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Blog de Literatura

Impasse: um ensaio sobre Barba Ensopada de Sangue

Saulo Dourado


Barba Ensopada de Sangue Editora: Companhia das Letras Autor: Daniel Galera Sinopse: Neste quarto romance de Daniel Galera, um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista (cujo nome não conhecemos) se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores.


Impasse Saulo Dourado

I - Muito se identifica o exercício artístico com a expressão total da alma, com o transbordamento das emoções frente à razão e das intuições sobre argumentos. Um dos efeitos é rechaçar qualquer atividade de pensamento para que não atrapalhe o processo de criação, pois racionalizá-lo é retirar-lhe a mágica da qual é feita a sua materialidade. Esquece-se que isto mesmo é uma teoria, com a diferença de que não é posta em exame e apenas se naturaliza. Tampouco a sua negação é o correto, pois dizer que o apolíneo e não o dionisíaco se torna o grande estatuto da arte mantém ainda o problema em seu corte e legitima uma posição pela fraqueza da outra, como

se o conflito entre concepções se resolvesse ao modo das eleições municipais. A grande qualidade do novo romance de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, é conciliar as duas vertentes e vibrar com calma, movimentar ideias no interior da pura ação. Aliás, o que mais se faz nesta narrativa de um nadador gaúcho que se muda para o interior de Santa Catarina em busca do seu avô é promover diplomacia entre opostos: corpo e mente, homem e natureza, racional e irracional, ciência e superstição, vida e morte, inverno e verão, ambição e desprendimento. Estes opostos não se dissolvem, nem são preteridos um frente ao outro, recebem a permis-

são de dialogar. Lembra um dos fragmentos de Heráclito, quando o filósofo pré-socrático pretendia explicar um movimento contínuo de todas as coisas que não negasse ciclos e ordens: “O contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia”. A trama de Galera também é uma mudança permanente de elementos – situações, personagens e diretrizes - nas rotas quase de uma harmonia. O “quase” fica por um impasse. A última e principal dicotomia em Barba ensopada de sangue não parece ter-se conectado para o protagonista, mas mantido a suspensão do corte e talvez em certa inclinação para um lado.


Recorto uma passagem e dos animais (no caso, a cachorra Beta, que não precisa comento: “É absurdo. Ou existe livre-ar- ser sacrificada), estaria imbítrio ou não existe. Se o ser hu- plicado em viver ao mesmo mano é um agente livre, se temos tempo por um organismo e escolhas, podemos ser responsabilizados. Se não existe, se o uni- por uma paixão. Decide tanto verso é predeterminado pelas leis uma vida o fato de uma lâmida natureza e tudo não passa do na furar as entranhas, quanto resultado do que aconteceu logo a constatação do pertenciantes, aí ninguém tem culpa do mento a uma crença. O pai do que faz. Nem rancor nem perdão protagonista se vê restringido fazem sentido. Não acho que é simples assim. no próprio destino que es(...) Quero dizer que as duas al- colheu para si e assim já está ternativas me parecem erradas. morto, o que só falta despejar Ou as duas tão certas ao mesmo a parte orgânica para cumtempo.” prir o fato. O seu discurso fiA questão é como “as duas nal lembra Aquiles na Ilíada, tão certas ao mesmo tempo” e ao ser alertado pela mãe que se nessa convergência não se o seu destino terminaria caso retroalimenta um dos opostos vingasse a morte do amigo: sem que se queira. É preciso “Morra eu imediatamente delembrar daí que o tema do pois de ter punido o culpado, destino é totalmente pontual para que não permaneça aqui na história. O protagonista se como objeto de riso, junto das despede de sua cidade atrás de minhas naus recurvas, inútil um destino que pode confun- fardo da terra”. Impõe-se em dir-se com o do seu avô, con- um modo geral o paradoxo: tado com detalhes nas falas fi- tornamo-nos determinados nais do seu pai. Ambos, avô e pelo destino que escolhemos? neto, são iguais na fisionomia, Pode morar aí o incomodo do perderam recentemente um protagonista, que não consegrande amor e preferiram se gue aceitar argumento de nerelacionar com as suas voca- nhum dos lados. ções de forma desapegada (no O impacto no rapaz é buscaso do avô a música, no caso car qual destino lhe determido neto a natação). Ao rapaz naria. “(Ele gostava da ideia só é descortinada toda a his- de que algo) está em curso no tória no instante em que o pai mundo profano, em processo se despede, numa decisão de natural, algum mecanismo no confundir a vida com o desti- corpo ou na mente que mais no que formou, desistindo de tarde chamamos de destino”. uma pelo bem do outro. A diferença entre ele e o pai, É o paradoxo de um fata- no entanto, é que este conlismo escolhido. “Vive-se en- cebeu a própria determinaquanto vale a pena, enquanto ção e aquele a recebeu como é útil”. O homem, diferente uma possibilidade, de forma

