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TOCAIA DOS MORTOS Por José Polari Capítulo 1

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Tocaia dos mortos ­ Capítulo 1 Faltavam   alguns   dias   para   Tawacã   dar   a   luz   ao   primeiro   filho  quando seu cunhado Yepá apareceu na aldeia dos caboquenas, depois  de   quase   dez   ciclos   de   água   desaparecido   e   dado   como   morto.   No  princípio, seus parentes o olhavam com a mesma admiração de quem  vê um espírito, mas depois de ouvirem inúmeras vezes as histórias  sobre   um   tempo   de   vivência   forçada   numa   tribo   de   mulheres  guerreiras, ele passou a ser visto mais como uma entidade mágica,  recebendo o mesmo respeito dos valentes guerreiros e a reverência  oferecida aos grandes pajés.                  Dias depois, deitada na rede, no descanso da primeira  maternidade,   Tawacã,   ainda   jovem   mãe   e   somente   há   pouco   tempo  aceita   no   mundo   dos   adultos,   ouvia   de   Yepá   essas   aventuras   e  ficava   fascinada   pelo   bruxulear   das   fogueiras   que   conferia   ao  ambiente   da   oca   uma   atmosfera   de   encanto.   Ele   as   contava   no  equilíbrio   entre   o   entusiasmo   e   a   veracidade,   de   quando   fora  capturado,   junto   com   seu   primo   Benry,   por   essas   guerreiras,   que  ele   dizia   serem   índias   de   aldeia   sem   homens,   onde   eles   eram  aceitos apenas nas festas de acasalamento e, mesmo assim, depois  de procriarem, eram sacrificados ou mandados embora, mas que nunca  se   soube   de   algum   que   tenha   permanecido   na   companhia   delas,   por  tanto tempo, como ficou o caboquena agora ressurgido.           Ele e Benry desceram o rio Orowo, que recebia este nome  em   homenagem   ao   urubu­rei,   e   foram   caçar   nas   margens   do   lago  Saracá,   onde   também   se   encontrava   a   foz   do   rio   Sanabani,   nas  extremas   das   terras   dos   caboquenas   com   as   de   seus   aliados  guanavenas e bararurus. Depois atravessaram o lago em direção ao  Murucutu,   adentrando­se   com   a   canoa   em   igarapés   desconhecidos.  Foram pela mata em perseguição à caça, sem se darem conta que os  labirintos da floresta os levavam para lugares perigosos. Mas como  naqueles tempos sua tribo havia selado uma trégua ocasional com os  índios da região, eles ousaram seguir adiante. Perseguiram bandos  de   jacus   e   varas   de   queixadas,   até   às   margens   do   paraná   de  Itapiranga, afluente do grande rio Amarelo, local onde os homens  de sua tribo evitavam caçar porque ali era a fronteira das terras  de nações inimigas.          Logo deram conta do perigo e retornaram ao seio da selva,  chegando ao lago Canaçari, área explorada em conjunto pelas três  tribos que selaram a paz na região. Ali permaneceram, aproveitando  para   pescar   em   águas   piscosas.   Na   tranqüilidade   das   margens   do  lago   construíram   um   pequeno   tapiri   para   servir   de   abrigo,   onde  também pretendiam moquear os animais abatidos.                   Na   primeira   noite   dormiram   acobertados   pelo   lume   das  estrelas   refletindo­se   no   Canaçari,   acordando   com   as   primeiras  luzes   do   sol   e,   no   entanto,   embora   tantas   manhãs   os   guerreiros  tivessem assistido, aquela guardava algo de especial no resplendor  2 de 10


