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Chefes de reportagem Alex Peixoto, Larissa Galli, Marília Souza e Renata Werneck Direção de Arte e Diagramação Alice Leite e Ana Luísa Amaral Direção de Fotografia Luca Valerio Cidadania Editores Lucas Cardoso e Victor Gammaro Sub Editora Ana Carolina Alves Comportamento Editores Ana Luisa Leite e Igor Caíque Sub Editores Milena Oliveira e Victor Peres Cultura Editores Flávio Lacerda e Raphael Macedo Sub Editora Anna Jullia Lima Professor Pesponsável Luiz Claudio Ferreira Esquina Online Carolina Assunção Supervisão Técnica André Ramos Coordenador do Curso de Comunicação Social Henrique Moreira Email da Redação revistaesquina.uniceub@gmail.com

Reitor Getúlio Américo Moreira Lopes Vice- Reitor Edevaldo Alves da Silva Secretário-Geral Maurício de Souza Neves Filho Pró Reitoria Acadêmica Elizabeth Regina Lopes Manzur Pró Reitor Administrativo e Financeiro Gabriel Costa Mallab Diretor Adminstrativo e Financeiro Geraldo Rabelo Diretor de Ensino a Distância e da FATECS José Pereira da Luz Filho Diretor Acadêmico e da FAJS Carlos Alberto da Cruz Diretora da FACES Dalva Guimarães Diretor do ICPD José Herculino de Souza Lopes Filho


Caros leitores,

opinião

Crítica e Afeto

Pelos que não têm vez

É o primeiro Esquina publicado em formato de revista e, como toda “primeira vez”, essa novidade nos deixou com um frio na barriga. Foram muitos desafios enfrentados pela nossa equipe para que cada uma das páginas dessa nossa “criança” viesse à luz. E é pelo olhar - nada imaturo - dos mais jovens que a violência e o divórcio são tratados nesta edição. Outros olhares, mais críticos, afetuosos, cuidadosos e sérios dos repórteres nos fazem enxergar a ansiedade e a depressão com a seriedade que essas doenças, duas das mais incapacitantes do mundo atual, precisam e merecem ser vistas.

Muitos são os motivos que emocionam um jornalista. Seja quando apresenta denúncias em primeira mão, ou quando conta histórias de pessoas ou de lugares que levam o leitor a refletir e conhecer uma nova realidade. E é com a intenção de provocar reflexões, debates e de transmitir conhecimentos que nas páginas desta edição da Revista Esquina existem histórias de um campeão que supera as limitações físicas, de ex-usuários de drogas que vencem o vício todos os dias e de quem encontra em produto derivado da maconha o alívio para a dor. Mulheres marcadas por aqueles que amaram e uma riqueza natural que será privatizada.

Nossas páginas também são espaço para outras folhas: aquelas higienizadas por pessoas com deficiência, que se dedicam diariamente para cuidar de arquivos públicos. Nossas páginas são muros coloridos de feminismo grafitado. Nossas páginas contam as histórias dos vários caminhos que podem ser percorridos bem no centro de Brasília, no Conic, e também mostram uma alternativa para a cultura, que, fora das “Asas”, resiste e insiste nas regiões periféricas da capital. Relatos de corações partidos, resultantes de relacionamentos abusivos, ajudaram a construir um alerta para quem se encontra em situações de abuso. A proposta do documento único, sancionada ainda este mês pelo governo, abre espaço para uma discussão sobre os problemas de documentação enfrentados pelos brasileiros. Em meio a tantas histórias, temos a de um estádio demolido, que marcou a vida dos primeiros brasilienses. Depois de tantos anos, ele ainda permanece vivo na memória das pessoas. Da mesma forma, a realização desta revista deixou marcas e permanecerá em nossa memória, junto com o crescimento e amadurecimento, como repórteres e pessoas, que esse processo nos proporcionou. Pois são histórias como essas, contadas com a paixão desses repórteres, que mantêm o jornalismo vivo dentro da gente. A todos, editores, personagens entrevistados, especialistas, repórteres e professores, que se empenharam para materializar essa experiência, a nossa eterna gratidão.

Histórias em quadrinhos com personagens fora do “padrão”; histórias de verdade de quem depende dos serviços públicos. E os perigos do trabalho em altura. Essa equipe de jornalistas em formação denuncia que grávidas sofrem discriminação no trabalho e que agricultores podem ficar sem aposentadoria. E mostra, de repente, repentistas que não querem que sua cultura morra. O sol que é nascente, mas que fica encoberto na vida de muitos jovens na favela. E crianças que encontram nos versos cantados, alívio para os males do corpo e da alma. E fala também daqueles que buscam saber quem são, e dos que querem um lugar para chamar de seu. A equipe Esquina é composta por estudantes que aprenderam que o jornalismo deve se importar com quem não tem vez, com quem não é ouvido, e deve mostrar o que muitos não querem ver. Estudantes esses que conseguiram tornar realidade o que antes era só um projeto. Que enfrentaram obstáculos, como pautas que caíram, cobranças e debates acalorados. Mas que com muito suor e vontade de aprender, apresentam agora a primeira Revista Esquina. Entre, seja bem vindo.


Nossa Equipe

o Dieg ng e u Sch

Anna Jullia Lima

André Ramo s

r Victo s e r Pe

ael Raph o d e c Ma

Maria Júlia

Claris sa Galin do

Caro l Viei ina ra Luca Valerio

Larissa Galli

Erik el Schanab

Rafael Amaral

Eduardo Campos Rafaela Pantel

Kelly y tt Sena

Carolina Assunção

Luísa a Ana rvilh Carolina E Alves

Bianca a Cristin

ia Maríl za u o S de

Alice Leite

Flávio Lacerda

Lucas Valença

Victor Gammaro

Lucas Cardoso Jaqu e Ama line nda

Laís Holand a Luiz Cláudio Ferreira

Juliana Gonçalves Ana Luísa l Amara

Beatriz Vieira r Victo es Chav

Milen a Olive ira

lina Caro Saab

Renata a Bezerr

Renata Werneck Ana Luísa Leite

Gust a de Li vo ma

Deborah Novais

Alex Akira

Igor Caíqu e

Arte: Carolin a Vieira


60 Paraísos no Conic Como acontecem as relações entre as promessas de paraísos e infernos que formam o Setor de Diversões Sul, no centro da capital brasileira

agora”

DOCUMENTO

~ EDUCACAO ~

TRABALHO 8 Alerta na produção 28 “Você não deveria ter engravidado

42 Desafio escolar em Águas Lindas 48 Mais tempo na escola

11 Uma questão de identidade

ACESSIBILIDADE

MEIO AMBIENTE

19 Peças Raras 24 Cavalgada de Superação 26 Sons de cura

75

Polêmica e desinformação em Alto Paraíso

´ MEMORIA 57 O herói esquecido de Brasília URBANO 51 Enfim, dignidade 54 A longa espera como rotina


VIOLENCIA ^ 33 As marcas da dor: A violência contra a mulher no DF

37 A Violência Pelo Olhar Delas 44 Alvorecer no Sol Nascente ARTE

Sumário NOSSA CAPA Página 14 / Foto: Luca Valerio Nossa capa traz um material sobre o risco de quem trabalha muito longe do chão. São histórias de pessoas que ajudaram a erguer, com tijolos, os sonhos dos outros. E de famílias que, mesmo com o passar do tempo, sentem as dores de uma queda sem volta.

66 Muros coloridos de feminismo 72 Cultura fora das Asas 78 Amor de Repente 82 Quadrinhos pela tolerância 105 Perigos em “Os treze porquês” ESPORTE 76 Shinobi Shin-do: A arte marcial nascida em Brasília

RELACIONAMENTOS 91 Filhos de Amores Vencidos 94 Amores cercados

´ SAUDE 99 Marcas físicas de uma doença mental 102 Transtorno Ansioso no trabalho MACONHA 111 Canabidiol: Uma luta em gotas 106 Diversão, vício & fumaças

Enquanto milhões de pessoas fazem uso recreativo da maconha, profissionais alerta sobre impacto no corpo e na mente


Cidadania

alerta na produção Histórias de agricultores no DF cercados de dúvida sobre a aposentadoria

Na colheita de morango, a postura é a maior vilã. Agricultores chegam a passar cinco horas agachados para escolher as frutas.

Sete horas da manhã. É hora de começar a colheita, não importa o quão quente esteja o sol ou se chove. A principal produção da família é o morango. Para colher o fruto, é preciso ficar pelo menos cinco horas agachado, posição que, muitas vezes, traz vários problemas de coluna. O trabalho exige esforço físico. Essa é uma das atividades mais pesadas da chácara, localizada em Brazlândia. O pai e o filho mais velho colhem as frutas com cuidado para que não sejam feridas. Enquanto isso, é função da mãe encambucar, ou seja, organizar os morangos na bandeja para serem comercializados. Com a enxada na mão, as botinas empoeiradas, um chapéu para se tapar do sol, ou até mesmo da chuva, os chacareiros seguem a rotina. As mãos calejadas e marcadas pelo ácido das frutas e verduras trazem as marcas da luta. O agricultor José de Assis, 59 anos, tem como sua única fonte de renda a produção de frutas, como o morango, e legumes, como o pepino. Para o produtor, que ainda não se aposentou, a profissão oferece qualidade de vida, e foi escolhida como uma oportunidade, depois de ter tentando a vida em outra profissão. “O meu maior medo é não conseguir me aposentar, pois não contribuí com o INSS. Com a aprovação desse projeto me sinto perdido”, comenta o produtor.

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Milena Oliveira Texto e fotos


Cidadania José já carrega os sinais do cansaço e exaustão. Ele conta com a ajuda de três funcionários para realizar o trabalho da lavoura. Devido sua idade e aos problemas de saúde, o trabalho que exige mais força já foi deixado de lado. O produtor, duas vezes por semana, às segundas e quintas-feiras, acorda às 3h da madrugada, e, com o caminhão carregado vai à Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF) vender sua mercadoria. Os preços instáveis causam instabilidade na vida da população agrícola. Assim como José, Ian Rocha, de 22 anos , formado em biologia, tem a agricultura como forma de sustento e é feliz com sua profissão, porém, a aposentadoria e as mudanças ainda não causaram preocupação. “Comecei a ajudar meu pai bem cedo, eu tinha uns 10 anos, fazia de tudo um pouco. Com 15 anos, o trabalho ficou mais sério, tirando o tempo da escola, eu sempre estava envolvido em atividades da chácara”, lembra. Para o jovem agricultor, quando a responsabilidade de ajudar o pai ficou mais séria, ele também passou a querer ganhar seu próprio dinheiro e não depender mais da família. Ian é o filho mais velho de uma família de seis pessoas, e o único que ajuda o pai. Ele afirma que trabalhar na roça tem lados

bons e ruins. “A vantagem do trabalho rural é a flexibilidade de horário. A desvantagem é que é um trabalho puxado, exige muito fisicamente, tem dias que sinto dores no corpo”, conta o jovem. O empresário rural Fabio Harada, de 56 anos, faz parte das famílias de japoneses que trouxeram o morango ao DF. Fabio está inserido no meio agrícola desde que nasceu, saiu da chácara apenas para servir ao exército e cursar uma faculdade, aos 18 anos. Sobre a possível reforma da previdência, em discussão no Congresso, o produtor destaca que será um golpe na vida dos pequenos produtores. “Essa reforma prejudicará os mais humildes, aos que não tem acesso a informação”, lamenta. Para os produtores rurais, existem vantagens e desvantagens de ser agricultor. Fabio destaca a falta de estabilidade nos preços dos produtos e não ter uma política pública como os pontos negativos. Flexibilidade de trabalho e horário, e por ser um bem para a sociedade, são vistos como as qualidades. As dúvidas quanto a aposentadoria cercam de incertezas a classe que lutou sem cessar para trabalhar em situações difíceis.

Aposentadoria Para Sonia Lemos, extensionista rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater), se aprovada, a Reforma da Previdência será uma grande perda de direitos, visto que, na agricultura, as pessoas começam a trabalhar muito cedo. “Pelo fato de que o trabalho rural é exercido debaixo de sol ou chuva, as jornadas são longas, começam na maioria das vezes de madrugada e se estende até o anoitecer”, afirma. “As atividades desenvolvidas são braçais, exigem muito do físico da pessoa, portanto, o agricultor merece usufruir do direito à aposentadoria mais cedo que qualquer outra categoria de trabalhado”, ressaltou Sonia. Atualmente, as mulheres podem requerer aposentadoria rural aos 55 anos, já os homens, aos 60. Em ambos os casos, os trabalhadores têm que comprovar 15 anos de efetivo exercício da atividade rural, de forma contínua ou descontínua, de acordo com a Emater. A partir da proposta, os trabalhadores rurais terão os mesmos direitos de aposentadoria dos urbanos: idade mínima de 65 anos, com 25 anos de contribuição. Ian é formado em biologia.

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Cidadania infância Desde criança, quem nasce em área de produção agrícola, tem o “dever”, junto com as mães, de cuidar dos pequenos animais, ajudar em tarefas como capina, plantios, colheitas, seleção de produtos para comercialização, e muitas vezes, participam de feiras ou entregas de produtos junto com os pais. O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais (Contag), Alberto Ercílio Broch, criticou o texto da Reforma da Previdência e sugeriu a retirada de todo o capítulo sobre os trabalhadores rurais. “Nós

mília para todos os direitos e benefícios que a categoria tem direito, inclusive os benefícios oferecidos pela Previdência Social. Os Sindicatos rurais também direcionam os seus sindicalizados a acessarem esses benefícios ou direitos, porém, esse serviço é mediante a filiação ao sindicato e pagamento das mensalidades.

ENQUANTO ISSO, NO CONGRESSO... O deputado Bohn Gass (PT-RS) afirmou que o trabalhador rural é o que mais vai sofrer com a reforma. “Ele ficará desestimulado a produzir alimento, aumentará a saída do jovem no campo, os municípios vão quebrar em

Ian Rocha, na colheita de morango, mora em Brazlândia e trabalha desde os 15 anos de idade. Ele quer continuar no campo.

estamos conversando com todos os prefeitos do Brasil, com todos os vereadores, mostrando o impacto que isso gerará nos municípios e naqueles que mantêm a economia e a produção de alimentos. Tudo para sensibilizar a sociedade sobre os malefícios da reforma da Previdência, da forma como ela está”. A proposta de Reforma da Previdência (PEC 287/2016) traz preocupação aos agricultores. No Distrito Federal existem cerca de 18 mil propriedades rurais. O trabalho duro e braçal é a realidade que permeia a vida de muitos produtores rurais por todo o DF. O serviço de Extensão Rural da Emater orienta e conduz o agricultor e sua fa-

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vários lugares porque o retorno da Previdência é maior do que o Fundo de Participação dos Municípios, o comércio vai vender menos, a indústria produzirá menos, e isso vai gerar desemprego”, opinou. Já o deputado Mauro Pereira (PMDB-RS), favorável à reforma, assegurou que o trabalhador rural não será prejudicado. “Os deputados da base do governo têm o maior respeito pelos nossos agricultores e por todos aqueles que produzem alimentos para levar à mesa das famílias na cidade”, defendeu.


Cidadania

Uma questão de identidade Planalto aprovou projeto de documentação única. Apesar de simplificar processo, a documentação unificada não resolve problemas da população em geral

A doméstica mineira Eguimar Caldeira de Brito, de 35 anos, tenta há quatro anos oficializar a união com o parceiro. A única coisa que a impede de realizar esse sonho são os documentos. Por causa de uma sucessão de erros em sua documentação, ela não pode se casar no Distrito Federal. Tudo porque o seu nome é escrito de duas formas: ‘de Brito’ e ‘Brito’. Duas letras que viraram um obstáculo na vida dessa senhora. O erro vai além do papel. A doméstica só soube da sua situação aqui na capital, ao dar entrada na papelada para o casório. “Chegando no cartório, eu fiz todo o procedimento que eles me pediram. A moça identificou uma rasura no nome do meu pai e na certidão de nascimento do meu esposo: uma letra errada no nome do pai dele. Ele conseguiu arrumar, porque nasceu aqui no Gama. Mas o meu problema não foi resolvido”. Certidão de nascimento ou de casamento, identidade, CPF, título de eleitor, passaporte e carteira de motorista estão entre alguns dos documentos essenciais para fazer qualquer tipo de pedido ou poder desfrutar de programas sociais. Eguimar é apenas um exemplo entre os brasileiros que sofrem com problemas no documento. São várias as adversidades para conseguir retirar toda a documentação e poder ter seus direitos garantidos. Desde a dificuldade de acesso, até questões financeiras ou burocráticas.

Com o objetivo simplificar esses processos e resolver problemas relacionados ao grande número de documentos necessários atualmente, o presidente Michel Temer sancionou o Projeto de Lei do Documento Único. O projeto tem previsão de somente ser colocado em prática em 2022, tempo que a Justiça Eleitoral estima para completar o cadastro único de todos dos cidadãos brasileiros. Idealizado pela primeira vez em 1997, o projeto já passou por uma verdadeira epopeia pelos três poderes da República antes de chegar à versão que foi aprovada pelo Plenário. O projeto, apresentado e administrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contempla a informação biométrica já recolhida pelo órgão. O projeto original pareceu simples: unir em um só documento o RG, CPF e título de eleitor. Porém, ao contrário das imagens que foram veiculadas, o documento final previsto será parecido com o que é a identidade atualmente. Weverson Ferreira, de 24 anos, já teve seu primeiro nome escrito de forma errada várias vezes em seus documentos. O transtorno, para ele, é retirar segundas vias. “Meu nome é um pouco complicado e sempre quando eu ia fazer meu documento, a pessoa que estava me atendendo escrevia errado e não pedia para eu conferir a grafia. Sempre que eu ia buscar o documento, tinha algo errado. Uma coisa simples de resolver mas que sempre acaba dando errado”, relata. Decepcionado com o descaso de órgãos emissores, ele acredita que a integração desses documentos é complicada.

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Cidadania Um dos grandes obstáculos para a segurança do projeto é o pouco uso do recurso da biometria, que utiliza traços da própria pessoa para identificá-la. Atualmente, e também no projeto aprovado pelo Plenário, a única biometria presente nas documentações brasileiras é a impressão digital. A perita criminal Sara Lais Lenharo, especialista em biometria, explica que a falta de investimento acaba por não garantir a segurança e efetividade do novo documento. “Existem algumas biometrias que podem ser mais facilmente fraudadas. A impressão digital, por exemplo, já foi adulterada através do uso de dedos de silicone. Uma forma de dificultar isso seria não usar uma única biometria. A íris e as veias da mão também alternativas fortes para identificação pessoal”. O perito criminal federal, Hélvio Peixoto, que coordenou até 2015 o projeto Registro de Identidade Civil (RIC), Ministério da Justiça, encarou por dois anos a problemática de analisar e viabilizar o melhor modelo para o país. “Alguns documentos claramente não podem ser unificados com outros, a exemplo da carteira de motorista. A carteira de habilitação é uma concessão do Estado, tanto que ela pode ser confiscada. Já a carteira de identidade não: ela é um direito do cidadão.”, destaca. Já o passaporte não pode ser substituído porque é uma exigência internacional para entrar em outros territórios.

Questão social Atualmente, de acordo com a Polícia Federal, menos de 5% da população brasileira não é registrada. A maioria dos problemas são resultado de falhas no registro de crianças, que crescem e se tornam pessoas que não existem no sistema e não podem exercer plenamente sua cidadania. Apesar do baixo percentual, os problemas com documentação, ainda são recorrentes para as camadas mais vulneráveis do país. A dificuldade de acesso da população a um cartório próximo na cidade ou região complica todo o processo de registro . O direito a programas sociais, como Bolsa Família e o Cadastro Único, depende, pelo menos, da apresentação do registro da certidão de nascimento em cartório. Esse tornou-se um problema para famílias que ocupavam irregulamente área no Noroeste, por exemplo. Ao receberem o aviso de despejo, eles tentaram usufruir de recursos que o Governo de Brasília oferece para a população, mas não conseguiram. A coordenadora do Movimento da população em situação de rua do DF e liderança da Invasão, Mahila Feitosa explica o caso. “A gente teve problema com documentação. Muitas pessoas não tinham CPF nem identidade e não teve como fazer a inscrição na Companhia de Desenvolvimento Ha-

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Segundo especilistas, novo documento não resolve problemas da população. Foto: Ana Luísa Leite

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“Sempre que eu ia buscar o documento, tinha algo errado. Uma coisa simples de resolver mas que sempre acaba dando errado”.

bitacional do DF. Para trabalhar todo o processo da documentação tivemos apoio da Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos”. O advogado e professor de Direito, Aldemario Araujo Castro, explica que esse projeto, como foi proposto, pode sim simplificar o processo de documentação da população que possui já o registro da certidão. Isso consequentemente facilitaria o acesso a programas sociais. “As pessoas que não têm documentação poderiam criar um procedimento em que se obteria o documento necessário. Automaticamente, isso geraria os vários registros que ele incorpora. Então há uma perspectiva de maior facilidade na obtenção dos cadastros que hoje são feitos em órgãos diferentes”.


Cidadania

NORTE: 295.298

CENTRO-OESTE: 245.825

BRASIL: 2.954.344 registros de certidão de nascimento no ano de 2015 Dados: IBGE

“Temos que entrar na justiça”, diz estudante Outra camada da sociedade que ainda lida com problemas generalizados de documentação é a população trans. Por querer mudar não somente o nome, mas também o sexo de seus registros, o processo é burocrático e complexo. A ativista transexual e estudante de Direito, Maria Léo Araruna, de 22 anos, destaca as questões judiciais da causa. “Por enquanto, para a gente realizar as nossas trocas de documentos, temos que entrar na justiça e em todos os trâmites judiciais para conseguir todos os nossos registros”. No Brasil, a mudança do nome é mais fácil do que a mudança de sexo. “Geralmente a gente entra com um advogado ou defensor público para a mudança de nome. Nós temos que coletar alguns laudos de endocrinologistas, psiquiatras e principalmente, de psicólogos, que afirmam a nossa transexualidade. Só isso já é um problema”, relata. Aldemario comenta que a nova documentação também não resolveria o problema das pessoas trans, mas simplificaria a situação. “Se você tem essas bases de identificação interligadas, seria infinitamente mais simples, mais rápido, mais fácil e mais efetivo fazer essas

NORDESTE: 822.070

SUDESTE: 1.177.165

SUL: 404.986

alterações de registros relacionados com a identidade sexual. Aliás, isso garantiria de forma mais efetiva os direitos de cidadania desse segmento da população. A interligação de base de dados apontaria no sentido de uma facilitação desses procedimentos”, explica.

“Nós temos que coletar alguns laudos de endocrinologistas, psiquiatras e principalmente, de psicólogos, que afirmam a nossa transexualidade. Só isso já é um problema”. Maria ainda atenta para o Projeto de Lei que foi idealizado para, de fato, resolver a questão dos nomes para a identidade de transexuais. “A gente luta também pela aprovação da Lei João Neri, que carrega o nome de um homem trans importante dentro da militância. É uma lei escrita pelo deputado Jean Wyllis e trata sobre a mudança mais fácil e menos burocrática dos nomes e do sexo nos nossos registros. A proposta dessa Lei é que as mudanças seriam feitas simplesmente e diretamente no cartório”.

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Cidadania

Arte: Camila Fernanda

LUCAS VALENÇA Dizem que as paredes têm ouvidos. Mas, na arquitetura rústica e simples do lar de Maria Sileide, elas escutavam a vida dos expressivos sorrisos e choros das quatro crianças, na sala. Desde aquele momento, o silêncio tomou conta. A ausência eloquente contagiou a casa. Não foi o mero atravessar da porta pelo amigo de longa data que sufocou o ar da família e ofuscou os desenhos animados das crianças. A mensagem que ele trazia era de que o marido havia cumprido “sua sentença”, como a de um “mal irremediável” descrito em ‘O Auto da Compadecida’, por Ariano Suassuna. Chico Buarque também abordou a situação quando embotou lágrima e cimento à poesia “Construção”. Servente de pedreiro, João Alves da Cruz não sobreviveu após cair de uma altura de cerca de 12 metros. Ele ajudava a erguer, com tijolos, os sonhos dos outros que, meses depois, sentiriam, pela janela, os ares do novo lar (além de uma montanha de

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prédios à vista). A obra do edifício residencial em Águas Claras, bairro de classe média alta em Brasília, onde o servente jamais imaginaria morar, tornou-se cenário da tragédia que vitimou o pai de família. À época, ele tinha 34 anos. Até então, suava, diariamente, em cada uma das 14 horas de serviço. Era necessário. Aquele esforço mantinha o sustento da família com os R$ 622 mensais. Primeira reação, uma dor, quase insuportável, apenas contida pelo olhar inocente das quatro crianças que viam, no olhar da mãe, o desespero. Era como se as paredes tivessem caído. Como manter o alimento, as roupas e a vida, mesmo que simples, dos gêmeos, à época com nove anos, do filho de cinco, e da filha mais nova, de um ano e oito meses? Faltava menos de dois meses para a família se mudar para Juazeiro (BA). A intenção era ajudar o avô materno das crianças na roça, projeto


Cidadania que nunca se realizou. Era sofrido, mas Maria Sileide precisava ir até o local do ocorrido. As pernas estavam incontroláveis, tremiam o tempo todo na dificuldade de manter-se em pé. Ela lembra que as lágrimas não secavam ao recordar os nove anos juntos do casal. “Eu não tenho nem palavras. Quando a pessoa perde um ente querido ela fica sem chão. Ele era novo, estava com apenas 34 anos”, lamentou.

“Fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar” (Cidadão, Zé Ramalho) João Alves da Cruz morreu no dia 31 de maio de 2011, depois de cair do andaime que montava na obra. A esposa lembra que a empresa A&A Construtora e Incorporadora Ltda, à época, atribuiu a culpa ao marido. A versão que lhe contaram foi a de que ele havia sido negligente ao desprender o cinto de proteção. Ele se desequilibrou e caiu do quarto andar. Ela preferiu não entrar na justiça nem notificar o sindicato. Assim, não recebeu indenização. (No entanto, a construtora fez um “acordo informal” em que pagaria o sepultamento do cônjuge, manteria o salário, durante tempo indeterminado à família (sem o reajuste de inflação), e prometeu comprar uma casa em “qualquer lugar” do país). O apoio da irmã e de outros familiares fez Sileide deixar a casa alugada em Santo Antônio do Descoberto (GO), cidade no entorno do Distrito Federal, e se mudar para Montes Claros de Goiás. O sentimento de gratidão à empresa é baseado nesse acordo informal. Com ele, Maria Sileide pôde manter o sustento dos filhos e da filha nos últimos seis anos. “Eles me ajudaram bastante. A empresa ficou do meu lado todos os dias”, defende Maria Sileide. Ela diz que um dos empregados liga, frequentemente, para perguntar como ela tem passado. O problema se deu, quando, logo após a tragédia, um dos funcionários “recomendou” que a família não entrasse na justiça. “Ele disse que quem perderia seria eu. Fiquei com medo, estava pensando nos meninos, né? pensando em mim e na família”, conta.

Era ele que erguia casas / Onde antes só havia chão (Operário em Const rução, Vinícius de Moraes) As empresas procuram negociar acordos informais com o trabalhador ou da família porque, muitas vezes, há conflitos de natureza financeira. É o que acredita Rai-

Trabalhadores da construção civil se arriscam em beiradas de obras em Brasília. /Foto: Luca Valerio

mundo Salvador da Costa, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Brasília (STICMB). “A empresa dialoga com ele (o empregado), pede para não falar com ninguém sobre o ocorrido, e passa a dar alguma remuneração a esse trabalhador. No final, quem sai ganhando é o empregador”. São filiadas ao sindicato cerca de 35 mil pessoas. O presidente esclarece que o amparo jurídico disponibilizado pelo sindicato procura evitar a proliferação dos pactos entre patrões e empregados. “A gente se coloca à disposição, mas não tem como ligar para cada um de nossos filiados. Não temos nem equipe para isso”, conta. Trabalho em altura é todo serviço que possua um potencial de queda de dois metros, ou seja, que esteja a dois metros do piso inferior. O conceito é definido em Lei e defendido pelo Ministério do Trabalho (MT). O órgão, por intermédio da assessoria, também forneceu dados que revelam as categorias mais vulneráveis ao risco de queda com diferença de nível, não necessariamente de altura. O número se baseia nos acidentes comunicados. As categorias com maior número de acidentes são as de servente de obras (22), pedreiro (20) e de motorista de caminhão (18). Enquanto essas duas primeiras pro-

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Cidadania fissões são vitimadas por falta de estrutura adequada, a última tem relação com quedas na hora da troca da carga, conforme explicam os sindicatos dos trabalhadores.

Confira gráfico das categorias mais afetadas (média anual) 9

Segundo Salvador, o trabalho em altura é “extremamente delicado”, justamente porque a maioria dos acidentes fatais ocorrem de lugares mais elevados. Ele mostra que desde 2011, o STICMB registrou 50 acidentes fatais, sendo 37 compreendidos na definição do Ministério do Trabalho. Salvador explica que a quantidade de vidas perdidas diminuiu após o fortalecimento do diálogo com diversos entes interessados. “Juntamos trabalhadores, empregadores e governo para buscar mecanismos que melhorem os procedimentos do trabalho em lugares elevados. Assim, nós tivemos a criação da NR-35 (norma regulamentadora 35) que trata especificamente sobre o tema”. A norma define as atribuições das partes para evitar práticas que ponham em risco o operário. Em março deste ano, o Ministério Público do Trabalho do Espírito Santo (MPT-ES) produziu uma cartilha com uma história em quadrinhos para tratar, didaticamente, sobre o tema. Além dos que já existem, procedimentos precisam ser avançados para minimizar os riscos e diminuir o número de “acidentes” em lugares elevados. Para o presidente da entidade sindical, os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) não bastam para evitar a queda do funcionário. É importante que as empresas se atentem à utilização do EPI em conjunto com o EPC (Equipamento de Proteção Coletiva) para sanar o problema. No entanto, em grande parte dos casos de falecimento, disponibilizados pelo sindicato, o funcionário fazia uso do EPI, mas a empresa não fornecia os treinamentos e orientações previstas na NR-35. A construção civil possui inúmeras peculiaridades, entretanto, uma se sobressai. Quanto mais rápida a obra é executada, maior é o lucro do empresariado. A conta é simples. Empregadores que se descuidam nas questões trabalhistas colocam a vida dos operários em risco. “Com isso, o trabalhador acaba sendo explorado em jornadas exaustivas, além de terem os aparatos de proteção reduzidos”, reclama Salvador. O presidente do sindicato também lembra que um dos acidentes com maior repercussão na mídia, nacional e internacional, se deu na construção do Estádio Nacional de Brasília. As obras precisavam sair. Meses depois, aconteceria o maior evento futebolístico do mundo.

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Servente de obras Pedreiro Motorista de caminhão Montador de estruturas metálicas

Veja o gráfico com o número de mortes registradas pela entidade que representa os trabalhadores da construção civil: 11 9

5 3 2

2011

2012

2013

2014

2015

Foram as empresas que compunham o Consórcio Brasília 2014 (as construtoras Andrade Gutierrez S.A. e a VIA Engenharia S.A.), responsabilizadas pela morte do funcionário José Afonço de Oliveira, de 22 anos, que despencou de uma altura de aproximadamente 30 metros. O fato ocorreu no dia 11 de junho de 2012, e, recentemente, as empresas foram multadas no valor de R$ 10 milhões, por danos morais coletivos. A quantia foi pedida pelo Ministério Público do Trabalho, que ganhou a causa no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). O consórcio ainda recorre da decisão.


Cidadania “Subiu a construção como se fosse sólido” (Construção, Chico Buarque) Segundo o relatório de inspeção, elaborado à época do ocorrido, que foi acompanhado pelo técnico de segurança do consórcio, Ronaldo Gonçalves Pires, José Afonço fez uma pausa no trabalho para beber água e, ao voltar, resolveu passar por um caminho, por onde “possivelmente” estava acostumado a passar, e acabou caindo. Antes esse percurso era sustentado por treliças cobertas de madeirite, porém, o relatório descreve que elas estavam sendo retiradas do local. O mesmo técnico de segurança relata que a área não poderia ter uma “barreira fácil de ser transposta”, mas um guarda-corpo contra quedas de altura. O relatório da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do DF, mostra a “ineficácia no isolamento” do local. No documento consta que as construtoras também pecaram ao supervisionar José Afonso, que não possuía experiência, era jovem e novo na empresa. Para o procurador do MPT, Valdir Pereira da Silva, que ajuizou o processo de danos morais coletivos, a tragédia que vitimou o jovem pedreiro foi claramente uma falha no mecanismo de prevenção. Para ele, sempre que há problemas no meio ambiente do trabalho, que resultam em mortes ou acidentes graves, a omissão é a responsável.

Ministério Público do Trabalho fez cartilha para orientar empregados.

35.3.1 O empregador deve promover programa para capacitação dos trabalhadores à realização de trabalho na altura. 35.3.2. Considera-se trabalhador capacitado para trabalho em altura aquele que foi submetido e aprovado em treinamento, teó e prático, com carga horária mínima de oito horas... Fonte: Trecho da Norma Regulamentadora nº35.

“Eu tenho uma resistência muito grande em chamar aquilo que ocorreu com Afonço, e com outros, de acidente”, disse aborrecido. Laudos produzidos por diferentes órgãos fundamentam o argumento do procurador. Ele lembra que a responsabilidade no ambiente de trabalho é dos patrões e dos empregados. No entanto, a hierarquia estabelecida, a exemplo da construção civil, faz com que os patrões assumam a obrigação de “vigiar e monitorar” o funcionário. “Isso não significa, como me disseram nesse caso, que é dar uma babá para cada empregado”. Segundo ele, é “muito fácil” jogar a culpa, por eventuais ‘acidentes’, nas costas do empregado. “Se você for pesquisar cem acidentes do trabalho, você vai verificar que: o culpado

Foto: Luca Valerio

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Cidadania (na visão das empresas) sempre é a vítima. Então isso é um jogo de empurra. É isso que leva o Brasil a ser um dos recordistas mundiais em acidentes de trabalho”, completa. As denúncias de irregularidades nas obras do estádio foram feitas pela mídia naquela época. Todas giravam em torno da precarização das condições de serviço de aproximadamente três mil funcionários. As construtoras foram notificadas, mas, enquanto o MPT atuava para melhorar as condições do local, Afonço foi vitimado. No mesmo dia o procurador esteve no local para coletar as provas do chamado ‘acidente’. “A minha preocupação era, que aquela situação não se repetisse em relação ao conjunto de empregados da obra. Lamentavelmente o Afonço morreu, mas é preciso se certificar que isso não ocorra novamente”, explica Valdir. Em relação ao caso de Maria Sileide, que recebeu um acordo informal da empresa em que o ex-marido trabalhava, o procurador esclarece que os familiares possuem o direito constitucional de entrar na justiça em busca do espólio. Caso o patrão ameace o trabalhador

[ ] “Se você for pesquisar cem acidentes do trabalho, você vai verificar que: o culpado (na visão das empresas) sempre é a vítima. Então isso é um jogo de empurra. É isso que leva o Brasil a ser um dos recordistas mundiais em acidentes de trabalho”.

ou a família para não entrar com uma ação trabalhista, o procurador afirma que o ato é criminoso.

“Ele jamais poderia ameaçar o empregado de ajuizar uma ação trabalhista. O Brasil é um Estado democrático de direito e repele esse tipo de coisa. Isso se chama, constrangimento ilegal”, ratifica. *A reportagem procurou as empresas citadas, mas não obteve as repostas sobre os acidentes trabalhistas.

Estádio Mané Garrincha, alvo de investigação, foi também espaço para desrespeito às normas trabalhistas./Foto: Wikipédia Commons

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]

Cidadania

s a n i Pág s a r a R O olhar cuidadoso de pessoas com deficiência sobre arquivos da Câmara dos Deputados.

Como pessoas com deficiência têm atuado em órgãos públicos no trabalho de higienização de livros e publicações antigas. A cada folha recuperada, eles têm uma nova chance de se superar

Eduardo Campos Texto e fotos

Todos os dias, Guilhermo Cavalcante, de 32 anos, pega dois ônibus para trabalhar seis horas no Supremo Tribunal Federal (STF). Costuma perambular de um ponto a outro, impaciente para não perder a hora. Decorou as frentes dos ônibus, mas, se necessário, interroga motoristas e defende o direito de preferência. Ao chegar, prepara-se com luvas, óculos de proteção, máscaras, touca e jaleco para se transformar, assim como seus colegas, no “doutor dos livros”. Guilhermo foi diagnosticado com Síndrome de Asperger, um tipo de autismo que gera dificuldades de interação e de comunicação. Há quem enxergue no rapaz limitações. “No ônibus, me olham de forma estranha”. Guilhermo não se incomoda e diz que isso está no olhar do outro. “Não em mim”. Não tinha coordenação motora, não andava, não se alimentava direito, não desenvolveu corretamente a fala e, segundo investigação médica, logo morreria. Mas ao contrário do que podia se supor, transcendeu e, de uma criança “com problemas”, se fez um ser humano capaz de muitas coisas. Hoje, ele trabalha como higienizador de bens culturais na equipe inclusiva de prestação de serviços do Supremo Tribunal Federal (STF) de

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Cidadania maneira sublime e coordenada. O trabalho dele exige máximo cuidado: a higienização ou o diagnóstico é uma limpeza feita folha por folha, frente e verso, página por página, uma a uma. Papéis ácidos, quebradiços, fungos e grampos são algumas das adversidades encontradas pelos higienizadores. Casos como o de Guilhermo têm recebido atenção de instrutores profissionais, encantados com a superação.

guns documentos higienizados são pedidos diretos de algum ministro e podem estar há muito tempo armazenados e necessitando de uma higienização para manutenção do conteúdo.