externa. O filho só constata a diferença entre os dois modos de destinação no clímax (“isto não está certo”), que é incrivelmente intenso e deve ajudar a pôr o romance como um dos marcos de nossa geração. O que o faz reviver o avô por dentro provoca a mudança, dita pelo próprio neto, de querer ir além do que já foi vivido. Mas será que ele o consegue mesmo, do modo como o faz? Não estaria rejeitando ainda o livre-arbítrio apenas porque ele não é absoluto? Veria nessa perplexidade a condição humana como um fardo? Ora, constatar que o homem é condenado para a e pela liberdade é uma afirmação, implicar nisto um fardo já é um passo adiante, não uma dedução necessária. Se o homem se constitui por um conhecimento através de sentidos imperfeitos, por modos de vida que se baseiam apenas nas ideias possíveis, pela constatação sobre si e sobre o outro por intermédio dos óculos de uma história – por que isto é um fardo uma vez que, no caso, não pode ser diferente? Não posso dizer que é ruim o fato de eu não ter asas, do mesmo modo que um cachorro não lamentaria ver preto e branco, porque é um limite para mim e para ele. Os fatos, assim, não representam a restrição da liberdade: são os limites para que a liberdade aconteça. “O mundo é tudo o que é o caso”, como sentencia


o filósofo favorito da personagem Viviane, o Wittgenstein. E se ele descobre ao final que “sobre o que não se pode falar deve-se calar”, não é para nos retirar da fala, mas para delimitar o campo em que a fala é possível, ou no caso de Barba Ensopada de Sangue, em que a escolha é possível. A angústia da maioria dos personagens do romance é constatar que o vislumbre de uma barreira para a liberdade infestaria todo o território da liberdade. Jasmin, a segunda namorada do protagonista, insiste em dizer: “É só dar nome às coisas que elas morrem”. Para ela, se há o que se deva calar, deve-se calar sobre todo o resto, e, claro, é aquela que não consegue definir destino nenhum para si. Disso o protagonista consegue livrar-se. O desafio maior seria superar o pai, que concilia a convicção em escolhas, mas ainda flerta com o ceticismo, por talvez não enxergar que ser vítima do próprio destino criado não seja uma fatalidade, mas uma constituição. O filho pôde, em suas experiências no litoral catarinense, vislumbrar o modo de “as duas tarem certas ao mesmo tempo”, mas ainda seguiu o velho e não fez o que ele não faria, ao que parece prosseguir a noção de um destino externo, relegado a mudanças na próxima geração – conforme se lê no prólogo -, quando já se havia condições de se mudar nesta. Ao final, preferiu-se outro fragmento

de Heráclito: “Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles”. II - Resta saber se existe aí um impasse do protagonista ou um impasse do romance enquanto posicionamento. O que favorece a leitura da primeira hipótese é a discordância de alguns personagens em relação às noções do protagonista. Seu amigo Bonobo, por exemplo, ironiza um bilhete em que o nadador preconiza a forma como vai morrer: “Se tu acreditar de verdade no que tá escrito aqui tu vai acabar colocando a coisa em movimento. Rasga isso”. A resposta do protagonista contém a mesma querela: “Se acontecer assim vai ser impossível saber se aconteceu porque eu disse ou se eu disse porque ia acontecer”. Outro bilhete premonitório é dado a Viviane, o que motiva a discussão entre os dois. Ela aponta várias lacunas em seu discurso e não se convence das refutações. Os argumentos dele para a dicotomia “livre-arbítrio e determinismo”, que por fim decidem a sua preferência, não apresentam uma tensão de pensamento entre contrários, mas sim uma contradição. Segue uma costura de alguns trechos:

Mas é assim. Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê. (...) Sei que não existe escolha e que mesmo assim a gente precisa viver como se exis-

tisse. Só isso. O que tu tá dizendo é ilógico. É absurdo (...) Tenho vontade de te sacudir, de dar na tua cara por causa dessa frieza, dessa arrogância, dessa vaidade.