vermelho   das   águas   e   das   nuvens.   Comeram   peixes,   beijus   de  mandioca e foram até a floresta com intuito de recolher lenha para  a   fogueira   e   preparar   a   defumação   da   carga,   tarefa   que   lhes  tomaria metade do dia. Eles precisariam embarcar toda a carga na  canoa, que ficara distante, em várias viagens de ida e volta, até  toda   a   produção   da   caça   e   da   pesca   estar   acomodada   para   seguir  viagem   até   a   aldeia   Maquará,   dos   caboquenas,   muito   acima   no   rio  Orowo.           Quando o sol já iniciara seu caminho rumo ao poente, os  bravos realizaram a primeira viagem, levando nas costas os quartos  retalhados   do   veado   abatido   na   última   noite,   alguns   peixes   e   a  fileira de jacus amarrados em uma vara. Neste trajeto, perderam o  resto   do   dia,   mas   mesmo   assim   retornaram   antes   do   anoitecer   ao  tapiri,   para   na   manhã   seguinte   empreender   outra   viagem   até   a  canoa. Dormiram no tapiri, embalados pela brisa suave do Canaçari  e muito antes do sol nascer, quando a noite ainda dominava o mundo  com   seu   negrume,   foram   surpreendidos   pelo   ataque   de   guerreiros  inimigos   que   caíram   sobre   eles   com   a   rapidez   de   felinos,  imobilizando­os   e   não   lhes   deixando   qualquer   oportunidade   de  reação.          Foram amarrados, pendurados pelos pés e mãos em varas, da  mesma   forma   como   eles   transportavam   os   animais   abatidos.   Os  inimigos levaram Yepá e Benry pela mata, na pavorosa escuridão da  noite,   sem   eles   entenderem   o   que   seus   captores   falavam   e   quais  seriam   seus   destinos.   Quando   chegaram   às   margens   do   paraná   de  Itapiranga   foram   jogados   em   grandes   canoas,   nas   quais   seguiram  viagem ao desconhecido, impulsionadas por vigorosas remadas. O dia  começou a clarear; então Yepá percebeu a aproximação do grande rio  Amarelo, o mais poderoso de todos os cursos de água. Na claridade  do   sol   tomou   consciência   de   seu   destino   trágico,   porque   os  inimigos   que   aprisionaram   a   ele   e   ao   primo,   de   língua  desconhecida, eram na realidade temíveis mulheres guerreiras, cuja  lenda de bravura se espalhava pelas beiras dos rios, atemorizando  até as tribos mais aguerridas.                   A   narrativa   de   Yepá   atraía   a   atenção   de   todos   os  presentes   na   oca.   As   labaredas   afogueavam   o   rosto   do   guerreiro  contador   de   histórias,   deixando­o   avermelhado   tanto   pelo  reverberar   das   chamas   quanto   pelas   lembranças   de   momentos  terríveis. O jovem Wuré, usando da sua nova condição de guerreiro  aprovado nos rituais de iniciação, tomou a palavra e perguntou a  Yepá.          ­ E nosso irmão Benry, o quê foi feito dele?                  Yepá fez uma pausa, puxou um trago de seu cachimbo e  respondeu,   sem   sequer   alterar   as   emoções,   que   Benry   fora  sacrificado logo na chegada da aldeia das guerreiras. No entanto,  ele escapara de tão triste fim porque a rainha da tribo, de nome  Mauara,   ordenou   que   o   levassem   à   cabana   principal   da   taba,   onde  permaneceu recluso por vários dias, na condição de homem da bela  3 de 10


cacique   e   reprodutor   de   todas   as   outras   mulheres   da   aldeia.  Durante muito tempo levou uma vida de regalias, sem trabalhar para  comer ou arriscar a vida nos conflitos travados entre as índias e  as   tribos   vizinhas.   Nas   muitas   vezes   em   que   essas   guerras  resultavam   em   prisioneiros,   ele   viu   também   muitos   homens   serem  sacrificados,   porque   era   costume   nessa   aldeia   fazer   correr   o  sangue dos machos para fertilizar a terra fêmea. Porém, gerar as  filhas   das   mulheres   guerreiras   só   bastava   apenas   um   bom  reprodutor, e este era Yepá.                   Quando   ele   narrara   suas   aventuras,   Tawacã   ouvia   com  atenção e respeito, lembrando de quando era criança em sua aldeia  original, na tribo dos guanavenas. Ficava na ilha Saracá, margeada  pelo lago Canaçari, de onde fora raptada há cerca de um ciclo de  água por seu marido Monawa. Tawacã recordava das noites nas quais  seu pai, o pajé Nahpy, principal da tribo dos guanavenas, contava  à sua gente as lendas e tradições do povo. Era o mesmo clarão da  fogueira iluminando o sábio guanavena, enquanto ele bebia na cuia  o   caxiri   alucinógeno   que   o   transportava   para   visões   mágicas,  tragando fundo o seu cachimbo e envolvendo todos na aura mítica da  fumaça.   