W., H.K.W., David H., F. Collier, Bill C., T. Crown, Frank M., I. Allen, A. Phillip, Phillip W., Steve A., W.S. e Daryn M. (só para citar alguns!).


E ďŹ nalmente aos leitores, obrigada pelo apoio, e espero que gostem de ler Proibida tanto quanto eu gostei de escrevĂŞ-lo! VELVET


Prólogo

– Cento e cinquenta e seis com Riverside Drive – ela disse ao motorista, depois se recostou no assento da limusine preta e fechou os olhos, antevendo a noite excitante. Estava a caminho da Black Door, uma boate muito discreta. Não era um clube noturno só para associados; a Black Door era um playground ultraexclusivo para adultos, dedicado a atender unicamente às necessidades carnais de mulheres. Ela sentia os hormônios começando a fluir só por pensar nas possibilidades que a esperavam. Em poucos minutos, o carro parou diante de um edifício sem identificação com uma porta preta e brilhante de três metros de altura. Ela saiu do automóvel e se equilibrou sobre o salto agulha vermelho de quinze centímetros de altura. Enquanto caminhava para a entrada, a brisa da noite atravessava a seda pura do vestido que ela usava sob uma capa preta que a cobria até o tornozelo. Cautelosa, bateu


na porta. Alguns segundos depois um bonitão mascarado de 1,80m de altura abriu a porta para a decadência e pediu a senha. – Molhada e pronta – ela cochichou com voz suave e sedutora, falando através da meia máscara. O porteiro se afastou para o lado, e ela examinou seu pacote volumoso, envolto apenas por um apertado fio dental de couro preto. No saguão, ela removeu a capa. A temperatura ambiente era baixa, e já podia sentir os mamilos enrijecerem. Quando olhou para baixo, ela viu o contorno das grandes auréolas redondas sob a seda pura. O porteiro umedeceu os lábios com a língua ao ver seus seios salientes, depois se colocou atrás dela e ajustou sua máscara de couro vermelho. Estavam tão próximos que ela sentia o membro ereto pressionando suas costas. Um gemido de prazer escapou de sua garganta, e, instintivamente, ela encurvou o corpo para aumentar a pressão. Os dois começaram a se mover, movimentos de fricção leves e sedutores bem ali, no meio do saguão. Ele a enlaçou com uma das mãos e massageou um seio farto, enquanto a outra se esgueirava por baixo do vestido e encontrava a área do prazer. – Ohh... – ela gemeu, sentindo o dedo penetrar sua


umidade. A agressividade a pegou de surpresa e ela ficou tensa por um instante, mas recuperou-se depressa e se entregou à sedução daquele toque. Quando ela estava perto do orgasmo, o porteiro parou de repente e disse: – Agora está pronta para a Black Door. Ela ouvia as pessoas se divertindo na parte mais interna da boate e caminhou para a porta decorada e fechada. Cada passo fazia seu coração bater mais depressa...


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Ariel sentou-se à mesa oval da sala de reuniões e, junto com os colegas, ouviu sem muito interesse o relatório do administrador sobre o faturamento semanal. Ariel Renée Vaughn era uma das três mulheres associadas à Yates Gilcrest, uma das líderes entre as firmas de advocacia de Nova York, com escritórios em cada grande cidade do mundo. O discurso de Bob sobre aumentar os lucros da firma não se aplicava a Ariel, que tinha dois dos maiores clientes da lista de faturamento em seu rol, por isso ela cruzou as longas pernas e olhou pra a janela panorâmica. Do vigésimo andar era possível ver com facilidade a copa das árvores no Central Park. Com o outono no auge de sua glória, a robusta mistura de ferrugem, rubi e citrino das folhas decorava o céu como a paleta de um pintor. A mente de Ariel se entregou a um devaneio. Havia percorrido um longo caminho desde aquela menina que vivia em uma casa apertada com outras


cinco crianças órfãs, todas abrigadas em um lar temporário. A mãe a entregara para adoção depois do parto, mas ela nunca fora adotada. Ariel havia passado a infância mudando de casa em casa, sempre em lares temporários, até ir parar na casa da sra. Grant, uma viúva de coração generoso que a incentivara a estudar muito e obter boas notas, porque assim seria aceita em uma boa faculdade e conseguiria um bom emprego. E Ariel havia feito exatamente isso. Com média alta em todas as matérias e resultados fabulosos nas provas de admissão, ela havia conseguido uma bolsa de estudos de quatro anos na Columbia University e estudara direito. Meses antes da formatura na escola de direito da Columbia ela havia sido recrutada pela Yates Gilcrest como associada júnior e trabalhara com diligência ao longo dos anos, galgando lentamente os degraus. Depois de dez anos de trabalho duro, Ariel finalmente se tornara associada de fato. Com um gordo salário de seis dígitos, um luxuoso apartamento de dois dormitórios na parte mais exclusiva da cidade e um dos juízes mais poderosos da cidade como amante, Ariel deveria estar no topo do mundo, mas ultimamente se sentia inquieta. Faltava alguma coisa, e


ela não conseguia decidir o que era. – E para encerrar – Bob olhou em volta, notando as expressões entediadas dos que o ouviam, percebendo a impaciência com que esperavam pelo fim da reunião –, não vamos esquecer o evento beneficente anual dos Lancaster na sexta-feira. Os Lancaster eram uma das famílias mais ricas da cidade, com uma fortuna avaliada em 1 bilhão de dólares, e eram também o pão e a manteiga da firma. Todos os anos a matriarca da família organizava um baile de gala no famoso Waldorf-Astoria em benefício do Boys & Girls Clubs of America. Comparecer ao jantar de gala era uma obrigação para todos os associados e suas caras metades. – Dito isso, a reunião está oficialmente encerrada. Ariel recolheu suas anotações e as enfiou em uma pasta grossa de couro preto. Ao se levantar, ela ajeitou a saia justa que havia subido um pouco no quadril. Seu corpo era exuberante, o traseiro era redondo e perfeito, os seios eram fartos, e as pernas eram torneadas e perfeitas como as de Tina Turner. Como trabalhava em uma companhia antiquada com austeros e grisalhos republicanos no comando, Ariel escondia as curvas


embaixo de jaquetas de corte perfeito, camisas discretas e suéteres largos que direcionavam a atenção para seu cérebro, não para o corpo. Rápida, ela abotoou a jaqueta do tailleur para esconder a saia justa demais e seguiu pelo corredor até seu escritório. – Sra. Vaughn, aqui estão seus recados – disse a secretária de Ariel, entregando a ela um maço de pequenos papéis cor de rosa. – Obrigada, JoAnne – Ariel respondeu pegando os recados. Depois de entrar em sua sala e fechar a porta, ela parou atrás da mesa masculina de mogno e deu uma olhada rápida nas mensagens. Uma delas era de seu corretor falando sobre uma casa de praia à venda nos Hamptons por um preço excelente; outra era de sua mãe adotiva, a sra. Grant, com quem ela ainda mantinha um relacionamento próximo; dois recados eram da melhor amiga, Meri; e um deles era do Juiz Hendricks. Ariel e Preston Hendricks estavam juntos há anos, e, embora mantivessem um relacionamento sério e comprometido, os lençóis haviam esfriado há um bom tempo. Ele era como um sapato velho – confortável, nunca apertava os


dedos. Além do mais, formavam o casal perfeito para as fotos. Ambos tinham segurança financeira e respeito na comunidade legal, e era só uma questão de tempo até o Juiz Hendricks tentar a sorte na carreira política. Ariel estaria bem ao lado dele no caminho até Washington. Ela pegou o telefone e ligou para a casa da mãe adotiva. – Oi, mãe – disse. – Como vai minha filha favorita? – a mulher perguntou repetindo o cumprimento habitual. – Tudo bem. Recebeu o cheque que eu mandei? Para desânimo da mãe adotiva, Ariel mandava um cheque mensal que não só cobria as despesas da casa, mas era suficiente para comprar tudo que ela quisesse. – Quantas vezes tenho que dizer para parar de me mandar dinheiro? – ela protestou. – O que recebo do estado para cuidar dessas crianças é mais do que suficiente. – Não quero ofender você, mãe, mas está ficando velha demais para trocar fraldas e correr atrás de todas essas crianças. – Bem, se me der netos, não vou precisar das crianças que abrigo para ter companhia.


Ariel revirou os olhos. Como havia completado trinta anos alguns anos antes, a sra. Grant a pressionava para se casar com Preston e ter uma família. – Mãe, não tenho tempo para bebês, eu... – Bem, espero que tenha tempo para o Juiz Hendricks – ela a interrompeu. – Aquele homem vai ser importante. Vi a foto dele ontem no jornal, estava em algum tipo de evento para angariar fundos. É um homem bonito. De certa forma, ele lembra o sr. Grant quando tinha essa idade. – O marido da sra. Grant havia morrido há muitos anos vítima de um infarto, e ela nunca mais se casara. – Você precisa parar de trabalhar tanto, devia dar mais atenção àquele homem. Homens como ele não aparecem todos os dias, sabe? Ariel ouvira esse comentário mais de uma vez e estava ficando cansada da pressão. – Sim, eu sei – respondeu simplesmente. A sra. Grant ouviu a nota aborrecida na resposta. – Escute, meu bem, não quero ser chata. Só não quero que você acabe velha e sozinha como eu. Ouça quando eu digo que viver sem um homem não é uma festa. – Não se preocupe, mãe. Não vou deixar Preston


escapar. Prometo. – Ela sorriu para o telefone, tentando consolar a velha mulher. – O Juiz Hendricks está na linha um – JoAnne informou pelo interfone. – Falando nele, preciso atender, mãe. – Vá de uma vez, meu bem, não deixe esse homem esperando. Conversamos mais tarde. O tom de barítono de Preston soou do outro lado da linha. – Bom dia, srta. Vaughn. – Juiz – ela respondeu. O cumprimento fazia parte da rotina e era um lembrete de como se conheceram. Ariel trabalhava como assistente para um dos juízes mais importantes do Estado de Nova York, e de vez em quando via um cavalheiro de aparência distinta passando pelos corredores do tribunal com sua toga preta aberta, flutuando ao vento. Ela soube que seu nome era Preston Hendricks e que era juiz recémnomeado. Apesar de ele ser mais velho, Ariel se sentira atraída por sua firmeza e costumava ir se sentar no fundo da sala para ouvir os julgamentos que ele presidia. De sua posição à frente da corte, era difícil para


Preston não notar a jovem atraente com seios provocantes e olhar atento, penetrante. Divorciado, pai de um filho crescido, estava mais do que pronto para retomar sua estagnada vida amorosa, e aquela jovem se encaixava perfeitamente em sua intenção. Em um encontro casual no elevador, ele se apresentou como Juiz Hendricks. E desde aquele dia, eles se cumprimentaram formalmente até começarem a sair, três semanas mais tarde. Embora fosse quinze anos mais velho que ela, Preston era um tigre na cama, apresentando à amante posições até então desconhecidas. Jovem, ela só estivera com rapazes inexperientes, e a experiência com um homem mais maduro era excitante. O apetite do juiz por ela era insaciável. Ele mergulhava entre suas coxas grossas e chupava seu clitóris até fazer seu corpo estremecer passando de um orgasmo ao outro. Depois penetrava sua vagina molhada e escorregadia com o membro duro e grosso e mexia até levá-los a outra dimensão de êxtase. No início do relacionamento o sexo era diário, frequentemente três vezes por dia – de manhã, na hora do almoço e à noite. A esposa do juiz sempre havia sido pequena e magra, quase sem carnes para apertar. Por isso


ele simplesmente amava o corpo exuberante e cheio de curvas de Ariel, especialmente os seios redondos e fartos. Não era incomum que a chamasse à sua sala, trancasse a porta e a fizesse tirar o sutiã sob o suéter justo. O contorno dos mamilos grandes e duros sob o tecido o deixava absolutamente louco. Sentado em sua cadeira, lambendo os lábios, ele se masturbava até estar a um passo do orgasmo. Era como ter um espetáculo pornô privado. Depois a puxava para perto e levantava seu suéter. Ariel tinha uma rosa vermelha tatuada no seio esquerdo; a flor parecia tão verdadeira que ele se sentia sempre impelido a tocá-la antes de sugar e morder os mamilos, e depois a debruçava sobre a mesa, abria suas pernas e a penetrava por trás. Porém, com o passar dos anos, o foco de Preston se transferiu dos desejos sexuais para os objetivos políticos, e agora faziam amor uma vez por mês, quando muito. – Como está seu dia? – ele perguntou. – Indo. Acabei de sair de uma reunião chata, e Bob nos lembrou sobre o evento beneficente dos Lancaster na sexta-feira. Lembra? Pedi para você marcar na sua agenda no mês passado. – Sim, eu lembro. Mas não vou poder ir.


Ela suspirou alto. – Como assim? Todos os sócios estarão lá com suas caras-metades, sem mencionar o clã Lancaster. E me recuso a comparecer sem um acompanhante – ela se irritou. Recentemente, Preston a estava cozinhando em banho-maria, e não gostava nada disso, especialmente porque tentava entender e apoiar sua carreira. – Sinto muito, mas vou ter que ir a Washington para um jantar com o senador Oglesby. Sei que prometi que iria com você, mas o gabinete do senador telefonou há uma hora, e, quando o senador Oglesby chama, você vai sem fazer perguntas – ele explicou. Ariel sabia que as aspirações políticas de Preston eram prioritárias, e que afiliar-se ao partido correto poderia levá-lo à Suprema Corte, mas, ainda assim, não gostava de ser preterida no último minuto. – Eu entendo – ela disse com uma nota de tristeza na voz. – Ei, não fique triste. Tenho certeza de que vai se divertir muito sem mim ao seu lado. Escute, amor, preciso voltar à corte – ele disse, apressando o fim da ligação.


Ariel ficou sentada, segurando o fone. Não esperava que Preston deixasse de comparecer ao evento beneficente e queria tentar convencê-lo a adiar o jantar para o dia seguinte, mas nem teve chance. Agora estava sem companhia e sem alternativas. Ela decidiu ligar para Meri; talvez a amiga tivesse um amigo ou conhecido, um homem sobrando e que pudesse emprestar para acompanhá-la ao evento. Meri Renick era uma viúva do golfe, embora não fosse a esposa típica cujo marido jogava em tempo livre, deixando-a sozinha enquanto passava horas com os amigos. Não, Meri era uma viúva de fato, seu marido havia morrido no nono buraco. Sofreu um infarto fulminante no campo de golfe, deixando para ela sua vasta fortuna. Sem filhos para sustentar, Meri gastava centenas de milhares de dólares aprimorando seus dotes, até recuperar o rosto dos trinta anos de idade e um corpo adequado às feições. Na maioria das noites, podia ser vista em um restaurante elegante jantando com um ou dois bonitões, ou caminhando pela Madison Avenue com um acompanhante de cada lado. Ela não justificava os homens mais jovens que aqueciam sua cama à noite e até mesmo durante o dia.


– Queriiida – Meri ronronou ao telefone. – Estava pensando em você. – E no que estava pensando? – Que não nos falamos há algum tempo e que já era hora de contarmos as novidades durante um almoço com aperitivos. – Normalmente elas faziam uma sessão mensal, pelo menos, de conversa de mulheres na cobertura de Meri. Ariel conhecia Meri há dez anos. Elas se conheceram quando Ariel a representara no processo de divórcio do primeiro marido. Inicialmente, Meri não confiara muito na arrojada e jovem advogada de seios fatais e corpo destruidor, mas Ariel fora bem recomendada, e depois de ela ter negociado um acordo muito vantajoso para Meri, as duas se tornaram amigas rapidamente. – Acho ótimo. – Ariel abriu a agenda. – O que acha de terça-feira? Meri hesitou por um momento. – Hum, vamos ver... Não, na próxima terça não. Vou jantar com Paul e quero comer sobremesa. – E quem é Paul? – Ariel não ouvira esse nome antes. – Um dos homens mais deliciosos que já


experimentei. E é dono do maior pinto que já vi. Deve ter uns trinta centímetros, pelo menos, e é grosso como um rolo de moedas de meio dólar. Quase morri engasgada na primeira vez que caí de boca – ela contou sem pudor, como se falar sobre sexo fosse a coisa mais natural do mundo. Ariel se espantava com a liberdade com que Meri divulgava detalhes de suas experiências sexuais. Com quase cinquenta anos, ela fazia mais sexo que muitas mulheres de vinte. – Falando em homens, preciso de um para... – Não me diga que você e o bom juiz finalmente puseram o ponto final na história. Há anos eu venho dizendo que ele é velho demais para você. Acredite em mim. Precisa de um garanhão jovem para fazer seu mundo tremer todos os dias. – Meri era defensora do sexo. Acreditava que transar regularmente mantinha a mente e o corpo jovens. – Meu mundo está muito bem, obrigada, mas preciso de um acompanhante para o evento beneficente dos Lancaster. Preston vai estar fora da cidade, e não quero ir sozinha. Você sabe como aquela gente pode ser pretensiosa. Todos estarão acompanhados, e não quero


ser a esquisita sozinha – ela explicou. – Bem, minha querida, você procurou a pessoa certa. Tenho a solução perfeita! – ela disse com um gritinho eufórico. – Você precisa usar meu serviço de acompanhantes; eles têm alguns dos melhores e mais brilhantes homens da cidade, sem mencionar que também são os mais bonitos. – Serviço de acompanhantes? – Ariel perguntou chocada. Sabia que Meri vivia no limite, mas não esperava que estivesse envolvida com um sórdido serviço de acompanhantes. – Por que o espanto? É extremamente elegante, totalmente chique e legal. Uso o tempo todo – ela confessou. Ariel apoiou os cotovelos sobre a mesa e ouviu com atenção. – Então, me conte exatamente como isso funciona. – Ouvira apenas boatos sobre esse tipo de serviço e estava curiosa para descobrir como operavam de verdade. – Bem, minha querida, é muito simples. Você liga para o número privado, diz a que tipo de evento vai e de que tipo de homem precisa para completar sua noite. Dá as informações do seu cartão de crédito e o endereço


onde devem ir buscá-la – ela explicou, recitando os detalhes como se fossem os ingredientes de um bolo. – Meri, você fala de um jeito muito casual, como se eu fosse comprar um par de sapatos novos ou uma bolsa. – De certa forma, você vai mesmo comprar outro acessório. A única diferença é que o acessório vem com benefícios adicionais! – ela riu. – Quando falou sobre classe e elegância, pensei que sexo não fizesse parte do negócio. Quero só uma companhia, não um garanhão para acasalamento – Ariel declarou, deixando claro que não queria se envolver em um caso sórdido. – Esse serviço é estritamente platônico, mas, se precisar de manutenção, também tenho a conexão certa para isso – Meri contou maliciosa. Ariel não queria admitir, mas a verdade era que precisava de uma revisão caprichada. Devia ser por isso que andava tão irritada ultimamente. A última vez que ela e Preston fizeram sexo havia sido... nada. Ele rolara para cima dela no meio da noite, introduzira o pênis, fizera alguns movimentos sem entusiasmo, depois voltara ao seu lugar na cama e dormira de novo. Sentia falta da


paixão que um dia haviam compartilhado, mas sabia que Preston estava preocupado. Além do mais, sexo não era tudo, ela repetia para si mesma. – Tem certeza de que é um serviço confiável? – perguntou cética. – Lembra-se do homem com quem eu estava na Bienal do Whitney? – Está falando do sósia de Richard Gere no terno Armani? – Esse mesmo. Bem, ele não era um magnata da indústria naval da Nova Zelândia, como falei. Era um acompanhante pago – revelou orgulhosa. – De jeito nenhum! – Ariel estava perplexa. O homem que havia conhecido no Whitney Museum era elegante, articulado, um perfeito cavalheiro. Se ele era a definição de um garoto de programa, então se dava por vencida, sem mais perguntas. – Tudo bem, qual é o número? – ela perguntou, pegando uma caneta e um pedaço de papel. Meri sabia o número do telefone de cor. – Acredite em mim, você não vai ser a única mulher na sala com um acompanhante de aluguel. Na verdade, vou levar um dos meus antigos. E como sempre, vou


criar uma persona impressionante para ele, e ninguém vai perceber nada. Sugiro que faça o mesmo. Ariel se sentia um pouco desconfortável e começou a questionar sua decisão. – Meri, tem certeza de que isso é totalmente seguro? E se alguém perguntar por que estou lá com outro homem, em vez de Preston? – Sim, é totalmente seguro. E se alguém perguntar sobre Preston, diga apenas que ele está fora, viajando a negócios; isso é verdade, mas você pode acrescentar uma mentirinha branca e dizer que seu acompanhante é um velho amigo da família. A expressão “amigo de família” sempre soa mais apropriada, ou platônica, devo dizer, do que um velho amigo de escola. Confie em mim, querida, você não tem motivo para se preocupar. Escute, tenho que correr, meu encontro para o almoço chegou, mas encontro você depois do evento beneficente – ela disse, e desligou o telefone. Ela se sentiu mais à vontade com a confiança de Meri. Acostumando-se com a decisão de usar o serviço de acompanhantes, Ariel decidiu apresentar-se com o nome do meio para garantir algum anonimato. Ela criou uma história plausível para seu “encontro”, e também uma


lista de atributos: inteligente, versado, atraente, bem vestido e, acima de tudo, discreto. Ariel sublinhou a palavra discreto duas vezes, porque a 煤ltima coisa de que precisava era Preston ou os s贸cios descobrindo que estava usando um garoto de programa como acompanhante para aquela noite.


2

O cheiro morno da espuma de banho acariciava o corpo de Ariel, submerso em sua banheira Jacuzzi. Ela sorveu um gole do vinho da taça que havia deixado sobre a beirada de mármore da banheira, reclinou-se, fechou os olhos e deixou os jatos de água massagearem seus músculos doloridos. A água era relaxante. Podia sentir o equivalente a uma semana de ansiedade deixando seu corpo, enquanto a mente deixava de lado os detalhes de sua vida diária e mergulhava em reinos de fantasia. O Cabernet e a suave música de fundo a excitavam. O que mais queria nesse momento era transar, mas com Preston fora em uma viagem de negócios essa não era uma opção, por isso ela introduziu o dedo médio entre as pernas e encontrou a pequena saliência que proporcionava tanto prazer. Lentamente, acariciou o clitóris com uma das mãos, usando a outra para massagear os mamilos. Logo ela chegou a um clímax satisfatório, terminou o banho e saiu da banheira.


Vestindo um roupão felpudo, caminhou descalça até o quarto. Estendido sobre a cama havia um vestido YSL preto com um decote arrojado, echarpe combinando e saia sexy do tipo rabo de peixe. Ariel deixou a toalha cair no chão, caminhou até a cômoda, pegou uma embalagem de hidratante cremoso e começou a espalhar o produto sobre a pele. Enquanto aplicava o creme sobre o peito, ela se olhou no espelho e teve que admitir que tinha uma silhueta fantástica. Os seios eram grandes, mas não eram flácidos nem caídos; os mamilos eretos eram do tamanho da unha de um polegar e pareciam ter sido criados para serem sugados. Ela se moveu um pouco e viu os seios subindo e descendo. Preston adorava quando dançava para ele. Ele a observava da cama com a língua entre os dentes, enquanto ela se movia nua pelo quarto e dançava acompanhando um ritmo lento, hipnótico. Dançaria para ele quando Preston voltasse de Washington; já era hora de levarem o fogo de volta ao relacionamento, porque não poderia suportar por muito mais tempo sem fazer sexo. Embora não tivesse dificuldade para chegar a um clímax satisfatório, não havia nada como o calor do corpo de um homem entre as pernas.


Ariel caminhou até a cama e vestiu o sutiã sem alças para implementar seu arsenal fatal, tornando o colo ainda mais atraente. Depois de se vestir, ela olhou no espelho e notou que o decote revelava boa parte da tatuagem da rosa sobre seu seio esquerdo. Havia feito a tatuagem quando cursava a faculdade, uma época em que a ideia havia parecido excelente, um tempo em que todos no campus estavam fazendo tatuagens ou colocando piercings no umbigo. Agora se arrependia do local que escolhera para a rosa, porque a tatuagem limitava o tipo de decotes que podia usar. No mundo corporativo, não havia nada de legal em expor uma escolha tão pessoal, e era por esse motivo que vestia camisas abotoadas até o pescoço e blusas de gola alta na maior parte do tempo. Mas, em situações mais privadas, a maioria dos amantes se sentira atraída pela flor de aparência tão real e viva e amava tocar e beijar as pétalas surreais. Ela ajeitou o vestido para cobrir a rosa, mas o decote ainda era muito profundo. Diferente das roupas que usava no trabalho, Ariel não tinha nenhum vestido de noite conservador. Normalmente comparecia aos eventos sociais com Preston, e ele gostava de exibi-la (como


muitos homens que desfilam suas mulheres como troféus). Só precisava ajeitar uma echarpe em torno do pescoço para esconder a tatuagem e o decote. Depois ela se sentou diante da penteadeira e aplicou a maquiagem com grande habilidade, espalhando gotas de perfume nos pulsos e no pescoço com sua fragrância favorita, Enjoy. Maquiada e perfumada, ela desceu a escada e se dirigiu ao Towncar. Havia informado o serviço de acompanhantes que iria buscar seu “companheiro” na frente do W Hotel na Lexington Avenue, que ficava logo depois da esquina saindo da Waldorf. Meri havia recomendado muito o serviço, mas Ariel ainda estava um pouco insegura. Não queria que ele fosse encontrá-la no prédio onde morava, caso fosse um maluco que perseguia as mulheres por esporte. Recentemente ouvira uma notícia sobre um entregador de supermercado preso por perseguir suas clientes. Mas, por outro lado, não queria que ele a encontrasse no hotel, porque seria óbvio que não haviam ido juntos, e esse era o objetivo de contratar um acompanhante, chegar acompanhada. Quando o carro atravessou a Lexington em direção


ao W, ela começou a se agitar com um crescente nervosismo. Jamais havia saído nem mesmo para um encontro às cegas, por isso, ir encontrar um desconhecido para uma noite na cidade era algo que estava além de sua compreensão. De repente ela pensou em cancelar o encontro e ir sozinha. Pegou o celular na bolsa para ligar para a agência de acompanhantes, mas era tarde demais. O carro parou na frente do W Hotel, e em pé ao lado da entrada estava o homem mais atraente que ela já vira. Devia ter um metro e noventa e cinco de altura, era marrom como chocolate, tinha a cabeça raspada e um cavanhaque desenhado que emoldurava os traços esculpidos perfeitamente. Mesmo através do smoking feito sob medida, Ariel conseguia ver que ele era forte, com músculos definidos e ombros largos como os de um zagueiro. O homem se aproximou do carro com um andar casual e perguntou: – Renée? – usando seu nome do meio, que ela havia fornecido ao serviço. Ariel abaixou a janela com cautela, mantendo-a na metade do caminho, e perguntou: – Mason Anthony? – O serviço de acompanhantes


havia fornecido o nome dele, e queria se certificar de que ele era a pessoa certa antes de abrir a porta. Abrindo um sorriso perfeito com duas fileiras de dentes perfeitamente brancos, ele respondeu: – O único. Ariel destravou a porta e o deixou entrar. O perfume intoxicante invadiu o automóvel, provocando sua memória olfativa no instante em que ele entrou. Se não se enganava, ele estava usando Issey Miyaki, uma colônia sexy e hipnótica, que ela adorava, e que Preston usava no início do relacionamento, mas deixara de usar há muito tempo. Ela inspirou discretamente, deliciando-se com o aroma. Os olhos de Ariel tremeram, mas ela saiu rapidamente do instante de devaneio e contou a ele qual seria seu script, de forma que ele pudesse desempenhar seu papel sem deslizes. – Todo mundo sabe que estou envolvida com outro homem, mas, no momento, ele está fora da cidade. Por isso precisei de um acompanhante – Ariel explicou, sentindo que era necessário esclarecer sua situação para não dar a impressão de que era uma garota desesperada procurando amor. – Vou apresentar você como um amigo da família que está na cidade para participar de


uma conferência, e... Ele a interrompeu. – Que tipo de conferência? – Hmmm. – Não havia pensado nesse detalhe. – Uma conferência médica. A profissão é segura, já que a maioria dos presentes é da área jurídica. Ele riu. – Na verdade, a escolha é perfeita. – É mesmo? Por quê? – ela quis saber um pouco confusa. – Porque estou cursando o terceiro ano de medicina na Columbia, o que facilita as coisas – ele respondeu confiante. Ariel o encarou incrédula, como se tivesse dificuldade para aceitar essa história. Ele parecia mais um modelo do que um estudante de medicina. – E suponho que tenha esse trabalho para pagar a faculdade? – perguntou com tom cético. – Sei que parece clichê, mas é verdade. Não quero me ver soterrado por dívidas de crédito estudantil quando terminar a faculdade, e a agência me paga um bom salário por algumas horas de trabalho. – Na


verdade, a agência só pagava um salário mínimo, mas algumas clientes mais generosas faziam a diferença com gorjetas avultosas no fim de uma noite agradável. Ariel se sentiu desconfortável com a menção ao dinheiro. Estava pagando quinhentos dólares pelo prazer de sua companhia. Podia abrir mão desse valor sem nenhum problema, mas a ideia de pagar por uma companhia a incomodava. – Fico feliz por estar contribuindo com sua educação – ela disse com tom sarcástico. – Enfim, não esqueça que é um amigo da família e um médico de Chicago – ela repetiu. O rapaz percebeu que ela estava incomodada e tocou levemente seu joelho. – Não se preocupe, não vou esquecer. Sou um profissional, não esqueça. – E piscou. Ariel sentiu uma corrente elétrica percorrendo seu corpo ao ser tocada; imaginava a mão dele subindo por sua coxa, parando apenas ao encontrar seu ponto de prazer. Seu coração começou a bater um pouco mais depressa com o delicioso pensamento. Tinha que se controlar. Embora ele parecesse bom o bastante para ser devorado, era um acompanhante platônico, não um


amante gigolô. A limusine virou na esquina para a Park Avenue e entrou na fila atrás de pelo menos meia dúzia de outros Towncars pretos que seguiam para o mesmo destino. Ariel segurou a bolsa Judith Lieber incrustada com pedras ao perceber que o motorista parava na frente da entrada dourada do famoso hotel Waldorf-Astoria. Mason abriu a porta e segurou a mão de Ariel para ajudá-la a descer do automóvel. Uma vez lá dentro, ele a conduziu pelo cotovelo, como um perfeito cavalheiro, e juntos eles subiram a imponente escada para a festa. O requintado salão de baile fervia tomado por uma rica maioria de representantes da comunidade filantrópica de Nova York, todos em suas melhores roupas. Os homens vestiam os costumeiros smokings, e as mulheres desfilavam originais de Valentino, Krizia, e até um ou outro vintage Coco Chanel. Meri abriu caminho em meio à multidão de convidados. – Querida, aí está você. Já começava a pensar que havia mudado de ideia – disse a anfitriã. Ariel trocou os costumeiros dois beijos com a amiga. – Ficamos presos no trânsito. – Ariel notou que Meri


analisava Mason e decidiu ensaiar a encenação toda com a amiga antes de perder a coragem. – Meri, este é o Dr. Mason Anthony, um amigo da família – ela disse com expressão neutra. Meri estendeu a mão como se esperasse que ele a beijasse. – É um prazer conhecê-lo, doutor. – Depois de piscar discretamente, ela se virou para o próprio acompanhante. – E este é meu querido amigo JeanMarie Baptize, de Paris – disse, referindo-se ao belo europeu em pé a seu lado. – Bonjour – ele os cumprimentou com um sotaque forte. Ariel se perguntou se ele era realmente um francês, ou um acompanhante contratado pelo telefone. Não havia dúvida de que era estrangeiro, certo? Refletindo sobre a conversa que tivera com Meri alguns dias atrás, presumia que não. – O prazer é meu. – Vamos encontrar nossos lugares – disse Meri, abrindo caminho entre os convidados. A caminho da mesa que ocupariam, Ariel encontrou


Bob, um dos sócios no escritório. – Uau... – Os olhos dele mergulharam diretamente de seu rosto para o decote ousado. – Você está incrível. Os colegas estavam acostumados a vê-la sempre com roupas fechadas e discretas. De repente se sentia constrangida, certa de que ele podia ver o contorno da tatuagem de rosa. – Oi, Bob – ela o cumprimentou, ajeitando a echarpe no pescoço. Embora o tecido leve cobrisse boa parte de seu decote, Bob ainda parecia estar hipnotizado pelos seios fartos, e ele lambeu o lábio inferior como se pudesse sentir o sabor do fruto proibido. – Fico feliz por ter conseguido vir esta noite – Bob comentou sorrindo. Aposto que sim, ela pensou. – Bob, já conhece a sra. Meri Renick, uma boa amiga minha e presidente no ano passado – disse, mudando de assunto. Ele saiu do transe induzido pela luxúria. – Meri, é muito bom ver você de novo. Como tem passado? – Bem, obrigada. Como vai sua esposa? – ela


perguntou, lembrando-o de que era casado e não devia estar olhando para o decote de sua melhor amiga. – Bem. – E olhou em volta rapidamente, certificando-se de que a esposa não havia testemunhado esse olhar atrevido. Depois olhou novamente para Ariel e para Mason. – E onde está Preston? – perguntou. – Em Washington a negócios. – Sentindo que Bob esperava por uma apresentação, ela disse: – Este é o Dr. Anthony, um amigo da família. Ele está na cidade para uma conferência médica e, para minha sorte, aceitou me acompanhar na ausência de Preston. – É um prazer conhecê-lo – disse Mason, apertando a mão de Bob. Bob retribuiu o cumprimento, depois disse: – Bem, é melhor nos sentarmos antes de as apresentações começarem. De certa forma, Ariel estava feliz por Bob ter ficado hipnotizado por seus seios, porque o interesse o desviaria de um milhão de perguntas que ele poderia fazer sobre seu acompanhante. Eles encontraram a mesa e se sentaram para uma longa noite de coquetéis, jantar e discursos sobre a importância de ajudar a comunidade. Três horas e quatro garrafas de vinho depois, eles


estavam tão animados quanto um casal de adolescentes na noite da formatura. – Não foi tão ruim, foi? – Meri perguntou rindo assim que o orador desceu do pódio. Ariel olhou para seu acompanhante e pensou que a noite havia transcorrido bem. Ninguém havia suspeitado da verdade, e, se suspeitaram, não demonstraram nada. Isso a fez pensar quantas outras mulheres ali presentes haviam contratado um acompanhante para essa noite. – Indolor – sorriu. – Vamos tomar o último drinque no Four Seasons – Meri sugeriu. – Acho que vou encerrar a noite por aqui. Tive uma semana agitada e estou exausta – Ariel declarou, recusando o convite. Então, respondendo à sua declaração, Mason levantou-se e puxou sua cadeira. Meri segurou o braço de seu acompanhante. – Vamos, querido, tenho uma garrafa gelada de Cristal na minha cobertura. Podemos tomar o último drinque em um ambiente privado – ela disse com tom sugestivo. – Como quiser, mon chéri – Jean-Marie respondeu


com seu forte sotaque francês, beijando a mão de Meri. A dedução anterior de Ariel estava correta. O sr. Francês era realmente contratado, e, conhecendo Meri como a conhecia, sabia que ele faria hora extra esta noite. – Eu telefono para você amanhã – Ariel falou antes de se virar para sair. O motorista da limusine havia calculado o momento da partida perfeitamente e parava na frente do hotel no momento em que eles passavam pelas portas giratórias. – Posso deixá-lo em algum lugar? – Ariel perguntou a Mason. – Leve-me de volta ao W, se você não se importar. Vou encontrar um amigo lá. Ariel pensou que talvez ele tivesse outro compromisso, ou ia apenas tomar um drinque no Whiskey Bar. – É claro, sem problema nenhum. – E olhou em seus olhos castanhos. – E, Mason, obrigada por uma noite adorável. – Foi um prazer, sra. Vaughn – ele sorriu com ternura. – Por favor, pode me chamar de Renée. Mason levou a mão ao bolso interno do paletó e


tirou dele um cartão comercial. – Renée – ele pronunciou seu nome devagar, deixando as sílabas rolarem pela língua. – Que belo nome para uma mulher tão linda. Ariel sentiu o rosto quente ao ouvir o elogio e corou. – Obrigada, Mason. Ele pôs o cartão na mão dela. – Se algum dia precisar de mais que um acompanhante, por favor, telefone para o número no verso e diga a eles que eu indiquei você. Ariel não sabia o que dizer, por isso apenas respondeu: – Obrigada. Antes de sair do carro, Manson a beijou no rosto com suavidade. – Cuide-se, Renée. Quando ele desceu, Ariel levou a mão ao rosto e saboreou a sensação do contato. Suas últimas palavras ecoavam em seus ouvidos, e ela olhou para o cartão. A frente era de papel preto e brilhante com o desenho de uma porta, mais nada. Ao virar o cartão ela viu o número de telefone gravado em letras vermelhas. – Que cartão interessante.


Ariel deslizou o dedo pela superfĂ­cie lisa e brilhante e pensou em jogar o cartĂŁo fora, mas o guardou na bolsa em vez disso.


3

Mason passou pelo saguão do W como se fosse o proprietário do famoso hotel-butique. Ele passou direto pelo Whiskey Bar à esquerda, onde pessoas solteiras tentavam arrumar companhia para a noite, e pelo Lobby Bar à direita, onde empresários de fora da cidade se reuniam para um drinque, e seguiu diretamente para os elevadores que subiam para os quartos dos hóspedes. Sozinho no elevador, ele tirou o cartão-chave do bolso interno do paletó, olhou para o retângulo de plástico e o segurou com leveza. Mais cedo, antes do compromisso com Ariel, havia recebido um telefonema marcando outro encontro. Bem, não era realmente um encontro. Era uma antiga cliente que estava passando o fim de semana na cidade. Mason havia acabado de sair do chuveiro quando ouviu o celular tocar. – Ei, oi – a voz feminina sussurrou sedutora do outro lado.


Sem reconhecê-la, ele olhou para o identificador de chamadas, mas também não reconheceu o número de telefone. – Oi – respondeu com sua profunda voz de barítono, tentando disfarçar a incerteza. – Você ainda é tão bom quanto sugere sua voz? – a mulher perguntou sem perder tempo. Mason sorriu e, numa reação instintiva, passou a mão pelo abdome definido. – Melhor ainda. – Gostaria de poder me certificar disso – a mulher declarou com uma nota abertamente sexual. – É mesmo? – ele riu. – Pode ter certeza. Eu me lembro da primeira vez que o examinei. Você havia começado a trabalhar na Black Door e era verde como o Incrível Hulk. – A mulher riu da piada. No momento em que ela mencionou a Black Door, Mason soube quem estava do outro lado da linha. Era sua primeira semana de trabalho como “servidor” na boate. Tivera várias amantes na vida, mas era a primeira vez que era pago para desempenhar, e


pensar nisso o deixava um pouco nervoso. Rock, um servidor experiente, o orientava sobre o ofício quando duas mulheres maduras entraram no Leopard Bar, uma das salas temáticas da boate. Mason notou como sua pele pálida de pêssego contrastava com o vestido fluido de chiffon preto. O cabelo platinado era curto, o que realçava a máscara negra com cristais incrustados. E para completar o visual, ela calçava sapatos pretos de salto agulha. Era uma combinação de sexo, sofisticação e classe, e ele a notou imediatamente. – Quem é aquela? – Mason perguntou a Rock movendo a cabeça na direção da mulher. – É uma de nossas clientes especiais. Ela não mora aqui, mas vem nos visitar sempre que vem à cidade. Ouvi dizer que é casada com um magnata e tem muito dinheiro. Mason era estudante e vivia com um orçamento apertado, e a menção ao dinheiro farto alimentou seu interesse. A mulher era mais velha que ele, mas ainda tinha um corpo rígido. Além do mais, ele pensou, se conseguisse conquistar seu interesse, ela o solicitaria sempre que fosse à Black Door. E uma solicitação


significava que era procurado, o que se traduziria em mais horas na boate, o que se traduziria em mais rendimentos. – Cá entre nós, acho que consigo ajudar a sra. Endinheirada a gastar um pouco de sua fortuna – ele comentou com tom brincalhão. – Vá em frente, garanhão – Rock o incentivou. Como sempre fazia diante de um desafio, Mason caminhou casualmente para o bar onde ela e a amiga estavam sentadas tomando um drinque. Mesmo sendo novato no ofício, Mason sabia que tinha um corpo perfeito e que era capaz de satisfazer uma parceira de várias maneiras. Assim que teve certeza de que poderia ser ouvido, ele aprofundou ainda mais o tom de barítono e disse: – Senhoras. Ao ouvir a voz sexy, as duas se viraram ao mesmo tempo para ver de quem era o tom sedutor que lembrava Barry White. – Ei, olá – ela falou primeiro, estudando seu abdome exposto e o fio dental de seda que realçava sua bem definida masculinidade. Mason a viu analisar seu corpo. A maneira como os


olhos subiam e desciam pela silhueta musculosa demonstrava que conseguira despertar sua curiosidade, e que ela estava realmente interessada. Ele não perdeu tempo e se aproximou, posicionando-se deliberadamente de forma a deixar o membro roçar levemente a porção externa de sua coxa. –Vou pedir outra bebida para você – ele disse, notando que o copo estava quase vazio. – Só se beber alguma coisa com a gente – a mulher respondeu. – E se o chamar aqui para me fazer companhia – acrescentou a amiga dela, apontando o mentor de Mason. – É claro – ele respondeu, acenando para chamá-lo. Os dois homens estavam ali em pé lado a lado, e as mulheres os analisavam como se quisessem decidir qual deles seria o melhor amante. Mason sabia o que fazer e flexionou os peitorais, depois enrijeceu os abdominais para realçar ainda mais os músculos definidos e salientes. A mulher que ele pretendia impressionar estendeu a mão e tocou as saliências rígidas sobre seu estômago, expressando sua satisfação com um gemido abafado. Ela


olhou para a amiga e sorriu. – Este é meu – avisou, deslizando as unhas pintadas pelo braço poderoso. Sabendo que vencera a disputa não oficial, Mason não perdeu tempo e mostrou a ela que sua escolha havia sido acertada. – Venha comigo – disse, segurando a mão dela e levando-a ao fundo do bar, onde poderiam ter alguma privacidade. Aquela área era extremamente escura, o que permitia às clientes a liberdade de viver suas fantasias sem plateia. – Então... – ela deslizou a mão entre as pernas dele assim que se sentaram. – Isto é enchimento? Mason sabia que alguns servidores usavam meias como enchimento para rechear a sunga, mas a Mãe Natureza o havia dotado com “enchimento” suficiente para dois homens. Ele segurou a mão dela e a guiou para dentro da sunga. – Acha que é artificial? Uma exclamação contida escapou de sua boca quando a mão encontrou o membro quente. Instintivamente, ela começou a massagear o pênis


semiereto até fazê-lo responder ao contato. – Quero sentir todos esses vinte e cinco centímetros dentro de mim – a mulher disse ao senti-lo completamente ereto. Mason levantou seu vestido e descobriu que ela não usava nada por baixo. Lentamente, ele friccionou com o dedo médio a ponta de seu clitóris. Pelos gemidos baixos, sabia que havia encontrado seu ponto de maior sensibilidade. Os gemidos eram quase inaudíveis, mas queria fazê-la gritar para torná-la sua cliente pessoal. Se tivesse sorte, talvez ela deixasse de ir ao clube quando fosse visitar a cidade, procurando-o diretamente, em vez disso. Mason empurrou a mesa ligeiramente para trás para poder se abaixar entre suas pernas. Uma vez de joelhos, ele começou a sugar o clitóris inchado enquanto afagava e penetrava com o dedo a fenda úmida e quente, até que sua respiração ficou mais rápida e os gemidos soaram mais altos. Mason a fitou em busca daquele esperado olhar de aprovação, e sem dúvida o rosto dela contava a história – seus olhos estavam fechados, a boca estava aberta, a língua passeava pelo lábio inferior – a história de uma mulher que estava a um passo do clímax.


– Goze para mim – ele exigiu. A mulher não disse nada, apenas segurou sua cabeça raspada e empurrou o quadril para a frente, forçando o dedo a penetrar sua vagina mais profundamente. – Vai ser a melhor dedada que você já teve. – Ele então introduziu três dedos na vagina voraz e começou a movê-los cada vez mais depressa, até sentir o início do orgasmo. – Ah, sim, isso, isso! Estou... estou... gozando! – ela gritou. Caramba, foi rápido. Se ela era assim fácil de satisfazer, então sei que ela vai pôr meu número na discagem rápida depois que experimentar o sr. Grandão, Mason pensou, e sorriu confiante. Isso havia acontecido alguns anos antes de parar de trabalhar dentro da Black Door para concentrar-se na faculdade de medicina. Mas havia acertado, depois de enfiar seu mastro na Sra. Endinheirada, ela passara a procurá-lo sempre que ia à Nova York. Não a vira durante algum tempo, e depois ela havia parado repentinamente de telefonar. Talvez o marido houvesse descoberto sua associação secreta à Black Door e posto um ponto-final em suas escandalosas visitas à Nova


York. – Não me procura há tanto tempo que pensei que tivesse me esquecido. – Como poderia esquecer você e o sr. Grandão? – ela perguntou com voz provocante. – Vim passar o fim de semana na cidade e adoraria reencontrar vocês dois. O que vai fazer hoje à noite? Um sorriso iluminou o rosto de Mason. Havia esvaziado recentemente a conta bancária pagando a mensalidade da escola e precisava mesmo de uma gorjeta generosa. – Tenho um compromisso cedo esta noite, mas acho que estarei livre às dez, no máximo. Onde vai se hospedar? – No W Hotel da Lexington, quarto 916. – Perfeito. Deixe o cartão-chave na portaria com meu nome, e eu estarei lá o mais depressa possível. – Ótimo, porque temos que recuperar o tempo perdido – a sra. Endinheirada ronronou ao telefone. Depois do encontro com Ariel, Mason seguiu diretamente para o hotel e subiu ao quarto 916. Usando


o cartão-chave, entrou sem se anunciar. Olhando em volta na saleta de iluminação tênue, viu que ela havia pedido (e bebido) uma garrafa de Dom Perignon, agora vazia e esquecida de cabeça para baixo no balde de gelo. A evidência sugeria que ela estava alcoolizada e esperando no quarto, por isso ele começou a se preparar para “trabalhar”. Mason tirou os sapatos, abriu a fivela do cinto, e despiu a calça e a cueca. Depois abriu os botões da camisa e removeu as abotoaduras Cartier (presente de uma cliente). Nu, Mason olhou para o sr. Grandão, que não era tão grande em sua posição adormecida. – Acorde, cara, o dever está chamando – ele cochichou. A mulher não o via há algum tempo, por isso queria ter certeza de que faria seu mundo tremer no instante em que entrasse em sua toca. Sendo assim, ele segurou o membro e começou a afagá-lo até deixá-lo ereto e rijo. – Agora estamos prontos. – Sorrindo, percorreu o corredor curto até o quarto. – Finalmente chegou – ela disse com tom aborrecido quando ele entrou. Estava deitada na cama usando apenas um colar. Os olhos de Mason focaram o colar, e ele calculou


que a pedra devia ter uns dez quilates, pelo menos, ou mais. Caramba, ela usa isso assim? Sabia que o marido dela era rico, mas não havia percebido quanto até agora. – Belo colar – disse, comentando sobre a pedra que adornava seu pescoço. Ela tocou a peça delicada e respondeu: – Obrigada. Foi presente de aniversário de casamento. – Seu marido é muito gentil, mas tenho aqui um presente ainda melhor – ele falou, acariciando o sr. Grandão. A mulher abriu as pernas. – Bem, venha até aqui e me entregue, então. Mason atravessou o quarto com dois passos e se deitou em cima dela. Afastando bem suas pernas, ele a penetrou com tanta força que a mulher deslizou as unhas por suas costas, marcando a pele. Por experiências anteriores, sabia que ela gostava de intensidade. Mais de uma vez essa cliente havia dito que gostava de sexo forte e rápido, e esta noite ele deu à mulher de colar de diamante exatamente o que ela queria.


4

Meri Renick devia ser a mulher mais rica que Ariel conhecia. Além de ter se casado bem, ela saíra do primeiro divórcio com um acordo que incluía vários investimentos lucrativos e propriedades valiosas. E quando o segundo marido morrera, deixando para ela centenas de milhões, essa fortuna se tornara ainda maior. Ariel ia almoçar na requintada cobertura de Meri em Park Avenue para uma tarde de conversa entre amigas. O porteiro conhecia Ariel, porque ela visitava o local regularmente. – Boa tarde, sra. Vaughn – ele disse, tocando a aba do boné. – Oi, Frank, como vai a família? – Bem, obrigado. Meu filho vai para a faculdade e o caçula acabou de concluir a primeira série. – Ele riu. – Ei, isso é que eu chamo de plenitude! – Ariel sorriu. – É o que me mantém jovem. – Mais um sorriso. –


Vou avisar a sra. Renick de que está subindo. – Obrigada, Frank. Ariel subiu ao vigésimo primeiro andar, e quando a porta do elevador abriu, um cavalheiro alto e bonito com uma pasta preta na mão esperava do outro lado, e ela se assustou. Eram apenas dois apartamentos por andar, e não era necessário um diploma de ciência astronômica para deduzir que ele havia saído da casa de Meri. – Com licença – o homem pediu, e passou por ela para entrar no elevador. Ariel assentiu e seguiu para o apartamento de Meri. – Acho que precisa de uma porta giratória – ela disse quando a amiga a recebeu. Meri riu, entendendo perfeitamente a que Ariel se referia. – Irônico ter mencionado isso agora. Já falei com o empreiteiro e ele vai começar a instalação da nova porta amanhã. – Ha ha, muito engraçada. Ariel atravessou o imponente hall de mármore para a sala de estar adjacente. Depois da morte do marido, Meri havia modificado completamente a área de estar de revestimento de madeira e características masculinas. O


resultado era um feminino e moderno palácio branco com toques de cristal em todas as partes. – O que Jacques preparou para hoje? Estou faminta. – Como a maioria dos nova-iorquinos ricos, Meri tinha uma equipe completa de criados que incluía um chef, uma governanta e um motorista. – Atum grelhado com vegetais e... Antes que Meri pudesse terminar, Ariel torceu o nariz para o cardápio saudável e leve. Era uma garota de porte e adorava comer, e não conseguia entender todo o barulho por causa de alguns prazeres simples e calóricos, como batatas, massa e pão. Havia crescido em uma casa cheia de irmãos de criação, por isso tivera que lutar por cada pedaço, e havia jurado que, quando crescesse, nunca se privaria de uma refeição, mesmo que contivesse muitas calorias. – Pode tirar essa expressão boba do rosto. Sei quanto você ama seus carboidratos, por isso mandei Jacques preparar um purê de batatas com alho fresco e muita manteiga, como você gosta. Mas eu vou ficar só no atum com salada. – Ela passou a mão sobre o ventre. – Tenho que manter a forma de menina para não perder meus garotos.


– E presumo que foi um dos seus “garotos” que vi no elevador? Meri se aproximou do bufê de bebidas. – Não, não era. – Ela serviu um martini para cada uma. – Na verdade, ele era da Harry Winston. Veio pegar as joias que usei ontem à noite. E falando em ontem à noite... – Ela se virou e olhou para Ariel com um olhar malicioso. – O que aconteceu ontem à noite? – Ariel fingiu inocência. Sabia exatamente a que Meri se referia, mas fingiu ignorância. – Como foi seu “encontro”? – ela perguntou, entregando a Ariel um martini gelado com três azeitonas recheadas com queijo Roquefort. Ela tomou um pequeno gole do drinque e falou sobre a beirada da taça: – Ah, refere-se ao dr. Anthony? – Doutor uma ova! Mas gostei do disfarce. Vou usar esse também. Não falei que aquele serviço de acompanhantes era o melhor? – Ela se sentou no sofá com a bebida na mão. – Eles têm alguns dos melhores homens que já vi. – E mordeu o lábio inferior para dar


ênfase à declaração. – E o seu “doutor” era uma delícia. – E inteligente também – Ariel acrescentou. – Ele é mesmo estudante de medicina e está trabalhando como acompanhante em meio período para pagar a faculdade. – E não são todos assim? – Meri riu. – Ótimo, mas quero alguns detalhes suculentos. Como acabou a noite? Ele tentou seduzir você? Ou, melhor ainda, você tentou seduzi-lo? – ela perguntou, reclinando-se nas almofadas fofas, preparando-se para ouvir um relato quadro a quadro da noite. – Nem todo mundo sai por aí contando o que faz entre quatro paredes – Ariel provocou. – Eu conto tudo para você o tempo todo, satisfaço sua curiosidade e alimento suas fantasias... Ariel a interrompeu: – Porque se oferece para contar todos os detalhes íntimos dos seus encontros. – Bem, seja como for, agora é finalmente minha vez de sentar e ouvir, já que você teve um encontro tórrido, para variar, em vez de passar outra noite tediosa com o tedioso Preston. – Preston não é tedioso. Ele é ocupado, só isso. – Ariel conhecera vários homens jovens e bonitos e todos a


desapontaram de um jeito ou de outro, mas Preston era sua rocha. Apesar de viver preocupado com a carreira, ela sabia que podia contar com ele sempre. E depois de ter crescido sem pai, Ariel queria e precisava da constante estabilidade que ele proporcionava. – Ocupado? Tedioso? Qual é a diferença? – Ela se inclinou para a frente e cutucou o joelho de Ariel. – Vamos lá, me conte, você beijou aquela boca carnuda e sentiu aquilo tudo? Ariel riu. – Meri, você é uma mulher fogosa. – O que posso dizer? Sexo me mantém jovem. Devia experimentar de vez em quando. Agora pare de enrolar e me conte os detalhes. – Ele me beijou, mas só no rosto. – Ariel enfiou a mão na bolsa. – E depois me deu isso, e disse para eu telefonar se quisesse mais que um acompanhante. – Ela entregou o cartão a Meri. Ao ver o cartão preto e brilhante, Meri não conteve um sorriso luminoso. – Ah, sim, a Black Door. Ariel observava a expressão de Meri, e agora estava mais curiosa que nunca.


