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DIÁRIO

UMA VIDA EM

Ele vive em uma das cidades mais encantadoras do estado. Mas a paisagem dos morros fica só na memória - dos belos jardins, ele só sente o perfume. Para ele, essa é apenas uma forma diferente de perceber o mundo REPORTAGEM s

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Ana Cláudia Schuh


MEMÓRIA

DIÁRIO s MARCO DIEDER

QUATRO

SENTIDOS

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A serração baixa e a chuva fina denunciam o final do inverno na pequena Nova Petrópolis. A cidade, colonizada por alemães e posicionada no topo do morro, também é conhecida como Jardim da Serra Gaúcha, por seus conhecidos jardins floridos o ano inteiro. Mais distante do Centro, quase à beira de um morro, um galo, empoleirado na cerca em frente à pequena casa, nos recebe cantando. Da porta da casa sai um rapaz loiro e de olhos muito azuis. Grande, do tipo que seguiu os conselhos da mãe de comer bastante para ficar forte. Com passos seguros, caminha agilmente até o portão pelo trilho do carro. Enquanto nos conduz de volta à casa, justifica uma ou duas cambaleadas: “Meu irmão capinou a grama, então eu fico um pouco perdido”. De dentro da casa sai uma galinha. André – esse é o nome do rapaz – apressa-se em contar que aquela é a Baunilha, e que ele a ensinara a pôr ovos dentro de casa. Por isso, sempre que alguém abre a porta, a galinha cor de caramelo entra correndo. Mas o rapaz tem uma peculiaridade. Com seus 19 anos, André Boone não pode ver Baunilha, nem os belos jardins da cidade, nem a vista do morro que fica a poucos metros de sua casa. Há cinco anos uma doença foi tirando gradativamente sua visão, mas não a sua independência. Prova disso é o diário abaixo, que ele preferiu digitar no computador em vez de usar um gravador.

20 de setembro - Feriado estadual. Dia de aproveitar para descansar e estudar um pouco. Acordei bem cedo, como de costume, arrumei todas minhas coisas e me sentei no computador para ajeitar algumas músicas para botar no MP4 e poder escutar indo para Caxias. Tomei meu café, já que saco vazio não para de pé. Aproveitei para escutar um pouco de notícias. São muito ruins as notícias da Record, só tem desgraça. O telefone toca e minha mãe atende. É a Hedi – seu marido está internado em Caxias e ela quer que a gente almoce em sua casa. Eu não queria ir, pois não gosto de ficar muito tempo sem fazer nada, mas para satisfazer minha mãe, aceitei o convite. No caminho passei na casa do Eliz. É um vadio. Quase meio dia e ainda estava dormindo.

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Segui meu caminho, ainda queria entregar ovos antes de ir almoçar. A coisa está grave. O Wenno está na UTI, em Caxias. Sei como é ruim aquele lugar e fico preocupado com ele, que é um grande amigo da família. 21 de setembro - Sem feriado. Acordei cedo para tomar café. Minha mãe tinha que ir no médico, coisas de hipertensão. Tenho que tomar café com ela, pois ela pensa que eu não me alimento longe dela. Não é verdade. Sei me cuidar. Preocupação de mãe. Sabendo que era muito cedo fui tirar um cochilo depois do café, não muito demorado, pois sei que tenho que estudar para o ENEM, daqui a 30 dias. Dizem que querer é poder e eu quero conquistar um bolsa de estudos, pois não tenho como pagar uma faculdade. Tenho que ajeitar minha mochila para ir para a APADEV (Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Visuais) de tarde e para escola de noite. É muita tralha e nem sei se vai continuar friozinho. Preparo meu almoço, entre panelas espio a televisão. Almoço cedo, tenho que sair de casa 11h45 para pegar o ônibus para Caxias. Vou em direção à pracinha do bairro encontrar minha mãe para ir para Caxias. Hoje está um dia lindo, o sol está muito agradável. Ir para a APADEV é muito legal. Lá tem todos aqueles que sabem o que não enxergam. Fui para a aula de arteterapia. É muito tri. Todos que tem a mesma idade trabalham em grupo. Claro que tem pessoas que são um pouco mais desagradáveis. Um exemplo bem claro é a Vanessa, de Vacaria. Tudo na vida ela reclama, e eu não gosto muito disso. Depois fui para a aula de informática, uma das mais legais. O professor é bem doidão e aproveitamos para brincar na Internet. Hoje a aula começou a ser em duplas. O outro vivente é o Rodrigo que veio lá de Livramento – de cada 10 palavras, 11 é Tchê. Rimos muito e o professor ensinou como se faz para baixar músicas. Depois da aula de informática é a hora do lanche, era dia de pão com manteiga e outras coisas, mas prefiro o mais simples. Depois