Mas   uma   diferença   fazia   a   distinção   de   costumes   de   uma  tribo   e   outra:   os   caboquenas,   filhos   das   matas   fechadas,  recolhiam­se   na   intimidade   protetora   da   oca,   enquanto   os  guanavenas, afeitos à vida ao ar livre, reuniam­se nas noites de  lua   cheia   nas   praias.   Nessas   ocasiões,   protegidos   no   ventre  acolhedor   de   sua   ilha   e   ouvindo   o   reverberar   do   fogo   na   lenha,  transmitiam às novas gerações as tradições dos ancestrais.                   Nahpy   era   o   guardião   dos   segredos   milenares   dos  guanavenas e sabedor das origens de seu povo. Conhecia também os  poderes   das   plantas,   palavras   mágicas   usadas   para   invocar  espíritos   e   dominava   os   mistérios   para   transcender   este   mundo   e  penetrar   nas   brumas   do   desconhecido.   Embora   fosse   pai   de   filhos  homens,   nenhum   deles   nascera   com   vocação   à   pajelança.   Mas,   sua  esperança de manter na família os conhecimentos milenares de sua  nação,   transmitidos   desde   tempos   imemoriais   de   pai   para   filho,  residia na curiosidade inteligente de Tawacã.                  Nahpy sabia que iniciar sua filha Tawacã na arte dos  pajés seria afrontar os veneráveis da tribo, no entanto, preparava  os espíritos dos velhos do conselho, explicando ter a menina visão  aguçada   para   os   mistérios,   vocação   natural   de   aprender   sobre   a  medicina da floresta e a pronúncia perfeita para entoar os cantos  da benzedura. O mestre dos pajés via na filha somente virtudes da  serenidade   e   do   conhecimento,   enquanto   em   seus   filhos,   de  espíritos   belicosos,   predominava   a   vocação   guerreira.   Foi   com   o  peito   cheio   de   angústia   que   Nahpy   ouviu   seu   primogênito   Aiauara  dizer que não seria ele o sucessor.          ­ Meu espírito, pai, não contempla rezas e curas, porque  o que mais quero é guerrear, disse Aiauara, com a cabeça baixa em  respeito   à   autoridade   paterna,   mas   convicto   de   estar   tomando  decisão   irrevogável,   embora   tal   desobediência   implicasse   em  4 de 10


sofrimento ao grande pajé.          ­ Não se trata de aceitar ou não o destino, respondeu com  severidade Nahpy, porque tu, Aiauara, estarás para sempre do lado  da vida e não da morte.          No entanto, desde quando se preparava para os rituais de  iniciação,   junto   com   todos   os   garotos   de   sua   idade,   Aiauara   já  vivia   a   certeza   de   que   grandes   combates   o   aguardavam.   Ele   não  tinha   desprezo   pela   função   de   pajé.   Sabia   da   importância   de   ser  guardião do conhecimento milenar, de tomar assento no conselho dos  veneráveis sem participar de guerras, de ser respeitado por todos,  homens ou mulheres, crianças ou velhos, pelo fato de ter o poder  da   cura,   de   arrancar   da   floresta   as   infusões   do   bem­estar   da  tribo. Mas, Aiauara sabia que dentro de seu ser residia completa  falta   de   aptidão   para   trabalhos   de   pajelança.   Desde   a   pequena  idade   sentia   o   sangue   em   erupção   quando   assistia   ao   retorno   dos  guerreiros.   Ficava   extasiado   ao   ver   os   feridos   das   batalhas   e  outros   trazendo   nas   pontas   das   lanças   as   cabeças   dos   inimigos  mortos,   mas,   em   todos   o   triunfo   no   rosto,   a   certeza   da   vitória  conquistada   com   honra,   nos   quais   até   a   tristeza   pelos   parentes  mortos em combate não superava a glória na luta.                  O grande pajé não pode conter a vontade do filho mais  velho e, assim, remediou a desilusão na esperança de ver a filha  Tawacã, mais nova que Aiauara, assumindo o destino familiar de ser  guardiã   dos   grandes   mistérios   dos   guanavenas.   