– O que é a Black Door? – A pergunta deveria ser, “o que não é a Black Door” – Meri respondeu, levantando uma sobrancelha perfeitamente arqueada. Ariel parecia confusa. – O que quer dizer? – Prepare-se, porque o que vou contar agora provavelmente vai deixá-la chocada. – Pare com o drama e me conte. – É uma boate – ela começou misteriosa. O suspense estava matando Ariel. – Que tipo de boate? – Uma boate só para mulheres adultas. – Um clube de strip, como o Chippendales? Meri terminou de beber o drinque, como se precisasse do álcool para ajudá-la a explicar a singularidade do clube. – O Chippendales é brincadeira de criança comparado à Black Door. Primeiro, é só para associadas, e nem todas são aceitas. Você tem que ser indicada. Eles investigam seu passado para ter certeza de que você não é uma policial disfarçada, e depois submetem cada


membro a um exame de sangue, para garantir que todas são saudáveis. – Por que tantas precauções? – Ariel estranhou. – Porque assim as sócias podem se sentir livres para ousar. E para garantir o anonimato, todas usam uma máscara personalizada. Ariel agora estava sentada na beirada do sofá, totalmente interessada, querendo saber mais. – Por que usar uma máscara, se eles fazem uma verificação tão minuciosa? – Entenda, minha querida, algumas das mulheres mais ricas e poderosas do mundo são membros desse clube exclusivo, mulheres que podem se dar a todos os luxos, menos ao de um escândalo estampado na primeira página do Post. E com a segurança e uma máscara, elas se sentem livres para desfrutar de todas as atividades que a boate tem para oferecer. – Que tipo de atividades? – ela perguntou, como uma colegial curiosa buscando conhecimento. Ariel não era puritana, mas só tivera um punhado de amantes na vida, e nenhum deles havia sido muito criativo entre os lençóis. Preston fora seu amante mais ardente e apresentara a ela posições que nunca vira antes, mas


Ariel ainda tinha a sensação de que havia um mundo inteiro e atividades e posições sobre as quais ela nada sabia, e estava curiosa para ouvir tudo sobre elas. Meri hesitou por um momento. – Como posso saber? – disse maliciosa. – Você deve saber, porque aposto que é sócia com muitos privilégios. Agora trate de me contar o que acontece na Black Door – ela insistiu, se aproximando ainda mais da beirada do sofá. – Digamos que a boate oferece tudo, de ménage à trois a relações lésbicas. – Ela abanou a mão na frente do rosto. – E a realização de seus sonhos, todos eles, mesmo os mais loucos. A explicação empurrou Ariel para trás, e da beirada do sofá ela voltou ao encosto, reclinando-se contra as almofadas gordas. – Uau – suspirou. – Pensei que lugares assim só existissem em filmes tipo Triplo X. – Bem, estou aqui para afirmar que a Black Door é tão real quanto pode ser. – Ela devolveu o cartão. – Guarde em lugar seguro para o caso de uma emergência sexual. Ariel deixou o cartão sobre a mesa.


– Não preciso disso. Preston volta hoje à noite para atender às minhas emergências – Ariel anunciou orgulhosa. Nunca o traíra durante o longo relacionamento e não pretendia começar agora. Meri pegou o cartão e o jogou dentro da bolsa da amiga. – Não seja precipitada. Só algumas poucas selecionadas recebem um desses. E se você tem um desses cartões, acredite, é como ter ouro. – Eu acredito. Agora vamos comer. Estou faminta. Duas horas mais tarde, depois de deixar o apartamento de Meri, Ariel parou na La Perla para comprar uma lingerie sexy para aquela noite. Havia planejado um jantar íntimo em casa e depois serviria a “sobremesa”. A caminho de casa, ela pediu duas refeições no Table for Two, um serviço gourmet para viagem, e assim escapou de sofrer na cozinha diante do fogão. O telefonema seguinte foi para Preston. – Ei, amor, como foi a reunião com o senador ontem? – ela perguntou. – Tudo bem. Eu conto tudo hoje à noite. Não quero entrar em detalhes pelo telefone. Onde quer ir jantar? –


ele perguntou, mudando de assunto. – Achei que comeríamos em casa – ela respondeu com tom sugestivo. – Ótima ideia. Estou muito cansado – Preston declarou sem perceber o duplo sentido. – Espero que não esteja cansado demais – ela insistiu no tom. – Vejo você lá pelas sete. – Combinado – ele respondeu e desligou. Em casa, Ariel tomou um banho quente e demorado, depois vestiu a nova camisola. A peça delicada de renda lilás e alças finas quase não deixava nada para a imaginação. Deliberadamente, ela comprou a lingerie um número menor, de forma que o tecido fino apertava os seios e deixava à vista os mamilos salientes sob a seda. O traseiro arredondado e nu quase não podia ser contido pelo fio dental que acompanhava a camisola; ela olhou no espelho e deu um tapa no próprio traseiro. – Esta bunda grande vai renovar as energias dele – comentou sorrindo. O interfone tocou quando ela calçava um par de mules de avestruz, e Ariel caminhou para a porta. – Ei, você está linda – ele a elogiou. Ela girou devagar, oferecendo uma visão de todos os


ângulos. –Que bom que gostou. Preston deixou a valise no chão e agarrou seu traseiro carnudo, puxando-a contra o peito e beijando-a profundamente. Havia sentido falta dos beijos e do toque de Ariel. Diferente de sua ex-esposa, que era frígida e usava o sexo como ferramenta de manipulação, Ariel era exatamente o contrário. Estava sempre pronta para satisfazê-lo, e ele adorava sua espontaneidade. Ultimamente não dedicava muito tempo ao relacionamento por causa da carreira, mas esta noite tinha planos para recuperar o tempo perdido. Ariel o beijava com avidez, roçando o corpo em seu pênis. Podia senti-lo ficando ereto a cada movimento que fazia com a língua. Ela começou a abrir seu cinto, pronta para uma noite de paixão. Mas o toque da campainha os interrompeu. – Deve ser o jantar – Ariel deduziu ofegante. – Abra a porta, por favor. Vou ao banheiro – ela avisou, dando mais um beijo em Preston antes de se afastar. Ele ajeitou as roupas. – Tudo bem – respondeu, dando um tapa em seu traseiro nu.


Quando Ariel voltou à sala poucos minutos depois, Preston estava sentado no sofá, comendo diretamente da embalagem de plástico preto. – Eu ia servir a comida em uma travessa – ela comentou aborrecida. – Desculpe, meu bem, mas estou morto de fome. Não como nada desde hoje cedo – ele explicou, pegando um pedaço grande de filé mignon. A última coisa em que Ariel pensava era comida; queria retomar de onde haviam sido interrompidos. Estava úmida e a carne que queria estava entre as pernas dele, não em um recipiente plástico. Ela se inclinou diante de Preston, deixando os seios caírem para fora da camisola. – Ei, morda aqui primeiro – disse, esfregando os mamilos. Preston a encarou e respondeu: – Eu vou, em um minuto. Agora coma, antes que a comida esfrie. Ariel guardou os seios dentro da camisola e se jogou no sofá com um suspiro frustrado. Enquanto Preston devorava a refeição, ela empurrava a comida de um lado


para o outro com o garfo. Ele a olhou e notou a mudança de comportamento. – Por que não está comendo? – Por que não estou mais com fome, estou com tesão! – ela exclamou. – Acredite em mim, eu também estou, mas prometo que vamos fazer amor a noite toda, só preciso me alimentar para poder sacudir seu mundo. – Sorrindo, ele a beijou nos lábios. – Bem, tudo bem, se você diz... – Ariel começou a comer. Preston terminou antes dela e apoiou a cabeça no encosto do sofá para fechar os olhos por um segundo, mas o segundo virou um minuto, e em pouco tempo ele estava roncando baixinho. – Não acredito nessa merda! – Ariel se irritou, e foi para o quarto deixando-o esparramado no sofá. A bolsa estava sobre o criado-mudo, e ela a abriu para pegar a caixa de comprimidos. Preston era o motivo de sua dor de cabeça e precisava de um analgésico para diminuir o desconforto. Quando enfiou a mão na bolsa, os dedos tocaram um pedaço de papel. Ela o pegou e viu que era o cartão da Black Door. Ariel o virou e olhou


para o número de telefone no verso. De repente, as palavras de Meri ecoaram em seus ouvidos: “Para uma emergência sexual”. Sem hesitar, pegou o celular e digitou com cuidado cada algarismo escarlate.


5

– Isso acabou de chegar, chefe – disse Joe, parado na porta segurando uma grande caixa de papelão nos braços musculosos. – Onde quer que eu ponha? Trey levantou os olhos da pilha de papéis sobre a mesa e apontou uma cadeira vazia diante dele. – Pode deixar aí mesmo. Obrigado, Joe. O funcionário assentiu. – Não foi nada, chefe – disse e saiu imediatamente, deixando Trey voltar ao trabalho. Trey Curtis era fundador e único proprietário da Black Door. Se há cinco anos alguém houvesse dito a ele que estaria administrando o mais bem sucedido clube privado na área de Nova York e arredores, teria gargalhado na cara do sujeito. Na época, entrava relutante no negócio da família. Desde que começara a reconhecer a voz humana, haviam metido em sua cabeça que um dia estaria lado a lado com o pai. Criativo na


essência, Trey não tinha interesse em administrar um negócio tedioso. No colégio, a professora de artes enviara seu portfólio de desenhos de joias para o Pratt Institute solicitando consideração para concessão de bolsa. E, com uma média mais que satisfatória e uma evidente criatividade, Trey havia recebido uma oferta de bolsa de estudos para quatro anos para cursar a universidade onde se formavam alguns dos principais desenhistas de moda do mundo. Vislumbrava o próprio caminho empresarial começando logo após a graduação com a abertura de uma casa de moda na disputada Quinta Avenida. Assim que Trey anunciou seus planos para mudar de carreira, o pai os sufocou rapidamente, lembrando-o de suas obrigações com a família. Seu pai era o típico patriarca – dominador e impositivo – e mantinha a casa sob seu comando de ferro. Na maior parte do tempo, tinha que ser tudo do jeito dele ou de jeito nenhum. A mãe de Trey tentara interferir em seu favor e convencer o marido a deixar o filho seguir os próprios passos, mas o pai não queria nem ouvir falar nisso. – Não temos outros filhos. Quem vai herdar os negócios? – ele argumentava.


Assim, para evitar problemas, Trey havia adiado o sonho de desenhar, recusado a bolsa de estudos e se formado em marketing em Yale. Depois ingressara em Georgetown, a universidade que o pai havia cursado, para complementar sua formação. Armado com uma impressionante coleção de diplomas, Trey ingressou no mercado de trabalho com tanto gosto quanto era possível naquelas circunstâncias. Ir todo dia ao escritório solene era como caminhar para a guilhotina, para uma vida onde tinha que se apartar de sua alma criativa. Por um lado, Trey tinha a sensação de que não era honesto com ele mesmo abrindo mão de seus sonhos. Por outro lado, queria honrar seu legado de família, por isso suportava o tédio e a insatisfação. Mas, no fundo, estava sempre trabalhando em uma estratégia para abandonar tudo e ir atrás de um caminho profissional mais criativo. Logo os dias se transformaram em meses, e com os meses se fundindo em anos, Trey encontrava alegria onde era possível, normalmente em boates masculinas elegantes espalhadas pela cidade. Ao longo dos anos ele foi percebendo que a clientela dessas boates mudou, deixando de ser formada predominantemente por homens executivos com polpudas verbas de despesas


para mulheres executivas que pagavam a conta com cartões platinum pessoais. As mulheres pareciam se divertir tanto quanto os homens com as strippers – se não mais – especialmente quando eram escolhidas para uma lap dance particular. Certa noite ele se sentou em uma área mais afastada da Scores e ficou observando uma mulher de corpo delicioso se contorcer em cima do palco numa dança sensual. Vestida com um minúsculo uniforme branco de enfermeira, a dançarina exibia o traseiro nu por baixo da saia muito curta e executava movimentos individuais com as nádegas, fazendo-as tremer num ritmo rápido. Depois ela se inclinava, deixando os seios enormes transbordarem do decote generoso, hipnotizando a plateia enquanto se despia de maneira sedutora. Aos poucos ela foi removendo cada peça de roupa até estar coberta apenas por uma tanga de látex vermelho e um par de plataformas Lucite de doze centímetros. Então ela enroscou as pernas em um pole cromado e brilhante posicionado no meio do palco e virou de cabeça para baixo. Os seios suculentos e livres de silicone quase tocavam seu queixo, e ela pôs a língua para fora e


começou a lamber os próprios mamilos, enlouquecendo a plateia. Notas de dez, vinte e cem dólares voavam para o palco como se estivesse chovendo dinheiro, e se acumulavam no chão enquanto ela provocava os espectadores. A música chegou ao fim, e todos os homens começaram a disputar sua atenção para uma lap dance, mas ela ignorava os chamados desesperados, dirigindo-se a um grupo de mulheres que, sentadas em uma mesa de canto, bebiam Moët & Chandon. Ela parou diante de uma mulher atraente que se abanava com um cartão AmEx preto. A stripper se inclinou para a frente e cochichou alguma coisa no ouvido da mulher, que sorriu e moveu a cabeça numa resposta afirmativa. Outra música começou, e a stripper iniciou uma dança lenta, girando o quadril e acariciando o próprio corpo. A mulher parecia estar hipnotizada pelos movimentos da stripper. A dançarina segurou os seios fartos com as duas mãos e massageou os mamilos com o polegar e o indicador até endurecê-los. A mulher lambeu o lábio como se quisesse provar o fruto proibido. Sentindo a excitação da espectadora, a stripper roçou os seios no rosto da mulher, posicionando os mamilos eretos


diretamente no lábio inferior da cliente. Ela olhava dentro dos olhos da mulher, convidando-a a se banquetear em seus seios. Incapaz de continuar resistindo à tentação, a mulher entreabriu os lábios devagar e, sedutora, contornou as auréolas da stripper com a ponta da língua. Sentindo que era observada, a mulher ficou acanhada e parou. Com uma ereção completa, Trey observou fascinado quando, invertendo os papéis, a cliente começou a provocar a stripper. A semente de uma ideia começou a germinar enquanto as outras mulheres na mesa passaram a disputar discretamente a atenção da stripper. Havia muitas boates como aquela voltadas para o público masculino, mas nenhuma que atendesse exclusivamente mulheres. Assistindo à cena diante dele, Trey percebeu que as mulheres eram tão estranhas quanto os homens. Essa era a primeira vez que acompanhava uma interação bissexual entre duas mulheres, e de repente estava cheio de ideias. E se abrisse uma boate privada só para mulheres, um lugar onde elas pudessem se dedicar aos prazeres da carne sem serem julgadas? No dia seguinte Trey fez uma pesquisa e descobriu que não existiam na cidade boates dessa natureza voltada


para um público requintado e rico. Estava obcecado, como se de repente a vida pusesse diante dele uma nova oportunidade. Com um negócio próprio, não seria mais forçado a viver à sombra do pai. Finalmente seria dono do próprio nariz! Mas, de certa forma, ainda estava vivendo uma mentira, porque não poderia dizer ao pai que pretendia abrir uma boate erótica para mulheres. Os clubes de strip eram totalmente legais, mas sabia, sem sombra de dúvida que a família desaprovaria com veemência e ordenaria que abandonasse a ideia, por isso Trey decidiu ficar de boca fechada até o momento oportuno. Havia economizado dinheiro para investir em uma propriedade e tinha uma boa soma guardada. Ele telefonou para o corretor e disse que estava procurando um prédio de três andares, de preferência em Washington Heights, um bairro sobre o Harlem primariamente habitado pelos yuppies que se moviam para o norte em bandos. Ele queria a boate fora do radar (já que pretendia promover outras atividades além de strip), e pensava que, se a instalasse em uma área de pouco movimento, não atrairia atenção indesejada. Em


poucas semanas o agente encontrou o imóvel perfeito, um prédio comum em um quarteirão tranquilo. Trey esvaziou sua poupança para a reforma e, em poucos meses, o que antes havia sido um prédio vazio agora era um covil de iniquidade. A única mudança que ele fez na fachada foi trocar a porta, agora de carvalho e pintada com verniz preto e brilhante, mas Trey não economizou no interior. O saguão era revestido de delicadas folhas de ouro importadas de Florença, com um lustre de cristal de oito camadas pendendo do teto. No lugar das costumeiras lâmpadas brancas, porém, a iluminação era azul cobalto, projetando um brilho sedutor sobre a entrada, estabelecendo o tom do que estava por vir. Havia dois salões no andar principal; um para mulheres mais velhas que só queriam beber xerez na presença de homens bonitos e seminus que mantinham seus copos sempre cheios. A segunda sala servia como entrada para a terra da decadência. Equipada com uma escada secreta que levava ao andar de cima e a atividades mais sérias, essa sala – com um bar de champanhe e caviar, uma fonte de vodca ornamentada em ouro e jorrando Belvedere gelada – preparava as clientes para uma noite inesquecível de prazer carnal.


No começo Trey comandava a boate à noite, mantendo o emprego diurno, mas tudo isso havia mudado quando seu pai decidiu vender a empresa para um grande conglomerado, alegando que o momento e o dinheiro eram oportunos. Trey ficou chocado, mas satisfeito, porque ficou com uma parte do dinheiro da venda. Com os dias tediosos de trabalho no escritório ficando para trás, ele então ficou livre para dedicar toda sua atenção à Black Door. Para garantir o anonimato das associadas, Trey teve a brilhante ideia de desenhar uma máscara elaborada para cada membro. Ele conhecia cada nova associada pessoalmente, para sentir sua personalidade, e depois desenhava uma máscara baseada em suas características mais ocultas. Algumas mostravam ao mundo a aparência de uma flor delicada, mas, na verdade, eram tigresas esperando quem as libertasse das correntes. Para esse tipo ele desenhou uma máscara com dramática plumagem dourada e acabamento de pedrinhas brilhantes e cintilantes olhos de tigre. Trey também criou uma máscara de couro preto com ônix facetadas para ele mesmo, para as noites em que perambulava pela boate procurando um pouco de


diversão. Finalmente havia encontrado um jeito de combinar seus talentos criativos com o tino comercial. Ele abandonou a papelada, contornou a mesa e foi examinar o conteúdo da caixa sobre a cadeira. Dentro dela havia novas máscaras para substituir aquelas das associadas antigas, e também máscaras para novas clientes. Trey criava o protótipo, mas as máscaras eram feitas à mão em Chinatown por um grupo de avós asiáticas. Ele pegou uma máscara de couro vermelho que pertencia a uma associada em posição privilegiada, removeu a embalagem de plástico e ajeitou as penas vermelhas de avestruz que adornavam as laterais. – Cara, isso é interessante. Trey se virou e viu um de seus empregados mais importantes parado na porta. – Ei, e aí? Mason entrou no escritório e cumprimentou Trey informalmente. – Tudo bem, estou aqui tentando tirar um dólar de quinze centavos. – Ele riu. – Bem, sempre que quiser voltar a trabalhar nos salões da Black Door, é só me avisar. Ainda recebo


solicitações dos seus serviços. Não sei o que fez com aquelas mulheres, mas o que quer que tenha sido elas nunca se cansam. – Eu tenho o toque mágico. – Ele balançou os dedos no ar. – O que posso dizer? – Diga que vai voltar a trabalhar como servidor. – Cara, por mais que eu ame as mulheres, elas estavam me matando. – Mason sorriu um sorriso radiante. – Quero dizer, as mais velhas eram ainda piores que as mais jovens. Elas conseguiam passar a noite toda naquilo! – Ele balançou a cabeça, pensando no encontro que tivera há algumas noites. – Deve haver algum tipo de Viagra feminino no mercado, e os homens não sabem disso. – Bem, não dá para dizer que você não soube lidar com a pressão. Pelo que me disseram, correspondeu às expectativas e foi além de todas as fantasias. Não tenho dúvida de que as mulheres adorariam se você decidisse voltar a servi-las com sua magia. – Obrigado pela oferta, mas gosto de ser acompanhante. É muito mais fácil. Eu saio com elas, escuto suas histórias, flerto um pouco e, de um jeito inocente, termino a noite com um sensual beijo no rosto


e volto para casa. Além do mais, ser acompanhante me deixa com mais tempo para estudar. – É verdade, em pouco tempo vou ter que chamar você de Dr. Anthony. – Acredite, já é hora. Mal posso esperar para começar a ganhar dinheiro. A faculdade está abrindo um buraco nos meus bolsos. – Queria dizer que só conseguia pagar porque tinha um serviço garantido e alguém que era generosa com o dinheiro. Mas não queria correr o risco de aborrecer o chefe, por isso ficou de boca fechada. Não estava exatamente roubando a empresa, mas sabia que Trey não ia gostar de saber que ele prestava serviços sexuais a uma cliente fora da boate. No entanto, não era da conta de Trey. As clientes eram livres para gastar com quem quisessem. – Posso imaginar – Trey respondeu solidário. – Bem, não esqueça que você ganha uma comissão para cada mulher que você acompanhar e se associar à Black Door, e pelo que está dizendo, você precisa do dinheiro extra. – Na verdade, foi por isso que vim. Há algumas noites atendi uma cliente que se encaixa perfeitamente no perfil de associada. Ela é uma profissional de sucesso,


sexy, mas, mais importante, senti que ela está precisando de uma boa trepada. Cara, a mulher estava tão tensa que pensei que ela ia quebrar uns dois copos. Quando entrei no carro, ela me fez decorar uma história falsa, caso as pessoas me fizessem perguntas durante a noite. É claro, fui o cavalheiro perfeito diante de seus amigos perfeitos. Percebi que ela gostou da minha companhia, e ao fim do encontro deixei com ela um cartão da Black Door. Queria saber se ela telefonou. – Mesmo com a garantia financeira de uma cliente fixa, ainda queria a comissão pela indicação. Se a mulher se associasse, ele teria direito a uma boa quantia em dinheiro. – Algumas mulheres nos procuraram ontem à noite. Como é o nome dela? – Renée Vaughn. Trey pensou por um momento. – Não, ninguém com esse nome, mas não se preocupe. Se ela está sexualmente frustrada como você diz, tenho certeza de que é só uma questão de tempo até passar pela soleira da Black Door.


6

Correndo de um aposento ao outro, Ariel se movia pelo apartamento induzida pela mais pura adrenalina. Havia tirado a tarde de folga por insistência de Preston e tentava freneticamente fazer a mala para ir passar o fim de semana em Washington. Ele chegaria para pegá-la em vinte minutos, e ainda não havia decidido o que levar para o encontro de dois dias. Devia estar irritada com o convite de última hora, mas estava animada demais para isso. Preston havia telefonado de manhã tentando se redimir por ter dormido no sofá ao lado dela algumas noites atrás, dizendo que queria compensá-la com um fim de semana cheio de jantares à luz de velas e muito sexo. Seria a chance perfeita para terem um tempo de qualidade juntos. Então, Ariel agarrou o galho de oliveira com as duas mãos, querendo desesperadamente reviver a estagnada vida amorosa do casal. Preston tinha um compromisso às oito horas do sábado, um café da manhã com o Senador Oglesby, mas as tardes e noites


seriam todas dela. E Ariel planejava tirar proveito máximo dessas quarenta e oito horas, por isso decidiu levar dois dos utensílios favoritos de Preston, uma camisola de seda fúcsia e chinelos de penas de avestruz da mesma cor e salto alto. Enquanto continuava fazendo as malas, ela sentiu um forte alívio por não ter feito a ligação para a Black Door, afinal. Havia digitado o número e ouvido o telefone tocar, mas entrara em pânico e desligara rapidamente antes de alguém atender. Havia percebido que o telefonema era só uma reação impulsiva à falta de atenção de Preston. Agora que voltara à primeira página de sua agenda, podia jogar fora o número do telefone da boate e esquecer a fantasia passageira de se tornar uma associada. O celular de Ariel tocou quando ela guardava na valise um par de sapatos pretos de salto agulha. – Ei, meu bem, onde você está? – ela perguntou depois de examinar o número no visor. – Aqui embaixo. Está pronta? – Preston falava ofegante como se tivesse pressa. – Sim, estou – ela respondeu com um sorriso na voz, esperando que, dessa vez, ele captasse o duplo sentido.


– Bem, se apresse – Preston respondeu sério, sem sequer registrar o comentário. – E não traga uma arca cheia de roupas; vamos ficar fora apenas por dois dias – ele lembrou, sabendo que Ariel sempre fazia malas enormes. – Tudo bem – ela falou e desligou. Ariel fechou o zíper da grande valise Prada, espirrou Enjoy no pescoço para despertar os sentidos de Preston e se dirigiu à porta. Sentindo-se como se tivesse gás hélio nas veias, ela desceu ao piso térreo como se flutuasse sobre uma nuvem. Finalmente teria seu homem só para si, sem distrações desnecessárias, e estava mais que eufórica. A limusine preta de Preston estava parada na frente do prédio. Ariel se sentia uma Cinderela esperando para embarcar na carruagem dourada. O motorista saltou prontamente e a cumprimentou com um sorriso, segurando sua valise e abrindo a porta de trás do automóvel. – Ei, benz... – As palavras de Ariel ficaram presas na garganta quando ela se deparou com a cena dentro do carro. No banco de trás havia uma jovem e atraente desconhecida, e ela estava sentada perigosamente perto


de seu homem! – Aí está você. Por que demorou tanto? – Preston perguntou, irritado e quase sem olhar para ela. Ariel estava tão perplexa que não sabia o que dizer. Tinha um milhão de perguntas. Quem é essa mulher? O que ela está fazendo aqui? O que houve com nosso fim de semana romântico, só nós dois? Mas as palavras não saíam; ficavam presas em algum lugar entre o cérebro e a laringe. Sem fala, ela se sentou no banco diante deles e viu horrorizada Preston continuar falando como se nem estivesse ali. – O senador quer pôr a bola em jogo o quanto antes, por isso preciso que faça uma cópia completa do meu dossiê. – Ele entregou à mulher um envelope amarelo. – Aqui estão alguns dos casos mais importantes dos meus anos na bancada e alguns casos famosos do meu tempo de prática privada. A mulher misteriosa não respondeu de imediato; apenas olhava de Ariel para Preston e de volta, como se questionasse o papel de Ariel. Preston notou seu olhar desatento e percebeu imediatamente sua hesitação. E falou:


– Michele, deixe-me apresentar Ariel Vaughn, minha... Michele o interrompeu: – Sua advogada, é claro. – Reconhecendo o nome de Ariel do Law Review em Columbia, ela sorriu com simpatia. – Li sobre sua indicação para sócia da Yates Gilcrest. Muito impressionante! Yates é uma empresa muito antiga, estou surpresa por eles... – Não sou advogada dele – Ariel a interrompeu. – Sou namorada de Preston – ela afirmou com segurança, depois o encarou esperando a confirmação. Ao ver a veia saliente no meio da testa de Ariel – sinal claro de que ela estava furiosa – Preston soube que ela estava mais do que aborrecida, mais do que estressada, à beira de romper uma artéria. E começou a recuar em alta velocidade, falando depressa para evitar um confronto. – Ariel, deixe-me apresentar Michele Richards, minha nova assistente. Ela se formou recentemente em Columbia e eu a contratei na semana passada para me ajudar com minha iminente indicação à Suprema Corte. Ariel ficou ali sentada com uma expressão neutra, sem dizer nada; apenas olhava para Preston com a veia se


tornando ainda mais proeminente. Não conseguia acreditar que ele havia contratado uma assistente sem informá-la antes. Ultimamente, Preston parecia estar distante. Antes ele discutia tudo com ela, dos casos no tribunal aos problemas com a ex-esposa; a franqueza era uma das qualidades que mais apreciava nele. Ariel estava zangada, mas não queria criar uma cena por causa da evidente omissão. Então, apenas ficou ali sentada e quieta, deixando a expressão falar alto. Preston continuou: – Ariel, lembra-se do Juiz Richards? Ela sorriu sem entusiasmo e assentiu. Conhecia Michael Richards desde seu tempo como assistente administrativa legal. Acompanhara a carreira dele nos jornais de direito e o admirava muito. – Bem, quando Mike telefonou e disse que essa garotinha estava procurando emprego, pensei que não havia motivos para não contratar Michele como minha assistente pessoal. Como minha indicação ainda não é oficial, tenho que manter as coisas em segredo; portanto, não posso pedir à minha secretária no escritório para se encarregar dos tediosos detalhes que precedem o processo


de confirmação, não é? – Ele assentiu para Ariel esperando que concordasse, e quando ela continuou quieta, Preston prosseguiu: – E Michele se encaixa perfeitamente no perfil. – E sorriu. Ariel olhou para os mamilos salientes da jovem embaixo do suéter justo e pensou: Aposto que sim! – Ariel sabe tudo que há para saber sobre mim. Não há segredos entre nós, por isso, por favor, pode falar com franqueza – ele instruiu a nova assistente. Michele sorriu para Ariel sem muita simpatia, baixou os olhos para o bloco de anotações e começou a falar como se ela fosse invisível: – Depois do café da manhã com o senador, marquei um almoço no Ritz-Carlton em Georgetown com alguns membros importantes do Comitê Judiciário do Senado. Eles conhecem sua reputação, mas não o conhecem pessoalmente, e achei que seria uma boa ideia ter um encontro não oficial antes de tudo começar de verdade. É crucial que faça amizade com eles e crie uma boa impressão. Almoço? Preston não havia falado nada sobre um almoço de negócios, Ariel pensou enquanto mordia o lábio inferior. Queria Preston só para ela e chegou a


abrir a boca para protestar, mas não queria soar como uma colegial apaixonada e insegura. Em vez disso, concentrou sua atenção no esforço de bloquear a conversa entre eles até chegarem ao aeroporto. Presumia que Michele só os acompanharia até o LaGuardia; depois o motorista levaria a assistente supereficiente de volta à cidade. Ariel apoiou o queixo na mão e prestou atenção aos carros que mudavam de uma faixa para outra numa tentativa fútil de ganhar alguns metros no trânsito. Este não é o caminho para o LaGuardia, ela pensou, notando que o motorista atravessava a Ponte George Washington e seguia para o oeste, para New Jersey. Acho que vamos decolar de Newark. Com o carro se afastando mais e mais da cidade, o cenário mudava de prédios altos para construções cinzentas e utilitárias e horríveis chaminés. Ariel via as placas passando até estarem a duas saídas do aeroporto, quando poderia finalmente escapar da voz irritante e persistente da prestativa assistente de Preston. A mulher não fechava a boca desde que saíram da cidade. Ela despejava nomes numa sequência alucinante, obviamente tentando impressionar o novo chefe. Ariel cruzou as pernas e balançou a que estava por cima numa demonstração


clara de sua ansiedade para chegar ao terminal. “Newark International Airport, próxima saída”, ela leu. Ariel suspirou aliviada, sentindo que a salvação estava a poucos quilômetros de distância. Mas, antes que pudesse soltar o ar que havia inspirado no suspiro, a limusine já havia passado direto pela saída. – Motorista... motorista... – Ariel batia persistente na divisória de vidro que separava a parte da frente do automóvel da área dos passageiros, tentando chamar sua atenção. – Você perdeu a saída. Ele abaixou a janela divisória. – O que disse, senhora? – perguntou com tom gentil e forte acento do sul. Ariel torceu a metade superior do corpo para olhar para o motorista e falou pela divisória: – Você passou direto pela saída para o aeroporto! Ignorando o tom urgente, ele respondeu tranquilo: – Mas, senhora, não vamos para o aeroporto. – Como não? O que está dizendo? – Ela encarou Preston. – Não vamos para Washington? – Sim. Chegamos lá em três horas e meia, mais ou menos, se o trânsito ajudar – respondeu a assistente


supereficiente. – Três horas e meia? – Ariel gritou. – Sim, dependendo do trânsito – Preston repetiu calmo. – Trânsito? – Ariel ainda não entendia. – Pensei que íamos de avião para Washington. – Íamos, mas Michele achou que poderíamos trabalhar mais no carro. – Exato – Michele confirmou. – Com o tempo que teríamos levado para fazer o check-in e passar pela segurança, que é extremamente severa na capital do país, poderíamos repassar toda a agenda de Preston para a indicação. Preston? Ela acabara de chamá-lo de Preston? Ariel estava lívida, e já sentia a veia no meio da testa pulsando outra vez. Como essa jovem sabe-tudo se atreve a invadir o nosso fim de semana, agindo como se tivesse intimidade para chamar meu homem pelo primeiro nome! Ariel sabia que teria que pôr a Sra. Assistente Pessoal em seu devido lugar, pois assim evitaria mal entendidos no futuro. Ela olhou nos olhos de Michele sem piscar e disse com toda firmeza:


– Tenho certeza de que pretendia se referir a Preston como Juiz Hendricks. Afinal, ele será um juiz. E só devemos tratar pelo primeiro nome os amigos próximos e membros da família, coisas que vocês não são. Michelle piscou duas vezes, como um animal assustado. – Oh... oh... – ela gaguejou. – Não tive a intenção de parecer desrespeitosa. É que nos tratamos pelo primeiro nome desde o início – contou, tentando explicar. Ariel olhou para Preston com evidente desaprovação, e depois continuou: – Bem, deixe-me expor aqui um fato bastante conhecido. Washington é protocolo, e sugiro que se habitue a chamar Preston de Juiz Hendricks de agora em diante. Michele não sabia o que dizer. Sentia-se como se houvesse levado um duro sermão da mãe, por isso se limitou a assentir concordando. – Relaxe, Ariel. Não me importo por ser chamado pelo primeiro nome – Preston revelou, saindo em defesa de Michelle. – Bem, eu me importo – ela disparou, cruzando os braços numa indicação clara de que não recuaria nem


um milímetro em sua posição. – Tudo bem, eu entendo perfeitamente – Michele interrompeu animada, quebrando a tensão. – Agora, onde estávamos? – perguntou, pronta para continuar com a sessão de estratégia. Ariel estava tão zangada que queria parar o carro e descer, mas isso estava totalmente fora de questão. Então, ela se reclinou no assento de couro e fechou os olhos tentando bloquear a presença dos dois. Em pouco tempo ela dormia profundamente. Seus sonhos curtos eram uma série de libidinosas escapadas sexuais. Em um sonho, era acariciada por dois homens, um cavalheiro mais velho que a lambia até quase o clímax com sua língua extremamente longa, e um homem mais jovem com um pênis de vinte e cinco centímetros, que a penetrava e cavalgava como se fosse um puro-sangue, até ela explodir em êxtase. No sonho seguinte, ela e Preston estavam nus no banco de trás da limusine, e ele a penetrava com força por trás, enquanto Michele, sem blusa, os observava e se masturbava, esperando sua vez de ser penetrada por ele. O sonho acordou Ariel, e ela abriu os olhos assustada.


– Ei, Bela Adormecida – Preston sorria. – Tudo bem? Ela o encarou de um jeito estranho. – Como assim? – Você estava dormindo e gemendo como se sentisse dor. A lembrança dos sonhos eróticos a fez corar. – Estou bem, obrigada. – E olhou pela janela. – Falta muito para chegarmos? – Não, logo estaremos no Georgetown Hilton – Michele respondeu. Ariel estava úmida e mal podia esperar para ficar sozinha com Preston, transformar o sonho em realidade. Quinze minutos mais tarde, o carro parava na frente do hotel. – Esperem alguns minutos enquanto cuido do check-in – Michele anunciou e desceu do carro ansiosa para mostrar serviço. Finalmente ela está fazendo alguma coisa de útil, Ariel pensou, e se aproximou de Preston. – Ei, benzinho. – Ela o beijou nos lábios. – Mal posso esperar para chegar ao quarto. – Eu também. Estou exausto. – Ele estendeu os


longos braços e bocejou. Ariel enfiou a mão entre suas pernas, encontrou o membro flácido e começou uma massagem delicada. – Espero que não esteja cansado demais. Preston sentiu uma descarga de eletricidade, mas se afastou. – Pare, Michele vai voltar. Ariel não parou. Em vez disso, aumentou a pressão até sentir que ele crescia sob sua mão. Então acionou as travas automáticas das portas do carro, se precavendo para o caso de Michele voltar antes do que era esperado. Depois abriu o zíper da calça de Preston, libertando seu pênis ereto. – O que está fazendo? – Preston perguntou, tentando em vão protestar, apesar do prazer provocado pelo toque de Ariel. Ela não disse nada, nem uma palavra, apenas se inclinou e pôs o membro na boca. E sugou com força, acariciando a ponta do pênis com a língua. Preston arfava. – Ah, sim... – Ele cedeu rapidamente ao prazer, mudando de posição para ela poder devorar todo seu


membro. Ariel aumentou o ritmo até sua cabeça balançar para cima e para baixo como a de uma galinha. Quando estava perto de levar Preston ao clímax, Michele puxou a maçaneta da porta pelo lado de fora, tentando entrar no carro. – Ah, merda! – Preston tirou o membro da boca de Ariel. – Pare antes que ela nos veja. – Ela não pode enxergar o interior do carro. As janelas são escurecidas, lembra? – Ariel respondeu, agarrando o membro ainda ereto. – Deixe-a esperar; ainda não terminei. Preston se afastou e enfiou rapidamente o pênis dentro da calça, ajeitou a gravata e destravou as portas. A cabeça de Michele surgiu na área de trás da limusine e ela olhou para os dois de um jeito estranho, tentando entender por que haviam trancado a porta. Preston parecia nervoso e Ariel parecia frustrada, mas ela não comentou nada sobre o que via, apenas disse: – Tudo resolvido. – E entregou a Preston um cartão magnético que era a chave da porta. – Vocês estão no quarto 25C – acrescentou antes de se virar para voltar ao hotel.


– Obrigado, Michele. Até amanhã. – Preston saiu do carro e ajudou Ariel a descer. Assim que entraram na suíte, Preston se aproximou da mesa de carvalho, abriu sua pasta e começou a tirar dela vários papéis. – Preciso mandar este fax para o gabinete do senador, para ele poder ler o documento antes da nossa reunião – explicou. – Michele não pode cuidar disso? – Ariel perguntou em voz baixa enquanto desabotoava a blusa. – Esqueci de deixar os papéis com ela. Além do mais, como tenho aqui a informação, posso resolver eu mesmo – Preston concluiu, inserindo a primeira de muitas páginas na máquina de fax. Ariel despiu a blusa e a saia. Vestida apenas com uma tanga e um sutiã transparente, ela caminhou para Preston. – Isso não pode esperar alguns minutos, benzinho? – E desabotoou o sutiã, deixando os seios livres. Ariel os acariciou. – Você não morde estes dois há tanto tempo, que eles estão começando a se sentir negligenciados. Preston olhou para os mamilos túrgidos e sentiu a ereção voltar. Excitado, ele a puxou para perto e começou a sugar os mamilos. Deixando a pilha de folhas de papel


sobre a mesa, Preston abriu o zíper da calça. Há semanas não faziam amor, e queria muito se sentir dentro dela. Mas o telefone tocou, interrompendo o momento de paixão. – Não atenda. Seja quem for, vai ligar novamente – Ariel murmurou no ouvido dele. Preston se sentia tentado a deixar a secretária eletrônica atender o chamado, mas não devia. – Preciso atender, pode ser o senador. – Ligando a esta hora? – Ariel perguntou franzindo o cenho. – Lamento, meu bem, mas preciso atender, pode ser – ele disse, empurrando um pouco para trás. – Alô? Sim, eu os tenho bem aqui – ele disse, virando-se para pegar os papéis. – Não... tudo bem, eu mesmo mando por fax. Tudo bem, até amanhã. – E se virou novamente para Ariel, que tinha os braços cruzados sobre o peito. – Era Michelle, ela... – Eu ouvi – Ariel o interrompeu. – Não fique brava, benzinho, mas eu realmente preciso enviar esse documento. O senador precisa dele para a nossa reunião amanhã cedo – explicou,


concentrando-se na tarefa. Ariel estava tentando não perder a paciência, mas o documento tinha vinte e cinco páginas, pelo menos, e estava demorando muito, e o fato de a máquina de fax ser ultrapassada também não ajudava muito. Depois de quinze minutos, ele finalmente acabou, e Ariel deduziu que retomariam de onde haviam parado, mas Preston pegou o telefone para fazer uma chamada. – Para quem vai ligar agora? – Michele. Preciso pedir a ela para imprimir uma confirmação de recebimento. Quero ter certeza de que o documento foi recebido do outro lado. Ariel se aproximou da máquina e olhou para os vários botões. Ela era diferente da outra que havia no escritório, e não tinha ideia de como obter o relatório de trânsito. Por isso começou a apertar um botão depois do outro, sem conseguir nada, até que de repente a máquina começou a apitar alto. – O que você fez? – Preston perguntou, aparentemente aborrecido. – Estava tentando obter o relatório de confirmação, mas devo ter apertado o botão errado – ela respondeu, ainda atacando a máquina.


– Michele, pode vir até aqui? Temos um problema – ele gritou pelo telefone para se fazer ouvir em meio ao barulho. – Não precisamos dela, vou desligar esta coisa e resolver tudo – Ariel anunciou, procurando o botão de ligar e desligar. A última pessoa que queria ali era a nova assistente de Preston. – É melhor vestir alguma coisa, ela está a caminho – ele avisou, desligando o telefone e fechando o zíper da calça. Vendo Preston recuperar a compostura, Ariel se sentiu repentinamente suja por estar ali parada como uma prostituta nua, como Eva tentando convencer Adão a provar o fruto proibido. Instintivamente, cobriu os seios nus com os dois braços. – Talvez eu deva simplesmente voltar para casa, deixar você se concentrar no trabalho. Estou me sentindo um estorvo. – Você não está atrapalhando, benzinho. Só preciso me concentrar nas reuniões que Michele marcou para o fim de semana. Sei que prometi que teríamos dois dias românticos, e no início era mesmo só uma reunião com o senador, mas Michele conseguiu programar os almoços – ele explicou se desculpando.


– Se eu soubesse que você ia ficar ocupado o tempo todo, teria ficado em casa. – Esse era um território novo para Ariel. Ao longo do relacionamento, Preston sempre a tratara como uma princesa, sempre fora dedicado e atencioso. Agora a “princesa” parecia estar prejudicando seu trabalho. Sabia quanto ocupar essa posição na bancada era importante para Preston, ainda sentia um pouco de ciúme de toda a atenção que ele dedicava ao processo. A aparente negligência a fez se sentir novamente como uma garotinha. Tinha essa mesma sensação sempre que a mãe de criação passava mais tempo com uma nova criança que havia entrado na família, em vez de ficar com ela. Ariel recolheu as roupas do chão e foi para o banheiro. Decidida a voltar para Nova York, ela fez reserva em um voo que partiria na manhã seguinte. Parte dela – a parte da profissional madura – entendia a ambição de Preston, mas outra parte – a criança insegura – queria sua atenção integral. Como não podia ter as duas coisas, ela achava melhor ir embora e deixar Preston se dedicar à verdadeira razão de sua visita.


O telefone estava tocando quando Ariel entrou em casa em Nova York. Pensando que podia ser Preston, ela atendeu sem demora. – Alô? – Onde é o incêndio? – Meri perguntou, captando a ansiedade em seu tom de voz. – Ah, oi, Meri – Ariel respondeu desanimada, decepcionada por não ser Preston. – ‘Ah, oi, Meri?’ É assim que você cumprimenta sua velha amiga? Qual é o problema? – ela perguntou, sentindo problemas no paraíso. – Nada sério – Ariel respondeu sem ânimo. – Ah, não me venha com essa. Tem alguma coisa errada. Posso ouvir na sua voz. – É que Preston está tão ocupado que não tem mais tempo para mim. – Ariel contou os detalhes do dia anterior e falou sobre a nova assistente do namorado. – Querida, você precisa extravasar a pressão sexual que está acumulando há meses e se associar à Black Door. Assim vai dar a Preston o espaço que ele quer e, ao mesmo tempo, vai satisfazer suas necessidades. Ariel pensou nisso por um momento. – Não posso trair Preston, não seria certo.


– Bem, pelo menos vá dar uma olhada nos colírios. Pelo que me contou, Preston tem banqueteado os olhos com a nova assistente sensual. – Você está certa, mas não posso me submeter àquele rigoroso processo de triagem, especialmente agora, com Preston tentando chegar à Suprema Corte. A última coisa que preciso é de investigadores descobrindo que sou sócia de um clube sexual. Já houve o Escândalo da Babá, e eu odiaria que houvesse um Escândalo do Sexo por minha causa. Essa descoberta seria suficiente para acabar com as chances dele. – Hummmm... – Meri respondeu enquanto pensava. – Tenho a ideia perfeita. Como todas as associadas usam máscaras para cobrir o rosto, por que não pega a minha emprestada e vai ao clube como se fosse eu? – Tem certeza? – É claro que sim. Essa é a solução perfeita. No momento, você precisa dos serviços do clube mais do que eu. Vou mandar minha máscara por um mensageiro ainda hoje, minha senha e o endereço da boate. Você só precisa fornecer a senha na porta para ser admitida. Ariel relutava um pouco, mas a tensão sexual


acumulada realmente era grande, grande demais para recusar a oferta generosa da amiga. Ver uma sala cheia de homens sexy era, provavelmente, tudo de que precisava para reduzir seu fogo até Preston voltar a prestar atenção nela. – Obrigada, Meri. – Não me agradeça agora. Deixe para me agradecer depois da primeira visita que fizer. Ariel estava nervosa e começou a andar pelo apartamento enquanto esperava pelo mensageiro com a encomenda especial.


7

Ariel não podia acreditar que estava no ambiente de iluminação suave da entrada da Black Door. Havia passado pela porta e se preparava para entrar no salão principal. Meri havia colocado um bilhete na caixa com sua máscara de couro vermelho, e nele explicara o layout da boate. Ela escrevera que a entrada para o segundo andar, onde aconteciam os festivais carnais, ficava no salão à esquerda, atrás de um par de cortinas de veludo cor de rubi. Estava nervosa, e o porteiro grandalhão, sentindo sua aflição, tentara fazê-la relaxar com um breve estímulo antes dela entrar na sala principal. Ele se aproximara por trás e, com suavidade, havia deslizado a mão por sua coxa exposta. De início Ariel reagira com tensão ao toque inesperado, mas, quanto mais ele a acariciava, mais ela começava a apreciar a sensação da mão quente sobre a perna. Ao sentir que ela estava confortável com seu toque, o porteiro subira a mão da


coxa para o início de sua tanga, mas não parou ali. Antes que ela pudesse protestar, os dedos estavam dentro de sua calcinha, brincando com seu clitóris. Ariel queria gritar Pare, mas o toque era tão bom – nem áspero, nem muito suave – que se tornava perfeito. Ela fechou os olhos e desfrutou da sensação. Quando estava bem perto do orgasmo, o porteiro sussurrou em seu ouvido: – Agora você está pronta para a Black Door. Quando ele a soltou, Ariel se sentiu um pouco tonta, surpresa com o tratamento recebido, e cambaleou para a porta do ambiente mais interno. Percebendo que estava prestes a entrar em um mundo sobre o qual nada sabia, ela se sentiu nervosa novamente. Ariel pôs a mão trêmula sobre a bela porta de mogno, inspirou e a abriu lentamente. A opulência da sala a deixou perplexa. Esperava ver uma decoração moderna e decadente, mas havia sofás de estofamento escarlate e seda dourada, com uma grande variedade de almofadas decorativas espalhadas pelo ambiente, acompanhando o perímetro da sala. Um lustre de cristal de seis camadas com suaves lâmpadas ocres pendia do teto, projetando um brilho sexy sobre o salão. Havia um grupo de mulheres mascaradas e sumariamente vestidas reunido em torno de


uma fonte ornamentada no centro do salão, bebendo e socializando com alguns homens, os chamados servidores. Ela só conseguia ver a metade inferior dos rostos, mas, tomando por base a celulite nas coxas, os seios flácidos e a coluna encurvada de uma mulher, Ariel presumiu que ela estava próxima dos sessenta anos de idade. A mulher parecia confortável em sua negligee transparente, bebendo champanhe e flertando descaradamente com um homem alto, musculoso e mascarado, coberto apenas por uma meia máscara e um short justo de couro que enfatizava o desenho do pênis. O rosto de Ariel expressou choque sob a máscara quando ela viu a mulher enfiar a mão dentro do short do homem e, ousada, acariciar seu membro. Depois de provocar um início de ereção, a mulher removeu a mão, lambeu os dedos e levou o rapaz pela mão para longe do grupo. Aposto que eles vão subir a escada para continuar, Ariel pensou, vendo-os desaparecer atrás da pesada cortina vermelha. Ela não conseguia acreditar na energia sexual que pairava no ar; todos ali pareciam estar tocando alguém, menos ela. Caminhando em direção à fonte, ela decidiu: Preciso de um pouco de coragem líquida. Ariel pegou


um copo de uma bandeja de prata e o encheu em uma das bicas. Ao provar a bebida, ela se surpreendeu com o sabor da vodca gelada. Havia presumido que fosse uma típica fonte de champanhe, mas devia ter imaginado outra coisa, porque nada nessa boate era típico. No momento em que passara pela porta preta da boate, tudo havia se transformado completamente. Meri havia dado a ela o layout interno do lugar, mas não a preparara para aquele mundo de erotismo. Não esperava que o porteiro a deixasse molhada com um simples olá – apesar de ter gostado do contato – nem imaginara testemunhar uma demonstração aberta de preliminares. Não era uma puritana, mas seus padrões não podiam ser comparados aos da Black Door. Ariel deixou o líquido claro e gelado passar por entre os lábios e repousar sobre a língua; a suave, importada e destilada vodca polonesa escorregou pela garganta e subiu diretamente à cabeça. Quando terminou de beber a primeira dose, ela se sentiu um pouco tonta, mas ainda nervosa. Ariel encheu o corpo novamente, esperando afogar a ansiedade que sentia em seu estômago.


– Relaxe. Apenas relaxe. Ninguém sabe quem você é – ela cochichou por baixo da máscara. Ariel se sentia grata pelo escudo decorativo que escondia sua identidade. Continuava dizendo a si mesma que seu segredo estava seguro e que podia relaxar e apreciar o que via. Afinal, era por isso que estava ali. A segunda dose deu a ela a coragem de se aventurar atrás da cortina de veludo e subir uma escada encurvada para o segundo andar. O som do trompete de Miles Davis tocando um jazz hipnótico a recebeu quando ela terminou de subir. Esse andar era bem mais escuro que o primeiro piso, e ela piscou duas vezes, tentando ajustar os olhos à iluminação azul índigo. O carpete grosso abafava o barulho dos saltos enquanto ela percorria lentamente o longo e estreito corredor. Na metade do caminho, ela parou diante de uma grande janela panorâmica. Era estranho encontrar uma janela recortada em uma parede interna. Ariel ficou boquiaberta ao espiar pelo vidro. O que via a encheu de incredulidade; do outro lado havia uma mulher, deitada sobre uma cama king size com os braços abertos como as asas de uma águia. As pernas envolviam a região mediana do corpo de um homem


com um traseiro rígido e de pele brilhante, e ele a penetrava e se movia com vigor. Outro homem estava ajoelhado ao lado dela, balançando o membro sobre sua boca, enquanto ela punha a língua para fora tentando lamber a ponta do pêndulo. A mulher esticou o pescoço para a frente, capturou a serpente rígida entre os lábios e sugou freneticamente como se tentasse extrair seu veneno. Ariel tinha o nariz tão perto do vidro que o embaçava com sua respiração. Jamais vira um trio antes, e a ação dois em uma a deixava excitada. Rapidamente, ela limpou a condensação com a manga do vestido antes de alguém perceber. – Não se preocupe. É um espelho unilateral. Você pode vê-los, mas eles não podem ver você – explicou uma profunda voz de barítono. Ariel não só sentia a respiração úmida e morna na orelha, mas também sentia o mastro rígido em seu traseiro. Quem quer que estivesse atrás dela, estava tão perto que os corpos se colavam na posição de conchinha, porém na vertical. Ele cochichou: – Essa é a Sala do Voyeurismo, mas se não gosta de


olhar, podemos viver nossa própria ménage à trois com privacidade. – Ele pressionou o corpo contra o dela. Ariel nunca havia tido uma experiência com mais de uma pessoa, exceto em sonhos. O convite era tentador, mas não estava pronta para pôr em prática suas fantasias, ainda não, pelo menos. Queria dizer não, mas estava apreciando o momento, e não queria que ele afastasse o corpo firme do dela. O desconhecido a enlaçou pela cintura. – Vamos. Prometo que não vai se arrepender. – Não dessa vez – ela finalmente falou, afastando-se dele. Só estava ali para “dar uma olhada”, mas estava tão excitada que podia acabar dando mais que uma olhada. De qualquer maneira, queria ver mais do que o clube tinha a oferecer antes de agarrar a primeira oportunidade. Ela seguiu em frente pelo corredor escuro, ouvindo os gemidos que soavam atrás das portas fechadas. Os sons hedonistas de prazer aumentavam sua excitação. Talvez eu devesse ter aceitado a oferta , ela pensou e olhou para trás, mas o homem mascarado havia desaparecido.