“Me respeitam”

Urbano Silva tem 41 anos, é deficiente intelectual e faz parte da equipe higienizadora da Câmara dos Deputados. “Hoje gosto muito de trabalhar aqui, mas na época O curso de Higienização, Conserque fazíamos o curso pensei que vação e Pequenos Reparos de Bens era impossível sermos chamados Culturais é realizado tanto pelas para o trabalho”, confessa. Urbapessoas com deficiência, como no tem experiência de trabalho no pelos instrutores. Há 10 anos, essa mercado competitivo. Sem um inscapacitação insere pessoas com trutor qualificado para auxiliá-lo, deficiências intelectuais e múltiA pedagoga Ana Maria Fidélis, esperavam dele o rendimento de plas no mercado de trabalho, em de 53 anos, é a instrutora de Guiuma pessoa sem qualquer tipo de acervos bibliográficos e áreas dolhermo. Ela possui curso de oriendeficiência. No último emprego, em cumentais, com supervisão e orientadora especializada em educação uma loja de roupas, ele conta que tação permanente. É uma iniciativa especial desde 1993 e dá suporte foi maltratado. “Eu tinha um colega em favor da geração de emprego e aos cinco higienizadores e dois esde trabalho que era deficiente físico renda para aqueles que não encontagiários integrantes da equipe do e que fazia a mesma coisa que eu: tram oportunidade de inclusão e STF. Ela ressalta que o trabalho colocava alarmes nos produtos da permanência no mercado de trabatem de ser “integrador, inclusivo loja. Um dia ele disse para o nosso lho tradicional. e compreensivo”. Segundo ela, alchefe que eu era muito lento e não tinha as mínimas condições de trabalhar ali. Em outros momentos ficava fazendo gozação comigo, dava ordens e falava mal, o que me deixava muito triste”, afirma Urbano. “Hoje em dia, aqui na Câmara, eu trabalho com o que 4 higienizadores gosto, as pessoas me respei1 instrutora tam e sou muito feliz”. 5 higienizadores

TSE

2013

Câmara 8 higienizadores dos instrutora Deputados 12008 (data de início dos contratos e trabalho)

8 higienizadores 1 instrutora 2010

Senado Federal

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STF

1 instrutora 2011

Também na Câmara dos Deputados, Graci Vitória é instrutora desde dezembro de 2008, quando se iniciaram os trabalhos na instituição. Graci, de 71 anos, começou sua jornada como voluntária, há mais 10 higienizadores de oito anos, 2 instrutores na Associação de 2013 Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Ela realizou o treinamento e o curso junto 6 higienizadores com a equipe inclusiva no ano 1 instrutor de 2006. “Eu conheço eles tal2011 vez muito mais que os próprios pais, consigo identificar quando um está bem ou não. Não são coitadinhos, são capazes com dificuldades”, garante. Graci explica que

Por dentro dos projetos de higienização

MRE

Inep


Cidadania sabe muito bem como o projeto tem relação direta com a família, pois tem uma filha com deficiência, Renata Vitória, de 31 anos, que também trabalha como higienizadora na equipe do Senado Federal. Harumi Kano, de 62 anos, é instrutora no Senado Federal. Ela coordena uma equipe composta por 8 higienizadores. “A presença do instrutor é crucial pois há uma imaturidade emocional neles, e o nosso papel, além de apoiar, é verificar o problema e apaziguar o conflito, seja familiar ou durante o exercício da profissão”, afirma. “Isso tudo é investimento neles, tanto pessoal quanto profissional, e eles agradecem e agarram com tudo”. Não há dinheiro que pague a satisfação de quem está em contato direto com eles. Isso é incluir sem excluir.” Para que tudo ocorra de maneira natural, há uma real necessidade de parceria entre a família, o instrutor e a pessoa com deficiência. “A família tem um papel muito importante na formação e manutenção do que já apreenderam, dando mais apoio, carinho, contato e suporte. Algumas mães relatam que nunca esperavam que o seu filho tivesse carteira de trabalho assinada”.

Oportunidade Com a conclusão do ensino regular, esses cidadãos ficam excluídos do mercado de trabalho ou aguardam durante muito tempo por uma oportunidade, o que reforça vínculos de dependência em relação às famílias. “Entrar no programa para se tornar um higienizador é muitas vezes a oportunidade de um primeiro emprego para as pessoas com deficiência”, destaca Maria Helena Alcântara, coordenadora da APAE-DF. “Para o deficiente intelectual é ainda mais difícil, e, tanto a família, quanto a pessoa com deficiência entendem que essa é a oportunidade a ser construída e agarrada”.

Mesa higienizaora: Local de trabalho de Urbano Silva na Câmara dos Deputados.

Ferdinan Pereira, de 22 anos, higienizador no Itamaraty, faz uma análise do atual momento vivido pelo país e o que essa oportunidade proporciona. “Está cada vez mais difícil para todo mundo arrumar emprego, imagina para nós”, diz. “Esse emprego dá autonomia, responsabilidade, decisão e poder de compra. Agora, até posso ajudar com as coisas da casa”, afirma. Ele, no entanto, atenta para o preconceito que ainda existe. “Muitos são preconceituosos, pensando que não somos capazes, elas precisam acreditar na pessoa e na capacidade dela”. Denise da Silva, de 33 anos, também trabalha como higienizadora no órgão e gosta da receptividade que recebeu e recebe até hoje no trabalho. “Gosto muito dos meus colegas e das pessoas que são do Ministério Relações Exteriores, não conhecia ninguém e fui muito bem recebida”, destaca. Haroldo Martins Neto, de 45 anos, deficiente intelectual e físico, trabalha no STF há cinco anos

e é amigo de Guilhermo. Ele afirma que tudo é questão de oportunidade. “A alegria de trabalhar é o que me motiva. Aqui nós higienizamos a história do Brasil e sempre temos de fazer bem feito, com qualidade”. O trabalho hoje desenvolvido por ele estimula sua coordenação e a rotina proporciona uma melhor captação da memória, além de uma organização mais consciente. Com isso, ele consegue proporcionar um suporte à família que antes nunca pudera oferecer. A Coordenadora do Projeto de Higienização – Biblioteca da UnB, Marli Vieira, ressalta que os higienizadores possuem um programa interno que ensina a lidar com o dinheiro. “Ele aprende que deve identificar necessidades e desejos que são prioridades: um sapato que está rasgado, por exemplo, é prioridade”, explica. Ela conta que a ideia desse programa surgiu a partir de problemas com as famílias que não

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Cidadania repassavam o dinheiro aos deficientes. “Como sabemos, eles são assalariados e, a partir disso, recebem e são capacitados para saber lidar com isso”. Nayanne Dias, de 27 anos, trabalha no Itamaraty e chama a atenção da sociedade sobre a falta de oportunidades que as pessoas com deficiência enfrentam. Ela ainda alerta para a questão estudantil e sobre a inserção no mercado de trabalho. “Não tenho estudo, fiquei preocupada por não conseguir um emprego e fui me esforçando. Nunca tive a oportunidade de trabalhar e agora tenho”, conta. “Para quase todo mundo que entra no projeto, este é o 1º emprego com carteira assinada e com isso conseguimos ser donos da nossa própria vida. As pessoas pensam que não somos capazes de desenvolver e fazer, mas nós somos sim”, conclui. A inserção no mercado de trabalho e na sociedade como cidadãos com plenos direitos e deveres é um dos objetivos do serviço. Garan-

Urbano Silva, higienizador.

“Para quase todo mundo que entra no projeto, este é o 1º emprego com carteira assinada e com isso conseguimos ser donos da nossa própria vida. As pessoas pensam que não somos capazes de desenvolver e fazer, mas nós somos sim”.

Higienização em números Câmara dos Deputados: NOVEMBRO

2015

NOVEMBRO

2016

foram higienizadas 2.454.405 milhões de folhas e 12.272.025 milhões de páginas.

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Cidadania tidos pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), que estabelece normas individuais e coletivas, os direitos dos trabalhadores são assegurados aos higienizadores terceirizados: carteira assinada, faltas justificadas, férias, FGTS, vale- transporte e 13º salário.

Seleção A escolha dos alunos é feita a partir de uma triagem nas quatros instituições APAE que existem no Distrito Federal: Brasília (Sede), Ceilândia, Guará e Sobradinho. Após a seleção, os escolhidos são direcionados para a Biblioteca Central da UnB, para iniciarem a trajetória como higienizadores. Lá, eles ficam aos cuidados de Marli, a coordenadora do projeto. Ela vê de perto a evolução de cada um dos alunos e ressalta a importância do programa. “Eu observo cada um dos alunos atentamente. Até hoje, eu só vi progresso em cada um que está e passou por aqui”, relata.

Certificação A formação dos aprendizes acontece na Biblioteca Central da UnB, com orientação de professoras da associação e funcionários da Biblioteca especializados em conservação e restauração de documentos. As aulas ocorrem no Arquivo Público do Distrito Federal e também na própria biblioteca. Após esse treinamento, os alunos são certificados como Higienizadores e estão aptos para o trabalho de restauração e pequenos reparos. Segundo a coordenadora Pedagógica da APAE, Maria Helena Alcântara, “no processo de certificação, eles acabam desenvolvendo uma concentração e dedicação invejáveis, o que os torna perfeitos para esse tipo de trabalho”. A jovem Lisa Andrade, de 18 anos, faz parte da equipe de aprendizes na Biblioteca da UnB e garante estar pronta para enfrentar as dificuldades. “A cada dia

Superior Tribunal Federal:

Todos os dias, Guilhermo, Urbano, Lisa, Nayanne, Ferdinan e Haroldo voltam para casa com a certeza de que são capazes. Com a certeza de que podem contribuir com o Brasil e, principalmente, com suas famílias. A partir da higienização e recuperação de grandes obras e documentos, eles revitalizam também a alegria de se aceitar como são e de superar desafios. No final do dia, eles retornam com a certeza de que fazem a diferença apesar de serem diferentes.

agosto = 206 mil

quantidade de páginas higienizadas no segundo semestre de 2016.

setembro = 258 mil

no Itamaraty

novembro = 180 mil

em 2016

+

estou me preparando pra isso, pra trabalhar, e aceito dar esse passo que é um grande desafio”. Mônica Kanegae, de 42 anos, a restauradora que auxilia os aprendizes na APAE, confirma a superação dos alunos. “Muitos não se adequam a outros tipos de trabalhos oferecidos no Programa de Educação Profissional e Trabalho - EPT e chegam à higienização e se encaixam perfeitamente”, afirma Mônica. O resultado? Qualidade de serviço que surpreende as instituições públicas.

14 mil obras

outubro = 127 mil

Por dia foram recuperadas

acontece a higienização de 35 a 50 volumes.

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CAVALGADA Do tratamento da equoterapia à medalha paraolímpica no Rio, conheça a incrível história do brasiliense Sérgio Oliva

RAFAELA PANTEL

Sérgio Oliva montando a égua Coco Chanel na Rio 2016. / Foto: Arquivo pessoal

Ele venceu as limitações físicas e emocionais para tornar-se uma referência mundial no hipismo. O brasiliense Sérgio Fróes Ribeiro de Oliva nasceu na noite do dia 17 de agosto de 1982 e, apesar das poucas horas de vida, já lutava pela sobrevivência. Por falta de oxigenação, Sérgio sofreu paralisia cerebral, problema que traz uma série de complicações neurológicas. O destino dele parecia traçado: seria uma infância cheia de limitações e de preconceito social. Mas Sérgio teve um estilo vida totalmente diferente daquilo que era o imaginado. “Minha infância foi muito boa, normal, brincava com meus amigos da quadra onde moro até hoje, no clube onde sou sócio”, afirma. Sérgio é fruto de uma gravidez de trigêmeos, mas os outros bebês não desenvolveram a paralisia. “Meus irmãos gêmeos sempre me apoiaram, me incentivando nas brincadeiras com as outras crianças. Não tive nenhum problema em me adaptar. Cresci, estudei fora do país”, explica. O paratleta está entre os cinco melhores cavaleiros do mundo. “Trabalhei por quase 14 anos para chegar aonde cheguei, são três Paralimpíadas nas costas e foi em casa que eu consegui esse privilégio de estar com esta medalha de bronze no peito, e agora é continuar trabalhando para chegar a Tóquio sendo medalhista”, afirma.

Adolescência Como se não bastasse o sofrimento prematuro, aos 13 anos Sérgio tropeçou num tapete e caiu em cima dos vidros da portaria do prédio onde morava. “O acidente comprometeu os movimentos do braço direito, que até então não tinha nenhuma deficiência, mas tenho me recuperado bem”, assegura.

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A partir do acidente, a vida de Sérgio começou a ter ainda mais restrições e, preocupada com a saúde física e emocional do jovem, a mãe, Maria José Ribeiro, matriculou-o na equoterapia, tratamento com cavalos voltado para portadores de necessidades especiais. O esporte ajudou o rapaz a melhorar os movimentos e despertou nele um grande carinho pelo animal. Aquilo que antes fazia parte de um tratamento de saúde tornou-se num estilo de vida no futuro. Sérgio mal podia imaginar que seu amor por cavalos ocasionaria numa referência de superação e orgulho para o país. O tratamento com equoterapia começou em 1989 e durou apenas seis meses, mas foi tempo suficiente para entender qual profissão seguir. Após alguns anos parado, Sérgio já com 20 anos, entra para o Adestramento Paraequestre. “Voltei a montar porque queria reviver aquele momento, e acabei percebendo que eu tinha potencial de virar um atleta e a possibilidade de ir para uma paraolimpíada, com isso fui trabalhando e me dedicando para alcançar esse objetivo”, explica. E conseguiu. Sérgio rodou o mundo e tornou-se referência na modalidade. “Representei meu país em mundiais internacionais e ano passado conquistei meu grande e sonhado objetivo que foi ter duas medalhas de bronze no nos Jogos Paraolímpicos do Rio de Janeiro”, completa.

Referência Paraolímpica Hoje, o cavaleiro e atleta é o maior destaque de adestramento do Brasil. Ele é inspiração não só para quem


Cidadania

DE SUPERAÇÃO possui as mesmas dificuldades. É o caso do estudante Marcelo Martins, 22 anos. Assim como Sérgio, o jovem é apaixonado por cavalos desde a infância e se inspira no paratleta. “Eu não tenho limitação física e muitas vezes não dou valor nessa ‘liberdade’ que eu tenho. Eu conheço a história do Sérgio e ela é um tapa na cara no meu orgulho”, critica o estudante. Marcelo compactua desse sonho: “Eu também quero ser uma referência no esporte. Sou apaixonado por isso. E tenho o empenho e a dedicação do Sérgio como trampolim que impulsiona o meu sonho”, elogia. Sérgio não esconde o contentamento com o resultado obtido na Rio 2016. “Estou muito contente com esse resultado. O sentimento de estar representando o meu país e fazendo meu melhor e eu fiz o meu melhor possível, aqui na cidade maravilhosa e estou muito satisfeito”, exalta. Após o êxito em 2016, o atleta tem novas metas: “Chegar a Tóquio em 2020 sendo medalhista por meio do Mundial em 2018, que será nos Estados Unidos”. E ele não pensa pouco: “Quero ser bicampeão, e daqui a um mês estou embarcando para a Competição Internacional para justamente buscar esses índices para o Mundial”, conta.

Desfecho Nada foi o suficiente para ofuscar o brilho do atleta. “Sempre existiu o preconceito com as pessoas que têm deficiência, mas eu sempre tive suporte da minha família. Já passei por algumas situações chatas, porque você é visto como diferente, por conta do caminhar, da pronúncia, mas superei tudo isso e hoje vivo com tranquilidade”. Sérgio explica que encara as limitações da melhor forma. Conseguiu conciliar as atividades e os prazeres em meio às dificuldades que a deficiência lhe trouxe. Foi diagnosticado com triplegia, paralisia cerebral, que afetou seu braço esquerdo e a perna direita e um pouco da perna esquerda. “Mas faz parte da vida, não tenho o que reclamar, aprendi a conviver bem com a deficiência, apesar de alguns contratempos que a vida traz, mas estou muito feliz porque as metas e objetivos que eu tracei até hoje eu consegui conquistar”.

Sérgio comemora com a medalha de bronze conquistada nos jogos Paraolímpicos na Rio 2016./ Foto: Arquivo pessoal

LINHA DO TEMPO

2003 2004 2005

Campeão Parapan-Americano Campeão Brasileiro Campeão Brasileiro e Sul Americano

2006

Campeão Brasileiro

2007

Campeão Brasileiro e em Mundial na Inglaterra

2008

Campeão Brasileiro

+ participação em Paralímpiadas em Pequim

2010

Participação em campeonato Mundidial nos EUA

2011

Campeão Brasileiro e em torneio em Brasília (CPEDI 3)

2012

Campeão Brasileiro + participação em Londres

2014

Participação em Campeonato mundial na França

2016

Paralímpiadas no Rio de Janeiro + a maior nota da carreira

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Sons de cura Entenda como a musicoterapia tem feito a diferença para crianças em hospital

GUSTAVO ANDRADE Texto e fotos

Gargalhadas tomam conta dos corredores do Hospital da Criança de Brasília (HCB). Músicas com tempos quebrados e notas nem sempre dentro do campo harmônico alegram o ambiente gélido. Sabe a plaquinha de silêncio? Esqueça! Quem está acostumado com a sobriedade que hospitais geralmente oferecem pode se desapegar do estereótipo. Nesse lugar, o atendimento é diferente. A paciente Luanna Silva, de 9 anos, é uma criança nascida com Síndrome de Angelman, distúrbio genético-neurológico caracterizado por dificuldades na fala, convulsões, movimentos desconexos e sorriso frequente. A menina não se assombra com o clima hospitalar. Pelo contrário, ela entra no consultório com sorriso estampado e animação digna de um dia de diversão. Luanna faz sessões de musicoterapia, uma prática de cuidados médicos que une música e tratamento de saúde. As sessões ocorrem em uma sala completamente descontraída: pinturas na parede, instrumentos à disposição espalhados por toda parte e uma janela, que de fora trazia uma luz penetrante em cada gota da recém-chuva que havia caído. Sem muitas introduções, o musicoterapeuta Cláudio Vinícius Fialho, junto com a paciente e sua mãe dirigem-se ao piano da sala e lá a magia acontece. Ao entoar cantigas infantis, o musicoterapeuta conduz a criança por meio da música e estabelece variantes entre melodias, tempos musicais e até mesmo cria improvisos para gerar diversos efeitos na menina. A criança também toca o piano e o processo ajuda a conter impulsos involuntários ao acalmá-la diante do chamado “vínculo sonoro-musical” estabelecido entre o paciente e o musicoterapeuta. Em 2017, a musicoterapia é a nova prática reconhecida e inclusa no Programa Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Ministério da Saúde (MS). E não é à toa: estudos recentes realizados por um Programa de Oncobiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelam que células tumorais de câncer de

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mama expostas à ‘Quinta Sinfonia’, de Beethoven e à composição ‘Atmosphères’, de Gyorgy Ligeti apresentaram redução de tamanho. De acordo com o estudo, cerca de 20% das células cancerígenas morreram. O fato é curioso, já que ‘Sonata para Dois Pianos em Ré Maior’, de Mozart também foi usada no experimento e, por mais que seja amplamente usada na musicoterapia para criar o chamado “efeito-Mozart”, aumento temporário do raciocínio espaço-temporal de um indivíduo, os efeitos das ondas sonoras audíveis não provocaram nenhuma alteração nas células tumorais em cultura. No caso da musicoterapia, há relatos literários de que ‘Sonata para Dois Pianos em Ré Maior’ diminui o número de ataques epiléticos e aumenta a capacidade de memória em pacientes com Alzheimer. Para a presidente da Associação de Musicoterapeutas do Distrito Federal (AMT-DF), Erci Kimiko, a inclusão da prática no PNPIC reflete em maior reconhecimento por parte da sociedade diante de uma terapia até então pouco conhecida. No entanto, ela adverte sobre a importância de se obter o diploma em nível superior de musicoterapia: “a maior divulgação que nós queremos é a de que existem cursos de formação profissional de musicoterapia reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) e pela União Brasileira das Associações de Musicoterapia (Ubam) e as pessoas e os planos de saúdes ainda mal sabem que disso”. O fisioterapeuta Paulo Roberto, membro da Coordenação Geral de Gestão da Atenção Básica (CGGAB) do PNPIC esclarece que, para ser musicoterapeuta, exige-se formação profissional em curso reconhecido pelo MEC e seguir as diretrizes de formação do MS. Não é citada a Ubam, como gostaria a presidente da AMT-DF, mas a profissionalização do musicoterapeuta é assegurada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). De acordo com dados do segundo ciclo do Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade na Atenção Básica (PMAQ-AB), mais de 423 equipes de Saúde da Família do Sistema Único de Saúde (SUS) e 52 Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs), realizam musicoterapia. O MS oferece cursos que já integram o PNPIC e avaliam a oferta de novos cursos, entre eles está o curso introdutório em musicoterapia.


Cidadania

Divergência Diferentemente do pensamento de Erci Kimiko, o musicoterapeuta Cláudio Vinícius acredita que a vocação é tão importante quanto a formação. Ele considera o talento e a aptidão que algumas pessoas têm com a música e quanto o dom pode ser desenvolvido para a cura dos outros. “Muitas pessoas são musicoterapeutas até sem fazerem curso. Já tem uma habilidade natural de usar a música em favor de um processo de cura e agregar social”, assegura. Contudo, o musicoterapeuta ressalta a importância de se estudar a especialidade para aprimorar e ampliar as técnicas e ferramentas que qualquer profissional precisa dispor para exercer com primazia a profissão. Segundo ele, “existem profissionais com vocação e existem profissionais que a desenvolvem a partir do estudo e da prática, e isso é muito favorável. Quem estuda avança mais, essa é uma regra! Então se une talento com formação, a gente tem a condição ideal”. Apesar da opinião de Cláudio, quem não tem formação profissional não pode integrar o SUS. Cláudio Vinícius ainda destaca a diferença entre um músico e um musicoterapeuta: “Basicamente, o músico se preocupa com a performance. Já o musicoterapeuta está preocupado com a utilização da música como ferramenta de comunicação e integração social”. “Para as pessoas que buscam seguir uma carreira, eu posso dizer que o musicoterapeuta hoje é uma carreira de futuro”, garante Cláudio. Para ele, o reconhecimento do MS caracteriza-se como um procedimento de humanização da prática de saúde. “Há crianças que no dia

do aniversário querem vir para a musicoterapia. Elas sabem que o hospital vai oferecer algo não está disponível no dia a dia dela”.

Superação Eduardo Rikelme, 10 anos, foi atropelado e sofreu traumatismo craniano no lado direito do cérebro aos 6 anos de idade. O acidente causou a perda parcial dos movimentos do lado esquerdo do corpo. A criança vence as limitações por meio da musicoterapia no HCB. Ao tocar bateria, Rikelme trabalha a coordenação motora dos movimentos que foram afetados pelo acidente e simultaneamente cria letras e improvisações para desenvolver o intelecto. Já a estudante de música, Bianca Nascimento, de 17 anos, começou a cantar na sala de musicoterapia do hospital e depois foi cantar com a orquestra sinfônica de Brasília. Em 2015, a estudante recebeu alta da dermatite atópica que tinha, uma alergia de pele de fundo emocional provocadora de secura e coceira. Como triunfo, após cinco anos de tratamento com musicoterapia, a menina cantou diante de todo o HCB a música ‘Maria, Maria’, de Milton Nascimento, com a orquestra. Muito emocionada, ela relembra como ficou comovida. “Quando a música começou, eu comecei a chorar” – ela sorri – “Tive que pedir pra parar e começar de novo”. Ao final, todos aplaudiram de pé.

Parcerias Há muito ainda a se esperar sobre os avanços que a musicoterapia tem a oferecer e o quanto ela se alia a outras práticas medicinais. A música faz parcerias, por exemplo, com áreas como a psiquiatria ao obter níveis de comunicação que muitas vezes num recurso verbal não seria possível. Já com a psicologia, a música dá capacidade de empoderamento para as pessoas quando elas descobrem que têm voz ativa e podem se expressar.

Os sons do piano de Cláudio ajudam no tratamento de Luanna.

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Cidadania bracionais mensuradas em Hertz, os efeitos sonoros da música são infinitos e usados para diversos fins, como o tratamento de enfermos. A musicoterapia se baseia em princípios ancestrais, que já previam a eficácia das vibrações sonoras para a cura. Desde o período paleolítico, o shaman, guia espiritual nas primeiras tribos humanas, utilizava o som como meio de cura a par tir de cantos com a maracá, instrumento formado por cabaça seca desprovida de miolo, na qual se metem pedras, caroços ou coquinhos.

Bianca Nascimento, estudante de música da Universidade de Brasília (UnB).

Porém, além de parcerias no campo psicológico, a musicoterapia também facilita práticas como a fisioterapia. Quando Cláudio Vinícius toca nas sessões, ele relata que “ao passo que a criança fica entretida com o som, o fisioterapeuta faz os exercícios”, conta. Existem outros casos de pacientes, conforme também relata Erci Kimiko, que aliados à fisioterapia, obtiveram curas imediatas ao tratar com musicoterapia. Ela recorda o caso de uma senhora que sofria de fibromialgia, síndrome provocadora de dores nos tecidos fibroso e muscular em diferentes partes do corpo. Depois de duas semanas de tratamento, a paciente foi completamente curada. Kimiko conta que a senhora não queria deixar de fazer musicoterapia porque sentia o “vínculo sonoro-musical”. “Eles sentem isso, alguém que realmente está se importando com eles e não está fazendo algo mecanicamente”, afirma a musicoterapeuta. O vínculo sonoro-musical, como descreve Erci Kimiko, é o vínculo de condução musical do musicoterapeuta perante o paciente por meio da sensibilidade. É uma forma de estabelecer contato e demonstrar que o terapeuta está junto com o paciente no desenvolvimento da terapia ao dar apoio e companhia. Para Erci, sem o vínculo sonoro-musical, não há musicoterapia. “A sensibilidade conta muito para um musicoterapeuta, porque sem isso o procedimento fica muito mecânico”, destaca ela.

O filósofo grego Platão, acreditava que a música eleva todas as almas para o que é bom, justo e belo e está para a alma assim como a ginástica está para o corpo. Os mantras indianos, que em sânscrito significa “'instrumento do pensamento”, são qualquer som, sílaba, palavra, frase ou texto, que detenha um poder específico. Costumam ter fundamentos religiosos e são usualmente destinados à cura dos corpos físico, mental e emocional que o ser humano detém. De acordo com a medicina ayurveda, qualquer doença inicia-se muito antes de chegar à fase em que ela finalmente é percebida. Nossas emoções provocam vibrações e reverberam pelo corpo o que foi emanado. Problemas emocionais, stress e ansiedade são algumas das causas de diversas doenças que assolam a humanidade. Conforme conta Cláudio Vinícius, “vão se passando os anos e o ser humano vai percebendo cada vez mais a capacidade que o meio ambiente tem de transformar o ser. A música faz parte do ambiente com o som, então a medicina começa a entrar em uma fase onde o invisível começa a ser estudado”.

Da música à cura O som é uma forma de energia vibratória; a música se manifesta a partir da combinação da harmonia, conjunto de sons que se relacionam; à melodia, sucessão de notas tocadas em sequência; e o ritmo, a noção métrica-temporal. Marcada por frequências, unidade de tempo do número de ciclos vi-

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Quinzenalmente, Eduardo Rikelme toca nas sessões de musicoterapia com Cláudio Vinícius.


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“ Você não deveria ter engravidado agora” Mulheres são vítimas de discriminação no ambiente de trabalho ao ficarem grávidas Com pés inchados e dores nas costas, Amanda*, 27 anos, espera a chegada do primeiro filho. A última ecografia mostrou o bebê com 51 centímetros e três quilos, na 38º semana da gestação. Casada há cinco anos e mãe de primeira viagem, ela conta que sempre desejou um parto natural, e procura seguir as dicas que recebe para que isso seja possível. Amanda ficou uma semana afastada do trabalho devido a uma infecção urinária, e nesses dias em que ficou em casa, ela caminhava pela manhã e procurava evitar alimentos que pudessem fazer subir a pressão arterial, já que o bebê poderia vir a qualquer hora. Mas não veio. De volta ao trabalho, as piadinhas do tipo “gravidez não é doença” também voltaram. Ela lamenta que, de tudo que viveu no ambiente de trabalho, após ficar grávida, o mais difícil foi aturar as comparações feitas pela chefa. “Ah, isso aí que você está passando eu já passei, e foi pior ainda” e “se você está com os pés inchados, os meus incharam muito mais, e eu trabalhava”. Discriminações como essa não são raras entre gestantes e novas mães, e deveriam ser denunciadas.

Marília Souza

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Cidadania Violações de direitos são sutis e surgem na forma de ironia ou também como “orientações” ou “recomendações”. As cobranças para marcar as consultas médicas fora do horário de trabalho também foram motivo de estresse para Amanda. Como o pré-natal na rede pública tem que ser feito no posto de saúde mais próximo da residência, ela só conseguia atendimento na parte da tarde, pois era o horário que a médica ia para a unidade do bairro. As consultas disponíveis coincidiam com a hora em que deveria estar no serviço. Resultado: atrasos, atestados e reclamações por algo que é seu direito e está previsto em lei. Recém-saída do período de experiência, Mariana*, 26 anos, decidiu compartilhar com a chefa a felicidade que sentiu ao descobrir que estava grávida, mas se decepcionou com o que ouviu. “Minha chefe disse que tinha planos pra mim, dando a entender que a gravidez atrapalharia tudo, como se fosse algo que me impediria de trabalhar”. Mariana veio de Belém (PA) para Brasília em 2012. Lá, ela e a família sofriam ameaças de grandes fazendeiros que faziam extração ilegal de madeira. Um tio chegou a ser morto. Aqui, conheceu o esposo e após oito meses de namoro, casaram. Ter um filho era um desejo antigo dos dois. É um menino. “Você não deveria ter engravidado agora” foi uma frase que ficou na cabeça dela por dias seguidos. Mas, pelo filho, ela preferiu fazer de conta que estava tudo bem.

“Saí sem nada” Casos mais extremos acabam até em demissão. Foi o que aconteceu com Luísa*, 34 anos, demitida aos três meses de gestação. Ela, que trabalhava em uma clínica prestadora de serviços de homecare, relata que contou à chefa sobre a gestação, e quando foi na primeira consulta de pré-natal e teve que se ausentar da clínica, recebeu uma ligação informando que não precisava que ela voltasse. Estava demitida. “Nem o último salário ela me pagou. Saí sem nada”. Luísa procurou dois advogados para tentar na justiça o salário que não foi pago e uma multa por danos morais, mas nenhum deles a incentivou a seguir com a ideia. Desistiu. Hoje, a bebê está com quatro meses, e ela ainda não conseguiu outro emprego.

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Não existem levantamentos específicos no Ministério do Trabalho nem no Tribunal Regional do Trabalho da 10º Região sobre a quantidade de ações movidas por gestantes contra empresas no Distrito Federal. De acordo com a advogada Patrícia Martins, quando uma gestante se sente discriminada no ambiente de trabalho, é possível mover uma ação de rescisão indireta, que é quando o empregador comete uma falta grave em relação ao funcionário, e ainda, de danos morais. Para isso, é preciso que a funcionária lesada apresente testemunhas que atestem a alegação. A estabilidade provisória da trabalhadora gestante está prevista em lei. Ela determina que a colaboradora não pode ser demitida -sem justa-causa- a contar do dia em que a gestação foi confirmada até cinco meses após ganhar o bebê. Tal direito está garantido no art.10º, II, b, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal. O artigo 392 da Consolidação das Leis do Trabalho trata de maneira abrangente sobre os direitos da gestante. (Veja ao lado). De férias. Cuidando dos dois cachorros que tem em casa e do bebê que carrega no ventre, aos quatro meses de gestação. É assim que Ivone*, 31 anos, tem passado as últimas semanas. Estresse, só quando o marido coloca louça na pia limpa. Briga e reclama, mas logo depois está calma de novo. Nem o enteado de oito anos, que mora com eles desde que se casaram, há cinco, a deixa nervosa. Só no trabalho que a história é outra. Desde que descobriu a gestação, Ivone já se estressou mais na empresa do que tinha se estressado em todos os outros seis anos no emprego. E as chateações, no caso dela, vieram principalmente pelos colegas. “Ouvi piadinhas por eu ir ao banheiro muitas vezes, e quando eu dizia que estava com alguma dor, tinham alguns que não acreditavam. Falavam que era mentira”. Por estar com anemia, Ivone teve consultas com mais frequência. Já lhe perguntaram por que ela não deixava para ir ao médico quando entrasse de férias, já que estavam próximas. Ela demonstra raiva enquanto conta a história. Em uma semana, as férias acabam. A única motivação para voltar ao serviço é o filho que vai chegar.


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Para entender mais: SEÇÃO V - DA PROTEÇÃO À MATERNIDADE Art. 392. A empregada gestante tem direito à licença-maternidade de 120 (cento e vinte) dias, sem prejuízo do emprego e do salário. (Redação dada pela Lei nº 10.421, 15.4.2002). § 1o A empregada deve, mediante atestado médico, notificar o seu empregador da data do início do afastamento do emprego, que poderá ocorrer entre o 28º (vigésimo oitavo) dia antes do parto e ocorrência deste. (Redação dada pela Lei nº 10.421, 15.4.2002). § 2o Os períodos de repouso, antes e depois do parto, poderão ser aumentados de 2 (duas) semanas cada um, mediante atestado médico.(Redação dada pela Lei nº 10.421, 15.4.2002). § 3o Em caso de parto antecipado, a mulher terá direito aos 120 (cento e vinte) dias previstos neste artigo. (Redação dada pela Lei nº 10.421, 15.4.2002). § 4o É garantido à empregada, durante a gravidez, sem prejuízo do salário e demais direitos:(Redação dada pela Lei nº 9.799, de 26.5.1999). I - transferência de função, quando as condições de saúde o exigirem, assegurada a retomada da função anteriormente exercida, logo após o retorno ao trabalho; (Incluído pela Lei nº 9.799, de 26.5.1999). II - dispensa do horário de trabalho pelo tempo necessário para a realização de, no mínimo, seis consultas médicas e demais exames complementares. (Incluído pela Lei nº 9.799, de 26.5.1999).

No último dia do mês que já era seu preferido, março, por ser seu aniversário e o da filha mais velha, Gabriela, 31, deu à luz um menino que nasceu com três quilos e meio, e 51 centímetros. Um garotão. As costelas deslocadas não foram suficientes para deixar de dizer que o parto do caçula foi uma benção. Ver o filho grande e saudável fez com que Gabriela sentisse que todas as dificuldades valeram à pena. Trinta dias antes do parto, ela entrou de licença pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). A gestação não foi fácil. “Mas ele é um príncipe. Veio para completar nossa família”. A irmã é toda cuidadosa com o bebê, quer ficar junto o tempo todo. O pai dá banho, troca fralda e põe pra dormir. Em casa não faltam carinho e cuidado para ela nem para o pequeno, mas no trabalho foi diferente. Os meses de gestação foram permeados por desconforto causados por piadas, cobranças e incompreensões. Cada ida à consulta era um estresse. Cada pedido para ser rendida para ir ao banheiro, era uma “cara feia”. As comparações eram irritantes. Ela garante que sempre cuidava das colegas gestantes da equipe, e que nunca imaginava passar por situações assim. “Quando tive minha primeira filha, era outra equipe e outra supervisão. Me senti muito amparada e cuidada pelos colegas”.

“Tem impacto” Há cinco anos, Suzana Pinheiro, 32, trabalha como analista de recursos humanos, e é categórica ao afirmar que uma colaboradora gestante causa impactos na empresa. As faltas aumentam devido à necessidade que a grávida tem de sair para exames e consultas decorrentes da gestação, e a equipe pode ficar desfalcada porque nem sempre há alguém para cobrir a ausência da funcionária. “Às vezes a gestante é a única colaboradora da empresa a realizar determinada função. E quando ela tem que sair, o impacto é maior ainda”.

“Ouvi piadinhas por eu ir ao banheiro muitas vezes, e quando eu dizia que estava com alguma dor, tinham alguns que não acreditavam. Falavam que era mentira”.

“Ao voltar da licença-maternidade, há maior risco de ser mandada embora logo após o período de estabilidade, porque a empresa pode entender que um bebê demanda atenção, e, portanto, a funcionária pode precisar faltar ou sair mais cedo do serviço”. REVISTA ESQUINA

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Mudanças trabalhistas A Lei da Terceirização (número 13.429, sancionada pelo presidente Michel Temer em março deste ano) pode trazer ainda mais transtorno para a trabalhadora gestante. A analista de recursos humanos respondeu que todos os trabalhadores podem ser prejudicados, e acredita que, para as gestantes, o problema maior seria na volta da licença. “Ao voltar da licença-maternidade, há maior risco de ser mandada embora logo após o período de estabilidade, porque a empresa pode entender que um bebê demanda atenção, e, portanto, a funcionária pode precisar faltar ou sair mais cedo do serviço”, explicou. Mas ela afirma que isso depende muito das políticas que cada empresa adota e defende. Na organização em que ela trabalha, mulheres que têm filhos são mais bem vistas nos processos seletivos, uma vez que a empresa entende que essas pessoas são mais responsáveis e dedicadas ao trabalho, por ter quem dependa delas. Mariana já decidiu o nome do filho. Luísa continua procurando emprego. Amanda já teve o bebê, e não foi de parto natural. Ivone retornou das férias, mas contra a vontade. Gabriela já está recuperada do parto. De várias formas foram desrespeitadas em um momento muito especial da vida. Dormir pouco, cansar um pouco mais e viver em expectativa. A rotina agregada de uma dor-de-cabeça. Elas queriam trabalhar. Apesar disso, nenhuma das gestantes entrevistadas cogita mover um processo contra a empresa onde viveu o pesadelo. *Todos os nomes foram modificados para preservar a identidade das fontes.