DIÁRIO s ALEXANDRA EBERLI

MEMÓRIA

do lanche tinha um refri esperando por nós. Uma semana sim, outra não. Tomamos ligeirinho para não ganhar mais um sermão da psicóloga. Dias atrás, quando chegamos atrasados no grupo, ela queria deixar nós de fora. Não chegamos atrasados e evitamos o sermão. Começou o grupo e cada um teve de contar sua semana, falamos muito, muito mesmo, quem me conhece sabe que eu gosto de conversar. Depois falamos sobre as drogas, assunto importante de discutir com jovens e sem falar que é um assunto atual. Acabou a aula, e fui embora de carona com uma colega. Prefiro ir de ônibus, ali me sinto com toda a liberdade, pois 11h da noite não tem ninguém na rua. Cheguei logo em casa. Por não gostar muito de futebol, não tem nada na televisão nas quartas. Escovei os dentes e fui dormir. Amanhã é outro dia. 22 de setembro - Acordei cedo para tomar café com minha mãe. Depois fui jogar no computador. Como quase tudo enjoa, fui escutar televisão. Mais tarde, fiz o almoço. Hoje é quinta e o Marcelo vai almoçar comigo. Como de costume, escutamos rádio na hora do almoço. Depois, o Marcelo foi trabalhar e eu saí em direção à fábrica, onde minha mãe trabalha. Hoje é dia de ir ao psicólogo, lá no Centro. Logo sou atendido, pois tenho hora marcada. Hoje é último dia do meu psicólogo. Eu estou acostumado com ele. Vai ser difícil quando ele for embora. Hoje, em vez de ter aula, iremos para Gramado fazer uma redação, que além de ser um concurso é ainda uma forma de ingressar na universidade. Minha mãe me comprou um lanche para não ter que comprar no passeio, lá é muito caro. Fomos com o micro da prefeitura e ainda tivemos que ir pegar alguns alunos de outra escola. Mesmo sendo tudo de graça, teve gente, muita gente, que não foi pelo simples motivo de ser preguiçoso. Sei que eles trabalham, mas é na mesma hora da escola e não tira pedaço de ninguém.

Nas aulas de arteterapia André aprendeu técnicas de artesanato e hoje tem careteira de artesão Em Gramado, uma mulher escrevia o que eu dizia, o que para mim é muito válido, pois vou treinando para o ENEM, que será da mesma forma. Voltamos para casa bem mais cedo do que a hora da escola. 24 de setembro - Sábado. Dia de descansar e pôr as pendências em dia. Levantei um pouco mais tarde, tomei meu café, e me sentei em meu computador para fazer alguns trabalhos da escola. A cada duas semanas vem um verdureiro de Santa Maria do Herval. Minha mãe faz negócios com ele há 20 anos. O Marcelo foi junto, sabíamos que a mãe iria comprar chocolate. Aproveitei para terminar minhas coisas e, quando concluí, escutei um pouco de televisão, tinha o Todo Mundo Odeia o Cris. É repetido, mas ainda é muito legal. A Andréia já veio, então vamos almoçar. Para começar bem a tarde, eu e o Marcelo cantamos algumas paródias para a mãe,

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é muita bobagem. Fui escutar televisão, tinha uma reprise de A Liga, quando eles tiveram que passar pela experiência de ser deficiente por um dia. É bom saber que tem pessoas que fazem isto para tentar aumentar a conscientização das pessoas que se divertem com nossa deficiência e não pedem se queremos ajuda. Logo a Yeda chamou. Ela trouxe um presente, por duas galinhas que eu presenteei às suas netas. Para mim foi legal dar as galinhas, pois os gatos da vizinha estavam matando uma por uma. Isso é muito triste, não estou criando galinhas para os gatos, mas sim para minha diversão. A Yeda pediu se eu teria um galo. Claro que tenho. O galo escolhido já escapou da morte várias vezes.

s MARCELO WERKHAUSEN

25 de setembro – Domingo. Acordei tarde pra caramba. Fui logo tomar café. Depois aproveitei para tomar meus remédios e, é