Viviane esperava que as experiências no litoral catarinense e os últimos acontecimentos ao redor pudessem transformar o nadador. Ele de fato muda, recoloca questões em outros lugares, mas não se põe em novo fundamento; altera as premissas sem desfazer-se da conclusão. Por que, porém, ele precisaria fazê-lo? Perguntar-se assim é relevante, pois a espera por um “aprendizado do herói” pode conter pressupostos moralistas e conceber uma existência enquanto crescimento e elevação necessária. Ou seja, seria colocar um modelo geral de homem em contraste com um real particular e identificar por comparação onde estão os erros, os acertos, as metas. Afirmar que o protagonista não atingiu o objetivo de retirar de si a concepção de destino seria pressupor que exista um objetivo a ser atingido, o que implica na noção de destino a que se quer refutar. É um problema análogo em presumir que experiências e ideias possam conduzir a uma sabedoria ou retidão. Crer que determinados acontecimentos possam “ensinar” alguém a ser “melhor” toma como verdadeiras as noções de que os acontecimentos contêm significados por si mesmos, e,


portanto, são essencialmente feitas para uma correta apreensão, e de que haja um parâmetro fixo do que seja melhor e pior enquanto determinação. Ambas são problemáticas aos pontos que Viviane quer defender, para não tornar o que ataca o mesmo que defende. Com qual princípio, pois, pode confrontar o nadador e dizer que ele não entendeu tudo? Ela lembra uma palavra: “ilógico”. Se não há um modelo externo para desarticular uma crença, há um modelo interno, de acordo com os próprios elementos que alguém apresenta para si. De algum modo, Barba Ensopada de Sangue é uma ode ao direito à individualidade, em que se busca mostrar também as consequências de sua radicalização. No caso, para partir das próprias crenças, Viviane só poderia procurar no próprio indivíduo e nos dados do seu destino a acusação de um problema. É o que tenta fazer ao mostrar, a partir das conexões apresentadas pelo nadador, onde estão os elos que ele pensa fazer, mas não faz e por isso incorre em um erro particular, não precisamente em um erro geral. Discute-se a “lógica” na “lógica”, cuja ação poderia agradar a Wittgenstein, o filósofo tantas vezes repetido no diálogo, ora por gracejo, ora por símbolo de desentendimento. O problema é que a redução à lógica apenas pode não funcionar.

Conforme ocorre, um debate pode chegar à aporia de ambos os lados mostrarem suas provas e nenhum dos dois ceder em prol de um acordo. Ou, no caso, um dos lados pode chegar a uma lacuna evidente em sua fala e não enxergar problema, uma vez que remete a falha à impossibilidade da linguagem ou a uma crença de foro íntimo. Aí se ancoram os limites e não se pode mais proceder, caso se queira manter os pressupostos da liberdade constitutiva do homem. Este impasse se revela na outra palavra de Viviane, o “absurdo”, isto é, a impossibilidade de se ir além. É o que se instaurara por completo no pai do protagonista e também o afeta:

Olha, pensa o seguinte. Imagina como seriam as coisas se tu ou qualquer pessoa tentasse me impedir de agora em diante (...) Sei lá o que poderia ser feito, mas seria um pesadelo bisonho pra todo mundo. Percebe o absurdo? Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra (...) Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem o que precisam (...). Não tenta me persuadir. Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno.

Com essa contradição performática, em que o pai persuade o filho a não tentar persuadi-lo, muito se condensa do que está em jogo para o protagonista e de como mesmo a lógica ou a razão não garantem a ninguém a dissolução das contradições. Pode-se chegar a um ponto de vida, após várias experiências,

e isto não significar uma superação, pode-se achar que se superou um ponto quando ele permanece equivalente, com outras roupagens. Tampouco haveria diante do absurdo um acontecimento ou uma teoria que a dissuadisse pela força de sua expressão: nem mesmo o mais refinado argumento é suficiente por si mesmo. O lembrete de Galera é duríssimo, à quista do próprio herói, que não é “menor” por seu “erro”. É preciso, afinal, um pouco mais que “esperança” e que “palavras de ordem” para nos darmos em um projeto coletivo, no qual se envolvem complexidades de indivíduos num permanente contato e choque. Haveria um modo de que essa alteridade consiga infiltrar-se sem deparar sempre no absurdo, naquele em que ninguém de fato se comunica com ninguém e de que cada um já sabe previamente o que quer, sem a imprevisibilidade dos novos tons? Qual é a troca significativa dessa outra dicotomia, o eu e o outro, ambos absortos em todas as dicotomias que se implicam? Logo neste último passo não é mais permitida uma harmonia? Talvez uma rota possível esteja em mirar o futuro. Não da maneira como fez o protagonista, a partir de previsões exatas, mas pelo vislumbre de decorrências e da pergunta se é de desejo lançar, para mais uma cria, o que passou impávido por um avô, um filho e um neto.


Saulo Dourado é escritor e professor, além de um dos responsáveis pelo Blog de Literatura do portal iBahia. Venceu dois prêmios literários, um edital de criação da Fundação Pedro Calmon e já publicou contos em jornais e revistas como Pesquisa da FAPESB e Correntes D’Escrita, em Portugal. e-mail: saulomdourado@gmail.com


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Um ensaio sobre Barba Ensopada de Sangue, do Daniel Galera, por Saulo Dourado

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