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As marcas da dor:

a violência contra mulheres no DF Agressões físicas e psicológicas marcam o relacionamento de muitas mulheres em Brasília. Só no ano passado foram registradas 13.212 ocorrências com base na Lei Maria da Penha

Diego Schueng e Luísa Ervilha Foi com um tapa no rosto que Carla*, de 28 anos, acordou de um sonho. Dona de casa, casada e mãe de duas meninas, ela acreditava que aquele seria mais um dia comum na vida da família, mas foi o começo do fim. “Eu trabalhava na Igreja. O quarto do padre que estava em reforma ficou pronto. Saímos para comemorar e eu levei minhas filhas. Meu celular estava descarregado, então o deixei em casa. Quando cheguei, me deitei e acordei sem saber o que estava acontecendo. Foi um susto”. Já passava da 1h30 da manhã. O marido, que vamos chamar de João, abriu a porta da residência. Ele entrou em casa sem que Carla despertasse. Ele a surpreendeu com um tapa e uma pergunta: “Com quem você está me traindo?”. Carla permaneceu sem reação e muito assustada. Os gritos acordaram a vizinha que perguntou se estava tudo bem e ofereceu ajuda, que foi recusada por ela. “Assim que ele percebeu que a vizinha estava no portão, ele saiu de casa. Eu aproveitei, fui para rua e encontrei, por sorte, uma viatura da polícia e expliquei o

que havia ocorrido. Eles me levaram para fazer um Boletim de Ocorrência”. Chegando na delegacia, Carla conta que foi atendida por um policial homem e afirma que “Ele foi muito atencioso comigo. Registrei uma medida protetiva para manter João distante”. Quatro dias se passaram. Um oficial de justiça bateu na porta. Não havia ninguém em casa para atender. A segunda opção foi ir ao trabalho de Carla. Lá ela recebeu um documento. “Era uma intimação marcando uma audiência”. João foi julgado. A pena? “Ele tinha que cumprir trabalhos sociais, e se não fizesse, poderia ser preso”.

Pesadelo sem fim Carla não havia se livrado de João. Mesmo com a determinação da justiça ele passou a segui-la, ou melhor, persegui-la. “Ele tentou me atropelar, me vigiava, me seguia, era desesperador!”. E completa: “Ele subia em cima de árvores pra me vigiar”.

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Cidadania Infelizmente essa história de agressão não se limita a vida de Carla. Bem distante dali, Mariana*, 23 anos, foi vítima de violência doméstica aos 21. Ela voltava de um aniversário com o marido e a filha, que na época tinha apenas 2 anos. Já se aproximava das 21h30. Ele estava alcoolizado. “Eu estava preparando o jantar e aí tivemos uma discussão: ele me deu um soco na nuca muito forte, fiquei muito tonta, gritei, falei ‘você está louco? O que é isso? Por que você está fazendo isso?’”, relembra a secretária.

“Tem partes do meu dente que (após a agressão) eu não tenho mais”. Não se espante, essa não era a primeira agressão que Mariana recebia. “Daquele jeito, daquela forma que foi, que ele me machucou fisicamente. Eu fiquei desesperada porque eu pensei ‘ele vai me matar’”. Ela gritava por socorro, na esperança dos vizinhos escutarem e chamarem a polícia, mas não adiantou. “Ele continuou me batendo, me deu mais três tapas na cara. Inclusive tem uma parte do meu dente que eu não tenho mais, porque foi muito forte. Ele me batia muito, me chutava e eu pedia para parar e ele não parava, gritava comigo, dizia que só ia parar quando me matasse, e começou a tentar me enforcar”. A filha presenciou tudo. Mariana conseguiu empurrá-lo e fugir. Com o rosto ensanguentado, foi até a casa dos familiares do rapaz, que moravam próximo dali, para pedir ajuda. Poanka Faleiro, de 21 anos, também se livrou de uma relação destrutiva que culminou em agressão física. O namorado, com quem mantinha um relacionamento difícil, foi o causador de tudo. Era noite de domingo e o casal acabava de chegar na festa de uma amiga de Poanka. “Ele não gostava dela e nem foi convidado, mesmo

“Ele pegou meu cabelo e arrastou minha cara no chão”, diz Poanka Faleiro.

Estudante postou nas redes sociais essa foto após a agressão. Foto: Arquivo pessoal

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assim ele foi comigo”. conta. As duas eram muito próximas, e a amiga aniversariante sempre a alertava sobre o comportamento do namorado. Mas ninguém imaginava o que viria a acontecer horas depois. O namorado estava com fome. Decidiu comer em um fastfood próximo ao local da festa e foi sozinho. Ele tomou essa decisão após ver um antigo amigo com quem teve uma discussão, a qual terminou em briga. Os dois não se falavam mais, porém esse amigo ainda mantinha uma amizade com Poanka. “Pensei: não vou nem falar com ele pra não causar briga, continuei no aniversário tranquila”. Mas quando o namorado foi até o restaurante, Poanka optou por cumprimentá-lo, afinal ela não estava fazendo nada de errado. O namorado chegou nesse exato momento, e nisso a situação tomou outro rumo. “Ele já foi partindo pra agressão verbal, me xingando. Nessa hora eu estava procurando a chave do carro e ele pegou a minha bolsa e tacou tudo no chão. O porteiro viu tudo. Eu sentei na calçada. Nesse momento, ele pegou meu cabelo e arrastou minha cara no chão. E eu fiquei muito machucada. O porteiro ligou pra polícia e tinha um casal de amigo nosso entrando na festa, que viu tudo e me ajudaram”, ela relata. O casal foi levado à delegacia em carros separados, para depor. Ao chegar lá, a família do agressor imediatamente se aproximou dela e a mãe do jovem fez um pedido inusitado: “Você não vai fazer isso com nosso menino, vai?”, fazendo menção direta à denúncia de agressão. Poanka conta que ficou impressionada com a ousadia da então sogra: “Eu nem acreditei no que ela estava me perguntando naquele momento. É inacreditável. Eu fui agredida pelo filho dela, e ela estava se


Cidadania preocupando apenas com o que poderia acontecer com ele”. Como foi preso em flagrante, o agora ex-namorado responde por lesão corporal e injúria, com agravante da Lei Maria da Penha. O caso de Poanka viralizou na internet. A jovem postou em uma rede social a foto da agressão. A publicação já passa de 325 mil reações, e 62 mil compartilhamentos. Ela tomou essa decisão para encorajar outras mulheres a denunciar e não permitir que esse tipo de agressão seja naturalizada.

“Ele subia em cima de árvores para me vigiar!”. A reportagem ouviu uma advogada para entender como esses casos são tratados pela polícia. Especializada em Direitos de Gênero pela Universidade de Brasília (UnB), a advogada Aline Hack explica que muitas vezes é difícil identificar a violência cometida contra as mulheres: “Nem toda violência é explícita e por muitas vezes é até naturalizada”. Segundo art. 5o da Lei Maria da Penha, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero, independente de orientação sexual, que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico. A socióloga Kamila Figueira, conta que o machismo ideia de superioridade do homem em relação às mulheres - surge a partir do sistema que define que os homens teriam um lugar primário e essencial enquanto a mulher teria um lugar secundário na ordem da cultura. “O patriarcado justifica as desigualdades entre homens e mulheres nas diferenças biológicas entre os sexos. Assim, as mulheres são vistas pela sua “natureza” intrínseca, como a ideia de que as mulheres seriam frágeis, sensíveis e maternais na maioria das vezes”, explica. A Lei Maria da Penha classifica e define as formas de violência doméstica contra a mulher como física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. É preciso ressaltar que a violência doméstica não acontece apenas entre mulheres e seus parceiros conjugais, mas também pode acontecer com os demais homens da família. “Sobretudo contra aqueles que ‘fogem’ do modelo ideal do feminino, da boa moça, da mulher de família, podemos pensar em outros tipos de violência que ocorrem com mulheres - pelo fato de serem mulheres - cometidas por pais, padrastos, irmãos, etc”, explica a socióloga. Essa noção de violência como um fenômeno que não se restringe apenas a agressões físicas, incorporada no escopo da Lei é, para as feministas, uma vitória no que tange a consolidação de políticas públicas de gênero no Brasil.

Carla era vigiada no trabalho. O marido subia em cima de árvores para vê-la. Fotos: Diego Schueng

Perfil do agressor A psicóloga Carlene Dias explica que o agressor normalmente tem um perfil. “São homens ciumentos, possessivos, e que no fundo tem uma insegurança em relação à mulher”. Eles têm uma necessidade de controlar a mulher, e as tratam como um objeto deles. “Às vezes eles não deixam nem a mulher trabalhar fora, por conta do ciúmes”, exemplifica. Além disso, ela comenta sobre o “ciclo de violência”. O relacionamento abusivo começa desde o namoro: primeiro ele enche a mulher de elogio - ela se sente amada. Em nome desse amor, ela acha que deve se submeter ao que ele quer. O agressor então comete violência e logo em seguida apresenta o sentimento de culpa. E quando vem a culpa, vem com ela a “lua de mel”. Nessa etapa, o casal novamente se apaixona e revive os momentos do início do relacionamento. O agressor diminui a autoestima e amor próprio da vítima. A mulher fica com o sentimento de desvalorização e menos valia. “As vítimas normalmente sentem pena, são cuidadosas e protegem o agressor. Essa mulher fica refém do homem”, completa Carlene. A psicologia tem o papel de empoderar essa mulher, fazer com que ela mude essa percepção de si mesma e tenha consciência de como que essa relação doentia e violenta fez ela se tornar essa pessoa tão impotente. Segundo a psicóloga, “muitas delas não querem se livrar deles, elas querem que eles mudem. Que eles se tornem aqueles homens que eram no início do relacionamento”. As vítimas normalmente tem uma capacidade enorme de tolerância. Muitas delas aceitam as violências para

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Cidadania Regiões administrativas que mais registraram ocorrências em 2016:

Policiais estimulam que denúncias também cheguem pelo 180./ Imagem: Reprodução/ Cartilha Violência contra a mulher do GDF.

que os filhos ‘não fiquem sem pai’. “A maioria delas só sai da relação quando eles começam a agredir psicologicamente os filhos”, finaliza Carlene.

Números que assustam A Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social do Distrito Federal (SSP-DF) informa que, em todo o ano de 2016, foram registradas 13.212 ocorrências de violência doméstica, com base na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340 de 2006). O número é 4,2% menor se comparado com 2015, quando foram registradas 13.798 casos. Entre as regiões administrativas que mais registraram ocorrências em 2016 estão Ceilândia, com 16,7% dos casos; Planaltina, com 8,1%, e Samambaia, com 7,5%. É importante ressaltar que esses números indicam as mulheres que de fato realizam as denúncias. A Polícia Civil do Distrito Federal informa, por sua vez, que atualmente existe uma Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM). A assessoria de comunicação do órgão informa que em todas as delegacias circunscricionais (que corresponde por regiões do DF), existe uma Seção de Atendimento à Mulher. Ao todo, são 34 unidades. O que todas as mulheres ouvidas pela reportagem disseram em comum é que a denúncia foi o melhor caminho encontrado. “Depois da postagem que fiz no Facebook, uma mulher me mandou uma mensagem. Ela tinha filhos e apanhava do marido. Disse que tomou coragem e denunciou depois que viu a minha publicação”., conta Ponka.

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Samambaia

7,5%

Planaltina

8,1%

16,7%

Ceilândia

Em 2016 foram registradas ocorrências violência 13.212 de doméstica número 4,2% menor comparado ao ano anterior

com

13.798 casos. Dados: (SSP-DF)


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A violência pelo olhar delas Olhares e respostas objetivas; medos e sorrisos; desenhos e um papel na mão. Crianças e adolescentes estudantes na Cidade Estrutural revelam para Esquina que se sentem desprotegidas, sozinhas e um pensamento desconfiado do amanhã As 15 crianças estão em roda na sala de aula. Elas me ol ham surpresas, faço a apresentação, mas já têm ideia do que uma repórter faz: “É uma pessoa que entrevista os outros”, disse uma delas. Ansiosas por esse momento, as crianças se organizam e olham atentas. Entrego as folhas de papel e peço um desenho. Lanço a seguinte pergunta: “Para vocês, o que é violência?”. A primeira resposta que escuto é “estupro”. Do olhar da repórter para o olhar delas. Aqui é o que elas pensam que interessa. O menino sorri com a ideia de que acertou a resposta. As crianças arriscam outras alternativas para a questão: “ladrão”, “roubo”, “facada”. As definições ecoam pela sala. Começam a apontar os lápis e a desenhar. No papel, elas esboçam algumas impressões de mundo. O que as palavras significam? E os desenhos? O que as carinhas alegres ou confusas podem representar? É difícil dizer, afinal, essas crianças têm apenas seis anos.

alice leite Texto e fotos

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Os alunos estão há exatos 13,3 quilômetros do centro do poder, no Centro de Ensino Fundamental 2 da Estrutural, um dos bairros mais vulneráveis do Distrito Federal. A reportagem aplicou um questionário em sala com 27 crianças de 8 a 14 anos, além de conversar e recolher desenhos sobre a temática com outro grupo entre 6 e 7 anos. As famílias concordaram com a conversa com resguardo das identidades deles. Apesar das estatísticas que serão mostradas a seguir, há o olhar confuso, os relatos e as brigas na hora do recreio.

“Criança não pode trabalhar” Em sala, a ideia é uníssona: todos dizem que criança não pode trabalhar. Ao final da pesquisa, sete jovens do grupo entre 8 e 9 anos colocaram que crianças menores de 14 anos trabalhando seria errado apenas às vezes. No mesmo grupo, a maioria também afirmou que ajudar nas tarefas domésticas enquanto os pais trabalham é errado só às vezes ou nunca. “Eu sempre ajudo e tomo conta do meu irmão, acho que é certo”, diz uma delas. O menino ao lado discorda. “Eu não gosto de ajudar em casa”, afirma. As meninas ainda se identificam muito mais com a obrigação de tomar conta dos afazeres domésticos. A psicóloga Tânia Nascimento explica que o lugar da criança na sociedade, enquanto indivíduo em formação, deve ser preservado. “O papel social da criança consiste principalmente no brincar saudável e livre, além do estudo, a fim de que esta se torne um adulto pleno e ativo na sociedade. Essa visão não deve ser deturpada, pois pode levar a diversas consequências futuras, quando o infante estiver psicologicamente maduro”, afirma.

Marcas Menos sutis do que se imaginaria, as marcas se apresentam. A exposição a um ambiente conflituoso e por vezes violento influenciou a menina de seis anos na hora de desenhar o que a violência significa. Segundo ela, o desenho de um frasco representava uma bebida alcóolica. “Sempre que tem cachaça acontece uma coisa ruim”, relata.

Na hora do recreio as crianças trocam experiências.

A hora do recreio é o momento de descanso tanto para os professores, que realizam um lanchinho coletivo, como para as crianças, que são direcionadas às áreas comuns e de lazer. Assim como em toda escola, alguns ficam na porta da sala, ansiosos para ouvir o sinal tocar e sair para brincar. Logo que escutam o barulho do sino, correm para a área externa e já começam a dividir os times ou planejar as brincadeiras. Os bedéis zelam as grades para que as crianças não ultrapassem os limites da escola. Mas nem todos gostam da hora do recreio. A violência também acontece entre eles, durante o intervalo, e nem tudo é brincadeira de criança. Pelo menos 10 crianças expressaram que se sentem incomodadas com as ameaças, brigas e xingamentos que recebem de outros alunos, exceto o adolescente de 14 anos que disse livremente: “Ninguém chega em mim, sou o mais velho da escola. Ninguém tem coragem”, conta. Tudo parece normal e tranquilo... até o momento em que dois meninos trocam tapas e socos. O bedel, professores e amigos não separam imediatamente. Todos estão ocupados demais. Os colegas em volta dizem que é sempre assim. Na pesquisa, todas as crianças entrevistadas assinalaram que sempre há brigas na escola. A psicóloga explica que presenciar situações de violência frequentes pode deixar diferentes marcas. “As crianças que convivem “Cachaça”, lembou a menina na hora de desenhar.

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Cidadania polícia. Em relação ao bairro em que moram, 61% das crianças afirmaram que às vezes ou nunca se sentem seguras. A ausência de algum responsável zelando pela segurança e acompanhamento nas atividades também é bastante frequente. Apenas seis crianças responderam que sempre estão acompanhados de algum responsável em casa.

Sozinhas em casa A psicopedagoga da escola, Elaine Honorato, entende que a falta de acompanhamento dos pais e responsáveis é um dos principais fatores para que as crianças fiquem expostas a violência. “Aqui, nós temos um quadro de pais que passam a maior parte do tempo fora de casa, trabalhando. Muitos trabalham no Lixão, por isso, muitas vezes, não têm com quem deixar os filhos, então boa parte das crianças daqui passa a maior parte do dia sozinhas em casa. São crianças de 8, 9, 10 anos e vários fatores acabam levando essas famílias a ter uma negligência com as crianças”, explica. em ambiente familiar agressivo podem repetir esse comportamento no futuro por terem tido tais atitudes como corretas durante o desenvolvimento de seus pensamentos, ideias e senso crítico”, explica. A profissional ainda destaca que a violência é um fator determinante para o surgimento desse comportamento hostil. “A violência infantil, principalmente em ambiente familiar, pode ser um grande fator de risco e ter diversas consequências no desenvolvimento psicossocial da criança. Alguns desses efeitos são isolamento, ansiedade, agressividade, depressão, baixo desempenho escolar e medo, podendo até desenvolver transtornos psiquiátricos. Se a criança está presa ao trauma e não consegue progredir, deve procurar ajuda de psicólogo infantil ou outro profissional de saúde mental”, completa.

“Estupro”. “Sempre que tem cachaça acontece uma coisa ruim” . “Ninguém chega em mim, sou o mais velho da escola. Ninguém tem coragem”.

Desproteção O cotidiano desses meninos se assemelha ao de muitos outros pelo Brasil, onde 28 crianças e adolescentes morrem por dia. A maioria são meninos, negros, pobres e moradores de periferias e áreas metropolitanas de grandes cidades. Negligência dos pais, insegurança na escola, o medo de brincar na rua e as marcas de um ambiente violento transparecem nos depoimentos. O retrato da realidade de crianças que moram em regiões periféricas, como é o caso das crianças da Estrutural, parte de princípios muito básicos da sensação de insegurança. Dentre as 27 crianças entrevistadas, 24 responderam que nunca se sentem protegidas pela

Menino de seis anos explicou o desenho como sendo a mãe grávida .

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Cidadania abaixam as cabeças e encaram as fichas, pensativos. Todas as crianças que conseguiram terminar a pesquisa marcaram que só às vezes acreditam que podem ser felizes quando crescer. A falta de perspectiva de viver uma vida segura, saudável e feliz preocupa ainda mais do que a percepção precoce sobre a violência.

violência infantil em números

Crianças de seis anos monstram através do desenho o que é violência para eles.

Para a Defensora Pública, Eufrásia Maria Souza, que atua como coordenadora da Defesa dos Direitos da criança e do adolescente no órgão, a proteção da criança deve ser assegurada pela família, sociedade e governo. “Qualquer violação pode ser comunicada ao Conselho Tutelar diretamente, órgão de proteção, incumbido pela sociedade de zelar pelos direitos de crianças e adolescentes, ou ligando para a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos através do número 100, assim como acessando o aplicativo chamado Proteja Brasil”, adverte. Eufrásia Souza ainda ressalta que os casos mais evidentes de violência devem ser encaminhados para apuração através de delegacia comum ou delegacia especializada no atendimento à criança e adolescente. “A Defensoria Pública também se coloca à disposição para encaminhar adequadamente os casos para a proteção do direito de crianças e adolescentes, inclusive através de medidas judiciais que se fizerem necessária, por exemplo, para afastamento do agressor”, garante. A escola visitada, o CEF 2, assim como outras escolas da secretaria de educação do DF, não dispõe de atendimento clínico para as crianças. A psicopedagoga explica que o trabalho do psicólogo na secretaria é de investigar e dar uma avaliação das crianças que apresentam algum problema de aprendizagem ou de inserção no meio escolar, além de elaborar projetos dentro da escola. A partir do diagnóstico, a família deve procurar um profissional.

Última pergunta Agora, ainda na sala de aula, as crianças parecem cansadas de responder e debater tantas questões. O último questionamento dói. “Vocês acham que serão felizes quando crescer?”, indago. Diferente da primeira pergunta, dessa vez o burburinho diminui, eles

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Segundo a Unicef, crianças e jovens de até 18 anos são 31,1% da população do Brasil. Entre o número de adolescentes que morrem no país, 36,5% são assassinados. Na população total, esse percentual é de 4,8%. Esse cenário confirma a colocação do Brasil como o segundo país do mundo em número de assassinatos de adolescentes, atrás apenas da Nigéria, país que sofre com a presença de grupos extremistas, como o Boko Haram. Em outra pesquisa, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, um organismo de cooperação internacional para pesquisa, o número de homicídio de crianças e adolescentes coloca o país em terceiro lugar em uma lista de 85 nações. O “Relatório de Violência Letal contra as Crianças e Adolescente do Brasil” faz relação ao número de vítimas de homicídio em 2013, e contabilizou 10.520 crianças mortas. O número equivale a 3,6 chacinas da Candelária por dia. A pesquisa ainda evidencia que as vítimas têm cor, renda e endereço, sendo que o número de vítimas negras é quase três vezes maior que o de brancas. De acordo com estatísticas da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, são realizadas, em média, 5 denúncias por hora ao Disque 100 de violência contra crianças e adolescentes. Ao todo, foram realizadas 1.053 denúncias só no primeiro semestre de 2016. No Brasil, as situações de negligência, violência psicológica, física e sexual são os crimes mais comuns, segundo o balanço. As violações atingem principalmente as meninas, que são as vítimas em 45% dos casos. A faixa etária mais atingida é de 8 a 11 anos. Ao entregar o desenho, menina de seis anos também deixou o dever de casa que tinha feito. “Tem tudo haver com o que você quer”, ela disse.


Cidadania

Medidas No dia 5 de abril foi publicada no Diário Oficial uma lei que assegura garantias e direitos de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. O projeto estabelece alguns diferenciais do que já se tem atualmente, como a criação de atendimento telefônico para denúncias de abuso e de exploração sexual e de serviços de referência multidisciplinar no Sistema Único de Saúde (SUS) para atenção a crianças e adolescentes em situação de violência sexual. Este seria

separado do Disque 100, gerenciado pela Secretaria de Direitos Humanos. A nova legislação versa ainda sobre como serão feitos os atendimentos e os encaminhamentos das denúncias, e detalha os procedimentos de escuta especializada e de depoimentos de crianças e adolescentes durante as investigações de casos envolvendo violência. O Criança Feliz é um programa do Governo Federal que foi criado para dar assistência às famílias com crianças pequenas e que estão cadastradas no tradicional Bolsa Família. O programa promete acompanhar 4 milhões de crianças até o fim de 2018, porém, até agora, apenas 2.529 cidades aderiram, o que representa metade dos municípios do país.

O Disque 100 registra denúncias de violência contra crianças e adolescentes Crianças e jovens de até 18 anos representam

31,1%

da população do

Brasil

por hora

1.053

Ao todo, foram mais de denúncias só no primeiro semestre de 2016 29.733

Denúncias mais frequentes 18.622

MAS é o 3º país

18.252

com o maior número de homicídio de crianças e adolescentes 7.788

O número de vítimas negras é quase três vezes maior que o de brancas

2.719

Negligência

Psicológica

Física

Sexual

Trabalho infantil

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Cidadania

´ desafio escolar em aguas lindas Alunos e professores reclamam de instalações na rede pública da cidade goiana

Katharyne Araújo Texto e fotos

A frase do dia já estava anotada na lousa: “Um bom começo é a metade’’. Aos poucos, os alunos do 5º ano, turma da professora Cláudia*, vão chegando à sala. Entre brincadeiras e conversas, o tom de voz alto da professora indica o início da aula. História, quarta-feira, 13h20. O calor e as instalações não impedem o prosseguimento das atividades. Para os alunos e professores presentes na escola, lidar com a educação pública de Águas Lindas é uma batalha que começa antes mesmo do sino tocar e fora daqueles portões. Pedro Augusto, de 17 anos, parou de estudar para trabalhar e ajudar nas despesas de casa. ‘’Eu estava reprovando muito. Minha mãe achou melhor eu sair da escola’’. Hoje ele ajuda em casa e não pensa em voltar a estudar por agora. ‘’Eu sei que um dia se eu quiser um trabalho bom, vou ter que estudar, né? Só que está melhor eu trabalhando mesmo”. De acordo com a Secretaria do Município de Águas Lindas, são 47 escolas, 21 mil alunos, 915 efetivos e 140 contratados e 819 turmas. Em relação à evasão dos es-

Alunos reclamam de calor na sala de aula.

tudantes, em 2015 a desistência foi de 4% e apenas 93% de freqüência. Em 2016, desistência de 4% e freqüência de 94%, e até momento em 2017, 0,1 (evasão) 99% de freqüência. Os dados informados pelo município demonstram uma média de 2,5% de evasão.

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Dentro e fora da sala A quantidade de crianças com seis anos fora da escola é elevada, atingindo 7,3% (14.976 crianças). Houve registro de crianças de 9 a 14 anos fora da escola, 0,1% ou 247 crianças. Pelo menos 3,6% (7.463 pessoas), com 15 anos ou mais, são analfabetos e 3,6% (7.413) sabem apenas ler e escrever. No outro extremo, 3% declararam ter curso superior incompleto e apenas 1,8% superior completo. Com relação à Educação de Jovens e Adultos (EJA), embora os percentuais ainda sejam baixos, o município possui cerca de 4.893 jovens e adultos buscando concluir seus estudos. Sentado na terceira cadeira da quarta fileira, João Victor, de 10 anos, copia em seu caderno as anotações do quadro. Mora a algumas quadras dali, vai a pé todos os dias e sua reclamação é pontual: o calor dentro da sala. Kellyane, de 11 anos, gosta de sentar na frente e se considera uma menina esforçada. Ela afirma gostar da escola, mas acha que a merenda poderia ser melhor. Diego, de 14 anos, sentado próximo à porta, reprovou

Professores dizem que jornada é extenuante.

duas vezes e diz não gostar de estudar. Reclama da lama que forma no espaço destinado às atividades físicas quando chove. Gosta de jogar futebol, mas a escola não tem um espaço apropriado. Mora longe e vem com o avô de bicicleta. Sonha em ser policial.


Cidadania

Estudantes e professores reclamam: Ninguém está satisfeito com o condições do ensino público de Águas Lindas.

O que causa a saída dos alunos pode ser explicado por quem está dentro e fora da sala de aula. São inúmeras reclamações que partem tanto dos alunos, docentes, pais e demais funcionários. Ninguém está satisfeito com o sistema da rede de ensino. Os problemas são visíveis, comuns entre as escolas e parecem continuar mesmo com o passar dos anos. Cláudia, professora do 5º ano, afirma que além de professores sobrecarregados, turmas superlotadas e instalações precárias, a educação de Águas Lindas sofre diariamente com omissão do estado em alguns aspectos. “Como professores, somos praticamente tampadores de buraco. Fazemos muito mais do que nossa obrigação. Enfrentamos o calor, o caos causado quando chove, falta de materiais decentes, precisamos nos redobrar para conseguir oferecer uma boa aula aos nossos alunos. Fora as instalações e estrutura do colégio. A bacharel em Sistema de Informação Thainá Araujo, 21, estudou por 11 anos em Águas Lindas e diz que as principais dificuldades estão relacionadas às instalações. “Os maiores problemas tinham a ver, com a falta de recursos para realização das atividades, como por exemplo, uma Feira de Ciências. Fora o pagamento atrasado dos professores e constantes faltas de energia. Tudo contribuiu para que em vários momentos nos sentíssemos desconfortáveis diante de algumas situações. Outra dificuldade era a pouca quantidade de livros para distribuir entre os alunos. Os livros tinham que ser divididos entre 2 ou 3 alunos para a realização de atividades. Apesar disso, os professores sempre nos ensinaram a batalhar pelos estudos’’. Francisca Mariano, de 43 anos, é mãe de Maria Clara, de 8 anos, aluna do 3º ano da rede pública. Além de Maria, Francisca possui mais três filhos e acompanha as principais dificuldades enfrentadas pelas crianças. “A

falta de material é o que mais incomodam eles. Bolas boas para atividades físicas, os livros do colégio, ventilador na sala. Apesar disso, eles gostam muito das professoras. Uma vez o Junior, que é o mais velho, se machucou na escola por causa de uma porta velha que estava solta. Fico com medo só dessas coisas mesmo’’. A prefeitura esclarece que está investindo R$ 23 milhões em construções de novas unidades escolares, de quadras cobertas, além de reformas. ‘’Estão em construção cinco unidades de Escolas Padrão Século XXI, todas com laboratórios de informática e de ciências, sala de diretoria, secretaria e grêmio estudantil, cozinha, refeitório, auditório, biblioteca, quadra poliesportiva coberta e área de convivência externa”, garante o órgão.

Sobrecarga As promessas de melhorias e os dados sobre os avanços não confortam quem lida diariamente com essa realidade. Cristina*, professora de matemática para o ensino médio, diz que os problemas educacionais de Águas Lindas estão além dos muros da escola. “Águas Lindas é um município com altas taxas de pobreza e miséria. Muitas crianças vêm à escola para comer. Ainda falta muito para que o ensino seja realmente de qualidade. O que mais entristece é essa nossa vontade dar o melhor, fazer diferente, mas faltam livros, materiais, água na escola’’ ‘Sou professora em Águas Lindas há 7 anos. Posso afirmar que o cansaço físico e psicológico é intenso. É ruim ver as situações dos alunos e como chegam até aqui. Os problemas familiares e sociais são refletidos dentro da escola. Lutar contra todos esses fatores é uma tarefa que exige muito de nós..’’, desabafa Claúdia.

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Cidadania

Alvorecer no Sol Nascente Símbolo de favelização na capital, a comunidade Sol Nascente abrange espaço para pessoas de todo o país O estudante Kenio da França Santos tem apenas 19 anos, mas apesar da pouca idade, já sofreu com os efeitos de uma vida injusta e cruel. Morador do Sol Nascente, a maior favela da América Latina, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o jovem conheceu o mundo das drogas e do crime ainda na adolescência. Diante de um Estado que ele qualifica como omisso, a história de Kenio traduz a realidade brasileira: local onde o pobre não tem vez. “Eu tentei várias vezes conseguir estágio e até empregos informais, mas quando eu falava que moro no Sol Nascente, as pessoas já me olhavam de um jeito diferente. Eu saía das entrevistas com a certeza de que não ia ser aprovado”, lamenta o jovem. Mas como conseguir espaço numa sociedade em que o cidadão já está à margem? Como ser luz num lugar onde as pessoas só veem escuridão? A comunidade Sol Nascente é conhecida pelo crescente número de tráfico de drogas e violência dos mais variados tipos. São mais de 95 mil habitantes, que dividem um perímetro de 20 km quadrados. Contudo, líderes comunitários afirmam que aproximadamente 120 mil pessoas moram no local. Nesse ambiente vivem pessoas com histórias e trajetórias diferentes, mas o fim é o mesmo: dar a volta por cima num local em que o preconceito e a discriminação imperam. Kenio veio do Piauí em 2005 com os avós maternos, os pais e os dois irmãos. A família saiu de São Raimundo Nonato – a 576 km da capital, Teresina – para conseguir melhores condições de vida na capital do país. Alugueis caros, custo de vida elevado e desigualdade social, fizeram com que a família de Kenio se mudasse para o Sol Nascente em 2006.

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Igor Caíque Texto e fotos

A comunidade Sol Nascente surgiu em 1998 por meio de grilagem de terras. Até então era apenas um conjunto de chácaras localizadas no fim da Ceilândia. No entanto, desde 2008 o local desenvolve-se em ritmo desordenado. Hoje, a comunidade é símbolo de favelização no Distrito Federal.


Cidadania O número de nordestinos que imigraram para o Distrito Federal é quase equivalente à população total. A família de Kenio engrossa as estatísticas. De acordo com a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), 52% do total de imigrantes são da região Nordeste, sobretudo os estados da Bahia, bem como do Maranhão e do Piauí. Número de Nordestinos moradores do Sol Nascente por Estado 6.654

6.139

cola. Os dados apontam que o problema é passado de geração em geração. A população jovem que vive no Sol Nascente não é instruída, menos de 2% possui o ensino superior completo. Para tentar apaziguar este problema, a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF) informa que há previsão de construção de duas creches, além de uma escola de ensino fundamental e outra de ensino médio. Os projetos fazem parte do Plano de Obras do Governo de Brasília em relação ao triênio 2015/2018. Contudo, de acordo com a SEDF, os projetos ainda estão em fase de elaboração. Índice de Educação no Sol Nascente

4.539 3.788 2.859

Ensino Superior Analfabetos 1.148

E.F Completo 37

Maranhão

Piauí

Bahia

Ceará

Paraíba

Pernambuco

1.247 1.778 3.607

Crianças Fora da Escola

Alagoas

Ao chegar à capital, a família teve uma surpresa: eles não sabiam que a zona periférica do DF tem realidade semelhante àquela que tinham no sertão nordestino. “A gente olha Brasília pela televisão e acha que vai morar nas áreas mais nobres, perto de prédios chiques e locais de lazer. Pura ilusão”, explica a mãe de Kenio, a dona de casa Rosângela Maria dos Santos, de 37 anos. A comunidade não possui coleta adequada de lixo, rede de esgoto e posto de saúde, e a única escola construída é destinada para alunos do pré-escolar até a quarta série do ensino fundamental. Isso fez com que Kenio saísse da escola aos 11 anos, quando estava na quinta série. A falta de oportunidades levou o jovem a um submundo que ele jamais sonhara que entraria: as drogas e o crime. “Eu comecei fumando cigarro normal, em pouco tempo já estava viciado em maconha”, lembra o jovem. Kenio conta que a maioria dos adolescentes que se envolvem com drogas ou até mesmo com o crime, entra nesse mundo por influência de amigos. Ele estava voltando de um jogo de futebol quando um amigo mostrou o cigarro de maconha. “Eu nem sabia o que era isso direito, mas em poucos dias já estava viciado”, explica. Ainda de acordo com a Codeplan, mais de 16 mil pessoas que moram na comunidade possuem idade de 10 a 18 anos. O número é equivalente a 18% do total de habitantes. Desses, mais 1,7 mil são analfabetos. A situação ainda é mais alarmante quando se trata de crianças de até seis anos: São mais de 6,3 mil que estão fora da es-

E.M Incompleto E.M Completo

6.192 8.886 14.949

E.F Incompleto

35.323

Dados: Codeplan.

Ceilândia, cidade onde se localiza a comunidade Sol Nascente, é a Região Administrativa que mais possui índices de evasão escolar no DF. De acordo com o IBGE, mais de 7 mil estudantes abandonaram a escola. Kenio afirma que todos os amigos tiveram a mesma atitude. “Todos que entraram para essa vida saíram da escola. A gente ia pra bagunçar, às vezes a gente usava droga no banheiro e até no pátio. Todo ano a gente reprovava então não fazia sentido continuar ali. Esse é o pensamento de muitos”, explica o jovem.