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claro, me sentei no computador para jogar. Tenho um joguinho adaptado e isto é muito legal, pois, com isso, posso levar a vida como a maior parte dos jovens, jogando. É legal saber que existem pessoas que trabalhem a favor de nós para podermos mexer no computador. Sem isso seria impossível estudar, pois não sei muito de Braile. As formas de inclusão vêm fazendo com que tenhamos voz ativa e ainda podemos ser um pouco mais independentes. Por alguns minutos larguei meu computador para falar com meu cunhado e minha irmã que estão indo almoçar na casa dele. Ele mora no Centro, é um pouco longe, mas estamos acostumados com isso, caminhar é bom para a saúde e ainda deixa mais musculoso, o problema é que vão comer churrasco, então todas as calorias que perderem na caminhada vão recuperar no almoço.


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MEMÓRIA

26 de setembro - Segunda-feira. Hoje levantei bem cedo para ir para Caxias. Todas as segundas faço isso há dois anos. Me arrumei e esperei o Marcelo, para ir para o Centro pegar a van. Quando cheguei na APADEV, o pai do Dudu já me chamou. Sempre tem alguém que nos vê, então, não me preocupo. Logo a secretária chegou e entramos. O Marcelo, de Gramado, me pediu o que eu fazia lá em Gramado quinta à noite. Não posso nem passear e todos já sabem. E ainda por cima, saiu uma reportagem minha no Jornal Pioneiro. Ficaram zoando da minha cara, sabem que eu não fico brabo e podem brincar comigo bastante. Depois das brincadeiras fomos para a aula, lá falamos de tudo e ainda aproveitamos para fazer arte, no bom sentido. 27 de setembro - Terça-feira. Levantei cedo para tomar café. Dormi um pouco mais, preparei o meu almoço, tomei banho, escovei os dentes e me mandei ao encontro de minha mãe que já estava na pracinha do bairro. Fomos para o Centro na fisioterapia. Do bairro para o Centro vamos de ônibus e após andamos mais um pedaço a pé. Lá na fisioterapia fiz todos os exercícios que a Patrícia pediu. Depois do atendimento fui para a secretaria de saúde marcar os meus horários para ir para Porto Alegre. Feito isso, fui para a Cooperativa Piá pagar a ração das galinhas e comprar alguma coisa para beber. O dia hoje estava quente e então

dá muita sede. Fui em direção à rodoviária, pegar o ônibus para casa. Em casa, fui direto para o computador e depois de brincar um pouco arrumei minha mochila para a escola. Como hoje a Andréia tem aula de alemão, ela foi junto. 29 de setembro - Quinta-feira. Acordei cedo, hoje não posso tomar café, pois vou fazer exame de sangue. Minha mãe foi para o trabalho e eu fui tomar um banho, escovar os dentes e fomos para o Centro fazer os exames. O Marcelo me levou. Depois, voltamos para casa para eu tomar café. Estava com muita fome. Já fui preparando o almoço. Hoje a Andréia vem almoçar comigo, então, o almoço é mais cedo. Depois de almoçar fui brincar um pouco no computador na espera do Marcelo que vai almoçar sozinho. Hoje não tenho psicólogo, nem aula, pois tem interséries. Vou com a Andréia para Novo Hamburgo. Ela tem prova e nós vamos junto fazer compras. Na fábrica pegamos o ônibus em direção ao Centro, fizemos um lanche, esperamos a Andréia e o Marcelo e entramos no carro. Ainda no caminho pegamos a Nina, sogra da Andréia que queria ir junto, lotação máxima. Em Novo Hamburgo o Marcelo largou a Andréia na escola e nós fomos para o mercado. Tinha muitas coisas baratas, mas também era muito bagunçado. Fizemos as compras e a An-

No primeiro encontro que tive com André planejava voltar em um mês, então não fiz fotos. Mas não voltei. O texto enviado por ele era ótimo, mas eu não tinha fotografias para ilustrar. Troquei muitos e-mails com sua irmã para conseguir as imagens, além de ter que ir atrás da assessoria de imprensa de Nova Petrópolis para conseguir fotografias da cidade. Mas o pior de tudo, foi ter que cortar o texto dele. Como saber o que era e o que não era importante para ele? Como deixar de fora os jargões? Mas as páginas são limitadas e o texto também. Acho que consegui mostrar a essência deste rapaz conversador e de bem com a vida. Mas, se gostar, dê uma olhada no blog da revista. O diário completo está lá.