Quando Ariel olhou para a frente de novo, ela se chocou contra uma mulher curvilínea vestindo uma tanga prateada, máscara da mesma cor e mais nada. Os seios grandes eram firmes e eretos, sem dúvida recheados de silicone. Parada na frente dela, mamilo a mamilo, a mulher olhou para o contorno dos seios de Ariel através do tecido fino que os cobria e lambeu os lábios. – Belos seios. Quem fez? – ela perguntou sem nenhum pudor. – Como? – Ariel devolveu surpresa, sem entender o sentido da pergunta. – Os meus foram feitos pelo dr. Braxton, na Quinta – ela contou, massageando de maneira sensual os dois seios. – A sensação é natural e deliciosa. – Ela pegou a mão de Ariel e a pôs sobre um seio. – Não é? Ariel não sabia o que fazer. Jamais havia tocado os seios de outra mulher antes, por isso apenas ficou ali parada, paralisada pelo choque. – Não seja tímida, toque-os – instruiu a mulher, segurando o pulso de Ariel e movendo sua mão em um movimento circular em torno da circunferência de um mamilo de forma perfeita. – Não são naturais? Tinha que admitir que sim, a sensação era de tocar


um seio natural, embora um pouco mais firme que o dela. – Sim, são, mas... Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, a mulher começou a acariciar os seios de Ariel com as duas mãos. – Hummm, que delícia. Sempre achei que os meus davam a sensação de serem naturais, mas os seus parecem ser de verdade. Ariel afastou-se. – Eles são de verdade. – Tenho certeza disso, benzinho. – A desconhecida piscou e se aproximou para tocá-la novamente. – Vamos à Sala Rosa. Adoraria sentir seu sabor – ela propôs com ousadia. Ariel corou por baixo da máscara; estava lisonjeada com o elogio, mas não era bissexual. De jeito nenhum. – Não, obrigada – respondeu, pigarreando para limpar a voz. – Sou hétero. – Eu também sou. Mas não há mal nenhum em pedir um prato diferente do cardápio de vez em quando. – A mulher afagou o antebraço de Ariel. – Acredite, com


uma mulher é melhor do que qualquer homem. Na verdade, a maioria deles não sabe nem encontrar o clitóris. – Ela mostrou a língua sob a meia máscara. – Vou fazer você gozar tão forte, que vai implorar por mais – ela prometeu com uma nota de arrogância na voz. Ariel tinha que admitir que estava ficando molhada com o convite, mas um caso lésbico não fazia parte de seus planos. – Não, obrigada – ela disse com firmeza, e se afastou. Estava passando por uma sobrecarga sensorial. Havia insinuações sexuais em todos os lugares para onde olhava. Era como se deliciar com um banquete ou passar fome – aqui podia se fartar com todo tipo de atividade sexual, mas em casa, com Preston, sexo não fazia parte das ofertas disponíveis – e estava atordoada. Nunca fizera amor com um estranho nem sexo casual. Era o tipo de garota que preferia relacionamentos estáveis, e não sabia se era capaz de transar com alguém sem antes conhecer essa pessoa. Talvez eu deva simplesmente ir para casa e me masturbar para aliviar a tensão, pensou. Ela girou sobre os calcanhares antes de chegar ao fim do longo corredor e voltou à escada. Quando descia os degraus estreitos, um homem usando uma máscara de


couro preto com ônix brilhante adornando as têmporas se aproximou dela sem pressa. Havia algo de diferente nele. A primeira coisa que Ariel notou foi sua atitude discreta. Ele se movia em silêncio e com determinação, como uma pantera confiante se preparando para atacar a presa. A segunda coisa que ela percebeu foi o traje: ele vestia calça jeans preta e camiseta branca, diferente dos outros homens, que se exibiam de short e fio dental, sempre com o peito nu. Os peitorais eram definidos, e ela percebeu o contorno da barriga tanquinho por baixo da camiseta. Seu coração bateu mais depressa quando ele se aproximou. Os degraus eram estreitos demais para duas pessoas se movendo em direções opostas, por isso ela tentou manobrar e dar a ele espaço para passar. Em pouco tempo eles estavam no mesmo degrau, se encarando por trás das máscaras. Estava escuro demais para conseguir enxergar os olhos dele através das frestas, mas Ariel sentiu o corpo mais quente enquanto ficavam ali próximos um do outro. Nenhum dos dois disse nada, mas a linguagem corporal falava alto. Seus mamilos se enrijeceram quando ela notou o volume sob a calça jeans. Por alguns segundos ficaram ali como que suspensos, perdidos no momento. Depois, ele a tocou


logo abaixo da cintura, bem na linha da tanga. O calor do contato foi como uma corrente elétrica percorrendo sua coluna. Aí vem a proposta. Ariel prendeu a respiração. Dessa vez estava pronta para ceder ao desejo e jogar a cautela escada abaixo e porta afora. Mas, para sua surpresa e decepção, ele não fez nenhuma proposta; apenas a moveu gentilmente para o lado e continuou subindo a escada. Arrepiada, Ariel estremeceu; ainda podia sentir seu toque. Pensou em subir a escada e ir procurá-lo; a sedução silenciosa a intrigava, e ela queria mais. – Talvez eu o encontre novamente na próxima vez. – Agora que sabia o que a Black Door tinha a oferecer, sabia sem nenhuma dúvida que voltaria como participante ativa, não como uma frígida espectadora.


8

Ariel estava sem sono e passou a noite se virando na cama depois de voltar para casa da Black Door. Seus sonhos eram uma série de vinhetas sexuais, cenas como aquela em que havia olhado para o homem com a máscara preta na escada na boate. Em uma das cenas, estavam se exibindo atrás de uma janela de espelho unilateral, transando e se chupando para uma plateia ávida. A excitação de ser observada era como um afrodisíaco poderoso, levando-a a superar todas as inibições. No sonho, Ariel assumia posições que só uma ginasta poderia realizar, alongando pernas e joelhos atrás das orelhas como uma medalhista de ouro durante um exercício de solo. As terminações nervosas eram como fios elétricos, e seu toque era o condutor que a ligava. Na sequência seguinte, Ariel viu o homem mascarado dançar para ela em particular, despindo lentamente as roupas até estar coberto apenas por uma fina camada de suor. A visão do corpo nu e musculoso a


fez salivar com um desejo insaciável. Depois do striptease sedutor, ele se aproximou segurando o pênis ereto, abriu sua boca delicadamente com a outra mão, e introduziu nela o membro duro. Ariel sugou com vigor. Na cama, ela se retorcia e gemia, e finalmente acordou ofegante e queimando. Os lençóis estavam úmidos de suor e amassados, enroscados em seu corpo. Havia um travesseiro entre suas pernas, uma tentativa fútil de aplacar o fogo que ardia ali. Ela limpou o suor da testa. Droga. Nem conheço esse homem, e sonhar com ele me deixa molhada, pensou. A ideia de fantasiar com um homem estranho a perturbava. Estivera diante dele por um minuto, no máximo. Mas naquele minuto ele a afetara; havia sido como se houvesse lançado sobre ela algum tipo de feitiço, e agora queria sentir sua energia outra vez. – Isso é loucura! – Ela puxou furiosa o lençol que cobria seu corpo, livrando-se dele com um único movimento. – Eu nem vi o rosto dele, e estou aqui pronta para me tornar sua escrava sexual. – Ariel tinha uma queda por homens bonitos, e embora não houvesse conseguido ver seu rosto inteiro, os lábios cheios e sensuais e o corpo esculpido sugeriam que ele era o tipo


de homem que a faria ferver dentro da calcinha. O telefone tocou quando Ariel estava lembrando a noite anterior. – Alô? – Ei, querida. – Era a sra. Grant, sua mãe de criação. – Acabei de ligar para o seu escritório, e JoAnne disse que você havia tirado a manhã de folga. Está doente? – Não, mãe. Não tenho nenhum assunto urgente no trabalho, então decidi ir mais tarde para o escritório – ela explicou. Odiava mentir para a mãe de criação, mas não ousava contar a ela que a verdadeira razão para ainda estar na cama era ter chegado tarde de um clube de sexo. – Oh. Não é nada importante. Não conversamos há um tempo, só queria saber como você está. – Estou bem. E você? – Tudo bem. Mas, mais importante, como vai o relacionamento com o juiz? Ariel devia saber que a mãe de criação tinha motivos escusos para telefonar. Ultimamente, seu único foco parecia ser o relacionamento de Ariel com Preston. – Estamos bem – Ariel respondeu, optando pela solução mais breve.


– Só isso? Bem? – Ela insistiu curiosa. Ariel começava a se sentir irritada. Não estava com vontade de falar sobre seu relacionamento, especialmente agora, quando tinha os pensamentos ocupados por outro homem. – Sim, mãe. – Querida, sei que estou me comportando como uma velha intrometida, mas quero ver você casada antes de deixar este mundo. E o juiz pode lhe dar a família que você nunca teve – ela argumentou. Ao ouvir suas palavras, Ariel começou a se sentir culpada. A mãe tinha razão. Preston era um dos caras bons, e embora estivesse ocupado no momento, Ariel sabia que ele a amava. De repente precisava sentir os braços de Preston em torno do corpo, antes que voltasse à Black Door e fizesse alguma coisa de que se arrependeria. – Você está certa, mãe. Não se preocupe, não vou deixá-lo escapar. Escute, agora tenho que desligar. Conversamos novamente em breve. – Tudo bem, querida, se cuide. Depois de tomar uma ducha, ela vestiu um terninho


preto de calça comprida com suéter de gola em V e ligou para o escritório de Preston. – Oi, Anna, é Ariel – ela disse à secretária. – Como vai? – Ah, oi, Ariel, é bom ouvir sua voz – disse a mulher mais velha. Ela havia simpatizado com Ariel desde que a conhecera, ainda como uma jovem assistente administrativa interessada e esforçada, e admirava sua inteligência antes e agora. – Vou bem, obrigada. E deixeme aproveitar para lhe dar os parabéns pela indicação para sócia no escritório. O Juiz Hendricks me contou a novidade. – Muito obrigada, Anna. – Sei que não telefonou para falar comigo, mas o juiz ficou trabalhando em casa hoje, já que não tem nenhum caso no tribunal. Tente ligar para lá – ela sugeriu. – Obrigada, Anna, eu vou tentar. Cuide-se, e a gente conversa em breve. Ariel vestiu um casaco sobre o terninho, pegou a bolsa e desceu. Não queria perder tempo tirando o carro da garagem, por isso parou na calçada e fez sinal para um táxi.


– Esquina da Quinta com a University Place – disse ao motorista. Não voltara a falar com Preston desde que saíra de Washington e queria explicar o motivo de sua partida repentina. Preston vivia na Costa Dourada, uma área de Manhattan perto do histórico Washington Square Park, com ruas arborizadas e casas muito caras e bem conservadas, construídas antes da guerra. Quando o motorista parou na frente da casa de quatro andares onde Preston morava, ela sentiu o coração bater mais depressa. Talvez eu devesse ter telefonado antes, pensou. Ariel pagou a corrida, pensando que ela e Preston já haviam ultrapassado a fase de “telefonar antes de aparecer”. Mais confiante, ela tocou a campainha. Apesar de namorarem há anos, ela e Preston nunca haviam dado um ao outro a chave da casa onde moravam. Ariel jamais tivera uma casa realmente dela na infância e na adolescência, e agora que tinha, era um pouco ciumenta e possessiva. – Ariel? – Preston parecia surpreso quando abriu a porta. – O que está fazendo aqui? – Ele parecia irritado com a interrupção.


Não era a recepção que ela esperava. – Não está feliz por me ver? – Ariel perguntou. Preston a envolveu num abraço apertado. – Eu sempre fico feliz por ver você, meu bem. – Depois a soltou e olhou rapidamente por cima do ombro. – É que não esperava que você aparecesse hoje. Por que não está trabalhando? – Porque tirei a manhã de folga para vir visitá-lo. Bem... – Ariel esperou alguns segundos, mas ele continuava ali parado com uma expressão vazia no rosto, em vez de convidá-la a entrar. Ver aquela expressão vaga a irritou, e o tom doce desapareceu. – Não vai me convidar para entrar? Ou vamos ficar conversando na porta? – Ah, é claro, vou convidar, não seja boba. – Ele deu um passo para o lado. O interior da casa de Preston era acolhedor e convidativo. A decoração era uma mistura de art déco e antiguidades da virada do século perfeitamente harmonizadas, caríssimos óleos sobre tela em molduras douradas e delicados tapetes tibetanos tecidos à mão sobre o piso de cerejeira polida ao extremo. As paredes


da sala de estar eram pintadas de um tom suave de açafrão, que combinava com o lustre de cristal que pendia do teto. – Então, o que a traz aqui? – ele indagou, indo diretamente ao motivo de sua visita. – Preston, precisamos conversar – Ariel respondeu, sentando-se no sofá. – Concordo, Ariel, mas agora não é a hora certa. Vou participar de uma vídeo-conferência com o senador e um ex-membro do Comitê Judiciário em cerca de quinze minutos, e depois disso terei outra reunião. Por que não jantamos um dia dessa semana? – ele sugeriu, e começou a andar para a porta da frente, indicando que ela devia ir embora. – Espere. – Ela se levantou depressa. – O que tenho para dizer não vai tomar muito tempo. Só quero dizer que estou meio... – Preston, aqui estão suas anotações para a vídeoconferência. – Era Michele saindo do escritório particular. Ariel deu uma olhada nas roupas de Michele e sentiu um nó comprimindo seu estômago. Se não soubesse a verdade, seria capaz de jurar que a Srta. Assistente


Perfeita estava tentando seduzir seu homem. Michele vestia uma blusa branca e fina com um delicado sutiã da mesma cor, o que criava um efeito do tipo sem sutiã. Embora ela vestisse um blazer aberto, Ariel podia ver claramente os seios balançando insinuantes quando ela entrou na sala. Os mamilos eram pronunciados e convidativos, o que a fez especular se Preston os estivera sugando. Talvez Michele fosse o motivo para a recente perda de seu interesse sexual. De repente a paranoia mostrava sua cara feia. Não se sentia paranóica assim há anos. Alguns relacionamentos ruins na faculdade, associados ao fato de ter sido adotada, a fizeram extremamente paranóica. Foram necessários anos de terapia para convencer Ariel de que ela era boa o bastante para ser amada. O terapeuta repetira muitas vezes que ter sido dada em adoção pela mãe não significava que ela não era digna de amor. Após centenas de horas no divã, Ariel finalmente se convencera disso, mas no fundo da mente a paranoia ainda dormia como um amante ciumento esperando o momento mais inoportuno para atacar. – Está trepando com ela? – Ariel disparou, incapaz


de continuar se contendo. Michele parou onde estava e Preston a encarou boquiaberto. Ambos pareciam perplexos e nenhum dos dois disse nada. Ariel aproximou-se de Preston gritando: – Então? Ele olhou para Michele e disse com tom calmo: – Pode nos dar um momento, por favor? – Assim que ela saiu da sala, Preston encarou Ariel. – O que deu em você? – perguntou com tom austero, mas não esperou por uma resposta. – Primeiro me deixou em Washington quando não larguei tudo para fazer sexo com você na hora que queria. – Um suspiro profundo traiu sua frustração. – Agora chega aqui sem se anunciar e me acusa de fazer sexo com uma menina que tem metade da minha idade. – Ele ergueu as mãos e a voz. – Sabe quanto isso soa ridículo e paranóico? – Posso parecer paranóica, mas você ainda não respondeu a minha pergunta – ela insistiu por entre os dentes. Ainda estava furiosa e podia sentir a veia pulsando no centro da testa. – E não me venha com essa bobagem sobre ela ter metade da sua idade. Eu tinha a


idade dela quando nos conhecemos. – Ariel pôs as mãos na cintura. – Lembra? Preston balançou a cabeça numa reação frustrada; não sabia o que dizer. Depois de exalar ruidosamente, começou a falar em tons comedidos. – Ariel, isso foi há quase dez anos, e nós dois éramos mais jovens. Lembra? – ele perguntou, devolvendo a questão. – Além do mais, quantas vezes preciso dizer que a nomeação é minha prioridade? Se quase não tenho tempo para você, como vou arrumar tempo para ter um caso? Ariel estava irredutível. – Bem, você não precisa encaixá-la na sua agenda, já que ela está sempre por perto. – É evidente que não há como argumentar com você, porque vai acreditar apenas no que quiser. E para ser honesto, não tenho tempo nem energia para tentar convencê-la do contrário. Agora, se me dá licença, tenho uma vídeo-conferência para fazer – ele concluiu, e se virou para sair da sala. Ariel pegou a bolsa do sofá e saiu furiosa sem dizer nada. Sabia que sua reação era exagerada, mas não conseguia evitar. Entendia que as ambições políticas de


Preston eram importantes, mas, droga, ele ainda nem havia sido indicado. Não queria nem pensar no que seria do relacionamento se ele de fato se tornasse um juiz da Suprema Corte. Se não tinha tempo para ela agora, com certeza não teria tempo para ela no futuro. Lágrimas se formaram no canto de seus olhos e transbordaram, correndo livremente pelo rosto quando ela chegou à porta. – Ah, oi – disse um homem de espantosa beleza parado do outro lado da porta da frente, pronto para tocar a campainha. O desconhecido parecia vagamente familiar, mas Ariel não conseguiu identificá-lo imediatamente. Ela limpou as lágrimas com a mão. – Com licença – disse, passando por ele. O homem tocou seu cotovelo quando ela passou. – Você está bem? – ele perguntou preocupado. – Sim, estou – ela fungou, e desceu a escada correndo para a rua. Preston apareceu na porta. – Entre, filho. – Quem era aquela? – Ele apontou na direção de


Ariel. – Uma dose dupla de Johnny Walker sem gelo – Preston respondeu brincando. – O quê? – Aquela era Ariel. Juro que essa mulher vai me fazer beber mais – ele suspirou. – Aquela era Ariel? Eu nem a reconheci. Não a vejo desde que eu estava na faculdade. Por que ela estava chorando? – É uma longa história, que não tenho tempo para contar agora. Preciso começar uma vídeo-conferência. Não deve demorar, e depois vamos cuidar dos papéis que você veio buscar. Sinta-se à vontade. – Preston bateu no ombro do jovem e o levou para a sala. – É bom ver você, filho. Ao longo dos anos, o relacionamento de Preston com o filho havia sido tenso. O divórcio os afastara, porque a ex-esposa de Preston enchera a cabeça do filho com histórias sobre seus supostos casos, induzindo-o a deixar de usar o nome do pai para usar apenas seu sobrenome de solteira. Michele apareceu na porta do estúdio e estudou o


rapaz por trás. Ele vestia jeans rasgado, camisa listrada e blazer de tweed que realçava seus ombros largos. O cabelo era bem curto, criando um efeito de barba por fazer. A visão que ela tinha de onde estava era estimulante, e queria muito ver seu rosto. Michele pigarreou, e quando ele se virou, seus joelhos quase dobraram. A pele do recém-chegado era lisa e macia como chocolate líquido, seus olhos eram estreitos e sensuais, e os lábios eram cheios e convidativos. Ele sorriu para ela, mostrando um par de covinhas idênticas. Parecia familiar; depois de um instante ela percebeu que o rapaz era quase uma cópia de Preston, menos os cabelos grisalhos e as linhas em torno da boca e na testa. – Posso ajudá-lo? – ela perguntou, finalmente falando em voz alta. Os olhos do visitante estavam fixos em sua blusa transparente, e o sorriso tornou-se mais largo quando ele examinou os seios de aparência deliciosa. – Estou esperando meu pai. Michele notou que ele olhava para seus seios, e ficou feliz por ter despido o blazer. Arqueando as costas ligeiramente, ergueu os ombros para oferecer uma imagem ainda mais impressionante.


– Oi, meu nome é Michele. – E estendeu a mão. Ele se aproximou para cumprimentá-la, segurando a mão dela por alguns segundos. Depois a olhou de cima a baixo e respondeu: – É um prazer... – Vejo que já se apresentaram – Preston falou ao entrar na sala. – Michele, pode enviar isto por fax para o senador? – ele pediu, entregando a ela um maço de papéis. – É claro, sem nenhum problema – Michele respondeu, soltando a mão do filho de Preston e se retirando com um andar insinuante. – Quem é aquela – o rapaz perguntou erguendo uma sobrancelha. – Minha nova assistente. – Ela é gostosa. – O jovem assobiou baixinho e sacudiu a mão como se ela queimasse. – Sim, um pouco demais, receio. Ariel está pensando que tenho um caso com ela – Preston contou irritado. Preston III levantou uma sobrancelha e, em dúvida, perguntou: – Bem... vocês estão? Preston parecia magoado por ter sua integridade


questionada pelo filho, mas percebeu que a atitude era resultado de anos de lavagem cerebral praticada por uma mãe paranóica. – É claro que não. Ela tem idade para ser minha filha, pelo amor de Deus. – Bem, nesse caso, talvez eu a convide para sair. Não dá para desperdiçar toda aquela elegância. – Ele riu. – Acho que essa é uma excelente ideia. – Preston anotou o número do telefone celular da assistente no verso de um cartão comercial e o entregou ao filho. – Vou dizer a Michele para esperar seu telefonema. Talvez então eu consiga convencer Ariel de uma vez por todas que não estou tendo caso nenhum. – Ele então se aproximou da mesa e pegou uma pasta. – Chega de falar sobre mulheres. Aqui estão os papéis do fundo de pensão para você assinar. Conte-me, o que tem feito ultimamente? – Preston perguntou, conhecendo a tendência do filho de pular de carreira em carreira. – Tenho estudado para a Série Sete. Vou tentar o ramo de investimentos. Um amigo meu é diretor administrativo no Deutsche Bank e está disposto a me ensinar algumas coisas.


– Bem, parece que está trabalhando de verdade e se mantendo longe de confusões. – Estou, pai, e o dinheiro do fundo vai me ajudar até eu começar a negociar ações como os grandes – ele sorriu. – Filho, acredito que em pouco tempo você vai estar se firmando como corretor. – Ele bateu nas costas do filho. – Odeio interromper nossa conversa, mas tenho outro telefonema para fazer. Vamos marcar um jantar em breve. Amo você. E com isso Preston se retirou para ir cuidar de sua preciosa agenda.


9

– Querida, qual é o problema? – Meri perguntou ao abrir a porta para Ariel, que chorava e parecia muito perturbada. O cabelo sempre penteado estava em desalinho, e o casaco havia escorregado de cima de um ombro. – Estou estragando tudo de novo – ela respondeu, e caiu nos braços de Meri como uma boneca de pano, sempre soluçando. Meri a amparou e a levou para a sala, onde a fez se sentar no sofá. – Pronto, pronto – tentou confortá-la, ajeitando seus cabelos atrás de uma orelha. – Desabafe. – Meri era uma das poucas pessoas que sabiam sobre a infância infeliz de Ariel e sobre os anos de terapia para superar a insegurança. Depois de chorar por mais alguns minutos, Ariel levantou a cabeça, fungou, pegou um lenço de papel na bolsa e assuou o nariz duas vezes antes de contar à amiga


sobre a discussão com Preston por causa da nova assistente, uma mulher abertamente sexy. – Quando a vi desfilando pela casa como uma stripper na Scores, minha paranoia me dominou e eu perdi a cabeça. – Não devia se deixar atingir desse jeito por uma garota. – Sim, você tem razão, mas devia ter visto como ela mostrava os seios empinados para quem quisesse vê-los. E Preston estava focado nos negócios, como sempre, como se ela não o afetasse de jeito nenhum. – Sei que Preston tem estado distante ultimamente, mas não acredita que ele está dormindo com a nova assistente, acredita? – Meri perguntou, tentando ser a voz da razão. Ariel secou os olhos com o lenço. – Ele deve estar aliviando a tensão em algum lugar, porque comigo não tem feito nada ultimamente. – Meu bem, você precisa superar a paranoia e aliviar um pouco da tensão acumulada. Achei que a Black Door a ajudaria com isso. – Meri a encarou inquisitiva. – Você foi lá, não foi? A boca de Ariel começou a se encurvar lentamente,


até um sorriso iluminar seu rosto, apagando os resquícios de tristeza. A mente viajou de volta à Black Door. – Sim, eu fui. – E? – Meri perguntou, esperando ansiosa pelos detalhes picantes. – E... – Ela abanou o lenço úmido diante do rosto. – Foi incrível. Não acreditei em todas as atividades que vi debaixo de um único teto – contou animada. – Não disse que aquilo é o playground em seu ponto mais alto? – Playground é pouco! A Black Door é como a Disneylândia sob efeito de ecstasy. Todo mundo se tocava. – Então, meu bem, me conte, quem você tocou? – ela perguntou sarcástica. Ariel pensou na mulher que a havia apalpado, e embora houvesse tocado os seios da desconhecida, não havia sido um ato espontâneo. – Ninguém – ela respondeu depressa, baixando os olhos e preferindo não entrar em detalhes. Meri tocou o queixo com o dedo indicador. – Hummm, você respondeu rápido demais. Tenho


certeza de que alguém mexeu com você. – Bem, teve um cara que... Meri a interrompeu. – Ele usava uma máscara azul cobalto? – E mordeu o lábio inferior. – Na última vez que estive na Black Door, ele me levou à masmorra, vendou meus olhos, me amarrou entre dois pilares e me penetrou por trás como um guerreiro africano. Juro, foi o sexo mais erótico de toda minha vida. – Masmorra? – Ariel perguntou chocada. – Existe uma masmorra? – Ah, sim, querida. – Meri sorriu como se lembrasse a experiência. – E uma coleção chocante de brinquedos, de chicotes e correntes sadomasoquistas a trapézios sexuais e cera quente. Estou surpresa por você não ter explorado as entranhas da boate. Não deu uma volta por lá? – Eu subi, mas só fui até a metade do corredor – Ariel admitiu. – Por que só até a metade? O que aconteceu? Pensei que ia ver tudo, e talvez experimentar um pouco mais. – Ela piscou.


Ariel parecia acanhada. – Esse era o plano, mas fiquei nervosa. Nunca vivi nada parecido com aquilo na minha vida. Homens e mulheres me assediavam por todos os lados. Acho que fiquei um pouco assustada. – Ah, sim, as mulheres. – Meri levantou uma sobrancelha. – Elas são um pouco agressivas, mas você só precisava dizer não e seguir em frente. Essa é a vantagem de usar máscara: você é totalmente anônima e pode fazer e falar tudo que quiser. – Em alguns momentos eu esquecia que meu rosto estava coberto. – Na próxima vez que voltar, lembre-se de que sua identidade está totalmente segura. Além do mais, você pode ser tão depravada quanto quiser; afinal, a máscara que estará usando é minha, e nós duas sabemos quanto eu gosto de sexo. – Meri riu. As palavras dela ecoaram altas e claras, e Ariel soube sem nenhuma dúvida que voltaria a atravessar a soleira da Black Door, mesmo que fosse apenas para experimentar a energia que havia sentido com o servidor da máscara preta. Precisava de uma dose saudável de autoestima, e ele era exatamente o que o médico havia


receitado. Depois de resolver um problema importante, Trey estava de volta à boate, trancado no escritório e enterrado até as orelhas em papelada, examinando as faturas de fornecedores. Enquanto ficava ali sentando apertando os botões da calculadora, sua mente o levou à cena do encontro com a mulher na escada na noite anterior. Havia alguma coisa naquela linguagem corporal que o excitara, provocando uma ereção imediata. Não conseguia esquecer aquela sensação. Trey tinha uma vantagem sobre as associadas. Elas não conheciam sua identidade, mas ele tinha os perfis completos à sua disposição. Lembrando a máscara de couro escarlate que cobria aquele rosto, ele abandonou a papelada chata, caminhou até o arquivo e pegou uma pasta grossa com uma etiqueta: “Cliente/Máscara”. Ele abriu a pasta e leu a longa lista de máscaras que havia desenhado. Ao lado do nome de cada cliente havia uma foto da máscara que protegia sua identidade. – Meri Renick – ele leu em voz alta, encontrando o


nome ao lado da foto com a máscara escarlate. Para refrescar a memória, ele leu o arquivo da cliente e sua descrição física. Na ficha ela declarava ter 1,53m, mas a mulher que encontrara na escada era muito mais alta. – Salto alto, talvez – ele pensou. O arquivo também registrava a idade, quarenta e poucos anos, mas a mulher que vira na noite passada era mais jovem. Não pudera ver seu rosto inteiro, mas era um especialista em corpos, e o dela pertencia a uma mulher mais jovem – exuberante e voluptuoso. Mais uma vez, ele tentou conciliar os dados que lia com o que seus olhos haviam registrado. – Talvez tenha feito algumas plásticas. Ele encontrava pessoalmente cada uma das mulheres na fase inicial de associação, mas não conseguia lembrar a entrevista com Meri Renick, o que não era incomum, considerando que ela ingressara no clube alguns anos atrás, na época da inauguração, e depois disso ele havia entrevistado uma tonelada de mulheres. Tinham ali uma política de não envolvimento com os membros, mas dessa vez teria que burlar as regras para satisfazer sua crescente curiosidade. Afinal, regras são feitas para serem quebradas.


– Talvez ela venha esta noite. Trey andava de um lado para o outro, a cabeça funcionando em alta velocidade, tentando decidir se devia ou não percorrer a boate para procurar a sra. Renick ou quem quer que estivesse por trás da máscara escarlate. Mulheres mais velhas não eram sua preferência, mas ela era diferente, de algum jeito, e isso despertava nele o desejo de descobrir o que o instigava. Finalmente sua natureza inquisitiva e sua libido venceram o bom senso. Não estava envolvido seriamente com ninguém e não transava há um mês, mais ou menos. Ele foi ao banheiro privado no interior de seu escritório, trocou o jeans e a camiseta branca pela habitual regata preta, que acentuava os músculos abdominais, e o jeans preto que realçava seu membro grosso. Trey abriu a gaveta de um armário, pegou a máscara de couro e ônix e a colocou sobre o rosto, depois aspergiu no pescoço um jato de Bvlgari, sua fragrância favorita. Concluída a transformação de proprietário da boate para garanhão do clube, ele saiu do escritório no terceiro andar e desceu para procurar a mulher com a máscara de couro escarlate. O segundo andar pulsava com uma energia


hedonista que era contagiosa, e ele sentiu os cabelos da nuca arrepiados em resposta ao estímulo. Trey entrou na Sala de Jogos, um cômodo com paredes e piso revestidos de couro, e viu duas sócias jogando Twister Nu com dois funcionários da casa. As mulheres estavam abaixadas, com as pernas bem abertas sobre um tapete colorido com círculos vermelhos, azuis, verdes e amarelos, enquanto os dois homens permaneciam deitados de costas no tapete do jogo, estrategicamente próximos dos clitóris expostos. Havia também um jogo de Dominó Dominatrix em andamento, com dominós humanos em correntes e tachinhas, enfileirados e colados, prontos para caírem um sobre os outros ao menor contato de um adversário. Trey analisou a máscara de cada membro naquela sala, mas não encontrou o que procurava e saiu. A Sala dos Brinquedos Provocantes era onde as sócias podiam escolher vibradores, géis que reagiam ao calor, calcinhas comestíveis, objetos para penetração anal e algemas para aumentar o prazer. Trey notou duas mulheres usando apenas máscaras e sapatos de salto alto, debruçadas sobre uma vitrine de vidro e apontando um consolo de quarenta centímetros de comprimento e cor


de pele humana. – Hummm, eu aguentaria até o último centímetro daquele pau falso – disse a loira. – Plástico não se compara à realidade – respondeu a morena. – Posso enfiar um de plástico no traseiro, e o de verdade na frente, e ainda chupar você até ficar maluca – a loira provocou. A morena agarrou o traseiro da outra e disse: – Venha, vamos à Sala Rosa encontrar um servidor bem dotado; depois você pode lamber meu ponto mais doce. A caminho da saída, as duas examinaram Trey descaradamente, analisando-o, tentando decidir se ele se encaixava no que procuravam. Mas a dupla passou por ele se agarrando, deixando-o em pé na porta. Evidentemente, não as agradara. Ele continuou percorrendo as salas, procurando a mulher da máscara de couro vermelho, mas não a encontrou. Desapontado, seguiu pelo corredor escuro em direção à escada. Quando subia os degraus estreitos, a mente trouxe de volta as lembranças do encontro provocante com Meri Renick. Ele hesitou, fechou os


olhos e reviu em pensamento os breves momentos com ela. A lembrança acelerou sua respiração. Não a conhecia, mas ela tocara seus sentidos, e agora estava determinado a descobrir por quê.


10

O trabalho era o antídoto de Ariel para o mal que a afligia. Era a única constante em sua vida; na escola, era o dever de casa que a preocupava. Ela acolhia com alegria a distração para seus devaneios. Passava horas sentada, fantasiando e sonhando que a mãe biológica ia tirá-la do lar temporário. Nos sonhos sua mãe “verdadeira” era uma linda estrela de Hollywood que havia dado Ariel em adoção até a carreira decolar. Agora que era uma megaestrela, ela voltaria para buscar o bebê que abandonara. Mas sua mãe nunca voltara. Agora Ariel contava com a infinidade de casos que presidia para manter a mente ocupada. Como Preston estava imerso na carreira, Ariel esperava poder encontrar consolo na dela, em vez de pensar na Black Door. Mas não podia deixar de pensar no homem que havia encontrado na escada. Bem, não haviam sido formalmente apresentados; mesmo assim, ele ainda era uma presença formidável em sua mente.


Ariel pegou uma pasta, abriu e leu os detalhes do arquivo. O cliente era um conhecido locutor esportivo em meio a um processo de divórcio. Nova York era um dos estados mais duros para quem queria encerrar um casamento, já que não existiam queixas sem atribuição de culpa; não era possível alegar diferenças irreconciliáveis. O caso em questão se baseava em uma alegação de adultério para justificar o rompimento, e os relatos descreviam como, durante o casamento de dois anos, a esposa havia traído o marido mais de seis vezes com seis homens diferentes. Ela havia escondido a infidelidade com astúcia, mantendo contato com os amantes através de um segundo telefone celular que o marido desconhecia, já que a conta era enviada para uma caixa postal secreta. Cinco ou seis desses amantes eram atletas; ela os entrevistava no vestiário e, depois de ver seu “equipamento”, sabia exatamente com que estavam trabalhando, e se tudo dava certo, ela marcava uma entrevista horizontal em sua suíte no hotel. O sexto homem era um colega de trabalho com quem ela havia se relacionado por vários anos antes de se casar. Depois da lua de mel e dos primeiros anos de matrimônio, ela ficou entediada e retomou a relação com o ex-namorado, com


quem sempre fez sexo ardente. Eles transavam na sala de controle da estação depois do expediente; ela o chupava em seu escritório e até o cavalgava no reservado do banheiro masculino. Determinado a tirar o relacionamento das sombras e da frustração e assumir publicamente o envolvimento, seu amante havia exigido que ela fizesse uma escolha – o marido ou ele. Quando a mulher não o escolheu, ele ficou furioso e mandou várias cartas anônimas para sua casa. Ela havia negado veementemente as acusações e até chegara a chorar, e teria escapado ilesa e continuado com os casos extraconjugais, mas o amante conseguiu mandar fotos incriminadoras diretamente para as mãos do marido dela. Nas ampliações em papel brilhante ela aparecia ajoelhada, fazendo sexo oral com o amante no escritório. De posse dessa evidência, o marido havia contratado um investigador particular, que conseguira reunir provas suficientes para levá-la a um tribunal da vara de família e garantir o divórcio com uma robusta indenização. Ariel fechou a pasta e suspirou. – Esse não vai ser fácil. – Ela se reclinou na cadeira e balançou a cabeça desanimada. – Como vou contra-


argumentar com todas essas provas em favor dele? – Ariel batia com a caneta na mesa, tentando pensar em uma solução. Nunca havia perdido uma causa, e não pretendia começar agora, apesar de todas as evidências incriminadoras contra sua cliente. – Tenho que seguir o modelo do processo e contratar um investigador particular para encontrar alguma coisa contra o marido. Tenho certeza de que ele também andou transando com alguém, se a esposa não o satisfazia em casa. Essa é a única chance que tenho para impedir que ele fique com metade dos bens dela. – Ariel pediu em voz alta à secretária: – JoAnne, pode ligar para o escritório de Tim Anderson? Depois de alguns minutos, JoAnne falou pelo interfone. – Sra. Vaughn, ele está na sala de reuniões. – Tudo bem, obrigada. Vou até lá falar com ele pessoalmente. Tim Anderson era um advogado criminalista que conhecia os melhores investigadores particulares da cidade. Quando Ariel se aproximou da sala de reuniões, a porta estava encostada. Podia ouvir vozes do outro lado.


– Eu simplesmente adoro ir a Baltimore para os depoimentos. – Era Bob, um dos sócios diretores. – Você quer dizer que adora “The Block” – riu Tim. e Block era uma faixa de boates perto do porto, lugares que atendiam homens de todas as classes e idades. Depois de um longo dia de trabalho, empresários de fora da cidade comiam o caranguejo de Maryland em um dos melhores restaurantes na região do porto, depois iam se divertir com uma das dançarinas mais obscenas do estado. – Sim, realmente, eu amo e Block! – Ela ouviu Bob responder rindo. – Devia ter visto a ruiva que me levou para a sala VIP. – Ele assobiou. – Nunca vi peitos e bunda maiores! Dei cem dólares ao segurança para fingir que não me via chupando aqueles peitos e brincando com sua vagina enquanto ela esfregava aquele traseiro enorme no meu pau. Ariel não conseguia acreditar que o engravatado Bob estava falando sobre sexo em vez de discutir horas extras. Por outro lado, ele havia ficado fascinado por seus seios no evento beneficente Lancaster. Ele é só um grande e velho tarado, Ariel pensou. – Bem, ela deve ter uma irmã gêmea, porque a


stripper com quem brinquei a noite toda tinha os mesmos dotes – riu Tim. Ariel ouviu o estalo, provavelmente mãos abertas se encontrando no ar num cumprimento de parceiros, a típica camaradagem que os homens experimentavam quando discutiam o gênero feminino. Homens, ela pensou revirando os olhos. Por que todo mundo os elogia por transarem com todas as mulheres em quem conseguem enfiar o pinto, enquanto nós somos julgadas por desfrutarmos dos mesmos prazeres? – Com licença – ela disse em voz alta, empurrando a porta ao mesmo tempo e interrompendo com deliberação o momento de parceria. Ariel olhou séria e reprovadora para os dois homens, demonstrando que ouvira cada palavra do que eles disseram. – Estou interrompendo uma reunião importante, ou alguma coisa? Bob pigarreou e mudou o tom, passando de garotão libidinoso a advogado eficiente e bem-sucedido, e perguntou com ar de superioridade: – O que posso fazer por você, Ariel? Ela não conseguia acreditar na arrogância do sujeito. Queria colocá-lo em seu devido lugar perguntando:


“Então, pagou seu passeio noturno com verba da companhia?” Mas sabia a verdade, e a verdade era que os recibos do “e Block” seriam cobrados do cliente como verba de viagem e entretenimento, simplesmente, e ninguém jamais saberia. Ariel ignorou a pergunta de Bob, recusando-se a ser tratada como inferior, e olhou para Tim. – Qual é o nome do investigador particular que você usou no caso Collins? – Mac Davis – Tim respondeu timidamente. – Qual é o número do telefone dele? – O cartão está no meu Rolodex. Posso mandar para você por e-mail em cerca de cinco minutos? Tudo bem? – ele perguntou tentando contentá-la. – É claro – Ariel concordou, e saiu, deixando-os com suas fantasias. De volta ao escritório, ela não conseguia deixar de pensar na conversa entre Bob e Tim, e em como eles pareciam se sentir confortáveis compartilhando as experiências na boate de strip. – Por que tenho sido tão puritana? Se eles podem seguir seus instintos, e ainda falar sobre isso depois, por que eu não posso?


Com esse pensamento em mente, Ariel traçou os planos para aquela noite. Ela atacou o armário de bebidas assim que chegou em casa, preparou um martini extrasseco e o bebeu em poucos segundos, depois preparou outro. Planejava chegar à Black Door livre de todas as inibições, e vodca era o lubrificante de que precisava para soltar as amarras que se impunha. Esta noite pretendia fazer mais do que só olhar. Depois de tomar uma ducha e espalhar um creme hidratante pelo corpo todo, ela estudou o conteúdo da gaveta de lingerie tentando decidir o que usar. Queria vestir uma peça arrojada como uma forma de afirmação, de forma que não houvesse nenhuma dúvida sobre suas intenções. – Perfeito – ela disse, segurando um espartilho vermelho com cinta-liga, tanga combinando e um par de meias de seda. Ariel vestiu o traje delicado, olhou no espelho e sorriu para o reflexo. Havia desaparecido a advogada de postura conservadora no terninho azul marinho sobre blusa branca, e no lugar dela surgia uma mulher fatal e


provocante em roupas íntimas vermelhas. O sutiã do espartilho unia os seios fartos e os levantava, de forma que quase transbordavam. Ela se virou para dar uma olhada nas costas e não conteve uma exclamação; as nádegas estavam totalmente expostas, apenas com uma tira fina da tanga surgindo no alto da fenda e formando um minúsculo triângulo. – Preciso de outro drinque – ela resmungou depois de analisar o próprio corpo seminu. Depois de esvaziar a taça de martini, ela vestiu um casaco discreto e amarrou a faixa em torno da cintura. Levando a máscara na pasta de trabalho, Ariel desceu. O porteiro a cumprimentou com um sorriso e um leve contato dos dedos com a aba do boné. – Boa noite, sra. Vaughn. – Oi, Pete. – Vai voltar para o escritório? – ele indagou, olhando para sua pasta. O casaco simples escondia seu segredo com perfeição. – Você me conhece, Pete. – Ela quase riu. – Sempre pronta para trabalhar.


– Vou chamar um táxi – ele ofereceu, segurando a porta do saguão. – Obrigada. Dentro do táxi, ela removeu a máscara da pasta e a colocou. Como o acessório terminava logo abaixo do nariz, ela pegou o espelho de maquiagem e o gloss, e aplicou uma camada espessa de Lipglass rubi da Mac. Agora seus lábios eram convidativos e combinavam com a máscara. Uma visão em vermelho da cabeça aos pés, Ariel se sentia extremamente sexy e totalmente relaxada, graças aos coquetéis. Quando parou na frente da boate, o motorista virou para trás e disse: – São vinte e dois e cinquenta. – De início uma expressão de choque surgiu em seu rosto quando ele viu a passageira mascarada, mas o espanto logo desapareceu. Estavam em Nova York, afinal, e ali é possível ver tudo e qualquer coisa ao longo de um dia. Ariel pagou pela corrida e desceu do carro. Por fora, a boate era muito parecida com os outros prédios do quarteirão. Não havia sinais evidentes que revelassem sua verdadeira identidade. Diferente de antes, Ariel sabia o que esperar e


esperou ansiosa pelo cumprimento do porteiro, que não a desapontou e a “umedeceu” depois de ouvir a senha secreta. Ariel parou ao lado da fonte de vodca para mais um drinque antes de subir a escada e procurar o alvo pretendido. Um homem careca, de peito nu e pele cor de baunilha, usando um tapa-sexo de couro e máscara vermelha se aproximou de Ariel quando ela percorria o longo corredor. Bem perto dela, o homem parou e a circundou como um tigre inspecionando a presa. Ele esfregou o tapa-sexo duro contra seu traseiro antes de cochichar em seu ouvido: – Adoro vermelho. – E tocou a tira de sua tanga. – Posso penetrar você por trás aqui mesmo sem tirar isto aqui – disse, puxando o elástico e soltando. Ariel estremeceu. Estava molhada e pronta, e se sentia tentada a aceitar a oferta, mas o único membro que queria dentro dela pertencia ao homem da máscara de couro preto. Por isso balançou a cabeça. – Não. Ele massageou seu traseiro com a mão enorme. – Ei, vem cá, benzinho, quero fazer você gozar.


O hálito quente roçava sua orelha, e a mão acariciando sua nádega provocava arrepios. Estava quase aceitando a oferta, mas, em vez disso, Ariel se afastou. Estava ali em uma missão e não se deixaria distrair. Ariel se aproximou da Sala de Voyeurismo e olhou através do espelho. Lá dentro havia três casais fazendo sexo grupal. Membros entrelaçados a impediam de determinar onde começava a parte de um corpo e onde outra terminava. Em vez de ficar diante do espelho, ela seguiu em frente pelo corredor escuro à procura do sr. Máscara Negra. Luz fúcsia se derramava da Sala Rosa para o corredor. Ariel deu uma espiada lá dentro tentando encontrar o homem, mas ele não estava lá. Dentro da sala havia um grupo de mulheres nuas, todas usando máscaras de tons diferentes de rosa, desde o choque até o algodão doce; elas se reclinavam sobre sofás cor de salmão, bebiam Cosmos pink e brincavam com o clitóris rosado umas das outras. Uma rápida olhada e Ariel soube por que o nome Sala Rosa; tudo, das bebidas à iluminação, passando pela mobília e pelos órgãos sexuais expostos, era rosa! Ariel continuou andando antes de ser atraída para a sessão sórdida.


Ela foi espiando de sala em sala, e viu de tudo, de jogos de tabuleiro com humanos a uma butique repleta de brinquedos sexuais variados. Ela via tudo, menos o que procurava. Frustrada, Ariel entrou em uma área pequena e pouco iluminada onde havia um bar. As paredes eram revestidas com pele de leopardo, como as mesas e os bancos diante do balcão. O garçom usava uma máscara preta e marrom de estampa de leopardo, um acessório tão perfeito que tinha até os longos bigodes. – O que vai querer, amor? – ele grunhiu com uma voz rouca que lembrava o som de um animal. Ariel não queria mais vodca; o clima pedia algo mais forte. O álcool evaporava de seu corpo, e precisava de uma descarga de adrenalina para continuar na missão. – Hummm... – Ela mordeu o lábio inferior. – Tem um cardápio de bebidas? O garçom entregou a ela um cartão retangular com uma estampa de leopardo em um lado e uma lista de coquetéis no outro. Ela leu o menu e não conseguiu acreditar em alguns nomes e descrições:


Porradinha Porra fresca, batida com gim e uma dose de suco de grapefruit, servida com gelo. Xoxotíssima Vodca, suco de cranberry, essência de suco de xoxota e triple-sec, batido e servido imediatamente. Black Door Champanhe com um toque de vodca gelada, guarnecido com uma uva preta chilena, servido gelado em taça artesanal. Ariel queria algo insinuante, mas não se sentia com disposição para experiências gustativas, por isso escolheu algo mais familiar. – Vou querer o Black Door. – Um drinque clássico para uma dama de classe – o garçom respondeu. Ariel sentou-se no banco e bebeu seu drinque. Todos ali se divertiam e saciavam suas necessidades, menos ela. Havia uma mulher em uma das mesas do fundo, sentada sobre a mesa com as pernas abertas e um bonitão entre as coxas. Considerando a maneira como ela jogava a cabeça para trás, e como gemia, não era difícil adivinhar que ele se banqueteava com sua intimidade. Ariel se sentia excluída. Acho que ele não está aqui


hoje. Melhor ir para casa e me masturbar. Ela terminou a bebida e saiu. Quando caminhava pelo corredor em direção à escada, alguém a segurou pelo braço por trás, puxando-a para uma sala pequena como um armário e vazia, e trancando a porta. Ariel quase tropeçou, mas a mão firme a mantinha em pé. Não conseguia ver quem a dominara, porque ele a segurava com o rosto firme contra a parede, mas podia sentir o cheiro de sua colônia, e era inebriante. Seu corpo ficou arrepiado no momento em que a mão tocou sua nádega. Ele não disse nada, apenas rasgou sua tanga e tocou o clitóris. Ariel gemeu quando sentiu os dedos penetrando sua vagina. Quando a sentiu molhada, ele afastou suas nádegas, a dobrou para a frente, e então a penetrou com o pênis pulsante e rígido. – Oh, sim, sim... – ela gemia, sentindo o membro entrando e saindo de seu corpo rapidamente. Ele a segurava pela cintura e quase a tirava do chão com cada penetração. Ariel correspondia e acompanhava os movimentos até ambos estarem à beira do clímax. Ele removeu rapidamente o pênis e ejaculou sobre suas


costas, massageando o líquido quente e denso sobre sua pele. Ela tremia de excitação. Nunca havia sido penetrada com tanta força antes, e era muito bom. Ariel se levantou e virou para encarar o sedutor. Seus joelhos se dobraram quando ela viu a máscara de couro preto e ônix. Nenhum dos dois disse nada, apenas ficaram ali parados, olhando nos olhos um do outro pelas frestas das máscaras. Era como se, em transe, pudessem ler a mente um do outro. Ela não sabia quem era esse homem, mas, quem quer que fosse, ele não tinha apenas seu corpo, mas capturava também sua mente com o olhar intenso. Ariel abriu a boca para falar, mas ele tocou seus lábios com o dedo indicador para impedir qualquer diálogo desnecessário que pudesse arruinar o clima. A parte interna de suas coxas tremia; ela fechou os olhos, respirou fundo e se perdeu no cheiro de sexo e colônia. Quando abriu os olhos um segundo depois – pronta para sentir mais prazer – ele havia desaparecido. Ariel queria ir atrás dele, mas estava paralisada pelo efeito do álcool e pela trepada de sua vida.


11

A secretária de Preston enfiou a cabeça no vão da porta e sussurrou para não atrapalhar sua conversa ao telefone. – Senador Oglesby na linha dois. Preston levantou o dedo indicador e moveu os lábios para responder: – Segure-o na linha um segundo. Anna assentiu e se retirou, deixando o chefe terminar a ligação com privacidade. – Filho, odeio encerrar nossa conversa tão repentinamente, mas preciso atender outra ligação. Mas, antes de desligar, me diga, você já saiu com Michele? – Tenho estado tão ocupado estudando que não tive chance de telefonar. – Só estou perguntando porque tenho que consertar a situação com Ariel. Ela meteu na cabeça que tenho um caso com Michele, e se eu puder dizer a ela que você está saindo com minha assistente, provavelmente tudo se


resolverá. – Preston riu, mas estava falando sério. – Sair com Michele vai ser um prazer para mim. Pode contar com isso. Quem sabe? Talvez possamos marcar alguma coisa os quatro? – ele brincou. – Acho que Ariel não ia gostar da ideia. Bem, agora tenho que desligar. Falamos em breve, filho – ele disse antes de desligar. Preston apertou um botão no aparelho e atendeu a linha dois. – Senador, desculpe por fazê-lo esperar. Conseguiu ler o meu fax? – Sim, li as trinta e duas páginas, e seu dossiê é como um romance de John Grisham, menos os assassinatos e a espionagem, é claro. Sua carreira de advogado é estrelar, e não acredito que tenha dificuldade para garantir a nomeação. Só há um detalhe – ele acrescentou com tom sigiloso. Preston pensou por um instante, revendo mentalmente os últimos vinte anos de sua vida profissional, mas não conseguiu encontrar máculas que o envergonhassem, nem escândalos de julgamentos parciais, nem um olho cego em face da corrupção. – Desculpe, senador, mas não há um caso que eu


tenha presidido, ou mesmo um dos meus casos particulares, que possa prejudicar minhas chances de ocupar um lugar na bancada da Suprema Corte – Preston falou com convicção. – Sim, é verdade, mas não estou falando de seus anos no tribunal, nem sobre o tempo de prática privada. – Bem, o que mais pode ser? – Preston perguntou. – Sua vida pessoal. A resposta o chocou. – Minha vida pessoal? – ele indagou, sem saber ao certo aonde a conversa o levaria. – Sim, sua vida pessoal. O Comitê Judiciário não analisa apenas sua carreira, mas se interessa também por sua vida fora da bancada. Eles querem um candidato completo com uma vida doméstica estável. – Desculpe, senador, mas minha vida doméstica é mais do que estável. Tenho uma casa de vários milhões de dólares em uma das áreas mais caras de Manhattan, onde moro há anos. Se isso não é estável, então, não sei o que é – ele falou na defensiva. – Não me refiro a propriedades, Preston. Estou falando de família. Depois de ler seu arquivo e as páginas sociais, sei que há anos você tem um


relacionamento com Ariel Vaughn da Yates Gilcrest. – Sim, é verdade. A srta. Vaughn não é só advogada, mas sócia da firma e uma excelente mulher – Preston anunciou orgulhoso. – Conheço a história dela. Posso falar com franqueza? – A pergunta era retórica, e ele nem esperou por uma resposta. – O comitê procura um homem de família, alguém que tenha um relacionamento estável e sólido, não um homem solteiro com uma sucessão de namoradas. – Senador, posso ser solteiro, mas não sou um playboy. Ariel e eu estamos comprometidos há anos – ele explicou. – Comprometidos, não casados – ele corrigiu sem rodeios. O comentário o surpreendeu. – Como disse? – É claro, não posso lhe dizer como deve viver sua vida... mas se quer ser um concorrente sério, vai ter de jogar de acordo com as regras deles. E caráter está no topo daquela breve lista de qualificações. Nós dois sabemos que caráter pode aumentar ou destruir suas


chances. Lembre-se das audiências para a confirmação de omas e de como o suposto incidente de assédio em seu passado quase custou a ele o posto de juiz. – São coisas diferentes. Não pode estar comparando meu estado civil a uma acusação de assédio sexual. – Preston estava perplexo. Havia passado anos construindo uma carreira que um dia o levaria à Suprema Corte, e agora era informado de que talvez isso não fosse suficiente para obter a nomeação. Quando criança ele havia visto pela televisão homens e mulheres serem atacados por cachorros, espancados sem misericórdia, e presos em nome da igualdade de direitos. E havia jurado que um dia teria condições e poder para fazer a diferença, que usaria a lei como arma contra a discriminação. Para Preston não havia melhor posição para estar e instituir a mudança se não na Suprema Corte. – É claro que não há comparação. Só estou dizendo que o casamento ajuda a compor o caráter de um indicado. Demonstra estabilidade. Sua história de vida vai ser dissecada sob a lente de um microscópio, e uma possível bandeira vermelha será esse seu longo relacionamento; ter uma “namorada” na sua idade, em


vez de uma “esposa”, mostra medo de compromisso – o senador opinou, expressando com cuidado o que era esperado de um candidato viável. – Esse é um ponto discutível, levando em consideração que já fui casado antes – Preston respondeu. – Isso é passado. Estamos falando sobre o futuro e, para ser bem honesto, já é hora de você fazer da srta. Vaughn uma mulher honesta – ele falou com franqueza. Preston havia planejado passar mais tempo com Ariel, não pedi-la em casamento, mas agora precisava repensar sua estratégia. – Senador, aprecio sua franqueza e vou pensar na sua sugestão. – Acredite em mim, Preston, sei o que o comitê está procurando, e eles querem o pacote completo. – Depois dessa declaração ele mudou rapidamente o tom. – Preciso entrar em uma reunião agora, mas voltaremos a conversar em breve. – Obrigado pelo conselho, senador – ele disse, e desligou. Casamento era a última coisa a passar pela cabeça de Preston. Seu primeiro matrimônio havia sido um


pesadelo. A ex-esposa se revelara uma bruxa psicótica, autocentrada, alguém que só pensava em dinheiro. Preston trabalhava dia e noite para sustentar seus exorbitantes hábitos de consumo. E para piorar a situação, ela havia convencido o filho de que o pai era um adúltero sem caráter. Dizia ao menino que Preston nunca estava em casa porque vivia do outro lado cidade com a segunda família. Preston havia passado anos demonstrando ao jovem e impressionável filho que a mãe dele havia inventado toda essa história, mas era tarde demais. O estrago já havia sido feito. Preston perguntara a ela por que contava mentiras ao filho, e ela havia dito simplesmente: – Você tem sua preciosa carreira, e eu só tenho nosso filho. Você não vai ficar com ele também. E nesse ponto Preston compreendera que ela era instável, e que realmente não a conhecia. Sentira-se tentado a deixá-la, mas não queria abandonar o filho, por isso havia suportado o casamento torturante até o garoto ir para a faculdade, e então pedira o divórcio. Embora realmente amasse Ariel, não planejava outro casamento tão cedo, talvez nunca. Durante o primeiro


matrimônio, Preston havia sacrificado sua felicidade para morar sob o mesmo teto que o filho. Estava disposto agora a abrir mão de sua liberdade para assegurar a indicação? O senador tinha razão, ter como esposa uma advogada de renome certamente fortaleceria suas chances de garantir a indicação. Quanto mais pensava na ideia, mais ela se tornava atraente; estava disposto a se casar outra vez, principalmente se ter uma mulher a seu lado significava apresentar uma imagem mais forte. O único problema que podia prever era convencer Ariel a aceitar seu pedido. Ultimamente se distanciara um pouco dela, dedicando-se inteiramente à carreira, e a distância entre eles crescia a cada dia. Teria que recuar rapidamente para persuadi-la de que o pedido de casamento era sincero. Nenhum momento é melhor do que o presente, Preston pensou, pegando o telefone e digitando o número do escritório dela. – Oi, JoAnne, posso falar com Ariel? – Lamento, Juiz Hendricks– ela respondeu, reconhecendo imediatamente a voz profunda –, mas ela não está. – Foi para o tribunal?