Ombro Amigo Era fevereiro de 2015, Kenio estava voltando de uma pelada com os amigos quando o educador social Luiz Henrique Mangabeiro ofereceu uma proposta que mudaria radicalmente a vida do jovem: entrar para um curso do Instituto Inclusão de Desenvolvimento e Promoção Social (Idepros). A instituição oferece cursos profissionalizantes gratuitos para crianças e jovens do Sol Nascente. No local, os alunos recebem capacitação profissional e orientação psicológica. “Eu tava meio ‘lombrado’ quando o Luiz me abordou na rua. Eu tava acostumado a andar em alerta, pois

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Cidadania mexia com drogas. Estava armado e lembro que me assustei quando ele falou comigo”, conta. “Mas para falar a verdade, eu não aguentava mais viver naquela situação. Todo viciado sabe que vai se ‘ferrar’, a maioria até tenta sair, mas ninguém consegue isso sozinho”. A psicóloga Ana Flávia Madureira, especialista em questões sociais, acredita que há falta de incentivo para que os jovens consigam mudar a própria realidade e que o capitalismo exagerado da sociedade moderna contribui para inserção deles no crime organizado. “Numa sociedade extremamente consumista como a nossa, em que a pessoa vale pelo que ela ostenta, crianças e adolescentes são estimuladas a entrarem no crime organizado. Se a sociedade acha que o mais importante de uma pessoa é o que ela pode comprar, os jovens que não têm condições financeiros tendem a ser atraídos com a promessa de ganho rápido”, explica. Kenio é um exemplo desse fato. “Eu queria andar com pisante de marca, com a roupa da moda, queria sair com minha namorada, mas sem trabalho eu ia conseguir isso como?”, explica o jovem, que também se tornou traficante. “Na primeira semana eu já tinha quinhentos reais no bolso. Eu ganhava R$ 20,00 por semana para ajudar meu pai na obra, o que você acha que era mais atrativo pra mim?” justifica. A especialista afirma ainda que o preconceito é um dos responsáveis pela inserção de crianças e adolescentes no crime. “A nossa autoestima se constrói a partir da nossa relação com as pessoas. Situações que sinalizam o fracasso e a impotência tendem a criar nas pessoas uma desconfiança em relação a si mesmo”, avalia. “Já que o governo não liga para nós, precisamos de uma pessoa que nos apoie. Eu só consegui sair dessa vida por causa disso”, explica Kenio ao falardo educador social Luiz Henrique Mangabeiro. Luiz tem 23 anos e é

Todos os amigos de Kenio se envolveram com drogas. Outros se perderam no mundo do crime. O jovem já presenciou o assassinato de dois deles.

voluntário na Idepros. Ele dá aulas de violão e informática. O jovem é negro, de baixa renda, morador do Sol Nascente há cinco anos, mas diferente da maioria das pessoas dessa idade, que residem na comunidade, conseguiu vaga numa instituição de ensino superior. “Sou bolsista, é claro. Faço Publicidade e Propaganda e tive que estudar muito para conseguir realizar meu sonho”, testifica. O educador aceitou um emprego voluntário porque acredita no Sol Nascente. “Eu sou morador de lá e não sou viciado ou criminoso. As pessoas têm que abandonar esse preconceito. O pessoal do Sol Nascente tem potencial, tem talento, mas sem instrução e é impossível vencer na vida”, afirma. Luiz encontrou Kenio no meio da rua e se sensibilizou. “Nós temos quase a mesma idade. Daí eu pensei: ‘Por que eu consigo vencer e ele não?’”. Hoje, os dois são amigos. “Ele acreditou em mim quando nem eu mesmo acreditava”, diz Kenio, que está há dois anos sem usar ou vender drogas. Kenio voltou para a escola e conseguiu um emprego num supermercado em Ceilândia. A luta dele, hoje, é fazer com que os mesmos amigos que o levaram para o submundo do crime, conheçam a luz da vida digna e honesta. “Eu sei que é difícil, mas quando a gente encontra pessoas corretas como o Luiz, que estão dispostas a nos ajudar, a gente consegue. Eu tive recaídas,

O prefeito comunitário organiza, mensalmente, partidas de futebol para entreter a população.

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Cidadania quis abandonar tudo, mas não desisti. Quero fazer pelas pessoas o que o Luiz fez por mim”, garante.

Amizade que revoluciona Quando José Valmir dos Santos saiu de Palmeira dos Índios, no interior alagoano, e veio para o Distrito Federal, não imaginava que o destino tinha traçado uma vida de liderança e comprometimento social. Prefeito comunitário do Trecho 3 da comunidade, Valmir do Sol Nascente – assim chamado pelos moradores – é um dos ilustres personagens que ajudam o local a ser menos violento e precário. “Não aceito tanta injustiça social causada pela ausência da atuação do governo nas comunidades que mais precisam de ação do Estado. Me tornei prefeito comunitário porque não me conformo com o abandono das sociedades mais carentes”, explica. Assim como a família de Kenio, Valmir sonhava em conseguir melhores condições de vida. “E consegui! Consegui um bom emprego por meio de amigos e parentes”, mas explica que as diferença culturais fizeram toda a diferença. “Era tudo diferente do que eu estava acostumando. Era outro mundo.” Ele chegou ao Sol Nascente em 2002, quando a comunidade ainda estava em processo de formação. Naquela época havia poucas casas e nenhuma infraestrutura. Os moradores não dispunham de energia elétrica ou água potável, por exemplo. Quinze anos depois, a realidade não mudou muito. “Convivemos com várias ausências. Ausência de aprovação do Projeto de regularização o setor, ausência de escola pública, centros de saúde, pavimentação asfáltica, coleta de esgoto e águas pluviais, qualificação profissional. É um verdadeiro descaso”, critica o prefeito.

Nas redes sociais, Valmir exibe, com orgulho, parte de algumas melhorias no setor, fruto de um trabalho árduo. Mas ele não conseguiu isso sozinho. O prefeito comunitário conta com apoio dos moradores. É o caso da professora Margarida Minervina, que cedeu a própria casa para ensinar crianças e adolescentes a fazerem atividades escolares. Ela abriu mão do conforto da própria casa para fazer a diferença na comunidade. Fundou a Associação Despertar Sabedoria no Sol Nascente na garagem a própria casa. “Nosso objetivo é tirar os jovens das ruas e fazer com que as crianças cresçam com educação. Nós acreditamos que a educação é o caminho para solucionarmos os problemas do Sol Nascente”, explica. Margarida e Valmir são amigos desde o início da comunidade. Enquanto ele atua para obter melhorias em relação às políticas públicas e à infraestrutura, ela leciona e orienta os adolescentes quanto aos riscos que as ruas oferecem. Margarida traça um perfil dos jovens que chegam à associação. “A maioria tem um comportamento agressivo, não tem aconchego, não gostam de conversar, mas com o tempo eles vão interagindo e começam a se sentir pertencentes ao projeto. Eles chegam vulneráveis de atenção e afeto”, justifica. A professora também se mostra preocupada com o crescente número de jovens envolvidos com o tráfico de drogas, bem como com demais crimes comuns da comunidade: roubos, brigas entre vizinhos e até assassinatos. “Ninguém nasce criminoso, as pessoas se tornam criminosas porque tiveram incentivo para isso. Tudo é uma questão de incentivo. É isso o que o governo precisa descobrir”, avalia.

Mas apesar das dificuldades, a esperança de uma comunidade mais respeitada e estruturada renasce a cada manhã junto com o nascer do sol, que nomeia a comunidade. “Mesmo com tudo isso, trabalhamos para aproximar a sociedade dos serviços de Estado. Lutamos por mais vagas em escolas, pois hoje temos um número absurdo de crianças em idade escolar fora da escola. Mas o foco é, principalmente, na luta pela regularização do Sol Nascente, pois isso pode melhorar nossos problemas graves”, afirma. Margarida ensina mais de 150 crianças e jovens do lugar.

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Cidadania Perguntada sobre políticas públicas que beneficiam os jovens, a Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh), afirma que há o programa segurança alimentar e nutricional. “Que já serviu 8.232 cafés da manhã no restaurante comunitário do Sol Nascente, entre os dias 23 de novembro de 2016 e 17 de abril deste ano. No café da manhã, por apenas 50 centavos, as pessoas são servidas com um pão com manteiga, uma fruta e café com leite com 100 ml de café e 200 ml de leite. Além disso, no mesmo restaurante, são servidas mais de 900 refeições por dia na hora do almoço pelo valor de R$ 1,00 para os inscritos no CadÚnico e a R$ 2,00 para o público em geral”, diz a nota oficial da secretaria. A Sedestmidh não informou se há outros projetos voltados para a juventude. Em razão disso, a população acredita que áreas como o esporte, bem como o lazer e a saúde estão longe de conseguir investimentos. Enquanto esse dia não chega, Margarida conta com o apoio dos moradores para manter a associação. “Vivemos de doação. Recebemos materiais escolares, alimentos para fazer lanches, mas eu vou persistir. Se o governo não dá o apoio necessário aos nossos jovens, nós estamos aqui para dizer que eles podem contar conosco”, exalta a professora.

Mudança radical Quem diria que um homem julgado e absolvido por ser integrante de quadrilha que praticava diversos crimes em Ceilândia na década de 1990 poderia tornar-se advogado por formação e conselheiro tutelar por função? Jonas da Marcena Costa é ex-usuário de drogas. Ele roubou, traficou e escandalizou a família e os amigos com atitudes totalmente diferentes daquelas que os pais ensinaram. “Diferente dos meus nove irmãos, eu fui desonesto e me perdi nas drogas”, conta. Ele cresceu no setor “P” Sul, um dos locais mais perigosos de Ceilândia. De infância humilde, não usa as condições financeiras para justificar as próprias atitudes. “Entrei nesse mundo porque tive a mente fraca”, avalia. Jonas usou a fé para sair das drogas. Hoje, conselheiro tutelar atuante no Sol Nascente, acredita que a igreja é uma das instituições mais importantes na luta de conscientização de jovens e adolescentes quanto às drogas e ao crime. Mas apesar disso, respeita a fé dos outros. Na verdade o trabalho do conselheiro é em relação às famílias.

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“Outro problema comum no Sol Nascente é o abuso sexual com crianças, muitas vezes praticado, infelizmente, pelos parentes. Acontece com muita frequência”, lamenta o conselheiro tutelar. Dados da Codeplan apontam 188 casos de abusos sexuais praticados na comunidade. O número é superior ao de Regiões Administrativas bem mais populosas que o setor, como Taguatinga e Gama, que apresentaram 127 e 129 casos, respectivamente.

“O sol nasce para todos, mas a sombra é só para alguns” Infelizmente, jovens como Kenio são minoria no Sol Nascente. Grande parte dos jovens que se envolve com o crime não é resgatada. Eles se perdem e nunca mais se encontram. Para alguns, o preço dessa escolha é a vida. A psicóloga Ana Flávia Madureira chama atenção para esse problema. “Muitos dos que se envolvem com o crime organizado são mortos antes dos trinta anos. Alguns morrem por causa de guerras entre facções, outros são mortos por aliados da própria gangue”, lamenta. Kenio que já enterrou muitos amigos por causa desse problema, testifica: “Eu vi amigos meus morrendo. Eu vi mães chorando à beira do caixão. Eu sei o que é sofrimento de verdade”. Mas apesar das provas de que o crime, verdadeiramente, não compensa, boa parte dos que se envolve com este mundo não querem o abandonar. É o caso de João da Silva (nome fictício), de 17 anos. Ele se envolveu com o tráfico de drogas aos 12 anos e afirma que vive bem desse jeito. “O sol nasce para todos, mas a sombra é só para alguns”, critica o adolescente. “Tô de boa, parceiro. Até tentei ser gente, mas prefiro ficar como estou. Tudo o que eu tenho foi conquistado com o roubo e tô de boa assim”, diz o jovem. Ele conta que outras pessoas até quiseram mudar, mas afirma que se conformou com esse estilo de vida. “Eu nasci foi pro crime mesmo, entendeu? Esse negócio de trabalhar o dia todo, ganhar dinheiro só uma vez por mês...isso não é pra mim não, parceiro”, explica. No entanto, os moradores da região mantêm a esperança de que a desigualdade social, bem como o preconceito e a discriminação serão apenas uma parte do passado do país. Enquanto o governo pensar que educação é só uma forma de gasto e não de investimento, pessoas como Kenio, Margarida, Luiz e Valmir terão que contar com a própria sorte e vontade.


Cidadania

Mais tempo na escola Programa do governo objetiva contribuir com a alfabetização de jovens e crianças da rede pública de ensino do DF

Vanessa da Silva Texto e fotos

As escolas públicas do Distrito Federal começaram a aderir ao Programa Novo Mais Educação, com execução ao longo de oito meses do ano letivo de 2017. O projeto tem o objetivo de ampliar a jornada escolar das crianças e dos adolescentes com carga de cinco ou quinze horas semanais. Para isso, os estudantes contarão com acompanhamento pedagógico, obrigatório em disciplinas de língua portuguesa e matemática, além de desenvolvimento de atividades voltadas para a cultura, esporte e lazer. A iniciativa contribui com a alfabetização de jovens e crianças, bem como auxilia na melhoria do desempenho deles. O objetivo é conquistado por meio da ampliação do período de permanência dos estudantes na escola. As turmas são compostas por até vinte alunos no acompanhamento pedagógico. No entanto, nas demais turmas de atividades livres, as salas de aula podem comportar até trinta estudantes. Umas das escolas que aderiram ao programa é a Escola Classe 411 Norte. A instituição conta com 117 crianças que participam do projeto. Com a grande demanda dos pais, foi necessária além de sorteio, uma audiência

pública exigida pela escola para que a alteração do horário no Programa Novo Mais educação fosse realizada, aumentando de sete para dez horas diárias. Sendo, 5h horas na escola classe e as outras 5h horas na escola parque 211 Norte. Para atender melhor os alunos, são oferecidas atividades complementares, refeições e horário de descanso. Crianças especiais ficam a critério dos pais para escolherem se participam ou não do programa. Lindomar de Barros, diretora da Escola Classe 411 norte, afirma que houve uma grande procura dos pais pelo ensino integral na escola, por atender uma grande parte de moradores de cidades satélites. “Na nossa escola temos alunos de todos os lugares do DF, pais que trabalham o dia todo e não tem disponibilidade para buscar os filhos”. “A escola oferece todo o apoio sem prejuízo pedagógico em parceria com a escola parque”, disse. Segundo a professora Mércia Aparecida de Souza, membro da Coordenação de Políticas Educacionais para Educação Infantil e Ensino Fundamental (COEFI) da Secretaria de Educação do DF, a educação integral é uma

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Cidadania política pública e a secretaria de educação ver a necessidade de implementar o ensino no Distrito Federal. Para o ano de 2017, o objetivo é conseguir todo o suporte e subsídio necessário, com a finalidade de manter os alunos nas escolas e oferecer múltiplas oportunidades. “A grande dificuldade que a secretaria enfrenta é o suporte nas escolas, não estão capacitadas para suportar o ensino integral e quantidade de alunos. Para isso, são feitas algumas adequações para receber o programa”, explica. Com as melhorias feitas e escolas participando do programa Novo Mais Educação, alguns pais elogiam a forma que a escola adquire e se adapta ao ensino integral. Rosangela Aparecida, mãe da Talita de 7 anos, explica que precisa trabalhar e não teria com quem deixar a filha na parte da tarde. Com a participação no sorteio, conseguiu uma vaga. “Vou para o trabalho e depois passo para buscá-la”. “Todos os dias pergunto se ela está gostando do ensino e vejo como ela está sendo tratada pelos professores”, disse. Ao mesmo tempo em que alguns pais apoiam o programa, outros reclamam da ordem oferecida nas escolas. A dona de casa que se identificou apenas como Ângela Maria conta que gostaria que os horários das atividades complementares fossem alterados. “Na parte da manhã os alunos ficam na Escola Parque, lá são praticadas atividades físicas, eles deveriam alterar o horário porque os alunos já chegam na Escola Classe cansados e talvez não absorvem o conteúdo passado na escola como deveriam”. “Meu filho não reclama, pois criança gosta de tudo, mas como mãe fico preocupada”.

Mércia Souza coordena políticas no ensino infantil e fundamental.

O programa Novo Mais Educação é executado nas escolas públicas de ensino por meio de articulação institucional e cooperação com as secretarias de educações estaduais, distritais e municipais, mediante o apoio técnico e financeiro do Ministério da Educação (MEC). Para as realizações e atividades previstas no planejamento do programa, são definidas em funções como, articulador da escola, mediador da aprendizagem e facilitador, além de cada escola participante escolher no ato da inscrição do programa um coordenador que fará todo o acompanhamento do programa.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), no DF existem 106 escolas de ensino integral. Para participar do programa é necessário seguir alguns critérios: são priorizadas as escolas que obtiveram um baixo desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ou que apresentam índice de nível socioeconômico baixo ou muito baixo.

Lindomar de Barros, diretora da escola classe 411 norte.

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Quantidade de escolas por regiões administrativas:

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Dados: Ministério da Educação

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Enfim, dignidade Após uma década de invasão, famílias passam a viver em apartamentos. Panorama atual de ocupações irregulares ainda tem números elevados no Distrito Federal e Entorno

Apartamentos entregues para os ex-ocupantes do Noroeste.

Victor Gammaro Texto e fotos

Responder à simples pergunta como “qual é o seu endereço?” era um momento difícil na vida de Maria Silvana Rodrigues Maranhão. Há dez anos em Brasília, ela conseguiu um apartamento no Paranoá há apenas dez meses. As diferenças entre viver em um barraco e em uma casa, além das que parecem ser óbvias, passam pela alegria de ter um chaveiro e o conforto de não precisar se levantar para tapar os buracos das goteiras quando cai uma chuva forte. O caso dela não é isolado. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Distrito Federal tem 18 ocupações de baixa renda por todo o território. Somadas, as populações destes locais chegam a mais de 2 mil pessoas. Maria Silvana, mãe de dois filhos, tem 42 anos, sendo 10 só de vivência em Brasília - uma década de invasão. Natural de Iguatu, interior do Ceará, 380 quilômetros da capital Fortaleza, desde que desembarcou na capital, só morou “dentro do mato”, como ela mesmo definiu a época de ocupações. Quase 900 famílias ainda vivem em situação de ocupação. Dentre essas, 40% só na região central do DF. “Agora eu tenho um endereço, ninguém pode dizer mais que a minha casa não tem um endereço. A carta que eu não recebia antes, vai chegar pelos Correios, eu tenho uma chave para abrir e fechar a minha casa”, comemora a catadora de materiais recicláveis.

Há 10 anos, uma invasão no Noroeste, bairro nobre do Plano Piloto, chamava a atenção pelo tamanho e proximidade dos prédios mais modernos da cidade. A proximidade com a ocupação incomodou os moradores do bairro, que pediam a retirada dos invasores quase que todos os dias. “Foi ótimo eles pedirem que nós saíssemos, só assim fomos vistos, lembrados, quando os ricos se incomodaram, deram um jeito de arrumar casa para nós”, relembra Silvana, que agora vive em um apartamento do Paranoá, conquistado em um programa habitacional do Governo do Distrito Federal (GDF). Somente no “Cerrado” - nome que foi batizada a ocupação do Noroeste pelos ocupantes - 41 famílias, totalizando mais de 200 pessoas, sendo 62 crianças entre 0 e 10 anos, viviam em condições subumanas. A menina Vitória Pereira, uma delas, teve, aos cinco anos, o primeiro contato com a escola. “É tudo diferente, no colégio novo tem muitas crianças e ainda ganhamos lanche no recreio”, disse, sorridente, a garota, que foi pré-alfabetizada ainda na invasão, quando professoras iam, voluntariamente, ensinar português e matemática aos mais jovens.

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Com luz e sem chuva Uma das grandes preocupações de Aparecida Correia, de 48 anos, era com os dias chuvosos no Noroeste. Tampa o buraco no teto, busca o balde para não molhar o chão e muda a cama de lugar. Muitas vezes o marido, Ivonaldo Batista, tinha que subir nas telhas improvisadas para sanar os problemas causados pelas chuvas. Agora protegida da chuva, Cida, como prefere ser chamada, até curte os dias com tempo ruim. “Quando estou em casa, olho pela janela e até coloco a mão para fora, para sentir os pingos”. Sem ter que correr para impedir que a casa seja encharcada, sobra tempo até para conscientização de problemas maiores. “Gosto também quando chove pois estamos ficando sem água, né? Tem que chover é lá no reservatório”, diz em meio a sorrisos fáceis. Outra alegria de Maria Silvana Rodrigues Maranhão é poder usar energia elétrica durante todo o dia. Em tempos de invasão, a única fonte de luz eram os postes próximos à invasão, que, por meio de ligações ilegais, abasteciam o Cerrado. “Antes só funcionava de noite, já que a iluminação da rua não funciona de dia”, relembra a catadora, que atualmente não paga mais de R$ 10 pela conta de energia.

Silvana em frente ao novo lar: dignidade.

Porém, apesar de baratas, as contas de luz, água e condomínio apertam a catadora de material reciclável, que ainda não começou a trabalhar na cooperativa organizada pelos ex-moradores do Cerrado. “Faço um bico de faxineira aqui e outro ali, mas o que tenho de fixo, todo mês, são os R$ 70 do Bolsa Família”, afirmou. O valor que ela recebe do benefício do governo não chega a metade dos gastos com as taxas do condomínio, por exemplo.

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Moradores que ainda vivem em situação irregular. Alguns foram retirados e voltaram para o Noroeste.

Panorama atual No entanto, não foram todas as famílias do Noroeste que conquistaram o direito da casa própria. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) informa que sete famílias ainda estão em avaliação para entrar no plano habitacional. Outras não conseguiram entrar no programa, pois já foram contempladas com moradia em outras oportunidades e venderam a propriedade. “Acontece muito, o cidadão conquista um benefício e joga fora, passa para frente por um preço, muitas vezes, muito abaixo do que vale o imóvel”, disse Glauco Gonçalves, gerente do Centro de Referência de Assistência Social do Distrito Federal (Cras-DF). Além dessas, quatro famílias desistiram de viver na capital do país e receberam passagens para retornar às terras natais. O Cras tem a missão de fortalecer os vínculos familiares e acompanhar os grupos de baixa renda. Cabe ao órgão assistir no desenvolvimento social da população pobre e executar programas para garantir o fortalecimento do vínculo entre essas famílias. Uma das medidas do Cras, por exemplo, é ajudar na retirada de documentos de moradores de ocupações. “Nós centralizamos as ações, encaminhamos para os órgãos responsáveis e até emitimos segunda via de carteira de identidade, por exemplo”, explicou Glauco. O mato, o lixo e restos de materiais de construção tomam conta do local onde havia a invasão no Noroeste. Apesar disso, algumas famílias ainda vivem lá, mesmo


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“Foi ótimo eles pedirem que nós saíssemos, só assim fomos vistos, lembrados, quando os ricos se incomodaram, deram um jeito de arrumar casa para nós”.

após terem sido retiradas de forma pacífica, no último mês de outubro. “Aqui é a minha casa, construí o meu barraco logo depois que fomos retirados”.

casa própria por falta de documentos, o jeito foi arrumar outra invasão. Eu não quero voltar para Iguatu (CE)”, disse a catadora, que é conterrânea de Silvana.

“Se me mandarem embora, eu volto para cá no dia seguinte”, disse um catador de material reciclável que se identificou como “Juca”, que aparenta ter entre 20 e 30 anos. Glauco Gonçalves diz que o Governo do Distrito Federal desconhece as novas ocupações. “Não temos conhecimento sobre essa informação, para nós essa invasão acabou”, afirmou, mesmo após ter sido informado pela reportagem da existência de algumas famílias na região.

Na opinião de Silvana, as famílias que não conquistaram as moradias “não foram atrás dos seus direitos”. Para ela, toda a estrutura foi dada para que os moradores do Cerrado conseguissem os apartamentos no Paranoá. “Eu batalhei para que vários amigos conseguissem, mas tem gente que não corre atrás, não posso fazer nada”, lamenta.

Além dos que retornaram para o Cerrado, algumas famílias foram buscar refúgio em outra invasão. É o caso da Dona Marciana, de 37 anos, esposa de Nilton Gomes e mãe de três filhos. “Não conseguimos o benefício da

Vale ressaltar que existem ocupações recentes de áreas públicas no Distrito Federal, posteriores a julho de 2014, mas essas são tratadas diretamente pela Agência de Fiscalização (Agefis), e os moradores não têm direito a benefício.

Moradores da invasão foram cadastrados nos programas habitacionais do GDF.

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A longa espera como rotina Na Fercal, moradores chegam a esperar até duas horas na parada de ônibus. DFTrans garante que faz estudo para mudar situação

Flávio Lacerda Texto e fotos

São nove da manhã. O calor é forte. Mais de uma hora e meia de espera. Em pé, atrás da parada de ônibus para se proteger do sol, com o semblante cansado, abanando a poeira deixada pelos caminhões que passam carregados pela rodovia, Ariadna da Silva, de 35 anos, já irritada, aguarda um coletivo que a leve até Sobradinho. A auxiliar de serviços gerais é uma das milhares de pessoas que não estão satisfeitas com o transporte público da Fercal. Na cidade, as reclamações são muitas: ônibus velhos, empoeirados, com problemas nos freios, portas e janelas estragadas. A primeira cidade operária do Distrito Federal (foi de lá que saíram os insumos para construção de Brasília), composta por 14 comunidades, sendo seis rurais e as demais urbanas, com mais de 30 mil habitantes, não tem sequer um terminal rodoviário, apesar de ser a maior geradora de impostos do DF, segundo a Administração Regional.

Ariadna não faz parte do grupo que deixa a cidade para trabalhar, o emprego dela é na própria região, mesmo assim ela precisa utilizar o transporte público. Para chegar ao Centro Educacional Fercal, onde trabalha, ela sai de casa às 5h30, para tentar embarcar às 6h00. “Eu estou indo agora em Sobradinho comprar uma bicicleta para poder facilitar a minha vida”, disse. Segundo dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), entre os trabalhadores residentes na Região Administrativa (RA) da Fercal, 53,64% trabalham no local, 15,04%, no Plano Piloto e 11,85%, em Sobradinho. Ela reconhece que a situação melhorou de uns tempos para cá, mas bem pouco, quase nada. “Se colocassem um ônibus circular a cada hora, ajudaria muito a população”, opinou. A cuidadora de idosos Elisângela Silva conta que os ônibus são velhos e sempre quebram durante o

trajeto. Ainda segundo ela, os coletivos atrasam demais, os bancos são sujos e não oferecem o conforto necessário para os passageiros. “Eu nunca chego no trabalho no horário certo, mesmo saindo mais cedo de casa”. As pessoas com deficiência, por exemplo, não conseguem embarcar, pois não existe elevadores em boa parte da frota. O mecânico Raphael Martins, de 30 anos, reclama da superlotação dos veículos. Para ele, as linhas no horário de pico são insuficientes. Tanto na ida, quanto na volta, os desafios são os mesmos. “Deveria ter mais ônibus na cidade, às vezes não consigo nem entrar de tão cheio que estão”, disse. Outra reclamação constante entre os moradores da Fercal é a quantidade de linhas que ligam a Fercal ao Plano Piloto. São poucas, apenas duas. De manhã, o último ônibus sai da cidade às 7h. Depois desse horário, os passageiros que querem ir para o Plano Piloto devem ir até Sobradinho e em seguida embarcar em outro coletivo.

“O DFTrans deveria levar em consideração a realidade da região da Fercal e suas peculiaridades para organizar melhor o transporte na região”.

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Cidadania De acordo com a Secretaria de Mobilidade do Distrito Federal, há oito linhas de ônibus que atendem a Fercal. Destas, duas são responsáveis pela ligação com a região central de Brasília: a 0.531 e a 506.4. A autarquia informou também que os passageiros têm a opção de utilizar outras linhas para chegar ao centro de Brasília por meio da integração, benefício que oferece menor valor nas passagens. Essa opção só vale para quem tem o cartão cidadão ou vale-transporte do Sistema de Bilhetagem Automática (SBA). Para adquirir o benefício, o cidadão deve comparecer ao posto de atendimento do DFTrans da Galeria dos Estados com identidade e CPF. O líder comunitário Diego Matos conta que há menos de um ano foi realizada uma reunião entre diretores do Departamento de Trânsito do DF (DFTrans), líderes comunitários e moradores da Fercal para discutir a questão do transporte público na região. No encontro, foram expostas diversas reclamações, entre elas a falta de cumprimento dos horários e a estrutura interna e externa dos coletivos. “Até o momento, nada foi feito, o órgão não voltou a se posicionar sobre as reivindicações recebidas”, afirma Diego. A situação do transporte público na Fercal tem sido discutida, inclusive, nas reuniões do Conselho de Segurança da Fercal, pois as condições dos ônibus oferecem riscos para a população da cidade, uma vez que a frota é sucateada.

Ao todo, são 8 linhas que atendem a Fercal. Apenas 2 ligam a Fercal ao Plano Piloto.

ÔNIBUS

Sem opções, moradores da mais recente região administrativa apelam para o transporte pirata.

O diretor-técnico do DFTrans, Márcio Antônio de Jesus, afirma que um estudo está “sendo finalizado” para aumentar a oferta da linha circular que liga a Fercal a Sobradinho I e II. Ele afirma também que a autarquia faz ajustes pontuais na operação, cujo objetivo é melhorar a qualidade do serviço prestado. Enquanto isso, os moradores padecem com as opções que têm no momento. Andréia Souza, de 25 anos, moradora da Comunidade Queima Lençol, afirma que a região necessita, com urgência, de ônibus novos. Ela reclama da situação em que os passageiros são submetidos: “Quando chove, molha tudo, é goteira para todo lado”, disse. Segundo Alexandre Yanez, ex-administrador da Fercal, o transporte público sempre foi uma das maiores reivindicações da população. “Chegamos a fazer um estudo para saber os horários em que a demanda pelos ônibus era maior, coloquei até funcionários para monitorar o horário que os coletivos passavam”, disse. Ele afirma que nem todas as pendências foram resolvidas, somente algumas, entre elas a diminuição do preço de algumas tarifas que estavam sendo cobradas indevidamente.

A dona de casa Maria Aparecida de Oliveira, de 52 anos, acredita que a solução para melhorar o transporte coletivo na cidade é investir na qualidade dos serviços, e engrossa o coro dos demais usuários. “As passagens são caras e dependendo do horário não há ônibus de Sobradinho para a cidade”. O filho dela estuda no Plano Piloto e diariamente enfrenta muitos desafios. “Eu tenho um filho que faz faculdade à noite, às vezes ele não volta para casa porque não tem ônibus”. “Quando ele sai da faculdade às 23h, chega na rodoviária e não tem mais ônibus para a Fercal”, contou.

Com bancos empoeirados, muitos passageiros são forçados a viajarem em pé dentro dos coletivos.

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Cidadania

Onde os moradores da Fercal trabalham

12% 15% 54%

FERCAL PLANO PILOTO SOBRADINHO

No ponto de ônibus, é rotina que as pessoas passem mais de uma hora à espera do transporte.

Diego Matos acredita que os problemas do transporte público da região são ocasionados por descaso do poder público, ou pela ausência, de fato, do poder público na região. “Não há fiscalização nos ônibus velhos de uma das cooperativas que atende a cidade, também não há interesse do DFTrans em expandir mais linhas e horários, embora a população tenha realizado diversos pedidos e reclamações”, argumentou. “Se o poder público fosse presente e ouvisse a população a respeito dos descasos do transporte público na região, teríamos um transporte de melhor qualidade, sem dúvidas”, disse.

“Se o poder público fosse presente e ouvisse a população a respeito dos descasos do transporte público, teríamos um transporte de melhor qualidade”, diz líder comunitário.

Emancipação da cidade A Fercal tem 60 anos, mas somente em 2012 uma demanda dos moradores foi atendida: a aprovação do projeto de Lei nº 685/2012, pela Câmara Legislativa, transformou a cidade na 31ª Região Administrativa do DF. O anúncio trouxe ânimo para os moradores, pois acreditavam que, uma vez sendo cidade, o governo passaria a destinar verbas para a localidade e, consequentemente, os serviços básicos seriam aprimorados, mas na prática isso não aconteceu. A caçulinha das RAs do DF está muito atrasada em relação às outras e o transporte público oferecido é só uma das evidências que comprovam essa afirmação. Coletivos demoram tanto que é raro conseguir assento durante a viagem.

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O herói esquecido de Brasília O falecido estádio do Pelezão, demolido em 2009, ficava no Guará (DF). Hoje, o terreno é ocupado por um condomínio de luxo./ Fotos de Arquivo Público do DF.

O triste fim de um dos primeiros símbolos da capital

Os primeiros campeonatos de futebol da nova capital no estádio “Pelezão” eram formados por um povo ainda em construção. Os jogadores eram migrantes desenraizados, sonhadores e esperançosos.

Edson Arantes do Nascimento. Um nome que soa familiar para todos os brasileiros. Ao ligar o nome à pessoa, a memória imediata é do “segundo nome”: Pelé. Quem não conhece o rei do futebol? Um xará muito menos conhecido entrou para a história e vive apenas em registros raros. Poucos o conhecem, talvez devido a sua curta carreira, pouco menos que 15 anos. Ou talvez a culpa seja do local onde ele começou sua trajetória. O fato é: ninguém mais se lembra da história do falecido “Pelezão”, o primeiro estádio de futebol de Brasília, que foi demolido em 2009. Nascido em 21 de abril de 1965, na recém-criada Brasília, o “Pelezão” fez história na capital. Virou um marco da cidade, parecia destinado ao estrelato assim como seu “gêmeo” de Três Corações, mas os anos não foram gentis com o brasiliense. Acabou sendo esquecido por seus admiradores, e lamentavelmente, veio a falecer em 2009, sem ninguém para se lembrar dele.

Victor Peres

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Cidadania Nascimento Inaugurado como parte das comemorações dos cinco anos de existência de Brasília, o estádio Edson Arantes do Nascimento surgiu em uma cidade muito nova, que dava seus primeiros passos como nova capital do país. Construída no Planalto Central, em área de baixíssima densidade populacional, que estava em processo de colonização por habitantes nativos das mais diferentes regiões do Brasil. Na época de seu surgimento, Brasília clamava por uma identidade, algo que fosse sua cara. Para isso que o “Pelezão” foi construído. Desde os primeiros anos da cidade, um dos importantes momentos de sociabilidade e confraternização eram os jogos de futebol, esporte fenômeno do século 20. A primeira partida realizada no estádio foi no dia de sua inauguração. Em um evento com entrada franca, o jogo entre os times da Seleção do Distrito Federal e o Siderúrgica, terminou com o resultado de 3 a 1. A vitória foi do Siderurgica, que teve seu primeiro gol marcado pelo jogador Zé Emílio.

“Pelezão” recebe seu xará, Pelé, pelo Brasileirão. Santos contra CEUB no ano de 1974.

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Construído e inaugurado em uma cidade “em formação”, os primeiros campeonatos de futebol da nova capital no estádio “Pelezão” eram formados por um povo ainda em construção. Os joga-

dores eram migrantes desenraizados, sonhadores e esperançosos. Era comum a realização de torneios e campeonatos entre equipes formadas pelos operários das empresas de construção civil. Assim começou a curta, porém marcante história do primeiro grande estádio de futebol da capital. O primeiro estádio de Brasília era mais do que um espaço esportivo. A nova capital encontrou neste novo espaço a auto representação, uma obra de seus próprios moradores. O “Pelezão” fazia parte dos brasilienses em formação, não associados exclusivamente aos belíssimos espaços e construções arquitetônicas expressas em nossos cartões postais.

Carreira Ao longo dos anos, o estádio proporcionou para a cidade momentos inesquecíveis. Em 25 de maio de 1967, dia que o brasiliense Edson conheceu seu xará mineiro. O maior jogador de futebol de todos os tempos – Pelé – pela primeira vez se apresentaria no estádio que o honrava carregando seu nome. O Correio Braziliense anunciava: “Brasília verá Pelé hoje no estádio da FDB”. Quando a bola rolou, seu clube, o Santos Futebol Clube goleou a seleção brasiliense por 5 x 1, com o “Rei do futebol” marcando logo aos dois minutos. Campeões do mundo e jogadores da seleção brasi-


Cidadania leira como Clodoaldo, Zito, Toninho também encantaram os brasilienses na nova terra. Outro marco em sua história foi o dia 2 de março de 1969. Chegou o momento daquele considerado o maior ponta-direita de todos os tempos ali atuar, Mané Garrincha. O jogo entre botafogo e a seleção de Brasília deixou o povo em êxtase. Aos oito minutos, Dionísio fez 1 x 0. Aos 25, Liminha ampliou: 2 x 0. Aos 30, Dionísio 3 x 0. Vitória para o Botafogo. O primeiro clássico dos milhões de Edson foi um jogo do Vasco e de Flamengo. A estreia dos times cariocas em terras brasilienses terminou com vitória vascaína por 2 x 1. Mesmo com esses jogos históricos, ainda faltava algo. Tanto Edison quanto seus compatriotas candangos não estavam satisfeitos. Foi então que, depois de 8 anos de espera, cerca de 25 mil pessoas saíram de suas casas no início da noite de sábado, 25 de agosto de 1973, e viram um time entrar para a história como o primeiro clube da capital federal a disputar o Campeonato Brasileiro de futebol: o CEUB Esporte Clube. Em sua partida de estreia, o time de Brasília empatou com os cariocas do Botafogo em um jogo sem gols. Os candangos ganharam seus primeiros ídolos, os jogadores Péricles, Xisté, Rogério, Valmir, Claudio Garcia. O palco escolhido para esse jogo histórico não poderia ter sido outro, e o primeiro time do DF a chegar à elite do futebol nacional já tinha uma casa.

começo do fim Depois de anos de espera, Brasília finalmente tinha seu time para representá-la e poder mostrar pro Brasil do que a sua capital era capaz. A expectativa era gigante. A decepção também foi. Desde sua estreia, o CEUB não conseguiu emplacar uma boa temporada, e acabou encerrando suas atividades em 1976, deixando Edson e o povo brasiliense órfãos de um representante.

Sem um time para representá-lo, e com a nova concorrência de seu irmão mais novo, o “Pelezão” começou a cair no esquecimento. No começo dos anos 80, não havia mais jogos, não havia mais celebrações coletivas. Não havia mais nada, nem ninguém. Abandonado, esquecido e desprezado, aos poucos começou a ser invadido por barracos de pessoas tão esquecidas quanto ele. O “Pelezão” foi abandonado. Acabaram com o gramado e com a iluminação. Sua monumental arquibancada e os quatro postes de iluminação foram derrubados. Largado e inativo, passou a ser alvo de especuladores financeiros e empresas de construção civil, já que o local em que foi construído, o Setor de Oficinas Sul, era altamente valorizado. O estádio acabou sendo repassado pelo Governo Distrital à Federação Metropolitana de Futebol, que o vendeu para a companhia de Paulo Octavio, à Via Engenharia e ao Sérgio Naya. A transação chegou a ser investigada por deputados. Em 2004, as 187 pessoas que tinham feito do antigo Estádio sua casa, foram removidas e realocadas em Ceilândia. Foi decretada a sentença: demolição de Edson era aprovada. Cinco anos depois, em 2009, o país inteiro comemorava que Brasil seria o palco da copa de 2014. Enquanto todos festejam, outros poucos lamentavam, de luto. Nesse mesmo ano, o “Pelezão” veio abaixo. Essa é a história do saudoso estádio Edson Arantes do Nascimento, o “Pelezão”. Um local de histórias, memórias, e contribuição para o nascimento de uma identidade social e simbólica, demolido. Em seu túmulo, condomínios de luxo foram construídos, como o Living Park e o Park Sul, um dos metros quadrados mais caros do Brasil. O templo do futebol de Brasília se tornou uma lenda para aqueles que puderam prestigiar a magia que surgiu no famoso estádio na época. Não sinta pena do nosso herói, sua história nunca será esquecida.