Para   isso,   Nahpy  reunia   toda   a   tribo   em   volta   da   fogueira,   nas   noites   de   melhor  lua,   na   calidez   da   praia,   para   repassar   às   novas   gerações   os  conhecimentos herdados dos ancestrais. Neste momento, ao seu lado  se sentava Tawacã. Ela escutava com a atenção redobrada, buscando  entender cada sentido das palavras. Sem sequer ter sido informada  do   futuro,   já   predestinava   em   sua   vida   a   obrigação   de   repetir  muitas outras vezes aquelas histórias ao seu povo.                    A chama da fogueira iluminava o rosto de Nahpy e seu  reflexo difuso conferia ao ato solene uma gravidade sobrenatural.  Isso   tornava   a   narrativa   repleta   de   encantamento.   Os   guanavenas  eram levados ao centro da história. Os olhos atentos dos meninos  se dispunham a aprender o significado de cada gesto realizado pelo  pajé,   enquanto   as   meninas   se   fascinavam   pela   sonoridade   das  palavras. A fala pausada do Nahpy fazia as mulheres retornarem aos  seus   melhores   tempos,   quando   adormeciam   escutando   as   mesmas  histórias;   já   os   homens   readquiriam   a   plenitude   física,   ao  recordarem   de   quanto   ímpeto   essas   narrativas   lhes   impuseram   em  outros tempos. No entanto, somente os anciãos, de ambos os sexos,  tinham completo entendimento de depurar o significado real de cada  narrativa,   pois   entendiam   que,   a   cada   geração,   os   conhecimentos  ganhavam novo estilo, conferido pelo pajé encarregado de guardar à  posteridade as tradições dos guanavenas.           A tribo toda se calava num silêncio intenso e apenas se  ouvia o crepitar da lenha sob a sanha do fogo. Nahpy levava à boca  5 de 10


a   cuia   sagrada,   tomava   um   gole   do   caxiri,   se   transportava   aos  limites da consciência, até retornar ao seu mundo ainda inebriado  pela fumaça densa do cachimbo. Então começava a narrar a origem da  tribo dos guanavenas.           “No princípio não havia nada, somente água a dominar as  vastidões. O lago Canaçari estendia seus limites até o infinito e  predominava a escuridão eterna em sua superfície. Mas de repente,  de   dentro   das   trevas   medonhas,   o   grande   Paharamim   segurou   um  punhado   de   estrelas   e   lançou   em   direção   ao   mundo,   salpicando­as  como   fagulhas   que   se   espalham   no   momento   em   que   atiçamos   a  fogueira. Esses pequenos pontos de luz foram pipocando em todos os  cantos,   até   iluminar   o   firmamento   com   pequenas   faíscas.   No  entanto, o céu permaneceu assim ainda por muito tempo, sem nada a  perturbar   a   calma   infinita.   No   alto,   resplandecia   a   luz   das  estrelas que as águas do lago refletiam, sem um vento para remexer  o   leito,   sem   correntezas   para   misturar   o   caldo   lacustre   do  cauixi”.                   O   maior   de   todos   os   pajés   dos   guanavenas   encenava   a  narrativa  com  movimentos  precisos,  sabendo  que  as  palavras, para  serem convincentes, deveriam ser faladas em boa oratória e com a  arte da representação eloqüente, sem excesso de pantomima para não  desviar   a   atenção   do   povo,   mas   também   sem   desleixo   que   causasse  nas   pessoas   a   suspeita   da   dúvida.   Nahpy   sabia   dosar   as   duas  coisas, encantando a tribo com da história dos ancestrais. Bebeu  outra   dose   de   caxiri   e   tragou   mais   uma   baforada   de   seu   fumo,  soltando   de   uma   vez   pela   boca   e   pelo   nariz,   envolvendo   os   mais  próximos numa névoa inebriante de sonhos. E continuou:                  “O grande Paharamim não ficou contente com o mundo em  formação,   então   enviou   um   trovão   dos   confins   do   infinito,   que  ressoava   pelo   céu   como   a   fúria   de   milhares   de   antas.   Varreu   o  firmamento   de   lado   a   lado   e   fez   trepidar   a   superfície   do   lago,  criando os primeiros banzeiros para misturar as águas eternamente  paradas.   