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Entrevista a Ilse Losa Aos 70 anos continua a escrever livros para crianças e adolescentes como O Mundo em que vivi: «Uma história parecida com a minha». Esta retrata a sua vida na Alemanha e os sofrimentos e mudanças da altura. Um livro cheio de emoções e amor, que dá a conhecer o sofrimento de todas as pessoas que viveram a 2.ª Guerra Mundial. Fomos encontrar Ilse Losa na Feira do Livro de Frankfurt, onde nos concedeu esta entrevista. Esta escritora tem uma figura simpática e cativante, que se revela ainda mais enquanto com Ilse Losa falamos. Entrevistadora: Beatriz Costa Fotografia: Miguel Claro

E: Porque é que decidiu escrever para crianças? Ilse Losa: Nestes tempos que passam, uma pessoa de certa idade, como eu, já olha para a juventude com uns olhos diferentes. Como se fosse mãe ou avó (que é duplamente mãe) delas. Um dia estava a passear, quando vi duas crianças a conversarem. Parei e fiquei a ouvi-las. Achei que o tema da conversa delas era muito interessante. Além disso, descobri que não deixava de ter muitas semelhanças com os temas que abordava nas conversas que tinha com as minhas amigas, quando era criança. Falavam sobre a vida carregada (as exigências) que eles tinham. Lembrei-me da minha infância e pensei em descrevê-la para que fosse um exemplo e também para que não ouvisse mais uma conversa deste tipo. E foi assim, escrevi o livro para que, quem o lê, tenha noção das dificuldades que tínhamos há uns anos e que hoje não existem. A minha vida (quando tinha aquela idade) não era própria para uma criança. E: Qual a obra que lhe deu mais gosto a escrita? IL: Sem dúvida, O mundo em que vivi. E: Foi penoso escrever O mundo em que vivi? IL: Demorei seis meses a escrevê-lo. Recordar muitos dos episódios difíceis da minha infância foi custoso. Mas isso já foi há mais de cinquenta anos (riso).

E: Esta História relata a sua infância na Alemanha? IL: Sim. Esta história relata a minha vida desde os meus três anos (idade que uma pessoa se lembra do passado) até aos meus dezoito anos. A minha vida não foi assim tão fácil como pensam. Tive de trabalhar e desembaraçar-me muito bem para ganhar dinheiro, não morrer como estava a acontecer a muitas pessoas na Alemanha, com a chegada de Hitler ao poder. Eu era judia… E: É verdade que a sua avó Esther era muito negativa e exigente? IL: Sim. A minha avó era uma dona de casa muito trabalhadora. Ela sofreu muito com a morte de muitos dos meus tios, do meu pai e do meu avô. Coitado do meu avô que, apesar de ser o pai da casa, não podia impor regras na casa. Quem as imponha era sempre a minha avó. E: Depois de viver na Alemanha refugiou-se em Paris… IL: Na altura eu só queria ajudar os mais necessitados, só queria viver! Não sabia da minha família, não conhecia ninguém. Até que um dia encontrei os meus irmãos e aí vivi com mais tranquilidade e prazer. Paris foi uma fase de transição depois da minha saída da Alemanha. Não deixou de ser muito importante e significativa essa altura da minha vida. Vou contar só um episódio: morava eu num apartamento alugado, quando um dia, estava a passear numa rua muito discreta, e encontro os meus irmãos. Foi uma festa! Vivi com os meus irmãos dois anos, mas acabei por ir para o Porto, onde foi


realmente a minha segunda casa. Portugal casei e tive 3 filhos.

Em

E: Quando é que começou a escrever? IL: Aos 20 anos frequentei a escola superior de Paris (línguas) e depois comecei a dar aulas, para ganhar dinheiro. Quando vim para Portugal, além de traduzir textos de alemão para português, comecei a escrever. E: Porque é que se converteu ao cristianismo quando saiu da Alemanha? IL: Converti-me ao cristianismo de uma forma natural. Quando me mostraram a beleza desta religião fiquei fascinada com tais verdades, senti Deus dentro de mim, que me protegeu em toda a minha vida e junteime a ele. Eu fui um pouco obrigada a exercer a religião judia pois a minha avó, como já disse, era exigente, e gostava que eu seguisse os caminhos que ela tinha seguido. E: Foi professora do ensino primário ou secundário? IL: Fui professora do ensino primário durante quatro anos. Depois decidi ser escritora e mãe a tempo inteiro. E: Que relações têm os seus filhos consigo, enquanto escritora? IL: Enquanto eram pequeninos escrevia livros para eles, mas tentava não os envolver muito neste mundo. Eles sempre se interessaram pelas minhas histórias, e isso foi muito bom para mim! E: Acha que foi uma mãe exemplar? IL: Sim, acho que sempre lhes dei atenção e os ajudei não só nos estudos como também na vida. E: Os seus filhos continuam a interessarse pelas suas histórias? IL: Sim, são os meus maiores fãs. Os meus filhos, os meus netos, o meu marido, a minha família e os meus amigos, continuam a interessar-se pelas minhas obras. E: Acha que a sua obra vai mudar a mentalidade das crianças?

IL: Não sei, mas sinto que já fiz alguma coisa para mudar a mentalidade actual das crianças, de facilitismo e oportunismo. Era muito bom que conseguíssemos pôr as crianças a criar…a querer um mundo mais justo, mais fraterno, melhor do que a nossa geração conseguiu. Aconselho toda a gente a ler O Mundo em que vivi, pois foi escrito não só para adolescentes, mas também para adultos. E: Muito obrigada por estes momentos. IL: Agradeço eu e desejo a todos boa leitura! Trabalho realizado por: Beatriz Costa Colégio Horizonte

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