Brasília já tinha seu próprio Pelé. Em 1974, a cidade também ganhou seu próprio Garrincha. Inaugurado em 10 de março de 1974, o estádio Mané Garrincha, batizado inicialmente de Estádio Governador Hélio Prates da Silveira, tinha capacidade de 45.200 mil pessoas, quase o dobro de seu irmão mais velho. Era maior, mais novo, e começou a ofuscar o brilho e desviar a atenção de seu colega veterano. Ao lado, registro raro do Rei do Futebol em partida no Pelezão; Santos jogou contra a Seleção de Brasília: 5 a 1.

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Para no Co

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aísos Conic Larissa Galli e Luca Valerio

Como acontecem as relações entre as promessas de paraísos e infernos que formam o Setor de Diversões Sul, no centro da capital brasileira

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Praça central do Conic. Fotos: Luca Valerio.

As pessoas se reúnem entre as paredes coloridas dos edifícios e se preparam para celebrar. Um grupo desce uma das várias escadas do local. Degrau após degrau, cheios de vida. Outro abre as portas de uma pequena sala, que se transforma em um grande salão de festas. Não importa o andar; a ideia é conviver e celebrar. Sexta-feira, 18h. Setor de Diversões Sul. Fim do expediente e início do final de semana. O momento que todos esperam. Ali, no coração do avião, entre as Asas Norte e Sul - o centro produtivo da capital brasileira, corações de todos os tipos batem alto. Algumas pessoas descem dos ônibus; outras, caminham 5 minutos da estação de metrô; há ainda quem prefira ir de carro. Todas elas encontram no Conic um espaço para desfrutar de momentos de relaxamento e criar mórias. Uns, com a bíblia nas mãos; outros, com o skate sob os pés; passam por lá aqueles com instrumentos nas costas e todos com muita fé e esperança no peito. Há também aquelas pessoas que já têm lugares reservados nos bares e passam as noites nos concretos da praça central. No Conic, como é popularmente conhecido o Setor de Diversões Sul, todas a tribos têm espaço, e cada uma se diverte da sua maneira. Pensado por Lúcio Costa, o arquiteto e urbanista responsável pelo projeto de Brasília, para ser um centro de entretenimento e cultura, o local foi inaugurado em 1967 e se desenvolveu de acordo com a vida da cidade. Segundo a Terracap, a área destinada ao Setor de Diversões Sul possui 18.551,20 m² e foi dividida em 18 lotes que foram adquiridos por diferentes proprietários. Isso explica a pluralidade do local. Hoje, o Conic é formado por estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços diversos, além de restaurantes, salões de beleza, óticas, sindicatos, sedes de partidos políticos, templos religiosos e teatros.

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Convite “Você já faz parte de algum grupo de jovens? Vem com a gente, vai ter encontro da juventude e almoço para a comunidade”, convida uma funcionária da Igreja Universal do Conic, a maior da Igreja Universal de Brasília. “Aqui é o centro, né? A ideia de toda igreja é sempre se estabelecer nesses lugares de fácil acesso para as pessoas. E quem em Brasília não conhece o Conic?”, destaca o pastor Ivo sobrenome, da Igreja Mundial do Poder de Deus. “O objetivo principal é ganhar almas, só isso”, resume o pastor Wagner, responsável pela administração geral da Igreja Universal de Brasília. “Vamos, é aqui embaixo, a entrada é barata e a bebida é gelada. Vai ter música boa e gente bonita”, conversam dois jovens. “É um local que precisa de ocupação cultural para não cair no abandono novamente, a gente precisa dar respaldo para essas iniciativas”, argumentam. “É um espaço sem moradias e a gente acredita estar fazendo um bem à cidade como um todo ao trazer, aqui para o centro, uma opção de cultura, lazer e entretenimento”, defende Kaká Guimarães, parceiro da Fundação Brasileira de Teatro e produtor de eventos culturais. No fim de 2015, a empresa dele fez parceria com a fundação para realizar a revitalização do subsolo do Dulcina e da praça do Conic. O objetivo dele é "transformar de fato o Setor de Diversões Sul em um Setor de Diversões e entretenimento".

Subsolo

Pluralidade religiosa: Por dentro do Conic percebe-se a presença de várias religiões.

No subsolo do Conic, uma pequena porta esconde um grande salão, sem janelas. “Entre sem bater”, avisa a placa. “Aqui se abrem as portas para o céu”, diz o responsável pela administração da Igreja Pentecostal Deus é Amor. Em um momento de oração, uma senhora de joelhos, em tom de desespero, agradece e pede perdão ao Senhor, no microfone. A plateia aplaude. O desenho de um arco-íris é o símbolo do local. "Foi uma revelação de Deus para o fundador da Igreja", explica a administração. Bandeiras dos países do continente africano enfeitam o altar. “Nossa igreja está presente em 136 países”, justifica. “Ao meio-dia, o culto é mais rápido, dura só 1 hora, pro pessoal aproveitar a hora do almoço e vir orar, mas nossas portas estão sempre abertas e todo mundo é bem-vindo. Aqui, por ser um centro comercial, tem muita gente toda hora”, diz. No subsolo do Conic, uma porta um pouco maior é a entrada para um grande salão, igualmente sem janelas. O Sub-Dulcina, um espaço onde também acontecem diversas celebrações. Aqui, o único milagre

Festa Rock’n Beats, no Sub-Dulcina/ 6 de maio de 2017.

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cultura esperado é finalmente conseguir dar um beijo no crush. “Deus, me ajuda a conseguir dar um beijo naquela garota, por favor, eu nunca te pedi nada!”, os jovens brincam. "Em nome de Jesus, tira uma foto minha", suplicava uma jovem enquanto posava sob as luzes piscantes da balada. O local, que se assemelha a um depósito abandonado, com grades para todos os lados, corredores estreitos, chão irregular e muita poeira, é usado atualmente como o novo ponto de celebração dos jovens da capital federal. As paredes grafitadas vibram junto ao som das músicas e o piscar intenso das luzes. A luz vermelha e baixa evidencia o clima sombrio. Sob o teto de tubulações, a atmosfera é pesadamente animada. O cheiro de mofo, característico dos porões, se mistura ao aroma do álcool das bebidas.

As igrejas dividem espaço com o caldeirão cultural.

Não é preciso passar pelos portões para começar a festa. Ainda na fila para adentrar o Céu & Inferno, como a festa era chamada, as pessoas já bebiam cerveja, fumavam cigarros e conversavam sobre aleatoriedades. Ao cruzar os portões, tudo fica mais quente e mais escuro. Elas pulam conforme a música, que muda a cada minuto, e glorificam com as mãos para o alto, canção por canção, de acordo com o ritmo. O evento, que prometia tocar todo tipo de pop e rock, agita o público, formado por jovens entre 16 e 21 anos. Sem regras. Sem preconceitos. Sem rótulos. O único mandamento é se divertir. Nos corredores estreitos do espaço, duas jovens pulam e dançam ao som de uma banda de rock pesado. Elas levantam os braços, fervorosas, como se agradecessem aos céus por estarem ali. No fundo da pista de dança, um casal gay divide um cigarro. Ao lado deles, um baseado roda nas mãos de um grupo de amigos. Apesar da fumaça e das luzes escuras, não há como negar a expressão de felicidade no rosto dessas pessoas. A salvação chega às 6 horas da manhã, quando alguém te empresta o carregador do celular para você conseguir chamar um uber. Enquanto uns saem da festa, outros chegam para o culto. Na igreja Universal, o primeiro culto é às 7h30. “Eles fazem as festas deles e nós também fazemos as

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A Igreja Universal do Conic ocupa o espaço onde funcionava o Cine Atlântida.


cultura nossas. Às vezes, nesses nossos eventos, a igreja fica lotada, ocupamos todas as vagas do estacionamento e eles também não vieram reclamar com a gente. Nossa convivência é pacífica”, garante o Pastor Nei, responsável pela igreja Universal do Conic.

térreo No andar de cima, duas senhoras recebem, em pé, de frente para o altar, a bênção do pastor da Igreja Universal. “Vem agora, ó Espírito Santo, manifestar o teu poder e transformar o coração dessas pessoas", exalta o pastor, no microfone. O discurso comovente e exaltado combina com o local. Anos atrás, dos auto-falantes que hoje emitem pedidos de salvação, saíam diálogos românticos, gritos de terror e até mesmo explosões de granadas. No altar onde o pastor se posiciona para fazer a bênção, havia uma tela de cinema. O Cine Atlântida, a

maior sala de cinema de Brasília na época, perdeu espaço para a Igreja Universal em 1995. Grafites coloridos enfeitam o muro dos fundos da Igreja Universal. “Foi a gente mesmo que permitiu”, diz o pastor. “É a arte da juventude né? Ficou muito legal, ficou muito bonito, deu outra vida para aquela parede”, diz. Feiras, brechós, festas, shows e tantos outros eventos culturais acontecem praticamente na porta da igreja. “Eu tenho uma mente muito aberta a essas coisas. Eles tão ali, no teatro. Eu mesmo também fiz teatro”, admite o pastor Nei. “Eu não acho que seja nenhuma perturbação. Eles até pedem: ‘Pastor, posso usar o banheiro?’ e eles entram e utilizam os banheiros da igreja. Isso não me agride. Até agora eles não me deram nenhum problema. A gente respeita o lado deles e eles respeitam o nosso lado”, relata. Ainda no térreo, há uma porta de vidro com cartazes colados com os dizeres de “Ocupado” e fotos da atriz Dulcina de Moraes. O espaço é singular. Na frente tem a sede do PSDB; atrás, há sedes de sindicatos, do PT e da CUT. De um lado, tem a Igreja Universal, a maior de Brasília. No subsolo, a Comunidade Athos recebe fiéis lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Cercado por toda essa diversidade, é aqui que Kaká organiza os eventos culturais do Conic e do Sub Dulcina. O Movimento Dulcina Vive! atrai muita gente diferente, inclusive as minorias, que agrega os movimentos sociais, o movimento LGBT, alunos da faculdade de teatro e artes cênicas, o movimento negro e transexuais. Segundo entrevistados, a relação e a convivência com a Igreja Universal é pacífica. "Depois que eu conversei com o pastor e vi que eles não tinham nada a se opor contra a gente, nós conseguimos manter um bom relacionamento. Até brinquei com o pastor uma vez: 'a gente é parceiro, né? O pessoal vem pra minha festa a noite,

Entre tábuas e latões, os músicos regem a festa.

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cultura

Portas abertas: a diversidade é bem-vinda no Sub-Dulcina.

se arrepende, e de manhã já tá na tua igreja'. Ele falou: ‘é isso aí, tamo junto!'", diz Kaká Guimarães. Além de dividir espaço com as atividades culturais, as igrejas do Conic convivem com uma pluralidade religiosa. A maioria é protestante, mas nem todas seguem a mesma doutrina. Há ainda lojas de artigos de umbanda e candomblé. “Eu não vejo mal nenhum. Inclusive eu sou amigo de muitos pastores que estão aqui, mesmo de outras religiões. A gente não tem nenhum problema com nenhuma outra religião”, garante pastor Nei. No interior do prédio Espaço Galleria, uma porta de madeira esconde a famosa sauna gay de Brasília. Em papel sulfite, as informações: R$ 30, proibido para menores de 18 anos. Na frente, um bar. Ao lado, a Igreja Apostólica Plenitude do Trono de Deus. "Quem pode dizer que Deus está só lá e não aqui?", questiona o garçom que trabalha no bar. "Deus está em todos os lugares". Apesar disso, ele não vê com bons olhos essa coexistência. "Não acho certo. Quem vai a igreja tá procurando um lugar de tranquilidade espiritual e não uma baderna", desabafa.

A placa com intervenções já é marca do local.

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Para o pastor Nei, 'tá tudo certo'. "Inclusive, tem algumas pessoas que saem do bar e vêm aqui na igreja pedir uma oração. Tem gente que tá ali no barzinho, ou ali na praça com os amigos e às vezes tá passando por algum problema na família ou no trabalho, ou de repente bate uma tristeza e quer uma oração. Eles pedem: ‘vocês podem fazer uma oração pela gente?’ Na hora a gente já acolhe. ‘Claro! Vem aqui, entra, vamos orar e conversar’. Isso sem importar qual seja o problema dessa pessoa”. “A cidade inteira aplaudiu quando a gente veio para cá e começou a trazer cultura para o centro da cidade”, garante Kaká. Até as igrejas: “eu acho até bom que façam os eventos aqui porque sempre acaba vindo alguém pra cá também”, destaca pastor Nei. “O estilo das festas às vezes mexe um pouco com a gente. As senhoras de mais idade nem vêm na igreja quando tem esse tipo de evento. Elas têm medo, receio, ficam assustadas. Mas ‘graças a Deus’ nunca aconteceu nenhum tipo de desavença”, afirma pastor Ivo, da Igreja Mundial do Poder de Deus. O próprio pastor Nei, da Igreja Universal, brinca: “o nome é Setor de Diversões Sul, não ‘setor de igrejas sul’”. Cabe igrejas em um setor destinado ao entretenimento? “Cada um tem sua forma de se divertir”, explica. Há quem vá ao teatro. Há quem prefira ir dançar. Há quem se contente em sentar numa mesa de bar e jogar conversa fora com os amigos. E há quem encontre esse momento de diversão dentro da igreja. Por que não? Não existe certo ou errado quando se fala no Conic. Se divertir é o que importa. Se sentir bem, em paz e pleno.


cultura

Muros coloridos de feminismo Cenário do grafite em Brasília é também espaço para mulheres. Artistas estampam criatividade e ativismo contra machismo pintado de cinza. “É resistência”, garantem

Anna Jullia Lima e Lucas Cardoso

Muro do Espaço Renato Russo na avenida W3, na Asa Sul, grafitado pelas brasilienses Siren e Brixx. Fotos: Anna Jullia Lima

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cultura Cruza o eixo: cores. Atravessa a tesourinha: letras. Corta pela superquadra: personagens. Por todo lado, o grafite toma os muros e olhares de Brasília. Flores, bonecas, espadas, força e resistência. A cidade conhecida pelo céu peculiar e os monumentos extraordinários de Niemeyer ganha ainda mais valor com as cores que saem dos sprays para os muros, antes acinzentados. Cada arte conta uma história. O grafite feito pelas mulheres carrega consigo o feminismo, grita cores e reivindica igualdade por meio de empoderamento, força, criatividade e talento. Rave, Kali, Ayõ, MiC, Brixx, Ju B, Borgê. Se você anda pelas ruas do Distrito Federal observando as cores, sem dúvidas já viu esses nomes espalhados por aí. Elas são apenas algumas das representantes femininas na arte urbana que colore a capital e as cidades vizinhas.

começo A arte educadora, ilustradora e designer Carli Ramos, conhecida nos muros como Ayõ, começou a pintar em 2007, quando uma professora a convidou para colorir o muro da escola onde estudava. “Foi aí que tive o prazer de pintar um muro e não quis mais parar. Ela nos falou sobre a rua, sobre pertencimento, sobre se ver e se perceber na periferia”, afirma. Já a poetisa, educadora social e pesquisadora Ravena Carmo, ou Rave, teve o primeiro contato com o grafite cumprindo medida socioeducativa no Centro de Atendimento Juvenil Especializado, em 2004, onde participou de uma oficina. Anos depois, colocou em prática os conhecimentos nos muros da capital.

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Exemplo de Stencil com manifestação do feminismo negro.

“Alguns falam que mulher não aguenta o trampo, mas a gente está mudando essa ideia. Aos poucos, estamos nos tornando um grupo cada vez maior. O grafite que empodera, reivindica, e fala através da mulher está tomando as ruas de Brasília”.

Michelle Cunha (Mic) transforma o cinza da parada de ônibus em arte, em São Sebastião.

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cultura A artista e ilustradora Michelle Cunha, conhecida como MiC, começou a grafitar após um longo tempo manifestando a arte por meio dos lambe-lambes pintados à mão. Da cola e papel para os sprays, MiC precisou apenas do incentivo de amigos que lhe ensinaram a manusear as latas. “Comecei a ir pras ruas em 2013. Foi um processo de muitos erros e aprendizado”, explica sorrindo. A artista ministra oficinas de grafite para mulheres em parceria com a Casa Frida para incentivar a participação feminina nesse meio. Foi numa oficina ministrada por Michelle Cunha que a professora e artista circense Julia Barone, ou Julia B, aprendeu a estampar cores nos muros. “Conheço o grafite desde sempre. Quando a gente nasce na cidade grande já vemos os muros por aí. Reconheci os grafites em 2015, com a Michelle”, relata. Além de trabalhar com curadoria de arte na Galeria Bras.ilha e nos próprios projetos, Brixx, como é conhecida Fabrícia Furtado, conheceu a arte de pintar muros em 2010 e grafita desde então. Ela lembra que teve o primeiro contato com uma lata de tinta ao ver uma garota pintando. Isso a inspirou e a fez ter certeza de que era aquilo que queria fazer.

ficuldades de ser mulher e artista de rua. “Nos projetos grandes, dificilmente uma garota é incluída. Ser convidada para estar em destaque não é algo que acontece com frequência”, relata. As meninas também sofrem com o medo e a insegurança de estar nas ruas sozinhas. “Ao pintar sozinha, é comum ser abordada com piadas machistas, intimidação, e até ter o material tomado de você, como já aconteceu comigo”, revela Brixx.

“Ser mulher nesse universo é ser capaz de superar muitas limitações. Encarar a rua como campo de atuação significa enfrentar vários preconceitos. Acho que todo grafite feito por minas tem a força do feminismo. Só o fato de estar na rua já é, em si, um ato feminista”.

PERGUNTAS RáPIDAS Esquina: O que é ser mulher e grafiteira? Ravena Carmo: É ser de certa maneira invisível, o mundo do grafite é machista, muitos olham para nós como se fossemos incapazes, ou que o grafite não é lugar de mulher. Mas não são todos, temos muitos apoiadores. Esquina: Existe manifestação feminista no grafite? Ravena Carmo: Com certeza. Eu, por exemplo, grafito apenas mulheres, de preferência negras.

A tatuadora e designer Iasmim Kali Conde, ou apenas Kali, começou a grafitar em 2011 com o namorado, no quintal da própria casa, que também era sede da Trupe S.A. Crew. “Tínhamos interesse em aprender, então fiquei muito tempo treinando só a técnica. Levei algum tempo para sair pra rua. Comecei com látex e pincel, depois fui arriscando no spray”, conta.

Feminismo “Ser grafiteira é um ato de resistência”. Estas são as palavras de Brixx Furtado, que conta as di-

Grafiteira Kali pintando em Brasília / Crédito: Arquivo Pessoal.

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cultura Para Michelle Cunha, a MiC, ser mulher nesse meio artístico significa ser excluída, minoria em eventos de arte urbana e alvo de piadas e xingamentos. “Ser mulher nesse universo é ser capaz de superar muitas limitações. Encarar a rua como campo de atuação significa enfrentar vários preconceitos. Acho que todo grafite feito por minas tem a força do feminismo. Só o fato de estar na rua já é, em si, um ato feminista”, opina. Ayô Ramos concorda e conta que apesar de não ser mal recebida por todos os grafiteiros, o preconceito com a pintura feminina ainda existe. “Na rua vi muita parceria, mas ouvi relatos de minas que sofreram preconceito e notaram que o espaço oferecido à mulher é reduzido, a visibilidade não é tão grande”, conta. Mas a artista reitera que a força feminina tem ganhado espaço. “Alguns falam que mulher não aguenta o trampo, mas a gente está mudando essa ideia. Aos poucos, estamos nos tornando um grupo cada vez maior. O grafite que empodera, reivindica, e fala através da mulher está tomando as ruas de Brasília”.

Grafitologia: tipos e gêneros de arte urbana Você conhece as variações artísticas dentro do grafite? São vários os gêneros que podem ser executados e cada artista tem a própria maneira de grafitar. Segundo Brixx Furtado, as técnicas e estilos são diferentes e podem, inclusive, ser à mão livre. “A intervenção urbana

Grafite no muro do Espaço Renato Russo (W3 Sul).

por ser feita de diversas formas como com o lambe-lambe, posicionando objetos em lugares estratégicos, usando stêncil, fita crepe… isso é muito vasto. Quanto ao estilo, ele pode ser mais realista, geométrico, orgânico, pode ter uma pegada bomb, wildstyle, grapixo etc”, explica a artista. Kali conta que geralmente o grafite é subdividido em “personagem” e “letra”. “Em ‘personagem’ se enquadra tudo aquilo que é figura, ou seja, pessoas, animais e etc.

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Já em ‘letras’ se enquadram as palavras, frases ou o próprio nome”, explica a tatuadora e grafiteira. Há, entretanto, quem discorde dos gêneros e formas dentro dessa manifestação. Michelle Cunha, a MiC, explica que independentemente das categorias e gêneros, o importante é estar nas ruas. “Eu acho que muita coisa mudou, que o conceito se dilatou, que é possível experimentar diversos materiais e técnicas e que o mais importante é que, independentemente da técnica ou estilo, o que interessa é a atitude de ocupar espaços e dialogar com a rua”, opina.

“Grafite é arte explícita”, explica professor Dúvidas em torno do grafite e pichação são comuns sobre a existência de leis e a diferença entre os dois. Você também já confundiu e tem dúvidas? O professor de direção de arte e produção gráfica e pesquisador de arte contemporânea, André Ramos, explica que as questões em torno das duas intervenções urbanas se confundem, mas o que difere são as finalidades. “O grafite é considerado uma manifestação de cunho estético, não só por conta do tipo de acabamento, da forma, das cores que são empregadas na sua confecção, mas por conta da motivação. A gente vai ver no grafite uma intenção artística explícita naquelas obras. Já a pichação está muito relacionada ao gueto, a demarcação de território, a manifestações de coragem, de bravura. A motivação é diferente”. Segundo o professor, o grafite surgiu junto com outras manifestações culturais e é comum carregar o manifesto político. “O grafite surgiu ao mesmo tempo que algumas outras manifestações culturais fortemente ligadas à manifestações da cultura negra junto com o hip-hop, a dança de rua e algumas outras. Isso talvez tenha sido o que a gente tem hoje documentado como a origem mais remota. No Brasil, por exemplo, a origem dessa ocupação da rua está relacionada a contestações de cunho político, em relação a um regime”. André Ramos também reitera a importância da ocupação dos espaços públicos e a sensação de pertencer às ruas. “Em relação a essas manifestações, seja de uma natureza ou da outra, a gente tem um aspecto importante que é o de pertencimento; das pessoas entenderem que elas fazem parte daquele espaço; que podem ocupar de diversas maneiras”.


cultura

Vocabulário do Grafite: Bomb: Grafite rápido, simples. feito com letras arredondadas e vivas No “bomb” é utilizado duas ou três cores de tinta, uma para preencher a letra e as outras para contornar e fazer detalhes como as sombras. Crew: Um grupo de grafiteiros que se une para formar um coletivo. As crews costumam ter nomes extensos, que são abreviados por siglas. Um artista pode pertencer a várias delas. Muitas vezes eles optam por pintar o nome das crews, seja abreviado ou por extenso, em detrimento da própria tag (assinatura). Throw-up: Estilo situado entre a tag de rua e o bombing. Letras rápidas e curtas, normalmente sem preenchimento de cor, apenas com o contorno. Mais concretamente, é a atividade do artista quando este se limita a “tagar” paredes, ou seja, deixar a assinatura nos muros. Free Style: O free style é um estilo livre de arte que inclui todas as criações do grafite, misturando desenhos, letras e assinaturas. Costuma ser trabalhado com diferentes tipos de materiais, mesmo que não sejam spray e látex. Pixo: É a pichação sem criação artística e sem personagens, que ainda é estereotipada e criminalizada.

Exemplo de tag da artista Tikka, na W3 Sul.

Stencil: Molde recortado em cartolina, radiografias, ou outros materiais com formas pré-definidas. O artista encosta esse molde sobre uma superfície e passa o spray por cima, ficando com as formas subtraídas à cartolina pintadas na parede. Wildstyle: Estilo de letras quase ilegível. Um dos primeiros estilos a ser utilizado no surgimento do grafite. É um estilo complexo que vive da interseção de formas e normalmente tem as setas como elemento característico.

Grapixo: Estilo que varia entre a pichação e o grafite. São usadas letras de pixo com cores, linhas e formas do grafite.

Tag: Pode ser o nome ou o pseudônimo. É a assinatura do artista.

Lambe-lambe: Pôsteres artísticos produzidos digital ou artesanalmente que são colados nos muros, bancos ou postes da cidade.

Produção: Painel grande feito por um ou vários grafiteiros com um só contexto e tema, independentemente do estilo de cada artista.

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crew Free StYLE & W LAMBE LAMBE GRAPIXO T hrow -up e l y t s W il d

O stencil X I M P REVISTA ESQUINA

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cultura aia ural) b t am Cul m o Sa nári i ag I( m

São Sebastião (Casa Frida)

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Mapeando espaços culturais

Planaltina (#Mais Perifa e Casa de Cultura Carlos Marighella)

Recanto das Emas (Ubuntu)

Cultura fora das Asas Espaços na capital fomentam atividades culturais para além do Plano Piloto Em uma cidade em que as principais atividades culturais estão concentradas na região central, os cidadãos da periferia ficam em grande desvantagem. “O direito à cultura é negado”, define a militante Clarissa Araújo, organizadora da #Mais Perifa. Foi com esse pensamento em mente que ela e tantas outras pessoas - militantes, estudantes, entre outros - se uniram com o objetivo de possibilitar esse acesso a populações cujo o deslocamento para o Plano Piloto é motivo de grande dificuldade e, em alguns casos, até inviável. Espaços como o #Mais Perifa (Planaltina), a Casa Frida (São Sebastião), o Mercado Sul (Taguatinga), o Jovem de Expressão (Ceilândia), o Imaginário Cultural (Samambaia), o Espaço Ubuntu (Recanto das Emas), a Casa de Cultura Carlos Marighella (Planaltina) e a Pólvora Galeria (Gama) impedem que o descaso com a periferia resulte na ausência da cultura e garantem que ela continue viva. Alguns desses locais sobrevivem por meio de doações de móveis, alimentos e materiais, por exemplo, vindas de pessoas que simpatizam com a causa, ou até mesmo se mantêm com colaborações que saem do bolso dos próprios organizadores.

Deborah Novais 72

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cultura As atividades oferecidas são diversas: teatro, hip-hop, yoga, forró, artes marciais, literatura, grafite e cinema são apenas algumas delas. Uma miscelânea de opções promovida por pessoas que a fornecem sem pensar em retorno financeiro. Um viés muito importante também é frequentemente colocado em pauta: o político. Os grupos promovem debates que discutem gênero, machismo, LGBTfobia, racismo e outras formas de opressão. Os horários das atividades são diversificados. Há opções no período matutino, vespertino e noturno, inclusive nos finais de semana, para que para que mais pessoas possam participar. Além do formato de oficina, de caráter semanal, os espaços também realizam saraus.. Na inauguração da casa #Mais Perifa, por exemplo, aconteceram batalhas de rap, declamação de poesia, shows e performances. Nestes eventos, um fator em comum é certo: o microfone sempre está aberto para quem quiser utilizá-lo.

Cultura politizada em Planaltina

Um grafitaço fez parte da programação do evento de inauguração da #Mais Perifa. Foto: #Mais Perifa/Divulgação

grantes: no primeiro cômodo, uma cortina nas cores da bandeira LGBT e fotos de casais fora do padrão heteronormativo; em uma parede na sala seguinte, fotos de pessoas como Frida Kahlo, Karl Marx e Nina Simone; na cozinha, copos com imagem de oposição a Michel Temer.

A #Mais Perifa foi criada pelo núcleo brasiliense do Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (Mais) e está na ativa desde março. “Somos uma casa de cultura que pretende ter uma linha política e de luta. Quando eu falo em política, me refiro ao combate às opressões, à exploração, à luta pelos direitos sociais e iguais. A ideia surgiu porque a gente é morador de Planaltina e cresceu vivendo essa ausência da cultura”, explica a militante Clarissa Araújo.

Um dos objetivos é que os artistas possam promover o próprio trabalho, seja na música, na poesia ou no teatro. O sarau feminista e o sarau dos trabalhadores, assim como as rodas de conversa, não deixam que o teor político passe em branco. Um perfil mais lúdico, como aulas de yoga e rodas de samba, também fazem parte das ideias da equipe. E Clarissa deixa claro: “É um espaço que está aberto para novas atividades, quem quiser dar oficinas e participar”.

Os próprios integrantes do movimento contribuem para manter o espaço em funcionamento. Os móveis do espaço e os livros da biblioteca, por exemplo, foram doados por amigos, familiares e conhecidos. A decoração do espaço deixa clara a linha de pensamento dos inte-

“O que o Imaginário fez foi dar conta de uma ação ineficaz do Estado, já que nós temos direito à cultura e ao lazer garantidos pela nossa Constituição”.

O painel artístico “A permanência do movimento” - presente no muro interno, próximo ao portão - retrata a diversidade do espaço em Planaltina. Foto: #Mais Perifa/Divulgação.

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cultura

O Imaginário Culturaljá recebeu eventos como o Festival Internacional de Bonecos de Brasília. Foto: Imaginário Cultural/Divulgação.

Transformação em Samambaia “Fazer arte em Samambaia agora é rotina” é o slogan que surgiu o Imaginário Cultural, nascido do sonho dos artistas Marília Abreu e Miguel Mariano, da Cia. Teatral Roupa de Ensaio. Moradores da cidade desde 2008, os artistas sentiram falta de uma cena cultural e, três anos depois, abriram o espaço. “A ideia era trazer espetáculos, dar oficinas, fazer com que a comunidade de Samambaia tivesse acesso à cultura viva”, relembra Marília, que atua como coordenadora-geral. Deu certo. Desde 2013, o espaço funciona em um centro comunitário que estava abandonado e depredado. Para a reforma, a equipe fez uma campanha para angariar materiais que pudessem contribuir com a melhora

do local, como de construção e utensílios de cozinha. “Nós temos oficinas de forró, capoeira, hip-hop e ginástica. Também sempre tem de teatro, danças populares e diversas linguagens artísticas”, conta a coordenadora. Um cineclube quinzenal seguido de debate também faz parte da programação atual. As atividades são gratuitas ou a preço de custo. A casa de cultura já recebeu eventos como o festival de teatro Cena Contemporânea, o Festival Internacional de Bonecos e o Festival de Teatro Para Infância de Brasília – Festibra. “O que o Imaginário fez foi dar conta de uma ação ineficaz do Estado, já que nós temos direito à cultura e ao lazer garantidos pela nossa Constituição. Um espaço que promove isso é de suma importância para o desenvolvimento e a transformação social da comunidade”, argumenta Marília.

Espetáculos teatrais são realizados no espaço em Samambaia. Foto: Imaginário Cultural/ Divulgação.

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cultura

MEIO AMBIENTE

Polêmica e desinformação em Alto Paraíso

Debate sobre a licitação aberta pelo ICMBio, que propõe cogestão pública e privada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, não repercutiu na sociedade.

Paisagens do Alto Paraíso (GO) atraem turistas de todo Centro-Oeste/ Foto: Marcelo Camargo - Agência Brasil.

Erik Schnabel Pastos, plantações e morros verdejantes cercam Alto Paraíso de Goiás, a 250 quilômetros de Brasília, e escondem preciosas cachoeiras e lendas de discos voadores. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é uma área de preservação entre os municípios de Alto Paraíso, São Jorge e Colinas do Sul. Graças ao turismo, nas últimas décadas, toda a região se desenvolveu. Entretanto, uma polêmica recente reacendeu a possibilidade de aumentar o potencial de exploração do lugar. O projeto de concessão do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros divide opiniões ou é ignorado por moradores da região. Segundo a presidenta da Associação de guias, Juliana Torres, o fluxo de turistas no Parque Nacional da Chapada aumentou em 50% nos últimos quatro anos. Em 2014 foram 43 mil visitantes enquanto em 2016 o número subiu para mais de 63 mil. Os preços das cachoeiras aumentaram também. Hoje, os ingressos estão cerca de 30% a 50% mais caros, oscilando entre R$15 e R$30. Atualmente, na associação de guias existem 80 cadastros, porém metade não está na ativa. Através da licitação aberta em janeiro pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), uma empresa ganhadora poderá explorar o turismo e comércio na unidade de conservação. Em retorno, vai garantir o inves-

timento no parque. Serão criadas lojas de souvenires, novas trilhas e mirantes, estacionamentos, lanchonetes. Haverá também esportes ao ar livre, assim como uma maior acessibilidade para os atrativos. A concessão do parque da Chapada foi anunciada inicialmente pelo ministro do Meio Ambiente José Sarney Filho, no dia 24 de novembro de 2016 e terá duração de 10 anos. No entanto, a descentralização e licitação para o manejo têm ocorrido em outros parques do país, desde abril de 2016. Pelos municípios da Chapada dos Veadeiros, as novidades circulam principalmente no boca a boca. Talvez por isso que a polêmica concessão do Parque ainda seja desconhecida por muitos. Aldivan ou Balanço, como é mais conhecido e prefere se identificar, está na chapada há 34 anos e cultiva alimentos orgânicos. Além de guia, é líder da organização Tao do Cerrado. Balanço diz que confia mais no Estado para gerir o Parque, pois enxerga que empresários massificam, cobram caro e comprometem recursos naturais. “Não terceirizar! Se não entra uma multinacional, compra tudo por preço de banana e depois cobra muito mais caro”, protesta. Para Balanço, o desenvolvimento tem uma parte positiva: se adquirem equipamentos, carros, mas, ainda assim, sempre há danos. “Vários querem se beneficiar, mas a natureza tem que ser a única beneficiada”.

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cultura “Agilidade e qualidade” O coordenador de apoio à visitação dos parques do ICMBio, Pedro Menezes, ressalta que o processo de concessão é uma forma de retirar o peso do estado de algumas atividades, concedendo a gestão a entes privados. “O processo em questão está concedendo serviços ao consumidor, como administração de piscinas, manutenção de trilhas, cobranças de ingressos, que agrega agilidade e qualidade”, afirma

nistração descentralizada, tudo seria mais viável”, crê. Ela diz não ter ouvido reclamações por parte da comunidade quanto ao processo e afirma existir uma fácil via de comunicação entre a com a população. Andréia relatou que o tema tem sido “amplamente debatido” através do próprio CONPARQUE (Conselho Consultivo da Chapada), em grupos e nas redes sociais. “Não será feito um tobogã”, brincou. A pergunta que preocupa Andréia é: “Fazer ou não convênio com guias locais? Isso seria um impacto direto”, alerta.

Concessão do Parque da Chapada gera polêmica entre os moradores/ Foto: Marcelo Camargo - Agência Brasil.

O órgão diz prezar pelo empreendedor local e privilegiar a mão de obra de empresários do entorno do parque. “Ao invés de um biólogo no restaurante estamos colocando um garçom. Faz mais sentido”. Segundo Pedro Menezes, o parque já tem um plano de manejo, resultado de estudos profundos tanto do ponto de vista biológico quanto do ponto de vista socioeconômico. “Especificamente para a concessão foi feito um estudo de viabilidade econômica, ancorado em estudos bastante completos”, afirma. De acordo com ele, os debates passaram por diversas oitivas, conselhos consultivos das Unidades do parque, conselhos participativos e representantes de associações além do acionamento dos conselhos dos guias, prefeituras e associações de moradores locais.

Prefeitura A secretária de turismo de Alto Paraíso, Andréia Lopes, conta que o parque mudou a vida da comunidade local e vê pontos positivos para a concessão. “Com uma admi-

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“Vários querem se beneficiar, mas a natureza tem que ser a única beneficiada”.

Diferentemente da secretária de Turismo, o vice-prefeito, Marlon Rogério, não tinha conhecimentos sobre o processo que estava em curso. Ele afirma que notícias que dizem respeito à Alto Paraíso são veiculadas muitas vezes antes da própria população tomar conhecimento. Para Marlon, o crescente fluxo de pessoas na cidade faz a economia girar e novas empresas surgirem. O prefeito acredita que, economicamente, a concessão seria boa para o município, mas para a gestão pública seria “preocupante”.


cultura

ESPORTE

Shinobi Shin-do: a arte marcial nascida em Brasília

De segunda a sexta, pessoas de kimono preto se reúnem em volta do tatame. Eles reverenciam o local de treinamento antes de realmente pisar no tablado: uma tradição para demonstrar respeito ao tatame. Os alunos entram em formação em frente ao sensei, se ajoelham e realizam três vezes uma saudação, seguidas de três palmas e um cumprimento ao professor. Inicia-se, então, o treino: aquecimento, alongamento e técnicas. Socos, chutes, quedas, torções, lutas com bastões, espadas, entre outras armas. São todos elementos usados na prática do Shin-do. Atualmente, apenas 30 alunos praticam o estilo no Distrito Federal, já que a modalidade não é oficialmente registrada e não há uma lei que regulamente a prática de artes marciais, Essas pessoas estão divididas em apenas duas academias - uma na Asa Norte e outra em Águas Claras. As aulas têm duração de uma hora e a mensalidade é de 105 reais.

