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Vitorino Nemésio

(1901 – 1978)


Nasce a 1901,filho de Vitorino Gomes da Silva e Maria da Glória Mendes Pinheiro, na infância a vida não lhe correu bem em termos de sucesso escolar, uma vez que foi expulso do Liceu de Angra, e reprovou o 5.º ano, fato que o levou a sentir-se incompreendido pelos professores. A 13 de Agosto o jornal O Telégrafo dava notícia de que Nemésio, apesar de ser um fedelho, um ano antes de chegar à Horta, havia enviado um exemplar de Canto Matinal, o seu primeiro livro de poesia (publicado em 1916), ao director de O Telégrafo, Manuel Emídio. Em 1918, ao final da Primeira Guerra Mundial, a Horta possuía um intenso comércio marítimo e uma impressionante animação nocturna, uma vez que se constituía em porto de escala obrigatória, local de reabastecimento de frotas e de repouso da marinhagem.

Esse

ambiente

cosmopolita

contribuiu,

decisivamente, para que ele viesse, mais tarde a escrever uma obra mítica que dá pelo nome de Mau Tempo no Canal, trabalhada desde 1939 e publicada em 1944, cuja acção decorre nas ilhas Faial, Pico, São Jorge e Terceira, sendo que o núcleo da intriga se desenvolve na Horta. Em 1919 iniciou o serviço militar, como voluntário na arma de Infantaria, o que lhe proporcionou a primeira viagem para fora


do arquipélago. Concluiu o liceu em Coimbra (1921) e inscreve-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Três anos mais tarde, Nemésio trocou esse curso pelo de Ciências Histórico Filosóficas, da Faculdade de Letras de Coimbra, e, em 1925, matriculou-se no curso de Filologia Românica. Em 1930 transferiu-se para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde, no ano seguinte, concluiu o curso de Filologia Românica, com elevadas classificações, começando desde logo a leccionar literatura italiana. A partir de 1931 deu inicio à carreira académica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leccionou Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Em 1934 doutorou-se em Letras pela Universidade de Lisboa com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Entre 1937 e 1939 leccionou na Universidade Livre de Bruxelas, tendo regressado, neste último ano, ao ensino na Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1958 leccionou no Brasil. A 12 de Setembro de 1971, atingido pelo limite legal de idade para exercício de funções públicas, profere a sua última lição na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinara durante quase quatro décadas.


Foi autor e apresentador do programa televisivo Se bem me lembro, que muito contribuiu para popularizar a sua figura e dirigiu ainda o jornal O Dia entre 11 de Dezembro de 1975 a 25 de Outubro de 1976. Foi um dos grandes escritores portugueses do século XX, tendo recebido em 1965, o Prémio Nacional da Literatura e, em 1974, o Prémio Montaigne. Nemésio foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo a ainda historiador Faleceu a 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa, no Hospital da CUF, e foi sepultado em Coimbra.

Outro Testamento Quando eu morrer deitem-me nu à cova Como uma libra ou uma raiz, Dêem a minha roupa a uma mulher nova Para o amante que a não quis. Façam coisas bonitas por minha alma: Espalhem moedas, rosas, figos. Dando-me terra dura e calma, Cortem as unhas aos meus amigos. Quando eu morrer mandem embora os lírios: Vou nu, não quero que me vejam Assim puro e conciso entre círios vergados. As rosas sim; estão acostumadas A bem cair no que desejam: Sejam as rosas toleradas. Mas não me levem os cravos ásperos e quentes Que minha Mulher me trouxe: Ficam para o seu cabelo de viúva, Ali, em vez da minha mão; Ali, naquela cara doce...


Ficam para irritar a turba E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação. Quando eu morrer e for chegando ao cemitério, Acima da rampa, Mandem um coveiro sério Verificar, campa por campa (Mas é batendo devagarinho Só três pancadas em cada tampa, E um só coveiro seguro chega), Se os mortos têm licor de ausência (Como nas pipas de uma adega Se bate o tampo, a ver o vinho): Se os mortos têm licor de ausência Para bebermos de cova a cova, Naturalmente, como quem prova Da lavra da própria paciência. Quando eu morrer. . . Eu morro lá! Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras, Pois quando me comovo até o osso é sonoro. Minha casa de sons com o morador na lua, Esqueleto que deixo em linhas trabalhado: Minha morte civil será uma cena de rua; Palavras, terras onde moro, Nunca vos deixarei. Mas quando eu morrer, só por geometria, Largando a vertical, ferida do ar, Façam, à portuguesa, uma alegria para todos; Distraiam as mulheres, que poderiam chorar; Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos, E levem-me - só horizonte - para o mar


Semântica Electrónica Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado Ordinalmente Ordenadamente Ordeiramente. Mas o desordeiro Quebrou o ordenador E eu já não dou ordens coordenadas Seja a quem for. Então resolvo tomar ordens Menores, maiores,


E sou ordenado, Enfim --- o ordenado Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado. --- Mas --- diz-me a ordenança --Você não pode ordenhar uma máquina: Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca. De mais a mais, você agora é padre, E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha Velhaca, mesmo uma ovelha velha, Quanto mais uma vaca! Pois uma máquina é vicária (você é vigário?): Vaca (em vacância) à vaca. São ordens... Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado, Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa (Para acabar a conversa Como aprendi na Infantaria), Ordenhado chorei meu triste fado. Mas tristeza ordenhada é nata de alegria: E chorei leite condensado, Leite em pó, leite céptico asséptico, Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!


Este trabalho foi elaborado por : •

Ana Ascenso nº 3

André Lopes nº5

Mariana Domingues nº 17

Turma :10ºA Escola Secundária da Batalha Disciplina de Língua Portuguesa Professora Rosário Cunha Ano lectivo 2009\2010 20 de Março de 2010

Vitorino Nemésio  

Breve Biografia e Obra

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