Fez   cair   sobre   o   mundo   uma   chuva   de   estrelas,   que   se  soltavam do céu e iam se misturando umas às outras, formando uma  nuvem   de   vaga­lumes   a   se   precipitar   no   abismo   da   escuridão   do  grande lago. O clarão mergulhou nas profundezas escuras e atingiu  o   fundo   lodoso.   Essas   fagulhas   penetraram   no   interior   da   terra,  rasgando­a   profundamente   para   plantar   a   semente   da   vida   em   seu  ventre. Porque a grandeza do lago não poderia existir mais sem a  claridade da luz e sem a alegria da vida”.                   “Era   o   fim   da   noite   eterna.   Em   seu   lugar   surgiu   o  primeiro   arrebol,   que   riscou   uma   linha   no   meio   do   horizonte,  separando   os   limites   entre   águas   e   céus.   Depois   tudo   se  transformou de  vermelho da  aurora  para  o  dourado  resplandecente,  em   tons   cada   vez   mais   claros,   até   ceder   totalmente   ao   avanço  inexorável do azul total. Esta cor pintou toda a abóbada celeste  de uma manhã suprema. Depois de terminado o resplandecer do dia, o  grande   Paharamim   mostrou   seu   rosto   para   o   mundo,   emergindo   das  águas   e   percorrendo   a   curvatura   do   firmamento.   Lá   do   alto  6 de 10


contemplou sua obra com orgulho, porque viu o azul dos céus e, lá  embaixo, o contraste espetacular do lago, cujas águas refletiam o  verde  sereno  que  até  hoje  brilha  e encanta  os  olhares.  O  grande  Paharamim   passou   um   bom   tempo   observando   o   mundo,   extasiado   por  sua obra, mas depois desceu até às águas, levando consigo a luz do  dia   e   trazendo   de   volta   a   noite   estrelada.   Só   que   prometeu  retornar sempre, e assim o faz, porque na manhã seguinte emergiu  de  novo das  águas,  brilhante  como  nunca,  na forma  adorada  de  um  sol”.                   “No   céu   e   na   superfície   do   lago   estava   consumado   o  trabalho do grande Paharamim, mas era no fundo das águas que outra  obra divina começava a criar forma. As sementes estelares caídas  no tempo da chuva incandescente faziam brotar a natureza viva em  forma   de   poderosas   formigas   saracá.   Elas   se   transformaram   de  brasas   em   seres   vivos   e   começaram   a   erguer   o   formigueiro  primordial das entranhas do lago, montando grão a grão o montículo  que superou a linha da água e recebeu os primeiros raios do sol em  sua areia. Surgiu a ilha Saracá, construída pela vontade ígnea das  formigas,   seus   primeiros   habitantes,   que   por   muito   tempo   foram  alargando   sua   superfície,   expandindo   novas   massas   de   terras,  criando   praias   sempre   mais   largas,   revolvendo   o   fundo   lodoso   do  lago para buscar nas profundezas tectônicas as areias mais finas e  transparentes. O desejo dos primeiros seres era expor a alvura das  areias ao calor do sol, o grande Paharamim, e assim se formaram as  cores   no   mundo:   no   céu   o   azul   luminoso,   pintado   de   vermelho,  amarelo e negro todos os dias; no lago, o verde suave e; na ilha,  o branco imaculado das praias saracaenses.”                 Depois   de   ouvir   a   narrativa   de   Nahpy   os   guanavenas  recolhiam­se   à   oca   coletiva   da   tribo,   onde   todos   dormiam   em  comunidade, cada família em seu espaço. A do grande pajé ocupava  os fundos da cabana, com cinco redes de fibra. Na maior, armada no  meio das outras quatro, dormiam ele e sua esposa Xirminja; no lado  colado à parede de palha, os filhos homens, com Aiauara na borda e  o   mais   novo,   de   nome   Byrytyty,   na   rede   ao   lado   da   do   casal;   na  parte   voltada   ao   interior   da   cabana,   as   filhas,   Tawacã   mais  afastada e sua irmã, Matepi. Nesta época, Tawacã estava com cerca  de oito ciclos de água de idade, enquanto Matepi tinha três. Todos  os   filhos   do   pajé   participavam   da   cerimônia   da   fogueira,   quando  Nahpy relatava as origens de sua tribo.          