Nascimento O Shinobi é inspirado e baseado no Ninjutsu, uma arte marcial japonesa que veio da época feudal nipônica e era usada pelos antigos ninjas. Em 2012, oito praticantes brasilienses que estavam insatisfeitos com ensino do então mestre resolveram se juntar para criar um novo estilo de luta. Assim nascia o Shinobi Shin-do. Apesar das inspirações, o shinobi segue uma linha diferente de ensinamento e metodologia do Ninjutsu. “Compilamos conteúdos de várias artes marciais que estivessem nos padrões atuais de defesa pessoal que fossem nos ajudar, que fosse completar o nosso ensinamento. e então desenvolvemos o nosso sistema de artes marciais unificado”, conta Rodrigo Lima, de 31 anos, fundador da vertente e que atualmente é o único professor atuante.

A modalidade foi criada em 2012 por ex-praticantes de Ninjutsu

Rafael Amaral

“A criação do Shin-do foi para preencher uma lacuna que ocorre hoje dentro das escolas de Ninjutsu, que são conteúdos em desuso. A gente coloca esses conteúdos em outro momento, em uma prática para conhecimento cultural, de algumas tradições, mas não os tornamos prioritário”, explica. Quem for praticar a arte marcial não vai aprender técnicas próprias dos antigos ninjas, como assassinato e infiltração, mas sim conteúdos práticos e modernos. Daniel Medeiros, de 21 anos, é um dos alunos mais experientes do estilo, portador da faixa marrom, a última graduação antes da faixa preta, que leva ao título de sensei. Ele começou a praticar em 2013 e treina até 15 horas por semana. “A arte marcial trouxe para minha vida principalmente equilíbrio”, afirma Daniel. Ele conta que as filosofias orientais que regem o Shin-do focam no desenvolvimento harmônico do ser: “Estar em um ambiente saudável de tatame consegue proporcionar isso. Um dos principais diferenciais é o sentido de legado e família que nos é ensinado.” Daniel ainda cita outros benefícios da prática: “Junto ao treino físico, o Shinobi Shin-do demanda de seus alunos um treino psicológico e teórico”. Rodrigo Drumond, de 19 anos, é um faixa branca, a primeira graduação das artes marciais. Ele começou a praticar há três meses quando foi chamado por amigos e pegou gosto pelos treinos. Além de saúde e lazer, outro motivo o levou a aprender a lutar: “Queria ter meios de proteger as pessoas importantes para mim”, conta. Drumond disse que quanto mais ele treina, menos tem vontade de usar as técnicas que aprende em outras pessoas. “O Shin-do ensina a lutar apenas quando não houver mais outra alternativa”, explica.

Shinobi Shin-do, em sua tradução literal, significa “o caminho do espírito do ninja”. “Colocamos esse nome porque queremos resgatar a essência shinobi”, explica Rodrigo. Ele diz que a prática da arte marcial ensina valores aos atletas, como a honra, disciplina, hierarquia e respeito com o próximo e com a família, mas destaca que não pertence à escola de Ninjutsu tradicional. Shinobis treinando com lanças em um Gashuku, treino de campo. Foto: Arquivo pessoal.

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cultura

Amor de repente Conheça histórias de artistas que mantêm a tradição nordestina numa cidade de múltiplas culturas

Jaqueline Amanda Vendo tudo tão risonho, achei Ceilândia tão bela, e se ela nasceu de um sonho, meus sonhos nasceram dela Cabelos acinzentados cobertos por um chapéu, camiseta branca, calça preta, chinelo nos pés. Foi assim que o poeta e repentista Donzílio Luiz da Costa, de 83 anos, recebeu a reportagem na Casa do Cantador, local onde ele venera e considera o segundo lar. O espaço fica em Ceilândia, a região administrativa mais nordestina do Distrito Federal. O cantador traz a tiracolo a viola e o matulão (bolsa). Instrumentos de prosa fácil, mas em rimas ricas dos versos repentistas. À espera de uma contribuição no chapéu, artistas como ele criaram na cidade rotinas culturais agrestinas e sertanejas em pleno Centro-Oeste. Poesia popular refinada e rimada já com identidade ceilandense. Nascido em Itapetim (PE), a 385 quilômetros do Recife, o repentista Donzílio veio para a capital do país em busca de melhores condições de vida não só para si, mas também para a família. A esposa e o filho, de quatro anos, vieram logo após ele se estabilizar. O repentista chegou a Brasília em 1968, quando foi chamado para trabalhar na construção civil pela companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap). Morou durante três anos na Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. Passado esse tempo, o poeta teve que seguir um novo rumo.

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Donzílio era um dos candangos que estava presente em março de 1971, quando Ceilândia foi inaugurada. “Aqui era só pó e terra, nem cascalho tinha, nos colocaram para morar aqui e disseram: ‘te vira’, e assim as famílias foram se abrigando, construindo os barracos com tábuas velhas, que vinham das localidades esquecidas da capital, e com orgulho eu digo que vi a cidade crescer, construindo a identidade de Ceilândia”, lembra. Desde muito novo, o artista já trabalhava para ajudar no sustento da família. Segurava a enxada e saía para labutar com o irmão mais velho, Zé Luiz. Juntos, os irmãos faziam rimas para o trabalho ficar mais distraído. O repentista mal podia imaginar que a brincadeira o tornaria, futuramente, bastante conhecido nesta categoria. “Depois de um dia de suor, chegava em casa, pegava um papel e começava criar as rimas e assim fui descobrindo no que sou bom, porque ser repentista é um dom”, comenta. O artista não tem vergonha de expor o amor pelo trabalho. “Meu amor pelo repente sobreviveu por décadas. Tenho mais de oitenta anos, sou aposentado, mas continuo firme e forte como repentista”. Aposentado desde 1998, Donzílio é o atual presidente da Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF e Entorno (Acrespo), localizada no mesmo prédio da Casa do Cantador, em Ceilândia. Venceu a eleição por duas vezes consecutivas e exerce o mandato há cinco anos. “Luto para que a nossa cultura seja conhecida por toda a Ceilândia. Essa é minha missão como representante dos repentistas”, avalia. O artista quebrou paradigmas. Apesar de ter apenas o ensino fundamental, já escreveu e publicou onze livros, e está prestes a lançar mais um, intitulado “Viagem através dos livros”, o qual reúne e comenta as publicações que o serviram de inspiração.


cultura “Pra dar lugar às canetas E os garranchos passaram Das roças às cadernetas Quem rachou os calcanhares Foi aos grupos escolares A procura dos anéis Quem na terra deixou riscos Passou a deixar rabiscos Sobre as pautas dos papeis”. * Poema retirado do primeiro livro, ganchos e arranjos publicado em 1996 Localizada em Ceilândia, a Casa do Cantador é um Palácio da Poesia e da Literatura de Cordel no DF. Foto: André Borges.

Mesmo com o grande número de publicações, Donizílio afirma não ter apoio de editoras, mas escreve mesmo assim porque “ser escritor não é uma forma de ganhar pão, mas sim de amor pela literatura e pela cultura”. Para publicar um livro, o repentista gastou cerca de R$ 5 mil em cada publicação, e apesar do montante gasto, não obteve o retorno financeiro estimado, mas não reclama. “Me sinto bem, quero mostrar a cultura de onde eu vim, quero que as pessoas me leiam, sem nada em troca, recebo um dinheiro ali, um acolá, mas nunca supriu o que eu já gastei’, explica o artista.

DONS O paraibano Geraldo Queiroga, de 59 anos, nascido na cidade de Sousa, já trabalhou como garimpeiro, agricultor e comerciante. Hoje se define como “poeta repentista”. Somente aos trinta anos dedicou-se integralmente à cultura nordestina. O poeta só percebeu que tinha habilidade para a cantoria quando assistiu à apresentação de um grupo de repentistas. Logo veio o interesse pela rima cantada. “Meu pai viveu 60 anos como cantador e eu nunca tinha me interessado. Depois de velho que percebi que tinha herdado dons do meu pai”, explica.

Já o colega de profissão, João Santana, tem 38 anos e é repentista profissional desde os 21. No entanto, diferentemente dos demais repentistas, ele nasceu em Brasília. “Mas tenho um pé no nordeste. Minha família por parte de mãe é do Piauí e ama a cultura de lá”, comenta. Desde pequeno, já gostava de improvisar, junto do pai músico e compositor. Mas só adulto teve contato com repentistas profissionais, e foi indicado para fazer dupla com Chico de Assis, premiado repentista ceilandense do DF. O artista, além de trabalhar como repentista, faz produção de projetos voltados para a literatura de cordel. Desde 2004, junto com o Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC/DF), leva artistas às escolas para a divulgação do que é o cordel e o repente. Ele já visitou 38 escolas em todo o DF. “O objetivo é que as crianças e jovens possam ter a oportunidade de conhecer e poder gostar desse estilo artístico brasileiro’’, conta.

Hoje, Geraldo é um dos repentistas que lutam para manter essa cultura viva. “A diversidade existe, as novas culturas estão hoje bem representadas na cidade, mas nós queremos o nosso espaço, pois queremos passar para os mais jovens a cultura viva do nordeste na Ceilândia, para que essa tradição nunca morra’’, comenta o artista.

Além disso, ele é idealizador do site “Verso Encantado”, que criou para mostrar e distribuir obras artísticas do universo da poesia, da literatura de cordel e do repente. Nele, compartilha, gratuitamente, divulgação de eventos e informações sobre a cultura nordestina. “É um conteúdo tem sido acessado cada vez mais”, garante o artista.

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cultura

De repente, repente Repente, também conhecido como cantoria, é uma arte brasileira baseada no improviso cantado, alternado por dois cantadores. A origem do repentista brasileiro tem raízes na região de Teixeira, na Paraíba, no século XIX. É facilmente confundido com o cordel, mas enquanto este último é caracterizado pela poesia escrita em folhetos, o repente é cantado. Entretanto, o Cordel também figura junto aos repentes e suas histórias se cruzam em paralelos caminhos. Os segmentos unidos são mais fortes que sozinhos. Juntos formam um belo par.

Nordeste em Ceilândia Donzílio Luiz faz parte da população que ajudou a construir Brasília. Ele representa uma parcela de pessoas que vieram de longe para ter nova perspectiva de vida, mas acabou se instalando em Ceilândia, que na época era a mais nova Região Administrativa do Distrito Federal. Geraldo Queiroga veio quando a cidade já estava em desenvolvimento, mas também chegou à região em busca de novas oportunidades. Ceilândia surgiu de um plano urbanístico ultrapassado e totalmente diferente do proposto por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para a construção de Brasília. A região começou a se desenvolver a partir de vinte famílias lideradas pela primeira-dama Vera de Almeida Silveira, esposa do então governador Hélio Prates. Vera liderou a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), sigla que deu origem ao nome da cidade. Ela teve como objetivo conhecer a gravidade dos problemas e suas consequências: violência, crescimento desordenado e infraestrutura tão precária quanto à dos grandes centros urbanos.

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Dos residentes da Ceilândia, 51,67% é nascido no Distrito Federal, enquanto 48,33% são constituídos por imigrantes, confira no gráfico: 68,4%

15,0%

11,9% 3,8%

Nordeste

Sudeste

Centro - Oeste

Norte

0,6%

Sul

* Centro - Oeste, exceto o DF.

O ESTADO COM MAIOR REPRESENTAÇÃO NA CEILÂNDIA É O PIAUÍ, SEGUIDO POR BAHIA E MARANHÃO.

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De acordo com a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), Ceilândia é a região administrativa que mais abriga nordestinos. Cerca de 48% dos moradores são de estados dessa região. Entre os imigrantes, o Estado do Piauí é quem mais possui representantes, 23,4%, o equivalente a cerca de 55 mil pessoas. Outros Estados também possuem representatividade expressiva: grande parte da população do Maranhão, da Bahia e do Ceará também migraram para a Ceilândia, com 18,3%, 18,1% e 16%, respectivamente.

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Artista carrega no matulão suas 12 obras. Foto: Jaqueline Amanda.


cultura

Após 46 anos, Ceilândia tornou-se a região administrativa mais populosa do DF, com cerca de 490 mil pessoas, conforme pesquisa da Codeplan. A região representa o outro lado da história de Brasília, não aquele romantismo que remete ao sonho de Dom Bosco, mas o de lutas e conquistas por meio de muito esforço e muito suor daquelas famílias, grande parte nordestina, que precisavam fugir de condições precárias devido à seca e a falta de recursos.

Carência O comerciante Francisco Anísio também faz parte da população de Ceilândia que veio do Nordeste para uma tentativa de condição de vida melhor. Morador da região há 34 anos, Chiquim, como é conhecido no local, procura sempre sentir-se como se estivesse na sua cidade natal, Quixadá, no interior do Ceará. “Aqui eu tenho os meus amigos, amigos que reencontrei nesse local e que vieram de onde eu nasci. Tem pessoas que eu não conhecia antes, mas temos coisas em comum, só pelo fato de termos vindo do Nordeste”, explica.

Repentistas Geraldo Queiroga e Messias Oliveira são atrações na Feira da Guariroba. Foto: Jaqueline Amanda

sabemos quem são os repentistas, pois há uma maior concentração, mas se você for para Brasília e perguntar para um jovem ele vai desconhecer’’, lamenta. Assim como Francisco, os artistas nordestinos acreditam que a cantoria repentista, ainda é desconhecida pelos jovens. “Isso porque em alguma escolas não é ensinado sobre o repentistas”, afirma Donizílio. De acordo com o atual diretor da Casa do Cantador, Francisco de Assis Chagas Filho, ainda não há projetos para a expansão do local. Contudo, “com mais de três décadas da sua inauguração, a Casa do Cantador permanece sendo referência da cultura nordestina na cidade de Ceilândia’’ comenta. Com a falta de espaços para acolher a diversidade cultural da região, a comunidade artística de outros segmentos utiliza a Casa do Cantador como um dos poucos locais físicos para abrigar os mais diferentes grupos que vivem em Ceilândia.

Incentivo De acordo com a Secretaria de Cultura (Secult), há um projeto para lançar um edital de chamamento com vinte vagas para duplas de repentistas do DF para realização do projeto Sexta do Repente. A proposta segundo a Secult, contratará 10 duplas de repentista de notoriedade nacional. Os repentistas João Santana e Chico de Assis participam do projeto -Cantoria nas Escolas. Foto: Tiago Oliveira / SEEDF.

Chiquim gosta de frequentar locais onde a música nordestina está presente, mas diz que o canto repentista ainda é muito fraco na região em que abriga a maior concentração de nordestinos do DF. “Vou à feira da Guariroba no ‘P’ Sul, aos finais de semana, lá eu faço as minhas compras, vou comer o meu mocotó e aproveito para assistir as apresentações das duplas de repentistas’’ conta. Contudo, o comerciante lamenta a desvalorização da cultura nordestina na capital. “Aqui na Ceilândia, nós

Reconhecimento

Apesar de todos os obstáculos, os quatro repentistas que foram entrevistados afirmam que com o passar do tempo, o canto repentista tem crescido, tem ganhado mais visibilidade, e não se assusta com a diversidade cultural existente na região. “A diversidade faz o progresso, e é isso que mantém viva a cultura da Ceilândia, só do que precisamos é sermos valorizados’’, relata Geraldo.

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cultura

Quadrinhos pela tolerância Nos quadrinhos, heróis, corpos esculturais e superpoderes. Narrativas que celebram padrões, porém, não são as preferidas de novos autores interessados em quebrar estigmas. Uma nova geração de artistas faz de personagens com deficiência, homossexuais e negros os protagonistas das histórias. Um dos exemplos que caiu nas graças do público é a história em quadrinhos Haole, que conta a saga de Irene, uma surfista negra que perdeu a perna esquerda em um ataque de tubarão. Ela se muda para Natal (RN) em busca de nova vida e esquecer o passado. O diferencial da história é a jornada de Irene, que já faz parte de dois grupos oprimidos da sociedade - mulher e negra - agora também deve se aceitar como deficiente e superar os traumas passados. Além de tratar o preconceito interno da protagonista, o tema discute a intolerância da sociedade. Apesar de serem recentes, produções artísticas de histórias em quadrinhos com foco na tolerância ainda não são maioria, mas já mobilizam o mercado. “Eu não pensei nela como uma coitadinha, eu pensei numa menina que está se tornando uma mulher. Ela tem 19 anos e vai crescer como um todo. Vai descobrir que o acidente que aconteceu marcou a vida dela, mas que é preciso superá-lo, aceitar o que aconteceu e tentar entender que ela pode refazer a vida de uma forma diferente e melhorada do que já era”, explica Milena Azevedo, roteirista da saga.

taca que durante suas pesquisas a respeito do esporte descobriu sobre o estilo e casos de pessoas deficientes que surfam até mesmo em pé, com apenas uma perna ou utilizando próteses.

Aceitação Em um internato masculino, em outro universo, Leon descobre que é gay depois de conhecer Jimmy. A forma como ele é aceito pelos amigos, sem receber tratamento diferente por causa da sexualidade, não é o único aspecto interessante retratado em a “Lebre e o Coelho”. O quadrinista Alec Drumond, mais conhecido como Jonnhy Jota, criador da publicação diz que tenta colocar aspectos de pessoas comuns em seus personagens. Na HQ, os meninos cometem erros e procuram resolver seus problemas, não são julgados por chorar e demonstram seus sentimentos. Além de terem sexuali-

Haole traz histórias de esporte para pessoas deficientes, na qual a personagem volta a surfar utilizando kneeboard - estilo de surf em que a pessoa pega as ondas de joelhos e também da prancha utilizada. Milena des-

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Imagem: Reprodução/ Milena Azevedo.


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cultura

Autores de HQ’s constroem personagens que celebram a diversidade

Carolina Saab

Imagem: Reprodução/ Thiago de Paula

dades, crenças e raças diferentes, tudo isso é mostrado em um ambiente seguro, o qual são aceitos por suas diferenças. Outras obras do mesmo autor mostram personagens gordos e transexuais, aspectos que entram em evidência e passam a aceitação das pessoas com leveza e naturalidade. “Eu acho que fiz porque essas pessoas existem então eu posso colocar na história. A gente vê muito a questão da idealização da coisa, é mais fantasioso e as pessoas fazem o que querem ver e acham bonito”, explica. E garante: “Eu vou retratar o que eu vejo e o que eu sei que existe, porque eu gosto da variedade em tudo, é importante retratar porque essas pessoas existem”.

Reais

100%AFIRMARAM dos leitores entrevistados

que HQs como essas devem ser mais VALORIZADAS. TODOS concordaram que deve haver MAIS DIVERSIDADE nos personagens dos quadrinhos.

Conhecem HQs brasileiras:

Thiago de Paula é personagem das próprias tirinhas. As situações são expostas de forma caricata, pessoas do cotidiano se tornam personagens diversos que chamam atenção para situações rotineiras. Por serem representações de pessoas reais, os personagens retratam a distinção existente na sociedade: pessoas negras, gays e mulheres independentes entram em cena. Grande parte dessa pluralidade também pode ser encontrada nos posts onde ele conta suas aventuras entregando desenhos e conhecendo pessoas famosas, mostrando sua admiração a pessoas como a cantora polêmica Rita Lee e a cartunista Laerte, que assumiu ser uma mulher transexual recentemente. Thiago de Paula explica como integra essas militâncias em seus trabalhos.

40% 60% Não Sim * Pesquisa realizada pela reportagem com leitores.

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cultura

Imagem: Reprodução/ Euclides Carvalho.

“Engraçado que eu nunca recebi nenhuma dessas bandeiras que essas pessoas defendem por encomenda, agora eu gosto de fazer charges, já fiz algumas, inclusive o trabalho da faculdade que eu estou fazendo agora é sobre violência contra a mulher, então estou desenhando bastante com isso.”

Criação A equipe de Haole tem pessoas de estados diferentes. Em razão disso, as reuniões são feitas por skype, nelas são decididos aspectos do enredo e também cada prazo para fechamento das edições. Esse processo é longo e varia de acordo com quem faz. Milena Azevedo conta que leva cerca de dois meses para finalizar cada edição.

Mercado As comics de Alec ganharam espaço em redes sociais e sites como o facebook, tumblr, tapastic e catarse, os últimos são plataformas que servem para arrecadar dinheiro para os artistas e projetos. Outra opção, utilizada pela equipe da Pagu Comics, é publicar em aplicativos como Social Comics - que funciona como um Netflix de HQs – o qual o leitor faz uma assinatura e pode ler o que quiser. O aplicativo oferece remuneração para os artistas de acordo com o desempenho das HQs.

A parte complicada para esses artistas é ter uma renda apenas das Comics. Eles acabam precisando complementar com outras opções existentes. Milena tem diversos trabalhos e parcerias além de Haole, já Thiago e Alec fazem trabalhos freelancers recebendo encomendas para ilustrar livros, outras HQs, enviando suas tirinhas para jornais, entre outros. Contudo, independente do retorno financeiro, os artistas exercem um trabalho fundamental. As questões sociais, pouco debatidas em escolas e nos lares, por exemplo, elucidam uma sociedade que ainda tem um longo caminho até alcançar o respeito às pessoas que não se encaixam no padrão tradicional.

Imagem: Reprodução/ Alec Drumond.

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COMPORTAMENTO

Contra olhares e silêncios Conheça histórias e batalhas de brasilienses em processo de transição de gênero

Ana Carolina Alves

“Às vezes sinto como se eu visse meu passado em terceira pessoa, como se tudo que eu vivi não fosse comigo. Às vezes, lembramos de pessoas que morreram e guardamos as lembranças”. É assim que o brasiliense Daniel Adorno, hoje com 20 anos, lembra de Carolina, que de alguma forma “morreu” em 2015. Durante a infância e adolescência, ele atendia pelo nome de Carolina. Dan, que existia em silêncio, nasceu em seguida para o mundo. Nascido em Brasília mas atualmente morando no Rio de Janeiro, todo dia Dan acorda, vai para a faculdade, almoça no “bandejão” da instituição, deixa a namorada no ponto de ônibus, vai à academia e estuda a matéria do dia seguinte. Uma rotina relativamente normal, se não fossem os olhares e as atitudes julgadoras das pessoas. Mudam os nomes. Daniel e tantos outros transexuais brasilienses residem no país que mais se notificam assassinatos de transexuais no mundo, de acordo com a pesquisa realizada pela organização não governamental Transfender Europe (Tgeu). Não existem pesquisas oficiais que indiquem o número de transexuais residentes no Brasil ou mesmo em Brasília. A integrante da Associação do Núcleo de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Distrito Federal e Entorno (ANAVTrans), Ludmylla Anderson Santiago Carlos, 34 anos, afirma que uma pessoa declaradamente travesti ou transexual sem documentos ratificados será entendido como gay ou lésbica. Por isso, é tão difícil conseguir esses números. Além disso, muitas organizações não-governamentais (ONGs) do DF ditas LGBT não têm travestis e transexuais com poder de voz, portanto muitos homossexuais acabavam representando essa população. Esse

foi um dos principais motivos para a criação da ANAVTrans, em setembro de 2009. “O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais em todo o mundo e isso acontece porque essas pessoas não possuem seus direitos garantidos”, desabafa Ludmylla, que também é transexual. Os crimes, segundo especialistas entrevistados, são reflexos da cultura transfóbica brasileira, que não entende a complexidade que é enfrentar a dúvida de identidade de gênero. Identidade de gênero? Outra questão polêmica e desconhecida. “Trata-se de uma identidade ampla, para identificar o grupo diversificado de pessoas que não se reconhecem, em graus diferentes, com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero que lhes foi determinado quando seu nascimento”, explica o coordenador da comissão especial LGBT do Conselho Regional de Psicologia do DF, Thiago Magalhães.

Barreiras No caso do estudante transexual Daniel, ele sempre soube que era “diferente” de pessoas que convivia, mas tentava se acostumar com o estereótipo de ser mulher. “Eu passei minha vida tentando ser uma coisa que eu não era, e em decorrência disso eu fiquei muito deprimido e ansioso, e não sabia o porquê”. Quando finalmente se reconheceu, resolveu contar para os pais em 2015, que não aceitaram “muito bem”. Depois das reações da família veio outra dificuldade: as barreiras do dia a dia. “Eu não conseguia ir ao banheiro porque não me sentia bem no feminino e tinha medo de ser barrado no masculino. Hoje já superei isso, mas sempre aparecem outros obstáculos, como por exemplo, quando uma festa vende ingressos masculino e feminino por preços diferentes. É

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COMPORTAMENTO complicado porque não mudei minha identidade ainda”, conta o jovem, que tenta evitar essas situações.

Identidade O Vice-Presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados Seccional do DF (OAB), Ricardo Sakamoto de Abreu, explica que para que seja realizada a troca do prenome nos documentos civis é necessário que se ingresse judicialmente requerendo a troca, por meio de uma ação de alteração de prenome e gênero do registro civil. Ele alerta que não é necessária a realização de cirurgia de redesignação sexual para que haja a alteração do nome e gênero nos documentos civis da pessoa transexual. Porém, o advogado alerta que o país carece de legislação específica que trate sobre os transexualidade. “O que existe são os princípios constitucionais em que se baseiam esses princípios, como o princípio da autodeterminação, direito à saúde, e principalmente o princípio da dignidade da pessoa humana”, afirma. Constrangimento em mostrar documentos é só um exemplo das situações desconfortáveis que transexuais enfrentam no dia-a-dia. Ludmylla Anderson conta que já foi confrontada muitas vezes, principalmente por mulheres. Lugares como banheiros e vagões especiais para mulheres já foram o palco de preconceito. Ela avalia que o DF está bem longe de uma situação aceitável.

“A todo instante” Ludymilla, além de ser representante da ANAVTrans, também é gestora pública, e conta que já foi excluída de seleções de emprego por ser uma mulher transexual.

“Esses preconceitos acontecem a todo instante. Parece que estamos pedindo favores e não requerendo direitos”, desabafa. Segundo a gestora pública, Brasília é uma cidade preconceituosa, mas é difícil saber o nível de intolerância, já que faltam números e dados oficiais sobre o tema. O problema, no entanto, não é exclusivo da capital. A intolerância está presente no país inteiro. Dan relata que, logo quando se mudou de Brasília para o Rio de Janeiro, sofreu preconceito no trote da faculdade. Quando entrou na instituição ninguém sabia que ele era um homem transexual, apenas acreditavam que era um garoto mais jovem que entrou na faculdade. “Na hora do trote, tentaram tirar sarro pelo fato de eu parecer com Thammy Gretchen, e foi aí que eu resolvi defender ‘a causa’ e me assumir na sala. Afinal, por que seria engraçado eu ser trans?”. O estudante lembra que o pior episódio de preconceito aconteceu recentemente, quando ele e a namorada resolveram contar para a família da garota que Daniel era transexual. A mãe reagiu bem à notícia, mas o pai da menina proibiu os dois de se relacionarem. O casal passou mais de dois meses sem se ver. “Não foi só eu que sofri o preconceito, foi ela também”, reflete. O sogro de Daniel cometeu outro erro comum na sociedade. Ele acreditava que, pela filha se relacionar com um homem transexual, ela era bissexual. Muitas pessoas pensam assim, devido principalmente à falta de conhecimento. Aliás, se um homem transexual se relacionar com mulheres, ele se identifica como heterossexual. Se o mesmo se relacionasse com homens, poderia ser um homem trans homossexual. Caso se relacione com os dois, é bissexual. A mesma coisa vale para homens e mulheres cis. “É um relacionamento heterossexual independente do que eu tenho entre as minhas pernas”, reforça Dan.

“É preciso ter preparo” Ela tem o espelho diante de si o dia inteiro. A cabeleireira transexual Camila Almeida Carvalho, 32 anos, afirma que nunca sofreu preconceito a ponto de se sentir constrangida. Apesar disso, ela alega que transexuais atraem olhares. “É preciso ter um preparo psicológico para isso. As pessoas não estão acostumadas a lidar com pessoas trans”, ressalta a cabeleireira. Ela conta que desde criança não se sentia confortável usando roupas masculinas. Resolveu adotar a postura feminina aos 14 anos, e sempre teve o apoio da família, principalmente da mãe. A cabeleireira admite que já fez tratamento hormonal, inclusive sem acompanhamento médico. Fotos: Arquivo Pessoal. Ludymilla coordena entidade de luta por direitos de transexuais.

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COMPORTAMENTO O psicólogo Thiago Magalhães alerta que os pais devem buscar a orientação de profissionais especialistas na temática, para ajudá-los a lidar com uma criança ou jovem transgênero. “Embora não seja nada fácil em um primeiro momento, é fundamental o suporte familiar, acolhimento, amor e respeito para o desenvolvimento da criança trans, pois é no contexto familiar que ela consegue transferir segurança para a sociedade, refletindo na sua vida emocional, psicológica, estudantil e, futuramente, profissional”.

Para entender mais: As pessoas podem ser identificadas como “cisgênero” ou “transgênero”. Pessoas cisgênero, ou “cis” são aquelas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento. Já as pessoas transgênero, ou trans, são aquelas que não se identificam com o gênero que lhes foi determinado ao nascer. Dito isso, é importante ressaltar a diferença entre transexuais e transgêneros: As pessoas transgêneros são aquelas que não se identificam com o gênero que lhes foi determinado ao nascimento. As transexuais são aquelas que se identificam com o gênero oposto ao que lhes foi determinado ao nascer.

O que diz a lei:

O Decreto n. 8.727/2016 assegura a utilização de nome social no âmbito dos órgãos da administração pública, e corre no Supremo Tribunal Federal (STF), uma RE - recurso de caráter excepcional para o STF contra decisões de outros tribunais, em única ou última instância, quando houver ofensa a norma da Constituição Federal - em que discute a possibilidade de uma pessoa transexual retificar o gênero em seus documentos sem a necessidade de realização de cirurgia de redesignação de sexo. “Com o STF se posicionando, poderão os demais juízos aplicar o entendimento da Corte Suprema”, avalia o advogado Ricardo Sakamoto de Abreu.

O estudante Daniel Adorno: Carolina “morreu” há dois anos.

“Não era uma doença, mas quem eu sou” Sobre o tratamento hormonal, o psicólogo Thiago Magalhães explica que também é necessário o acompanhamento de especialistas. O melhor momento para iniciar o tratamento deve ser avaliado em conjunto com profissionais qualificados. Jamais se deve fazer o processo sem acompanhamento médico, como Camila fez. Hoje ela reconhece o erro, mas afirma que muitas mulheres transexuais optam por se automedicar por acreditarem que a dose de hormônio é a mesma para todas. O estudante Daniel lembra das dificuldades que enfrentou no processo hormonal, principalmente nas consultas com especialistas. “A sensação é de que toda vez que eu entrava em um consultório eu tinha que convencê-los de que eu não estava inventando nada, que não era uma doença, mas quem eu realmente sou”, afirma. Depois de conseguir a autorização médica para começar o tratamento, a ansiedade se tornou a grande vilã para o estudante. Ele diz que teve dificuldade para ver o corpo mudar, e isso gerava frustração e baixa autoestima. “Eu percebi que eu tinha que registrar a transição para ver claramente as mudanças no futuro, porque a ansiedade era tanta que eu não dava crédito ao tempo para fazer efeito no meu corpo a longo prazo”, conta ele, que hoje registra a transição através de fotografias. Já tem mais de um ano que Daniel começou a injetar hormônios, e com o tempo seu corpo adquiriu cada vez mais características masculinas. Apesar disso, ele conta que os colegas de faculdade têm dificuldade em vê-lo como um homem comum. “Me tratam com uma certa distância, quase como uma garota. Não apertam a minha mão para me cumprimentar, não me veem como um deles. Eu acabo sendo o esquisitão excluído do grupo”, desabafa. A situação só começou a melhorar nos jogos universitários, quando o estudante participou com os garotos. “Pelo fato de estarmos jogando juntos eles perceberam que eu sou um deles”. Porém, apesar de tudo que enfrentou e ainda enfrenta em seu cotidiano, Daniel se considera “sortudo”. Segundo ele, são as mulheres transexuais que mais enfrentam o preconceito, pois muitas vezes sofrem misoginia por parte de mulheres e homens. “Elas são deixadas de lado até em movimentos feministas radicais. As pessoas vinculam muito a prostituição com trans, tendo a concepção de que uma mulher transexual é uma prostituta”, afirma Daniel.

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COMPORTAMENTO No processo de redesignação sexual masculina é realizada a histerectomia (retirada de útero, ovários) e mamoplastia masculinizadora (retirada das mamas). Após o início do tratamento hormonal, o clitóris pode crescer a ponto de adquirir o tamanho de um pênis pequeno. Quando esse crescimento é insuficiente, pode ser realizada a metoidioplastia, cirurgia na qual o clitóris é alongado e reconstruído como um neopênis de modo a preservar a ereção e conferir a habilidade de urinar em pé, ou de introduzir próteses rígidas ou infláveis. A bolsa escrotal é reconstruída com os grandes lábios e próteses de testículos.

A escritora Maria Léo Araruna chegou a ser expulsa de uma escola.

Intolerância A estudante de direito e militante LGBT da coletiva Corpolítica, Maria Léo Araruna, de 22 anos, sabe bem como é lidar com esse preconceito. Ela, que também é escritora, se define como travesti. Maria conta que já foi expulsa de uma escola que oferecia oficinas de direitos humanos, por usar roupas femininas. Além disso, ela admite que já foi hostilizada por homens, principalmente em aplicativos de relacionamentos. Chamada de “demônio” e “farsa”, a estudante já escutou que “não é mulher de verdade, só servia para fazer gozar”. Segundo Maria, ela enfrenta menos repressão no centro de Brasília, apesar de notar os olhares julgadores das pessoas. “Na ‘periferia’ o risco de ser agredida é maior. Eu tenho sorte de ter carro e de viver próximo ao Plano Piloto”, diz. A estudante conta que começou a fazer tratamento hormonal há pouco mais de dois meses, e por enquanto não tem planos em fazer a cirurgia de redesignação sexual.

Cirurgias Mais avançado no tratamento hormonal, Dan realizou a cirurgia de mamoplastia masculinizadora no final de janeiro deste ano. O estudante conta que decidiu realizar o procedimento porque nunca se sentiu confortável com os seios. Quanto à cirurgia de redesignação sexual, o jovem espera um dia poder realizá-la, mas não no Brasil. “Eu não conheço muitos resultados do procedimento no nosso país. Então vou deixar para o futuro, agora estou mais interessado em retirar meu útero e ovários”, afirma.

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Já a redesignação sexual feminina consiste na retirada dos testículos e na construção de uma neovagina, que é construída a partir da pele do pênis ou de um retalho de mucosa do intestino grosso. A redesignação sexual feminina pode envolver, ainda, cirurgia de feminização


COMPORTAMENTO facial e o aumento de seios. O psicólogo Thiago Magalhães ressalta que “o importante na determinação da identidade de gênero transexual é a forma como as pessoas se identificam e não um procedimento cirúrgico”. A cabeleireira transexual Camila Almeida conta que já colocou próteses nas nádegas e nos seios, aos 17 e 22 anos, respectivamente. Segundo ela, a decisão pelos procedimentos foi por uma questão de estética, para se sentir feminina. Quanto à cirurgia de redesignação sexual, Camila não tem planos para realizá-la, ainda. Mesmo assim, já se sente renascida.

Travesti? Transexual? Transgênero?

Entenda as classificações: O coordenador da comissão especial LGBT do Conselho Regional de Psicologia do DF, Thiago Magalhães explica que a definição desses conceitos não é consenso na literatura e no movimento LGBT. Ele apresenta e explica esses conceitos de maneira didática, baseados na literatura que já teve acesso, na militância do movimento LGBT, no diálogo constante e no atendimento de pessoas que vivenciam essas realidades, pessoas que estão diretamente implicadas nessas questões. As pessoas transgênero são aquelas que não são identificam com o gênero que lhes foi determinado ao nascimento. As pessoas transexuais são aquelas que se identificam com o gênero oposto ao que lhes foi determinado ao nascimento. As travestis são pessoas que vivenciam papéis de gênero feminino. Elas não se identificam como homens ou como mulheres, mas como pertencentes a um terceiro gênero ou um não-gênero. Crossdresser é um termo utilizado para homens cisgênero heterossexuais que buscam vivenciar papéis de gênero feminino. Eles têm satisfação emocional ou sexual momentânea em se vestirem como mulheres, mas identificam-se como pertencentes ao gênero que lhes foi atribuído ao nascimento. Drag Queens são homens que se fantasiam como mulheres para o entretenimento. São artistas que fazem uso de feminilidade caricata e estereotipada. Drag Kings são mulheres que se fantasiam como homens para o entretenimento. São artistas que fazem uso de masculinidade caricata e estereotipada. Crédito: Redcup Films

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COMPORTAMENTO

Uma abordagem do divórcio pelo ponto de vista do fruto do relacionamento

Carolina Vieira Esperada por alguns, inexplicável para outros. O final “walt-disneylesco” podia ser real nessas histórias. Mas não é. Números indicam que os filhos estão lidando mais com os pais separando suas escovas de dente. Olha! Que pessoa interessante! Tá me olhando de volta. Ou tem borboletas no estômago ou comi pastel de carne estragada. Amor à primeira vista existe? Oi, estranho. Que beijo bom. Acho que eu vou amar essa pessoa para sempre. Eu te amo. Vamos fazer uma família juntos? Calma, vamos casar antes. Sim! Eu aceito! Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença…

ZONA LIVRE DE SPOILER ...até que o divórcio nos separe. Segundo o dado nacional de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de divórcios no Brasil cresceu 160% em 10 anos. De 130,5 mil, em 2004, para 341,1 mil em 2014. As separações são ainda mais volumosas na região do Distrito Federal: 3,47 divórcios por cada mil moradores acima de 20 anos. A média nacional é de 2,41.