– Não, ela não se sentiu bem e não veio trabalhar. – Ah, tudo bem. Obrigado, JoAnne. Vou ligar para a casa dela. Desde que conhecera Ariel, Preston não conseguia lembrar uma vez em que ela tivesse deixado de trabalhar por estar doente, e começou a se preocupar. Ele ligou para a casa dela em seguida. Ariel atendeu depois do quarto toque. – Alô... – Sua voz soou distante e rouca. Preston suavizou o tom normalmente estrondoso e perguntou em voz baixa, preocupada: – Eu, benzinho, o que aconteceu? – Quem é? – ela perguntou, sem reconhecer o tom carinhoso do outro lado da linha. – Sou eu, benzinho. Acabei de ligar para o seu escritório e JoAnne disse que você estava doente. O que aconteceu? – ele perguntou de novo. – Estou meio resfriada. – Ariel tossiu. – Nada sério – mentiu. Não estava meio resfriada; estava inteiramente de ressaca. Voltara para casa cambaleando da Black Door às três da manhã e caíra na cama imediatamente. Quando acordara de manhã, ainda vestia o traje vermelho e


provocante, e a cabeça latejava como um tambor gigantesco. Então, havia tomado dois comprimidos de analgésico, ligara para o escritório avisando que estava doente, despira a roupa incriminadora e se enfiara embaixo das cobertas. – Quer que eu leve uma sopa? – ele ofereceu, uma atitude completamente atípica. Em todos os anos desde o início do namoro, Preston nunca havia passado no mercado para levar nada para ela. – Não, não quero prejudicar sua agenda cheia – Ariel respondeu, extravasando certo ressentimento. Preston ficou em silêncio por alguns segundos, registrando o comentário sarcástico. – Ariel, sei que tenho estado ocupado ultimamente, mas quero compensá-la por esse tempo. Prometo que, de agora em diante, tudo vai ser diferente – ele declarou com seu tom mais convincente. Lembrando o que havia vivido na Black Door, Ariel pensou: As coisas já estão diferentes. A confiança estava de volta, e agora não precisava de Preston para satisfazer seus desejos sexuais; a sensação era de liberdade. – Tudo bem – respondeu sem se comprometer.


– Essa não é uma promessa vazia. – Ele ergueu um pouco a voz. – Ariel, você significa mais para mim do que jamais saberá. – Sim, aposto que sim – ela concordou casualmente. Preston estava confuso. Ariel havia passado as últimas semanas praticamente implorando por sua atenção e, agora que ele se derramava em carinho, ela dava a impressão de que não poderia se importar menos. Se não a conhecesse tão bem, poderia jurar que havia mais alguém em cena, outro homem, mas tinha certeza de que ela jamais o trairia. – Tenho uma ideia. Vou à sua casa hoje à noite e levo sopa, uma caixa grande lenços de papel e remédio para resfriado. – Não, obrigada. Eu realmente não me sinto disposta o bastante para ter companhia – ela respondeu, rejeitando-o. Preston se sentiu ofendido. – Companhia? Desde quando me tornei companhia? – Preston, não seja bobo. Você sabe o que eu quero dizer. Estou me sentindo mal, só quero vegetar na frente da televisão; além do mais, não quero que você pegue minha gripe.


– Ah, tudo bem – ele cedeu, sabendo que não podia se dar o luxo de adoecer, agora que começava uma empreitada importante. – Porém, assim que você melhorar, vamos sair para jantar. Não saímos há semanas e... – Ele parou um instante, esperando que ela demonstrasse alegria com a proposta; quando o silêncio se prolongou, ele concluiu: – Sinto sua falta, Ariel. Ela forçou a tosse mais uma vez. – Vou tomar mais um comprimido e voltar para a cama. Falo com você mais tarde – disse, ignorando seu sentimentalismo. – Melhoras, meu bem. Depois de desligar, Preston apoiou a cabeça nas mãos e suspirou. O relacionamento estava em piores condições do que havia imaginado, e seria necessário mais que um jantar romântico e algumas palavras doces para reconquistar Ariel. Mas não a deixaria dissuadi-lo de sua missão. Ser um juiz da Suprema Corte era seu sonho desde que conseguia lembrar, e um pequeno problema – ser solteiro – não arruinaria seu projeto tão bem traçado.


12

As emoções de Trey escapavam ao controle. Estava em conflito. Por um lado, ainda apreciava os efeitos do sexo explosivo com Meri Renick, mas, por outro, quebrara a regra numero uno da casa. Quando a boate havia sido inaugurada, Trey prometera a si mesmo que não se envolveria com as associadas. Acreditava que, para ter um negócio bem-sucedido, teria que se comportar como um empresário, não como um gigolô. Mas a natureza assumira o comando naquela noite em que vira Meri andando pela boate vestida de vermelho, exibindo o corpo sedutor. Não resistira e se deixara levar pelo instinto. A libido estava no controle quando a puxara para dentro de um armário sem dizer uma única palavra, porque o corpo falava tudo que havia para ser dito. Sentira desde a primeira noite na escada que ela o queria tanto quanto ele a desejava. O espaço para onde a levara era estreito, suficiente apenas para encontrarem a utopia. O orgasmo havia sido tão


forte que Trey vira estrelas. Sempre havia pensado que o clichê era só uma fantasia, mas vira realmente alguns seres celestiais quando ejaculara. Pensar em estar dentro dela era suficiente para deixá-lo ereto, e ele começou a ansiar por seu corpo, como um viciado desejando ardentemente uma pedra de crack. A atração por essa mulher era desconcertante. Não gostava de mulheres mais velhas, mas se sentia irresistivelmente atraído por ela e não conseguia tirar da cabeça a sensação de acariciar o traseiro firme, aveludado. Tenho o antídoto perfeito para curar essa vontade , ele pensou, olhando para o número de celular anotado no verso de um cartão amassado. Ele digitou os sete algarismos. A única coisa melhor que uma vagina era uma nova vagina. – Alô – atendeu uma voz doce do outro lado da linha. – É Trey – ele disse, como se o primeiro nome fosse suficiente como apresentação. – Estava esperando você ligar. Por que demorou tanto? – Não sabia que havia um limite de tempo – ele provocou.


– Por você eu teria esperado para sempre e mais um pouco. Essa era a reação que Trey havia provocado nas mulheres – jovens e mais velhas – ao longo de toda sua vida, e o elogio alimentou sua alma. Nunca tivera dificuldades para arrumar uma namorada; seu problema era manter o interesse por uma mulher pelo tempo suficiente para assumir um compromisso. Era um solteiro convicto, sempre alerta para escapar diante da primeira menção à palavra que começa com C. – Quer sair hoje à noite? – ele perguntou, sabendo bem que ela não seria capaz de resistir ao convite. – É claro – Michele respondeu animada. – O que tem em mente? Trey tinha apenas uma coisa em mente no momento, e era sexo. – Por que não vem para o jantar e a sobremesa – ele disse com tom insinuante. – Tudo bem – a jovem respondeu prontamente, sem perder o ritmo. – Meu endereço é 128 East irty-eight, logo depois do Parque. Espero você por volta das nove. – Mal posso esperar – ela confessou, e desligou.


O apartamento de Trey, diferente de sua personalidade, não era o ambiente típico de um solteiro. Morava no East Side em um belo edifício art déco construído antes da guerra e reformado. Seu apartamento era um espaçoso duplex com piso de madeira clara, três varandas – duas no andar de baixo e uma no quarto principal – duas suítes espaçosas e dependências de empregada. Como trabalhava em um ambiente sexualmente carregado, não queria essa mesma atmosfera em casa, por isso havia escolhido um tema monocromático para a decoração, tons de terra com algumas nuances de cor. A mobília italiana era brilhante, de linhas precisas e limpas, como os eletrônicos, e as obras de arte eram guaches originais de Dalí, Erté e Pollock. Depois de uma ducha rápida, Trey vestiu uma calça de seda com cordão na cintura e camiseta regata, aspergiu no rosto sua colônia Bvgari, e desceu à cozinha. Trey era chef amador e se orgulhava de suas criações únicas com massas. Ele estudou o conteúdo da geladeira procurando alguma coisa para preparar, mas só havia um pé de alface, um pedaço de brie com manchas de


mofo e meia lata de chantilly – havia usado a outra metade entre as pernas da última convidada que jantara em sua casa – e uma garrafa de Nectar Moët & Chandon. – Acho que vou ter que pedir alguma coisa – ele disse, tirando o champanhe do refrigerador. Trey pegou o cardápio do Table for Two na gaveta do armário da cozinha e leu as opções. Sem saber se a convidada era carnívora ou vegetariana, ele pediu carne, frutos do mar e um suflê de espinafre. Depois de pedir o jantar, Trey acendeu algumas velas pelo apartamento. O brilho das chamas tremulantes se refletia nas paredes de alabastro, criando um clima romântico e aconchegante no espaço amplo. Criado o cenário, ele foi buscar um balde de prata com gelo, o champanhe e duas taças de cristal na cozinha, e arrumou tudo sobre a mesa de coquetel da sala de estar. O porteiro interfonou justamente quando ele removia a rolha. – Timing perfeito – ele murmurou. Trey autorizou a entrada da convidada e abriu a porta da frente, deixando-a ligeiramente encostada antes de voltar à sala de estar. Lá ele se sentou no sofá, serviu champanhe nas duas taças e sorveu um gole casualmente.


– Oi...? Trey...? – ela chamou da porta. – Estou aqui. Michele seguiu o som da voz dele, e em segundos estava diante de Trey. Ele ofereceu à visitante uma taça de champanhe. – Bem-vinda à minha humilde residência – disse com um sorriso. – Belo lugar – a recém-chegada comentou, olhando em volta e analisando a sala de iluminação suave. Deixando a taça sobre a mesinha, Michele despiu o casaco. O membro de Trey pulsava e começou a subir no momento em que ele a viu sem o casaco. Michele usava um minivestido de cetim preto com fitas amarrando as laterais, expondo as coxas e acentuando os mamilos firmes sob o tecido brilhante. Ela era incrível, e queria sentir seu sabor, mas decidiu jogar com calma. Trey sabia que, se desse a impressão de não se abalar com seu traje insinuante, ela se esforçaria mais para chamar sua atenção. E realmente, quando ele não fez nenhum comentário sobre o vestido, ela se inclinou, pegando a taça bem na frente dele e oferecendo uma visão provocante de seu decote. Trey engoliu em seco, mas não


disse nada ao ver os seios suculentos soltos dentro do vestido. Podia ver os mamilos roçando o tecido, e queria tanto sugá-los que sua boca se encheu de água, mas ele ignorou a urgência. – Espero que esteja com fome – disse sugestivo. Os olhos dela encontraram a área entre suas pernas, e apesar da iluminação suave da sala, ela detectou o início de uma ereção. Michele levou a taça aos lábios, bebeu seu conteúdo de uma vez só, lambeu os lábios e disse: – Estou faminta. Foi necessária toda força de vontade de Trey para não puxá-la sobre seu corpo, mas precisava manter a compostura; caso contrário, perderia o controle e daria a impressão de estar desesperado. Havia perdido o controle com Meri, e a experiência havia sido o bastante para trazê-lo de volta à realidade. E em sua realidade, nunca era comandado por uma vagina – apesar de adorar fazer sexo – nem era controlado por uma mulher. – Ótimo. Pedi o jantar no Table for Two. A comida deve chegar logo – ele comentou com aparente indiferença.


Michele parecia confusa, como se não soubesse bem como ler suas reações. Num minuto ele parecia estar flertando, no outro dava a impressão de estar indiferente. Esperava ser agarrada no instante em que despisse o casaco, mas ele não a tocara até agora. Normalmente, não fazia sexo com um homem até conhecê-lo por trinta dias, pelo menos, mas abria uma exceção para Trey. Ela se aproximou dele, abriu as pernas e se sentou diretamente sobre seu membro cada vez mais ereto. – Quero um aperitivo antes do jantar – sussurrou no ouvido dele. – O que tem em mente? – ele perguntou casualmente, como se não tivesse uma mulher sentada em seu colo. Michele massageou seu membro através da seda da calça. – Adoro salsicha. – É mesmo? – Trey tentava desesperadamente manter a calma, mas seu membro estava duro como um cano de cobre, e queria muito penetrá-la. – Sim, é mesmo. – Ela se levantou e ajoelhou entre suas pernas, libertou o pênis pela abertura da calça e começou a lambê-lo. A língua passeou pela extremidade


contornando-a, e em seguida ela enfiou o membro na boca. Trey a segurou pelos cabelos enquanto ela o chupava. – Sim, benzinho, é isso mesmo. Não pare. Ela movia a cabeça para cima e para baixo freneticamente, e em pouco tempo o levou perto do clímax. Então, trocou a boca pela mão. – Isso é o que eu chamo de aperitivo – Michele comentou ofegante, limpando a boca com o dorso da mão. Depois do orgasmo, Trey estava satisfeito e pronto para mandá-la embora, mas tinha que ser cuidadoso, porque frequentavam os mesmos círculos sociais. – Sim, foi muito bom. Ela se sentou ao lado dele no sofá. – Senti vontade de fazer tudo isso na primeira vez que o vi – confessou. – Quem espera sempre alcança coisas boas – Trey provocou. – Como eu disse antes, eu esperaria você para sempre – e o encarou com um olhar sonhador.


Ao ouvir a sinceridade na voz dela, Trey soube que tinha que deixar claras suas intenções, ou ela acabaria magoada e ele teria que encarar retaliações. – Escute – Trey se afastou um pouco. – Não estou procurando um relacionamento. – Nem eu – Michele mentiu. – Só quero me divertir. – Legal. Podemos nos divertir, desde que estejamos na mesma sintonia. – O toque da campainha interrompeu a conversa. – O jantar – ele deduziu, e pediu licença para ir receber a comida. Eles comeram em silêncio. Trey ainda pensava em Meri. Tinha a sensação de estar sob uma espécie de feitiço hipnótico, e a tentativa de se libertar não foi bemsucedida. Odiava admitir, mas o que queria e precisava era voltar à fonte do êxtase, e essa fonte era Meri.


13

Ariel pegou várias pastas e as colocou na caixa de saída para JoAnne arquivar; seu dia de trabalho chegava ao fim, e não era sem tempo. Há alguns dias estava se arrastando. Ainda se sentia bêbada de vodca e prazer depois do sexo anônimo, e não conseguia se recuperar. A vitamina B que havia tomado naquela manhã já se dissipara, e tudo que queria fazer era ir para casa, tomar um banho e ir para a cama. Mas, para seu desânimo, Preston insistia em levá-la para jantar. Normalmente, teria agarrado sem hesitar a chance de passar uma noite com ele, mas seus sentimentos começavam a mudar. Ariel não esperava estabelecer uma conexão na Black Door; a intenção era ser apenas uma espectadora inocente, mas, em vez disso, havia se transformado em uma participante ávida. Agora a experiência a levava a questionar seus sentimentos por Preston. Ela ditou mais uma carta para a secretária transcrever, depois pegou suas coisas e se dirigiu à porta.


– JoAnne, pode preparar isso para amanhã de manhã? – ela perguntou, entregando à assistente a fita de áudio. – É claro, sem problema. Boa noite, srta. Vaughn. – Obrigada, JoAnne, e não fique até muito tarde. JoAnne, que era mãe solteira, trabalhava com Ariel desde que ela começara na firma, e era esforçada o bastante para fazer muitas horas extras a fim de manter a filha na escola particular. Ariel não se sentia com disposição para enfrentar o metrô. Em vez disso, ela parou um táxi na frente do prédio do escritório. No banco de trás, reclinou a cabeça e fechou os olhos. No mesmo instante ela lembrou o encontro com o sr. Máscara Negra. Ninguém jamais a tocara daquele jeito antes; era assustador e excitante ao mesmo tempo. Assustador porque ele a pegara por trás, desprevenida, e a puxara para uma sala pequena e escura; excitante porque o desejo inflamara seu corpo no momento em que ela percebera que aquele era o homem que havia procurado a noite toda. Mas também ficara perplexa com o repentino desaparecimento. Os outros servidores que encontrara pela boate eram verbalmente agressivos – praticamente imploravam para possuí-la –


mas ele não havia dito nada, apenas transara com ela e fora embora. Não devia se sentir ofendida com esse comportamento, mas era atraída por sua mística, e queria saber mais sobre o homem atrás da máscara. O corpo dele era perfeito, como se Michelangelo o houvesse esculpido cuidadosamente em mármore. Sentira os músculos definidos de seus braços quando ele a agarrara pela cintura. E o cheiro da colônia era como um afrodisíaco aromático que a enchia de luxúria. Pensar nele a deixava molhada. Ariel uniu as pernas com força numa tentativa de aplacar o desejo crescente. O som abafado de uma campainha interrompeu o devaneio libidinoso. Ela revirou os olhos para a interrupção, pegou o celular na bolsa e suspirou ao reconhecer o número do identificar de chamadas. – Alô, Preston – disse, demonstrando o entusiasmo de um molusco vagaroso. – Ei, benzinho, onde você está? – ele perguntou animado. Ariel ainda estava aborrecida com como Preston havia desqualificado suas acusações quando ela o interrogara em sua casa. Ele praticamente rira na sua


cara quando o acusara de ter um caso com Michele. – Indo para casa. – Fiz reserva no Spice Market para as oito horas. Pego você às sete e meia, então, fique pronta. Mal posso esperar para ver você, benzinho. Vampiros de Almas passou como um relâmpago pela mente de Ariel. Alguém substituiu o verdadeiro Preston por uma réplica? Pouco tempo atrás ele não media esforços para mantê-la distante, concentrado em sua preciosa carreira. De repente sua atitude havia mudado, e agora ele praticamente a perseguia para saírem juntos. Não sabia se devia ficar feliz ou desconfiada. – Tudo bem. Estarei lá embaixo às sete e meia. – Até lá, benzinho. – E então, numa atitude realmente surpreendente, ele fez um ruído de beijo antes de desligar. Ariel olhou para o celular com ar de estranhamento. O que deu nele? O trânsito estava parado no centro da cidade, como sempre, e o táxi ficou no mesmo lugar por quinze minutos, aparentemente, antes de seguir a passo de caracol rumo ao edifício de Ariel. Quarenta e cinco minutos mais tarde, ela finalmente chegou em casa.


Uma vez dentro do apartamento, Ariel foi ao quarto e se jogou sobre a cama para um cochilo rápido. Planejava dormir por vinte minutos, tomar uma ducha e se vestir, mas quando o telefone tocou, ela olhou para o relógio sobre o criado-mudo. Eram sete e dez. Havia dormido por mais de uma hora. – Alô – atendeu aflita. – Onde é o incêndio, querida? – Meri perguntou, percebendo o tom apavorado. – Oi. Não posso falar agora. Estou atrasada – ela disparou. Preston era obcecado por pontualidade, e embora ainda estivesse ressentida com ele, não queria começar a noite com um clima negativo. – Ah... – Meri soava ofendida. – Escute, eu ligo para você mais tarde – Ariel falou, tentando desligar depressa. – Tudo bem, querida – Meri respondeu, e desligou. Ariel não teve tempo para tomar banho, por isso refrescou rapidamente as áreas principais, usando uma esponja e sabonete. Depois correu ao closet e pegou um vestido de jérsei preto do cabide de madeira, calçou as meias e pôs um colar de pérolas. Os cabelos foram escovados e presos num coque simples, a maquiagem foi


simples, pó compacto e batom Russian Red nos lábios. Depois de jogar a identidade, o celular, o cartão de crédito e o batom dentro de uma bolsinha para noite, ela espirrou no pescoço um pouco de Enjoy e saiu em tempo recorde. A limusine de Preston parava junto da calçada quando ela saiu do prédio. Ariel diminuiu o ritmo e suspirou. Não queria parecer ansiosa, embora parte dela estivesse eufórica. O homem havia realmente tomado a iniciativa e planejado um encontro. Mesmo assim, ela manteve a calma ao entrar no carro. – Uau, você está linda! – ele exclamou, e segurou a mão dela para ajudá-la a se acomodar no banco de trás. Depois inspirou profundamente. – E que cheiro delicioso! – Quantos elogios para uma noite só. – Você merece cada um deles e mais. – Ele sorriu. Incapaz de suportar os galanteios por mais um minuto que fosse, ela disparou: – Preston, escute, precisamos conversar. Ele tocou seu joelho. – Eu sei, benzinho, mas vamos esperar até chegarmos


ao restaurante. Teremos um ótimo jantar, pediremos um bom vinho e teremos uma conversa maravilhosa que já devia ter acontecido há muito tempo. Ariel cedeu relutante. – Tudo bem, Preston, como quiser. Em um esforço para aliviar a tensão crescente, ele pressionou um dos três botões no apoio para braço e, imediatamente, um jazz suave soou no interior do carro, enquanto eles se concentravam no cenário que passava pela janela, não no elefante cor de rosa sentado entre eles. A limusine seguia para o sul pela Quinta Avenida para o centro da cidade, e eles continuavam em silêncio, ouvindo Billie Holiday cantar ao fundo. Vinte minutos mais tarde, o carro parava na frente de um dos aclamados restaurantes de Jean George. O Spice Market ficava no Meatpacking District, a nova e movimentada área preferida pelos modernos de Manhattan. Antes, a região era uma desolada zona comercial habitada por açougueiros e carcaças penduradas em cabides de carne durante o dia, e por ratos enormes que invadiam as ruas à noite. Ao longo dos anos a vizinhança havia sofrido uma mudança drástica, com galpões abandonados sendo convertidos


em lofts de milhões de dólares com galerias de arte e cafés de vanguarda atraindo as pessoas “bonitas” em grandes grupos. A área, antes desolada, agora era invadida por pessoas requintadas que iam visitar as butiques caras e jantar em alguns dos melhores restaurantes da cidade. – Hendricks, mesa para dois – Preston disse à hostess. Ariel observava o espaço amplo de dois andares. Embora grande em escala, o salão tinha um clima romântico, ligeiramente erótico. A decoração era Malásia encontra Manhattan, meio zen com um toque de urbano chique. A hostess parecia ter reconhecido imediatamente seu nome, porque nem precisou consultar a lista de reservas. – Sim, por aqui, senhor. – Ela os levou por uma longa escada a uma sala privada aconchegante de iluminação suave. – O garçom virá atendê-los em um momento. Ariel acomodou-se sobre as almofadas de um tom castanho avermelhado, e Preston também se sentou. O garçom apareceu na porta como um gênio que sai de uma garrafa, vestindo uma bata e calça de sultão.


– Posso trazer as bebidas? Preston sabia exatamente como Ariel gostava de seu martini, e tomou a liberdade de pedir pelos dois. – Queremos dois martinis Belvedere gelados e extremamente secos. Também gostaria de ver sua carta de vinhos. O garçom retornou rapidamente com as bebidas e começou a explicar os especiais do dia. – Como entrada, temos uma suculenta salada de carne de caranguejo com vermicelli; bolinhos de peixe frito à moda tailandesa; e rolinhos primavera. E como prato principal, costeletas envoltas em cebola e pimenta, ou peixe grelhado servido inteiro sobre um leito de macarrão de gergelim e limão. Os pratos servem duas pessoas e são servidos quando ficam prontos, não há uma ordem específica – ele avisou. – Tudo parece ser muito bom. Vou deixar que nos surpreenda – Preston disse ao garçom. – Como quiser, senhor. – Ele assentiu como um gênio. Quando o garçom se afastou, Preston levantou a taça e bateu com ela na de Ariel.


– A nós. Ela bebeu um gole e, sentindo a vodca gelada descer suave pela garganta, começou finalmente a relaxar. Ariel não conseguia lembrar a última vez que ela e Preston haviam tido um jantar romântico, e era bom ser mimada. Preston se aproximou e a beijou suavemente no pescoço. – Tenho sentido sua falta, Ariel – ele cochichou em seu ouvido. – Você tem estado muito ocup... Ele a beijou nos lábios para silenciá-la, e terminou a frase por ela. – Eu sei que tenho estado ocupado ultimamente, mas prometo, as coisas vão mudar. Você é a pessoa mais importante na minha vida, e eu... – Engraçado, pensei que o senador Oglesby fosse a pessoa mais importante em sua vida – ela o interrompeu. Preston parecia magoado, como se as palavras o houvessem atingido em cheio, mas ele se recuperou rapidamente. – Reconheço que ocupar um lugar na bancada da Suprema Corte é um sonho de muito tempo, e o senador


tem sido uma parte inevitável desse processo tedioso, mas... Ela o cortou mais uma vez. – O que está tentando me dizer, Preston? Que nosso relacionamento vai ter que ficar em banho-maria até a confirmação da sua indicação? – ela perguntou, erguendo um pouco a voz. Podia sentir a veia no centro de sua testa começar a latejar, e bebeu todo o martini de uma vez só para tentar se acalmar. – O que estou tentando dizer – ele disse, levando a mão ao bolso interno do paletó para pegar um pequeno estojo azul – é que amo você. – Preston abriu a tampinha. – E quero que seja minha esposa. Ariel olhou para a caixinha de veludo, e dentro dela viu um anel de diamante de quatro quilates com lapidação de princesa. Um anel de noivado. O choque era tão grande que ela não conseguiu manter a boca fechada. Um pedido de casamento era a última coisa que esperava. Embora namorassem há anos, ele nunca havia sequer cogitado casamento, e ela nunca tentara tocar no assunto. O jeito como Preston agia ultimamente a levara a presumir que a última coisa que ele queria era um


compromisso permanente. – Eu... eu... não sei o que dizer – Ariel gaguejou. Preston tirou o anel da caixa e o colocou no dedo dela. – Diga sim. Ela ficou olhando para a pedra, admirando o jeito como brilhava à luz da vela. Os raios coloridos eram hipnóticos, deixando-a sem fala. – Ariel, quer se casar comigo? – ele perguntou, esperando ansiosamente por sua resposta. – Preston, não acha que precisamos ter uma conversa séria sobre o que tem acontecido recentemente, antes de criarmos uma situação para a qual nenhum de nós está preparado? – Se está falando sobre Michele, vou repetir pela última vez: não existe nada entre mim e ela. Nosso relacionamento é estritamente profissional. Além do mais, ela está saindo com meu filho. A revelação a surpreendeu. – O Pequeno Preston? – Ele não é pequeno. Não mais. Agora é um homem adulto. E ele e Michele estão namorando – Preston repetiu para dar ênfase à declaração.


– Uau, não o vejo desde... – ela hesitou, tentando lembrar o último encontro. – Nem sei desde quando. – Na verdade, você o viu outro dia em casa. Ele estava chegando quando você saía. Mais uma vez, ela o encarou surpresa. – Aquele era o Pequeno Preston? – Sim, em carne e osso. – E Preston a fitou nos olhos segurando sua mão. – Agora acredita quando digo que não estou dormindo com Michele? Ela assentiu para responder que sim. – Mas... – Nada de mas, benzinho. Apenas diga sim. – Preston, você tem exigido muito de mim. Primeiro se afasta, agora muda completamente e me pede em casamento. Isso me pegou completamente de surpresa, vou precisar de algum tempo para pensar nessa inesperada mudança no rumo das coisas. – No fundo da mente ela ouvia a voz da mãe de criação dizendo a ela para aceitar, mas depois do encontro na Black Door, não tinha certeza sobre o que queria. Ele deixou cair os ombros e se encostou às almofadas, como se todo o oxigênio houvesse sido sugado de seus pulmões. Preston sabia que Ariel estava


aborrecida com ele por tê-la negligenciado enquanto se dedicava à carreira, mas nunca imaginara que ela hesitaria diante de um pedido de casamento. – Use todo o tempo que for necessário – ele disse, tentando soar solidário e entender seus sentimentos. – Obrigado pela compreensão. Mas Preston não entendia. Sabia que a maioria das mulheres queria véu branco e promessas, mas Ariel praticamente o rejeitara sem rodeios. Bem, não a pressionaria esta noite, mas também não a deixaria escapar por entre os dedos. Muita coisa dependia da decisão dela, então, de um jeito ou de outro, ela seria a sra. Preston Hendricks.


14

Ariel sentou-se de costas para a porta fechada, olhando para a janela panorâmica do escritório. O céu azul era limpo, sem nenhuma nuvem, e ao ver a linha branca deixada pela passagem de um jato, ela se perguntou para onde ele iria. Imaginou-se viajando naquele avião e sendo levada para uma ilha tropical onde passaria os dias comendo, bebendo e transando. Devaneios haviam consumido seu dia inteiro, e ela tinha dificuldade para se concentrar em qualquer outra coisa que não fosse a enorme pedra em seu dedo. Estendendo a mão, admirou como o sol projetava reflexos ao incidir sobre as faces da lapidação, criando um caleidoscópio de cores brilhantes. Apesar de não ter aceitado o pedido de casamento de Preston, também não conseguia tirar o anel do dedo; era estonteante, e sentia-se cativada por sua beleza. Durante a manhã inteira e metade da tarde, Ariel havia tentado entender por que Preston mudara tão


completamente e tão de repente. A única razão plausível era que ele estava tentando compensá-la por ter posto sua iminente indicação na frente do relacionamento, mas seu gesto de devoção não podia ter vindo em hora pior. Amava Preston, mas o sexo com o amante secreto havia sido tão explosivo que a fizera questionar se estava realmente pronta para dormir com um homem só o resto da vida. Pensamentos conflitantes giravam em sua cabeça a uma velocidade espantosa, deixando-a tonta. Ariel precisava de um porto seguro, uma tábua de salvação que a ajudasse a desembaralhar os pensamentos. Pensou em telefonar para a mãe de criação, mas a sra. Grant seria tudo, menos diplomática. Ela provavelmente telefonaria para Preston e aceitaria seu pedido de casamento em nome dela. Ariel virou a cadeira de frente para a mesa, pegou o telefone e ligou para Meri. – Ei – disse, tentando soar calma. – Querida, vejo que finalmente tem tempo para conversar. Ontem à noite você desligou o telefone tão depressa que nem tive tempo para contar sobre Stanton – Meri comentou, dirigindo imediatamente a conversa para seu assunto favorito: homens.


– Quem? – Só o homem mais delicioso que já experimentei – disse Meri, usando uma de suas frases padronizadas. – Você não disse isso sobre, ah, como era o nome dele? – Paul – Meri respondeu, sabendo exatamente a quem ela se referia. – Bem, ele estava no cardápio da semana passada. Stanton é o prato do dia, e estou me banqueteando diariamente. Devia ver a cabeça daquele pau. É tão grande e macia que não consigo mais viver sem tê-la na minha boca. E o jeito como ele me come é de enlouquecer. Não fazia um 69 tão bom desde 1969. – Ela riu com vontade. Meri sempre divertia Ariel. Ela era a criatura mais sexual que Ariel jamais havia conhecido. Sua libido estava em constante movimento, e ela consumia homens como uma viúva negra devorando suas presas inocentes. – Por quanto tempo vai ficar com esse? – Ariel perguntou, sabendo que Meri não mantinha seus brinquedinhos sexuais por perto durante muito tempo. Esgotada a novidade, ela os descartava e voltava à prateleira farta e variada para escolher um brinquedo novo.


Meri gargalhou, depois disse: – Desde que ele mantenha meu clitóris feliz e o pau duro, acho que posso manter a situação por algumas semanas antes de trocá-lo. – O quê? Tanto tempo? Deve gostar mesmo dele – Ariel debochou. – Na verdade, eu gosto. – Agora o tom de voz era sério. – Ele é mais que um corpo bonito. Você pode não acreditar, mas a mente também é muito boa. Falamos sobre política, questões sociais e até religião. Sem acreditar na mudança de atitude de Meri, Ariel brincou: – Antes, durante ou depois do sexo, é claro. – Touché – Meri respondeu com tom seco. – Mas chega de falar sobre mim. Como vai a vida? – ela perguntou, pronta para mudar de assunto. – De cabeça para baixo e girando loucamente – disse Ariel, olhando para o anel de noivado. – O que aconteceu? Tentando organizar os pensamentos, Ariel hesitou. – Não sei nem por onde começar – suspirou. – Comece pelos trechos mais interessantes.


– É claro que você quer a sujeira primeiro – Ariel riu. – Eu voltei à Black Door e... – E finalmente transou, ou ficou só andando por lá e olhando tudo? – Meri interrompeu. – Meri, Meri, Meri – ela repetiu, incapaz de verbalizar a experiência sensacional. – O sexo foi tão bom que eu vi estrelas. – Estrelas? Qual dos bonitões fez você perder a cabeça? – Meri perguntou, sabendo que a Black Door era repleta de jovens garanhões disponíveis e prontos para satisfazer uma mulher sem demora. – Quem disse que transei com alguém, mocinha? – Não precisa nem falar; seu tom já diz tudo. Então, me diga, qual dos homens mascarados acendeu seu fogo? Ariel lembrou imediatamente o encontro erótico, e sua temperatura subiu alguns graus. E embora Meri não pudesse ver o gesto, ela se abanou com a mão reagindo ao calor da lembrança. – Bem, não vi a máscara até depois de feito o trabalho sujo. Pela primeira vez foi Meri quem ficou chocada. – O que quer dizer? – Ele me pegou totalmente desprevenida, e


praticamente me arrastou para uma sala muito pequena. Meu rosto estava tão próximo da parede que eu não conseguia ver nada, e quando finalmente me virei, ele estava bem na minha frente. – Ele? De quem está falando? – Eu não contei sobre o homem da máscara negra? Meri pensou por um segundo, lembrando a última conversa que tiveram sobre a Black Door. – Não, você nunca mencionou ninguém usando uma máscara negra. – Eu o conheci naquela primeira noite na escada e a química entre nós foi... – Ela hesitou, tentando encontrar a palavra certa. – Elétrica. Nunca me senti atraída dessa maneira por um homem antes, nunca. Minha libido subiu como um foguete assim que o vi, e senti vontade de me jogar em cima dele e agarrá-lo ali mesmo na escada. Meri se surpreendeu ao ouvir Ariel falar com tanta franqueza sobre desejar um homem. Normalmente, era ela quem compartilhava todos os detalhes de suas experiências sexuais. – E o que a impediu?


– Não reagi com a rapidez necessária. Você precisa lembrar que toda essa experiência é nova para mim, e fiquei paralisada, mas na outra noite estava preparada. Uau! – Ela suspirou. – Pensar nele já me faz incendiar. – Então, quando vai voltar para mais uma dose? – Não vou – Ariel declarou sem rodeios. – Por quê? Agora fiquei confusa. Você teve a experiência sexual da sua vida, por que não quer repetir a dose? – Porque Preston me pediu em casamento ontem à noite – ela contou, chegando finalmente ao verdadeiro motivo do telefonema. – O quê? – Meri quase derrubou o aparelho. – Como vocês passaram de mal se verem ao noivado? – Não estamos noivos, porque ainda não dei uma resposta. Disse a ele que preciso de tempo para pensar. A proposta surgiu do nada, e ainda estou tentando assimilar essa completa mudança de atitude. – Ariel seguiu contando os detalhes da proposta de Preston e sua declaração de amor eterno. – Acho que está sendo paranóica, querida. Só posso dizer que já era hora. Vocês namoram há mais tempo do que muitos casais têm de casados. Então, quando vai ser


o grande dia? Ariel se surpreendeu com a resposta da amiga. Esperava que Meri apontasse as falhas na história sentimental de Preston, já que muitas vezes ela havia dito que devia trocá-lo por um homem mais jovem. – Talvez seja paranoia, mas esperava que você, mais que todas as pessoas, me entendesse. – Entendo, mas acho que está exagerando na reação. Não é isso que você sempre quis? – Francamente, não sei o que eu quero. – Ariel suspirou ruidosamente, evidentemente frustrada. – Quando eu era mais nova sonhava com a casa perfeita, com o marido perfeito e com filhos perfeitos, mas agora sei que nada é perfeito. Muito menos Preston e eu. Faço sexo depravado com um desconhecido, e ele está obcecado por uma carreira política que o levará para Washington. Eu estou bem estabelecida em Nova York, e não tenho certeza de que estou preparada para abandonar tudo e seguir Preston para a capital do país. – Querida, não seja tão pessimista. Você pode se transferir para o escritório de Washington da Yates Gilcrest. Além do mais, acho que toda mulher deve ter


pelo menos um casamento extravagante na vida, e você, minha querida, ainda não viveu essa experiência – ela comentou com tom brincalhão, tentando animar a amiga. Contrariando a crença popular, Meri era uma defensora do casamento. Ela mesma já se casara duas vezes, e havia conhecido os dois lados da instituição, o bom e o ruim. O primeiro marido era um tirano avarento que monitorava cada centavo que ela gastava, e quando ela protestou contra o orçamento ridículo e inviável, ele cortou seus cartões de crédito e tirou o nome dela da conta bancária. Sem conseguir suportar a vida sob um microscópio, ela se divorciou e saiu do casamento com mais dinheiro do que pudera gastar durante todo o tempo em que estivera casada. O segundo marido, por outro lado, havia sido o amor de sua vida. Generoso, ele a cobria de amor e presentes caros regularmente. Quando ele morrera, Meri ficara devastada e começara a sair com homens mais jovens para suportar a dor. Ariel riu com nervosismo. – Não se trata de pompa e circunstância. Casamento é um compromisso para a vida toda, e eu simplesmente


não sei se estou preparada para dedicar o resto da minha existência a um homem. – Hum, isso tem alguma coisa a ver com seu amante da Black Door? – Meri perguntou sem rodeios. Ariel não disse uma palavra, porque não queria admitir a verdade. E a verdade era que não conseguia parar de pensar no homem mascarado, no que ele podia ser fora da boate. No fundo, fantasiava acordar todas as manhãs com ele em sua cama, com como fariam amor antes de sair para trabalhar e em como passariam todas as noites nos braços um do outro. Meri já havia vivido essa história mais de uma vez, e decifrou instintivamente a hesitação de Ariel em se comprometer. – Escute, sei que está romantizando o que seria viver um relacionamento com um bonitão, mas, acredite em mim, o sexo esfria depressa quando você tenta transformar um “operário do sexo” em homem decente. Querida, acredite em mim, sei o que estou dizendo; evite uma decepção e muito sofrimento e case com Preston. Ele pode não ser o pão mais gostoso da padaria, mas é um homem com quem você pode contar, alguém que vai estar do seu lado nos momentos difíceis.


Meri tinha razão. Como poderia construir uma vida com um gigolô? – Você está absolutamente certa. Passei os últimos dias na Ilha da Fantasia e não tenho raciocinado direito. – Sexo bom faz isso com a gente. Só não esqueça que a Black Door não é uma realidade. É um playground para adultos, um lugar aonde ir quando quiser sexo explosivo, e nada mais. Além disso, você sempre pode voltar lá nas noites em que Preston fizer hora extra – Meri debocha. – Fala sério. Assim que eu me casar, você terá de volta sua máscara vermelha. – Ah, então tomou uma decisão? – Meri dispara com rapidez, percebendo o deslize da amiga. Sem se dar conta do que havia dito, Ariel hesita por um instante para deixar o cérebro alcançar a boca. – É o que parece. Quanto mais penso em me casar com Preston, mais a ideia faz sentido. Ele me ama, e não tenho dúvidas de que será um bom marido. Além do mais, estou ficando velha. Se eu não desencalhar agora, provavelmente nunca mais. – Disse a mulher de meia-idade.


– Ei, ei, fale por você! Eu ainda não cheguei à meiaidade. – Não conte a ninguém, mas jamais vou confessar que tenho um dia a mais que trinta e oito anos – Meri sussurrou, como se não quisesse ser ouvida. As duas gargalharam. E quando pararam de rir, Meri continuou: – Insisto em oferecer a festa de noivado. Pode convidar quem você quiser. Vai ser fabuloso. – Posso convidar meu amigo da máscara negra? – Ariel brinca com um tom pouco animado. – Vamos deixá-lo para a despedida de solteira. As duas ainda conversaram por mais uma hora, discutindo os planos para a festa de noivado e o casamento. Quanto mais falavam, mais animada Ariel ficava. Mesmo que Preston não fosse o Príncipe Encantado de suas fantasias, faria o casamento dar certo. Afinal, ainda tinha as lembranças da Black Door para mantê-la aquecida nas noites solitárias quando Preston se ocupasse do trabalho. Quando desligou o telefone depois da conversa com Meri, Ariel estava eufórica. As apreensões com relação ao casamento haviam se dissipado rapidamente,


substituídas pelos planos para uma extravagante festa de noivado. Falando sobre champanhe, caviar e entrar na igreja, Ariel se sentira levada para um mundo de bufês, convites e flores. Queria uma cerimônia discreta com família e amigos próximos, não um casamento grandioso como Meri havia sugerido. Porém, antes que os planos pudessem ser finalizados, precisava aceitar formalmente a proposta de Preston. Não há melhor momento que o presente. Ariel olhou para o relógio. Era fim de tarde e Preston devia estar no gabinete. Em vez de telefonar, ela decidiu que era melhor ir vê-lo pessoalmente. Ariel pegou a bolsa e saiu. Lower Manhattan era um mundo dentro de si mesmo. Os imponentes edifícios com suas colunas romanas e gregas e escadas de mármore que pareciam séculos distantes dos modernos arranha-céus de vidro e aço que dominavam a cidade. O táxi parou na frente do prédio da corte federal, onde Preston comandava, e Ariel desceu do carro. Os corredores estavam cheios de gente apressada, ansiosa para ouvir um juiz anunciar seu destino. Ela passou pela segurança, abriu caminho para


o elevador cheio, e subiu ao sexto andar, onde ficava o gabinete de Preston. – Oi, Anna, o juiz Hendricks está disponível? – ela perguntou à secretária. – Ariel, não a vejo por aqui há um bom tempo. O que a traz ao tribunal? – Queria fazer uma surpresa para o juiz – ela sorriu. A outra mulher sorriu de volta. – Não é lindo? Ele acabou de sair de uma audiência e não tem nada na agenda pelo resto da tarde, então, vá em frente. Tenho certeza de que ele vai ficar feliz ao ver você. Ariel bateu delicadamente, entrou e trancou a porta. Preston levantou os olhos do bloco e, quando a viu, um sorriso largo se espalhou por seu rosto. – Ei, benzinho, o que fiz para merecer essa visita? Ela levantou a mão esquerda e balançou o dedo anular. – Um pedido de casamento, foi isso que fez. – Ariel tirou a jaqueta, a jogou sobre uma cadeira ao lado da porta e caminhou para ele. Para o relacionamento dar certo, Ariel sabia, precisavam reacender a vida sexual. Além do mais, quanto antes ela esquecesse a história na


Black Door e superasse a experiência toda, melhor. – Então, srta. Vaughn, veio trazer sua resposta pessoalmente? – ele sorriu esperançoso. Ariel se equilibrou na beirada da mesa e cruzou as pernas longas, expondo a coxa pela fresta da saia. – Sim, eu vim, juiz – ela respondeu insinuante. Com base em sua linguagem corporal e no tom provocante, Preston presumiu que Ariel não estava mais aborrecida com ele, e nada poderia fazê-lo mais feliz. Se ela aceitasse seu pedido de casamento, teria uma preocupação a menos. – Bem... – Ele deslizou a mão por sua coxa. – Acabe logo com o suspense. – Pensei muito no seu pedido e... sim, eu aceito me casar com você! – No momento em que fez a declaração em voz alta, Ariel soube que seu futuro tinha mesmo que ser ao lado de Preston, não de um gigolô sem nome. Preston levantou-se, a agarrou pela cintura e a puxou contra o corpo. – Você me fez muito feliz – cochichou no ouvido dela, e depois a beijou com paixão. Ariel o enlaçou pelo pescoço e roçou a língua na dele. Pressionando o quadril contra o de Preston, sentiu


o início de uma ereção. Ela começou a se esfregar na ereção crescente. – Espere – ele recuou –, não podemos. Anna ainda está aqui. – Sim, podemos. – Ela o acompanhou. – Tranquei a porta. Venha, meu bem, vai ser como nos velhos tempos. – Ariel virou-se, levantou a saia, tirou a meia-calça e se debruçou sobre a mesa. – Você não me quer? – perguntou por cima do ombro. Preston olhou para o traseiro nu e lambeu os lábios. Incapaz de continuar dominando o desejo, ele baixou o zíper da calça e libertou o membro pulsante. Depois afastou suas nádegas e tocou a fenda úmida de Ariel. Ela estava molhada, e a umidade aumentou sua ereção em alguns centímetros. Ao longo das últimas semanas, Preston nem havia pensado em sexo, mas com Ariel debruçada em cima de sua mesa, não conseguia pensar em nada que não fosse penetrá-la e se mexer até os dois chegarem ao orgasmo. Ele a penetrou e começou a se mover para frente e para trás, movimentos cada vez mais frenéticos, mas, antes mesmo que Ariel conseguisse acompanhar seu ritmo, ele ejaculou prematuramente.


Ariel não conseguia acreditar que Preston já havia chegado ao clímax. Não tão depressa; ela não teve tempo nem para chegar perto disso, e já havia acabado. – Desculpe, benzinho, não fazemos amor há tanto tempo que não consegui me controlar – ele falou, justificando o orgasmo precoce. Depois a virou de frente. – Não se preocupe, prometo que não vai ficar insatisfeita – murmurou, e se ajoelhou. Afastando suas pernas, ele começou a sugar o clitóris entumecido. Ariel jogou a cabeça para trás e gemeu. – Oh, benzinho, isso é tão bom! Quando ela estava bem perto do êxtase, o telefone tocou. De início, Preston ignorou a campainha persistente, mas depois do quarto toque, ele interrompeu as lambidas, olhou para a mesa e viu a luz vermelha piscando no aparelho. Imediatamente, Preston ficou em pé e limpou a boca. – É minha linha privada. Preciso atender; pode ser o senador – explicou, abandonando as necessidades de Ariel para cuidar dos negócios. Ariel estava furiosa! Preston havia acabado de prometer satisfazê-la. Agora quebrava essa promessa para


atender o telefonema do senador, e era impossível não pensar em quantas vezes seria deixada de lado por conta da preciosa agenda do noivo. Ainda excitada, queria desesperadamente um orgasmo. Ariel fechou os olhos, ignorou a conversa de Preston e pensou na única coisa que saciaria rapidamente sua luxúria: Black Door.


15

Trey retornou à cena do crime. Bem, na verdade a cena havia mudado, mas o crime ainda era o mesmo. Estava a caminho do apartamento dessa nova amiga para um jantar caseiro, em vez de delivery e sobremesa. Ela havia telefonado durante o dia e o convidara para jantar. O primeiro impulso havia sido recusar o convite, mas Trey ainda pensava em Meri, e precisava de uma boa distração. Como havia desrespeitado a principal regra e transado com uma cliente, tentava apagar essa experiência da lembrança, mas as imagens eróticas não iam embora; estavam gravadas em sua mente e se reproduziam incessantemente. – Você é um colírio – ela o elogiou ao abrir a porta e admirar Trey desde os sapatos Prada aos cabelos bem cortados. Ele lambeu os lábios carnudos. – E você parece boa o bastante para comer. – Na última vez que estiveram juntos, o sexo oral havia sido


incrível. E hoje ele retribuiria o favor. – Vamos jantar primeiro, antes da sobremesa – ela sugeriu, tentando diminuir o ritmo para prolongar o encontro. Não queria uma noite abreviada como a anterior. – Entre – disse, afastando-o para o lado para recebê-lo no apartamento. Ao segui-la para a sala de estar, Trey conseguiu ver suas pernas longas, a cintura estreita e o traseiro rígido através do tecido ultrafino do kaftan que ela vestia. Seu corpo era esguio como o de uma dançarina e parecia ter sido feito para o sexo, e esta noite estava determinado a fazê-la suar. – Sente-se. – Ela indicou um sofá sem braços de camurça azul. – O que vai beber? – Vodca com gelo e uma casquinha de limão. – É Belvedere. Tudo bem? Trey piscou. – Perfeito. Ela deixou na mão do visitante um controle remoto da Bang & Olufsen. – Escolha a música. Volto já. Trey olhou em volta, estudou o aconchegante apartamento de mobília contemporânea e viu um


sistema de som instalado na parede, entre duas pilhas de CDs. Ele se aproximou, estudou a seleção e escolheu o novo álbum de Jill Scott, e também o último de Sade e James Blunt. Depois de carregar o carrossel com os CDs, ele acendeu as velas sobre o console. Apagou os abajures brilhantes sobre as mesas laterais, deixando o ambiente banhado apenas pela luz suave das pequenas chamas, criando assim uma cena romântica. Uma vez criada a atmosfera, Trey ficou parado onde estava se balançando ao som do jazz suave. Quando voltou à sala com as bebidas, ela parou de repente ao notar a mudança. Antes que a jovem pudesse fazer algum comentário, Trey pegou os copos das mãos dela, os deixou sobre o console e a abraçou. Podia sentir o volume dos seios contra o peito, e o contato o excitou. Balançando para a frente e para trás numa dança lenta e sedutora, ele roçava o nariz em seu pescoço, massageando com suavidade a parte inferior de suas costas até deixá-las descansar sobre a curva das nádegas. Enquanto acariciava o traseiro provocante, ele pressionava o ventre contra seu corpo. – Uau, você é uma delícia – cochichou no ouvido dela.


– Trey, escute. – Ela parou de dançar. – Vamos esclarecer uma coisa. Quero um relacionamento – revelou sem rodeios. Ele não disse nada; apenas ficou ali com ar chocado. O anúncio foi feito sem aviso prévio, e ele não sabia o que dizer. Baseado no último encontro, havia presumido que ela só queria um pau duro e uma boa trepada. O discurso continuou: – Não planejei o que aconteceu em nosso último encontro, mas você estava tão sexy naquela calça de seda que não consegui me controlar. Mas quero que saiba que não estou interessada em uma amizade colorida. Sei que disse antes que não queria um relacionamento, mas estava mentindo para mim mesma e para você. – O que está procurando, então? – ele quis saber, mordendo a isca. – Quero alguém por quem me apaixonar, alguém com quem possa dividir minha vida – ela declarou sem hesitar. Em toda sua vida, nenhuma outra mulher jamais havia declarado sua intenção com tanta clareza. Normalmente elas insinuavam e esperavam ele somar


dois e dois, mas, é claro, preferia sempre errar a conta. Trey passara a vida toda entrando e saindo de relacionamentos sem futuro, sem nunca desejar um compromisso sério. Olhando para aquele belo corpo, ele pensou: por que não? Além do mais, o que acontecera entre ele e a cliente da Black Door havia sido uma ocorrência única sem nenhuma chance de seguir adiante. – Benzinho, agradeço pela honestidade, mas não estou preparado para subir ao altar por... Ela o interrompeu: – Não estou falando de casamento. Só estou dizendo que quero mais que jantar e uma rapidinha. Já passei da fase do sexo casual e, francamente, não deu certo comigo. Quero me relacionar com você fora do quarto também. Acho que temos muita coisa em comum. Além do mais, temos conhecidos em comum – ela acrescentou, vendendo a ideia de se tornarem um casal. Trey afagou seu rosto. – Fala como uma mulher que sabe exatamente o que quer. Ela se aproximou e o abraçou com força. – Eu sei o que quero, e é um relacionamento com você – reiterou.


– Tudo bem, vamos viver um dia de cada vez – Trey concordou sem assumir compromissos. Ela o enlaçou pelo pescoço e beijou profundamente. – Trey, você me fez muito feliz. Vamos formar um casal poderoso. – Vamos começar pelo sexo poderoso – ele sugeriu, massageando a parte inferior de sua coluna. – Bem... na verdade, eu estava pensando em começarmos tudo de novo. – E o soltou, recuando um passo. – Como assim, tudo de novo? – Agora estava confuso. – Como não costumo fazer sexo no primeiro ou segundo encontro, quero esquecer a outra noite e fingir que nada daquilo aconteceu. Não quero ser a garota que caiu em cima de você no instante em que nos conhecemos. Trey estava intrigado e a encarou atento, tentando entender o que ela dizia. – Do que está falando? Por que eu haveria de querer apagar o que aconteceu? Foi fabuloso. – Ele moveu lentamente a mão da base de suas costas para a virilha. – Agora é minha vez de retribuir.


Ela se afastou. – Estou falando sério, Trey. Vamos nos conhecer antes de fazermos amor. Ele não desistia. – Não seja boba, benzinho. Somos adultos. – E pressionou o membro duro contra seu corpo, exibindo a ereção. – E sei que não vai querer desperdiçar tudo isso. Era bom sentir o membro ereto roçando sua vagina pulsante, e estava queimando de desejo por ele, mas tinha que resistir. Queria ser mais do que a mulher de quem ele se lembrava no fim da noite, e estava tentando desesperadamente recuar, retomar o controle da situação e recuperar o respeito por si mesma. Sempre havia desejado se casar e ter filhos, e Trey seria um bom marido. Se jogasse bem com as cartas que tinha, se racionasse o sexo, eles estariam noivos antes do fim do ano. – Você tem um apetite saudável, e garanto que sou a mulher de que precisa. Trey estava cada vez mais excitado. – E eu preciso de você inteira agora. – Primeiro vamos jantar, depois conversamos sobre a


sobremesa – ela sugeriu, tentando acalmá-lo. Trey não conseguia acreditar na drástica mudança de situação. No momento em que concordou com um relacionamento, ela passou a privá-lo dos prazeres sexuais. De repente, começava a questionar sua decisão. Trey não estava acostumado a se esforçar tanto por uma transa. Vivia cercado de belas mulheres todos os dias e podia ter qualquer uma delas de maneira discreta. Seu primeiro pensamento foi dizer foda-se tudo isso e ir para a boate, mas ele se conteve. Odiava admitir, mas também queria mais que um caso passageiro. Havia dedicado os últimos anos a fazer da Black Door um sucesso, e agora que o negócio prosperava, era hora de dedicar a mesma energia ao desenvolvimento de uma vida pessoal bemsucedida. E como sua primeira escolha – a mulher da máscara vermelha – estava fora de seu alcance, daria uma chance para esse “relacionamento” – pelo menos por enquanto.


