Page 24

Abrindo o coração

trabalhar juntas, por uma incompatibilidade de personalidades, de pensamentos, mas quando dá certo é muito mais seguro, prazeroso. Então, consegui unir o útil ao agradável; minha mãe aprendeu a ser empresária no pulso, porque ela era dona de casa, mas não tinha para onde correr. Foi um desafio para ambas, na verdade. Meu pai colocou para mim: “Você vai terminar os estudos. Se quiser ir trabalhar, tudo bem, pode ir, mas as minhas condições são estas: sua mãe acompanha e você termina os estudos”. Foi difícil, porque estava concluindo a escola e começando na televisão. Foi uma loucura, mas consegui. BV — Da carreira de modelo para a de atriz foi um pulo. Quais foram os maiores desafios nessa transição? Isabel — Acho que a técnica de atuação. O Luiz Fernando de Carvalho, que foi o meu primeiro diretor, sempre dizia que eu tinha muita espontaneidade, luz própria, que jamais deveria fazer um curso de interpretação, porque poderia perder esta minha intuição. Hoje dou razão a ele. Meus trabalhos ao longo desses anos foram com muita intuição e sensibilidade. Às vezes, quando se é extremamente técnico, perde-se um pouco disso. E enfrentar isso perante os colegas... A grande maioria era formada, tinha anos de televisão. Viver esse preconceito foi um pouquinho complicado. Também foi a questão ilusória da fama. Era uma menina que saía de casa e ia para a escola, fazia estágio e, de repente, comecei a trabalhar na TV. Fui do Rio de 24

| BOA VONTADE

Janeiro até a Bahia, fiquei lá 15 dias, e quando voltei minha vida estava completamente mudada: todo mundo falava de mim nas ruas ou, então, vinha pedir autógrafo. O que era autógrafo? Eu nem sabia o que era isso! Foi uma mudança bastante radical. BV — O ator não pode se iludir com a fama? Isabel — Não. Fama é realmente uma ilusão. Trabalha-se muito. O ator tem de estudar, ler para ter diversidade de ideias e de conteúdo para desenvolver o trabalho. Isso é constante. O artista precisa estar sempre observando o Ser Humano, a vida, enfim, um eterno aprendizado. Esse glamour é momentâneo; você é bajulado, todo mundo diz que é maravilhoso, que é isso, aquilo. Daqui a pouco faz um trabalho que é “mais ou menos”, e ninguém fala nada; aí é que fica o problema, onde é que está o suporte? O meu veio da minha criação, de casa, da família, que nunca deixou essa realidade. Sou atriz, mas não respiro isso 24

“Fama é realmente uma ilusão. Trabalha-se muito. O ator tem de estudar, ler para ter diversidade de ideias e de conteúdo para desenvolver o trabalho. (...) O artista precisa estar sempre observando o Ser Humano, a vida, enfim, um eterno aprendizado.”

horas por dia. É preciso ter o pé no chão, porque papel de protagonista não é garantia de sucesso. Essa vida é uma montanha-russa. É difícil lidar com o sucesso; tem que se estar preparado para a descida também. BV — Como é trabalhar em tantas frentes: teatro, cinema, televisão, ativismo social, família? Isabel — Conto com um staff enorme. Minha mãe me ajuda demais e meu marido é superparceiro também, apesar de ter muito trabalho. Todos nós atuamos nas duas entidades. Minha irmã e meu marido são mais atuantes do que eu. BV — Como reagiu quando soube que seu segundo filho tinha a síndrome de West? Isabel — Não foi legal. Não esperávamos isso, mas, sim, um filho perfeito, que fala, anda, se comunica bem, tem uma evolução normal. Aí recebemos uma criança completamente diferente, com algo de que você nunca ouviu falar. É a mesma coisa que traçar um roteiro de viagem para a Europa no frio, por exemplo, e no meio da viagem o avião se perde e para no Havaí. (...) É muito assustador. O acesso à informação não é tão grande, e isso poderia salvar uma vida. A gente nunca perdeu a fé de que ele pudesse ter uma qualidade de vida melhor. No início, o médico falou que, se conseguíssemos evitar atitudes compulsivas dele até uns 5 anos, ele poderia até ficar normal. Então, lutamos a favor disso o tempo

Revista Boa Vontade - Sérgio Britto  

Aos 86 anos, o consagrado ator, roteirista e diretor diz que teatro é para a vida toda e não esconde a satisfação de poder inovar no palco.

Revista Boa Vontade - Sérgio Britto  

Aos 86 anos, o consagrado ator, roteirista e diretor diz que teatro é para a vida toda e não esconde a satisfação de poder inovar no palco.

Advertisement