Quando todos se recolheram para dormir, Tawacã se deixou  levar pelo assombro da narrativa e sonhou que as formigas vieram  reclamar a ilha Saracá, construída por elas e agora em poder dos  guanavenas.   No   terror   do   pesadelo,   a   rainha   das   formigas   disse  para Tawacã embarcar com sua gente nas canoas e seguir viagem em  busca de outras terras. A jovem índia buscava ajuda nos conselhos  do pai, mas este disse ser justa a petição dos insetos. Então ela  respondeu que não abandonaria sua terra natal e foi atacada pelas  saracás carnívoras, ficando sem possibilidade de escapar. Acordou  assustada,   mas   na   escuridão   da   oca   mal   iluminada   pela   fogueira,  7 de 10


encontrou os olhos de Matepi tão arregalados quanto os dela.                  ­ Irmã, estou sendo perseguida por pesadelos medonhos,  disse a pequena Matepi, cujo enredo de seus sonhos se assemelhava  ao   de   Tawacã.   Esta,   na   condição   de   irmã   mais   velha,   responsável  por   proteger   e   dar   tranqüilidade   à   caçula,   retomou   o   equilíbrio  das emoções e, superando todo seu medo, afagou a pequena criança.                  ­ Vamos voltar a dormir, irmãzinha, porque papai há de  nos   proteger   de   todos   os   perigos.   Então   adormeceram   na   calma   da  oca, embaladas pelo crepitar macio da lenha no fogo.                  A família de Nahpy acordou, como sempre o fazia, assim  como   toda   a   tribo,   nas   primeiras   luzes   da   aurora.   Logo   eles   se  dirigiram à praia, para o primeiro banho, para retirar do corpo o  cheiro forte da fumaça das fogueiras acessas no interior da oca,  que impregnavam até os sonhos das gentes, mas evitavam os ataques  dos carapanãs sanguinários durante as melhores horas da madrugada.  Os  filhos  do  pajé  se  divertiam  nas   águas  cálidas  do lago,  junto  com   todas   as   crianças   guanavenas,   enquanto   Xirminja   e   outras  mulheres   da   tribo   preparavam   os   bolos   de   mandioca   e   os   peixes  moqueados   da   primeira   refeição   do   dia,   acompanhados   de   frutas   e  vinhos   das   palmeiras   da   selva.   Quando   estava   tudo   assado,   os  guanavenas banquetearam com fartura, porque a comida era abundante  na   ilha   Saracá,   onde   os   roçados   ofereciam   colheitas   em   todas   as  épocas do ano, a floresta fornecia as frutas de estação e no lago  e em seu emaranhado de rios abundavam os peixes de piracema, tanto  fazia estar na enchente como na vazante.                   As   mulheres   aproveitaram   o   sol   ameno   da   manhã   para  realizar as tarefas domésticas, incumbência delas. Elas foram para  os roçados cuidar das plantações de mandioca, colher os tubérculos  maduros   e   retirar   as   ervas   daninhas   que   enfraqueciam   a   terra.  Xirminja também foi ao roçado, levando a pequena Tawacã para que  aprendesse desde cedo os trabalhos femininos. A pequena Matepi e  seu irmão Byrytyty foram para a casa dos macacos, onde reuniam as  crianças   menores,   sem   idade   ainda   para   trabalhar   na   roça,   e   lá  ficaram   brincando.   Nahpy   não   gostava   de   ver   Tawacã   realizando  trabalhos   domésticos,   junto   com   as   outras   mulheres,   porque   tal  atividade   não   condizia   com   o   destino   grande   que   o   pajé   sonhava  para   a   filha   mais   velha.   Aceitava   como   uma   imposição   das  tradições, mas preparava o caminho para mudar esta regra ancestral  e fazer de Tawacã, a filha mais amada, a primeira mulher a possuir  o poder do conhecimento tribal.                   Reunidos   em   uma   oca   no   centro   da   taba,   Aiauara   e   os  meninos de sua idade se preparavam para as guerras e as atividades  de   caça   e   pesca.   Desde   quando   passaram   a   trilhar   o   caminho   da  puberdade   deixaram   de   freqüentar   a   casa   dos   macacos,   onde  estiveram   na   primeira   infância,   e   então   começavam   a   seguir   pelo  conhecimento das coisas do mundo dos homens, com seus rituais de  força, coragem e honra. Aprendiam a manejar a borduna, tanto para  o   ataque   quanto   para   a   defesa;   também   o   arco   e   a   flecha,   de  8 de 10