O professor Álvares Castelo Branco é hoje advogado da União, mas trabalhou durante muito tempo com direito de família. Ele acredita que “construir uma família exige responsabilidade, e desfazer essa família também”. Independente da direção que for tomada, esse caminho de ir embora tem que ser feito com muito cuidado e consciência. “Não entre os cônjuges, porque eles são maiores e vão saber se virar, mas com os filhos, que realmente podem sofrer muito com a separação”. Opa! Para sempre é tempo à beça, né? Deixou o rolo de papel higiênico vazio de novo. O varal de calcinha veio parar no banheiro? Não sei nem mas o que é cabelo e o que é chão. Hoje eu não estou afim. Quando tempo dura para sempre mesmo? Você me irrita. Não sabia que felizes para sempre vinha com data de validade. Eu odeio tudo em você. Aqui, só precisa da sua assinatura agora. Como assim nosso filho quer ficar com você e não comigo? O divórcio é difícil para toda a família, mas afeta diretamente na vida dos frutos dessa relação, de forma a gerar problemas emocionais ou físicos. Ou os dois. Muitas vezes depende de como a separação aconteceu. Mas essa é uma regra com resultados mais incertos do que os valores de X.

“Nossa mãe, você vai suportar isso até quando?”. Daniela Medeiros tem 16 anos e encontrou a resposta para sua própria pergunta com o pedido de sua genitora de divórcio do pai. Por estar em casa com pais em um relacionamento consumido por ciúmes e brigas de significâncias menores do que um grão de areia na praia, Daniela já esperava o divórcio. Mesmo assim, a repentinidade da separação a pegou de surpresa.

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COMPORTAMENTO Com oscilação na voz mas um olhar confiante, Daniela conta que aceitou o término. O pai não. A confiança de seus olhos foi embora ao relatar que sua figura paterna entrou em um quadro de depressão. Seus sentimentos agora se dividem entre o alívio de ver a mãe livre de uma relação conturbada e a preocupação de ver a dor do pai. “Eu via que minha mãe não era mais feliz. Era um relacionamento muito cansativo. É claro que eu queria ver eles bem, que eles se entendessem, e eu até me esforcei para isso acontecer. Para eles conversarem, tentarem novamente. Só que era uma coisa que já não dava mais”, afirma. Impressionada com a reação, inicialmente tomou as dores paternas em uma luta para colocar sua mãe na caixa de pandora. Por ter escolhido morar com ele, recebia diariamente discursos de ódio, que colocava sua mãe em um patamar peçonhento. Daniela se retrai ao começar a falar sobre ser o ápice das intrigas em casa pelo motivo de o pai não querer que ela se encontre com a mãe. Álvaro Castelo Branco tem uma explicação para esse comportamento: “existe uma grande preocupação com a chamada alienação parental, que é quando os pais se utilizam dos filhos como instrumento de vingança”. A psicóloga e psicodramatista Soraya Pereira acredita que esse clima reflete na construção da identidade do filho. “Essa desqualificação que hoje as pessoas chamam de alienação parental, é uma bomba na cabeça da criança, porque um não qualifico o outro como um bom cuidador e isso gera muita insegurança”, afirma. Daniela precisou da ajuda de um psicólogo para saber lidar com a situação. Ela não duvida que o pai ainda ame a mãe, mas se questiona se talvez não seja sentimento de posse, do tipo de quem tinha tudo e perdeu. Amor, para ela, é reciprocidade. “Eu amo essa palavra: reciprocidade. É o que eu acredito ser o ideal no amor, ter reciprocidade. Do gostar, do aceitar, do respeitar. Nunca um ‘mais’ vai se dar com um ‘menos’.

“A pessoa não percebe que, na verdade, quando ela faz a alienação parental, o reflexo no ex-cônjuge é mínimo. Mas a criança, principalmente na idade que está entre não entender nada e entender, consegue enxergar e perceber que algo está acontecendo, algo muito grave”.

Se é difícil lembrar o café da manhã do dia anterior, quem dirá um acontecimento de anos atrás. Hayanne Rocha tem 23 anos e é economista recém formada. Seus pais foram casados por 20 anos. Ela não se recorda de todo o processo da separação, mas sua voz fica rouca e seus olhos lacrimejam ao falar de um detalhe específico: o momento exato em que recebeu a notícia da decisão. O dia deixou de ser apenas mais um imemorável de dentro da sua rotina, e passou a representar uma lembrança triste em sua mente. Hayanne foi para a academia, como fazia rotineiramente. Pela proximidade da casa, ela fazia o percurso a pé. Se exercitava durante cerca de 1 hora e depois tomava o rumo de volta para casa. Numa tarde, aconteceu um episódio atípico: ao sair do centro de treinamento, seu pai a aguardava.Ela entendeu do que tratava-se quando, em meio ao choro, ele começou a dizer que ainda amava muito a ela e a mãe, e que não queria perder o contato. Nesse dia, ele se despediu com a promessa de que nada mudaria. Morando em casas separadas, foi uma promessa difícil de se manter. Apesar do contato por telefone ser diário, Hayanne se sente muito mais próxima da figura materna. Quanto à proximidade com o pai, “a gente só sai para fazer um lanche.

Não tem almoço no domingo, não tem muito essas coisas de família. A gente se fala pelo telefone e marca um encontro. É muito relação de pai e filho, não tem muita amizade, conta.

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COMPORTAMENTO Por terem personalidades muito diferentes, Hayanne já culpou os dois pelo que aconteceu, mas hoje entende, e vive entre o racional e o emocional. “Quando minha mãe briga comigo, eu vou para a casa do meu pai, que é o lado mais calmo. Já a minha mãe é o lado emocional, então, quando eu quero alguém que me apoie, me entenda mais, eu vou para o lado da minha mãe”. A psicóloga Soraya Pereira aponta que deve-se ter cautela nesse tipo de relação. Ela acredita que se “as crianças ficam com uma mochila nas costas, indo de um lado para o outro, uma semana com um e outra semana com outro, vira uma confusão na cabeça delas, se isso não tiver muito bem trabalhado com seus pais. A guarda compartilhada é um respeito que se tem. Se houver esse respeito, essa convivência familiar vai ser tranquila.” Na guarda compartilhada, Álvaro confirma que “não há primazia nem para a mãe, nem para o pai”.

“As crianças ficam com uma mochila nas costas, indo de um lado para o outro, vira uma confusão na cabeça delas, se isso não tiver muito bem trabalhado com seus pais”. Hayanne atribui o casamento como “apenas uma fase” na linha temporal da vida. Ela não entendia bem o conceito da cerimônia. Hoje, “não é só a questão da institucionalização. Casar pode ser estar morando junto, estar convivendo com a pessoa, mas disposta a amar e crescer junto, ter filhos, esse tipo de coisa. Eu penso em casar hoje em dia. Antes eu não pensava”, destaca.

Onde uma pessoa vê amor, outra pode ver toda a angústia do ser que pensou a desilusão amorosa como uma flecha no meio do coração. O divórcio é um tipo de experiência que pode ecoar de formas diferentes em pessoas diferentes, até mesmo na própria família. “A gente cresce achando que os pais vão ficar juntos para sempre. E é um pouco difícil na cabeça da criança lidar com a ideia de que eles possam estar separados”. Essas são palavras de Camila Sousa. Ela tem 20 anos e estuda para entrar na faculdade de Medicina. Seus pais se separaram há cerca de seis anos, mas o impacto do inesperado ressoou de maneira diferente nela e na irmã.

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Sua racionalidade permite que veja a separação como um amadurecimento e sobriedade dos pais de poder falar “poxa, não conseguimos. Vamos seguir de outra maneira. Vamos terminar antes que crie algo pior”. Camila acredita que as concepções de amor só se tornam diferentes e não acaba quando um relacionamento chega ao fim. “Pelo contrário, muitas vezes você tem que abdicar da pessoa que você está junto para que não torne uma relação de ódio, uma relação de ciúme excessivo”, opina. “Para mim, você não pode dizer que ama uma pessoa sendo que tem muitas outras que você amaria muito mais se conhecesse”. Essa não é mais Camila. Essa é Carla, sua irmã publicitária de 21 anos. Dois corações diferentes bombeando sangue da mesma fonte. Ainda assim, personalidade antônimas. Carla não tem o sonho das trombetas celestiais anunciando sua entrada de vestido branco. Ela acredita que o divórcio não passa de papeladas que darão dores de cabeça no futuro. “Se você gosta da pessoa e quer estar junto, já é suficiente. As experiências hoje são muito passageiras, e eu acredito que o casamento seja só mais uma delas”, afirma.

“Muitas vezes você tem que abdicar da pessoa que você está junto para que não torne uma relação de ódio, uma relação de ciúme excessivo”.

A busca pela individualidade caracteriza a época que vivemos. Soraya Pereira explica que “hoje a percepção de casamento é ‘eu vou estar junto. Eu vou ficar junto com essa pessoa’. Talvez não tenha muita persistência. Talvez não saibam lidar com as frustrações. Não saibam lidar com as realizações. Então isso é perigoso”. Tudo é interligado, rápido e meteórico. Homens e mulheres se encorajam e vão atrás de aventuras e novas descobertas. Quando não são encontradas no outro, há uma quebra de expectativa. Todas as promessas seladas no “aceito” passam a não fazer tanto sentido.


COMPORTAMENTO Essa não é uma mania só da capital. Ela pega o embalo da rosa dos ventos e percorre todos os oito cantos do país. Chega até no sudeste, nas famílias que moram no abraço de Cristo Redentor. Uma pesquisa realizada por Leila Maria Torraco, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, por meio de 30 entrevistas individuais com jovens residentes do Rio de Janeiro, analisou como eles percebem as mudanças que ocorreram em relação à convivência familiar depois da separação conjugal dos pais. Os desdobramentos principais encontrados revelam que o divórcio tem consequências virais. Foram mudanças na relação com o genitor com quem ficaram residindo, o fato de serem colocados no centro das desavenças e o afastamento do pai ou da mãe que saiu de casa. Expondo de maneira mais óbvia: características encontradas nas histórias de Daniela, Hayanne, Camila e Carla.

Uma pergunta genérica foi feita aos quatro entrevistados: “você acredita que o divórcio mude a percepção de casamento do filho?”. A resposta foi unânime: “não”. Soraya explica: “pode não ser natural, mas é comum que se tenha amigos de pais separados. Então hoje eles lidam de uma maneira muito mais tranquila com isso. O pai de um irmão não é o mesmo pai do outro irmão. A mãe de uma irmã não é a mesma mãe da outra. Então as crianças lidam com essa diversidade da construção da formação de família”. Essa naturalidade surgiu de uns 15 anos para cá, quando as relações familiares passaram a ser baseadas na afetividade. O advogado Álvaro conta que “antigamente você tinha um casamento muito mais baseado numa questão social, do status que você assumia na sociedade”. Hoje, se “acabou o afeto, não há mais fundamento para você manter uma sociedade conjugal. Houve mudanças sociais, jurídicas e procedimentais, que refletem a facilidade. Você desfazer uma união conjugal talvez seja mais fácil do que fazer”, explica. Mas Álvaro alerta que, a partir do momento em que a separação desencadeia uma situação de alienação parental, aí sim as consequências são muito perigosas. “A gente não sabe projetar os danos futuros na formação do próprio caráter da criança ou a própria questão da afetividade. Você não sabe como uma criança de 7 anos que absorveu todo um processo de alienação parental vai se relacionar no futuro”.

Quando questionada sobre suas projeções pessoais do crescimento do número de divórcio nos próximos 10 anos, Soraya solta uma risada debochada, como se eu tivesse pedido para alguém de humanas resolver o teorema de Pitágoras. “Eu não tenho uma previsão. Eu acho que a tendência é ficar por aí mesmo. Eu acho que o grande boom já foi”. Ela ainda completa: “hoje se entra no casamento muito mais consciente e se separa muito mais consciente”.

“Você não sabe como uma criança de 7 anos que absorveu todo um processo de alienação parental vai se relacionar no futuro”.

Arte e Diagramação: Carolina Vieira.

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COMPORTAMENTO

Como relacionamentos abusivos entre casais, entre pais e filhos, entre amigos, entre os muros do trabalho podem desestabilizar o caminho de cada um de nós

Era uma vez

um casal apaixonado. Era uma vez duas amigas que faziam tudo juntas. Era uma vez mãe e filha confidentes. Era uma vez o emprego dos sonhos. Era uma vez ou “eram tantas vezes” os relacionamentos que temos que lidar diariamente, mas nem todos têm um final feliz. As histórias que vamos contar aqui são abusivas e não chegam nem perto de ser um conto de fadas. Era uma vez…

Ana Luísa Amaral e Renata Werneck

Louise* tinha 18 anos quando caiu nos encantos de um rapaz. Depois de alguns meses de relacionamento, porém, ele foi se tornando agressivo e “dominador” em suas palavras-GRITADAS e atitudes-rudes. “A situação chegou ao ponto de ele escolher a calcinha que eu iria usar e o batom que eu poderia colocar, pois determinadas cores de batom poderiam ‘chamar a atenção’ de outros homens”, relata. Segundo a jovem, ele sempre a convencia a ter relações sexuais sem preservativo. Medos vários eram calados. Medos de doenças, medos de engravidar. Noites sem dormir para “agradar”. Mesmo sabendo dos temores de Louise, ele desconversava para ter desejos imediatos atendidos. “Por causa disso, ele me convenceu a usar pílula anticoncepcional e do dia seguinte, o que me trouxe muitos efeitos colaterais a curto e longo prazo”. Se fosse só isso…

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A partir daí, Louise desenvolveu um quadro de cálculo renal, consequência de uma infecção urinária que evoluiu para uma inflamação na bexiga e precisou ser internada. “Eu ligava feito uma louca, mandava mensagens, mandava e-mails para o meu ‘amado’ namorado, buscando afeto e atenção, como tantas vezes fiz por ele, e ele, mesmo sabendo de como eu estava, não aparecia nem dava notícias”. Louise relembra quando, após uma semana, ele apareceu. Jogou a culpa do sumiço na moça. Era, então, dela a culpa de adoecer. Não teve dúvidas: desculpou-se por tudo... por tudo... por tudo... o que não tinha feito. “Só aí fui perceber que o rapaz havia criado um personagem e, como bom ator que era, conseguiu atuar por um bom tempo me manipulando e me fazendo acreditar que eu era a vilã da história. Já nos primeiros meses do relacionamento ele foi mostrando a cara, mas eu já estava tão envolvida emocionalmente que não tinha coragem de reagir”.


COMPORTAMENTO É comum achar que os relacionamentos abusivos se configuram pela agressão física, mas eles estão inseridos em um contexto muito maior que esse. “O relacionamento abusivo é caracterizado pela necessidade de uma pessoa dominar a outra em alguma instância ou em vários aspectos. É a manipulação do outro”, afirma a psicóloga Márcia Teixeira. Segundo ela, além dos abusos mais conhecidos em âmbito sexual, agressões verbais e domínio de comportamento do outro também entram para essa lista.

Situações como essas podem trazer traumas para as vítimas. “Dependendo do tipo de abuso, o medo é um sintoma que vem desse trauma. Além disso, a vítima passa a ter dificuldades em um modo geral: de fazer escolhas, de seguir adiante de forma autônoma”, afirma a psicóloga Márcia Teixeira. “Não estou generalizando dizendo que todos os abusados vão ser abusadores, mas essa é umas das consequências também”, conclui.

Apesar dos maus-tratos entre casais serem o tipo de violência mais generalizado, a psicóloga afirma que esses abusos podem ocorrer em todo o tipo de relações existentes. “Temos os casos de abuso infantil, temos os casos de abuso entre amigos, relações de abusos nas relações conjugais, sejam elas relações homossexuais ou heterossexuais”, afirma.

“Tive várias crises de ansiedade e ataques de pânico, além de começar a tomar calmantes para conseguir dormir. Tudo o que aconteceu me deixou traumatizada e não consegui me abrir para outro relacionamento depois disso. Acho que essa história me roubou muito do meu amor próprio e ainda vai demorar um tempo para eu ficar 100%”, relata Lucilene*, de 21 anos, vítima de abuso em relacionaO abuso também pode existir na união sanguí- mento amoroso. nea. Foi o que aconteceu com Eloá* aos 10 anos. A própria prima colocava a jovem contra as amigas. “Ela fazia coisas erradas e colocava a culpa em mim. Eu era a ‘burra’, ‘desajeitada’, ‘lerda’ que não sabia fazer nada e todas as minhas coisas eram Keila* sofreu por três anos seguintes. Dos 19 aos 21 ela teve ruins. Ela tinha que se chefes que confundiram a relação de trabalho com a pessoal. sentir melhor que eu em “Após várias investidas e convites sem êxito, um deles foi até tudo”, conta a jovem. a minha faculdade com o pretexto de me ver, sem dar margem para que eu dissesse não. Eu fiquei numa situação de absoluto A alienação parental, constrangimento”, diz a jovem. “Lembro-me que tiveram cononde o pai ou a mãe da tatos físicos pretensiosos, como um abraço mais forte, mascriança a incentiva a sagem durante o trabalho, essas coisas. Recordo, inclusive, de romper os laços afeti- ter sido colocada em situações desconfortantes de ciúmes”, vos com um ou outro, relembra. também deixa traumas. Isso cria no filho ou na Keila também é marcada por outro assédio. Ela relata que o filha um sentimento de episódio aconteceu quando outro chefe insistiu em lhe dar uma ansiedade e temor em carona até o metrô. “No caminho, me disse que ‘se eu quisesrelação ao outro genitor se, ele faria coisas comigo que eu até duvido’. Apenas ignorei, e também é conside- pasma. Não consegui falar nada”. A jovem conta que ainda tem rado um tipo de abuso. dificuldades em superar esses abusos. “Até hoje encontro certa Em enquete aplicada dificuldade, apesar de estar consciente de que é absurdo e inpelo Esquina nas redes justificável esse tipo de situação no ambiente de trabalho”. sociais, recebemos 13 relatos de filhas ou fiEm janeiro deste ano, uma funcionálhos que se sentiram alienados pelos pais. Esse número corresponde a ria de 33 anos de um famoso café de 22,8% do total de histórias recebidas (73). É preciso Belo Horizonte denunciou o ex-chefe de cozinha do estabelecimento por falar sobre isso. tentativa de estupro. Bárbara Qua-

Abuso de primeiro grau

Com contrato assinado

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COMPORTAMENTO dros, colega de trabalho da vítima, relatou em sua página do Facebook os acontecimentos e como está o estado emocional da amiga. Enquanto era funcionária, a moça foi chamada pelo chefe de cozinha para entrar em seu carro. Segundo ela, o homem puxou seu avental e a forçou a colocar as mãos nas partes íntimas dele, além de ordenar que fizesse sexo oral. Após relatar o abuso para o dono do estabelecimento, os colegas de serviço passaram a tratar o assunto como brincadeira e o medo de represálias por parte do abusador virou constante.

“O trauma ficou” Entre amigos, situações de abuso também são comuns. Ameaças, ciúmes excessivo e controle: essa era a vida de Emily*. Aos 15 anos, ela sofria por mãos-amigas. “Eu a considerava minha ‘melhor amiga’, mas ela impunha as vontades dela sobre mim, ditava o que eu deveria vestir, me diminuía e sentia ciúmes excessivo”, declara. De acordo com os números do questionário, dentre as 57 pessoas que especificaram qual tipo de abuso já sofreram, 20 são os que se sentiram abusados em relações de amizade, contabilizando 35,1% dos casos. Os meninos também sofrem. Daniel* foi vítima de outro rapaz. Ele conta que passou por momentos constrangedores de perseguição por um amigo da turma. “Ele dizia que estava apaixonado por mim e começou a me perseguir, dizendo que um dia iria me agarrar e que eu tinha que dar uma chance para ele”, revela. “Isso me incomodava demais. Até que um dia ele parou, mas o trauma ficou”, diz Daniel. As meninas também abusam. Manipulação e terror psicológico marcaram a amizade de Guilherme* com uma “amiga” da escola. “Quando estávamos juntos, ela era a melhor de todas, me ajudava com o que eu precisasse e me respeitava. Quando nós estávamos com outros amigos, ela fazia piadas sobre mim para se sentir superior e muitas vezes me expunha na frente deles, me deixava constrangido e tentava me diminuir”, conta Guilherme. “Eu não sabia o que fazer, pois ela era tão boa pra mim quando ficávamos a sós. Eu estava confuso”, desabafa.

(Des)amor Palavras agressivas e dolorosas; uso de traumas de infância como arma. Essas são as marcas de um

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relacionamento amoroso do jovem João Victor*, de 17 anos. “Cheguei a precisar me demitir e comprometer algumas amizades por causa das constantes ameaças de suicídio e abandono. Foi um abuso bastante emocional e psicológico”, conta. Panmela*, de 19 anos, também sofreu nos braços do agora ex-namorado. “Ele não me deixava sair, não gostava das minhas amigas, não queria que eu ficasse até mais tarde na faculdade, vigiava minha localização o dia inteiro e lia todas as minhas conversas no Whatsapp”, relata. Joana*, aos 14 anos, acabou presa em um relacionamento que durou quase quatro anos. “Eu era apaixonada pelo meu namorado, mas com o passar do tempo, ele começou a me tratar com agressividade, criticava minha aparência e me fez pensar que, além dele, ninguém mais iria me querer. Eu estava presa, não podia sair com ninguém, nem com minha mãe. Por fim ele terminou comigo, e ainda descobri que ele namorava outra havia um ano, simultaneamente ao nosso namoro. Demorei dois anos para me envolver novamente com alguém, mas hoje consigo enxergar um relacionamento abusivo, ainda não consigo ouvir o nome dele, não me faz bem”. A pesquisa realizada pelo Esquina também constatou que 71,9% dos casos de relacionamento abusivo envolvem relação entre casais, sejam heterosexuais ou homoafetivos. A faixa etária das vítimas na época dos abusos varia entre os 17 e 18 anos, com 9,4% dos casos. Em seguida, os adolescentes de 15 anos e os jovens de 21 estão empatados com 6,3% dos casos.

Feitiço vs. Feiticeiro A psicóloga Márcia Teixeira explica que quando alguém sente a necessidade de exercer controle sobre alguma área da vida do outro que não lhe pertence, já é um indício de que uma situação de abuso está em processo. “Exercer controle sobre o outro, seja o controle de trazer para si, de ter a pessoa sempre sob seu olhar, ou sob a sua gestão, ou, quando você percebe que está tirando a capacidade do outro de ser ele mesmo são alguns dos sinais que caracterizam um abusador”. A psicóloga não percebe um perfil ou maneira de se comportar característico entre os agressores.


COMPORTAMENTO “Não é padrão. Até porque tem uns que se mostram agressivos e dominadores, enquanto outros estão dominando, mas não demonstram. É uma forma meio passiva de ser agressor. Não tem como você olhar e perceber. É mais na relação que isso vai ser visto”, explica. A vítima pode ser identificada por situações mais comuns. “São comportamentos de insegurança, muitas vezes até de incapacidade de digerir a própria vida, medo, às vezes também isolamento, afastamento”, destaca. “O próprio abusador acaba levando a vítima para essa direção, buscando isolá-la da sociedade, ou do núcleo familiar até para que o abuso não seja percebido”, ressalta. A vítima pode também se tornar um agressor. “Não vou generalizar, mas é bastante recorrente”, analisa Márcia. Segundo ela, isso acontece porque a vítima pode estar repetindo um comportamento que aprendeu. “Mas claro que há alguma situação que também está levando ele a ter esse tipo de comportamento, que não é um saudável”. Ela explica que a lógica é simples: “se não é um comportamento saudável é um sintoma; se é um sintoma, há uma causa para isso, que pode ser tratada”.

“Eu tenho uma amiga que conheço há anos, nós sempre brigávamos e eu sempre dizia que a culpa era dela, independente do que havia acontecido, nunca enxergava a minha responsabilidade no conflito, com o tempo e conversando melhor com ela percebi meu erro e fico me policiando para não cometer novamente”.

No questionário, oito entrevistados afirmaram que já cometeram algum tipo de abuso, enquanto 50 marcaram que nunca praticaram atos abusivos. Os outros 15 ficaram na dúvida sobre o assunto, o que evidencia a necessidade de um trabalho de conscientização sobre o tema. Relatos de abusadores que hoje são conscientes de suas práticas abusivas também chegaram até a reportagem da Revista Esquina.

“Eu era muito ciumento. Não permitia convívio com outros amigos ou pessoas que não fossem em comum comigo. Ela só podia ir para onde eu ia e comigo. E quando não o fazia, brigávamos”.

Não é “mimimi” O número de mulheres vítimas de relacionamentos abusivos é muito maior que o de homens. Segundo o estudo sobre violência doméstica realizado pela OMS, em 2015, a violência psicológica é a mais praticada contra elas, além de ser exercida na maioria das vezes pelo próprio cônjuge. Mas a violência física também faz parte do cotidiano de muitas Marias por aí. Uma Maria é vítima de violência a cada quatro minutos no Brasil. Segundo a pesquisa “Percepções dos homens sobre a violência doméstica contra a mulher”, do Instituto Avon e o Data Popular lançada em 2013, 41% da população diz conhecer um homem que já foi violento com a parceira, porém apenas 16% dos homens assumem ter sido violentos.

“Eu tinha ciúmes em excesso do meu ex-namorado e o proibia de ter outras amigas mulheres. Eu chegava a agredi-lo fisicamente durante meus surtos de raiva e crises de ciúmes”.

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COMPORTAMENTO

Dos homens, 53% já xingaram a parceira; 19% já as empurraram; 9% já as ameaçaram com palavras; 8% já lhes deram um tapa; 7% já impediram as parceiras de sair de casa; 6% já arremessaram algum objeto durante uma briga; 5% já humilharam a companheira em público; 4% já deram um soco nelas; 2% já as obrigaram a fazer sexo contra a vontade; e 1% já as ameaçou com uma arma. Os estigmas sociais nos levam a crer que o homem é o ser forte, agressivo, e a mulher é o sujeito fraco e sensível da relação. Isso acaba reproduzido dentro do relacionamento, e contribui para torná-lo abusivo. De acordo com a psicóloga Márcia Teixeira, uma das razões para o aumento do número de atendimentos são as mídias e redes sociais. “Eu acredito que agora as pessoas estão vendo mais possibilidades de buscar ajuda e se sentem mais encorajadas a denunciar”, afirma. Segundo ela, as discussões sobre relacionamentos abusivos na internet podem abrir os olhos de quem está em uma situação de abuso. “As redes sociais podem levar a pessoa a perceber o que ela antes não percebia. Que ela está sendo abusada e não se dava conta. Então ela conhece um outro caso, se reconhece ali e entende que tem a oportunidade de procurar ajuda”, completa.

…“E viveram felizes para sempre”... parece agora uma realidade ainda mais distante. Nem

todo final é feliz. Nem todo final é fim. Relacionamentos abusivos deixam marcas e cicatrizes que o tempo não é capaz de apagar. Louise, Eloá, Keila, Lucilene, Emily, Daniel, Guilherme, João Victor e Joana são nomes alterados para preservar as vítimas. Os nomes verdadeiros foram substituídos por nomes de pessoas vítimas de violência que tiveram histórias contadas na mídia. As vítimas, por vezes, não têm voz para pedir providências. Choros calados, portas fechadas, desmerecimentos, laços cortados.

Era uma vez...

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COMPORTAMENTO

Marcas físicas de uma doença mental Raphael de Macedo

A depressão atinge 4,4% da população mundial atualmente. O crescimento do número de diagnósticos é um alerta: é preciso levar a sério nossa saúde mental Mudanças de humor, descontentamento, cansaço, sofrimento emocional, solidão e ansiedade. Todos sintomas de uma doença séria, irrestrita a idade, cor ou gênero e considerada pela revista médica Lancet como uma das principais patologias incapacitantes no Brasil: a depressão. “Me chamavam de folgada, preguiçosa. Falavam que era drama, falta do que fazer ou para chamar atenção” relata Daenerys*, de 22 anos, diagnosticada com a doença aos 17. Para configurar um quadro de depressão, “os sintomas devem ser persistentes na maior parte do dia, quase todos os dias e estarem presentes há pelo menos duas semanas”, explica a psiquiatra Josianne Martins.

Letícia*, de 26 anos, foi diagnosticada com depressão há quatro meses. “Por alguns dias, eu sentia como se eu simplesmente não quisesse funcionar. Sair da cama era difícil e eu só queria dormir e desaparecer” conta. “A sensação era como se eu fosse uma boneca de trapos caída na cama”.

“O quadro depressivo é caracterizado por sintomas como tristeza, perda de interesse ou prazer nas suas atividades, alteração de peso, dormir demais ou dificuldades para dormir”, enumera Josianne. Entre as outras características estão a fadiga e falta de energia, sentimento de inutilidade e incapacidade, culpa excessiva, falta de concentração, capacidade diminuída de pensar e tomar decisões, medo de morrer ou pensamento suicida. “A longo prazo, o transtorno depressivo aumenta o risco de doença cardíaca, diabetes e obesidade”, adiciona.

A depressão se desenvolve a partir da redução de algumas substâncias cerebrais chamadas de neurotransmissores, sendo os mais importantes a serotonina, noradrenalina e dopamina. Essas substâncias estão diretamente relacionadas às sensações de prazer e animação. A dopamina, por exemplo, é responsável pela sensação de recompensa e conforto após alguma atividade, além de estar relacionada ao controle de movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição e memória. A noradrenalina está ligada ao estresse, ao sistema de alerta e à ansiedade. Ela ainda é responsável

“Eu sentia como se não tivesse mais um corpo e passava o dia todo contemplando sobre a finitude da vida, sobre como todo mundo estava morrendo e não tinha como fugir disso” revela Daenerys. “Era uma angústia enorme em todos os meus momentos acordada”, explica.

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COMPORTAMENTO diretamente pela alteração da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. Já a serotonina está associada à felicidade, ansiedade e tranquilidade, agressividade, raiva e irritabilidade. Ela participa também de outras funções importantes no organismo, como apetite, controle de temperatura, sono e sexualidade. Além de afetar os neurotransmissores, a depressão gera impactos nos hormônios e outras substâncias responsáveis pelo equilíbrio funcional do corpo. “O adulto deprimido também pode experimentar sintomas adicionais, como alterações no apetite ou peso, abuso de álcool ou drogas, alterações do sono e da atividade psicomotora, diminuição da energia, sentimentos de desvalia ou culpa, dificuldades para pensar, concentrar-se ou tomar decisões” explica a psiquiatra Natália Goulart. O diagnóstico médico é essencial para a identificação precisa do quadro depressivo, além do acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico. No entanto, o Brasil encontra um problema sério em relação à saúde mental pública: de acordo com dados coletados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 6,71% dos profissionais da “força tarefa” da saúde mental do país são psicólogos (3,22%) e psiquiatras (3,49%). O restante é formado por assistentes sociais e enfermeiros. Daenerys, fora do quadro de depressão há um ano, ressalta a importância de um tratamento profissional. “As pessoas precisam parar de ter medo de procurar ajuda. Acho importante as pessoas procurarem tratamento da linha que acharem melhor, mas com consciência do que estão fazendo e terem paciência durante o processo.” “É difícil procurar ajuda” relata Letícia. “O médico recomendou que eu buscasse uma terapia, mas não encontro nenhum lugar público. A maioria dos psicólogos particulares que eu procuro cobram preços que eu não posso pagar”. Para casos como o de Letícia, existem opções de atendimento popular gratuito em Brasília, como o Centro de Formação do Uniceub, localizado no Edifício União, na quadra 1 do Setor Comercial Sul. Além disso, há o CAEP da Universidade de Brasília e o CPA da Unip. Outro centro universitário que oferece serviços de atendimento é o Iesb, que cobra uma taxa simbólica de 1% da renda familiar declarada.

Aumento no transtorno A presença da depressão se mostra maior com o passar dos anos. Segundo dados da OMS, de 2005 a 2015, o número de pessoas deprimidas no mundo inteiro aumentou em 18,4%, o que contabiliza 4,4% das pessoas

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Neurotransmissores essenciais para o combate à depressão:

Dopamina serotonina ocitocina

Entenda Os sintomas depressivos se desenvolvem a partir da redução de algumas substâncias cerebrais chamadas de neurotransmissores, sendo os mais importantes a serotonina, noradrenalina e dopamina. Além das alterações na química cerebral, ocorre também a desregulação de outras substâncias no corpo, podendo contribuir para o aparecimento de sintomas físicos e predispor a outras doenças a longo prazo como doença cardíaca, diabetes e obesidade. Os sintomas como: tristeza, perda de interesse, alteração de peso, dormir demais ou dificuldades para dormir, fadiga e falta de energia, sentimento de inutilidade, culpa excessiva, falta de concentração, entre outros devem ser persistentes na maior parte do dia, quase todos os dias e estarem presentes há pelo menos duas semanas. Fonte: Psiquiatras entrevistadas.

do planeta com o distúrbio. Para colocar em números mais concretos, são cerca de 268 milhões de pessoas diagnosticadas no mundo. O Brasil ranqueia como o país mais deprimido da América Latina e o segundo de todas as Américas, com 5,8% da população com depressão. São aproximadamente, 11,5 milhões de brasileiros diagnosticados, perdendo apenas para os Estados Unidos, com 5,9% da população afetada.


COMPORTAMENTO Segundo Josianne, o mundo de hoje expõe cada vez mais os indivíduos ao adoecimento. “As pessoas são cobradas por resultados positivos desde a infância, não conseguem manter uma alimentação saudável e muito menos fazer exercícios físicos regularmente” explica. “A qualidade de sono e tempo para o lazer geralmente estão prejudicados, o convívio com a família é reduzido, o desenvolvimento de resiliência e de tolerância a frustração estão comprometidos”, completa. A projeção da OMS para o futuro da doença mostra que a exposição a estes fatores se será um problema ainda maior: estima-se que até 2020, cerca de 322 milhões de pessoas estejam deprimidas, tornando a doença a segunda mais incapacitante. “O dia a dia com cada vez maiores níveis de estresse no qual estamos inseridos, apresentando mais fatores desencadeantes para um episódio depressivo, além de deixar a população exposta ao desgaste e exaustão emocionais decorrentes desta rotina, o que predispõe ao surgimento da doença” enumera Natália. “Outro fator relevante é que hoje as pessoas procuram mais tratamento e abordam mais a existência da doença, tornando maior o número de diagnóstico que anteriormente passariam batidos.”

Estigma Ainda com dados alarmantes, como o aumento de 416 milhões em 1990 para 615 milhões em 2013, apesar da presença de sintomas fortes e avisos constantes da OMS, os relatos das pessoas diagnosticadas mostra que o estigma social sobre a depressão ainda é muito grande. “Quando fui diagnosticada, a opinião das pessoas ao meu redor foi dividida, mas em todos os casos eu perdi a minha autonomia” explica Daenerys. “Tinha gente que me dizia que eu estava inventando, que era frescura. Também tinha gente que praticamente queria me forçar a fazer o tratamento medicamentoso, dizendo que eu sou doente.” “Ouço com frequência que é tudo drama meu para chamar atenção das pessoas ou então que estou sendo preguiçosa, tirando a legitimidade da minha condição ou dizendo que eu preciso de uma religião ou um marido. Isso faz com que eu tenha vergonha e medo de buscar ajuda profissional” admite Letícia. *Pseudônimos escolhidos pelas entrevistadas, que não quiseram se identificar.

“A sensação era como se eu fosse uma boneca de trapos caída na cama”. Apesar de atuar principalmente na mente, a depressão também apresenta seus impactos no corpo e no meio social. Foto: Luca Valerio

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COMPORTAMENTO

TRANSTORNO ANSIOSO no trabalho A rotina se altera e chega a incapacitar profissionais. Conheça as histórias e entenda o transtorno

Kelly Sennaty Texto e fotos

Você não vê, mas sabe que ele está lá. Ele incomoda, assusta e tira o sono. As horas passam e agora seu medo já te paralisou. Ele tira sua capacidade de dormir ou levantar da cama. Pisar no chão? E se ele te pegar pelo calcanhar? E se ele te puxar para debaixo da cama? A lenda urbana do bicho papão vem do folclore brasileiro e é usada para causar medo em crianças desobedientes. Reza a lenda que o bicho pega a criança e a leva para um lugar de medo, escuro e assustador. O bicho-papão do ansioso é o medo constante do que está por vir. Quando chega no trabalho, pode interferir na rotina e gerar consequências graves. Segundo a psiquiatra Josianne Martins, a ansiedade deixa de ser uma sensação normal e passa a ser Transtorno Ansioso a partir do momento em que traz prejuízos para o funcionamento do indivíduo e o impede de executar suas atividades. Foi o que aconteceu com a ex-professora Roberta*. Hoje com 45 anos, Roberta conta que foi professora por 20 anos e se viu obrigada a abandonar a profissão para ser assistente administrativa. Ela diz, com lágrimas nos olhos, que gostava de ser professora, mas não pôde continuar. Certa vez, um aluno a acusou de tê-lo arranhado e foi aberto um relatório contra ela. Apenas depois de todo o estresse, ela foi inocentada pela própria criança que admitiu ter mentido. Além de passar por muitas pressões em sala de aula, Roberta perdeu o pai e a mãe, o que agravou a situação e desencadeou depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Roberta conta que teve diversas crises de pânico e ansiedade na escola. “Eu gritava muito com os alunos a ponto das outras professoras irem até minha sala perguntar se estava tudo bem”, lembra. Em uma dessas situações, ela precisou sair no meio da aula e foi levada pro hospital sem conseguir conversar ou ficar em pé. “Eu começava a gritar e sentia que ia morrer, faltava ar, a única coisa que eu sabia fazer era gritar… só gritar”, relata. As crises eram tão fortes que o sofrimento

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começava antes mesmo de ir para a sala de aula. “Eu não conseguia dormir pensando que precisava acordar no outro dia e passar por tudo aquilo de novo. Sofria por antecedência e isso estava me matando aos poucos”. Hoje, medicada para ansiedade. ela diz estar feliz no novo emprego. “Colegas professores com depressão e outros problemas psiquiátricos se torna algo comum. Alguns choram muito e saem da sala, outros tem crises e alguns chegam a pedir demissão como eu”, lembra, com a voz trêmula. Doenças mentais afetam diretamente a produção do trabalhador. Dados divulgados este ano pela Organização Mundial da Saúde apontam que 3,6% da população mundial possui algum tipo de transtorno de ansiedade. O Brasil está em primeiro lugar com 9,3% dos cidadãos afetados. O número assusta, já que é três vezes maior que a média mundial. Ainda de acordo com o estudo da OMS, transtornos mentais causam perda econômica de um trilhão de dólares por ano. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e o Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração analisaram, em 2012, os profissionais do Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Distrito Federal. O estudo revelou que as secretarias de Educação são responsáveis pelo maior número de servidores públicos afastados por doenças no Distrito Federal e Santa Catarina. Aqui, 58% dos profissionais das escolas foram afastados por doenças pelo menos uma vez no ano. Depressão, ansiedade, nervosismo e síndrome do pânico ficam em segundo lugar na lista de motivos do afastamento de professores de seus cargos, atrás apenas de lesões físicas. Para a psicóloga Ana Balbi, é difícil a pessoa identificar que tem ansiedade porque os sintomas e as causas variam muito. “O que normalmente aparece são sintomas parecidos com o medo, como coração acelerado, dificuldade de se concentrar, tremores, insônia ou


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BRASIL

no

lidera número de pessoas com algum tipo de transtorno

ansioso

9,3% dos cidadãos afetados Mundo a porcentagem é de 3,6% com

Fonte: Organização Mundial da Saúde (Fevereiro 2017)

hipersônia, mas depende do que engatilha a ansiedade naquela pessoa”. Para ela, muitas vezes quem percebe a situação do doente são os chefes e colegas de trabalho, que notam queda na produtividade do trabalhador.