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dréia telefonou para pegarmos ela na escola. A viagem de volta estava legal até que um policial, já em Nova Petrópolis, parou o Marcelo às 11 da noite e estragou tudo. Procurou, procurou e encontrou algo para dar uma multa. E o pior que ele é um baita de um grosso que só sabe gritar. Um bom tempo parado até que pudemos seguir viagem. Chegamos em casa, arrumamos tudo, comemos algo e fomos dormir, melhor coisa. O passeio foi legal, mas o policial não precisava incomodar.

s ANA CLÁUDIA SCHUH

30 de setembro - Sexta-feira. Levantei bem cedo para ir pra Caxias. Depois de tomar meu café, tomar banho, escovar os dentes, o Marcelo me levou para o Centro para pegar a van. Na van tentei ligar minha música, mas o aparelho não funcionou, sei lá o que aconteceu. A viagem foi chata, pois não tinha o que escutar e as pessoas do meu lado não falavam nada. Depois que cheguei estava em um lugar realmente legal, conversamos muito lá na APADEV. Guardei minha mochila e fomos para um fórum da inclusão do deficiente na UCS. Mas o que seria para incluir, só serviu para demonstrar que o poder público só quer saber de economia e não quer realmente incluir. Falei isto para a assistente social. Ela disse que não tinha levado para esse lado, porém como eu estou convivendo com as dificuldades sei que é assim. Querem extinguir as instituições, como a APADEV, na tentativa de incluir o deficiente na sociedade considerada normal. Porém não estão sendo avaliadas as atividades paralelas oferecidas pelas instituições, que fazem a inclusão na vida do deficiente e, ainda, fazem com que ele tenha conhecimento de histórias de outras pessoas que enfrentam o mesmo desafio. Certamente, assim, com a união daqueles que realmente sofrem pode mudar a situação enfrentada. 01 de outubro - Sábado. Acordei muito tarde, recuperando assim todas minhas energias. Logo que levantei fui tomar café (já quase um almoço), depois ralei algumas batatas para minha mãe, já que ela queria fazer bolinhos. Terminada minha função, fui escutar televisão no quarto, mas logo me chamaram

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para almoçar, nem tinha digerido o café e já almocei. Comi pouco, estava sem fome. À tarde fui arrumar meu guarda-roupa. Tinha algumas roupas para guardar e outras para pôr para lavar. Enquanto arrumava veio visita. Eram a Sônia e o Romeo, amigos. Filha e genro da vizinha Dona Neuza. Trouxeram um presente pelo meu aniversário. Eu só tinha mandado um vasinho de flor pelo aniversário dela, que é no mesmo dia que o meu. Eles são muito legais, graças a ela, tive coragem para enfrentar a volta à escola, aquela vez que estava paralisado e tinha medo devido a uma briga com o pessoal da escola. Depois de conversar um pouco eles foram para casa. Fazia tempo que não falava com eles, cerca de um ano. 03 de outubro - Segunda-feira. Dia de ir para Caxias. Hoje a van atrasou um pouco, mas nada de grave, tinha bastante tempo sobrando. Na van fui escutando música para ter uma viagem mais tranquila. Cheguei na APADEV e fui para a aula, cheguei na hora. Primeira atividade foi arteterapia. Depois do lanche fui direto para a aula de braile. Chata. É muito silencio e ainda é um pouco difícil. Almocei ligeiro e fomos pegar o ônibus para ir para a UCS. Hoje começa o Léo. Como ele é baixa visão, temos mais um guia. Já estava ficando meio difícil, eram três para um guia. Chegamos na UCS bem cedo. Então, tínhamos tempo para sentar na escada contar piadas e ainda zoar um pouco. Depois fomos direto para a piscina. Adoro aula de natação, é uma aula divertida e ainda se esforça muito e nem sente. Depois lanche e academia. Não gosto muito de comer, pois passo mal. Primeiro comer, depois fazer exercícios. Na hora de ir para casa fui com a guia até a parada de ônibus. Ali tive que esperar um bom tempo até a van chegar e ainda tive que esperar muito até chegar a hora de ir para casa. Cheguei atrasado em Nova. Até lanchar cheguei tarde na escola, mas se eu soubesse que tinha prova de recuperação...

Uma vida em quatro sentidos  

Reportagem-diário de André Boone, o rapaz de 19 anos, morador de Nova Petrópolis e cego. Versão diagramada para a Revista Exceção.