múltiplos usos, porque tanto tinham utilidades na caça e na pesca,  como   também   na   guerra;   conheciam   os   segredos   dos   anzóis   e   das  redes, úteis para capturar o peixe, alimento fundamental na dieta  das famílias guanavenas; participavam de aulas práticas em canoas,  para que mantivessem o rumo mesmo contra o vento e em correntezas  contrárias   para   fortalecer   a   musculatura,   porque   um   corpo   de  músculos   vigorosos   era   importante   para   intimidar   os   inimigos   e  atrair os olhares das mulheres.          Aiauara gostava de participar dessas atividades junto com  seu   primo   Pajuari,   de   quem   era   amigo   desde   os   primeiros   tempos.  Ambos faziam demonstração de força e valentia quando brincavam de  briga. Eles rolavam pelo chão da oca em conflitos simulados, cada  um   procurando   jogar   o   adversário   ao   chão,   imobilizá­lo   e   assim  sair  vitorioso, mas os  dois amigos  tinham  a agilidade  da  onça  e  não se  deixavam dominar,  agarravam­se  com  os  músculos  retesados,  se soltavam, voltavam ao combate corpo a corpo, procurando o ponto  fraco   do   oponente,   e   então   davam   a   luta   por   terminada,   sem  vencedor  nem  vencido.  Corriam  para  o  rio,  se  jogando  na  água  em  alegria   redobrada,   acompanhados   dos   outros   meninos.   Mas   não  deixavam   as   competições   e   por   isso   nadavam   com   velocidade,  mergulhavam para ver quem submergia mais tempo ou retornava à tona  mais distante, brincavam de guerra dentro do rio, usando as águas  como armas.          Quando caminhavam de retorno para a taba, Pajuari segurou  Aiauara pelo braço e confessou o segredo.                   ­   Meu   primo,   é   minha   honra   combater   guerreiro   tão  valoroso, disse entre sorrisos. E com o olhar seguro de quem sela  para   sempre   um   compromisso   incontestável   concluiu:   E   para  aproximar ainda mais meu sangue do teu, meu primo, adianto aqui o  meu desejo de fazer de tua irmã Tawacã minha esposa.          Aiauara entendeu aquele compromisso de Pajuari como mais  uma de suas brincadeira, por isso não deu a importância que este  desejava para suas palavras, mas seguiram de volta para a cabana  dos   treinos.   Por   fim,   naquele   mesmo   dia,   quando   encerraram   as  aulas   de   formação   dos   guerreiros,   o   jovem   filho   de   Nahpy  compreendeu   que   estava   se   transformando   em   homem   de   verdade.  Quando a família se reuniu para a segunda refeição, Aiauara tocou  no assunto com o grande pajé.                  ­ Meu pai, falou com gesto grave, quando o senhor vai  tratar sobre o meu casamento.          Nahpy se surpreendeu com o questionamento do filho, pois  considerava   o   assunto   ainda   prematuro,   uma   vez   que   Aiauara   não  havia   ainda   sequer   passado   pelo   ritual   de   iniciação   dos  guerreiros, mas mesmo assim se interessou pela aflição do filho e  o interrogou.          ­ Posso saber qual o motivo para tal angústia? perguntou  o pajé, e completou: se ainda não és guerreiro formado e não podes  9 de 10


assumir compromisso de família.                   ­   É   porque,   meu   pai,   minha   irmã   Tawacã   já   recebe  propostas   de   casamento,   disse   Aiauara,   com   responsabilidade   de  irmão mais velho.          Então o pajé se mostrou mais surpreso ainda, porque todos  os planos que fazia para os filhos começavam a sair ao contrário:  Aiauara   a   cada   dia   se   mostrava   mais   convicto   de   não   herdar   o  conhecimento   dos   ancestrais   e   se   preparava   com   afinco   para   ser  guerreiro.  Tawacã  indo  ao  roçado  aprender  trabalhos domésticos  e  já recebendo propostas de casamento.

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Tocaia dos Mortos - José Polari