Fragilidade Nos braços dos pais, sem conseguir se apoiar em pé, Vanessa* dá entrada na emergência do hospital. A médica de plantão lhe dá medicamentos para dor, mas não obtém sucesso. Somente quando um calmante é aplicado na veia, a paciente retoma as forças. Está dado o diagnóstico: é uma crise ansiosa. É assim que a jornalista descobriu, há 14 anos atrás, que sofre de ansiedade. Ela se sentiu mal diversas vezes no trabalho e conta como se sente em relação às crises: “A gente fica muito fragilizado e tem a impressão que está até perdendo a credibilidade perante as pessoas, seu chefe, seus colegas, porque é algo que te derruba física e psicologicamente”. Marcelo*, colega de trabalho de Vanessa, relata como foi a crise que ele presenciou: “Fiquei muito assustado. Foi muito de repente, ela ficou paralisada e completamente pálida. A equipe médica foi chamada imediatamente e conseguiram ajudar. [...] Me senti completamente assustado e inútil perante a situação”. Marcelo diz que mesmo sabendo que a colega sofria com o Transtorno, não fazia ideia que uma crise poderia ser tão grave.

babá, garçom, assistente social, demais profissionais da saúde, artistas e escritores, jornalistas, professores, secretárias e atendentes, profissionais de manutenção (encanador, pintor, eletricista) e consultores financeiros. Tratar de doenças mentais pode ser caro, mas existem centros de tratamento gratuitos oferecidos por universidades que ajudam pessoas de baixa renda. O atendimento é feito por alunos com supervisão dos professores. O tratamento adequado pode evitar o uso de medicamentos. O desemprego no Brasil alcançou, em 2017, um recorde histórico. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice era de 13,5 milhões de pessoas desempregadas até fevereiro de 2017. Um mês depois, esse número subiu para 14,2 milhões. Dados como esse ajudam a entender que as situações reais que as pessoas passam dentro e fora de casa podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Cada vez mais cobrados e com mais medo da demissão, trabalhadores se esforçam para manter o cargo e não fazer parte da estatística. Jéssica Mendes, de 23 anos, sofre de Transtorno de Ansiedade há 4 anos. A assistente social lembra com tristeza: “foi muito difícil aceitar que tinha a doença, sempre achava que era outra coisa, nunca ansiedade”. O problema surge em qualquer lugar, a qualquer hora, sem a necessidade de um motivo que desperte as crises. Ela conta que, no ambiente de trabalho, já passou mal a ponto de precisar sentar no chão por causa da vertigem e tontura. “Meus colegas de trabalho ficaram assustados, tentando entender o que estava acontecendo comigo, mas eu não conseguia explicar”, lembra Jéssica. Muitos minutos se passaram até que ela conseguisse retomar a consciência. A experiência marcou a jovem, que hoje em dia toma medicação controlada.

Isso pode se agravar quando as crises acontecem no ambiente de trabalho porque além de lidar com o problema em si, o ansioso se vê dependente e frágil diante dos colegas. Josianne explica que em muitos casos, o Transtorno Ansioso nasce no próprio trabalho, a partir de cobranças por resultados perfeitos em um período curto de tempo. A revista Health, especializada em saúde, fez uma lista das dez carreiras que mais causam estresse, ansiedade e depressão. São elas: enfermeiro e Roberta virou assistente administrativa e abandonou a paixão de lecionar.

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“Em longo prazo, esse tipo de medicamento pode gerar déficit de memória, lentificação do raciocínio e aumento do risco de quedas em idosos”.

A Previdência Social aponta doenças mentais como a terceira maior causa de afastamento de trabalhadores, ficando abaixo somente de lesões e doenças musculares. Dados levantados pela CBN revelam que no Brasil, somente em 2014, mais de 200 mil pessoas receberam auxílio doença por transtornos mentais. Um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo concluiu que situações de violência como humilhação, perseguição, agressões físicas e verbais prejudicam a saúde mental no ambiente corporativo. A psicóloga Ana explica que “para lidar com o ansioso, os colegas e os chefes precisam ter paciência, solidariedade e procurar orientá-lo ir ao psicólogo para tratar a doença e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida, seja no trabalho ou em casa”.

Tratamento O consumo exagerado de ansiolíticos é uma preocupação. No Brasil, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o consumo de medicação controlada aumentou 161% de 2010 a 2016 e o Distrito Federal lidera esse ranking junto com os estados de Goiás e Espírito Santo. Para ter uma ideia da gravidade destes números, em 2007 o consumo brasileiro do clonazepam, princípio ativo do Rivotril, era de 29 mil caixas por ano. Em 2015, somente de janeiro a setembro, este número atingiu os 18 milhões. O uso de medicação ainda é um tabu para doenças mentais. A psiquiatra Josianne conta que remédios de tarja preta, como o próprio Rivotril, e alguns de tarja azul, são capazes de causar dependência quando utilizados de forma inadequada e sem acompanhamento médico. “Em longo prazo, esse tipo de medicamento pode gerar déficit de memória, lentificação do raciocínio e aumento do risco de quedas em idosos. Portanto, todo uso de medicamento para depressão e ansiedade deve ser acompanhado pelo psiquiatra, que é a especialidade médica preparada para o manejo das doenças mentais”. “Transtornos psiquiátricos não tem cura, mas tem tratamento para mantê-los sob controle”, ressalta o psicólogo Antônio Alarcão. Ele explica que para contro-

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lar a ansiedade, além do tratamento medicamentoso quando necessário, o trabalhador precisa estar envolvido com atividades de lazer, atividade física regular e boa alimentação evitando comidas estimulantes como as que contém cafeína. Além disso, ele também recomenda a meditação, técnicas de respiração, relaxamento corporal e pequenas pausas durante o trabalho, que são ótimas para liberar o estresse. “Em casos graves, o trabalhador é afastado por um período e sua recolocação deve ser feita com cautela e paciência entre todos os membros da equipe para que o quadro não volte ou piore”, aponta o psicólogo. Ana explica que os exercícios de relaxamento e respiração podem ser feitos no próprio local de trabalho quando a pessoa sentir os sintomas físicos da ansiedade. “Se, por exemplo, a pessoa tem ansiedade quando vai fazer uma apresentação, é interessante que ela reserve alguns minutos antes para fazer exercícios de respiração e conseguir fazer a apresentação normalmente”, destaca. O medo que a ansiedade causa é do futuro, do que está por vir. Esse é o bicho papão que assusta os ansiosos. Os tratamentos variam de acordo com cada caso específico e ajudam a manter esse inimigo sob controle. Por isso a psicóloga aconselha: “A pessoa tem que estar preparada da melhor forma possível para lidar com o bicho papão. Seja com a coberta ou com a lanterninha”. *Os nomes originais foram substituídos por nomes fictícios para preservar a identidade dos personagens.

Ansiedade

x

Medo constante, perda do controle das suas próprias reações e sentimentos, falta de ar, taquicardia, insônia ou hipersônia, preocupação constante sobre o futuro.

Depressão

Tristeza, falta de energia, perda da vontade de viver, isolamento, insônia ou hipersônia. Os dois podem estar presentes na mesma pessoa. Fonte: Psicóloga Ana Balbi.

Instituições de ensino do Distrito Federal que oferecem acompanhamento psicológico gratuito: IESB Sul: 3445-4502 IESB Ceilândia: 3962-4748 Universidade de Brasília: 3107-9102 Universidade Católica de Brasília: 3356-9328 UniCeub:3966-1626 (20R$ por mês se o paciente puder pagar)


COMPORTAMENTO

Perigo em “Os treze porquês” Série levanta polêmica sobre suicídio, mas artes consagradas já trataram do tema de outras formas

Bianca Cristina A série “Os treze porquês”, veiculada neste ano pela Netflix, ao mesmo tempo que ganhou a atenção do público, despertou preocupação de profissionais de saúde sobre os efeitos que pode despertar como produto audiovisual massificado. A história de ficção gira em torno da personagem Hannah Baker, uma adolescente que cometeu suicídio. Na série, a jovem sofre de depressão e uma das causas da doença é o bullying exacerbado na escola. O sofrimento leva Hannah para o desfecho trágico, e sua história é explicada por meio de treze fitas cassetes gravadas pela jovem. Esse é o fio da narrativa que obteve êxito mundial.

como explica o psicólogo Antônio Monteiro. “Gatilhos são elementos que disparam comportamentos de suicídio. Já esse tipo de série pode servir para ajudar o jovem a refletir sobre o assunto e a quem sabe, se apresentar algum problema sério, buscar ajuda”, afirma.

Apesar das críticas, há quem defenda a série, pois traz à tona um tema considerado delicado. Somente no Brasil, o número de pedidos de ajuda de apoio emocional e prevenção ao suicídio aumentou consideravelmente. De acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), houve um aumento em 445% de e-mails com pedidos de ajuda em relação ao período anterior ao lançamento. Ainda conforme o CVV, houve alta de 170% na média diária de visitantes únicos da página da associação. Em apenas uma semana, ao menos 100 pessoas mencionaram a série nos relatos.

Segundo ele, desânimo, desesperança, queda no desempenho escolar, mudanças de apetite, alterações de sono, agressividade e impulsividade fora do normal, uso de drogas, isolamento, entre outros, “são sinais que podem indicar um comportamento potencialmente suicida. É importante ser um bom ouvinte, ter empatia, e ajudar a pessoa a buscar ajuda de profissionais qualificados como psicólogos ou psiquiatras”, conclui.

Os temas tratados, dependendo do estado emocional de quem a assiste, podem representar gatilhos para pessoas com depressão, bipolaridade e ansiedade,

O tema sempre foi fonte de inspiração para diferentes obras artísticas. A mais célebre, “Romeu e Julieta”, clássico literário de William Shakespeare, ganhou incontáveis adaptações para o cinema e teatro. Além de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, “Amor de perdição”, de Camilo Castelo Branco, e da ópera “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, baseada na lenda medieval homônima, trouxeram o final suicida para personagens, com o viés do amor trágico.

O especialista relaciona ainda o equilíbrio emocional do espectador com a série. “Existe um risco de funcionar como um gatilho para aquele jovem que apresenta maior vulnerabilidade, despertando desejos inconscientes com resultados imprevisíveis, e assim levar a uma tragédia”, avalia o especialista.

Sob holofotes

Tristão e Isolda), 1910. Artista: Rogelio de Egusquiza. Imagens: Reprodução

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COMPORTAMENTO

Akashi Gidayu, 1890. Artista: Tsukioka Yoshitoshi.

A tragédia está até mesmo na literatura infantil, com o conto “O Soldadinho de Chumbo”, do escritor dano-norueguês Hans Christian Andersen. Na trama deste conto, mesmo sendo direcionado para o público infantil é possível notar como o autor capta a morbidez como um elemento de desfecho para a obra. “Andersen tece na morte o ato final para sua narrativa, romantizando o fim do casal apaixonado”, explica o artista plástico Paulo Quênedi Souza. O suicídio tem sido tema recorrente em várias obras audiovisuais. Artistas populares já fizeram canções sobre o tema, como Cazuza em “Suicídio”, Legião Urbana em “Pais e filhos” e Metallica em “Fade to Black”. Outro exemplo é o documentário “A Ponte”, do diretor norte-americano Eric Steel. No filme, o diretor flagra pessoas que se atiram do parapeito da ponte Golden Gate, que atravessa a baía de San Francisco. Segundo Paulo Quênedi, o artista flerta com o inimaginável. “Ele aprecia a subversão da moralidade e enxerga a estética da morbidez. Na morte é possível capturar todos esses elementos”.

“É importante ser um bom ouvinte, ter empatia, e ajudar a pessoa a buscar ajuda de profissionais qualificados como psicólogos ou psiquiatras”.

A reconciliação dos Montéquios e Capuletos ao verem Romeu e Julieta mortos, 1855. Artista: Frederick Leighton.

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Seppuku, 1850-1860. Artista: Kunikazu Utagawa.

Poetas como Fernando Pessoa também enxergaram no suicídio um caminho para a arte, como é demonstrado em um trecho de seu poema: “Se te queres matar, porque não te queres matar? Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria... Ah, se ousares, ousa!” “O suicídio é uma morte incomum, se observadas as circunstâncias que o compõem. Sendo assim toda ou qualquer ideação suicida evoca uma carga de subjetividade que inspira qualquer artista”, finaliza Quênedi. Para o psicólogo Antônio Monteiro, pessoas que possuem transtornos psicológicos ou que estão em situação de vulnerabilidade devem manter distância de produções que possuem temas sensíveis, a fim de barrar possíveis tragédias e sofrimentos.


COMPORTAMENTO MACONHA

Diversão, vício & outras fumaças Enquanto milhões de pessoas fazem uso recreativo da maconha, profissionais alertam sobre impacto no corpo e na mente

Alex Akira e Harley Alves Provavelmente você conhece alguém que fuma maconha, planta incluída recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na relação de plantas medicinais. Porém, o uso, a venda e o plantio ainda não são liberados. Mas essas pessoas já explicaram porque consomem? Em rodas de amigos, festas ou simplesmente em momentos de solidão: Diversas são as oportunidades e os motivos para a droga entrar na vida dae uma pessoa. “Fico em sintonia maior com meu corpo”, “ficava extremamente triste” e “meu corpo fica lento, mas meu pensamento acelera”. Essas são algumas justificativas de pessoas que usam a erva de forma recreativa. Só que existem riscos: fatores psicológicos e neurológicos podem interferir no comportamento do usuário, que pode apresentar crises de ansiedade, depressão e psicoses, além da diminuição de conexão entre neurônios. O assunto é complexo e mais estudos precisam ser feitos. A droga é defendida por muitos usuários pelo motivo do bem-estar que sentem, como explicou o neurologista Eduardo Waihrich. “A maconha pode gerar uma sensação de prazer. Isso porque o processo de depressão no cérebro não ocorre simultaneamente, as áreas ligadas à angústia e frustração são deprimidas primeiro, e isso faz com que o usuário se sinta melhor”. A Revista Esquina ouviu cinco usuários, um ex-usuário de classe média alta, profissionais e estudantes de nível superior. Eles citaram a necessidade de se inserir em um grupo de amigos ou encontrar a sua “tribo” como um dos principais motivos para que tivessem o primeiro contato a erva. Esse é o caso de Adenor*, 28. “Por ser tímido, eu precisava encontrar um grupo de amigos, e a

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COMPORTAMENTO maconha foi o meio que encontrei, aos 16 anos”, disse ele. Já Madalena*, de 21 anos, contou que fumou pela primeira vez aos 14 anos. ”Eu olhava alguns amigos fumando e sempre se divertindo, então resolvi experimentar”. Outro motivo citado foi a curiosidade.

54%

Consumo no Brasil

Dependência Afinal, a maconha vicia? Em 2014, pesquisadores norte-americanos do National Institute on Drug Abuse constataram que aproximadamente 9% dos usuários ficam dependentes e sofrem crises de abstinência. O uso regular da droga influencia no desenvolvimento de surtos psicóticos e possibilita também a dependência física. “Está mais que comprovado que a maconha causa necrose neuronal e incidentes psicóticos. Caiu por terra a história que maconha não vicia, ela pode viciar sim”, disse o neurologista Eduardo Waihrich. Ele acrescentou que o vício varia entre os usuários. “A dependência vai acontecer de acordo com a personalidade de cada um, podendo ser física ou psíquica. Na física, o usuário sente falta de determinada substância no corpo, e na psíquica o pensamento é na droga, pelo simples motivo de se sentir bem”, completou. A psicóloga Adriana Lemgruber disse que as reações podem ser diversas e não é possível saber o que acontece com o usuário. “A maconha age como um neurotransmissor, um mensageiro químico, que vai carregar, aumentar e modular os sinais entre os neurônios e as células do corpo. As diversas reações no corpo são provocadas pelos sinais recebidos pelo cérebro”. Porém Adriana lembrou que existem apenas relatos e estudos não conclusivos citando o bem-estar do usuário. “DeFotos: Harley Alves

[ ] “Por eu ser tímido eu precisava encontrar um grupo de amigos, e a maconha foi o meio que encontrei, aos 16 anos” , diz Adenor.

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15,6% 7%

Bebidas alcoólicas

Cigarro

Maconha

Dados: Levantamento Nacional de Álcool e Drogas/Lenad

pendendo da pessoa que usar, por exemplo em caso de depressão, a droga pode potencializar a doença”, alertou. Para ela, a maconha pode tornar o usuário dependente emocionalmente, e não fisicamente, como o álcool e o tabaco. “Acho que a maconha é menos nociva que a nicotina e o álcool”, completou. Eduardo Walhirch, por sua vez, afirmou que o consumo da bebida e do tabaco acaba sendo mais grave porque são produtos legalizados e podem ser consumidos com maior frequência e intensidade. “Você percebe melhor os efeitos devastadores”, completou Adriana.


COMPORTAMENTO Manoel*, de 27 anos, acha que é preciso “desmitificar” o julgamento que muitas pessoas têm sobre a droga derivada da Cannabis sativa. “Comecei a fumar aos 17 anos, mas não fumo sempre. Acredito que quem fuma cigarro ou quem bebe álcool possui um grau de vício muito maior, por ser um uso constante”, acredita.

Recuperação “A relação com minha família estava horrível, além disso eu gastava boa parte do meu salário com a droga”, disse Michael*, que já foi internado duas vezes. A internação é feita em clínicas especializadas e que ajudam o dependente a aprender a viver sem a droga. Os pacientes passam por uma análise histórica e depois são acompanhados e tratados por médicos, psicólogos e psiquiatras. Segundo os especialistas, como toda doença de difícil de tratamento e controle, o vício em drogas também provoca uma ansiedade nos familiares, no próprio paciente e até mesmo uma certa descrença quanto à maneira em que o tratamento está sendo conduzido. “Não é legal estar em um lugar que toma todas as decisões por você. Hora de comer, o que comer e horário de dormir”, disse Michael. Mas ele reconheceu que as internações foram importantes. “Antes eu queria estar longe de todo mundo, hoje a situação já mudou. Os meus pais também mudaram o comportamento em relação a mim e entendem”. Em caso de internação, o neurologista Eduardo Waihrich aconselha o usuário a acompanhar o tratamento corretamente e ter paciência. “Procurar soluções milagrosas têm vários riscos, como efeitos colaterais que ainda não foram muito bem mapeados por estudos. O mais importante é confiar no seu médico”, disse o médico.

Maconha pode viciar, dizem especialistas ouvidos pela reportagem.

“Não é legal estar em um lugar que toma todas as decisões por você. Hora de comer, o que comer e horário de dormir” , diz Michael.

Consumo A maconha era utilizada por escravos e pelas camadas mais pobres da sociedade por ser uma droga barata e de fácil plantio. Já no final do século 19 e início do século 20, a política antidrogas igualou todos os tipos de drogas, colocando, por exemplo, a maconha no mesmo patamar que o álcool e o cigarro. Depois, ocorreram avanços para proibir todos os tipos de entorpecentes. “Como o cigarro e o álcool já eram comerciais, eles conseguiram se desvincular da imagem maléfica das demais drogas”, explicou o antropólogo Frederico Tomé. Ele ainda lembrou que o cigarro era vendido como purificador de pulmões. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito pela Universidade Federal de São Paulo, até 2012 cerca de 7% da população adulta do Brasil já havia experimentado a maconha. No mesmo levantamento, é observado que 54% já consumiram algum tipo

Preconceito O uso de maconha, em geral, é mal visto. Para o médico neurologista, Eduardo Waihrich, o Brasil tem uma carga de moralidade gigante e ainda existe muito preconceito em relação ao uso de qualquer droga ilícita.

“Sou muito discreto e não costumo expor minha vida pessoal para ninguém, mas já sofri difamação em um antigo emprego. Disseram que eu usava maconha no banheiro”, contou Michael*, de 27 anos.

Todos os entrevistados afirmaram que nenhum familiar sabe que eles são usuários. Rafael*, de 26 anos, contou já ter sido julgado por conhecidos. “As pessoas falam sem conhecer a fundo sobre o que é e o que traz de bom para nós que usamos. Elas pensam que é mais nocivo do que realmente é”, lamentou.

Já Adenor tem receio da reação dos familiares. “Eles nem sonham. E, se soubessem, com certeza me criticariam”. Madalena tem a mesma impressão. “Apesar de fumar diariamente, eles não sabem. Senão não reagiriam bem”.

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COMPORTAMENTO

“Antes, eu queria estar longe de todo mundo. Hoje a situação mudou”, diz ex-usuário internado duas vezes em clínicas particulares em Brasília.

de bebida alcoólica e 15,6% já usou tabaco. Já a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 147 milhões de pessoas fazem o uso da maconha em todo o mundo, estando atrás justamente do álcool e do tabaco, considerando as drogas legalizadas e não-legalizadas. No Brasil, o consumo da droga ainda é restrito, liberado apenas para o uso medicinal com Canabidiol (CBD).

Frederico Tomé não acredita que a maconha seja a porta de entrada para outras drogas, como muitos afirmam. “Cada entorpecente possui a sua potencialidade, sua própria característica e o seu próprio dano ao organismo. Acredito são as que as facilidades e as possibilidades de acesso a outras drogas que sejam essa porta de entrada”, explicou. * A pedido dos personagens os nomes utilizados na reportagem são fictícios para preservar suas identidades.

EFEITOS NO ORGANISMO

É normal sentir: Sensação de bem-estar, sonolência e relaxamento, risos espontâneos, perda da noção tempo e espaço, alteração da memória recente, aumento da frequência cardíaca e aumento do apetite.

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Pode causar: Alucinações e paranoias, pensamentos confusos, ansiedade e possibilidade de impotência.

Pode representar riscos como: Risco de desenvolver câncer de pulmão, maior facilidade para ter infecções e risco de isquemia cardíaca.


COMPORTAMENTO MACONHA

Canabidiol Uma luta em gotas

Margarete Brito lida com convulsões da filha Sofia desde os 45 dias de vida./ Foto: Arquivo Pessioal.

Como famílias em Brasília conseguiram alterar o panorama da proibição do Canabidiol - remédio feito a partir da maconha - para salvar seus filhos

Juliana Gonçalves Imagine você com seu filho no colo e, quando menos espera, ele começa a sofrer uma crise convulsiva -- tremer todo o corpo, perder o total controle dos sentidos, além de salivar muito. Vendo de fora, o desespero e a aflição podem ser considerados inimagináveis. Mas, essa é a realidade de muitas famílias, que por conta de doenças raras, chegam a presenciar até 60 crises convulsivas de um filho, irmão ou amigo por dia. Para tentar mudar essa realidade, já foram experimentados diversos tratamentos com vários tipos de remédios. Mas uma alternativa, em específico, segundo médicos e especialistas, consegue controlar e diminuir crises convulsivas. Essa alternativa, no entanto, vem de uma planta cheia de tabu e preconceito: a maconha. A planta que no Brasil está associada ao crime, ao tráfico e a ilegalidade, pode ser uma alternativa para o bem.

A Cannabis, não deve ser vista apenas como uma substância com efeitos psicoativos. Estudos têm mostrado a eficácia em tratamentos de diversas doenças como, epilepsia e esclerose. A luta começou em 2013 quando a família Fischer iniciou a saga para conseguir o medicamento com a substância Canabidiol, o CBD, para

a filha Anny Fischer, 9 anos, que sofria até 80 convulsões por dia provocadas por um tipo de epilepsia grave, causada pela síndrome CDKL5. A solução encontrada pela família foi no CBD. Hoje, as crises acontecem esporadicamente. Segundo o pai da Anny, Norberto Fischer, a qualidade de vida da filha só melhorou. Anny hoje tem ações que podem ser normais para você, mas que para ela já foi um grande avanço, como ter o controle do tronco e se alimentar. “A qualidade de vida da família quando se tem uma criança com convulsões, sentindo dor é sempre tensa, e quando você consegue reverter esses sintomas, não é só a vida do paciente que melhora, a família inteira melhora o clima, o humor, a relação” conta o pai de Anny. “A qualidade de vida da família quando se tem uma criança com convulsões, sentindo dor é sempre tensa, e quando você consegue reverter esses sintomas, não é só a vida do paciente que melhora, a família inteira melhora o clima, o humor, a relação” Norberto, pai da Anny Após a história ganhar repercussão nacional, tanto a parte de legislação, como o acesso ao medicamento apresentou uma melhora, mas ainda é restrita. De acordo com a Anvisa, a planta antes de 2015 era completamente proibida, e hoje as famílias que comprovem a

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COMPORTAMENTO conhecimento e medo dos especialistas em indicar. Segundo a neuropediatra, Ana Maria Low, era difícil prescrever um medicamento em que os médicos não tinha conhecimento sobre a substância e por muitas vezes pode acontecer até o preconceito. Hoje, Gabriela consegue a medicação importando de um laboratório dos Estados Unidos e faz o uso do CBD duas vezes ao dia. Mas, além do medicamento com a substância de cannabis, Gabriela ainda faz uso de mais três remédio anti-convulsivos. O gasto financeiro com medicação é alto, as despesas chegam a quase R$ 2 mil por mês. Após o grande stress que toda a família vivenciou durante um ano, hoje a família tem uma estabilidade para conseguir o medicamento e garante que a qualidade de vida da filha só melhorou. “Só fato das convulsões serem controladas permite que a família viva em harmonia”.

Associação faz campanha pelo canabidiol/Foto: Arquivo pessoal.

necessidade do medicamento podem conseguir uma autorização oficial do Estado, através do órgão, para conseguir a importação de medicamentos a base de Tetrahidrocanabinol, o THC, ou de Canabidiol, o CBD. A Anvisa já autorizou mais de 3 mil pessoas para importar o medicamento. Uma das pessoas que fazem o uso do CBD é a pequena Gabriela Weschefelder, de 9 anos, portadora da síndrome de Aicardi. A primeira crise da Gabriela aconteceu aos sete meses e ao longo do tempo a intensidade e quantidade só foram aumentando chegando a 20 crises por dia. Segundo a mãe de Gabriela, Leila Weschefelder, 44 anos, a filha tomava quatro medicações anti convulsivas e não apresentava efeito algum. Para o desespero dos pais, a mãe relata que as crises continuavam e o quadro clínico da menina foi se agravando. De tanta medicação a menina quase não acordava, passava dia e noite dormindo, não tinha domínio de nada, parecia uma boneca deitada na cama. “A cada crise convulsiva era como se minha filha tivesse tomado um choque muito forte e depois não tinha reação alguma. Ela ficava acabada” conta Leila.

A pequena Sabrina Filgueira, de 10 anos. Já faz uso medicinal da cannabis sativa há dois anos. Sabrina tem a síndrome de Paquigiria bi frontal, que causa a Epilepsia e dificuldade na coordenação motora. A primeira crise da menina foi aos 4 anos, e em 2011 tinha cerca de 30 crises diariamente, que duravam até 10 minutos. Em 2014 os pais da Sabrina tiveram notícia do Cannabidiol e começaram a importar o medicamento, mas um dos maiores desafios encontrado pela família é o custo. O pai da Sabrina, Fábio Filgueira, 37 anos, conta que é duro conseguir o dinheiro para conseguir o medicamento, sendo que, uma seringa do canabidiol por mês sai em média de $1.300 reais para a família. Quando foi relatado

“A cada crise convulsiva era como se minha filha tivesse tomado um choque muito forte e depois não tinha reação alguma. Ela ficava acabada” conta Leila. A família obteve o conhecimento sobre o CBD em 2014, ao assistir uma reportagem que estava passando sobre o assunto e começou a busca para conseguir o medicamento. A primeira seringa com o remédio a família conseguiu ilegalmente. Os desafios foram constantes para conseguir as outras doses de medicação para a filha. Vários problemas para que os médicos indicasse o medicamento era grande, porque era por falta de

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O QUE É CBD?

Fonte: ABRACE Associação Brasileira de apoio a cannabis esperança..

CBD, outro canabinóide abundante encontrado dentro da cannabis, mas ao contrário de THC, não é psicoativa. Diversos estudos mostram que o cannabidiol não altera a atividade mental. Ao contrário, reduz os efeitos psicológicos da cannabis. Para a maioria dos pacientes, altos índices de THC e CBD irão gerar menos efeitos mentais e mais efeitos físicos. Altos índices de cannabidiol são especialmente indicados para doenças com sintomas físicos.


COMPORTAMENTO que após o início do uso da cannabis as crises de Sabrina foram diminuindo gradativamente, para conseguir o medicamento sem deixar o orçamento apertado, os pais da menina apresentaram para um juiz a melhora e em 2015 o juiz deu a liminar para que o Governo do Distrito federal, o GDF, fornecesse o medicamento para a família. Em dois anos o governo comprou apenas seis meses. Como foi oferecido apenas seis meses do medicamento hoje a família une forças para comprar o medicamento. “Agora fazemos amigos pra conseguir comprar o medicamento para os próximos dois meses. Porque não é somente o canabidiol que a Sabrina toma, então, os custos com outros medicamentos são muito altos” relata o Fábio. Sabrina já está há um ano sem convulsões. Como forma de viabilar o acesso ao medicamento, a família pensa em começar a plantar maconha em casa, conseguindo as sementes adequadas no Canadá. Para isso, eles estão procurando decisão judicial para não serem presos por plantar a maconha. “É um absurdo, porque pra minha filha não ter uma crise convulsiva é só ter o medicamento a base de maconha.” finaliza Fábio. “Agora fazemos amigos pra conseguir comprar o medicamento para os próximos dois meses. Porque não é somente o canabidiol que a Sabrina toma, então, os custos com outros medicamentos são muito altos” relata o Fábio.

ELE FUMA PRA ALIVIAR A DOR Victor Henrique, de 26 anos fuma maconha para aliviar sua intensas dores de cabeça. Há quase dois anos ele teve um acidente de carro e depois disso vive com a dor. Os médicos não conseguiram diagnosticar o que ele tem e os remédios convencionais não funcionam. As dores de Victor era tão intensas, que as visitas ao hospital eram rotineiras, pelo menos 3 vezes na semana. “Todos os dias eu tava indo tomar morfina no hospital.” conta Victor. A morfina, como era muito forte estava agredindo o corpo. Procurando soluções, ele teve informações sobre o canabidiol, mas com o alto preço ele optou por fumar a maconha. Ele gasta em média de R$150 reais

Família da Margarete planta maconha em casa. Foto: Arquivo pessoal.

por mês, e suas dores são bem mais controladas. Sobre o preconceito, Victor Henrique relata: “Infelizmente, o preconceito negativo está instalado na sociedade porque as pessoas preferem julgar de forma negativa, sem ao menos procurar o lado benéfico da planta. O problema, é que esse preconceito e mentalidade só afastam cada vez mais a possibilidade de legalizar a maconha e tratar pessoas que dependem desse medicamento para ter uma vida tolerável”.

ESPERANÇA “Quando começamos essa luta teve mães ligando lá em casa oferecendo fazer faxina para que a gente desse um seringa do medicamento para o filho porque elas não tinham condição financeira nenhuma para comprar”. Relata Norberto Fischer. E Leila admite que embora o acesso ao medicamento tenha melhorado muito, ela se vê preocupada com o acesso para as outras famílias, porque afinal, ter quase dois mil reais para conseguir a medicação, é infelizmente, um acesso limitado. “Tem mês que passamos apertados financeiramente, mas temos de onde tirar o dinheiro para comprar o remédio da Gabi. Mas e uma família que ganha um salário mínimo, de onde vai tirar quase mil reais para conseguir um único medicamento?”

As famílias brasilienses Fischer (esquerda) e Weshfelder dizem que persistem na luta por garantir o direito ao canabidiol. /Fotos: Arquivo pessoal.

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COMPORTAMENTO Como visto nos relatos dos pais, a luta agora é disponibilizar isso para todas as classes. E a esperança para tornar isso mais acessível está com um projeto em andamento que aconteceu com o pedido da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal, a Apepi, e da Associação Brasileira para a Cannabis, a Abracannabis. A coordenadora geral da Apepi e mãe da Sofia, de 8 anos, Margarete Brito contou em entrevista que o que eles almejam mudar é que o projeto vai realizar dosagem tanto dos óleos artesanais quanto dos importados. Os importados, segundo Margarete, são para que as familias saibam se as informações que vem nos rótulos realmente corresponde ao zero THC. “A gente já teve casos de pacientes que provaram o óleo que dizia ter pouquíssimo THC e a pessoa ficou com efeito alucinógeno” explica Margarete. E em relação aos extratos artesanais é muito mais importante, porque ai que os pacientes não sabem o que estão tomando em quantidade de canabinoides.

“A canabis deve ser tratada como um acréscimo ao tratamento”. De acordo com o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz (Farmanguinhos), o laboratório farmacêutico vinculado ao Ministério da Saúde, em um período de cinco a dez anos, os pacientes com epilepsia, que já tentaram outros medicamentos e não houve efeito, poderão ter acesso ao fitomedicamento à base de maconha por meio do Sistema Único de Saúde, o SUS. As entidades apontaram que a importação do extrato de CBD, autorizada desde 2015 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não garante o acesso ao tratamento. Além da burocracia envolvida no processo, a importação tem um custo, que varia de R$1 mil a R$ 8 mil, em média, o que permite somente que família acima de classe média alta a ter acesso ao medicamento. O diretor-executivo do Farmaguinhos, Hayne Felipe da Silva, que está a frente do projeto conta sobre a motivação. “O que nos motivou foi exatamente o caso de mães e pais que estão observando uma melhora no quadro clínico das crianças a partir de medicamentos importados ou extratos artesanais”. Margarete Brito então conclui: “A principal finalidade do projeto é informar os pacientes o que exatamente estão tomando, se está funcionando ou não. Isso vai ser um passo muito importante em questão de dados”.

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REMÉDIO EM CASA “A principal finalidade do projeto é informar os pacientes o que exatamente estão tomando, se está funcionando ou não. Isso vai ser um passo muito importante em questão de dados”. A Sofia, de 8 anos, têm convulsões desde que completou 45 dias de vida. Todo tipo de tratamento foi feito sem ter o sucesso. A mãe da Sofia, Margarete Brito, hoje, tem a plantação em casa, realizando assim o óleo artesanal a base da cannabis que diminuiu em até 60% das crises. Além do óleo artesanal, Margarete, também importa a pasta do Estados Unidos para dar à filha.

NÃO É A CURA Segundo a neuropediatra, Ana Maria Low, o canabidiol é uma droga eficiente mas deve-se deixar muito bem esclarecido que o Canabidiol não cura. A eficiência da substância é aliviar o sofrimento decorrente das doenças. O canabidiol e o THC não alteram a química do corpo. A função do CBD é harmonizar o funcionamento cerebral, que quando está em crise epiléptica a atividade cerebral fica alterada. Ou seja, não que é que curou o problema do paciente, apenas controlou. “A canabis deve ser tratada como um acréscimo ao tratamento”. Outro ponto que deve ser destacado é quantidade do remédio a ser ministrada. A mãe da Gabriela, a Leila, no começo não sabia a dose exata para dar à filha. Pois por falta de estudo, na prática, ainda há muito o que conhecer. Os próprios efeitos da maconha ainda são pouco conhecidos por especialistas. O tema estar presente em debates, meio científicos e grupos de estudos são de extrema importância para o controle de quais são os benefícios e quais são os riscos, qual dose deve ser ministrada para cada tipo de paciente, dependendo do tipo de problema apresentada por cada um. Porque até o momento com exceção de pouquíssimas doenças, como a epilepsia, não há ensaios clínicos com provas efetivas de que a cannabis funciona para muitas doenças. “Por enquanto, a forma como está sendo ministrada as doses é bem empírica”

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Revista Esquina - 1ed. jun. 2017  

Arquivo em PDF da revista da disciplina Jornal Laboratório do Centro Universitário de Brasília. Editor responsável Prof. Me. Luiz Cláudio...

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