16

Meri era a típica socialite. Seu nome havia integrado as listas de festas requintadas e eventos elegantes pelo mundo todo, era versada na arte do entretenimento, e não economizou na organização do noivado de Ariel e Preston. Para sua querida amiga, apenas o melhor. Caixas de Dom Perignon haviam sido empilhadas na despensa, esperando para substituir as garrafas geladas que já enchiam o refrigerador. Caviar Beluga sobre torradas pequeninas, salmão defumado com alcaparras, ceviche de atum e medalhões de filé mignon salteados em alho e cogumelos e regados com azeite de trufa negra integravam o cardápio da noite, bem como uma variedade de pequenas tortas de frutas exóticas e tortas de ganache de chocolate. Johnnie Walker Blue Label e charutos enrolados à mão serviam como o accoutrement perfeito para encerrar a noite festiva. A cobertura de Meri fervia invadida por um exército de garçons uniformizados, e vários prestadores de serviço


andavam por ali dando suas instruções finais antes do início do evento. Detalhista, ela gritava ordens como um sargento autoritário. Com uma prancheta na mão, marchava de sala em sala verificando se haviam sido cumpridas as tarefas de sua lista de coisas a fazer. A noite tinha que ser perfeita, por isso não deixava nada ao acaso. Meri foi ao lavabo se certificar de que a governanta havia trocado as toalhas de convidados, normalmente brancas, por outras pretas com acabamento prateado. Decidira implementar sua decoração branca e impecável com toques de cor que combinassem com o evento black-tie desta noite. – Perfeito – ela comentou depois de ver as toalhas pretas e uma vela Diptique da mesma cor em seus lugares. Em seguida seguiu para a biblioteca para inspecionar o enrolador de charutos que havia trazido diretamente de Little Havana, em Miami. – Hola. Como está? – ela perguntou, usando o pouco de espanhol que sabia. – Muy bien, gracias. – Ele respondeu sorrindo. – Habla inglés? – Sim, um pouco – o rapaz respondeu com um forte


sotaque cubano. – Ótimo, porque meu espanhol acaba aqui. – E se aproximou para inspecionar o trabalho. Espalhada sobre a mesa Biedermeier de 1,80m de comprimento havia uma parafernália – folhas de tabaco, tabaco solto, cortadores, fósforos longos e um enorme umidificador entalhado a mão com charutos já enrolados. Meri tocou cada objeto com delicadeza, assentiu aprovando o conjunto e ticou o item “fornecedor de charutos” na lista. – Tudo parece estar em ordem. Ele não disse nada, apenas sorriu e balançou a cabeça para cima e para baixo. – Quando as pessoas entrarem e começarem a fumar, você vai precisar manter a porta e os visores fechados. – Ela apontou os recortes na porta de madeira. – Quero tentar manter a fumaça restrita a esse ambiente. Entendeu? – Sí, sí, senhora. – Ele moveu a cabeça novamente. – Muito bem – ela respondeu, e se retirou. A próxima parada em sua missão de reconhecimento foi a cozinha para ver como estava o jantar, mas, no instante em que o aroma delicioso de cogumelos e alhos


salteados invadiu seus sentidos, ela soube que tudo estava sob controle. O último item da lista era um banho relaxante e vestir-se. Meri foi para sua suíte para começar a transformação de supervisora a diva. Uma hora mais tarde ela ressurgiu com um vestido longo de jersey preto com fendas profundas nas laterais. Os seios de dez mil dólares não precisavam de sutiã para se sustentar e preenchiam o decote generoso; mantinham-se eretos sem nenhum artifício. Ela enfeitou o pescoço com um colar de ônix e diamante que repousava entre as duas suculentas elevações de carne. Depois calçou um par de Jimmy Choo com incrustação de pedras, parou diante do espelho e estudou seu reflexo. – Você é uma delícia – disse, alisando o tecido do vestido sobre os seios aumentados. – Nada mal para uma senhora. – E piscou para si mesma. Quando ela saía do quarto, a campainha soou. Meri caminhou até o hall para ir abrir a porta. – Uau! Você está incrível! – Ariel exclamou, estudando o corpo cirurgicamente melhorado de Meri. – Um pouco incrível demais, devo acrescentar. Essa noite


devia ser toda minha, então, porque está tentando me ofuscar? – ela brincou. – Querida, paguei um bom dinheiro para poder exibir este corpo – ela respondeu, fazendo pose no Roberto Cavalli justo. – Além do mais, você já tem um homem. Eu ainda estou procurando um. – Na última vez que olhei você tinha mais que um. – Ariel riu e entrou. – Touché. – Meri fechou a porta. – Mas, para ser honesta, estou ficando cansada de garotos. Está na hora de sossegar com um H-O-M-E-M. Além do mais, se minha melhor amiga vai se casar, é melhor eu voltar ao time. – Não acredito no que estou ouvindo. A famosa Meri Renick está se retirando do jogo? – Ariel pôs as mãos no rosto fingindo choque. – Só se eu encontrar o Sr. Certo. Quem sabe? Ele pode estar aqui hoje à noite. Como Preston convidou alguns colegas, talvez eu encontre um marido entre eles. – Só não se esqueça de verificar se ele já não é casado – Ariel falou com tom de insinuação. – Não se preocupe, meus dias de “a outra” chegaram ao fim. O único marido que quero é o meu. Mas chega


de falar sobre mim. Olhe para você – ela comentou, segurando a mão da amiga para fazê-la girar oferecendo uma visão do tipo 360 graus. Ariel usava um vestido branco perolado Ralph Lauren com cintura imperial e decote canoa que cobria a tatuagem de rosa. À primeira vista o modelo era conservador, mas as costas eram extremamente sensuais com o profundo decote em V que começava nos ombros e descia até a base da coluna. – Obrigada, é novo. Pensei em usar branco hoje, já que não vou entrar na igreja ostentando a proverbial cor virginal. – Hoje em dia você pode usar tudo, do branco ao preto, com todos os tons entre um e outro. Além do mais, o branco é um símbolo da pureza de seu amor, não da pureza de sua vagina – Meri disse com ousadia. – É verdade, mas eu me sentiria hipócrita vestindo branco, especialmente depois das visitas à Black Door. – Ela corou. – Falando em Black Door, acho que devia voltar para mais uma noite antes de se enforcar. Ariel lembrou a experiência e exalou profundamente ao rever em pensamento o amante mascarado.


– Não, acho que não. A última vez foi muito intensa. Foi tão quente que cheguei a me imaginar querendo aquele homem todos os dias – Ariel confessou. – Bem, pense nisso como sua despedida de solteira, sua última farra – Meri insistiu convincente. – Como Preston tem sido um noivo atencioso ultimamente, e tem me tratado como sua principal prioridade, não preciso mais dos serviços do clube – ela respondeu, tentando convencer a amiga e a ela mesma. Meri levantou uma sobrancelha, como se duvidasse das palavras de Ariel. – Falando como uma noiva de verdade. Aliás, acho que precisamos de uma bebida. Meri parou um dos garçons e pediu a ele uma garrafa de champanhe gelado. Elas se sentaram na sala de estar e brindaram antes de a festa começar. Meri ergueu sua taça. – À nova sra. Hendricks, que você e Preston tenham uma vida em comum longa, cheia de saúde e felicidade. Ariel bateu com a borda da taça na de Meri. – Tim tim. – Onde está a sra. Grant? Pensei que ela viria com


você para a festa. – Ela queria muito comparecer, mas tem uma nova dupla de gêmeos com três anos de idade e não quis deixar as crianças com uma babá. Ela está muito feliz com meu casamento; parece até que ela é a noiva – Ariel comentou. – Ela só quer o melhor para você. Afinal, ela nunca teve filhos, e depois de criá-la deve considerá-la como uma filha natural. – Sim, é verdade, e eu a amo como minha mãe de verdade. E a fiz prometer que vai sair de perto das crianças pelo tempo suficiente para ir ao casamento, e ela disse que esse é um evento que não perderia por nada. – E ela não é a única. Eu mesma vou fazer questão de sentar na primeira fileira pra assistir às núpcias – disse Meri, bebendo um pouco de champanhe. Ariel olhou para o anel em seu dedo. – Uau, está acontecendo de verdade, não é? – perguntou de forma retórica. – Para ser honesta, nunca pensei que Preston me pediria em casamento. A última experiência que ele teve foi desastrosa, e me conformei com o fato de, provavelmente, ele nunca mais querer se casar de novo. Às vezes penso que ele vai entrar em


pânico e mudar de ideia. – Ariel, não seja paranóica e aceite o fato de que Preston a ama e a quer como esposa – Meri falou com tom severo. – Querida, você tem que deixar para trás essa bagagem de “não sou digna”. – Eu sei, eu sei, mas a trago comigo há tanto tempo que é difícil abandoná-la. Mas prometo que farei um esforço concentrado para superar o passado. Meri levantou a taça. – Um brinde a isso também. Quando o primeiro convidado chegou, as duas haviam esvaziado uma garrafa de Dom, e já bebiam a segunda. A bebida borbulhante as animava e nada as incomodava. – Anna, que bom que veio – Ariel disse, cumprimentando a antiga secretária de Preston e abraçando-a com afeto caloroso. – Eu não teria perdido essa ocasião por nada. – Ela beijou o rosto de Ariel. – Há muito tempo espero ver você e o juiz juntando os trapos – ela brincou, feliz como uma tia superprotetora. – Oh, a propósito, o juiz me pediu para avisar que ele vai chegar logo. Ele teve uma


vídeo-conferência de última hora. Como era mesmo a história da principal prioridade? – Obrigada, Anna – Ariel respondeu sem dizer o que estava pensando. A festa estava animada, com colegas e amigos próximos socializando e se divertindo, saboreando canapés deliciosos e bebendo champanhe, mas Preston ainda não chegara. Ariel estava furiosa, tanto que sentia a veia saliente no meio de sua testa. Não conseguia acreditar em tamanha audácia. Como ele podia se atrasar para a própria festa de noivado? Ela pediu licença para se ausentar de uma conversa com colegas de trabalho, foi ao quarto de Meri e ligou para o celular dele. – Onde você se meteu? – perguntou em voz baixa quando ele a atendeu, tomando cuidado para não ser ouvida pelos convidados. – Não acredito que está atrasado para a nossa festa de noivado. Espero que... Ele a interrompeu no meio da frase. – Ei, acalme-se, benzinho. Estou entrando no prédio com meu filho e a namorada dele – Preston falou com tom casual, como se o atraso não tivesse importância. – Ah, já era hora! – ela respondeu.


Ariel voltou à festa e viu Meri presidindo a reunião. Ela conversava com um cavalheiro de aparência distinta vestido com um terno Brooks Brothers, com têmporas grisalhas, barriga saliente e óculos de aro de tartaruga. Ele era o oposto do tipo que Meri apreciava, jovens de corpo rijo que podiam ser modelos na capa da GQ. – Parece que ela encontrou uma vítima – Ariel resmungou. – Lamento pelo atraso – Preston se desculpou, aproximando-se e beijando com suavidade os lábios de Ariel. – Veja quem encontrei no saguão! – E apontou para o belo casal atrás dele. Ariel exalou com intensidade reveladora, olhou para a dupla e cumprimentou sem entusiasmo: – Oi, Michele. Não estava exatamente satisfeita por ver a assistente ultrassexy de Preston. Ao ver o vestido de alças muito finas e tecido delicado, revirou os olhos. O traje até poderia ser adequado para uma ocasião black-tie se ela usasse um sutiã tomara-que-caia, mas, fazendo jus ao estilo mulher fatal, a jovem exibia os mamilos rígidos que, pressionados contra a seda fina, podiam ser vistos por quem quisesse vê-los. Essa garota não tem vergonha,


ela pensou revirando os olhos. Aborrecida, Ariel olhou pra o homem que acompanhava Michele. – Oi, sou Ariel Vaughn – disse, e estendeu a mão. Ele apertou a mão dela. – Eu sei – disse o belo desconhecido. – O quê? – Sua confusão era evidente. – Não se lembra de Preston III? – perguntou o noivo. Ariel olhou para o rapaz com atenção e sentiu uma repentina familiaridade que não conseguia explicar. – Não vejo você há... – E parou, tentando decidir quando havia sido o último encontro. – Nós nos encontramos na casa de meu pai há algumas semanas. Você estava saindo quando eu cheguei – ele anunciou com um profundo tom de barítono. – Era você? – Agora entendia por que o rapaz parecia tão familiar. – E eu pensando que não o via desde sua formatura na faculdade. O que faz agora? Preston bateu nas costas do filho com afeto paternal. – Ele é empresário. – Ah, é mesmo? Em que ramo? – Ariel perguntou, tentando saber mais sobre o futuro enteado.


Michele enroscou o braço no dele sem esconder seu orgulho. – Ele é investidor, banqueiro e mago do mercado imobiliário. O rapaz corou. – Ainda não sou banqueiro nem investidor. Quanto ao mercado imobiliário, tenho apenas uma propriedade – disse, corrigindo-a. – Pare de ser tão modesto. É só uma questão de tempo antes de se tornar um grande investidor, e eu estarei bem ao seu lado. – Ela se agarrava ao jovem como uma namorada insegura com medo de perder seu homem para outra mulher. Então, como que para aumentar seu pavor, a devoradora de homens da noite aproximou-se precedida pelas duas armas letais salientes em seu peito. – Ei, olá, queriiido – Meri ronronou sedutora, olhando diretamente para o belo filho de Preston e ignorando todas as outras pessoas em volta. Ela estendeu a mão com a palma voltada para baixo, como se esperasse vê-lo cair sobre um joelho para beijá-la. – Sou Meri Renick, a anfitriã da festa. – E sorriu. Preston III a olhou lentamente da cabeça aos pés, e


de volta, aceitou sua mão, a segurou por alguns segundos, depois perguntou com ar curioso: – Você é Meri Renick? – Sim, a única. – Ela sorriu orgulhosa. – Ah. – O rapaz respondeu e soltou sua mão. – E eu sou Michele Richards, namorada dele e assistente pessoal de Preston – interrompeu a jovem, rompendo a vibração entre seu homem e Meri. – É claro – Meri respondeu quase sem olhar para ela. Sentindo a tensão no ar, Ariel manifestou-se: – Venham, vamos pegar champanhe para vocês. Afinal, estamos comemorando. Assim que todos se serviram de bebida, Preston III levantou a taça. – Um brinde a meu pai e Ariel. Que vocês tenham uma vida muito feliz! – À felicidade! – todos responderam em uníssono. Depois do brinde, Michele não perdeu tempo e levou o namorado para longe das garras de Meri. Preston e Ariel circularam pela festa de mãos dadas, sorrindo e cumprimentando os convidados, uma combinação de familiares, colegas de trabalho e alguns conhecidos.


Agora que Preston estava a seu lado, Ariel relaxou e começou a aproveitar a festa. Estava muito feliz quando Preston, segurando sua mão e a afagando com carinho, a apresentou a importantes juízes de Nova York. Ariel conhecia quase todos os figurões de Manhattan, mas havia ali outros importantes personagens de outros locais, gente sobre as quais ela apenas lia nas publicações especializadas. Preston, porém, chamava pelo primeiro nome todos os advogados ali presentes. Ela o viu conversar com cada um deles discutindo histórias pessoais; ele sabia até o nome da esposa e dos filhos daqueles homens. Preston estava à vontade, sorrindo e apertando mãos como se estivesse em campanha para o gabinete. Era um político natural. Vendo-o em ação, ela finalmente entendeu porque ser um juiz da Suprema Corte era tão importante para ele. Estava em seu sangue. Ariel jurou nesse momento que o apoiaria na realização desse sonho, desde que ele não passasse todos os instantes do dia obcecado por sua iminente indicação. Odiava reconhecer a verdade, mas havia percebido que era o tipo de mulher que precisava de afeição diária (algo que não recebera na infância). E quando Preston mergulhava no trabalho, ela se sentia esquecida.


– Mike, você se lembra de Ariel? – ele perguntou ao pai de Michele. – É claro, como poderia esquecer da mais brilhante e mais linda assistente que já andou por nossos corredores? – ele respondeu, beijando-a no rosto. Ariel não conseguia acreditar em quanto admirava o juiz Richards e, ao mesmo tempo, em quanto desprezava sua filha. A admiração que sentia por Mike certamente não se transferira para Michele. Ele era um juiz dedicado e trabalhador, enquanto ela, por outro lado, parecia se dedicar apenas a procurar um homem. Inicialmente, Ariel havia pensado que a jovem megera estava interessada em Preston, mas depois de vê-la pendurada no braço do filho dele, presumia que Michele decidira concentrar seus esforços no jovem. – Então, Preston contou que minha garotinha está fazendo um excelente trabalho. – Ele sorriu orgulhoso, dirigindo o comentário a Ariel. Se chama se exibir em roupas transparentes e justas de fazer um grande trabalho, acho que podemos dizer que ela está fazendo hora extra! Ariel pensou, ao mesmo tempo em que via Michele pressionando os seios contra o


braço do acompanhante. Conhecendo os sentimentos de Ariel por Michele, Preston sabia que a noiva não faria um elogio sequer à jovem, por isso interferiu apressado. – Sim, ela é eficiente e cheia de recursos, para dizer o mínimo, e deve saber que ela e meu filho começaram a namorar. – Ele olhou para o jovem casal bebendo champanhe. – Quem sabe, Mike? Podemos ser parentes um dia. – Preston riu. – Não seria irônico? Depois de nos conhecermos há tantos anos, podemos formar uma grande e bela família – respondeu Mike, animado com a ideia. – Bem, vamos circular – Preston decidiu, segurando a mão de Ariel. – É claro. Estou feliz por vocês dois. Ah, e parabéns mais uma vez. Quando eles se afastaram, Preston parou um garçom e pegou duas taças de champanhe. Ele entregou uma delas a Ariel, olhou-a nos olhos e disse: – Sou o homem mais sortudo do mundo por ter você em minha vida. – E beijou a mão que ainda segurava. – Obrigado por aceitar meu pedido de casamento. Prometo que vai ter uma vida de felicidade e...


A declaração foi interrompida pelo toque do celular. Ele tentou ignorar a interrupção que vinha do bolso interno do paletó, mas o telefone continuava tocando, e quando a ligação era direcionada para a caixa postal, o silêncio durava apenas alguns segundos antes de o aparelho voltar a tocar. Finalmente, ele pegou o aparelho e olhou para a tela onde o número que chamava era identificado. – Desculpe, meu bem, preciso atender. É o senador. Ariel não conteve a ira. – Esta é nossa noite, Preston. Ele não pode esperar até amanhã? – perguntou furiosa. – Eu sei, mas pode ser importante. – O telefone parou de tocar. – Preciso ligar de volta. Não vai demorar, prometo. – E se inclinou para beijá-la, mas ela recuou ressentida. Ao vê-lo se retirar para a biblioteca, Ariel sentiu a temperatura do corpo subir e a veia pulsar no meio de sua testa. Preston quebrava promessas na mesma frase, e essa inconstância a revoltava. Queria acreditar que as coisas seriam diferentes, mas o instinto e o comportamento dele indicavam que ela seria sempre um apêndice, uma existência secundária precedida pela


carreira do noivo. Deprimida, ela se aproximou da janela panorâmica e, de costas para a festa, olhou para os carros que passavam na rua lá embaixo, chorando em silêncio pela vida que jamais teria. Sim, teria um marido, mas não um amante atencioso que se dedicaria a ela com constância. – Oi. O que faz aqui sozinha? – indagou uma voz atrás dela. Ariel limpou os olhos depressa, tentando esconder a tristeza antes de se virar. – Ah, oi – disse para Preston III, mas o cumprimento soou alegre demais. Ele viu as marcas de lágrimas em seu rosto, pegou do bolso um lenço impecável e, atencioso, secou a umidade que ainda podia ser vista nas faces de Ariel. – Espero que sejam lágrimas de alegria. Ela o encarou e sentiu que sua preocupação era sincera. Os dois se entreolharam por alguns instantes. Os olhos dele eram familiares, como se ela o conhecesse de outra vida; o castanho intenso provocava um arrepio em suas costas. A familiaridade que sentia devia ter a ver com o fato de Preston III ser a imagem do pai.


– Aqui. – Ele oferecia o lenço. – Acho que precisa mais do que eu disto. – Ele sorriu. A gentileza a tocou. Diferente do pai, ele era atencioso e preocupado. – Obrigada. – Ariel limpou o rosto com o tecido macio e, mudando o clima, perguntou: – Há quanto tempo está namorando Michele? Mas, antes que ele pudesse responder, a mulher em questão se aproximou ansiosa. – Ah, aí está você, querido. Procurei em todos os lugares. Quero que conheça meu pai – ela anunciou, pendurando-se novamente em seu braço com um gesto possessivo. O rapaz olhou para Ariel como se pedisse desculpas por sair correndo, depois se deixou levar pela namorada carente. Ao vê-los se afastar, Ariel admirou como ele punha um braço sobre os ombros de Michele demonstrando ternura. Parecia ser atencioso, e ela adoraria ter esse tipo de relacionamento. Com Preston ainda trancado na biblioteca, ela ia mudando de grupo e de conversa. A animação se dissipava tão rapidamente quanto as borbulhas do


champanhe. Ent達o, do nada, ela enxergou algo muito importante. Sua felicidade dependia de uma pessoa, apenas uma pessoa: Ariel. E soube no mesmo instante o que precisava fazer para revigorar sua alma.


17

Ariel folheava as cinquenta páginas de material em suas mãos, tentando entender o texto. Olhava para o papel como se estivesse escrito em japonês, sentindo dificuldade para decifrar as palavras. A falta de foco não tinha nenhuma relação com a linguagem, mas com a preocupação com Preston. Ainda estava ressentida com o comportamento dele na festa de noivado. Quando ele encerrou a ligação com o senador e saiu da biblioteca, a maioria dos convidados já havia ido embora, e a festa começava a declinar. Ele tentou amenizar o estrago com Ariel prometendo um longo e ininterrupto fim de semana, mas ela não acreditava mais em suas falsas promessas. Sentira-se tentada a romper o noivado ali mesmo, naquele instante, já que ele parecia já estar casado – com o senador – mas mantivera a cabeça fria. Compreendia que, uma vez encerrado o processo de indicação e nomeação, poderia ter mais atenção de Preston.


– Srta. Vaughn, a sra. Renick está na linha um – a secretária anunciou pelo interfone, interrompendo seus pensamentos. – Obrigada, JoAnne – Ariel respondeu, atendendo Meri em seguida. – Estava justamente pensando na festa. Muito obrigada por ter organizado um evento tão maravilhoso; todos se divertiram muito. – Todos, menos você – disse Meri, indo direto ao ponto sem perder tempo. – Eu... eu... – A objetividade de Meri a pegou de surpresa, deixando-a sem saber o que dizer. – Eu me diverti. – Se chama de diversão chorar e ser consolada pelo filho do noivo, acho que sua noite foi fantástica! – Meri comentou com sarcasmo. – Não sabia que estava me espionando – Ariel disparou. Acreditava ter sido discreta, por isso não imaginara que alguém poderia tê-la visto soluçando diante da janela. – Ah, muito engraçada. Em um minuto você e Preston andavam de mãos dadas, a imagem da felicidade, no outro ele havia desaparecido e você chorava sozinha diante da janela. Antes que eu pudesse


me aproximar e perguntar por que estava tão aborrecida, Preston III estava ao seu lado oferecendo o lenço branco e perfeito. Com tanta gente circulando, Ariel não conseguia acreditar que Meri havia testemunhado todo o incidente, e com a atenção necessária para registrar cada detalhe do que vira, até a cor do lenço. – Você não perde nada, não é? – Bem, se quer saber, eu não estava espionando você, estava observando Preston III. – Ela assobiou baixinho. – Ele é jovem, bonito... Que homem! Ariel revirou os olhos e balançou a cabeça ao ouvir o comentário de Meri. – Sendo jovem a palavra fundamental aqui. E ele... – Jovem e adulto. Ele deve ter quase trinta anos, idade suficiente para mim. – Espere um minuto! Pensei que estivesse cansada de garotos e pronta para se casar e sossegar – Ariel lembrou. – Ah, eu poderia realmente me casar com o jovem Preston; ele é meu tipo. Alto, musculoso e lindo. E o jeito como ele me olhou quando nos apresentamos... Posso apostar que também sou o tipo dele – Meri


anunciou confiante. Ariel riu. A mulher tinha quase o dobro da idade dele, e considerando sua companhia (uma loura de vinte e poucos anos com seios originais), Meri não estava nem perto de ser seu tipo, mas isso não a impedia de desejálo. – Diga que não está falando sério. – E por que não estaria? – ela perguntou, soando ligeiramente ofendida. – Não viu como ele olhava para mim? Quase como se quisesse um pedaço de Meri – ela falou recuperando a confiança. Com todos os homens disponíveis na festa, Ariel não podia acreditar que Meri havia se interessado justamente por seu futuro enteado, e tentou dissuadi-la de assediar o único filho de Preston. – Mesmo que isso fosse verdade, Michele não vai desgrudar dele pelo tempo necessário para alguém agarrá-lo. – Querida, você não sabe que um homem sempre encontra um jeito de escapar quando quer? – Meri falava como uma mulher experiente. – Bem, depois de ver Preston III e Michele, acho que os dois estão encantados um pelo outro, o que significa


que é melhor você redirecionar seu canhão para outra vítima. – Depois ela mudou de assunto e perguntou: – E aquele cara de óculos de aro de tartaruga com quem estava conversando na festa? Ele parecia ser um bom homem. Recusando-se a deixar o tópico esfriar, Meri respondeu: – Bom, sim, e posso até jantar com ele uma ou duas vezes, mas ele não chega nem perto de ser um cara quente! – Pensei que estivesse farta de garotões quentes e quisesse encontrar um H-O-M-E-M e sossegar – Ariel apontou, repetindo as palavras da própria Meri. – Isso foi antes de ver o traseiro do filho de Preston. Agora ele é alguém que eu quero morder. Aposto que é delicioso – disse, sorrindo para o telefone. Ariel balançou a cabeça frustrada, depois disse: – Meri, você sabe que a amo como se fosse minha irmã, mas não estou preparada para ter você como nora. – Ah, sogrinha, não diga isso. – Ela riu. – Pare de brincar, Meri; isso não tem graça. Sei que gosta de se divertir com garanhões suculentos, mas agradeço se não dormir com o filho de Preston. Você e eu


somos muito próximas, e ele é praticamente meu enteado. Não sei, vai parecer incesto. – Querida, não seja tão dramática. Não estou atravessando nenhum limite de sangue, e ele e eu somos adultos e... – Meri, por favor! – Ariel protestou irritada. – Ei, não precisa ficar nervosa. – Ela suspirou. – Vou deixar seu precioso enteado em paz, mas só porque está me pedindo. É uma espécie de favor pessoal, – Obrigada – Ariel respondeu, aliviada por finalmente conseguir convencer a amiga excitada. – Mas saiba que, se o houvesse conhecido em outro ambiente sem saber que ele é filho de Preston, eu não hesitaria em fazer dele meu amante – Meri acrescentou. – Tudo bem, entendi. Agora, podemos falar sobre outra coisa, por favor? – É claro que sim, querida. Chega de discutir o jovem Preston. O que aconteceu entre você e o velho Preston? Ariel suspirou ruidosamente, depois contou toda a história. – Ainda não consigo acreditar que ele chegou


atrasado à festa e depois teve a ousadia de atender um telefonema do senador, me deixando sozinha por quase duas horas para dar atenção aos nossos convidados. – Ainda não percebeu que Preston tem uma agenda que não inclui você? – Meri perguntou sem rodeios. – Percebi durante a festa, quando ele passou mais tempo falando com o senador do que comigo. A realidade machuca, mas finalmente enxerguei a verdade – ela anunciou, soando como um filhotinho ferido. – Querida, guarde o violino e pare de sentir pensa de si mesma. Você não precisa disso. Pare de tentar afastar Preston da missão dele. Você precisa de objetivos próprios, e não estou falando necessariamente sobre trabalho, se é que me entende. As palavras de Meri confirmavam o que Ariel estivera pensando, mas ela ainda se sentia culpada por pensar em voltar à Black Door. Era praticamente uma mulher casada, e visitar a boate não parecia ser correto. Seus sentimentos giravam mais depressa que as hélices de um ventilador. Em um minuto estava pronta para correr de volta para os braços do amante, no outro era a noiva dedicada jurando apoiar o futuro marido. – Sim, eu sei, e acredite, pensei em voltar à Black


Door, mas... – Mas coisa nenhuma – Meri interrompeu. – Sei que tem fome de amor, porque posso ouvir a carência em sua voz. Devia se divertir um pouco antes de casar, e devia parar de se preocupar tanto com Preston. Acredite, você deve deixá-lo em banho-maria e se concentrar primeiro nas suas necessidades. – Com licença, srta. Vaughn. O juiz Hendricks está na linha dois – JoAnne falou pelo interfone. – Meri, odeio interromper nossa conversa, mas Preston está na outra linha. Falo com você mais tarde. – Tudo bem. Mas lembre-se de colocar suas necessidades acima de tudo – Meri repetiu, enfatizando seu ponto de vista. Ariel se despediu e desligou. O telefonema inesperado de Preston abrandava sua resolução, e a raiva que estava sentindo dele começou a perder força. – A que devo a honra desse telefonema? – Preciso de um motivo para ligar para o amor da minha vida? – ele perguntou animado. – Tem estado tão ocupado ultimamente que não pensei que tivesse tempo para conversas amenas. – Só queria me desculpar mais uma vez por ontem à


noite e perguntar se podemos remarcar nosso fim de semana prolongado. Sei que prometi alguns dias sem interrupções, mas o senador quer que eu vá a Washington para uma reunião importante. Devo estar de volta no sábado à noite, então podemos jantar e... Ariel estendeu o braço e segurou o fone longe da orelha. Não queria ouvir nem mais uma palavra do que ele tinha a dizer. Nem 24 horas haviam transcorrido, e ele já estava de volta ao seu mundo. Não precisava de promessas quebradas. Precisava do amor de um homem, e sabia exatamente onde podia suprir essa necessidade.


18

Pela primeira vez que pôs a máscara vermelha, Ariel finalmente se sentiu completamente confortável atrás do disfarce. A necessidade de satisfação sexual superava as inibições, e ela não se sentia mais a espectadora frígida com medo de se aventurar e tentar uma nova e indecente experiência. Diferente de sua primeira visita à Black Door, ela não precisou de coragem “líquida” para se entregar ao desejo, por isso passou direto pela fonte de vodca e pelas associadas casualmente relaxadas na área comum para ir diretamente à escada, onde a brincadeira começava a ficar séria. Estava em uma missão, encontrar o bonitão da máscara negra. Ele a pegara totalmente desprevenida na última vez com um ataque sorrateiro pelas costas, mas esta noite todos os seus sentidos estavam em alerta, e ela estava pronta, preparada e úmida para uma boa trepada. Ariel caminhava como uma profissional espiando as várias salas cujas portas se abriam para o corredor


escuro, tentando encontrar o amante. Ele não estava na Sala de Jogos, nem na Sala Rosa, na Sala dos Brinquedos, na Sala do Voyeurismo, nem na sala do Leopardo. Ariel olhou para a esquerda e notou uma porta que não havia visto antes; era pintada de preto, e marcada com um número 8 branco na altura dos olhos. Abaixo do número havia dois m minúsculos. Ariel virou a maçaneta devagar, abriu a porta e entrou. A sala escura parecia um aconchegante home theater com três fileiras de amplas poltronas de couro preto diante de uma grande tela de projeção. Ela ficou parada na porta, olhando para a tela onde um filme era projetado. Esperava ver um típico Triplo X, mas pelo barulho que ecoava nas paredes e pelas imagens granuladas em preto e branco Ariel deduziu que era um pornô 8mm. Ela encontrou uma cadeira vazia no fundo e se acomodou. Sempre havia imaginado que os filmes pornô retrô eram versões aguadas das produções modernas, mas ao assistir às atividades projetadas na tela ela constatou que estava totalmente enganada. Uma mulher de curvas exuberantes com pele de alabastro e seios do tamanho de jarros estava debruçada sobre a lateral de uma cama de bronze com o grande e


suculento traseiro voltado para o teto. Ela parecia estar esperando por alguém e, com certeza, seguindo a deixa, um homem esguio entrou em cena completamente nu, ou quase, exceto por um chapéu Stetson e botas de caubói. Ele parou de costas para a porta e lambeu os lábios enquanto olhava para o traseiro da mulher. Depois, lentamente, ele se aproximou dela segurando seu membro. Quando chegou a uma distância de onde podia tocá-la, pegou o pênis flácido e bateu com ele no traseiro da mulher. A cada contato o pênis ficava maior e maior. Quando ele entrou no quarto seu membro tinha o tamanho de um pirulito e era flácido como uma rosa murcha; mas depois de algumas batidas no traseiro redondo e farto, o membro antes inofensivo era agora uma arma letal de vinte e cinco centímetros de comprimento. Ele pegou uma embalagem de lubrificante de cima da mesa de cabeceira e esfregou uma quantidade generosa do gel escorregadio no pênis. Lubrificado, agarrou as nádegas da mulher e as afastou, depois introduziu a ponta do mastro de mármore em seu ânus. Ela estremeceu ligeiramente, mas não tentou se esquivar quando ele foi enterrando o membro mais profundamente em seu traseiro. Quando o pênis


desapareceu em seu ânus, ele a agarrou pela cintura, apoiou um pé calçado com bota na beirada da cama e a cavalgou como se fosse uma égua premiada. A mulher rangia os dentes, sacudia os longos cabelos louros de um lado para o outro e respondia com movimentos ferozes como os de um animal selvagem. Ariel se sentia cada vez mais molhada enquanto assistia ao casal transando como se a vida deles dependesse de chegar ao orgasmo. Nunca havia feito sexo anal antes, mas vendo agora quanto a mulher parecia ter prazer com esse tipo de estímulo, ela se sentia curiosa e queria saber como seria ser penetrada por trás. Querendo viver um pouco de ação, ela lambeu os lábios sem perceber ao ver o casal chegar ao orgasmo ao mesmo tempo e cair sobre a cama em total exaustão. – Aposto que podemos continuar de onde eles pararam – disse uma voz rouca atrás dela. – Seu pau é tão grande e duro quanto o dele? – Ariel perguntou com ousadia. Finalmente percebia que podia falar e fazer tudo que queria na Black Door. Não só a máscara protegia sua identidade, mas agora compreendia que todo mundo que passava pela porta preta da boate


era saudável e procurava satisfação. – Maior – ele respondeu confiante. – Venha aqui e me mostre com o que vamos lidar. Segundos depois, um homem musculoso e baixo parava diante dela. Pelo som da voz profunda e máscula, havia imaginado alguém com mais de 1,80 m de altura, mas ele não devia ter mais que 1,60 m, se tivesse. Ariel abriu a boca para perguntar o que o desconhecido poderia fazer por ela, mas as palavras morreram em sua garganta quando ela viu o volume entre suas pernas. Ele deve ter meias enfiadas na sunga. Com um movimento ousado e nada característico, ela estendeu a mão e puxou o pequenino pedaço de tecido que segurava o enchimento no lugar. Ariel ficou boquiaberta com o que surgiu diante de seus olhos. – Satisfeita agora? Sem fala, ela deixou os olhos passearem pelo corpo nu. Esperava ver um pênis pequeno, de um tamanho suficiente apenas para satisfazer uma Barbie, mas diante dela estava o maior pinto que já vira em toda sua vida. A extremidade do membro semiereto chegava ao meio da coxa. A expressão “pênis de cavalo” deve ter sido criada por alguém que o viu pelado.


– Bem... – Ele começou a massagear o membro gigantesco. – É isso que você quer, benzinho? O baixinho afagava o próprio pênis com entusiasmo cada vez maior, e Ariel viu totalmente aturdida o membro praticamente dobrar de tamanho. Nunca havia imaginado que alguém tão pequeno podia ter um pênis tão enorme, mas estava enganada. Em pé ali ao lado das poltronas do anfiteatro, com pouco mais de um metro e meio de altura e um pênis com muito mais de vinte e cinco centímetros e completamente ereto, ele parecia uma aberração de uma trupe viajante. – Vem cá, benzinho, deixe eu bater nesse seu traseiro – ele falou sedutor, aproximando-se dela com seu mastro da destruição duro como uma pedra. – Acho que não. – Podia bem imaginá-lo rompendo um vaso dentro dela com seu pênis descomunal. Queria prazer, não dor excruciante; não queria ir parar no hospital depois de procurar um pouco de diversão. Ela se levantou e apontou para a ereção do baixinho. – Essa coisa é perigosa. Era muito mais alta que ele, quase como uma Amazona; os seios ficavam perfeitamente alinhados com a boca do desconhecido. Ele pôs a língua para fora e


lambeu a parte externa do bustiê vermelho; depois, antes que Ariel pudesse protestar, ele estendeu a mão e puxou para baixo o cetim vermelho. No começo beijou delicadamente os mamilos até ficarem eretos; depois começou a sugá-los como se estivesse mamando. O contato arrancou dela um gemido suave. Apreciando a sensação, ela apoiou as mãos sobre seus ombros e fechou os olhos. O desconhecido poderia parecer uma aberração com seu pênis enorme, mas sabia como sugar um mamilo. Por uma fração de segundo, ela pensou em transar com o baixinho, mas no momento em que ele se aproximou e o membro gigantesco roçou suas coxas, ela abriu os olhos e recuou. – Obrigada, mas não – disse, e se virou para sair. Ele a segurou pela cintura, puxou-a de volta e começou a esfregar a ereção em seu traseiro. – Vem cá, benzinho, não vai deixar o Grande Poppa desse jeito. O membro era tão grande que entrou instantaneamente entre suas pernas e apareceu do outro lado. Quando olhou para baixo, ela viu mais de vinte centímetros de pênis.


– Droga, você é comprido demais para mim – disse sem pensar. Além do mais, estava procurando outra pessoa. Antes que ele pudesse responder, Ariel se soltou, ajeitou o bustiê sobre os seios e saiu dali. Trey vagava pela boate com uma única coisa na cabeça: encontrar o amante da máscara vermelha. O último encontro com ela o deixara sexualmente satisfeito e confuso. Na ficha a descrição dizia uma coisa, mas, pessoalmente, ela era diferente, e queria saber porquê. Tinha muitas perguntas, e ela era a única que podia fornecer as respostas. Trey havia percorrido as salas do primeiro andar, mas ela não estava entre as mulheres que relaxavam por ali. Depois, casualmente (para não levantar suspeitas), ele subiu ao segundo andar. Espiando as várias salas, ainda não a havia encontrado, até que, de repente, a porta da sala de projeção se abriu e ela saiu apressada, quase caindo em seus braços. Ariel estava tão ocupada tentando escapar do anão de pinto grande que não prestou muita atenção em que, ou melhor, em quem havia tropeçado. E quando finalmente se virou e viu que estava diante do objeto de


seu desejo, o choque daquela presença a encheu de surpresa e espanto, deixando-a sem fala. A máscara escondia a porção superior de seu rosto, e Trey só podia ver a boca aberta. A expressão o fez deduzir que a assustara. Ele decidiu usar a situação em proveito próprio, e a agarrou pela mão antes que ela tivesse uma chance de protestar, levando-a pelo corredor. Passaram por várias salas, até estarem no que parecia ser o fim do corredor, uma parede. Ele bateu duas vezes na parte de baixo da parede com a ponta do pé esquerdo, e então, como em uma cena de um filme de James Bond, o canto da parede se abriu sem nenhum ruído. Uma vez dentro da alcova privada de Trey, ele fechou a porta. Ariel não conseguia ver nada, porque a sala era completamente escura, e ela ficou ali por um momento esperando os olhos se ajustarem à escuridão. Ouvia passos abafados sobre o que presumia ser um carpete grosso, e depois identificou o som de um interruptor; de repente a sala foi inundada por uma luz suave e sexy. Ariel olhou em volta e notou a decoração opulenta. As paredes eram pintadas de chumbo metálico, que combinava com as cortinas cinzentas que cobriam as


janelas do teto ao chão. No centro da sala havia uma cama redonda king size coberta por uma colcha de veludo branco. Enormes almofadas prateadas e brancas foram espalhadas em cima da cama, e no teto havia um ornamentado lustre metálico com cúpulas pequeninas cobrindo lâmpadas em forma de chamas. Estavam em lados opostos do quarto, se encarando. Ariel lambeu os lábios vermelhos enquanto se deliciava com a imagem dos peitorais definidos e do abdome esculpido sob a camiseta preta. Os olhos desceram até a virilha. Podia sentir o calor que emanava do clitóris pulsante enquanto olhava para o enorme volume sob a calça jeans justa. A tensão sexual no ambiente era tão grande que podia ser cortada com uma faca. Cada terminação nervosa do corpo de Ariel vibrava, e ela estava em chamas. Incapaz de controlar os hormônios enlouquecidos por mais tempo, ela se aproximou dele devagar, e só parou quando estavam frente a frente. Ele abriu a boca para falar. A intenção era ter uma conversa direta e satisfazer sua curiosidade de uma vez por todas. Mas ela tocou seus lábios com o indicador para silenciá-lo, como ele mesmo havia feito na última vez.


Ariel deslizou a mão por seu peito, subindo e descendo. Os dedos exploravam cada milímetro do corpo musculoso. Depois de explorar a parte superior do físico poderoso, ela se aventurou abaixo da linha da cintura e acabou entre as pernas. Tentou massagear sua masculinidade, mas o tecido grosso era uma barreira irritante, por isso ela abriu o cinto, desabotoou a calça jeans e o deixou ali em pé vestindo uma sexy cueca preta. Olhando para a tenda que o pênis ereto criava com o tecido macio, sorriu satisfeita. Ainda em silêncio, ela deslizou as mãos pelo elástico da cueca, e a despiu. Na última vez ele a penetrara tão depressa que mal tivera tempo para ver seu mastro, mas dessa vez queria ver exatamente com o que ia trabalhar. Ela olhou para baixo e não conteve uma exclamação. Estava diante do pênis mais lindo que já vira em toda sua vida. Ele não se curvava para a direita, nem para a esquerda, nem para baixo; apontava para a frente com perfeição. Não era enorme como o da aberração na sala de projeção. Era do tamanho ideal. Ao deslizar a mão pela extremidade lisa, Ariel sentiu que a boca se enchia de água. Queria sentilo dentro de seu corpo, mas antes precisava sentir o sabor de seus sucos. Ela se ajoelhou, pôs a língua para fora e


lambeu a ponta do pênis. Depois o tomou na boca e sugou com força, sugou até ouvi-lo gemer de prazer. – Isso, isso! Não pare! E ela não parou até sentir o doce das gotas peroladas brotando. Estava em brasa e queria sentir o jato quente na garganta, por isso sugou com mais força tentando levá-lo ao clímax, mas o mascarado mudou o roteiro e assumiu o controle. Ele a segurou pelos cotovelos e pôs em pé, depois, como um cavalheiro, a tomou nos braços e levou para cama. Ele a deitou de costas e, acomodado sobre seu corpo, começou a desamarrar lentamente o bustiê. Assim que as amarras se soltaram, os seios de Ariel se derramaram livres. Ele tocou delicadamente os limites da rosa tatuada sobre o seio esquerdo, depois se inclinou e beijou cada pétala flamejante antes de introduzir a mão sob a saia e tirar sua calcinha. Olhando para os seios fartos, ele segurou um em cada mão e os balançou de um jeito provocante, sensual. Os mamilos cresciam a cada movimento, e quando ficaram rígidos, ele os cobriu com a boca quente enquanto estimulava a vagina úmida com os dedos.


– Ohhh... – Ariel gemeu. Enlaçando-o pela cintura com as pernas, elevou o quadril até o clitóris tocar seu membro. O mascarado sabia que ela estava pronta, quente, e também ardia por ela, mas queria provocá-la um pouco mais, por isso a segurou pelas nádegas e as afastou. Com um dedo, fez uma leve pressão sobre o ânus até ela começar a se contorcer. Sentir o traseiro apertado aumentou sua ereção. – Preciso de você – ele cochichou em seu ouvido. – Também preciso de você – ela respondeu. Trey removeu o dedo e a abraçou com força pela cintura, depois a moveu para frente e para trás até estar dentro dela. A vagina estreita envolvia seu membro como um amigo que abraça outro que não vê há muito tempo, e eles começaram a arfar e se mover como dois cães no cio. O suor escorria de seu corpo para o dela, até ambos estarem molhados e salgados. – Mais! Mais força! – ela gritava. A exigência o excitou ainda mais, e as penetrações se tornaram mais e mais profundas, até seus movimentos lembrarem os de um touro em um rodeio. Trey estava tão consumido pelo desejo e pelo prazer, que não percebeu


que a máscara havia caído. – Estou gozando, estou gozando. – Ele retirou o membro e ejaculou sobre o peito de Ariel. Depois espalhou a secreção morna e cremosa em torno de seus seios. Ariel tinha a cabeça inclinada para trás em êxtase, os olhos fechados enquanto ela saboreava o toque daquelas mãos. – Hummm... – ela gemeu. – Você me faz sentir tão bem. Olhando para seu esperma brilhando sobre os seios grandes e firmes, Trey sentiu outra ereção começando. – E você me deixa de pau duro – ele disse com o profundo tom de barítono. Havia estado tão absorta pelo prazer físico antes que não prestara atenção à voz, mas agora que a ouvia outra vez tinha a impressão de que era vagamente familiar. Ela se apoiou sobre os cotovelos e abriu os olhos para tentar prestar mais atenção. Esperava se deparar com a máscara negra, mas a máscara havia caído e, em vez disso, ela viu o rosto inteiro. Seu corpo ficou paralisado, rígido como um cadáver quando ela descobriu com quem havia


acabado de transar. Trey sentiu a imediata tensão. – O que foi? – E bateu com o membro semiereto sobre sua coxa. – Não quer mais? Ariel estava sem fala, e se arrastou pela cama até escapar das mãos dele e se levantar. Em pé, pegou o bustiê, amarrou de qualquer jeito sobre os seios, ajeitou a saia e saiu correndo. – Ei, aonde vai? – ele gritou ao vê-la sair. Trey se deixou cair deitado sobre a cama, totalmente confuso. – O que aconteceu? – perguntou para si mesmo. – Ah, merda – resmungou ao olhar para baixo e ver a máscara caída no chão. – Acho que ela não gostou da minha cara. Quando se debruçou sobre a beirada da cama para pegar a máscara, ele viu ao lado dela a tanga sexy. Trey pegou a peça minúscula de tecido delicado e a cheirou. Ainda tinha perguntas quanto à verdadeira identidade dessa mulher, mas, quem quer que fosse, uma coisa era certa: ela trepava como nenhuma outra mulher com quem já estivera. Estava decidido a tê-la de novo, e de novo, e de novo, e...


19

O escritório na casa do senador Oglesby em Washington era a representação do habitat de um político distinto. Um belo sofá de couro marrom ocupava boa parte da parede do fundo, e poltronas do mesmo material haviam sido arranjadas na frente de uma mesa de bordo esculpida à mão. Abajures originais Tiffany enfeitavam os cantos do móvel imponente. De todas as peças da elegante decoração, o coup de grâce era sua “parede do ego”. Todas em molduras douradas, as fotografias mostravam o senador trocando apertos de mão, dando tapinhas nas costas, e conversando com presidentes, primeiros-ministros, embaixadores e uma lista de poderosos e conhecidos diplomatas do mundo todo; havia até alguns artistas no meio da coleção. As fotos eram uma indicação clara de que era bem relacionado e poderia sem nenhum esforço mobilizar o quem é quem do país com um simples telefonema. Preston também se garantia e tinha uma agenda


telefônica bem impressionante, mas ainda se sentia honrado por poder se sentar entre esses dignitários. – Falei com o assistente do presidente ontem, e disse a ele que terei minha lista de indicações na próxima segunda-feira. É claro que seu nome é o primeiro dessa breve relação – o senador garantiu a Preston. – Robert, não tenho como dizer quanto sou grato por todo seu empenho. O senador reclinou-se na cadeira e sorriu. – Para que servem os parceiros de fraternidade? Preston havia conhecido Robert Oglesby na Escola de Direito de Georgetown. Era calouro, e Robert era o veterano designado para acompanhá-lo na primeira visita à escola. Os dois haviam se afiliado à mesma fraternidade, e daquele dia em diante eles se tornaram amigos rapidamente. Na época, Preston não tinha como saber que Robert desempenharia um papel tão vital em seu futuro. A família Oglesby estava em sua terceira geração de políticos e era profundamente entrincheirada no círculo político interno de Washington. O avô de Robert tinha laços estreitos com o clã Kennedy, de forma que eram poucos os que não o atendiam com alegria quando ele precisava de algum favor. E quando Robert


percebeu que seu bom amigo queria ocupar uma vaga na Suprema Corte, dispôs-se imediatamente a ajudá-lo. Preston sentou-se mais perto da beirada da cadeira e perguntou: – Então, qual é a próxima etapa depois de apresentar a lista? – Aí começa a diversão – o Senador Oglesby riu. Preston uniu as sobrancelhas expressando curiosidade e certa confusão. – Como assim? – Depois da entrega da lista é feita uma investigação minuciosa dos indicados, o que sempre acaba tirando do armário alguns esqueletos. É uma forma de controle de danos, uma precaução. Assim, todo e qualquer escândalo desagradável é descoberto antes de a investigação oficial começar – ele disse, encarando Preston como se o interrogasse. – Bem, podem convocar Columbo, Kojak e toda a equipe do CSI, porque não tenho absolutamente nada a esconder – Preston respondeu com total confiança. O senador levantou as sobrancelhas. – Tem certeza? Sei de um caso em que um indicado parecia ser totalmente transparente em tese, mas sofria de


um conveniente lapso de memória que o fez esquecer uma antiga amante. A mulher reapareceu cinco anos depois, quando as audiências começaram. É claro que ela surgiu do nada munida de fotos comprometedoras. Nem preciso dizer que o candidato em questão foi julgado e condenado logo depois da publicação das fotos, e se despediu definitivamente de suas chances de realizar o sonho político. – Não precisa se preocupar com a possibilidade de alguma sujeira escondida embaixo do tapete, ninguém vai tentar sabotar minha nomeação. Fui casado e fiel, devo acrescentar, por quinze anos, e agora estou comprometido com uma respeitada e estabelecida advogada. Portanto, asseguro que minha vida pessoal é mais que intacta e suportará a varredura de uma investigação sem sustos. – Preston se sentira tentado a ser infiel várias vezes. Ele e a ex-esposa levavam vidas separadas, basicamente; quando ela não conseguiu atingi-lo tentando jogar o filho contra ele, mudou-se para o quarto de hóspedes forçando-o a viver em celibato nos últimos dois anos do casamento. Olhando sempre para o cenário maior, Preston havia sido astuto o


bastante para saber que um caso extraconjugal poderia ferir suas intenções, se algum dia fosse descoberto. E agora, sentado ali enquanto o senador o interrogava sobre sua vida privada, estava mais do que feliz por ter resistido à tentação. – É bom saber disso. Então, quando terei o prazer de conhecer a futura sra. Hendricks? Ela tem uma reputação fabulosa na comunidade legal e será realmente um ponto muito favorável à sua nomeação. – Ele abriu a gaveta da mesa, tirou dela uma agenda de capa de couro preto e virou as páginas. – O que acha da próxima terça-feira? Minha esposa e eu vamos passar alguns dias em Nova York para assistir a alguns espetáculos da Broadway. Se estiverem disponíveis, podemos combinar um jantar. – Por mim está ótimo. Tenho certeza de que Ariel vai ficar muito feliz por poder finalmente conhecê-lo – Preston mentiu. Sabia que Ariel tinha ciúme do tempo que passava com o senador. Porém, depois de conhecê-lo pessoalmente e ouvir dele mesmo quanto o processo todo é envolvente, talvez ela se tornasse mais compreensiva e tolerante. Ele marcou a data na agenda. – Tudo bem, está combinado. Agora, e quanto à


vida profissional? Cada caso que você já presidiu será dissecado sob a lente de um microscópio muito preciso. Os dois lados lerão as decisões que você tomou ao longo dos anos, tentando decidir se será um juiz reprovável como omas e Scalia, ou um juiz correto e sensato, capaz de avaliar precedentes e os fatos de todos os casos. Você sabe que a lei é, na verdade, política disfarçada. Não é uma ciência exata, já que as leis são criadas basicamente para defender uma ou outra causa. E o Comitê Judiciário tentará determinar se você vai favorecer a direita ou a esquerda. Preston não disse nada, apenas assentiu. O senador então continuou: – E quanto a sua afiliação religiosa? Nós nos conhecemos há décadas, mas não sei se é católico, protestante ou batista. Bem, seja qual for o nome da sua crença, é melhor tirar a poeira da carteirinha de sócio. – Ele riu. – E tornar-se fiel praticante, se já não for. É sempre favorável ter uma religião e praticá-la de maneira sólida. Outra coisa útil é fazer algum tipo de trabalho voluntário. – Eu faço. Sou conselheiro e orientador do Teatro do Harlem para Meninos, faço esse trabalho há anos.


Negocio os contratos do grupo; é uma maneira de contribuir com a comunidade – Preston resumiu orgulhoso. – Excelente. – O senador estendeu um braço sobre a mesa, abriu uma caixa umidificadora cheia de grossos charutos enrolados à mão e pegou dois deles. – Bem, se eu tivesse o hábito de apostar, diria que é o candidato perfeito e que não vai ter problemas para garantir sua nomeação – ele anunciou, cortando a ponta de cada um dos charutos, entregando um deles a Preston. Preston reclinou-se na cadeira com um grande sorriso estampado no rosto e enfiou o charuto na boca. Podia se imaginar instalado entre os juízes, decretando o cumprimento da lei – a palavra final – de forma que não poderia ser discutida. E por que não? Havia construído uma carreira meteórica ao longo dos anos sem máculas desagradáveis, sempre com o único propósito de ocupar uma cadeira na Suprema Corte; sua vida pessoal e a profissional estavam acima de qualquer crítica. Eles que investigassem quanto quisessem, porque sua vida e a das pessoas à sua volta eram totalmente imaculadas.


Ariel agradecia pela chegada do fim de semana e pelos dois dias livres para pôr a cabeça em ordem antes de voltar ao trabalho na segunda-feira. Passou a maior parte do dia na cama, entrando e saindo de um sono conturbado. Seus sonhos eram uma série de turbulentos pesadelos que a despertavam no momento em que ela mergulhava em um sono mais profundo; mas não havia como compará-los ao pesadelo da vida real que vivera na Black Door. Ainda tentava assimilar a chocante descoberta. – Como posso ter sido tão ingênua? – ela perguntou, batendo com o punho cerrado em um dos travesseiros perto de sua cabeça. Queria discutir a situação com alguém para poder ter um ponto de vista mais objetivo. Mas não havia ninguém com quem pudesse falar. Pensou em telefonar para Meri, mas sabia que ela não seria imparcial. E Ariel não estava com disposição para mais um dos longos discursos da amiga sobre como ela devia saciar suas necessidades, já que Preston estava ocupado demais para satisfazê-las. Na verdade, haviam sido os conselhos de Meri que a puseram nessa confusão. Se nunca tivesse ido à Black Door com a máscara vermelha, usando o disfarce


de Meri, nada disso teria acontecido. Se não houvesse cedido aos desejos carnais, agora estaria vivendo a alegria dos preparativos para o casamento, em vez de imaginar se sua indiscrição arruinara seu futuro e o de Preston. – Droga! – ela gritou, e castigou o travesseiro com mais um soco violento. Ariel continuou batendo nos travesseiros sobre a cama com toda a força dos braços. Extravasava a frustração em objetos inanimados, porque não podia se espancar até se transformar em purê. E era exatamente isso que queria fazer por ter sido tão estúpida e se metido nessa confusão. Quando terminava o ataque contra os inocentes acessórios sobre a cama, o telefone tocou. O barulho a assustou e ela olhou horrorizada para a origem do ruído, como se ele fosse o mensageiro de uma correspondência enviada diretamente por Satã. Ariel ficou paralisada. Não sabia se atendia ou se jogava o telefone contra a parede. Primeiro pensou que poderia ser seu amante da máscara negra, mas logo percebeu que ele nem imaginava que poderia conseguir o número de seu telefone. Felizmente, o barulho cessou antes que ela


pudesse decidir o que fazer. Ariel se deixou cair encostada à cabeceira, aliviada por ter um serviço de mensagens que interceptava a ligação. Mas o alívio não durou muito, porque logo que o telefone fixo parou de tocar, o celular começou. Ela tirou da bolsa o aparelho pequenino e olhou o número no visor, exalando antes de atender ao chamado. – Oi – disse ofegante, ainda um pouco sem ar depois do ataque aos travesseiros. – Ah, oi – Preston respondeu, e parou. – O que aconteceu? – perguntou, percebendo a nota tensa na voz dela. – O que quer dizer? – ela indagou na defensiva. – Parece ofegante, como se houvesse acabado de correr a Maratona de Nova York. – Eu, ah... vim correndo do banheiro – ela mentiu. – Ah, eu estava me perguntando onde poderia estar, porque liguei no telefone fixo antes de ligar no seu celular. – Como foi a viagem? – ela perguntou, mudando de assunto. – Foi ótima! – Preston animou-se. – O senador e eu tivemos uma reunião produtiva. Ele resumiu tudo que


devo esperar, e você nem imagina quanto estou eufórico por ver finalmente esse jogo começando. – Ah, que boa notícia – Ariel respondeu com todo entusiasmo que conseguiu demonstrar, e não era muito. Preston estava tão absorvido em seu assunto favorito – ele mesmo – que nem percebeu a falta de animação na resposta. – Estou pensando em ir até aí para contar sobre a reunião. Ariel revirou os olhos. Não estava com disposição para ouvir Preston falar sem parar sobre sua preciosa nomeação. Queria – não, precisava – se concentrar nos próprios problemas, e não conseguia se dedicar a encontrar uma solução se Preston chegasse para encher sua cabeça com suas ambições políticas. – Benzinho – ela tossiu –, acho que estou me resfriando de novo. Vou tomar um comprimido e passar o dia na cama. – Ah – ele respondeu desapontado. – Bem, descanse. Preciso de você inteira antes de terça-feira. – Por quê? O que tem na terça-feira? – O senador e a esposa virão à cidade e nos convidaram para jantar com eles – Preston explicou.


Ariel queria gritar! A última pessoa que desejava conhecer era o senador. Ele era uma presença constante por telefone, interrompendo-os nos momentos mais inoportunos. Temia acabar falando alguma coisa sobre isso se o visse frente a frente, e não queria causar uma cena em público. – Não sei se vai ser possível. Tenho uma reunião de sócios na terça-feira à tarde, e conheço Bob o suficiente para saber que ele vai estender o evento até depois das cinco. Vou acabar saindo tarde do escritório – ela avisou, tentando escapar do que seria certamente uma miscelânea política tediosa. – Tenho certeza de que eles vão entender se você sair alguns minutos mais cedo. Meu bem, preciso realmente de você lá. O senador está ansioso para conhecer você. – Bem – ela cedeu com um suspiro –, talvez possa ir encontrá-los no restaurante, em vez de você ir me buscar no apartamento. – Era inútil tentar escapar do inevitável. – Ótimo. Vou fazer reservas para às seis no Town. Tente descansar um pouco, e amanhã conversamos. Ariel se despediu e desligou. Havia acomodado a necessidade de Preston (como sempre), mas seu


problema ainda estava no centro de tudo. – Que diabo vou fazer? – perguntou em voz alta, esperando que uma voz do alto desse a ela por algum meio mágico a resposta que procurava com desespero. Quando só o silêncio a acolheu, ela percebeu que nenhum gênio apareceria para piscar e eliminar o conflito. – Bem, uma coisa eu sei com certeza – disse pra si mesma. – Nunca mais voltarei à Black Door. Dizer as palavras em voz alta a fez se sentir melhor, mas sabia que era como pôr um band-aid sobre uma ferida aberta e sangrando. Mais cedo ou mais tarde, o pequeno curativo adesivo se desprenderia e deixaria ver o mal que tentava desesperadamente esconder.


20

O Town era um elegante restaurante três estrelas adjacente ao saguão do Hotel Chambers na Cinquenta e Seis Oeste. O exclusivo hotel-butique ficava em um tranquilo quarteirão no meio de Manhattan e era discreto por fora, exceto pela enorme porta de madeira trabalhada. Diferentemente do exterior genérico, o interior era grandioso, com tetos altos e sofás e poltronas estofadas, o que dava ao saguão um clima de sala de estar. O segundo andar era um lounge com vista para o saguão, e quem se sentava nos bancos do bar para beber vibrantes martinis coloridos tinha uma visão panorâmica de tudo que acontecia lá embaixo. E com os belos hóspedes e moradores da cidade posando e desfilando como se estivessem em uma sessão de fotos, havia muito para ver. Preston, o senador e a esposa dele chegaram primeiro e foram imediatamente acomodados à mesa que escolheram perto do fundo do restaurante.


Normalmente, era necessário fazer a reserva com meses de antecedência para garantir um lugar, mas com as conexões de Preston foi possível assegurar uma mesa com apenas três dias de antecedência. – Que cardápio impressionante – comentou Angélica. Ela frequentava a escola de culinária quando conheceu Robert em um evento social em Hill. O pai dela era um congressista e queria que a filha se casasse com um jovem e promissor político, e Robert Oglesby se enquadrava perfeitamente no perfil. Ele era de uma família respeitada com fortes conexões políticas e destinado a construir um nome em Washington. Angélica, porém, não se interessava por política ou por políticos; era um tipo criativo que vislumbrava a vida no exterior como chef de um restaurante cinco estrelas em Paris, mas no momento em que conheceu Robert tudo isso mudou. Ele era lindo, inteligente e determinado, e a encantou desde a primeira vez que se viram; vinte e cinco anos depois, o casal ainda estava apaixonado. Robert apoiou o braço no encosto da cadeira da esposa e se inclinou para poder ler o cardápio que ela comentava. – O que sugere, meu amor?


– A terrina de beterrabas fritas e queijo de cabra parece deliciosa; talvez comece com ela, e depois podemos pedir o linguado com erva-doce fresca. – Ela consultou o relógio. – É melhor pedirmos logo, ou perderemos a abertura do espetáculo – lembrou. Preston sentiu o calor subindo até o colarinho. Onde diabos estava Ariel? – Quando o garçom trouxer o Veuve, podemos aproveitar para pedir, e eu escolho por Ariel, assim não correrão o risco de perder o começo da peça. – Seus olhos varreram rapidamente o salão. – Tenho certeza de que logo ela estará aqui. Eles estavam cada um na segunda taça de champanhe quando Ariel se aproximou da mesa correndo. – Desculpem o atraso – ela bufou. – A reunião dos sócios se prolongou. Preston levantou-se e beijou-a rapidamente no rosto. – Querida, aí está você – ele disse calmo, tentando esconder a irritação que fervia em seu peito. – Ariel, esses são o senador Robert Oglesby e a sua esposa, Angélica. O senador ficou em pé. – Ariel, ouvi coisas excelentes sobre você. – Com um


sorriso caloroso, ele estendeu a mão. – É um grande prazer finalmente conhecê-lo – disse Ariel, apertando com firmeza a mão do senador. Então, este é o homem que tem interrompido meus momentos com Preston, pensou. Embora já o houvesse visto inúmeras vezes no C-SPAN e na Times, não o conhecia pessoalmente e estava impressionada com sua presença imponente. O senador de aparência distinta era alto, com têmporas grisalhas e rosto bonito e bem barbeado. Parecia um jovem Clint Eastwood, e poderia ser facilmente um astro do cinema, em vez de político. – O prazer é todo meu. – Ele sorriu com franqueza. – Esperava ter conhecido você em Washington há duas semanas, mas Preston disse que teve que voltar para Nova York inesperadamente, às pressas. Ariel odiava lembrar o fim de semana interrompido por Michele e sua agenda cheia de reuniões e compromissos. – Sim, foi muito inesperado. – Ela sorriu com educação. Tentando se livrar da lembrança desagradável, olhou para a esposa do senador. – E, por favor, perdoeme pelo atraso, sra. Oglesby.


– Angélica, por favor. – A mulher sorriu. – Sei quanto uma reunião de trabalho pode ser imprevisível. Robert está sempre se atrasando para o almoço, para o lanche, para o jantar, e eu aprendi a ocupar meu tempo. – Ela riu, suavizando a atmosfera. Imaginava que a esposa do senador seria uma matrona de cabelos grisalhos, colarinho fechado, colar de pérolas e coque, mas Angélica era cheia de estilo. O cabelo louro platinado era curto, com franja rala jogada para o lado e, como enfeite, em vez do colar de pérolas, ela usava outro de diamantes graduados. Vestida com um Diane von Furstenberg multicolorido, ela fez Ariel se lembrar de Meri, uma mulher mais velha, mas nem por isso menos informada sobre as tendências da última moda. Por um segundo, Ariel se perguntou se Angélica teria uma carteirinha da Black Door. Ela se livrou do pensamento, dizendo a si mesma que era ridículo. Além do mais, vivia em Washington e era casada com um político poderoso. Ariel estava tão preocupada com a Black Door que presumia imediatamente que todas as mulheres que encontrava, e que tinham um toque de sofisticação, eram ligadas ao lugar. Seu devaneio foi interrompido pelo colar da esposa do senador, que


brilhou à luz da vela como o ilustre Diamante Hope. Ariel piscou, incapaz de desviar os olhos da pedra; o brilho era hipnótico. – Angélica, seu colar é fabuloso. Ela tocou o diamante central, que devia ter cinco quilates ou mais, e disse: – Muito obrigada. Foi presente de aniversário de Robert. Que presente extravagante, Ariel pensou, mas não ousou comentar em voz alta. Robert notou o espanto registrado no rosto de Ariel. – Nada é bom demais para minha esposa. – Ele sorria, olhando com admiração e ternura para a mulher. Ariel podia ver claramente o amor que ele sentia pela esposa. Era aparente, visível, evidente que ele a adorava; o amor entre os dois era palpável. De repente, Ariel sentiu uma ponta de inveja em forma de arrepio nas costas. Sabia que Preston a amava, mas não tinha certeza de que ele era sua alma gêmea. Era claro que Robert e Angélica haviam nascido um para o outro, mas Ariel tinha dúvidas sobre ela e Preston. Ambos se ocupavam mais dos próprios interesses; ele se dedicava à preciosa


nomeação e se apegava a esse plano para manter-se aquecido à noite, e ela tinha as lembranças com o amante da máscara negra. O último encontro havia sido tão incrivelmente hedonista que estava ficando molhada agora só por pensar em como seu corpo se fundira ao dele, em como o ritmo havia sido sincronizado como se eles fossem almas gêmeas, não ela e Preston. Pensar naquele homem sugando seu clitóris até levá-la ao clímax despertava nela a vontade de sair correndo do restaurante, ir para casa, vestir seu disfarce e correr para a Black Door para mais sexo. Mas não podia porque, depois de ver o rosto dele, havia jurado que nunca mais voltaria à boate. Ariel olhou para a mesa e notou que todos bebiam Veuve Clicquot. Adorava champanhe, mas queria algo mais forte para relaxar. Porém, antes que pudesse pedir uma vodca com gelo e duas rodelas de limão, o garçom se aproximou e serviu champanhe em sua taça. Ao ver o último copo cheio, Robert levantou sua taça para um brinde. – A Preston, o próximo juiz da Suprema Corte. Todos o imitaram e levantaram a taça de champanhe.


– A Preston – responderam em uníssono. – Ei, por que ninguém me convidou para a comemoração? – perguntou uma profunda voz de barítono se aproximando da mesa. Preston virou-se na cadeira e sorriu para o recémchegado. – Filho – disse orgulhoso. – O que faz aqui? – perguntou, pois sabia que uma reserva tinha que ser feita com meses de antecedência. – Vim encontrar Michele para jantar. O chef é meu amigo, e eu tenho uma reserva sempre aberta – Preston III explicou, olhando para as pessoas à mesa e esperando para ser apresentado. Preston levantou-se e, orgulhoso, passou em braço em torno dos ombros do rapaz. – Senador e sra. Oglesby, este é meu filho único, Preston III. Preston III estava impressionado. O Senador Oglesby era uma pessoa bastante conhecida em Washington, alguém que podia construir ou destruir uma carreira. O simples fato de estar em Nova York jantando com seu pai só podia significar que ele o estava ajudando a realizar seu sonho de toda a vida. Até agora,


sempre havia pensado que o sonho do pai de ocupar a cadeira na Suprema Corte era algo muito distante, mas estava percebendo que o sonho estava mais perto de ser realizado do que ele supunha. – Preston III. – O senador sorriu. Sabia que Preston tinha um filho, mas não o conhecia. – É muito bom conhecer o fruto da boa árvore – ele disse, apertando a mão do rapaz. – Por favor, me chame de Trey – disse o jovem, correspondendo ao cumprimento com firmeza. – Preston III é muito formal. – É claro que conhece Ariel. – Preston olhou para a noiva. O coração dela batia descompassado e as mãos começaram a suar. Trey sorriu ao olhar em sua direção. – Oi, como vai? – Ele perguntou. A última vez que a vira havia sido na festa de noivado, e ela estava aborrecida por ter sido deixada de lado por seu pai, sempre muito ambicioso. Ela o fitou rapidamente, depois olhou para a mesa e respondeu com tom tímido, fraco, como se falar em voz baixa diminuísse sua presença.


– Bem, obrigada. Trey notou que ela evitava o contato visual. Deve estar constrangida por ter chorado em meu ombro. – Bem, Trey, por que não janta conosco? – perguntou o senador. – Preston fala de você há anos, e agora finalmente tenho chance de conversar com o único filho de meu amigo – disse com tom bem humorado. – Bem, como eu poderia recusar um convite como esse? Tenho certeza de que minha namorada não vai se incomodar. Preston chamou o garçom e pediu mais dois lugares à mesa. Ariel sentiu o sangue subir à cabeça num jato e experimentou uma estranha fraqueza. Esse era o momento que havia temido desde que a máscara do amante caíra durante a transa de sua vida, revelando alguém que ela não teria esperado ver naquela posição nem em um trilhão de anos. Trey. Seus dois mundos colidiam e ninguém à mesa tinha consciência da catastrófica colisão, ninguém além dela. Tentava manter a calma, mas estava suando frio. Precisava recuperar o controle e, com essa intenção, ela pegou a taça de champanhe e bebeu todo o conteúdo de um só gole.


Quando o garçom voltou com as duas cadeiras a mais, ela pediu uma Belvedere dupla sem gelo. Precisava da força da vodca para assimilar o fato de que estava sentada à mesa para jantar com o noivo e o filho dele – seu amante. – Então, Trey – falou o senador, olhando para ele com genuína curiosidade. – Com o que você trabalha? Trey hesitou por uma fração de segundo, como se contemplasse a questão, depois respondeu: – Acabei de passar pela Série Sete, e vou fazer uma experiência no mundo dos investimentos. Também quero investir no mercado imobiliário. Ouvir Trey falando e vê-lo sentado à mesa diante dela a fez reconhecer a dimensão da realidade do que havia feito. Sua única salvação era ele não ter visto seu rosto. Tentava se confortar com esse pensamento e manter a calma, mas depois de cinco minutos vendo Trey conversar casualmente com o senador ela não conseguiu mais suportar a pressão. Ariel disse de repente: – Com licença. – E se levantou para ir ao banheiro. Não suportava continuar ali nem por mais um segundo. Por um lado, ainda desejava Trey. Por outro,


sabia que transar com ele era praticamente incestuoso. No banheiro, Ariel molhou algumas toalhas de papel com água fria para improvisar uma compressa. Enquanto batia na testa com as toalhas, ela se criticava mentalmente por ter sido tão ingênua e se envolvido em uma situação impossível. Mas como poderia imaginar que o filho de Preston era um “servidor” na Black Door? Sua última lembrança de Trey era a de um garoto desajeitado e magro, praticamente um adolescente. Não podia saber que ele havia crescido e se tornado um garanhão. Além do mais, jamais o teria reconhecido por trás da máscara. Mas um olhar para aquele rosto e ela soube imediatamente que havia feito sexo com o futuro enteado. Pensar nisso foi o suficiente para obrigá-la a correr para o reservado mais próximo, e vomitar. – Oi, olá a todos – Michele falou ao se aproximar da mesa. Trey se levantou imediatamente e puxou a cadeira para ela. – Oi – ele a cumprimentou casualmente, como se cumprimentasse uma amiga qualquer. Desde o último encontro com a mulher misteriosa, havia se afastado de


Michele. Ela era linda, era boa companhia na cama, mas não era a mulher da máscara vermelha. Michele olhou para o senador e sua esposa e soube exatamente quem eram. Havia visto muitos recortes de jornal com fotos do casal. Mas o que não conseguia entender era por que estavam jantando com Preston sem que ela soubesse nada sobre isso. Afinal, era sua assistente pessoal e devia ter marcado esse encontro. – Juiz Hendricks – ela falou para Preston. – Não sabia que o senador Oglesby e a esposa estavam na agenda desta noite. Robert olhou para Preston, depois para Michele. Imaginando que fosse apenas a namorada de Trey, ele não entendia por que a jovem tinha acesso à agenda de Preston. Notando a expressão confusa no rosto de Robert, ele soube exatamente em que o senador estava pensando. – Michele não é apenas a namorada de Trey, Preston também é minha assistente pessoal. É com ela que tem falado ao telefone nas últimas semanas para discutir meu itinerário em Washington – disse, esclarecendo a questão. – Ah, sim. É bom poder unir um rosto ao nome,


finalmente. Michele se manifestou: – Eu estava com Preston em Washington. – E cobriu a boca com a mão. – Quer dizer, com o juiz Hendricks – disse, corrigindo o deslize. – Mas não tive oportunidade de conhecê-lo, porque fiquei trancada no quarto do hotel, tentando acomodar algumas reuniões inesperadas. – Sim, Michele tem sido minha salvação – Preston reconheceu, elogiando sua eficiência. – Ela vai ser uma grande ajuda de agora em diante. – É bom saber, porque meu homem aqui – Robert bateu nas costas de Preston – está a caminho do sucesso, e vai precisar de uma boa equipe para acompanhá-lo nessa viagem. – Posso garantir, senador, não precisa se preocupar com isso. Estou sempre cuidando de tudo. – De repente Michele teve uma ideia. – Se aprovar minha sugestão, juiz, posso organizar um pequeno coquetel em sua casa enquanto o senador e a esposa estão na cidade. Assim ele poderá ver com os próprios olhos que tem à sua volta uma forte rede de pessoas que o apoiam. – Michele, que excelente ideia – concordou o


senador. – E, é claro, espero que compareça, Trey. Adoraria saber o que pensa sobre o mercado imobiliário em Nova York. Estou pensando em investir. – É claro, eu não perderia isso por nada. – Perder o quê? – Ariel perguntou mais calma retornando à mesa. – Michele acabou de sugerir um coquetel enquanto Robert e Angélica estão na cidade – Preston respondeu animado. Estava muito satisfeito com a resposta positiva do senador à sugestão. Depois de ouvir a novidade, Ariel quase se descontrolou novamente. Queria arrancar os olhos de Michele por ser tão desgraçadamente eficiente. Por que ela não podia manter a grande boca fechada, simplesmente? Enfrentar o jantar já seria bem complicado; agora teria que ver Trey mais uma vez na mesma semana. Tentava desesperadamente ficar longe dele, mas era quase impossível. Ariel se agarrava a um fio de esperança: sua máscara havia permanecido no lugar, e ele não conhecia sua verdadeira identidade. Mas a pergunta era: por quanto tempo conseguiria guardar esse segredo?


21

Acordada com a luz da lua penetrando pelas frestas da persiana, Michele apoiou-se sobre um cotovelo e viu “seu homem” dormindo. Essa era a única hora em que podia olhar para ele sem se sentir encabulada. Amava tudo em Trey, desde a curva dos lábios às covinhas sensuais nas faces, até a cabeça quase raspada. Ele era lindo, e se orgulhava de ser sua mulher. Desde os três anos de idade, Michele havia vivido à sombra da irmã mais nova. Dois anos mais jovem, Janet era mais bonita e mais inteligente, e os pais nunca perdiam uma oportunidade de elogiar as qualidades da filha caçula. – Vejam o meu bebê, ela é a garotinha mais linda e mais talentosa do concurso – dizia a mãe, observando Janet dominar o palco e encantar os juízes. Enquanto Michele era a gordinha desajeitada, Janet era o oposto. Delicada e de maneiras graciosas, ela era a concorrente perfeita para o circuito dos concursos de


beleza. Convencida de que Janet seria Miss América no futuro, a mãe a inscrevera em todas as competições possíveis. Ela arrastava Michele como uma espécie de auxiliar mirim, incumbindo-a de carregar os vestidos e a caixa de maquiagem da irmã como uma pequena criada. Ressentia-se de ser tratada como Cinderela, mas nunca se queixara, apenas havia esperado pelo dia em que seria crescida. Na adolescência, Michele começara a se livrar da gordura infantil, e seu corpo passara de roliço e fofinho a uma coleção de curvas sensuais. Armada dessa nova silhueta, ela se livrara das calças largas e dos moletons e os substituíra por saias sensuais e jeans justos. Apesar de ter finalmente superado o complexo de gordura, ainda não conseguia conquistar os garotos mais bonitos, porque eles estavam sempre atrás de sua irmã, a eterna rainha da beleza. Só na faculdade Michele conseguira sair das sombras e passara a se exibir usando roupas ainda mais reveladoras. Usava o corpo para ter a atenção que nunca tivera na infância, e quando Trey notara seus seios naquele dia na casa de Preston, ela soubera que seria apenas uma questão de tempo antes de levá-lo para a cama. Mas queria mais – queria se casar com ele. Trey era filho de um futuro juiz da Suprema


Corte, e casando-se com ele finalmente venceria a eterna disputa com a irmã, que era casada com um vendedor itinerante. Sabia que seu pai respeitava Preston e ficaria encantado se ela se tornasse nora do juiz; então, finalmente poderia ser a queridinha do pai. Michele estudou toda a extensão do corpo nu de Trey e, sob o lençol fino, percebeu que seu pênis ia ganhando mais e mais volume, até ficar completamente ereto. Presumiu que ele estivesse sonhando com os momentos de sexo com ela, por isso se inclinou e sussurrou em seu ouvido: – Isso é para mim, amor? Depois do jantar na casa do pai naquela noite, Trey planejava pôr Michele em um táxi e mandá-la para casa, mas ela havia insistido em passar a noite em seu apartamento. Até carregava uma pequena valise, antecipando a noite fora de casa. Como não passavam muito tempo juntos ultimamente, ele concordou relutante. Michele podia ser agressiva às vezes; quando a conhecera na casa de seu pai, sentira-se excitado com sua atitude confiante, mas agora o que antes o inflamava começava a se tornar irritante. Ela o queria a seu lado o


tempo todo, e o afeto constante o sufocava. Sabia que a verdadeira razão por trás do desconforto era o fato de ela não ser a mulher que realmente desejava. Pela primeira vez na vida, Trey estava se apaixonando. Ou seria luxúria? Sabia que era loucura sentir coisas tão fortes por uma mulher a quem nem havia conhecido formalmente; bem, foram apresentados na festa de noivado de seu pai, mas, por alguma razão, não sentira nenhum tipo de conexão com ela naquela ocasião. Porém, na boate, a química entre eles era explosiva – era cósmica – e não podia negar o que sentia. Inicialmente ficara confuso, tentando entender por que ela fugira depois de ver seu rosto, mas depois havia percebido que ela provavelmente o reconhecera da festa de noivado e ficara constrangida, porque havia estado na cama com o filho de Preston. O jeito como saíra correndo do quarto havia sido suficiente para ele compreender que a mulher não voltaria à Black Door tão cedo. Mas tudo bem. Tinha sua pasta, e nela havia seu nome e endereço. Trey sabia que não era nada profissional ir bater na porta da casa de uma cliente, mas o relacionamento com ela havia ido além do profissional. Agora era pessoal. Sentia essa mudança, e


sabia que ela também a percebera. – Querido – Michele cochichou de novo. – Está dormindo? – E o cutucou delicadamente. As palavras de Michele penetravam em seus pensamentos, mas ele mantinha os olhos fechados, tentando substituir o rosto dela pelo de Meri. Preferindo se manter naquele pseudo estado de sono, ele não respondeu, permanecendo deitado de costas como se estivesse em coma. Trey não fazia nenhum barulho, esperando que ela desistisse e o deixasse em paz. – Bem, conheço alguém que está acordado – Michele murmurou enquanto levantava o lençol, começando a acariciá-lo. Trey queria gritar: “Pare! Saia da minha cama! Não amo você!” Mas o contato dava prazer, e com a testosterona em alta, queria mais. Tentando provocar uma reação, ela trocou a mão pela língua. Sedutora, contornou a extremidade do pênis, depois lambeu toda sua extensão. Quando chegou à base da ereção, começou a lamber as bolas como se fossem cobertas de açúcar. Incapaz de continuar fingindo indiferença, ele subia


e descia a pélvis instintivamente num movimento lento, ritmado. Sentindo que ele voltava à vida, Michele não perdeu tempo e intensificou a ação. Trey passara semanas sem fazer amor com ela, e queria recuperar o tempo perdido. Seus hormônios estavam enlouquecidos, e o desejava com toda a força de seu ser. Ela jogou longe o lençol e montou sobre seu corpo nu, posicionando a abertura da fenda úmida sobre o mastro ereto, subindo e descendo, aumentando a profundidade da penetração a cada movimento. O calor da vagina úmida o excitou ainda mais do que a boca molhada, e ele a segurou pela cintura, movendo-a com mais força depois de penetrá-la completamente. Sentindo todo o comprimento do pênis pulsante, Michele gritou: – Oh, sim! Trey enfiou três dedos em sua boca para sufocar os gritos, impedindo que ela acordasse os vizinhos. Vivia em um condomínio tranquilo, e a última coisa de que precisava era uma advertência por perturbar a paz dos moradores no meio da noite.


Michele começou a sugar cada dedo como se fossem pirulitos, e a sensação quase o levou ao clímax, mas ele se conteve. Mudando de posição, rolou o corpo para deitála de costas sobre a cama, sabendo que assim teria mais controle sobre sua ejaculação; a diversão estava apenas começando, não queria acabar com tudo tão cedo. Tentando puxá-lo para mais perto, Michele o enlaçou com as pernas e o apertou entre as coxas, impedindo-o de escapar. Queria devorar seu membro, porque assim seu corpo seria o único que ele desejaria ter. Pela agressividade da atitude, Trey deduziu que ela tentava dominar a situação e prendê-lo pelo sexo, mas, é claro, não deixaria isso acontecer. Por mais que odiasse admitir, já havia sido amarrado sexualmente por uma mulher, e uma era mais do que o suficiente. Tentando afrouxar a tensão das pernas que o envolviam e aumentar seu espaço, Trey arqueou as costas e levantou o corpo até sentir que ela abaixava as pernas. Então agarrou seus punhos com uma das mãos e a prendeu à cama. Michele levantou as pernas e tentou prendê-lo novamente, mas ele segurou sua perna direita


por baixo do joelho e flexionou contra o peito. A penetração tornou-se ainda mais profunda, mas ainda não era profunda o bastante, por isso ele soltou seus pulsos e a agarrou pelos tornozelos, abrindo as pernas dela no alto formando um V amplo, atingindo a amplitude máxima. Então, começou a se mover com mais intensidade, demonstrando que ele estava no comando. – Diga meu nome – exigiu com voz rouca. Ela contorcia o rosto e ofegava. – T... r... e... y... – arfou, quase sem conseguir pronunciar as letras. Michele gemeu com um misto de prazer e dor ao sentir o membro alcançar o colo do útero; não era isso que esperava. Estava apaixonada por Trey, e esperava que ele sentisse a mesma coisa. Queria que ele demonstrasse sentimento fazendo amor com ternura, não trepando com ela como se fosse uma prostituta que havia recolhido na calçada por dois dólares. – Espere... Pare! – ela pediu ofegante. Trey mantinha os olhos fechados e não respondeu; apenas a penetrava como um cachorro no cio, enlouquecido pelos hormônios.


– Trey! – Michele gritou, tentando tirá-lo do transe induzido pela luxúria. Ao notar que ele ainda não reagia, ela esperneou com força até se soltar. Então rolou para o lado e se encolheu. Lágrimas escorriam por seu rosto; não sabia por que ele a estava tratando com tanta rispidez, como se fosse alguém sem nenhuma importância. Michele estava de costas para ele, mas Trey ouvia os soluços e deduziu que ela estava chorando. De repente começou a se sentir culpado. Sabia que a estava tratando com grosseira, mas não conseguia se controlar. Assim que enfiara o membro na fenda úmida e quente, o instinto animal o dominou e ele só conseguiu pensar em uma boa trepada. Além do mais, não a amava e essa falta de amor era evidente. Tentando reparar o momento, ele tocou suas costas, mas Michele se esquivou. Trey não sabia o que dizer, por isso se deitou ao lado dela e a aninhou contra o corpo. Sabia que muitas mulheres amavam a posição de “conchinha”, porque assim se sentiam amadas. Ele fez essa grande concessão porque não queria destruir o relacionamento em uma noite. Não era idiota; sabia que não havia ódio maior que o de uma mulher abandonada, e não queria fazer de


Michele uma adversária vingativa. Além do mais, não sabia o que ia acontecer com Meri, e era melhor ter um pássaro na mão do que dois voando. Apesar de ainda estar aborrecida com Trey, Michele se deixou abraçar e aconchegar. Vivia um conflito. Primeiro ele a tratava como alguém com quem só queria sexo casual, depois a abraçava e protegia como se fosse uma boneca valiosa. Se não o conhecesse bem, poderia jurar que ele tinha outra mulher. Ela pensou em perguntar diretamente se Trey estava apaixonado por alguém, mas temia ouvir a verdade. Além do mais, esse não era o momento certo. Sabia que a melhor estratégia era pesquisar por conta própria e descobrir sozinha se ele a estava traindo. Não perderia Trey para outra mulher. Se havia mais alguém em cena, faria o que fosse preciso (e isso significava tudo) para proteger sua posição de futura esposa.


22

A vida de Ariel parecia uma novela dramática com personagens exagerados e roteiro surreal, uma novela na qual, em um capítulo, a empregada seduz o dono da casa, destrói seu casamento e se torna a nova senhora do castelo. Em outro bizarro desenrolar de acontecimentos, uma mulher reencontra a filha que deu para adoção vinte anos atrás, só para descobrir que essa filha é noiva de seu filho (meio-irmão mais novo da jovem). Por mais que tudo isso parecesse absurdo, as histórias não eram nada comparadas à sequência de eventos que Ariel vivia na vida real. Ainda não conseguira assimilar o fato de ter transado com o futuro enteado. Ariel estava sentada na frente da penteadeira com a cabeça entre as mãos. Em vez de se maquiar, mantinha os olhos fechados e pensava na lei das probabilidades. Quais eram as chances de um dia ter ido à Black Door, e depois, como se não bastasse, ainda ter atraído o único homem do planeta que era proibido para ela? Com


esforço, Ariel levantou a cabeça, abriu os olhos, olhou para o espelho e procurou nos olhos vermelhos algum tipo de compreensão sobre por que tudo isso havia acontecido. Se fosse do tipo frígida que não precisava de satisfação sexual regular, poderia ter esperado Preston ter tempo para ela. Mas, não, vivia em chamas e não conseguia se contentar com o plástico de um vibrador; era o tipo de mulher que precisava sentir a dureza do pênis de um homem, não uma imitação barata, penetrando sua vagina. Podia ter ligado para um daqueles serviços pagos e contratado um garanhão anônimo, ou, melhor ainda, podia ter feito uma proposta a Mason, o rapaz que a acompanhara ao evento beneficente em Lancaster, em vez de ir à Black Door. Nada disso estaria acontecendo. O telefone tocou quando ela ainda relacionava os inúteis “se”. Ariel olhou para o identificador de chamadas e se sentiu tentada a deixar o serviço de mensagens atender. Mas sabia que ele ligaria para o celular, por isso atendeu relutante. – Alô – disse com tom seco. – Oi, querida. – O tom de Preston era efervescente como uma taça de Dom. – Acha que consegue chegar em


casa às 18h30, em vez de 19h? – ele perguntou ansioso. Ariel virou-se e olhou para o relógio sobre o criadomudo. Faltavam quinze minutos para as seis, e não estava nem perto de estar pronta. Ela suspirou. Não queria chegar nem perto da casa ou de qualquer outro lugar para o qual Trey fosse convidado. – Vou tentar – respondeu, sabendo que não conseguiria chegar ao centro da cidade em quarenta e cinco minutos. – Ótimo. Vejo você lá – ele falou, sem prestar atenção ao tom desanimado. Ele já está eufórico, Ariel pensou ao desligar o telefone. No lugar do elegante vestido de festa, queria vestir pijama de flanela, se encolher na cama e se esconder embaixo das cobertas até a festa acabar, mas isso estava totalmente fora de questão. Preston consideraria sua ausência imperdoável, estava contando com seu apoio. Se ela não aparecesse, só provocaria suspeitas, e a última coisa que precisava era dele questionando sua fidelidade. Ariel amava Preston. Com ele tinha o tipo de segurança que lhe faltara na infância. De certa forma, ele era uma figura paterna – provável razão pela qual se sentira


atraída, para começar – e a última coisa que queria era magoá-lo. Ariel levantou-se sem vontade da cadeira da penteadeira e caminhou com passos pesados até o closet, pensando em escolher uma roupa. Ela acendeu a luz, recuou um passo e estudou a arara dos vestidos de festa. Esperava que um dos vestidos nos cabides acolchoados despertasse seu interesse, mas nada se destacava. Tudo parecia sem graça e chato. Ela se aproximou para examinar melhor as opções. Pegou um vestido verde esmeralda com pequenos botões cor de rubi e o tirou do cabide, colocando-o na frente do corpo e estudando o resultado no espelho da parte interna da porta. – Muito natalino – concluiu em voz baixa. Depois foi a vez de um vestido lilás com bainha ampla de duas camadas. – Muito bela do baile. – E franziu o cenho, olhando para o vestido inspirado em ... E o Vento Levou. A terceira opção foi um vestido justo, um Gucci preto com decote V, que ela segurou na frente do corpo. O vestido era perfeito – sexy, mas conservador – exceto pelo decote profundo que expunha uma parte da


tatuagem. – Uma echarpe pode cobrir a tatuagem – decidiu, tocando a rosa desenhada sobre o seio esquerdo. Agora que havia escolhido o que vestir, Ariel foi à cozinha e preparou um martini duplo. O tempo era fundamental, mas ela não se apressava. Depois de dar pequenos goles na bebida, exalou devagar. O líquido fresco descia por sua garganta e a ajudava a relaxar. Ela bebeu o primeiro martini e preparou outro antes de se dirigir ao banheiro. Ariel encheu a grande Jacuzzi com água morna e pingou nela várias gotas de óleo de eucalipto para um efeito relaxante. Uma bebida gelada e um banho morno eram tudo que precisava antes de encarar Trey novamente. Ela ficou na banheira por mais de trinta minutos antes de sair do banho. Depois se vestiu sem pressa e aplicou a maquiagem. Como já estava atrasada, não fazia muito sentido correr agora. E quanto menos tempo passasse na festa, melhor. Pouco antes de sair do apartamento, o telefone fixo tocou. Ela nem se incomodou em olhar o identificar de chamadas, porque sabia que era Preston ligando para saber por que estava demorando tanto. E, é claro, assim


que o telefone do apartamento parou de tocar, o celular começou. Não queria ouvir a enxurrada de perguntas, por isso desligou o celular sem atender à ligação. Ariel decidiu dirigir o Mercedes CLK preto conversível, em vez de pegar um táxi. Queria sentir o ar fresco da noite no rosto, tentar limpar a mente dos pensamentos incômodos de ruína e condenação. Não conseguia deixar de imaginar que Preston olharia para ela e para Trey e saberia instintivamente que eram amantes. Teria que tentar ficar longe de Trey para Preston não sentir a química entre eles. Ela percorreu a Quinta Avenida em velocidade de caracol, para desânimo dos motoristas de táxi que buzinavam impacientes atrás do carro. Ariel não aumentava a velocidade, simplesmente ignorava as buzinas incessantes e os olhares ameaçadores quando era ultrapassada. Mesmo sem pressa, ela ainda chegou à casa de Preston mais cedo do que queria, e como era seu dia de sorte, encontrou uma vaga para estacionar bem na frente do portão. Esperava ter que dar várias voltas no quarteirão até encontrar um local para parar o carro, mas esta noite havia sido diferente. Ela parou e ficou sentada dentro do carro olhando para uma das janelas, tentando


ver o que havia lá dentro, mas a única coisa que conseguia enxergar através das cortinas eram sombras se movendo de um lado para o outro. Ariel acionou o mecanismo para levantar a capota do carro. Depois de travá-la, desligou o motor e saiu do luxuoso modelo esportivo. Ao subir a escada da frente, ela sentiu o coração começar a bater mais depressa. Ouvia o murmúrio baixo de várias conversas e não conseguia deixar de especular se estariam falando sobre ela. Sabia que era ridículo pensar que alguém conhecia seu segredo, mas isso não a impedia de ser completamente paranóica. – Controle-se – ela se censurou antes de tocar a campainha. Meri abriu a porta da frente e exclamou com animação: – Queriiiida. Ariel a encarou boquiaberta. A última pessoa que esperava ver, especialmente a recebendo na porta, era Meri. Antes que pudesse perguntar o que ela estava fazendo na festa de Preston, Meri falou: – Preston está procurando você. Por que demorou


tanto? – Bem, eu estou aqui, a pergunta agora é... o que você faz aqui – Ariel falou assim que entrou. – Lembra-se do homem de aparência distinta e têmporas grisalhas que conheci na sua festa de noivado? – Meri perguntou, e depois continuou sem esperar por uma resposta. – Pois bem, saímos para jantar algumas vezes desde então. Ele é colega de Preston e estava na lista de convidados para esta ocasião, e me convidou para acompanhá-lo. – Oh, entendo. – Ariel estava feliz por ver um rosto amigo e se sentiu tentada a contar a Meri sobre a situação impossível em que se metera, mas não queria correr o risco de Preston ouvir os detalhes da história sórdida. – Para que essa echarpe? – Meri perguntou, olhando para o acessório no pescoço de Ariel. – Vim dirigindo o conversível e queria me proteger um pouco do ar frio da noite – ela explicou, em vez de dizer que queria esconder a tatuagem. Se dissesse que estava escondendo deliberadamente a rosa vermelha, Meri perguntaria o motivo, e isso daria início à conversa que ela tentava evitar.


– Já pode tirar a echarpe e mostrar seus atributos – Meri riu. – Ainda estou com um pouco de frio. Acho que vou mantê-la por mais um tempo – ela respondeu, tocando a echarpe para ajeitá-la no lugar. – Bem, só para o seu conhecimento... – Ela parou. – Você parece uma múmia toda embrulhada desse jeito. Ariel sabia que Meri não ia desistir, por isso disse: – Se quer mesmo saber, sra. Bisbilhoteira, estou tentando ser conservadora e esconder minha rosa. – Se eu tivesse seios lindos e naturais como os seus e uma bela tatuagem como a que tem, eu os exibiria por aí! Ariel revirou os olhos para o teto, não estava com disposição para mais uma das conversas autoindulgentes de Meri. – Você já exibe bem os seus seios comprados, então, qual é a diferença? – Sim, é verdade. – Meri balançou os seios, depois deslizou as mãos pelo vestido decotado aumentando a área exposta. Preston se aproximou de Ariel e perguntou: – Onde esteve? Telefonei várias vezes, e seu celular


direciona as chamadas para a caixa postal. Devia estar aqui há horas – ele falou em voz baixa para não causar uma cena. Ariel não estava com disposição para explicar, por isso simplificou a resposta. – Desculpe, eu me atrasei. – Eu também – ele suspirou. – A esposa do senador está perguntando por você. Ela está na biblioteca conversando com outros convidados. Acho que devia ir até lá agora mesmo e se desculpar pelo atraso – Preston sugeriu com veemência. Ariel não gostou do tom da voz dele. Preston lhe dava uma ordem direta como se trabalhasse para ele, e não gostava nada disso. Queria apoiar Preston, mas não seria uma de suas criadas. – Primeiro vou pegar uma bebida – ela disse com tom autoritário, desafiando a ordem. – Tem xerez na biblioteca – ele lembrou, insinuando que devia ir ao encontro de Angélica imediatamente. Ariel sabia que a noite era dele, mas não suportava ser comandada como uma serviçal imprestável. Cumprimentaria a esposa do senador em seu próprio


tempo, não quando Preston considerasse oportuno. – Não quero xerez. Quero vodca. – Ela olhou para Meri. – Venha comigo até a cozinha, deve haver uma garrafa de Belvedere no freezer. – E olhou novamente para Preston. – Irei conversar com Angélica em alguns minutos. Preston ficou ali parado com uma ruga entre os olhos, vendo Meri e Ariel se afastarem para o fundo da casa. – Bem, acho que você foi bem clara com ele – Meri brincou assim que chegaram à cozinha. – Não é que eu não queira apoiar Preston. O problema é que não suporto quando ele sobe no pedestal e se comporta como um idiota cheio de pompa. – Ariel abriu a porta do freezer e pegou a garrafa de vodca. – Quem ele pensa que é, afinal? Ainda nem foi nomeado, e já está se comportando como um juiz de todas as causas? – Estava tão aborrecida que a veia no meio de sua testa começou a pulsar, enquanto a temperatura do corpo subia alguns graus. Ela arrancou a echarpe do pescoço e a jogou sobre as costas de uma cadeira. – Querida, precisa entender que a carreira de um homem está sempre acima e à frente de seus


relacionamentos pessoais. Eles são assim, programados de maneira diferente. Por que acha que o índice de divórcio é tão alto neste país? – Meri perguntou levantando uma sobrancelha. – Bem, talvez eu deva desistir do casamento. – Ei, ei, sem drama. – Meri abriu o armário em cima da pia. – Onde estão os copos? Você precisa de um drinque para se acalmar antes de voltar à festa e dizer a Preston que quer o divórcio antes mesmo de se casar – ela brincou, tentando suavizar a disposição sombria da amiga. – Muito engraçado – Ariel falou com tom seco. Ela abriu o armário sobre o micro-ondas, pegou dois copos pequenos e serviu em cada um deles uma dose de vodca. Meri levantou os copos. – Aos homens. Não conseguimos conviver com eles, mas a vida seria totalmente tediosa sem eles. Ariel bateu com o copo no de Meti. – Touché. – Então, é aqui que a festa acontece de verdade? Meri e Ariel se viraram ao ouvir aquela voz: parado na porta estava ninguém menos que Trey. O ataque de raiva havia apagado completamente da memória de Ariel


a lembrança de que o veria esta noite. – Ah, oi. – Meri sorriu e estendeu a mão. – Sou Meri Renick. Nós nos conhecemos na festa de noivado. – Ela piscou descaradamente para o rapaz. Trey apertou a mão dela e a segurou por alguns segundos enquanto estudava seus olhos, procurando neles o brilho que vira na boate, mas não encontrou nada. Não sentia nada especial, por isso manteve o aperto de mão polido. Não sabia o que pensar. Havia esperado ansiosamente pelo encontro com Meri esta noite, contando com uma oportunidade para conversarem. Planejava perguntar se ela não gostaria de levar os encontros furtivos ao nível seguinte. Queria ter com ela um relacionamento de verdade, não apenas sexo, e esperava que ela sentisse o mesmo. Mas olhar para Meri esta noite foi o suficiente para perceber que ela não era a mesma mulher com quem transava até chegar ao paraíso. Trey soltou a mão dela e olhou para Ariel. Ariel baixou os olhos, temia fazer contato visual – mergulhar naqueles profundos poços castanhos poderia fazer os joelhos se dobrarem. Ele era o homem de seus sonhos e o queria mais do que desejava qualquer pessoa


no mundo, mas ele também era filho de Preston, por isso tinha que se conter. – Oi. – Essa foi a única coisa que conseguiu dizer. Trey começava a pensar que Ariel não simpatizava com ele; era a segunda vez que o tratava com frieza. A julgar pela maneira como ela agia, era impossível não pensar que a mulher tinha algum problema com ele, mas isso não fazia nenhum sentido. Mal se conheciam, então, como poderia ter causado uma impressão ruim? Não queria que houvesse dificuldades ou tensão entre ele e a futura madrasta, por isso pensou em começar uma conversa para quebrar o gelo, mas desistiu ao olhar para Ariel e ver a ponta de uma rosa tatuada sobre o seio esquerdo, embaixo do vestido. Ele piscou várias vezes, pensando que os olhos o estavam enganando. Não pode ser. Só conseguia ver o contorno da parte superior da rosa, mas a reconheceu imediatamente. O vermelho sangue e os detalhes complexos das pétalas eram exatamente os mesmos da mulher que usava a máscara vermelha. Trey olhou de Meri para Ariel e, de repente, tudo começou a fazer sentido. Sabia que Ariel não era sócia da Black Door, então ela devia ter ido à boate usando a máscara de Meri. Perceber que estivera


transando com a noiva do pai era assustador, e ele ficou sem saber o que dizer. Ao olhar novamente para Ariel, Trey notou que ela mantinha os olhos baixos, fixos no chão. Por isso fugiu quando viu meu rosto. Ele não sabia o que fazer. Felizmente, Ariel não o encarava quando ele notara a tatuagem, por isso ainda pensava que ele desconhecia sua verdadeira identidade. Esse não era o melhor momento nem o lugar para promover um confronto, por isso decidiu imitá-la e agir como se tudo estivesse em seu lugar. – Se não se importam, acho que também vou beber uma ou duas doses – disse, pegando um copo no armário e se servindo de uma dose de vodca. – Por favor, fique à vontade – Meri respondeu animada. Ariel queria gritar. Não conseguia acreditar que estava ao lado do amante secreto bebendo uma dose de vodca. Apenas se acalme, ele não sabe que era você atrás da máscara vermelha, disse a si mesma. – Então, por que estão escondidas na cozinha? – Apesar de dirigir a pergunta as duas, Trey olhava diretamente para Ariel.


– Não estamos escondidas, só queríamos alguma coisa mais forte que xerez ou champanhe – Ariel respondeu, levantando a cabeça para, finalmente, encarálo. No instante em que os olhares se encontraram, Trey sentiu uma reação imediata, uma espécie de formigamento entre as pernas. Não havia como negar que Ariel era a mulher por trás da máscara. Por uma fração de segundo, ele foi transportado de volta à Black Door, e quando pensou em sugar aqueles seios maravilhosos, seu pênis começou a crescer. Trey virou o copo e bebeu a dose de vodca de um só gole. – Então, o que acha do senador? – perguntou, tentando se distrair e conter a ereção. Meri analisava com evidente admiração o físico de Trey, olhando-o da cabeça aos pés, e respondeu insinuante: – Ele não é meu tipo. Ariel também esvaziou o copo. Quando ela e Trey estenderam a mão para a garrafa ao mesmo tempo, a parte superior de seu braço roçou o peito dele. Sentir os


peitorais firmes provocou uma descarga elétrica, e ela cambaleou ligeiramente, afetada pelo contato. Trey também sentiu a descarga, e seu membro passou de levemente ereto a totalmente rígido. Queria levantar seu vestido e transar com ela ali mesmo, em cima da mesa. Em vez disso, segurou seu braço e a estabilizou. Ariel estava bem na frente dele, tão perto que podia sentir sua ereção. Queria libertar aquele pênis grande e duro e transar com ele. Sem que ninguém notasse sua presença, Michele estava parada na porta assistindo à cena entre Trey e Ariel. Não era o que eles diziam, mas o que não diziam. A maneira como o corpo de um parecia gravitar para o do outro. A atmosfera era eloquente. Trey era ímã para as mulheres e exercia esse efeito sobre todas, jovens e velhas. Até Meri salivava e o cobiçava abertamente. Michele pensava que, se ele era capaz de fascinar a futura madrasta e a amiga dela, não havia nem como imaginar quem mais ele tinha sob seu encanto. Sua intuição feminina dizia que Trey estava envolvido com alguém, e ao longo dos anos ela havia aprendido a confiar naquela voz fraca, mas persistente, que soava no fundo de seus


pensamentos. E agora a voz dizia para manter a calma e descobrir a verdade.


23

Trey estava sentado à mesa tentando conciliar os números do mês, mas digitava os algarismos errados na calculadora. Em vez de apertar a tecla de soma, apertava a de subtração, e sem querer extraía os lucros quando devia acrescentá-los ao número final. Ele empurrou o balancete para o lado, sua mente estava turva, e sabia que era inútil tentar se concentrar na contabilidade quando estava preocupado com sua recente descoberta. Ele pegou a calcinha de Ariel da gaveta da mesa e a aproximou do nariz. Ela havia deixado a peça íntima para trás quando saíra correndo da boate. Trey a cheirou, enchendo os pulmões tentando capturar o cheiro da mulher, mas não havia mais nada. Ele deslizou a seda por entre os dedos; a sensação do tecido macio o fez lembrar sua pele aveludada. A calcinha pequenina, uma tanga fio dental, era a única lembrança da noite que passaram juntos, e a guardava com grande carinho. Olhar para aquela peça o transportava de volta ao


último encontro. A partir do momento em que ela tocara seus lábios com um dedo, ele soube que aquela noite em sua suíte particular seria fantástica, e foi. O jeito como ela deslizara as mãos por seu peito, como se o possuísse e tocasse um bem muito precioso, o arrepiara imediatamente. E quando ela se ajoelhara para tomar seu membro entre os lábios, sentira vontade de gritar que ninguém nunca havia feito sexo oral com ele daquele jeito. Sentir a língua deslizando em torno da circunferência de seu pênis havia sido glorioso, e chegara a pensar que gozaria como um adolescente inexperiente transando pela primeira vez. Trey estivera com muitas mulheres ao longo da vida, de supermodelos a donas de casa e executivas poderosas. Tivera até uma ménage à trois com duas mulheres fantásticas, mas essa era a primeira vez que uma mulher o fazia pensar em abrir mão de sua liberdade. Na festa, no instante em que ela roçara o braço em seu peito inadvertidamente e sentira sua ereção contra a perna, Trey havia experimentado um forte impulso de jogar a cautela pela janela e beijá-la (de língua e tudo) na frente de Meri. Mas, antes que pudesse tomar uma


atitude, Michele havia entrado na cozinha e avisado que Preston queria todos na sala imediatamente. Quanto Trey seguiu Ariel para fora da cozinha, ele a observou caminhando e se sentiu cativado. Estava hipnotizado pelo movimento das nádegas subindo e descendo naquele ritmo sincopado. Tivera nos braços seu corpo nu, mas ver o traseiro balançar suavemente embaixo do tecido do vestido era tão estimulante quanto vê-la oferecer os seios fartos e toda sua intimidade em sua suíte privada. Alguma coisa em vê-la toda vestida o excitava. Diferente de Michele, que não tinha noção de decoro, Ariel era sexy e cheia de classe ao mesmo tempo, ele gostava de seu estilo sofisticado. O pai dele começou o discurso agradecendo pela presença de todos, mas, antes de continuar, estendeu a mão para Ariel e a puxou para perto, posicionando-a ao seu lado. O jeito como seu braço repousava de maneira confortável sobre os ombros dela enquanto ele falava e a maneira como ele olhava com ternura para a noiva fizeram Trey entender que seu pai amava aquela mulher de verdade. Vê-los ali juntos deu a ele a exata dimensão da gravidade de seus atos. Havia transado com a futura madrasta. Se o pai algum dia descobrisse, ficaria


devastado, no mínimo. O relacionamento tinha seus altos e baixos, mas nem por isso queria destruir o velho. De início Trey nem imaginou que Ariel era a mulher por trás da máscara. Mas agora que as máscaras caíram e suas identidades foram reveladas, dormir com a noiva do pai não faria o barco balançar, mas provocaria um naufrágio. Em circunstâncias diferentes, não deixaria Ariel escapar assim tão fácil. Mas, sabendo que ela pertencia ao pai, Trey decidiu que se deitar com ela outra vez era algo completamente fora de questão. Batidas na porta o obrigaram a voltar ao presente. Trey guardou rapidamente a calcinha sexy na gaveta da mesa. – Entre! Está aberta – gritou. – Tudo bem, chefe? – Ei, Mason, como vai? – Tem um minuto? – perguntou o jovem garanhão. – Sempre. – Trey estendeu a mão. – Sente-se. Qual é o assunto? Não via Mason há semanas e estava curioso para saber o que ele queria em seu escritório.


– Queria discutir com você a possibilidade de voltar à boate – Mason anunciou sem rodeios depois de sentar em uma das poltronas na frente da mesa. Trey levantou uma sobrancelha. – Está dizendo o que acho que está dizendo? Mason assentiu. – Sim. Trey não podia acreditar. Mason era um de seus melhores servidores. Era uma espécie de Adonis bronzeado, com pele perfeita e suave que lembrava um saboroso chocolate. O corpo era musculoso e definido, praticamente sem nenhuma gordura, e o rosto era esculpido como o de um deus grego, com um cavanhaque bem aparado emoldurando a boca. Ele já havia sido o servidor mais solicitado da Black Door e fizera muitas mulheres felizes, mas se retirara dessa área do negócio para dedicar-se com mais foco aos estudos. – Achei que não tinha mais tempo para servir, agora que está na faculdade de medicina. Mason abaixou a cabeça por um momento, como se estivesse constrangido. – Não tinha, mas abandonei a faculdade – ele revelou sem esconder a tristeza.


– Por quê? – Trey apoiou os braços sobre a mesa. – O que aconteceu? – Dinheiro, ou a falta dele. – Não via sua mantenedora há meses, e o cofre havia esvaziado. – Usei todas as economias que tinha e tive que me afastar por um ano. A escola de medicina é muito cara e preciso recuperar meus recursos antes de voltar à faculdade. Ser acompanhante é legal, mas o dinheiro de verdade está dentro da boate, como você bem sabe. Trey pagava um salário mínimo aos acompanhantes, porque sabia que suas “clientes” davam gorjetas generosas no fim de uma noite agradável. Porém, os funcionários que trabalhavam dentro da boate como servidores recebiam um bom salário mais benefícios. Eles eram a alma da boate, e queria ter certeza de que se sentissem justamente compensados. Dinheiro garantia lealdade e, por isso, o índice de rotatividade na Black Door era muito baixo. – Lamento por saber que teve que interromper a faculdade. – Ele sorriu. – Mas fico feliz por estar de volta, meu amigo. – Aposto que sim – Mason respondeu sarcástico.


– Ei, espere aí. Não é o que está pensando. – Ah, não? – Mason parecia duvidar. – Não. – Trey se debruçou um pouco mais sobre a mesa. – Na verdade, tenho pensado em abrir uma Black Door no centro da cidade, mas ainda não achei o imóvel adequado. Mason não acompanhava o que Trey estava dizendo. – E o que isso tem a ver comigo? – Bem, vou precisar de alguém para administrar a boate quando estiver aberta e não consigo pensar em administrador melhor do que você. – Ele sorriu. – Obrigado, cara, mas não sei nada sobre administrar uma boate. – Eu sei que não, por isso quero que seja meu assistente direto aqui na boate, em vez de voltar a servir as clientes. Assim vou poder ensinar pessoalmente tudo que você precisa saber. Será meu braço direito e, quando a nova filial for inaugurada, você já vai se sentir um profissional experiente. Mason se animou rapidamente com a ideia. A verdade era que não queria mais servir nos salões da boate. Algumas mulheres eram insaciáveis e, por mais que adorasse sexo, corresponder sob pressão e comando


podia ser bem desagradável. O único motivo pelo qual voltava à Black Door era o dinheiro, e nada mais. – Pode contar comigo! Quando eu começo? – ele perguntou entusiasmado. – Vou pedir ao meu advogado para redigir um contrato o quanto antes, mas até lá, por que não saímos para jantar e comemorar? Tem algum compromisso esta noite? – Estou completamente livre – Mason respondeu. Trey pegou o telefone. – Vou ligar para o 66 e tentar fazer uma reserva. – É um bom plano. – Mason não esperava ser convidado para exercer um cargo de gerência, sentia-se feliz. Trey tinha conexões com a maioria dos restaurantes famosos da cidade, e normalmente conseguia uma reserva sem grande antecedência. Ele conversou com o gerente do 66, um amigo de um amigo, e conseguiu uma mesa para aquela noite. – Que tal oito e meia? – perguntou a Mason ao desligar. – Parece bom. Só preciso ir para casa e vestir alguma


coisa mais respeitável – ele respondeu, olhando para o jeans rasgado e para os sapatos esportivos. – Encontro você lá às oito e meia. – Mason levantou-se e apertou a mão de Trey. – Obrigado, chefe. – Não precisa me agradecer, Mason. Como sabe, essa área é difícil, e é bom ter alguém ao meu lado em quem eu possa confiar. – Cara, conte comigo. Sempre. Quando Mason saiu do escritório, Trey reclinou-se na cadeira, cruzou os braços e apoiou os pés sobre a mesa. Imaginava-se expandindo, mas não poderia cuidar pessoalmente de duas casas com o mesmo sucesso. Como a Black Door era um clube privado, não queria contratar um desconhecido para participar da administração. Agora não teria que se preocupar com o sigilo que devia cercar as informações das associadas. Trey havia resolvido uma dificuldade, mas ainda estava pensando em Ariel. Sabia que ela era alguém com quem não poderia se relacionar, mas isso não o impedia de desejá-la. Trey abriu a gaveta da mesa e pegou a calcinha. Ele a segurou diante do rosto. Mesmo sabendo que o cheiro há muito havia se dissipado, ele a cheirou pela última vez e jogou a peça escandalosa no lixo.


– Adeus, srta. Vaughn – disse com grande tristeza ao ver a calcinha chegar ao fundo da lata.


24

O restaurante do chef Jean-George, o 66, tinha inspiração asiática, ficava em TriBeCa, um conhecido destino de executivos, empresários do ramo da música, supermodelos, modelos em início de carreira e pessoas comuns procurando uma nova experiência gastronômica. O moderno interior com sua decoração monocromática, persianas de metal e mesa comunitária perto da área frontal do restaurante era acolhedor. A parte do fundo oferecia maior privacidade e uma vista estonteante do colossal aquário de água salgada habitado por filhotes de tubarão, moreias, baiacus espinhosos e coloridos Lion Fish. Trey chegou antes de Mason e sentou-se na área comunitária. Diante dele, sentadas sobre um conjunto de cubos de couro havia um grupo de modelos de pernas longas. Elas estudavam um portfólio e não o viram se acomodar. – Acho que meus seios parecem falsos demais nessa


foto – disse uma ruiva alta. – Bem, e não são? – respondeu uma bela morena de cabelos curtos. – Sim, mas o cirurgião disse que eles ficariam naturais depois que o inchaço sumisse. – Beth, você sabe muito bem que são grandes demais para parecerem naturais. Quantos centímetros tem de busto agora? Cento e cinquenta? – Não, cento e vinte – ela respondeu orgulhosa, sem entender a piada. A morena balançou a cabeça. – E ainda se espanta por parecerem falsos? Trey não conseguia deixar de olhar para aquelas mulheres. A primeira que notou foi a ruiva. Ela vestia uma regata branca e os seios quase escapavam pelas cavas profundas. Seria quase a mesma coisa se estivesse sem a camiseta, porque o algodão fino mal continha as mamas enormes. Trey gostava de seios, mas os dela eram muito artificiais. Em vez de macios e femininos, pareciam duros e sintéticos. Gostava de ver os mamilos de uma mulher endurecerem quando brincava com eles, mas os dessa garota já eram duros como dedais. Vira implantes de silicone em número suficiente no clube para ter se


tornado imune aos seus encantos. – Desculpe, estou atrasado – disse Mason, caminhando para a área do bar. – Não tem problema. Cheguei há poucos minutos. Antes que Mason pudesse se sentar, a ruiva falou: – Com licença. Mason olhou na direção do trio, pensando que talvez alguém no grupo o conhecesse, mas ele não reconheceu nenhuma delas. E apontou para si mesmo. – Está falando comigo? – perguntou. Ela se levantou e caminhou em sua direção. – Não conheci você no CroBar há algumas noites? Mason sempre era confundido com alguém, seu rosto era comum. – Não, não era eu. – Ele sorriu. Ela se aproximou de forma que os seios quase tocassem seu peito. – Tem certeza? Eu dancei com um cara que era exatamente como você. – Ela estendeu a mão e tocou o bíceps definido embaixo do suéter de tricô. Mason corou ao reconhecer um elogio. Era assediado todos os dias, mas nunca se cansava da atenção. Com a pressão da faculdade de medicina e do trabalho, não


tinha tempo para mais nada. A cliente que o mantinha com algum conforto havia desaparecido, e há meses ele não saia com ninguém. Mas, agora que se afastava temporariamente da faculdade de medicina, teria tempo para viver os prazeres da vida. Mason a olhou da cabeça aos pés e seus olhos se detiveram nos seios fartos. Ela não usava sutiã, por isso podia ver nitidamente os mamilos. Sentia o pênis responder, mas não queria agir como um cachorro perdigueiro na frente do chefe. Ele estendeu a mão. – Meu nome é Mason. E o seu? – perguntou com um sorriso sexy. – Elizabeth, mas os amigos me chamam de Beth – ela flertou, apreciando o contato firme. Depois de alguns segundos, soltou a mão dele, enfiou a mão no bolso do jeans, pegou um cartão com sua foto na frente e o entregou a ele. Mason olhou para o pequeno retrato de rosto na frente do cartão e deduziu que a garota era modelo. Mason adorava modelos. Normalmente eram livres, sensuais. Muitas eram bissexuais e adoravam fazer sexo com duas garotas e um cara qualquer. Estava sempre


disponível para o papel do garanhão do trio. Ele virou o cartão. – Esse é o número do meu celular. Ligue para mim. Adoraria sair qualquer hora. – Ela piscou. – Tudo bem, Beth. Tenha uma boa noite. – Mason guardou o cartão no bolso de trás da calça e olhou para Trey. – Cavalheiros, a mesa está pronta – a hostess avisou se aproximando. Quando eles se sentaram à mesa, Trey não perdeu tempo e logo comentou sobre Beth. – Cara, ela se jogou em cima de você. – O que posso dizer? As garotas adoram o Mason aqui. – E riu. – Fala como um verdadeiro jogador. – Não sou um jogador. – Ele sorriu. – Apenas aprecio a companhia de uma bela mulher de vez em quando. Trey fez uma careta de dúvida. – Sim, é verdade. – Boa noite, cavalheiros – o garçom falou se aproximando da mesa. – Querem água com gás ou natural? – Ele entregou um cardápio a cada um.


– Natural para mim – pediu Trey. E olhou para Mason. – E para você? – Evian, se tiver. Não gosto de água com gás. – E uma garrafa de Veuve Grand Dame – Trey acrescentou. – É claro, senhor. Volto em um minuto com as bebidas. Eles estudaram o cardápio tentador com sua seleção de pratos neoasiáticos. Cada item do extenso menu era uma provocação, desde o aperitivo de costelinhas com mel ao suculento pato Pequim, ao pombo recheado com gengibre ao molho de laranja. Até a tapioca de coco na página de sobremesas parecia totalmente pecaminosa. O garçom voltou com a água e o champanhe. – Posso trazer um aperitivo? – Sim, as costelinhas e duas porções do camarão – Trey decidiu, escolhendo a partir do cardápio. – E como entrada, vou querer as costeletas de carneiro assadas com alho – Mason acrescentou. – Eu prefiro o salmão em crosta e gergelim, entre mal passado e ao ponto – Trey avisou. Assim que os pedidos foram anotados e o champanhe foi servido, Trey levantou sua taça.


– Bem-vindo ao gabinete executivo. Mason bateu com a taça na dele para o brinde. – Obrigado, Trey. É bom não ter mais que me preocupar com as finanças. – Ei, espere um minuto... Quem disse que havia um salário? Isso é um estágio – ele falou muito sério. Mason parou de beber e olhou nos olhos de Trey. – O quê? Pensei... Antes que ele pudesse terminar, Trey gargalhou. – É brincadeira, cara. É claro que vai receber um salário. Afinal, as garotas adoram esse Mason – ele falou, debochando de seu comentário anterior. – E conto com você para aumentar nosso quadro de associadas indicando mulheres que precisam de um pouco mais de excitação na vida. Mason suspirou aliviado. – Combinado! O champanhe fluía e a comida era mais que deliciosa, e Trey e Mason comiam e bebiam como reis. Depois do jantar, os dois pediram Lagavulin, um malte puro escocês envelhecido, e trocaram histórias sobre as mulheres que haviam amado e perdido. Trey se sentiu


tentado a falar com Mason sobre seu envolvimento com Ariel, mas conteve-se. Compreendia que revelar que havia se deitado com a futura madrasta soaria bizarro – na melhor das hipóteses –, por isso manteve a boca fechada. Quando a conta chegou, Trey pegou a carteira, tirou dela o American Express Black Card e o colocou sobre a mesa. Nesse momento seu celular tocou e ele olhou para o identificador de chamadas. Era Michele. Não estava com disposição para esse tipo de conversa agora, então recusou a chamada e a enviou para a caixa postal. Não a via desde a festa na semana anterior e tentava evitá-la para poder romper o relacionamento devagar. Depois de experimentar uma conexão tão cósmica com Ariel, Trey sabia que, se Michele fosse realmente sua alma gêmea, ele nunca teria se sentido atraído por outra mulher. Não queria fazer Michele perder tempo e sabia que tinha que dizer a ela que o relacionamento não estava funcionando para ele. Mas a confissão poderia esperar até o dia seguinte. – Com licença – Trey pediu e se retirou para ir ao banheiro. Os banheiros no 66 eram tão singulares quanto o


próprio restaurante. Escondido atrás de cortinas prateadas havia um corredor escuro e várias portas. Cada reservado unissex era privado, com pia e espelho próprios. Trey empurrou a primeira porta, mas estava trancada, por isso ele foi à seguinte e bateu, mas também estava ocupada. Não queria ter que bater em todas as portas, por isso decidiu esperar até a pessoa sair do primeiro reservado. Com champanhe e uísque correndo nas veias, Trey não sentia desconforto. Estava de bom humor e assobiava tranquilo enquanto esperava. Quando ouviu a tranca ser aberta, ele se afastou para o lado. A porta se abriu, e ele não acreditou no que viu. Diante dele estava ninguém menos que... Ariel Vaughn. Os olhos dele se arregalaram ao vê-la ali em pé. Ariel estava imóvel na porta, praticamente paralisada pelo choque. Trey era a última pessoa que ela esperava ver. Como não sabia o que fazer, ficou imóvel. Os instintos animais de Trey o dominaram e ele soube exatamente como agir. Sem dizer nada, segurou-a pelos ombros, a empurrou de volta para dentro do banheiro, e fechou a porta com o pé. Depois a soltou, trancou a porta e segurou seu rosto entre as mãos, beijando-a com paixão. Quase não


conseguiu conter um gemido. Queria ter feito isso na cozinha da casa do pai. Os lábios dela eram macios e pareciam derreter sob os dele. A boca se abriu para receber sua língua. As línguas se encontraram e dançaram num ritmo próprio e sedutor. Ariel empurrou Trey contra a porta, pressionando o corpo contra o dele. Sabia que era errado, mas não conseguia se conter. A pele clamava pelo toque daquelas mãos e não ficaria satisfeita enquanto ela não beijasse cada poro de seu corpo. Trey parecia ler seus pensamentos. Os beijos desceram da boca para o pescoço. Uma das mãos desabotoava sua blusa e a outra a segurava com firmeza. Assim que terminou de abrir sua blusa, ele deslizou a língua sobre sua pele até encontrar o sutiã. Então encaixou a cabeça entre os seios e deixou a ponta da língua traçar o contorno da tatuagem. Adorava aquela rosa, porque, não fosse pela marca distintiva, jamais saberia que ela era a mulher por trás da máscara vermelha. Trey beijou a rosa e começou a morder as beiradas do sutiã de renda. Ele abriu o fecho frontal com os dentes, expondo os seios fartos. Diferente da modelo


com seios de silicone, Ariel tinha seios naturais. Ele os acariciou e adorou a sensação de maciez e volume. Inclinando-se, lambeu cada mamilo com a ponta da língua, depois começou a sugá-los lentamente. As pálpebras de Ariel tremularam e ela revirou os olhos ao sentir o toque másculo, mas gentil. Trey uniu seus seios e passava de um ao outro com beijos, lambidas e mordida. A sensação a fez gemer de prazer. Ela tocou o zíper da calça de Trey, mas ele a segurou pelo pulso e impediu de seguir adiante. Com um movimento inesperado, Trey fechou o sutiã de Ariel e abotoou cada botão de pérola de sua blusa. Ela parecia desapontada, mas entendia por que ele havia parado. Aquilo era errado. Trey havia cometido a maior de todas as traições, e agora que conheciam a identidade um do outro, a única opção era parar com aquilo antes que Preston os descobrisse. Segurando a mão dela, Trey destrancou a porta. E se dirigiu à saída acompanhado por ela. Os dois passaram direto pela hostess e foram em direção à porta. Não falaram nenhuma palavra. Do lado de fora, Trey parou um táxi com uma das mãos, ainda segurando a dela com a outra.


– Vamos ao 128 da East Trinta e oito, perto do Park – disse ao motorista. Nenhum dos dois falava enquanto o carro ia enfrentando o tráfego do centro da cidade. Lembrando que havia deixado Mason e seu AmEx, Trey pegou o celular. – Ei, cara, aconteceu um imprevisto e tive que ir embora. Pode assinar a nota e guardar meu cartão para mim, por favor? Eu pego amanhã... Tudo bem, obrigado. – Trey pôs o telefone no silencioso e o guardou no bolso interno do paletó. Ariel lembrou que havia deixado Meri no restaurante e pegou o celular para ligar para a amiga. – Ah, oi. Aconteceu um imprevisto e tive que ir embora – disse, usando as mesmas palavras de Trey. – Não se preocupe, querida. Estou vendo um mocinho com bíceps deliciosos sentado sozinho, e ele parece familiar. Acho que vou escolher a sobremesa – Meri respondeu com um sorriso malicioso. Ariel apreciava o fato de Meri não ser o tipo carente e valorizar sua independência. Mas sabia que, no mais puro estilo Meri, ela ligaria de volta em algum momento para perguntar sobre o verdadeiro motivo que a fizera


partir tão repentinamente. Ariel não atenderia a nenhum telefonema esta noite, por isso desligou o celular e o guardou na bolsa. Sabia que estavam quebrando todas as regras, mas esse encontro casual era a chance de se despedirem. Seria o adeus, a última vez. Devia ter perguntado para onde iam, mas não queria arruinar a magia do momento, por isso ficou em silêncio. Trey sentiu o telefone vibrar junto do peito, mas ignorou. Cinco minutos depois o aparelho vibrou novamente. Sabia que só podia ser uma pessoa chamando a essa hora, um único inconveniente – Michele – e queria jogar o telefone pela janela para nunca mais ter que falar com ela. Mas seria inútil, porque ela simplesmente ligaria para o telefone de sua casa. Definitivamente, diria a ela que o namoro havia terminado, mas não esta noite. Havia começado a chover, uma garoa fina, e Ariel observava as gotas caindo leves sobre a janela. Adorava noites chuvosas. Eram sensuais, especialmente quando estava aninhada junto de um corpo quente. Pela primeira vez em muito tempo, Ariel se sentia completamente relaxada. Ela apoiou a cabeça sobre o


ombro de Trey, fechou os olhos e desfrutou do restante do trajeto. Poucos minutos depois eles paravam na frente do prédio. Trey pagou a corrida, tirou o paletó, o segurou sobre a cabeça e desceu. Depois estendeu a mão para Ariel. Ele se debruçou na direção dela segurando o paletó, protegendo-os da chuva que agora era torrencial. Trey estava tão ocupado sendo o cavalheiro atencioso que não percebeu a BMW preta de Michele estacionada do outro lado da rua. Ela havia tentado falar com Trey a noite toda, mas as ligações caíam direto na caixa de mensagem. Normalmente ele a atendia, mas esta noite a estava ignorando deliberadamente. Desconfiada, ela foi até o apartamento dele. Michele estava ali há menos de cinco minutos, quando um táxi parou na frente do edifício. Um casal desceu do carro, mas ela não conseguia ver o rosto de nenhum dos dois, porque o homem segurava um paletó sobre sua cabeça e a da mulher e eles correram para a porta. – Gene, nada de visitantes esta noite – Trey informou ao porteiro antes de entrar no elevador. Gene assentiu. Sabia o que significava o aviso. Se algum visitante inesperado aparecesse, ele deveria dizer


que o sr. Curtis passaria a noite fora. Nenhum dos dois disse nada enquanto subiam ao apartamento, como se as palavras pudessem arruinar a magia entre eles. Apesar de não terem dito nada desde o encontro no restaurante, ambos falavam a mesma língua: a língua da luxúria. Trey segurou a mão dela até o elevador parar. Ele levou Ariel pelo corredor até o apartamento, e ela o seguia em silêncio. Trey soltou a mão dela apenas para abrir a porta. Assim que a abriu, ele a tomou nos braços e carregou para dentro. Sem perder o ritmo, chutou a porta com um pé e continuou andando, levando-a para o quarto, onde a colocou sobre a cama. O quarto estava escuro, havia apenas uma luz muito fraca que vinha da rua e penetrava pelas frestas da janela. Ariel não conseguia ver o rosto dele, mas via as sombras de seus movimentos quando ele tirou a camisa de gola alta. Ouviu quando ele abriu o zíper da calça, e em seguida a fivela do cinto bater no chão. Os olhos estavam fixos nele, no corpo coberto apenas pela cueca boxer. Antecipando o que estava para acontecer, seu coração batia tão forte quanto a chuva na vidraça. Trey queria viver cada segundo sem pressa. Sabia


que esse seria o último encontro e queria vivê-lo plenamente. Ele se deitou ao lado dela e puxou Ariel para perto. Ela se encolheu em uma posição semifetal e o seu corpo colou ao dele. Pela primeira vez desde que a conhecera, Trey afagou seus cabelos negros e sentiu a suavidade dos fios. Ele empurrou os cabelos para um lado e beijou suavemente a nuca macia. O beijo provocou vários arrepios sucessivos. Esse era um ponto de extrema sensibilidade para ela, um ponto fraco que poucos conheciam – nem mesmo Preston tinha essa informação – e os lábios macios e quentes em sua nuca a deixaram molhada de desejo. Trey escorregou as mãos para baixo de sua saia, baixando devagar as meias finas até os tornozelos, e as removeu junto com seus sapatos. Ele se apoiou sobre um cotovelo e a ajudou a despir a saia. Assim que a viu nua da cintura para baixo, ele puxou a cintura elástica da calcinha e a tirou com um movimento fluido. Trey a tomou nos braços outra vez, balançando-a como se quisesse niná-la. A cada movimento, seu pênis crescia um centímetro ou mais, até estar totalmente ereto. Trey afastou as pernas e introduziu o membro duro em sua


vagina úmida. Ariel arqueou as costas e levantou o quadril, eliminando espaços vazios entre eles. Depois, de olhos fechados, ela começou a se mover acompanhando o ritmo que ele impunha. Era como se estivessem se movendo em sincronia com o som da chuva, e a sensação era extremamente erótica. Enquanto Trey e Ariel estavam lá em cima fazendo amor, Michele estava lá embaixo fazendo uma cena. Finalmente havia saído do carro, decidida a entrar. – Oi, Gene – ela cumprimentou o porteiro com um sorriso forçado. – Trey está em casa? – Lamento, srta. Richards. Ele saiu e não volta esta noite. – Gene conhecia Michele, já a vira com Trey várias vezes, mas devia lealdade ao morador. – Tudo bem. Vou esperar por ele – ela avisou, tirando a capa molhada e se aproximando de um dos sofás no saguão do prédio. – Lamento, srta. Richards, mas acho melhor voltar amanhã – ele sugeriu com veemência. Michele girou sobre os calcanhares. – Como disse? – E o encarou com um olhar


ameaçador. – Sinto muito... – Sim, eu sei que sente. Mas vai lamentar ainda mais se não me deixar em paz esperando! – ela gritou. Um casal de idosos entrou no prédio e olhou para Michele, que gritava e balançava os braços enquanto batia um pé no chão num protesto descontrolado. Gene havia provocado a comoção deliberadamente, porque assim teria uma justificativa para colocá-la para fora. Ao longo dos anos, vira muitas pretendentes a namoradas perdendo o controle porque Trey as ignorava ou rejeitava, e sabia bem como lidar com elas. – Srta. Richards, vou ter que pedir para se retirar – ele anunciou sem rodeios. – Para sua sorte eu tenho uma reunião amanhã cedo, ou ficaria sentada nesse saguão até amanhã, e você não poderia fazer nada para me impedir! – ela resmungou, tentando preservar um mínimo de dignidade. Michele vestiu a capa de chuva e saiu, correndo de volta para o carro. De lá ela telefonou para Trey, mas, depois do quinto toque, ouviu a voz mecânica da caixa de mensagem. Estava furiosa. Gene agia como se protegesse o território de um ataque iminente, e isso a fez


deduzir que ele mentia. Ele deve estar no apartamento, trepando com alguém, e deu ordens a Gene para me impedir de entrar, pensou. Bem, quem quer que estivesse com ele havia vencido essa batalha, mas a guerra estava só começando. Michele era uma mulher destemida, e estava determinada a fazer tudo que fosse necessário para não perder Trey, sem se importar com quem sairia ferido no final.


25

O coquetel em homenagem ao senador havia acontecido uma semana atrás, e a coisa estava andando depressa. Era só uma questão de tempo antes de a indicação tornar-se oficial, e Preston já sentia o gosto da vitória. Sabia que teria que renunciar à sua posição atual na bancada, o que faria com prazer, mas esperaria até a indicação oficial para então se desligar. Preston e Michele estavam na casa da cidade trabalhando nos planos para a mudança. Se fosse realmente nomeado, teria que se mudar para Washington nos próximos meses, mas manteria a residência em Nova York para poder voltar à cidade. – Bethany, a corretora de Washington, me mandou essa relação por fax – Michele avisou entregando a ele uma pilha de papéis. Ele leu as páginas rapidamente, separando as possibilidades das impossibilidades. Preston procurava outra casa como aquela onde morava. Adorava o layout


do espaço – ampla, mas aconchegante – e o considerava perfeito para receber convidados. Assim que estivesse instalado, promoveria uma série de coquetéis e jantares para estabelecer sua posição no círculo social. – Estou interessado nessas duas. – Ele apontou na lista as duas casas coloniais, descartando todas as outras sugestões. – Telefone para Bethany e marque as visitas. – Quando quer ir ver as casas? – perguntou a assistente, mas sem seu entusiasmo costumeiro. Preston estava acostumado com a personalidade efervescente de Michele e nunca antes vira esse lado dela. Ao olhar seu rosto com mais atenção, notou as marcas deixadas por lágrimas. Era evidente que estivera chorando, e ele queria saber por quê. – Michele, o que aconteceu? Ela manteve a cabeça baixa, tentando esconder a dor que sabia dominar seus olhos. – Nada – sussurrou. Preston levantou-se e contornou a mesa. – Michele, percebi que está aborrecida. – Ele tocou a mão dela num gesto paternal. – Por favor, me diga qual é o problema, talvez eu possa ajudar – sugeriu. Ela cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar


baixinho. Tentou falar, mas soluços a sufocavam, tornando as palavras inaudíveis. Preston tirou alguns lenços de papel do suporte prateado sobre a mesa e os ofereceu à assistente. – Ei, ei... – Ele bateu em suas costas até as lágrimas cessarem e os ruídos diminuírem. – Então? – perguntou novamente quando ela se acalmou. Michele limpou os olhos e assoou o nariz com o lenço úmido de lágrimas. Depois pigarreou e disse: – É Trey. – Trey? – Preston surpreendeu-se ao ouvir o nome do filho. A última vez que os vira juntos no coquetel eles pareciam bem. Porém, lembrando agora aquela noite, ele compreendeu que Trey parecia preocupado, como se alguma coisa muita séria o incomodasse. – Acho que ele tem outra pessoa – ela disse. Ah, é só isso? Preston queria dizer. Trey era jovem, bonito e solteiro. E se fosse parecido com o pai – que na juventude, antes de se casar, tinha sempre uma fila de mulheres atrás dele – era evidente que não se relacionava apenas com a namorada. Michele podia ser a principal, mas eles não eram casados, e Trey não tinha com ela nenhuma obrigação legal de fidelidade ou honra.


– Por que acha que ele tem alguém? – Preston perguntou, assumindo o papel de chefe preocupado e pai dedicado. – Porque estou ligando para ele desde ontem, mas as ligações só caem na caixa postal e... – Ela hesitou por um segundo antes de confessar. – Ontem à noite fui ao apartamento dele, mas não o encontrei. Queria esperar no saguão, mas o porteiro não me deixou ficar. Foi grosseiro e me fez ir embora. – Tenho certeza de que ele está ocupado com o trabalho, só isso. Além do mais, acha que foi uma boa ideia aparecer sem avisar antes? Michele irritou-se. – Sou a namorada dele, devia ser bem recebida a qualquer hora, com ou sem aviso prévio! – Não precisa ficar nervosa. Só estou dizendo que deve haver um motivo legítimo para Trey não atender as ligações. Você está fazendo tempestade em copo de água. – Sim, acho que tem razão – ela reconheceu hesitante, dispondo-se a dar a Trey o benefício da dúvida. Preston sentia que ela ainda estava inconformada


com o comportamento de Trey. – Posso conversar com ele, se quiser. Michele se animou imediatamente. – Você falaria? – perguntou, esperando que Preston censurasse Trey como uma criança travessa e o fizesse agir corretamente. – É claro, sem nenhum problema. – Ele mentiu tentando encerrar a conversa e voltar ao trabalho. Não tinha nenhuma intenção de interpelar o filho por causa do relacionamento com Michele. Trey era um homem adulto. O que ele fazia com sua vida pessoal não interessava a ninguém. O telefone tocou. Preston estava ansioso para retomar o trabalho, já havia perdido muito tempo com a crise da assistente. Michele pigarreou e atendeu ao telefone. – Boa tarde, escritório do juiz Hendricks, Michele falando. Como posso ajudar? – perguntou com seu tom mais profissional. – Oi, Michele, como vai? Ela reconheceu a voz imediatamente. – Ah, olá, senador Oglesby. Estou bem, e o senhor? – Bem, obrigado. Preston pode me atender?


– É claro, espere um instante, por favor. – Ela entregou o fone e saiu do escritório para dar ao chefe a devida privacidade. – Robert – Preston o cumprimentou com alegria. – Como vão as coisas? – Bem, é por isso que estou ligando. A investigação começou e parece que há algumas questões sobre seu filho – ele respondeu sem rodeios, indo direto ao ponto. – Trey? – Era a segunda vez que falava sobre ele esta tarde. – Os investigadores não conseguem determinar a exata natureza de seus negócios. Ele me disse durante aquele jantar que investia no ramo imobiliário, mas não localizamos a empresa com a qual ele está associado. Sabe o nome da companhia para a qual ele trabalha? Ultimamente Preston estivera tão envolvido com o próprio trabalho que não havia acompanhado as atividades comerciais de Trey. Não sabia se ele investia no mercado imobiliário por conta própria ou se estava associado a uma empresa. Mas tinha quase certeza de que o filho era autônomo. – Senador – ele respondeu, retomando o tom profissional –, tenho certeza de que não há nada com


que se preocupar. – Mas a risada soou nervosa. O senador detectou a insegurança de Preston. – Tem certeza mesmo? – ele baixou um pouco a voz. – Preston, não é hora para ter dúvidas. Sugiro que descubra o que, exatamente, seu filho está fazendo. – Vou conversar com ele hoje, senador – disse Preston, tentando acalmá-lo. – Ótimo. Faça-o fornecer todos os detalhes necessários sobre sua atuação profissional: há quanto tempo trabalha com a empresa, o endereço e o número de telefone, o cargo, o nome de seu supervisor imediato, tudo. Quanto antes pudermos abordar essa questão sobre o histórico profissional de Trey, melhor. Tenha certeza de que os investigadores não vão parar enquanto não descobrirem tudo sobre todos em seu círculo de conhecidos mais próximos. Todo o propósito dessa investigação preliminar é tentar controlar danos, se for necessário. Ao ouvir a expressão controlar danos, Preston sentiu o coração parar por uma fração de segundo. Nunca havia pensado que Trey pudesse estar envolvido em alguma coisa condenável, qualquer coisa que pudesse prejudicar


suas chances de ocupar uma cadeira na Suprema Corte. Ele encerrou a conversa com o senador rapidamente, vestiu o paletó e seguiu diretamente para o apartamento de Trey com a intenção de obter as respostas necessárias.


26

“A manhã seguinte” adquiria um novo significado para Trey e Ariel. Com o brilho do sol ultrapassando a barreira das persianas, eles acordaram para a amarga realidade do que fizeram. Uma coisa era transar anonimamente na boate, sem ninguém saber com quem estavam transando. Mas agora que as máscaras haviam caído, não havia como esconder a verdade, e a verdade era que haviam cometido a maior traição! Trey estava apoiado sobre um cotovelo, olhando para Ariel. Passara os últimos vinte minutos velando seu sono, e mesmo dormindo ela era linda. A pele era impecável e os lábios eram perfeitos, nem muito pequenos, nem muito grandes, eram do tamanho certo para serem beijados. Não conseguia tirar os olhos dela, e agora entendia por que Michele estava obcecada pela ideia de passar a noite olhando para ele. Havia algo de angelical em olhar para alguém que você desejava quando essa pessoa estava em paz. Era como se ela fosse


só sua e de mais ninguém. E Trey desejava mais que nunca que isso fosse verdade. Queria que estivessem sozinhos em uma ilha deserta, sem ninguém a quem responder se não eles mesmos – nada para fazer o dia todo além de comer, nadar em uma tranquila lagoa azul e fazer amor a noite inteira, até o raiar do dia. E fazer tudo de novo no dia seguinte. Então não teria que encarar o pai e contar que fizera amor com a noiva dele, não uma, não duas, mas três vezes. Porém, esse era um desejo que jamais poderia realizar, porque nunca seria capaz de contar a verdade ao pai. Além do mais, de que adiantaria? Havia sido a última vez, a última visita à terra da mentira. Com os raios de sol iluminando o rosto de Ariel, ela começou a se mexer. Piscou, abriu os olhos e olhou diretamente para o belo rosto de Trey. Não haviam conversado durante a noite, e agora ela não sabia o que dizer. A culpa a cobria como um cobertor molhado e ela se sentia muito desconfortável. – Bom dia – disse com voz macia, finalmente recuperando a fala. Trey se inclinou e beijou sua testa. – Bom dia, dorminhoca.


Ariel dormira como um bebê e nem imaginava que horas eram. Ela se levantou assustada, olhou em volta procurando um relógio e não encontrou nenhum. – Que horas são? – em pânico, pensou que havia dormido demais. Trey olhou para o Rolex, única coisa que estava usando. – Relaxe, são sete e meia, apenas. – Preciso ir, tenho uma reunião marcada para as onze horas – ela respondeu, jogando uma perna para fora da cama. Trey não queria que ela saísse tão cedo. Sabia que, assim que ela passasse pela porta, nunca mais voltaria, por isso tocou seu braço com delicadeza. – Não se apresse. Vai ter tempo de sobra para chegar à reunião. O contato a fez parar de repente. A razão ordenava que Ariel saísse dali antes de tornar a situação ainda pior, mas o corpo tinha demandas totalmente diferentes. Ela se deixou cair sobre o travesseiro e suspirou. Por mais que tentasse, não conseguia ter força de vontade quando a questão era Trey. Um toque daquelas mãos e derretia como manteiga sobre pão quente.


Trey mudou de posição e cobriu parcialmente seu corpo com o dele. O apetite por essa mulher era insaciável e precisava tê-la novamente antes de deixá-la sair de seu mundo, voltar ao mundo do pai dele. Usando uma das pernas, ele afastou as dela e começou a acariciar sua vagina com uma das mãos, usando a outra para afagar seus seios. As auréolas se tornaram um tom mais escuro e os mamilos enrijeceram. Vê-los reagir ao toque de suas mãos foi o bastante para despertar seu membro flácido. Ele afagava seu clitóris com o polegar, penetrando-a com o indicador e o dedo médio. Ariel gemia a cada contato, queria mais. Os dedos dele a estimulavam, mas não se comparavam ao membro grande e duro. Ela abriu as pernas convidando-o a entrar. Ao perceber que ele não entendia o sinal, ela segurou com as duas mãos o objeto de seu desejo, que estava apenas semiereto. Num esforço para ajudá-lo a alcançar todo seu potencial, Ariel agarrou o pênis e o massageou deslizando a mão para cima e para baixo, sentindo-o reagir e se expandir. Quando olhou para baixo, viu o líquido perolado formando uma gota na ponta. Excitada, espalhou com o dedo a substância


branca por toda a cabeça do pênis, deixando brilhante e recoberto por uma fina camada de verniz, pulsando e rígido. – Que gostoso – Trey cochichou no ouvido dela. Ariel tinha o toque de Midas, e ele respondeu imediatamente. Agora, totalmente ereto, estava pronto para a penetração. Ele se apoiou sobre os joelhos e a puxou para baixo. – Dobre os joelhos – pediu. Ariel seguiu as instruções e, nessa posição, se abriu ainda mais para recebê-lo. O membro de Trey agora estava duro como uma marreta e pronto para trabalhar. Ele empurrou as pernas dela um pouco mais para os lados, e então alimentou a vagina faminta. Os lábios pareciam beijar a extremidade de seu pênis quando ele começou a entrar. – Sim, eu quero tudo! – ela pediu. Trey parou. – Quanto você quer este pau grande? – Trey – ela murmurou seu nome pela primeira vez. – Quero tanto que, se não me der agora, vou ficar maluca – disse por entre os dentes apertados. Ele a penetrou mais um ou dois centímetros. – E isso não pode acontecer, não é? – perguntou,


olhando para ela. A expressão no rosto de Ariel misturava luxúria e frustração. Não conseguia acreditar que ele a estava provocando dessa maneira. Estava molhada, queria que ele terminasse o que havia começado. Quando Trey a penetrava, sentia-se completa como se fosse sempre a primeira vez em sua vida, e a sensação era mais que viciante. Trey leu sua expressão, e ela anunciava que Ariel estava pronta. Ele entregou a mercadoria. – Sim, é isso – ela gemeu ao sentir toda a extensão do membro dentro de seu corpo. Trey levantou seu traseiro com as duas mãos e uniu as nádegas, mantendo-as juntas enquanto aumentava o ritmo. Ariel o acompanhava, e eles galopavam como purossangues. – Eu... vou... gozar! – Ariel arfava. Trey a penetrou com mais força. – Quero que goze neste pau grande – disse, baixando a voz para um registro rouco e sedutor. O tom sexy era o que faltava, e ela gritou: – Estou gozando!


Os gritos eram música para os ouvidos dele, e Trey não conseguiu mais se conter. Não se incomodava com os vizinhos. Tudo que importava nesse momento era chegar ao clímax. Ele interrompeu o ato rapidamente, ejaculando sobre o ventre de Ariel. Depois caiu exausto ao lado dela. E ficou ali por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego. Assim que conseguiu controlar a respiração, ele saiu da cama e caminhou até o banheiro. Munido de uma toalha felpuda, voltou e limpou cuidadosamente toda a secreção espalhada sobre o ventre de Ariel. Ela sorria. O gesto era tão doce que não conseguiu conter o impulso de afagar os cabelos de Trey enquanto ele passava a toalha sobre sua barriga. – Tudo bem, vou precisar de um banho, mesmo. – Posso ir junto? – ele piscou de forma sugestiva. – Só se prometer ser bonzinho. – Ela piscou de volta. – Eu sempre sou. – Trey estendeu a mão e a ajudou a se levantar. Ariel o seguiu até o banheiro e esperou enquanto ele ajustava a temperatura da água. Vendo seu membro flácido entre as pernas, ela sentiu vontade de começar


tudo outra vez. Trey pôs a mão sob o jato de água do chuveiro. – Perfeita – anunciou. E entrou no box. Ariel o seguiu. Parada diante dele, deixou a água escorrer pelo rosto, descendo pelos seios e para a área entre as pernas. Seus olhos estavam fechados, por isso não o viu pegar o gel de banho. Trey espalhou o gel fresco por suas costas, e ela pulou assustada. – Desculpe, não queria assustar você. Trey massageou o gel em suas costas até fazer espuma. Depois massageou suas costas e os ombros, fazendo-a relaxar. Ariel inclinou as costas, aproximando-se mais do toque gratificante. – Hum, isso é tão bom... Trey passou mais gel nas mãos e tentou alcançar os seios de Ariel passando as mãos por baixo de seus braços. Logo ele os massageava e se deliciava com a sensação. A espuma do gel sobre a pele tornava a experiência tão sensual que seu membro começou a ficar ereto. Manipulando os seios fartos, ele puxou os mamilos para baixo para obrigá-la a se encurvar para a frente. Depois,


apoiando um pé na beirada da banheira ao lado do box, removeu as mãos de seus seios, a segurou pela cintura e penetrou fundo de uma só vez. Ariel se apoiava às paredes do box enquanto ele a penetrava embaixo do jato de água do chuveiro, e seu corpo formigava com a experiência eletrizante. Depois de enxaguar seu corpo e o dela, Trey saiu do box primeiro, deixando-a sozinha para lavar os cabelos. Envolto em uma toalha, fechou a porta para dar a ela total privacidade. No momento em que acabou de se enxugar e vestiu a cueca, alguém bateu na porta. Que coisa estranha, ele pensou. O porteiro sempre anunciava a chegada de visitantes antes de deixá-los subir. Só uma pessoa batia na porta de sua casa sem ser anunciada àquela hora da manhã, e era a empregada. Havia esquecido que era dia de limpeza. Normalmente, estava vestido e pronto para sair quando a deixava entrar, mas hoje se distraíra. Ele pegou a calça que havia usado na noite anterior e deixara no chão, vestindo-a rapidamente, e caminhou para a porta. Pretendia mandá-la ao Starbucks do outro lado da rua para tomar um café, talvez dois, e voltar em uma hora. Assim ele e Ariel teriam tempo para o adeus, a


despedida definitiva. – Rosa, você poderia... – começou a dizer enquanto abria a porta, mas não era Rosa. – Filho, precisamos conversar – Preston falou, entrando sem pedir licença. Que merda! Esse foi o primeiro pensamento de Trey. Ele sabe sobre mim e Ariel. Esse foi o segundo. Preston entrou na sala de estar e começou a andar de um lado para o outro. – Quero saber a verdade, filho. Trey olhou na direção do quarto. Havia deixado a porta ligeiramente encostada, mas, felizmente, fechara a porta do banheiro. Esperava que Ariel não saísse do banho tão cedo. – A verdade sobre o quê? – ele perguntou. Decidiu se fazer de bobo até o pai acusá-lo frontalmente de dormir com sua noiva. Preston parou de andar e encarou Trey. – A verdade sobre os investimentos que está fazendo no ramo imobiliário. – O quê? – Ele nem imaginava sobre o que o pai estava falando.


– Disse ao senador que está investindo em ações e imóveis, mas os investigadores não encontraram nenhuma prova disso. Para que companhia está trabalhando, onde fica o escritório, qual é o nome de seu superior direto? E também vou precisar do número de telefones e faxes – Preston disparou, certificando-se de não esquecer nenhum detalhe solicitado pelo senador. Trey inspirou profundamente. Perguntas sobre seu meio de vida eram algo com que podia lidar, mas não estava pronto para um confronto sobre Ariel, especialmente porque seu envolvimento com ela já havia terminado. – Não trabalho para nenhuma empresa de corretagem ou incorporadora. Sou um investidor autônomo – ele respondeu calmo. – Tem um escritório, uma lista de propriedades e ações adquiridas recentemente? Ver o pânico nos olhos do pai o deixou nervoso. Era evidente que o interrogatório havia sido encomendado diretamente pelo senador que, provavelmente, conduzia uma investigação preliminar. Trey estava tão preocupado com a administração da Black Door que nem havia percebido que o processo de investigação já estava


acontecendo. Se soubesse, teria cobrado alguns favores para cobrir suas mentiras. Felizmente, usara “Curtis”, o nome de solteira da mãe, quando havia comprado o prédio agora ocupado pela boate. Percebendo que a situação era séria, Trey começou a suar. A boate era legítima, mas não podia contar ao pai que era o proprietário da Black Door. Sendo funcionário da corte, ele decidiria que a afiliação com um clube de sexo era imprópria para o único filho. Trey nunca imaginara que sua ocupação poderia interferir na carreira do pai. – Ah, não, não tenho um escritório. Trabalho aqui mesmo, no meu apartamento. – E a lista de ações e propriedades? Sei que o senador vai me pedir detalhes. Ariel ouviu a voz de Preston no momento em que abriu a porta do banheiro e o pânico a dominou de imediato. Fomos pegos. Ela ficou parada na porta, nua, quieta como um rato de igreja, ouvindo com atenção. – Ah, ainda não comprei nenhuma ação e estou analisando algumas propriedades no Meatpacking District. Por que o senador precisa saber sobre mim, aliás? Não sou eu quem quer a indicação.


– Eu sei. Também achei estranho. Acho que ele quer ter certeza de que não vai haver surpresas aparecendo quando a investigação oficial começar – disse Preston. Ariel prendeu o fôlego e o soltou lentamente, mas seu coração ainda batia loucamente contra o peito, quase como um tambor. De início ela pensou que Preston os havia descoberto, mas devia saber que ele estava ali só por causa da maldita nomeação. Ela quase decidiu entrar na sala nua como estava, balançando os seios de um lado para o outro, e dizer a ele que estava tudo acabado. Provavelmente, ele nem se importaria. A única coisa com que se importava era sua porcaria de carreira. Percebendo que agia como uma paranóica, Ariel acalmou-se e continuou ouvindo a conversa. – Diga ao senador para não jogar dinheiro fora. Não há nenhuma sujeira a ser encontrada aqui. Estou limpo como a neve caindo. – Trey sorriu, tentando esconder o pânico. Preston suspirou. Havia ido em busca de respostas, mas ainda não tinha nada de concreto para dizer ao senador. – Bem, filho, espero que esteja certo. Apostei muita coisa nessa indicação. Nunca quis tanto uma coisa.


Quero ser juiz desde que vi fotos de homens pendurados em árvores como frutos proibidos, sem ninguém para reparar as injustiças que eles sofreram. Ocupar um assento na Suprema Corte é a coisa mais importante da minha vida, mais importante que tudo ou qualquer pessoa. Finalmente poderei ser a voz das vítimas silenciadas desse mundo – ele falou determinado. Tudo que Ariel conseguiu ouvir foi que a cadeira na Suprema Corte era mais importante que tudo e todos para Preston, e ela quase perdeu a cabeça. A veia em sua testa pulsava tão forte que parecia estar prestes a explodir. Sabia quais eram as prioridades de Preston, mas ouvi-lo dizer com todas as palavras a feria profundamente. Antes se sentira terrível por ter transado com Trey, mas agora não se arrependia de nada, de nenhum segundo que passara com ele. Trey caminhou para a porta. – Não se preocupe, pai. Tenho certeza de que tudo vai ficar bem. Odeio interromper essa conversa, mas tenho uma reunião importante e preciso terminar de me vestir – ele disse, acompanhando o pai até a porta para tirá-lo do apartamento. Tinha certeza de que Ariel já


havia saído do chuveiro, e não queria que ela ouvisse essa conversa. Não mais do que o necessário. – Ah, tudo bem – Preston respondeu com tom derrotado. – Vejo você mais tarde. Trey se deixou cair no sofá assim que o pai saiu. Não conseguia acreditar no que acabara de acontecer. – Essa foi por pouco – Ariel falou, saindo do banheiro coberta apenas por uma toalha. Ela se aproximou de Trey e parou em pé entre suas pernas. – Escute... talvez eu deva falar com ele sobre nós – disse. Ela mesma se espantou ao ouvir as palavras que saíram de sua boca. Contar a Preston era a pior coisa que poderiam fazer, e Ariel sabia que a reação era obra daquela menina órfã e sozinha com medo de ser abandonada mais uma vez. – O quê? – Ele a encarou chocado. De sua parte, não havia nenhum “nós”. – Acho que não é uma boa ideia. Ele já tem muito em que pensar. – Trey não conseguia raciocinar com clareza. Além de estar transando com a mulher do pai, também estava acabando com as chances de ele ser nomeado para a Suprema Corte. O que aconteceria se os investigadores descobrissem sobre a


Black Door?


27

A última vez que Mason havia percorrido os devassos corredores da Black Door ele ainda era um servidor, e seu único propósito ali era manter a clientela sorridente, o que podia significar tudo e qualquer coisa, desde uma conversa inteligente e uma taça de champanhe até lamber um clitóris ou satisfazer várias mulheres ao mesmo tempo. Felizmente, a única pessoa que Mason tinha que agradar agora naquele lugar era seu chefe. Como assistente da direção, não precisava desempenhar sob pressão, o que fazia o retorno ao clube o emprego dos sonhos, em vez de um sacrifício. Um dos benefícios secundários de trabalhar na Black Door era o acesso fácil a vaginas. Se quisesse desenvolver alguma atividade extracurricular, a escolha era dele – não delas – e isso fazia da perspectiva de transar com uma ou duas associadas algo muito mais interessante. Com a máscara cor de bronze cobrindo a metade superior do rosto, escondendo os olhos e o nariz, Mason


andava casualmente pelo clube. Não visitava a área interna da Black Door há um tempo e queria percorrer cada cômodo para ver onde podiam fazer melhorias. Não queria só ajudar a aumentar o quadro de associadas, mas planejava agregar valor ao clube expandindo o tema das suítes eróticas. Pensava em acrescentar uma sala de depilação com cera à moda brasileira, onde as sócias poderiam remover os pelos pubianos e, ao mesmo tempo, ter o clitóris estimulado. Ou uma suíte de manicure e pedicure onde as clientes teriam profissionais especializados chupando seus dedos. Porém, havia uma coisa que não mudaria de jeito nenhum, o piso térreo. Elegantes e convidativos, os salões com sua requintada e ultramoderna mobília Luís XVI eram a apresentação perfeita para quem entrava na boate. Os espaços não intimidavam, o que era importante, especialmente para novas associadas que podiam se sentir assustadas, se recebessem estimulação excessiva cedo demais. As salas do piso térreo atraíam as sócias com música suave, bebidas relaxantes e um ambiente acolhedor. Com homens pouco vestidos e musculosos e mulheres seminuas e excitadas, o ar era carregado de tensão sexual, mas não era intimidador como alguns espaços dos


andares de cima. Mason acenou com a cabeça para um servidor que usava uma máscara verde e estava parado ao lado da fonte de vodca, divertindo duas associadas com uma história picante. Ele não ouviu toda a piada, mas devia ser engraçada, porque as mulheres riam muito. Mason sabia quem estava atrás da máscara verde. Rodney era um comediante inato e usava todas as oportunidades que tinha para praticar o ofício. Ele fazia as associadas relaxarem com seu senso de humor antes de levá-las para cima e estimular suas vulvas. Mason atravessou o salão e passou pelas cortinas de veludo vermelho, subindo a escada que levava ao segundo andar. Hoje os ruídos de sexo se sobrepunham ao do jazz suave que tocava ao fundo, e ouvir os gemidos de prazer que vinham de todos os lados era muito excitante. O pênis de Mason reagiu imediatamente aos gemidos de prazer enquanto ele percorria o corredor escuro. Estava mais que excitado – há meses não via de perto uma boa vagina – e se sentia com disposição para comer qualquer coisa que se mexesse. Essa noite sua missão era dupla: procurar maneiras de melhorar o clube e encontrar alguém para transar. Imaginava que seria


bem mais fácil se deitar com alguém na boate. Ali todas as sócias eram examinadas para que não houvesse nenhum risco de doença sexual, o que o livrava da preocupação de contrair uma DST de uma desconhecida. Podia ter ligado para alguém, mas não queria a complicação de se envolver com uma conhecida. Queria transar sem sentimentos, e todas as mulheres que conhecia estavam interessadas em relacionamentos monogâmicos. Não queria que uma delas interpretasse mal sua chamada no meio da noite, que pensasse que ele queria um relacionamento. Uma relação séria agora era a última coisa que passava por sua cabeça. Mason gostava de variedade – jovens, maduras, magras, rechonchudas, baixas, altas, negras ou brancas – e planejava experimentar todas as vaginas onde pudesse enfiar o pênis antes de recitar seus votos no altar. Mason parou na Sala de Voyeurismo e espiou pela vitrina. Gostava de ver as pessoas fazendo sexo, quase tanto quanto gostava de praticá-lo ele mesmo. Do outro lado do espelho unilateral havia duas mulheres e um servidor. Uma delas estava de quatro no meio da cama king size, enquanto o servidor permanecia de joelhos


atrás dela, esfregando o membro enorme na parte interna de suas coxas. A segunda mulher estava deitada de costas, com as pernas abertas e diretamente embaixo da primeira mulher. À primeira vista a cena nem era tão excitante. Dava a impressão de que o homem se masturbava, mas Mason sabia que não era assim e ficou ali esperando até a ação realmente começar. Segundos depois o servidor empurrou a primeira mulher e a posicionou sobre os cotovelos, deixando-a com a boca diretamente sobre o triângulo de pelos da segunda associada. Agora, com o traseiro da mulher para o alto, ele afastou bem suas nádegas e foi enfiando lentamente o membro ereto em seu ânus. A mulher se moveu, tentando facilitar o acesso. Assim que conseguiu penetrá-la, ele arqueou as costas e começou a se mover dentro do orifício apertado. A mulher se debruçou ainda mais, abriu a boca e, com a língua para fora, começou a lamber o perímetro da vagina da outra. Ela passou a língua sobre o clitóris da parceira, o levantou e começou a mordê-lo com voracidade. Mason salivava vendo aquela mulher ser penetrada por trás enquanto, ao mesmo tempo, lambia uma vagina. Ele esfregou o próprio pênis quando os três gozaram juntos. Estava tão excitado que quase ejaculou


na calça junto com eles. Mason limpou a saliva do canto da boca e engoliu com dificuldade. A garganta estava seca por ofegar baixinho enquanto assistia à cena ardente. Preciso de uma bebida, ele pensou, e se dirigiu à Sala do Leopardo. Mason chamou o garçom ao se acomodar sobre um dos banquinhos revestidos com a estampa temática. Tinha uma ereção fabulosa e queria se sentar em uma das cabines privadas para poder aliviar o membro dolorido. Um garçom se aproximou e ele pediu um uísque puro. O bar tinha iluminação suave, e era ainda mais escuro no fundo, onde ficavam as cabines, garantindo discrição para aqueles momentos indiscretos. Assim que o garçom voltou com sua bebida, Mason disse a ele que não precisava de mais nada por enquanto. Queria esfregar o membro pulsante e não queria ser incomodado. Mason abriu o zíper da calça de couro e deixou a extremidade do pênis passar pela abertura. De olhos fechados, massageou a cabeça pulsante com o polegar. Precisava de uma boa trepada, e abriu os olhos para ver se havia alguma possibilidade na sala. Quando entrara, não havia ninguém no bar, mas agora via uma


mulher de costas para ele. Ele apertou os olhos para conseguir enxergar melhor, e de onde estava viu que a desconhecida tinha cabelos curtos e louros e usava um vestido preto que deixava as costas à mostra. Um olhar para o corte de cabelo preciso e ele soube exatamente quem era a recém-chegada. A mulher se virou no banco com uma taça delicada na mão. Só um coquetel era servido em uma taça de cristal artesanal como aquela, e essa bebida era a Black Door, que levava o nome do clube numa homenagem apropriada. O drinque era uma mistura de champanhe com vodca, e era servido bem gelado com uma uva chilena sem caroço. Mason a viu beber o coquetel efervescente, e quando ela estava perto de terminar, inclinou a taça fazendo a uva escorregar para dentro da boca. Ela pegou a fruta suculenta entre os dentes da frente e a tirou da boca. Com incrível habilidade, começou a remover a casca da uva. As unhas compridas e bem feitas cortavam a camada externa, removendo porção por porção até a polpa firme da fruta ser revelada. Como se sentisse que era observada, ela começou realmente a apresentar um espetáculo.


Mason desabotoou a calça, tirou o membro de dentro dela e se acariciou enquanto ela sugava devagar e de maneira provocante a fruta sem pele. O jeito como ela envolvia a uva com os lábios, como se fosse seu bem mais precioso, era provocante e o fazia desejar poder substituir aquela fruta por seu membro. Quando ela encerrou o libidinoso espetáculo com a uva, simplesmente a pôs na boca e saboreou o suco doce. Depois deixou a taça sobre o balcão e se levantou do banco. Mason pensou que ela estava indo embora, mas, para sua alegria, ele a viu caminhando provocante em sua direção. Era uma mulher de classe que sabia exatamente o que queria, e nesse momento ela o queria. A cada passo que ela dava seu membro pulsava, clamando por estar dentro dela. – Há quanto tempo – disse a mulher, olhando-o da cabeça aos pés. – Quer companhia? – E lambeu os lábios sedutora parando na frente dele. Os olhos de Mason foram imediatamente atraídos para o pescoço daquela mulher. Ela usava o colar de diamante que era sua marca registrada, aquele cujas pedras facetadas brilhavam intensamente sob as luzes do


teto. Os diamantes o ofuscavam e ele piscou incomodado com o brilho. – Faz muito tempo. Onde se escondeu? – Não a via desde a noite ardente no W Hotel. – Em Washington – a mulher respondeu simplesmente. – Bem-vinda de volta à cidade. Sentimos sua falta – ele falou, acariciando o sr. Grande. Ela lambeu os lábios novamente ao ver o membro gigantesco. Não fazia sexo satisfatório há meses. Amava o marido profundamente, mas seu equipamento não era grande o bastante para saciar suas necessidades. – E eu senti falta de vocês dois – ela respondeu, sentando-se no banco a seu lado. Mason afagou suas costas nuas antes de introduzir a mão pelo lado esquerdo do vestido de cava generosa e tocar um seio. Ela se aproximou e repousou a mão sobre seu pênis latejante. – Hum... – Gemeu, acariciando a extremidade. – Uau, como senti falta do sr. Grande. – Ele também sentiu sua falta – Mason respondeu, levantando lentamente o vestido até a barra estar acima


da cintura, expondo seu traseiro nu. Tocando a vagina úmida com a ponta dos dedos, sentiu os lábios macios e inchados pulsando com o contato. Depois de alguns minutos afagando a área externa, ele introduziu dois dedos em seu canal quente e molhado. Agora que os dois estavam prontos e preparados, ele sussurrou em seu ouvido: – Sente no meu pau. Ela não disse nada, nem uma palavra, apenas se levantou do banco e montou sobre seu corpo. Mason a segurou firme pela cintura e a empurrou para baixo sobre o membro. No momento em que a penetrou, ela jogou a cabeça para trás e o segurou pelos ombros para se equilibrar, depois começou a cavalgá-lo lentamente, subindo e descendo. Seu membro era tão grande e grosso, tão diferente do pênis fino e pequeno do marido! Amava como ele enchia todos os espaços de sua vagina, coisa que o marido nunca conseguia fazer. Ela jogou a cabeça para trás e sussurrou: – Mais força, sr. Grande. Quero mais força. Mason levantou o quadril e empurrou o membro para dentro dela com mais força, até levá-la bem perto de um orgasmo.


Ela o agarrou e seguiu cavalgando, levando-os ao êxtase. Quando os dois chegaram ao clímax, a mulher saiu de cima dele com a mesma facilidade com que havia se sentado sobre seu pênis. – Vejo que você ainda tem seu toque mágico. – Ela sorriu enquanto abaixava o vestido. – Agora posso ir para casa feliz. – Quando vai embora? – Vou pegar o trem de volta para a capital amanhã – ela respondeu, se levantando para ir embora. – O que acha de nos encontrarmos à tarde para fazer amor? – ele sorriu sugestivo. – Ah, eu adoraria, mas parto no trem das oito da manhã. – Ela se inclinou e beijou-o nos lábios. – Mas, acredite, verei vocês dois em breve – disse, olhando para a região entre suas pernas. E depois foi embora. Totalmente satisfeito, Mason se inclinou para trás no banco e a viu desaparecer na escuridão.


28

Alguns dias se passaram sem Ariel ver ou falar com Trey. Não gostava de como haviam deixado as coisas na manhã seguinte. Quanto mais pensava nisso, mais acreditava que era hora de ser honesta com Preston antes de a verdade vir à tona de um jeito pior, especialmente por ele ter tanto a perder. Mas Trey se opusera violentamente à ideia, dizendo que o pai já tinha muitas preocupações e que esse não era o momento certo para revelar o que acontecera entre eles. O entusiasmo dele também parecia ter diminuído, esfriado da noite para o dia, e Ariel não sabia mais como agir com ele. O choque inicial de ter dormido com o filho de Preston há muito havia sido superado e, independentemente do que acontecesse, ela planejava romper o noivado. Ariel olhou para o anel de diamante brilhando em sua mão, tirou-o lentamente e o guardou na gaveta da mesa. Esse relacionamento era uma farsa, e não sentia necessidade de continuar preservando as aparências, especialmente


depois de Preston ter dito a Trey que garantir a nomeação era a coisa mais importante em sua vida. As palavras a feriram fundo, e pensar naquela manhã era o bastante para fazer seu estômago protestar. E apesar de não saber o que aconteceria com Trey, Ariel sabia que precisava de um homem que a apreciasse completamente e valorizasse tudo o que tinha a oferecer. Ariel pegou o telefone para ligar para o escritório de Preston, mas a voz de JoAnne a interrompeu pelo interfone. – Srta. Vaughn, o sr. Trey Curtis na linha dois. – Trey Curtis? – ela perguntou. Presumira que o sobrenome de Trey fosse Hendricks, como o do pai, mas agora descobria que estava enganada. – Pode transferir, JoAnne. – Ariel respirou fundo para acalmar-se antes de apertar no aparelho o botão correspondente à linha. – Ah, olá, sr. Curtis – disse, enfatizando o sobrenome. Ele interpretou corretamente o tom e disse: – Uso o nome de solteira de minha mãe para fins comerciais. – E parou por um segundo. – Tenho certeza de que pode entender por quê. Ariel sabia exatamente sobre o que ele estava falando e não insistiu no assunto.


– Estava pensando em você. – Ela sorriu para o fone. – É mesmo? – Trey perguntou sem entusiasmo. – Sim. Preciso ver você. – Assim que as palavras deixaram sua boca, Ariel se arrependeu de tê-las dito. Soava como uma colegial carente implorando por atenção. – Bem, o que quero dizer é que... – Eu sei o que quer dizer. Também preciso ver você. Que tal hoje à noite? Havia planejado ligar para Meri e convidá-la para uma noitada de mulheres, mas preferia fazer sua noitada com Trey. – Hoje à noite é muito bom. – Dessa vez ela o queria em sua cama. Haviam feito amor na boate, no apartamento dele, agora era sua vez de recebê-lo. – Por que não vem ao meu apartamento por volta das sete e meia? – Tudo bem – Trey concordou. – Qual é o endereço? Ariel recitou as informações, depois acrescentou: – Mal posso esperar para ver você. Trey esperou alguns segundos para responder: – Tudo bem, nos vemos mais tare. O resto da tarde passou devagar para Ariel. A cada cinco minutos ela olhava para o relógio, o que só fazia os


minutos passarem ainda mais devagar. Pensou em sair mais cedo, mas havia negligenciado o trabalho ultimamente e não queria despertar suspeitas. Os sócios da firma eram profissionais dedicados, quase obcecados, a maioria chegava bem cedo ao escritório e ficava até tarde, e esperava-se que os colegas fizessem o mesmo. Não precisava de Bob resmungando atrás dela sobre o horário a ser cumprido. De qualquer maneira, tinha uma deposição marcada para as três e meia, e não poderia sair mais cedo que isso, mesmo que quisesse. Ariel saiu do escritório às seis e quarenta e cinco e pegou um táxi. O depoimento havia demorado mais do que previra, e agora estava atrasada. Tinha planejado preparar uma refeição leve de bistecas de porco grelhadas, espinafre refogado e purê de batatas. Queria exibir seus dotes culinários. Mostraria a Trey que era tão boa na cozinha quanto no quarto. Ele era um homem, afinal, e todo homem amava uma mulher capaz de satisfazer suas papilas gustativas e suas necessidades sexuais. Mas agora só teria tempo para pedir comida no Table for Two, por isso usou o celular para encomendar uma seleção de afrodisíacos – ostras, caviar, mexilhões e


morangos cobertos com chocolate – tudo para melhorar a experiência sexual. O trânsito no centro estava parado, Ariel chegou em casa quase sete e meia. Ela tirou a jaqueta e a blusa a caminho do quarto. Queria tomar um banho e trocar de roupa antes de Trey chegar, mas agora teria que se refrescar rapidamente. No instante em que ela abriu a torneira, o telefone tocou: – Droga – Ariel resmungou, correndo do banheiro de volta ao quarto para atender ao chamado. – Alô? – Srta. Vaughn, o sr. Curtis está aqui embaixo – disse o porteiro. – Obrigada, Pete. Pode mandá-lo subir. Ariel desligou e correu para o banheiro. Lá umedeceu uma toalha de mão e a passou rapidamente nas axilas. Depois do rápido banho de gato, correu ao closet, chutou os sapatos e tirou as meias de nylon e a saia. Por um segundo ela ficou ali parada e nua tentando decidir o que vestir. Apressada, tirou uma camisola preta do cabide e a vestiu. Depois se aproximou da penteadeira, tirou os grampos do coque e soltou os cabelos balançando a cabeça. Quando espirrava um


pouco de Enjoy no pescoço, a campainha tocou. – Perfeito – ela murmurou olhando para o espelho. A camisola transparente não deixava nenhum trabalho para a imaginação. Os seios fartos, a cintura estreita e o quadril arredondado pareciam deliciosos sob a seda fina. Ariel ficou excitada simplesmente por ver seu reflexo. Ela esfregou as mãos sobre os seios e sentiu os mamilos enrijecerem. Mal podia esperar para sentir a boca de Trey sugando-os. A campainha soou novamente, e ela correu para abrir a porta. Ao recebê-lo, ela puxou a porta e ficou parada na soleira com as pernas ligeiramente afastadas, oferecendo uma visão ampla. Trey havia ido ao apartamento com a intenção de conversar, mas ao se deparar com Ariel parada diante dele, nua sob uma camisola minúscula e transparente, ele perdeu a capacidade de raciocinar. A cabeça sobre seus ombros olhou para baixo, e a cabeça entre suas pernas olhou para cima. – Você está deliciosa. – Ele lambeu os lábios, entrou no apartamento e fechou a porta. Ariel balançou os seios fazendo-os dançar, depois se virou e balançou o traseiro.


– Por onde quer começar o banquete? Ela se aproximou, o enlaçou pelo pescoço e o beijou, um profundo beijo francês. Trey estava hipnotizado pelo movimento da língua dançando dentro de sua boca, massageando a dele, roçando nos dentes, no céu da boca. Depois de alguns poucos minutos de entrega, ele interrompeu o momento. – Por que parou? – Ariel parecia perplexa. Ele levantou as mãos, tirou os braços de cima de seus ombros e tossiu com nervosismo. – Bem, eu realmente não vim aqui pelo sexo, mas quando você abriu a porta vestida desse jeito, perdi a lucidez – ele respondeu, virando-se de costas para ela e entrando na sala de estar. Ariel ficou no hall de entrada, absolutamente chocada, não podia acreditar que ele não a agarrava com o ardor da outra noite. A paranoia começou a subir da sola dos pés pelas pernas, chegando à consciência e tirando-a do transe de luxúria, empurrando-a de volta para a realidade. De repente se sentia encabulada e cruzou os braços, cobrindo os seios antes de ir se juntar a ele na sala de estar.


– Então, o que veio fazer aqui? – Ainda não falou com meu pai? – ele perguntou do nada. Ela o encarou surpresa. – Não, mas pretendo. – Bem, era sobre isso que eu queria falar. – Ele abaixou a cabeça antes de encará-la novamente. – Acho que não deve mencionar nada sobre nós. – E desviou o olhar outra vez. – Porque, na verdade, não existe nenhum “nós”, Ariel. – Ele a fitou diretamente. – Fomos envolvidos pela atmosfera de excitação da Black Door, mas agora que as máscaras caíram não podemos continuar nos encontrando. – Engraçado, não foi o que disse na outra noite, quando transou comigo até cansar – ela respondeu com tom alterado. – Ei, não acha está sendo um pouco dramática? Sabe tão bem quanto eu que essa é uma situação impossível. Afinal, você é... Ela o interrompeu. – Por que é impossível? – Porque você é noiva do meu pai, ele está começando uma nova fase da carreira e essa nova fase


envolve uma investigação minuciosa que já está em andamento. Se alguém descobrir alguma coisa sobre mim, você, a Black Door, enfim, a indicação vai acabar antes mesmo de acontecer. Ariel levantou as mãos num gesto de frustração. Não sabia o que dizer. Não queria arruinar a carreira de Preston, mas ainda não se sentia preparada para excluir Trey de sua vida. – Bem, talvez possamos nos encontrar na Black Door, apenas. Lá todos usam máscaras, ninguém jamais saberá que somos nós – ela argumentou, tentando salvar a situação impossível. Trey tinha que admitir que o primeiro encontro com ela havia sido misterioso e excitante, mas agora que a realidade se impusera, a excitação havia desaparecido. Diante do egoísmo de Ariel, Trey soube que havia cometido um enorme engano ao levá-la para seu apartamento e fazer amor com ela. Era evidente que Ariel queria mais do que ele podia oferecer. Agora teria que calçar as luvas de pelica e lidar com tudo isso com extremo cuidado, ou ela acabaria correndo para o pai dele cheia de meias-verdades.


– Estou ouvindo o que você diz. – Ele se aproximou, agarrou-a pelos pulsos e a puxou contra o peito. – Mas, por favor, faça esse favor a todos nós e espere o fim da investigação para voltar à Black Door. Os joelhos de Ariel se dobraram e ela se sentiu fraca em seus braços. Era como se ele a houvesse dominado com um feitiço, deixando-a indefesa diante de seu charme. Ariel enlaçou seu pescoço novamente e colou o corpo ao dele, tentando excitá-lo. – Qualquer coisa por você, Trey. – E começou a esfregar a pélvis na dele. Trey se afastou. – Tenho que voltar à boate – disse, já se dirigindo à porta. Ariel deu um passo para segui-lo, convencê-lo a ficar, mas foi interrompida pelo toque do interfone. Trey não sabia, mas Michele o havia seguido durante o dia todo e ficou chocada ao vê-lo entrar no prédio onde morava Ariel. Reconhecia o lugar de quando ela e Preston foram buscá-la para a viagem a Washington. Ela ficou parada na rua, atrás de um poste de luz,


perguntando a si mesma: Que diabos está acontecendo aqui? Do outro lado da porta de vidro, Michele viu Trey parar para se identificar na recepção, depois se dirigir ao elevador. – Tenho que subir. – Sabia quanto os porteiros desses condomínios podiam ser protetores, e não queria correr o risco de ser barrada como na outra noite. Michele andava de um lado para o outro, tentando pensar em um plano para passar pelo porteiro. E enquanto observava o desfile de mensageiros e entregadores passando pelas portas giratórias, ela teve uma ideia. – É isso! – Ei! – gritou para um jovem vestido com o uniforme do Table for Two. – Pode vir aqui por um segundo? – Sim? – respondeu o entregador depois de atravessar a rua. Michele tirou a carteira da bolsa, pegou duas notas de cem dólares e as balançou na frente do rosto do rapaz. – São suas se me emprestar seu avental e o boné e me deixar fazer essa entrega no prédio.


Os olhos dele estavam arregalados. – Sim, tudo bem, mas vou precisar do uniforme de volta – ele falou, pegando o dinheiro e guardando as notas no bolso de trás do jeans rasgado. – Pode contar com isso. Não vou demorar. – Michele trocou o blazer de grife pelo avental largo, escondeu os cabelos embaixo do boné e pegou a caixa térmica das mãos dele. Só então olhou para o nome na etiqueta. – Uau! Hoje deve ser meu dia de sorte! – ela queria gritar. Impresso em letras claras na etiqueta estavam o nome de Ariel e o número do apartamento dela. – Entrega no apartamento 1623 – ela disse ao porteiro ao entrar no hall. Ele nunca a vira antes e a estudou com estranheza. Pete conhecia a maioria dos garotos que fazia entregas no prédio. – Nunca a vi aqui antes. Michele começou a suar. – Porque hoje é meu primeiro dia no emprego – ela explicou. –Ah... – ele respondeu. Depois pegou o interfone e chamou o apartamento. – Srta. Vaughn, seu jantar está subindo.


– Tudo bem, Pete. Quando Ariel desligou o interfone, Trey já abria a porta. – Odeio sair assim correndo, mas preciso acompanhar o trabalho do meu novo assistente. Ariel ignorou o que ele dizia, aproximou-se e plantou um beijo molhado em seus lábios. Não o deixaria sair sem se despedir adequadamente, e o enlaçou pelo pescoço puxando-o para mais perto. Ao sentir o começo de uma ereção, ela abaixou uma das mãos para massagear sua masculinidade. – Tem certeza de que precisa ir? – perguntou entre um beijo e outro. Trey estava ficando excitado e já começava a pensar que, talvez, uma última rapidinha não faria mal. Ele enfiou as mãos por baixo da camisola e começou a brincar com seus mamilos. Ariel tinha seios incríveis, e ele não conseguia resistir à vontade de tocá-los. Levantando um deles, inclinou-se e começou a sugá-lo como se fosse sua fonte de vida. Ariel fechou os olhos e gemeu. – Oh! Trey, isso é tão bom – murmurou.


– Sim, vadia, aposto que é bom! Os olhos de Ariel se abriram e Trey parou de lamber o mamilo. Em pé no corredor, assistindo à cena, estava ninguém menos que Michele. De início eles não reconheceram o rosto sob a aba do boné, mas Trey olhou com mais atenção e disse: – Michele? É você? – Sim, sou eu, seu canalha! – ela gritou. – Sabia que estava trepando com alguém, mas nunca imaginei que fosse a noiva de seu pai! Como teve coragem, Trey? – ela perguntou com os olhos cheios de lágrimas. Trey se afastou de Ariel. – Espere um minuto, Michele. Não é o que está pensando! Ariel não falava, de certa forma, estava feliz por terem sido descobertos. Agora não teria que contar a Preston, porque sabia que a assistente prestativa e ansiosa iria correndo a casa dele para revelar cada detalhe do que acabara de ver. Michele virou-se e começou a se afastar pelo corredor. – Espere! – Trey gritou. – Deixe-a ir – Ariel falou, segurando-o pelo braço.


– Não. – Ele se soltou. – Não posso deixá-la ir, não desse jeito. – E correu atrás de Michele. Ariel ficou parada na porta vendo os dois conversarem. Trey abraçou Michele para consolá-la, enquanto ela chorava com a cabeça apoiada em seu peito. Ariel não conseguia ouvir o que eles diziam, mas imaginava que ele tentava convencê-la a ficar de boca fechada. – Bem, se você não falar, eu falo – Ariel resmungou e bateu a porta. Estava farta de ser sempre a segunda opção. Primeiro Preston a deixara de lado e agora Trey fazia a mesma coisa. Não conseguia acreditar que pai e filho a deixavam em banho-maria. Bem, não permitiria que acontecesse de novo. Precisava se recuperar, recuperar seu poder, e começaria dizendo a Preston que havia acabado. Depois lidaria com Trey.


29

Trey não vivia uma situação como essa desde a faculdade. Não gostara da experiência antes e havia gostado ainda menos agora que era um homem adulto. Não devia ter desrespeitado sua regra fundamental de nunca transar com uma cliente, mas isso era passado, agora precisava lidar com o presente. Felizmente Trey estava acostumado a apagar incêndios todos os dias e conseguira aplacar o temperamento inflamado de Michele. Ele a acalmara e a convencera a acompanhá-lo de volta ao apartamento. Sabia que teria que ser rápido e perspicaz para convencê-la a não contar a seu pai o que descobrira. E estava disposto a fazer e dizer tudo que fosse necessário para demovê-la desse propósito. Sempre havia lidado muito bem com situações delicadas, e se orgulhava disso. Não era um anjo, de jeito nenhum, mas era cuidadoso; ou havia sido, até agora. E de repente se via com uma tremenda confusão nas mãos, mas não era nada que não pudesse resolver.


– Sente-se, querida. – Ele levou Michele ao sofá. – Quer beber alguma coisa? Chá verde, conhaque, porto? – ele ofereceu. Michele desviou os olhos dos dele e balançou a cabeça recusando as sugestões. Na pressa de sair correndo do prédio de Ariel, havia se esquecido de devolver o uniforme do entregador do restaurante e agora estava sentada no canto do sofá vestindo o avental enorme, descabelada e devastada. Ele se sentou ao lado dela. – Ei, tire isso da cabeça – disse, removendo o boné. Depois ajeitou seus cabelos com uma das mãos. – Assim está melhor. Michele afastou a cabeça. – Trey, não. Isso vai ser mais difícil do que eu pensava. O plano era envolvê-la com palavras doces, levá-la para a cama, transar com ela até apagar sua memória e eliminar a possibilidade de Michele ir correndo contar ao pai dele tudo que vira. Se alguém tinha que contar, que fosse ele. Trey percebeu que teria que se esforçar um pouco mais, porque sedução não seria o bastante. – Michele, por favor me deixe explicar – ele pediu.


Ela não disse nada, apenas o estudou pelo canto do olho e, adotando uma postura defensiva, cruzou os braços. Havia escutado muitas histórias tristes ao longo dos anos e queria ouvir Trey tentar sair dessa com uma explicação sensacional. – Lembra-se da noite da festa de noivado? Michele assentiu e ficou esperando que ele continuasse. – Então, foi naquela noite que Ariel se aproximou de mim. – Ele parou esperando por uma resposta, mas Michele não disse nada. – Enfim, eu me aproximei dela para perguntar por que estava chorando, e ela me contou que a situação com meu pai não ia bem. – Ele a olhou tentando identificar alguma reação, mas seu rosto permanecia impassível, e ele continuou com a mentira. – Inocentemente, passei um braço sobre os ombros dela para confortá-la, e ela aproveitou para me beijar nos lábios. Disse que era só uma demonstração de gratidão e, francamente, não pensei que fosse mais do que isso. Na verdade, nem pensei muito nisso. – Devia ter contado tudo ao seu pai – ela finalmente se manifestou. – Ele tem o direito de saber que é noivo


de uma vadia duas caras. Trey abaixou a cabeça para esconder o sorriso que ameaçava se espalhar pelo rosto. Agora eu consigo. – Tem razão. Devia ter falado com ele ali mesmo, naquele momento. – E por que não falou? – ela gritou, dando um tapa em suas costas e voltando completamente ao modo Michele. Trey levantou a cabeça. Não esperava que ela levantasse a voz, muito menos que o agredisse. – Eu, ah... – Não sabia o que dizer. – E mais importante, o que estava fazendo no apartamento dela, chupando suas tetas? – Ela me telefonou e disse que queria conversar sobre meu pai, e quando cheguei lá ela estava vestida para me seduzir com aquela camisola transparente. – Trey forçou uma lágrima a rolar do olho esquerdo e abaixou a cabeça. – Eu... eu... fui fraco. – Ele soluçou, fazendo mais barulho do que derramava lágrimas. Michele nunca havia visto um homem adulto chorar, e a vulnerabilidade a tocou. Ela massageou suas


costas no mesmo lugar onde o esbofeteara momentos antes. – Não chore, amor. Tenho certeza de que ela está atrás de você desde o início. Quero dizer, quem não estaria? Você é um ótimo partido. Com a cabeça enterrada nos joelhos, Trey sorriu vitorioso. Fim da partida! Agora Michele estava exatamente onde a queria – sob seu controle. Ele fungou para aumentar o efeito dramático, levantou os ombros lentamente e limpou a lágrima solitária do olho. – Tenho trabalhado demais, estou sentindo sua falta, e meus hormônios tomaram o controle sobre o raciocínio. Perdi a cabeça. – Mais um soluço contido. – Acha que pode me perdoar? – Sim, com duas condições – ela respondeu, dando a impressão de que estava dando as cartas. – Qualquer coisa, é só falar – ele disse, mesmo sem ter nenhuma intenção de aceitar as imposições. Ainda pretendia acabar com o relacionamento, mas agora teria que adiar o inevitável até o momento certo, e esse momento não chegaria antes de a nomeação acontecer. – A primeira condição é de que nunca mais vai ver aquela vadia, a segunda é de contarmos a seu pai o que


ela fez com você. Não, de novo não, Trey pensou. Havia imaginado que Michele seria persistente e que conseguiria envolvêla com sexo e atenção, mas havia se enganado. Agora teria que dar o grande passo, atirar com uma arma de dois canos. – Nós vamos contar, querida, mas antes preciso entender o que realmente aconteceu. Acho que antes precisamos relaxar um pouco. Tudo isso foi traumático para nós dois, e conheço um pequeno resort nas Ilhas Cayman onde podemos resolver tudo em paz e com tranquilidade. Ela se empertigou como um pavão. – Oh, Trey, eu adoraria! – Michele nunca havia vivido esse tipo de experiência antes; era sempre a irmã que fazia viagens exóticas. Agora era sua vez de ir atrás do sol, e se sentia eufórica, apesar das circunstâncias que provocavam a viagem. – Tudo bem, vou fazer as reservas hoje à noite, e partiremos amanhã mesmo para um fim de semana prolongado. – O plano havia funcionado de maneira brilhante, embora não houvesse planejado gastar uma


pequena fortuna em reservas de última hora. Mas, considerando o que estava em jogo, o dinheiro seria bem gasto. – Tão depressa? Tenho um milhão de coisas para fazer antes de partirmos, preciso... Ele a beijou nos lábios para silenciá-la. – Meu bem, a única coisa de que precisa é seu passaporte. Tudo mais pode ser comprado quando aterrissarmos. – Mas... – Nada de mais. – Ele a beijou de novo. – Vamos passar pelo seu apartamento amanhã de manhã a caminho do aeroporto para pegar seu passaporte. – Trey, preciso ir para casa e trocar de roupa, pelo menos. Ele segurou seu seio e começou a massageá-lo. – Pode mudar de roupa amanhã cedo. Por favor, passe a noite comigo. Preciso de você. – Trey não queria deixá-la se afastar por medo de que corresse à casa de seu pai e contasse o que vira com todos os detalhes sórdidos. Michele não conseguia pensar, não sabia o que fazer. Não queria desaparecer sem prevenir Preston, mas as coisas corriam muito bem para a nomeação e ele poderia


resolver os próprios assuntos até sua volta. Enquanto ela considerava os pontos positivos e negativos de viajar para um fim de semana dos sonhos com o homem de seus sonhos, Trey mordia seus mamilos e a empurrava cada vez mais para um sim. Sabia que ele a estava manipulando, mas não se importava. Não o rejeitaria, porque então correria o risco de mandá-lo de volta para aquela vadia, por isso fez o que para ela era natural: começou a desabotoar a blusa para facilitar o acesso a seus seios. Trey abriu o fecho de seu sutiã e sugou um mamilo com avidez, esperando ser capaz de fazê-la esquecer de tudo sobre esta noite e focar apenas na viagem com ele. – Eu amo muito você, Trey – ela gemeu. – Também amo você – ele mentiu, indo às últimas consequências. Michele se livrou do avental do uniforme de entregador, depois tirou a blusa e o sutiã. – Espere um minuto. – Ela se levantou, abriu a saia e tirou a meia-calça. Totalmente nua, deitou-se sobre o sofá e apoiou uma das pernas no encosto, abrindo-se para ele. Trey sabia o que ela queria. Sem dizer nada,


ajoelhou-se entre as pernas dela, afastou seus grandes lábios e beijou o clitóris inchado. Depois introduziu a língua na fenda úmida por um instante, antes de lamber toda a extensão da vagina e, ao mesmo tempo, introduzir um dedo em seu ânus. Ele a lambia, beijava, acariciava e mordia com tanto ardor que Michele gritou. – Oh, sim, estou gozando! Trey não parou até sentir seu corpo se contorcendo e estremecendo sacudido por múltiplos orgasmos. Sua língua era mágica e funcionava como um encantamento, agora que a tinha novamente sob seu controle. Passaria alguns dias transando com ela ao sol, e quando voltassem aos Estados Unidos, ele contaria ao pai tudo que havia acontecido entre ele e Ariel... ou suas versões dos fatos, é claro.


30

Passava das oito e meia da manhã e Michele não havia aparecido. Normalmente ela chegava na casa de Preston antes das oito horas com dois cafés fumegantes do Starbucks – um latte desnatado para ela e um espresso duplo com açúcar para Preston. – Onde ela está? – Seu corpo clamava pela dose diária de cafeína. Além do mais, queria começar o dia de trabalho. Precisava de Michele para telefonar para a secretária do senador e verificar se ele poderia agendar uma reunião para a próxima semana. Preston não falava com Robert havia alguns dias e estava aflito para saber como progredia a investigação. Preferia uma conversa direta com o senador a outro confronto por telefone. Preston sentou-se atrás da mesa de trabalho e abriu o e New York Times . Seu ritual matinal era ler o Times enquanto bebia uma xícara de café. Bem, esta manhã teria que se desviar um pouco do hábito enquanto esperava Michele. Havia terminado de ler a primeira


metade do jornal e começava o caderno de finanças, quando o telefone tocou. Ele atendeu ao chamado, ligeiramente aborrecido por não ter a assistente ali para isso. – Alô? – Bom dia, juiz – Michele falou com tom sério, tratando-o com mais formalidade do que de costume. – Onde você está? Devia ter chegado aqui há uma hora. Precisa ligar para o gabinete do senador e... – Preston começou a dar ordens. – Sinto muito, mas não vou trabalhar hoje – ela avisou hesitante. – Oh... – Ele se acalmou. – Está doente? – perguntou preocupado. – Não, não estou. Trey e eu vamos passar um fim de semana prolongado nas Ilhas Cayman – explicou, agora mais animada. – O quê? Vocês vão para onde? Ilhas Cayman? – As perguntas se sucediam sem intervalo. – Sim! Não é incrível? – ela gritou encantada. Preston sabia que Michele e Trey enfrentavam dificuldades no relacionamento e desconfiava de que o filho traía a namorada. Ela provavelmente o pegara em


flagrante e ele a convidara para um fim de semana romântico como uma oferta de paz. Preston conhecia bem esse tipo de truque, porque também havia investido uma pequena fortuna em viagens como essa para apaziguar namoradas furiosas. Sabia que se o filho havia organizado uma viagem de última hora, a situação devia ser grave. Ele decidiu não cobrar de Michele o cumprimento do horário. – Você parece estar animada. – Sim, estou. Sei que isso é totalmente inesperado, e lamento deixá-lo sem assistência hoje, mas todos os seus assuntos estão em ordem. Voltarei ao escritório na terçafeira bem cedo – ela prometeu com sua costumeira eficiência. – Não se preocupe, Michele. Hoje é sexta-feira, e, como você vai estar de volta na terça, tenho certeza de que posso me ajeitar sozinho por dois dias. Aproveite a viagem e divirta-se. Deixe-me falar com Trey – ele pediu, disposto a esclarecer algumas coisas com o filho. – Só um minuto. Ele está aqui. – Ah, ei... – Trey soava nervoso, não sabia por que o pai queria falar com ele. Ariel havia contado tudo? – Sei que não pode falar, então, apenas me escute.


Michele o pegou com a mão no pote de biscoito? – ele perguntou. – Sim – Trey confirmou, mas não mencionou que os biscoitos que estivera comendo eram os dele. – Então, essa é uma viagem de culpa e perdão? Trey se sentia culpado de muitas coisas. Era culpado de seduzir a noiva do pai. Culpado de trair Michele. Mas, acima de tudo, se sentia culpado por prejudicar a nomeação do pai para a Suprema Corte. – Você não tem ideia – ele confessou pesaroso. Ouvindo o desespero na voz de Trey, Preston disse: – Filho, já estive nessa situação. Não se preocupe, as coisas vão se ajeitar. Se você soubesse o que eu sei, não estaria me confortando, estaria tentando me estrangular, Trey pensou. – Espero que esteja certo, pai. – Eu sei que estou. Acredite em mim. Tempo e distância vão fazer tudo ficar melhor. Vá em frente e divirta-se. Vejo você na volta. – Tudo bem. – Trey parou um segundo como se contemplasse as próximas palavras. – Amo você, pai.


Preston se surpreendeu. Trey não dizia que o amava desde que era pequeno. – Também amo você, filho. Trey esperava que o amor entre pai e filho fosse maior que o tumulto que havia causado. – Tudo bem, falo com você em breve – ele disse, e desligou. Preston se reclinou na cadeira com um sorriso largo no rosto. Como a maioria dos pais, orgulhava-se do filho independentemente do que ele fizesse. Afinal, Trey era carne de sua carne e nunca errava em sua opinião. Preston ainda estava se deliciando com as alegrias da paternidade, quando ouviu o ruído da máquina de fax e viu duas folhas de papel sendo impressas. Ele se levantou, se aproximou da máquina e pegou o fax. Preston leu a primeira página. Achei que devia ver essa informação em preto e branco, Robert Preston pegou a segunda página, que também havia sido impressa com a mesma fonte, e leu cuidadosamente a mensagem breve.


The Black Door um clube só para adultos exclusivo para mulheres administrado pelo proprietário Preston Hendricks III vulgo Trey Curtis – Que diabo é isso? – Preston gritou na sala vazia. E releu o fax. – Um clube só para adultos? – Coçou a cabeça. – Trey vai ter muito que explicar. – Ele voltou à mesa e discou o número do celular do filho, mas a ligação foi imediatamente transferida para a caixa postal. – Droga! Trey e Michele já estavam voando. Não sabia onde eles se hospedariam, o que significava que não poderia conversar com o filho até terça-feira, mas não podia esperar tanto. Precisava de respostas agora, por isso ligou para Robert. – Gabinete do senador Oglesby, Natalie falando. Como posso ajudar? – perguntou a animada assistente.


– Natalie, é o juiz Hendricks. Preciso falar com o senador imediatamente – ele falou aflito. – Na verdade, ele estava esperando sua ligação. Só um minuto, por favor – ela falou antes de transferi-lo. – Vejo que recebeu meu fax – Robert falou sem rodeios. – O que é isso? – Ele brandia o papel para o telefone como se Robert pudesse vê-lo do outro lado. – Meus investigadores descobriram que seu filho é o único proprietário de um cube de entretenimento para adultos, um lugar chamado Black Door, onde membros mascarados se entregam a prazeres carnais variados – ele explicou. Preston estava boquiaberto, sem saber o que dizer. Nunca, nem em seus sonhos mais loucos, ele havia imaginado que o filho estivesse envolvido com atividades escusas. Trey nunca havia mencionado nem mesmo uma visita a um clube de strip, muito menos ter comprado um. A certeza de que o filho nunca faria nada de errado se dissipou rapidamente, junto com o orgulho paternal que sentia poucos momentos antes. – Sua reação me faz crer que você não sabia nada sobre a boate.


– Nada. Juro! – Preston disse na defensiva. – Encontrei Trey há poucos dias e ele me garantiu que estava envolvido com investimentos, ações e bens imóveis. O senador riu. – Bem, fiz alguns contatos pessoalmente e descobri que Trey é um rapaz muito esperto. Ele é dono do prédio onde a boate funciona, por isso não mentiu sobre investir em imóveis; só não contou toda a verdade. – Vou fechar a porcaria do clube! – Preston gritou determinado, batendo com o punho sobre a mesa. – Isso vai ser quase impossível. Fontes me informaram que o registro de associadas tem algumas das mulheres mais poderosas e influentes do país. Há até algumas dignitárias estrangeiras que frequentam ativamente o local. Na verdade, o clube é registrado como um estabelecimento legal de entretenimento adulto, e tentar fechá-lo só vai causar mais problemas do que vale a pena. – Então, o que fazemos agora? – Preston perguntou, esperando encontrar uma solução para esse problema inesperado.


– Bem... – O senador suspirou do outro lado. – Odeio ser portador de más notícias, Preston, mas, com seu filho operando um negócio de risco, vai ser muito constrangedor se... Preston o interrompeu. – Isso não tem nada a ver comigo – disse apressado, tentando desesperadamente agarrar-se ao sonho antes de ele escapar por entre seus dedos. – Bem, na verdade tem. Se formos adiante com o processo e eu indicar seu nome como um candidato viável, a investigação oficial começará imediatamente. Eles descobririam que Trey é o proprietário da Black Door antes que você pudesse dizer “eu não sabia”. O escândalo chegaria às manchetes dos jornais e se espalharia por todos os meios de comunicação do hemisfério ocidental. Você seria crucificado pela imprensa e perderia a nomeação antes mesmo de ela ser cogitada. Entende o que eu digo, não é? Silêncio mortal do outro lado da linha. Preston não conseguia acreditar que o sonho de toda uma vida havia sido devastado, e não por sua culpa. O senador não obteve uma resposta e continuou falando:


– Sinto muito, Preston, mas nós tentamos. Cuide-se, eu volto a falar com você em breve – disse. E desligou. Preston deixou o telefone cair sobre a mesa com um baque. Ficou ali sentado e imóvel, tentando digerir o que acabara de acontecer. Uma bomba atômica havia acabado de explodir em seu colo e os destroços da explosão caíam à sua volta. Ele não sabia como juntar os pedaços. Depois de uma hora mergulhado nessa devastação, ele percebeu que precisava ver sua mulher. Ariel poderia consolá-lo com uma noite de amor, precisava desesperadamente esquecer os problemas. Preston levantou-se cansado e jogou o fax incriminador (que ele ainda amassava na mão fechada) para cima, deixando as folhas caírem no chão. Depois, sem pressa, saiu deixando para trás seus sonhos e esperanças. Ariel havia tirado o dia de folga. Não estava com disposição para trabalhar, ou para qualquer outra coisa. Ainda tentava se recuperar da noite passada, quando Trey a abandonara para ir consolar Michele. Tentara falar com ele, mas as ligações eram direcionadas para a caixa postal. Também estava furiosa com ela mesma por


ter praticamente implorado a ele para ficar. Os hormônios dominaram a razão, e ela agora percebia que havia feito papel de idiota. Para amenizar a dor, começou o dia com mimosas e, na hora do almoço, havia desistido do suco de laranja e bebia champanhe puro. Estava na segunda garrafa de Veuve quando o telefone tocou. Não queria falar com ninguém, por isso deixou tocar até a ligação ser atendida pela secretária eletrônica, mas ele voltou a tocar, e de novo, até ela atender. – Alô? – disse, aborrecida por alguém interromper sua festa de autocomiseração. – Srta. Vaughn, o juiz Hendricks está aqui embaixo – o porteiro anunciou. Ele sabe. Esse foi o primeiro pensamento de Ariel, e seu coração começou a bater acelerado. Ela respirou fundo para se acalmar. A campainha soou, e ela foi abrir a porta cambaleando. O champanhe fluía abundante por suas veias, prejudicando o equilíbrio. Ela abriu a porta com um movimento brusco. – Se... se... veio falar sobre Trey, entre de uma vez – gaguejou. Não havia tomado banho, seus cabelos


estavam despenteados. Ela parecia uma maluca acenando para convidá-lo a entrar. – Na verdade, é sobre isso que quero falar – Preston confirmou, tentando imaginar o que ela sabia sobre o envolvimento de Trey com a Black Door. – O que aconteceu com seu cabelo? – perguntou, olhando-a intrigado. Desde que conhecera Ariel, nunca a vira tão transtornada. – Não quero saber do meu cabelo – ela disse, e bateu a porta. Depois girou depressa e quase caiu. – Não veio aqui para falar do meu cabelo. Veio falar sobre Trey, e tudo isso é verdade, cada detalhe da história – declarou com voz pastosa. Preston parecia confuso. – O que você sabe sobre a Black Door? – Foi lá que fiz amor com seu filho! Michele não contou tudo? – Ariel pôs as mãos na cintura. – Bem, acho que ela só contou o que viu ontem à noite. – E olhou para o teto enquanto resmungava. – Michele não podia saber nada sobre o clube, a menos que Trey houvesse contado... – O quê? O que está dizendo? – Preston a interrompeu.


– Dormi com seu filho, foi isso que eu disse! – Ariel estava completamente atordoada. O álcool falava por ela, misturava as palavras, mas, ao mesmo tempo, dava a ela a coragem para revelar coisas que jamais teria conseguido confessar sóbria. Preston a segurou pelos ombros e olhou no fundo de seus olhos. – Você é associada da Black Door? – Não, não sou. Fui disfarçada de Meri, e na primeira vez estive lá apenas como uma inocente espectadora, mas depois conheci Trey e ele sacudiu meu mundo, algo que você não faz há muito tempo. Primeiro a nomeação, agora sua mulher. Ambas arrancadas dele pela mesma pessoa – seu filho! A traição era mais do que podia suportar, e ele começou a suar frio. De repente sentia uma dor aguda do lado esquerdo do corpo, uma sensação que se espalhava da ponta dos dedos até o ombro. O desconforto chegou rapidamente ao lobo frontal, provocando uma forte dor de cabeça. Ele tentou falar, mas a língua não colaborava. As palavras caíam da boca na forma de grunhidos incompreensíveis. Preston cambaleou para a sala de estar, mas, antes que


pudesse chegar ao sofá, tropeçou e caiu de cara no chão. – Ai, meu Deus! – Ariel gritou. – Preston! Preston! – Ela se ajoelhou ao lado dele. – Preston! – gritou com toda força dos pulmões enquanto o sacudia pelos ombros, mas ele não respondia. O álcool que corria pelas veias de Ariel prejudicava seu julgamento, impedindo-a de pensar com clareza. Ela o encarava intensamente, tentando induzi-lo a se mover, mas a única coisa que se mexeu foi a cabeça dele, que caiu para o lado. – Não, não, não! – ela gritava. Chorando, Ariel se atirou sobre o corpo sem vida.


Epílogo

Limusines formavam filas quilométricas pela Quinta Avenida, seguindo lentamente para a Catedral de Saint Patrick, a majestosa igreja em estilo gótico onde eram realizadas as cerimônias religiosas para todos que eram alguém em Nova York. E parecia que todos os dignitários e socialites da cidade estavam ali para a cerimônia que seria realizada hoje. Ariel estava nervosa sentada no banco de trás de sua limo, rezando para o tráfego colaborar e ela não se atrasar. Saíra de casa com bastante antecedência, mas os segundos se arrastavam a passo de caracol, e quanto mais tempo ela passava ali, mais ansiosa ficava. – Quanto tempo até chegarmos à igreja? – ela perguntou ao motorista. – São só mais dois quarteirões, mas nesse trânsito pode ser cinco ou até dez minutos – ele respondeu por cima de um ombro. – Espero que não – ela murmurou, olhando para a


calçada movimentada. As pessoas se ocupavam de suas rotinas diárias, indo e voltando do trabalho, fazendo compras nas butiques que se sucediam na Quinta Avenida, almoçando com amigos. Ela se encantava como tudo parecia normal, como o mundo não parava quando a vida arremessara uma bola com efeito na sua direção. Ariel fechou os olhos por um segundo para organizar os pensamentos, mas, antes que pudesse viajar pela estrada das lembranças, o motorista falou: – Chegamos, senhorita. Ela abriu os olhos e viu rostos familiares entrando na igreja. Não estava com disposição para falar, por isso esperou alguns minutos até a maioria das pessoas estar no interior do templo, e só então desceu do automóvel. Ariel subiu a escada de mármore para a entrada grandiosa e passou pela porta dupla ornamentada para o interior do santuário. Um órgão tocava uma melodia suave que ecoava delicada nos vitrais no alto da catedral. Ariel parou para apreciar a beleza da igreja de mais de um século. Quando inspirou profundamente, sentiu o cheiro de orquídeas e lírios misturado ao aroma de incenso e mirra. Ao exalar devagar, uma profunda sensação de calma a invadiu, expulsando as borboletas


que antes batiam asas em seu estômago. – Pronta? – perguntou o assistente do sacerdote. – Sim. – Ela assentiu. Ele segurou Ariel pelo cotovelo e a guiou para a frente da igreja. Sentia-se grata pelo apoio, porque as pernas tremiam tanto que poderia cair a qualquer segundo. De longe, ela via Preston rígido como uma tábua, e lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Quando chegou ao altar, sua expressão estoica suavizou, iluminada por um sorriso afetuoso, e ele segurou sua mão. – Você é a noiva mais linda que já vi. – Ele tirou do bolso um lenço branco e secou suas lágrimas. – Queridos fieis, estamos aqui reunidos hoje para celebrar a união de Ariel Renée Vaughn e Preston Hendricks II pelos sagrados laços do matrimônio – disse o sacerdote, começando o casamento do ano. Depois de uma hora de música, comunhão, votos, bênçãos e troca de alianças, a vela da união foi acesa e o enlace foi oficializado. – Senhores, eu vos apresento o sr. e a sra. Preston Hendricks II – o sacerdote anunciou depois do beijo cerimonial.


Ariel, que exibia um vestido amplo e perolado com luvas de cetim até os cotovelos, uma criação Elie Saab, e Preston em seu smoking Armani eram a imagem da perfeição quando saíram pelo corredor central da catedral. Ambos sorriam felizes e acenavam para os presentes a caminho da limusine que os esperava. A recepção aconteceu no Cipriani, no conhecido edifício Bowery na rua Quarenta e dois. Com seu pé direito alto, as colunas coríntias, o trabalho em mármore italiano e os lustres fabulosos, o Cipriani era o local perfeito para comemorar uma ocasião tão auspiciosa. Garçons vestindo smokings esperavam em alerta – seguindo o mais fiel estilo do Palácio de Buckingham – com bandejas de caviar beluga, carpaccio, croquetes de caranguejo, aspargos envoltos em prosciutto, bruschetta de camarão grelhado e costeletas de cordeiro. Havia também um batalhão de garçons prontos para servir taças de champanhe Cristal. Ariel e Preston chegaram antes dos convidados e se posicionaram perto da entrada, formando uma fila de cumprimentos. A primeira a felicitar os noivos foi a mãe de criação de Ariel, a sra. Grant.


– Meu bebê – ela disse, abraçando os dois ao mesmo tempo. – Estou muito feliz por vocês. A cerimônia foi linda. Você sabe que nunca estive em um casamento católico e achei que seria tedioso, mas foi muito melhor do que eu esperava – ela comentou com franqueza. – Obrigada, mãe – Ariel respondeu, beijando-a no rosto. – Você vai se sentar conosco à mesa dos noivos. – E apontou uma mesa com toalha branca à direita da entrada. – Certo, bebê. Vejo vocês depois. Preston e Ariel apertaram mãos, beijaram rostos e cumprimentaram uma procissão formada por alguns dos melhores amigos, políticos locais e associados comerciais. Os dedos de Ariel começavam a doer por ter que ficar em pé por quatro horas sem descanso, e ela queria muito sentar-se e aproveitar a festa, mas ainda havia algumas pessoas para cumprimentar. – Parabéns, pai – Trey falou ao apertar a mão de Preston. Ele a segurou entre as duas mãos. – Obrigado, filho. – Juiz Hendricks, espero que toda sua vida seja feliz como é o dia de hoje – Michele falou, olhando com


frieza para Ariel. – Muito obrigado. – Ele abraçou a jovem. – Ei, quem sabe? Talvez vocês sejam os próximos. – E piscou. Ariel queria vomitar, mas apenas sorria com educação, esperando que eles não demorassem mais do que o necessário ali. – Com licença, queridos – Meri pediu, interrompendo o momento supostamente afetivo. – Preciso beijar os noivos. Ariel não podia estar mais feliz com a presença da velha amiga, e a abraçou com entusiasmo. – Obrigada por me salvar. Não sabia por quanto tempo ainda poderia aguentar os falsos votos de felicidade de Michele – ela sussurrou. – Disponha, querida, mas preciso falar com você em particular. Você esteve tão ocupada com os preparativos para o casamento que não temos mais nos encontrado para nossas conversas semanais. Sei que acabei de assistir ao casamento, mas ainda não consegui entender bem o que aconteceu nos últimos meses – ela falou em voz baixa para não ser ouvida por Preston. – Tudo bem, só preciso de um minuto, e depois irei


encontrá-la no fundo do salão. Quando todos os convidados estavam acomodados, bebendo e conversando entre eles, Ariel aproveitou a oportunidade para se ausentar por um instante. Meri estava sentada sozinha no fundo do salão, longe dos outros convidados. Ao lado dela havia um balde de champanhe com uma Cristal gelada. Ela ofereceu a Ariel uma taça da bebida borbulhante e esperou que a amiga se sentasse. – Lucy... você tem muito que explicar! – cantou, imitando Ricky Ricardo com um sotaque espanhol perfeito. – Eu sei. Isso tudo tem sido um turbilhão, uma loucura. – E suspirou antes de beber um gole de champanhe. – Não sei nem por onde começar. – Pode pular toda a parte chata e ir direto para os detalhes sórdidos. – Meri puxou a cadeira para perto da dela e apoiou os cotovelos sobre a mesa, esperando pelo relato. Ariel riu. – Mas é claro. Bem... Você já sabe que Preston teve um derrame leve, mas o que não sabe é que esse acidente


vascular prejudicou sua memória recente. – Está dizendo que ele não lembra que você confessou ter transado com o filho dele? Ariel havia telefonado para Meri logo depois de chamar os paramédicos na noite em que Preston teve o colapso. Enquanto estava na sala de espera, ela contara à amiga tudo sobre o que havia acontecido minutos antes do acidente vascular que derrubara Preston. Depois de algumas horas de espera, os médicos informaram que o quadro dele era estável e que ele dormia confortavelmente. Meri a levara para casa e a fizera descansar, mas, no dia seguinte, quando Ariel voltara ao hospital, os médicos revelaram que Preston havia perdido a memória recente. Explicaram que esse tipo de ocorrência não era incomum em quadros de derrame como o que ele sofrera, e que a memória provavelmente voltaria em alguns meses, se não antes. Naquele momento Ariel havia percebido que teria uma segunda chance com o único homem que realmente a amara incondicionalmente. Não podia acreditar em quanto havia sido idiota por ter acreditado que Trey poderia amá-la. Ele podia ter adorado se deitar com ela, mas com certeza não a amava no sentido verdadeiro da palavra. A


conexão entre eles era puramente física, mais nada. Ariel havia deixado o sentimento de abandono prejudicar seu julgamento. A mãe a abandonara na infância e a preocupação de Preston com a carreira trouxera de volta aqueles amargos sentimentos. Envolvera-se com a primeira pessoa que demonstrara algum interesse e, infelizmente, essa pessoa havia sido Trey. Mas agora o passado havia sido momentaneamente apagado, e ela não perdeu tempo, subiu ao altar com Preston antes que ele recobrasse a memória. – Felizmente para mim, ele não se lembra das últimas quarenta e oito horas que antecederam o derrame, mas o médico disse que sua memória pode voltar a qualquer momento – ela comentou sem esconder o pânico. – O que vai fazer quando ele lembrar o que provocou o derrame? – Negar, negar, negar. – Ariel riu nervosa. Meri a olhou como se ela houvesse perdido o juízo. – Não pode estar pensando que Preston vai simplesmente acreditar que nada disso aconteceu! – Não será apenas a minha palavra. – Ela levantou


uma sobrancelha. – O que quer dizer? – Trey e Michele concordaram em confirmar minha história – ela disse, como se os três fossem amigos unidos por um pacto de sigilo. – O quê? – Meri inclinou a cabeça para o lado, tentando entender o que acabara de ouvir. – Sei que soa bizarro, mas assim que Trey foi informado sobre o acidente vascular do pai, ele foi diretamente do aeroporto para o hospital. Aparentemente, ele e Michele haviam viajado para um fim de semana prolongado. Enfim, Preston estava dormindo quando ele chegou, e eu aproveitei a oportunidade para contar tudo a Trey. – E o que ele disse? – No início ficou mortificado por eu ter confessado nosso envolvimento, e ficou muito triste quando contei que o pai dele havia perdido toda e qualquer chance de chegar à Suprema Corte por causa de sua boate, a Black Door. Depois que assimilou essa informação ele ficou furioso e... – Com você? – Meri a interrompeu. – Felizmente não. Ele ficou furioso com o senador


por ter indicado o pai dele. – Por quê? O senador não é o homem por trás da Black Door. Foi Trey quem arruinou as chances do pai, não o senador – Meri falou, sem demonstrar nenhuma piedade por Trey. – Eu sei. – Ariel concordou com um movimento de cabeça. – Por isso Trey cobrou um importante favor. – De quem? – Lembra-se do rapaz que me acompanhou ao evento beneficente dos Lancaster alguns meses atrás? – Como eu poderia esquecer o bom “doutor”? – Meri comentou, referindo-se à história que Mason havia inventado naquela noite. – Parece que uma das clientes de Mason é ninguém menos que... – Ela fez uma pausa para dar efeito à declaração. – Está preparada? – perguntou, baixando a voz para não ser ouvida por mais ninguém. Meri se aproximou mais de Ariel. – Quem? Quem é? Espere, não me diga. Deixe-me adivinhar – ela falou ansiosa, como se estivesse em um programa de televisão. Depois de refletir por um instante, arriscou: – Libby Lancaster – referindo-se à matriarca milionária.


Ariel balançou a cabeça, mas, antes que pudesse falar alguma coisa, Meri arriscou outro nome: – Bitsy Reynolds? – Não, não é Bitsy. Ela está ocupada demais gastando o dinheiro do marido em eventos sociais extravagantes para se envolver com a Black Door. A cliente secreta de Mason é ninguém menos que Angélica Oglesby – ela cochichou. – Quem? – Meri conhecia todas as socialites de Nova York, mas esse nome não soava familiar. – Angélica Oglesby – ela repetiu. – A esposa do senador Oglesby! Meri cobriu a boca com a mão e arregalou os olhos. – Você só pode estar brincando! – ela disse, sufocando um grito com grande esforço. – Não, não estou brincando. Parece que a amorosa esposa do senador tem estado bem ocupada com Mason. De qualquer maneira, Trey usou a filiação de Angélica ao clube para convencer o senador de que seria interessante para ele manter a Black Door em segredo e reconsiderar a indicação do pai dele para a Suprema Corte. Você acredita nisso?


– Uau, que história! Mas o que vai acontecer quando Preston recuperar a memória? – Bem, essa é a grande questão. – Ariel tinha na voz uma nota de tristeza. – Felizmente, quando esse dia chegar, Preston será um juiz, e vai estar tão feliz por ter realizado o sonho de sua vida que vai nos perdoar pela traição. – E Michele? Não tem medo de que ela ajude Preston a recuperar a memória mais depressa? – Ela está muito feliz com Trey. Não vai querer abrir a boca e correr o risco de perdê-lo. Além do mais, ser assistente de um juiz da Suprema Corte é muito mais impressionante do que trabalhar para um juiz regional, e nós duas sabemos que Michele é uma ativista social. Então, com Trey, Michele e eu trabalhando juntos e pelo mesmo objetivo, tudo vai dar certo... pelo menos por enquanto. Meri e Ariel voltaram à recepção e celebraram como se tudo estivesse certo no mundo.


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